Rede Solidaria Positiva: Portadores do vírus do hiv em Fortaleza a luta contra o estigma e em favor da vida 2000 aos dias atuais



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Rede Solidaria Positiva: Portadores do vírus do HIV em Fortaleza - a luta contra o estigma e em favor da vida 2000 aos dias atuais.
Bruna Aparecida Barros1.


Resumo
O presente artigo tem por objetivo a analise de depoimentos, colhidos em reuniões dos portadores de HIV, que compõe o grupo Rede Solidária Positiva - RSP, na cidade de Fortaleza, a partir da metodologia da historia oral. O grupo se reúne uma vez por mês para discutir diversos assuntos, principalmente, a reinserção na sociedade e como combater o estigma e o preconceito dos quais são vítimas.

Palavras chave: HIV/AIDS. Grupo. Estigma. Sociedade.

Abstract

The present article aims to analyze the testimonies collected at meetings of HIV carriers, who make up the group Rede Solidária Positiva - RSP, in the city of Fortaleza, using the methodology of oral history. The group meets once a month to discuss several issues including the reintegration in society and how to combat stigma and prejudice of which they are victims.


Keywords: HIV / AIDS. Group. Stigma. Society.

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – AIDS é uma doença relativamente nova. Inicialmente, foi identificada por atingir um público especifico – homossexuais, hemofílicos e usuários de drogas intravenenosas – que em pouco tempo, foi caracterizado como grupos de risco.

O vírus do HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), agente responsável por causar a AIDS, foi descoberto em 1984, alguns anos depois da divulgação oficial da doença. Um vírus com uma identidade complexa que desafiou a medicina e cientistas da época e dos dias atuais. Por mais que conheçam como funciona sua evolução, sua proliferação e seus modos de contágio, ainda não se encontrou a cura. Ele ataca as células que são responsáveis pelo comando e organização do sistema imunológico do ser humano, a célula chamada de T4 ou CD4.

Quando o HIV entra em uma célula e passa a manipula-la e faz com que ela deixe de realizar suas funções e produzir o material genético normal. A célula passa a obedecer ao comando do vírus e realizar as funções imposta por ele, substituindo o material genético normal, pelo virótico e por consequência aumenta a infecção no organismo. Quando esta célula não imprime este material significa que o vírus esta em sua forma latente e faz com que os antirretrovirais, não alcancem com eficácia todos os vírus que existem no organismo, obstando o tratamento. Além desse agravante sabemos que o vírus do HIV tem uma facilidade de sofrer mutações, dificultando a descoberta da cura.

As formas de contração são através do comportamento de risco transmite-se: por meio dos fluidos expelidos durante as relações sexuais, independente das performances, pelo sangue: transfusão sanguínea, compartilhamentos de agulhas, também da mãe para o bebê na gestação, na hora do parto, ou ainda com a amamentação com leite materno contaminado.

Os sintomas de uma pessoa que é infectada pelo HIV, de imediato são semelhantes a uma gripe2, depois de passar duas semanas os sintomas desaparecem e durante este período a infecção esta em andamento de uma forma rápida e pontual no sangue e nos fluidos corporais que se encontram repletos de vírus, embora nem todas as pessoas que são infectadas desenvolvam estes sintomas ou sintam a mesma coisa; algumas não sentem absolutamente nada.

O sistema imunológico entra em ação e deixa a doença de forma assintomática, mas dentro do organismo esta ocorrendo uma guerra, onde as consequências dessa luta, só apareceram depois de anos, agora com os sintomas da doença, no caso o desenvolvimento da AIDS3. Além de todos os sintomas da AIDS, o enfermo sofre com as doenças oportunistas, que antes o sistema imunológico não tinha dificuldade em combater, agora, praticamente inativo não possui força suficiente para combater tais enfermidades, levando muitos indivíduos ao óbito. A explicação da ciência referente ao vírus do HIV ser tão agressivo comparado com os outros vírus é por ele ser um agente novo e por não ter um tempo de convivência com o organismo humano, que não sabe como se defender de uma forma mais eficaz e acaba por ser prejudicado.

