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reencontros

Chico Xavier

Hercio marcos Cintra Arantes

Espíritos Diversos

Leitor amigo:

Na Terra, em muitos reencontros, temos a dor em sua plena função reparadora.

Reencontros de adversários, que ainda carregam consigo o rescaldo de conflitos pungentes;

de situações amargas que nos reajustem os sentimentos;

de obstáculos que expressam as conseqüências de ações passadas, em que o erro nos terá marcado os caminhos;

ou de problemas que nos aguardam a presença, a fim de serem examinados e resolvidos.
*
Aqui, porém, neste livro despretensioso, todos os reencontros são de paz e amor, consolação e esperança. E de tal modo nos comovem as expressões de carinho e saudade, entre os vivos do Plano Físico e os vivos do Plano Espiritual, que passamos o presente volume às tuas mãos, contagiados de reconforto, agradecendo a Jesus que nos permite o júbilo de semelhantes contatos espirituais e rendendo graças a Deus.

Emmanuel


Uberaba, 2 de março de 1982.

Reencontros, Emmanuel

1 - Violência e Resignação / 04

2 – “Quando me entreguei ao Nosso Senhor, a paz me penetrou o espírito”, Francisco Quintanilha / 06

3 - Novos Caminhos / 10

4 – “Mudei de roupagem, sem mudar a própria identidade”,

Lúcio Germano Dallago / 14

5 - Meritória e abençoada premonição / 17

6 - “Aqui, a luta pela vitória do bem é uma batalha sem tréguas”,

Ítalo Scanavini / 22

7 - Em socorro à família / 42

8 - “Sou novo, de novo, na vida nova”, André Luiz Souza da Silva / 44

9 - Aviso Surpreendente / 52

10 - “Continuemos com Jesus”, Antonio Luiz Sayão / 56

11 - Regresso Inesperado / 60

12 - “Com a fé estou recuperando a edificação de nossa paz”,

Antonio Carlos Martins Coutinho / 63

13 - D. Amália, a secretária de Eurípedes / 67

14 “A provedoria do Senhor não nos esquece”, Amália Ferreira de Mello / 74

15 - Unidos pelas recordações e preces / 77

16 - “Estamos sempre encontrando o ‘ontem’ e preparando o ‘amanhã’ nas horas de hoje”, Aulus de Paula e Silva Bastos / 80

17 - Desfazendo uma dúvida cruel / 94

18 - “Serei para os meus pais um abraço invisível na Terra dos homens”, Benedito Souza de Oliveira / 96

19 - Homenageando Cornélio Pires / 102

20 - “Festa e Encontro de Itapira”, Cornélio Pires / 109



Francisco Quintanilha

1
Violência e Resignação


Francisco Quintanilha, motorista de caminhão, em trabalho rotineiro deixou Belém do Pará com destino a Brasília. Porém, ao aproximar-se do final de mais um árduo compromisso profissional, foi violentamente agredido, e horas depois, encontrado morto na cidade goiana de Caturaí, em 18 de fevereiro de 1979.

Como se deu o fato? Por quem? Por quê?

Estas perguntas, feitas aflitivamente pelos seus entes queridos, não encontraram respostas concretas, pois não havia testemunha do fato.

Nascido aos 16 de abril de 1931, em Guarantã, SP, Francisco deixou, em Araçatuba, SP, uma família bem constituída: sua esposa, D. Jeni Parro Quintanilha, filhos, genro, nora e netos. Bom esposo, pai a avô carinhoso, trabalhador perseverante, católico fervoroso – ele somente legou nobres exemplos e felizes recordações.

***


Não conformada com o mistério em torno do fato que arrebatou seu marido da vida física, D. Jeni dirigiu-se a Uberaba, ao encontro do médium Xavier, na esperança de receber uma resposta satisfatória do Mundo Espiritual às suas dúvidas torturantes.

Na primeira viagem colheu algum consolo, mas nenhuma notícia do Além. Mas, na seguinte, recebeu longa carta do esposo, apenas 6 meses após o seu passamento, em reunião pública do Grupo Espírita da Prece, na noite de 24 de agosto de 1979. Ao ouvi-la (habitualmente o médium lê aos destinatários as cartas recebidas), D. Jeni sentiu-se profundamente emocionada e feliz. Ela mesma conta: “No primeiro instante tive uma crise de choro, seguida de grande emoção pelas notícias recebidas. As palavras de meu marido trouxeram-me muita paz de espírito”.

Posteriormente, a família divulgou a mensagem, ilustrada com a foto do Sr. Francisco, colocando na primeira página do impresso o belo título: A morte é a porta para a Vida Eterna.