A primeira droga de combate a AIDS foi o AZT (zidovudine), aplicado pela primeira vez em 1986, a parti dele surgiram outros medicamentos. Hoje se utiliza coquetéis de drogas, que inibem a ação das proteases4, e para que não seja criada uma resistência é sempre lembrado ao portador que já desenvolveu a AIDS e faz uso desses medicamentos, que não se deve parar o tratamento, mesmo quando os sintomas desaparecem e sua carga viral torna-se indetectável, pois o vírus pode continuar em alguns lugares do organismo em sua forma latente, voltando cedo ou tarde a atacar novamente.

Os efeitos colaterais dos coquiteis antirretrovirais podem ser hostis ou não, muitas vezes os próprios usuários podem criar um bloqueio psicológico referente ao remédio. É necessário observar a rotina de cada paciente e seus hábitos antes de começar o tratamento, para que se possa escolher o coquetel correto.

As notícias sobre pessoas portadoras da Síndrome de Deficiência Imunológica Adquirida – AIDS, causado pelo vírus HIV apareceram no Ceará em 1985, especificamente, na capital Fortaleza, enquanto em outros estados do Brasil a síndrome já se fazia presente, causando preconceito e estigmatização desde 1983, entrando em cena inicialmente na região sudeste do país nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

No inicio, a AIDS era caracterizada no Brasil e em outros países do mundo, como por exemplo, nos Estados Unidos da América, como um câncer gay5, pois a maioria dos portadores do vírus HIV pertencia ao público homossexual masculino. A AIDS passou a ser disseminada no Brasil por volta de 19836, quando apareceram os primeiros casos da doença e mais evidências de que qualquer individuo poderia contrair o vírus do HIV de um adulto a criança, de heterossexual a homossexual desde que colocados na condição de exposição a um comportamento de risco7.

Desde então, foram criados vários grupos de apoio ao portador de HIV em todo o Brasil. Os primeiros foram no estado do Rio de Janeiro, e nesse sentido podemos citar a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) e o Grupo pela Vidda:


A Abia, criada no Rio de Janeiro em 1986, aglutinou cientistas, intelectuais de diversas áreas, autoridades civis e religiosas e militantes de vários grupos comunitários que, por entenderem a AIDS como uma doença que envolve não somente a ciência médica, mas a sociedade como um todo se colocaram com meta tanto o monitoramento das políticas públicas relacionadas com HIV/AIDS quanto à produção e disseminação de informações atualizadas sobre a doença8.

A ABIA foi de suma importância, principalmente na questão referente à luta por direitos dos portadores de HIV, no que consiste a saúde, aos direitos legais, a disseminação de informações sobre a nova doença que surgiu com imaginário social carregado de discriminações:

Criado também no Rio de Janeiro, em 1989, com objetivo de lutar pela valorização, integração do doente de AIDS, o Grupo pela Vidda se destaca como outro exemplo de ação não governamental. Seu fundador, o jornalista Herbert Daniel, combatia o que chamou de “morte civil” - uma condenação imposta pela sociedade aos atingidos pela epidemia HIV/AIDS 9.

O Grupo pela Vidda foi fundamental no âmbito político, na conquista de direitos sociais e apoio psicológico, as pessoas portadoras desta enfermidade falavam de suas experiências: o sofrimento causado pelo preconceito advindo da sociedade e da não aceitação por eles próprios da sua condição de portador da enfermidade.

Neste grupo, havia participação dos parentes dos enfermos que sofriam duplamente: por um lado com o sofrimento de seu familiar e por outro, por serem rotulados e estigmatizados por terem um parente na condição de portador. Os familiares, na maioria das vezes, necessitavam de um acompanhamento psicológico, porque precisavam ser fortes para prestar o devido apoio ao seu familiar enfermo. O seu líder Herbert Daniel, que também era portador do vírus do HIV, participava das duas organizações: ABIA e o Grupo pela Vidda.

Em Fortaleza não foi diferente. Surgiram Organizações não governamentais (ONGS) com o intuito de lutar para a melhoria das condições de saúde e direitos sociais dos portadores de HIV. Neste ensaio, será apresentado o Grupo Rede Solidária Positiva – RSP fundado em 2000, com o objetivo de dar apoio aos portadores do vírus do HIV, no estado do Ceará com sede em Fortaleza com extensão ao município de Sobral. Um dos principais objetivos do RSP é dar assistência psicológica as pessoas que contraíram o vírus HIV, e todos os seus componentes são portadores.

Em suas reuniões, são discutidos temas diversos, porém a maioria deles reside em estabelecer estratégias para a recuperação da autoestima dos acometidos bem como o reforço da importância de continuar lutando pela vida, sempre pensando que o amanhã poderá ser melhor, não descartando nunca a possibilidade da descoberta da cura para a enfermidade.

O Grupo RSP é composto por 10 pessoas, todos portadores do vírus do HIV. Este número de pessoas varia de reunião para reunião, tanto podendo aumentar como diminuir. Neste grupo há somente adultos na faixa etária de 22 a 65 anos. É composto por mulheres, homens, homossexuais, qualquer pessoa portadora do HIV, independente do sexo, credo religioso, cor da pele, condição social. O grupo somente não trata de adolescentes e crianças, pois afirmam que não tem experiência e conhecimento necessário para auxiliar este público mais juvenil. Possuem um presidente e um vice-presidente, escolhidos em eleição realizada uma vez por ano pelos próprios componentes do grupo. As reuniões do RSP acontecem todo segundo sábado do mês em um prédio no centro da cidade de Fortaleza.

Novamente enfatizamos que nas reuniões do grupo são abordadas diversas temáticas, mas a maioria é focada para a autoestima. Nas conversas, são recorrentes as falas que destacam o choque ao se descobrirem soropositivas, e o medo constante de a qualquer momento desenvolver a AIDS; percebemos que quando o individuo descobre-se soropositivo ou aidético, ele inicia uma crise de identidade, não se sentindo mais uma pessoa comum, mas um pária na sociedade. Pois segundo Erwing Goffman, além de toda a crise interior pela qual esse indivíduo passa, a sociedade pode complicar mais ainda a situação criando identidades virtuais:

... ignoramos que fazemos tais exigências ou o que elas significam até que surge uma questão efetiva. Essas exigências são preenchidas? É nesse ponto, provavelmente, que percebemos que durante todo o tempo estivemos fazendo algumas afirmativas em relação aquilo que o individuo que está a nossa frente deveria ser. Assim, as exigências que fazemos poderiam ser mais adequadamente denominadas de demandas feitas “efetivamente”, e o caráter que imputamos ao indivíduo poderia ser encarado mais como imputação feita por um retrospecto em potencial - uma caracterização “efetiva”, uma identidade social virtual10.

As identidades virtuais são idealizações criadas para o individuo antes de conhecê-lo mais profundamente, atribuindo a ele diversos adjetivos. Quando não se encontra as qualidades atribuídas, o individuo passa a ser estigmatizado. No caso do portador do vírus do HIV quando é descoberta sua sorologia, ele passa a sofrer o estigma. Contudo uma perguntar pode ser feita: mas, o que é ser estigmatizado? Para Goffman o estigma é uma espécie de rótulo: uma marca que deteriora o indivíduo e a partir do rótulo, o individuo perde o seu nome. No caso da pessoa portadora do vírus do HIV que desenvolve a AIDS, em grande medida, sua condição física revela o seu quadro clinico e o consequentemente, o rótulo de “aidético”.