2
“Quando me entreguei ao Nosso Senhor, a paz me penetrou o espírito”, Francisco Quintanilha


Querida Jeni, Deus nos abençoe.

É preciso muita coragem para me manifestar, recordando o domingo trágico de fevereiro.

Perdoe-me, querida esposa, se ainda tenho lágrimas ao notificar-lhe que caí cumprindo meu dever de cristão, aceitando a pressão que me arrancou do corpo.

Dei abrigo a dois companheiros que rogavam socorro na estrada, mal sabendo que instalava comigo aqueles mesmos irmãos que me furtariam a vida.

Pedi compaixão para o pai de família que eu era, falei de você e em nossos filhos, e quis colocar-me de joelhos; entretanto deviam ser meus credores que não conseguiam me perdoar alguma falta cometida por mim em algum caminho do passado, que a minha memória ainda não conseguiu revisar.

Vi que me abatiam como se eu fosse um animal no matadouro, mas pensei em Deus e aceitei com resignação o golpe que me impunham. Que poder prodigioso exerce a cruz de Cristo sobre nós nas grandes horas da vida, quando a vida se abeira da morte por violência!...

Creio hoje que Jesus terá escolhido a morte assim, sob as pancadas da maldade, para fortalecer as criaturas que viessem a cair depois dele, em ciladas e golpes da Terra!

Quando me entreguei a Ele, Nosso Senhor e Mestre, depondo você e os filhos, por imaginação, nos braços de Quem, quanto Ele, é a nossa salvação e a nossa luz, a paz me penetrou o espírito e adormeci.

Depois das surpresas que se seguiram ao meu despertar, concentrei minha vida íntima em você e nos filhos, e pude vê-los, pouco a pouco, adquirindo a conformidade de que necessitávamos.

Minha avó Maria, a irmã Encarnação e o benfeitor Rodrigo me amparavam e hoje posso dizer ao Edson e à Aparecida, à Edna e ao João Carlos, ao Luiz Sérgio e a todos os nossos, que estamos em paz, você e eu, porque reconheço que prosseguimos sem discordar um do outro.

Agradeço a você, querida Jeni, e aos filhos queridos, não haverem formado um processo que me feriria o coração. Compadecermo-nos daqueles que se tornam autores da dor alheia é uma obrigação. Deus me auxiliará para que, um dia, possa de minha parte acolher os companheiros que me liquidaram a existência física, sendo útil a eles em alguma coisa, com a mesma alegria com que os recebi em nosso caminhão de trabalho.

Estou orgulhoso da família por me haver atendido a inspiração de não procurar ninguém para julgamentos que pertencem a Deus.

Estamos tranqüilos porque não ferimos a ninguém, e a nossa família prossegue em harmonia para diante. Seria para nós dois um grande desgosto observar os netos crescendo com idéias de infelicidade e vingança. Sei que a Aparecida trouxe o Glauco e o Rodrigo, pois rogo a vocês dizerem a eles que o avô seguiu numa viagem para outra casa que a vontade de Deus lhe apontou.

Cessem na família a idéia de que fomos espoliados em qualquer coisa. O que seria lamentável é se eu viesse para cá remoendo o arrependimento de algum ato infeliz.

Pensemos em Jesus e sigamos com a nossa fé, sabendo que a fé cristã é uma riqueza de que podemos dispor na vida, na morte, depois da chegada ao mais Além, que é unicamente a continuação da vida na Terra mesmo. Participo à nossa filha – nossa Maria Aparecida, que a sua amiga Ione Páscoa veio em nossa companhia e agradece-lhe as lembranças.

Querida Jeni, com nosso filhos e netos abençoados, incluindo a nora e o genro que nos fazem tão felizes, rogo a você receber o coração agradecido e saudoso do seu velho e companheiros de todos os dias, que estará sempre que possível ao seu lado para vencermos juntos, tanto quanto juntos temos estado confiantes em Deus.

Sempre o esposo, sempre seu

Francisco


Notas e Identificações
1 – domingo trágico de fevereiro – Ele faleceu num domingo, 18/2/1979.

2 – deviam ser meus credores que não conseguiam me perdoar alguma falta cometida por mim em algum caminho do passado, que a minha memória ainda não conseguiu revisar. – Após a morte física, o Espírito leva algum tempo para recordar suas vidas anteriores. Evidentemente, quando redigiu a carta, o Sr. Francisco já estava ciente de que a nossa desencarnação ocorreu sob o manto das Leis Divinas, justas e sábias. (Ver O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, Cap. 5: “Bem aventurados os aflitos”.)