Em uma das ultimas reuniões que participamos, uma pessoa do grupo abordou essa questão dizendo “que tinha um nome e não era simplesmente um portador de HIV ou um aidético”. Em sua fala deixou claro o quanto o incomodava o rótulo. Desse modo, percebemos a necessidade de esconder sua condição com medo que a sociedade o tratasse de forma preconceituosa ou estigmatizadora.

Almeida11 enfatiza na fala de dois depoentes portadores do vírus do HIV, o motivo pelo qual eles não se tratavam no Sistema Único de Saúde – SUS, perto de suas casas em Curitiba: porque não queriam que ninguém soubesse de sua sorologia, pois as pessoas olhavam de maneira diferente para eles:

“(...). Eu sei que hoje a coisa tá diferente, mas mesmo assim as pessoas olham para quem tem AIDS de forma diferente, é como se fosse um ET, e por eu ter AIDS é como se eu não fosse mais eu, como se sentisse diferente, pensasse diferente e me comportasse diferente. Não vão mais lembrar o que fiz de bom, e as minhas qualidades, vão sim me colocar na cruz e me apedrejar como uma pessoa desqualificada, sem valor (...)” (colaboradora 03).

Nunca falei que tinha o vírus. (...) As pessoas são muito maldosas aqui no bairro, tem um bando de gente fofoqueira que vive falando da vida dos outros. Não quero que a minha vida vá cair na boca dessa gente maldosa. (colaboradora 2) 12.

De alguma forma eles se sentiam julgados e alegavam que as pessoas não se lembrariam do que teriam feito de bom e suas qualidades, apenas lembrariam que eram portadores do HIV e não os compreenderiam.

Nas reuniões em que compareço é sempre pontuado que é fundamental para o sucesso no tratamento, o auxilio da família, dos amigos e das pessoas mais próximas na luta contra a AIDS, pois o amor, o afeto, o sentir-se querido e respeitado estão intimamente ligados a um fortalecimento psicológico, fundamental na luta travada contra o vírus. O combate à depressão é algo também muito discutido no grupo. A pessoa portadora do HIV quando é também acometida de um processo depressivo, passa a não se cuidar e vê aumentada a possibilidade de um enfraquecimento ainda maior do seu sistema imunológico.

Numa das ultimas reuniões do RSP, registramos a fala de duas pessoas em situações muito distintas, uma que é totalmente aceita pela família com sua sorologia e outra que é mal vista até pelos próprios filhos. Na fala deste depoente, tal comportamento dos filhos é mais comum do que o que se imagina. Nascimento13 fala em um dos seus ensaios a importância que Herve Guibert dava em revelar sua sorologia nos relacionamentos considerados por ele sinceros, pois se o não o fizesse se sentia infiel a pessoa há quem ele amava:

Gostaria de ter a força, o orgulho insensato, inclusive a generosidade de não contá-lo a ninguém, para deixar as amizades viverem livres como o ar e descuidadas e eternas. Mas o que fazer quando se está esgotado, quando a doença chega a ameaçar a própria amizade?... Tinha querido não dizê-lo a Edwiges, mas senti desde o primeiro almoço de silêncio e de mentira, que isso a distanciava terrivelmente de mim, e, se não tomássemos de imediato o caminho da verdade, logo se tornaria irremediavelmente tarde demais, assim eu lhe contei para continuar fiel14.

Segundo Goffman15, podemos entender que a condição de soropositivo ou portador pode ser escondida, exatamente pelo medo de ser estigmatizado pela sociedade e pelas pessoas mais estimadas; o autor diz que seria uma manipulação de informação, pois a AIDS é uma enfermidade silenciosa que só é percebida em seu estágio mais avançado, portanto o autor citado atribui o conceito de desacreditável, para a pessoa que esconde sua condição pois “ ...exibi-lo ou ocultá-lo; conta-lo ou não conta-lo; revelá-lo ou escondê-lo; mentir ou não mentir; e, em cada caso, para quem, como, quando e onde...” (GOFFMAN, 1963, p. 51).

Uma vez “descoberta” sua condição e sua “manipulação” e sua condição de “doente” tornar-se de domínio público, o portador então, seria o desacreditado, pois, se em princípio não foi perceptível o que o diferenciava dos considerados “normais” 16 pela sociedade, agora tal diferenciação tornara-se evidente em virtude da revelação do diagnóstico ou do desenvolvimento da doença. “Parece também que as discrepâncias entre as identidades virtual e real sempre ocorrerão e sempre criarão a necessidade de manipulação de tensão (em relação ao desacreditado) e controle de informação (em relação ao desacreditável).” (GOFFMAN, 1963, p. 149).

É clara a luta interior que um indivíduo portador do vírus do HIV trava na dúvida em revelar ou não sua sorologia. Nas reuniões, ao narrarem seu dia a dia, os componentes do grupo escutam das pessoas mais próximas, familiares, amigos, colegas de trabalhos e vizinhos seus posicionamentos e comentários estigmatizadores. Eles escutam consternados, e pensam que estão agindo corretamente em não revelar sua condição de saúde.

Tronca17 e Nascimento18 enfatizam que em 1982 havia uma quase total ausência de informação sobre a nova doença. Os EUA foi o primeiro país a constatar casos da AIDS em seu território. Os médicos “estadunidenses” queriam descobrir a sua origem e muitos mitos foram levantados: os religiosos falavam que era consequência dos pecados e da luxuria sexual, os médicos diziam que o comportamento promiscuo seria a causa da enfermidade, várias hipóteses foram levantadas sem que se soubessem, sequer, os agentes etiológicos da doença.

Nos dias de hoje somos cercados por um grande número de informações que nos chegam de segundos a segundos acerca do HIV/AIDS. Já é conhecida a sua forma de transmissão, prevenção e suas formas de tratamento. Ainda não se encontrou a cura, contudo há pesquisas promissoras em andamento. Porém, uma considerável parcela da sociedade ainda alimenta o preconceito e a estigmatização contra o portador do vírus HIV:


As atitudes que nós, normais, temos com uma pessoa com um estigma, e atos que empreendemos em relação a ela são bem conhecidos na medida em que são as respostas que a ação social benevolente tenta suavizar e melhorar. Por definição, é claro, acreditamos que alguém com estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida19.

Podemos perceber este tipo de situação com pessoas que ainda em nossos dias têm receio de apertar a mão de uma pessoa que é portadora do vírus do HIV, abraçar ou de beijar. Gestos simples em que não há a menor possibilidade de se contrair o vírus. Há portadores em todos os lugares e ouvem o que é dito e sofrem com tanto preconceito. Muitas pessoas que não são portadoras acreditam que este preconceito pertence ao passado. Contudo, quem convive com um portador consegue identificar nas relações sociais mais costumeiras, a falta de sensibilidade e respeito para com essas pessoas.

Em todas as reuniões do RSP é servido um lanche. Algumas pessoas do grupo relataram situações de pesquisadores – que foram por eles acolhidos gentilmente - que se recusavam a beber ou comer qualquer alimento que lhe fosse oferecido no local por eles. Um dia, um dos organizadores do grupo conversou com estes pesquisadores universitários e descobriu que eles foram orientados a não consumir nada que lhe fosse oferecido, pois poderia estar contaminado.

Um dos problemas que levantamos em nossa pesquisa é: até que ponto é real o argumento que é a falta de informação que causa a estigmatização? Neste caso as pessoas não tinham a acesso às informações mais elementares? É possível que o estigma fosse maior que o constrangimento causado ao grupo que recebia esses pesquisadores?