3 – Minha avó Maria – Falecida há muitos anos.

4 – Encarnação – Parente do Sr. Francisco.

5 – Benfeitor Rodrigo – Desconhecido da família.

6 – Edson e Aparecida – Edson Quintanilha, filho, e Maria Aparecida Ribeiro Quintanilha, nora.

7 – Edna e João Carlos – Edna Q. Baptista, filha, e João Carlos Baptista, genro.

8 – Luiz Sérgio – Luiz Sérgio Quintanilha, filho.

9 – Deus me auxiliará para que, um dia, passa acolher os companheiros que me liquidaram a existência física – Com esta compreensão, o Sr. Francisco dá-nos um exemplo marcante, revelando admirável grandeza espiritual.

10 – Estou orgulhoso da família por me haver atendido a inspiração de não procurar ninguém para julgamentos que pertencem a Deus – A sua família, de fato, não recorreu à Justiça.

11 – Gláucio e Rodrigo – Netos, filhos do casal Maria Aparecida e Edson.

12 – Ione Páscoa – Ione Páscoa Viana dos Santos, desencarnada por afogamento no Salto de Avanhandava, SP, a 12/3/1978, era vizinha e amiga da família Quintanilha.

13 – Devemos estas anotações elucidativas à entrevista feita, a nosso pedido, pelo confrade e amigo Dr. Antônio César Perri de Carvalho, residente em Araçatuba, com D. Jeni P. Quintanilha.


Lúcio Germano Dallago

3
Novos  Caminhos

 

“No auge do sofrimento e do desespero, ocasionados pela dura separação do convívio amigo de meu filho, uma noite, seguindo pelas ruas de Goiânia, ao passar em frente ao Centro Espírita Amor e Caridade, localizado à Avenida Independência, tive a idéia de ali entrar, embora não fosse espírita.



O presidente desta instituição, Amir Salomão, acolheu-me com simpatia, e vendo-me profundamente abatido, providenciou para que eu iniciasse um tratamento espiritual naquele mesmo dia.

Foi um socorro que chegou na hora certa, pois havia perdido recentemente o meu filho Lúcio Germano Dallago, com 21 anos de idade, em acidente automobilístico.”

Assim, o Sr. Lúcio Dallago, residente na capital goiana, em carta datada de 24 de agosto de 1980, narrou-nos, atendendo nosso pedido, sua duríssima, mas proveitosa experiência, como veremos a seguir, no desenrolar de suas notícias:

“O acidente ocorreu na madrugada do dia 25 de novembro de 1977, na BR-153, quando uma carreta chocou-se com o Opala em que ele viajava com seus amigos Hermilon e Waldir, todos falecidos no local.

Acredito que foi a carreta que os colheu, ocasionando o acidente. Mas, quem sou eu para julgar? Entregamos o caso à Justiça Divina, pois o que nos adiantaria qualquer ação?”
Um sonho revelador
“Três meses após o acidente, aconselhados por amigos e estimulados pela leitura de várias mensagens de pessoas falecidas, recebidas por Chico Xavier, eu e minha esposa fomos a Uberaba, mas não conseguimos falar com o médium.

Retornando a Goiânia, abracei a Doutrina Espírita, passando a estudá-la cada vez mais. Nessa época falei à minha senhora que haveríamos de receber algum aviso para retornarmos a Uberaba, quando nosso filho tivesse oportunidade de nos escrever.

Em agosto de 1978, com um grupo de amigos, dirigimo-nos às margens do Araguaia para uma pescaria. Na terceira noite tive um longo e nítido sonho com meu filho, visitando-o num hospital. Tinha boa aparência e mostrava-se disposto. No dia seguinte, despertei muito cedo, logo meditando sobre aquela “vivência espiritual”. Ansioso para contar o sonho aos familiares e confrades, consegui convencer meus amigos a interromperem a pescaria, e regressamos no quarto dia de um passeio programado para dez.

Retornando a Goiânia, fui aconselhado pelos confrades amigos a procurar Chico Xavier, também eles deduzindo comigo, do sonho, que meu filho estava em condições de enviar-me uma mensagem.

Assim fizemos. Em Uberaba, pela segunda vez, enfrentando uma fila enorme, conseguimos nos avistar pessoalmente com o querido médium, numa reunião pública do Grupo Espírita da Prece. Era o dia 1o. de setembro de 1978.

A nossa emoção foi grande, principalmente de minha esposa, que, mostrando-lhe a foto de Lúcio, mal conseguiu dizer que havia perdido o filho num acidente.