É importante destacar que nas reuniões não se fala somente em tristezas, em preconceito e em estigmas, mas sobremaneira, na luta incansável pela vida, por direitos e pela saúde. Uma das formas de combate ao estigma e ao preconceito que é percebida no grupo é abertura para pesquisadores universitários com interesse em estudar as suas lutas. A disponibilidade de cada componente em falar sobre sua luta contra o HIV é também com o objetivo de propiciar um conhecimento maior sobre a doença, seu atual estágio de tratamento e dúvidas que pessoas que não conhecem essa enfermidade de perto possam ter.

Outra ação do grupo consiste em serem solidários uns com os outros, no que é necessário. O grupo acolhe especialmente pessoas que acabaram de receber o diagnóstico de que são sorologicamente positivas ainda no hospital, junto com o assistente social que anuncia o resultado do exame; e ainda fazem o possível para não permitir que as pessoas com um quadro mais crítico de AIDS fiquem nos corredores do Hospital São José de Doenças Infecciosas, solicitando aos médicos e funcionários do hospital auxiliem no que diz respeito à atenção para estes pacientes.

Apesar da grande produção científica sobre a AIDS, ainda há muito a concepção da “doença do outro”. O grupo Rede Solidária Positiva, porém, é um exemplo de um conhecido ditado: “A união faz a força” força esta que é fundamental na vida de todas as pessoas, mas que nem sempre uma pessoa por possuir uma enfermidade crônica recebe. O que se ensina no grupo é o significado da forma mais profunda possível das palavras: respeito, solidariedade e humanidade.

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1 Este artigo é parte da minha monografia de graduação.

2 Sintomas da gripe (febre, dor de cabeça, cansaço e inflamação dos linfonodos).

3 Sintomas da AIDS (O inchaço dos linfonodos, perda do vigor corporal, emagrecimento, febre e sudorese, infecções por fungos parasitas, erupções na pele, perda de memória momentânea e em alguns casos infecções por herpes na boca, órgãos genitais e ânus).

4 Proteases (Enzimas responsáveis pela maturação e montagem dos novos vírus dentro da célula) em outras palavras mutações.

5 TRONCA, Italo Arnaldo. As mascaras do medo: lepra e AIDS. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2000, p.130.

6 BARATA, Germana Fernandes. A primeira década da AIDS no Brasil: O Fantástico apresenta a doença ao público. 2006. 196 páginas. Dissertação - Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo 2006, p.147.

7 Comportamento de Risco: relação Sexual sem preservativo, compartilhamento de agulhas (Transfusão sanguínea ou uso de drogas injetáveis), transmissão vertical (da mãe para o bebê durante o parto) ou amamentação com leite materno contaminado.

8 NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. As pestes do século XX: tuberculose e AIDS no Brasil, uma história comparada. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005, p. 93.

9 Idem, p. 93 e 94.

10


 GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Tradução de Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. LTC – Livros Técnicos e Científicos Editores S.A. Rio de Janeiro: 1963 p.12.


11 ALMEIDA, Maria Rita de Cássia Barreto de. A história silenciosa das pessoas portadoras do HIV contada pela História Oral. Curitiba: 2004. Dissertação - Pós-Graduação em Enfermagem, Área de Concentração: Prática Profissional de Enfermagem, Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná. Curitiba 2004.


12 Idem, p.113 e 135.


13 NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. A Construção de Si Uma narrativa em torno da Experiência da AIDS. Revista de História Regional, n.º 3 (2) 157-166, Inverno, 1998.

14 GUIRBERT, Herve apud NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. A Construção de Si Uma narrativa em torno da Experiência da AIDS. Revista de História Regional, n.º 3 (2) 157-166, Inverno, 1998, p. 162 e 163.

15 Ibidem, p. 51.

16 Segundo Goffman “normais” são aqueles que não se afastam negativamente das expectativas particulares em questão.

17 TRONCA, Italo Arnaldo. As mascaras do medo: lepra e AIDS. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2000.

18 NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. As pestes do século XX: turbeculose e AIDS no Brasil, uma história comparada. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005.


19 Ibidem, p.15.



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