Chico fitou-lhe a face, e mesmo sem ter o mínimo conhecimento de nossa família, perguntou:

- Quem se chama Germano? Estou vendo um senhor de idade...

Minha esposa quase desmaiou, nada conseguindo responder. E antes que eu articulasse qualquer esclarecimento, o médium continuou:

- Não precisa responder, ele está dizendo que é avô de Lúcio, afirmando ainda que antes da encarnação do jovem, na condição de seu neto, eles já eram velhos amigos.

E, com a orientação de que poderíamos colocar sobre a mesa dos trabalhos um pedido de notícias do nosso saudoso filho, o diálogo foi encerrado.

Aguardamos confiantes, em meditação e preces, por horas e horas, e a resposta veio mesmo... Já avançando na madrugada do dia 2, tivemos a feliz emoção de ouvir, dos lábios do estimado médium, a leitura da esperada carta de Lúcio, psicografada naquela reunião.

A mensagem veio trazer consolo e esclarecimento a todos os nossos familiares. Consolidou, também, a certeza da fé espírita que recentemente havíamos abraçado.

Assumi, em memória de nosso filho, a direção da Casa Espírita de Meimei – Lar das Crianças (Rua Santiago, Lote 20, Quadra 219, Setor Palmito, Goiânia, GO.), que hoje ampara quase 60 menores, de 6 meses a 6 anos, onde igualmente funciona o Departamento de Assistência Espiritual e uma distribuição de sopa, aos sábados, aos menos favorecidos.”

4
“Mudei de roupagem, sem mudar a própria identidade”, Lúcio Germano Dallago

  

Querida mãezinha e meu querido papai Lúcio, peço para me abençoarem.



O meu avô Germano e o meu tio Aldo me trouxeram até aqui e me auxiliaram a traças estas linhas. Venho rogar-lhes paciência e coragem. A morte não existe como pensamos na Terra. Atravessamos um choque estranho que eu não sei descrever, porque prevalece em nós, pelo menos no que me sucedeu, um sono feito de anestesia e de esquecimento.

Compreendo tudo agora e sei quanto choraram porque podem imaginar como eu chorei, à feição de um menino grande seqüestrado, sem volta, em outro lugar que não a nossa casa.

O acidente me afetou qual uma explosão na qual a gente se perde por algum tempo. Disso nada sei, mas posso assegurar-lhes com os nossos daqui, que não me perdi no acontecimento. Mudei de roupagem, sem mudar a própria identidade.

Agora, é coragem para nós todos. Chega um momento na vida de cada um, no qual apenas a fé em Deus é a alavanca da salvação de nosso próprio raciocínio.

Peço-lhes para que vivam valorosamente e não culpem a ninguém se o carro foi a condução que as Leis de Deus me deram para voltar à vida espiritual, a que me vou habituando pouco a pouco.

Recordem os nossos queridos Hermilon e Waldir, e creiam que se ficarem fortes, minha fortaleza se restabelecerá mais depressa.

Numa situação destas, em que a gente se vê noutra forma, dando notícias por intermédio de outra pessoa, como se estivéssemos numa janela aberta para uma praça repleta de amigos, não é muito fácil. Por isso, creio que dar o meu sinal de presença é bastante para que me saibam vivo, e com a mesma disposição para trabalhar.

Por enquanto, estou no tratamento de idéia vagarosa e vida mansa, mas tenham a certeza de que tudo comigo vai melhorar quando me derem coragem para recomeçar.

Meu abraço às irmãs e lembranças aos amigos.

Do acidente nada me perguntem, porque não quero turvar a cabeça que já está ficando mais clara por dentro.

Auxiliem-me a deixar de lado o que não devo carregar comigo e a recordar o que preciso fazer agora: recuperar o meu equilíbrio, confiar em Deus e na vida, e reformar-me qual eu era, decidido a cumprir os meus deveres, sem reclamação e sem choro.

Muitas saudades que, aliás, são nossas. E, em meio das saudades que estão comigo, recebam o abraço com muitos beijos de gratidão e carinho do filho muito grato que, mais uma vez, lhes pede a bênção,

Lúcio Germano Dallago.
Identificações
1 – Avô Germano – Germano Dallago, avô paterno, desencarnado em Barra Fria, SC, em, 1941, aos 51 anos de idade.

2 – Tio Aldo – Aldo Dallago, tio, desencarnado em Ibaiti, PR, a 12/11/1966.

3 – Hermilon e Waldir – Hermilon Pereira Gonçalves e Waldir Ramos Siqueira Filho, amigos inseparáveis de Lúcio Germano, desencarnados no mesmo acidente.

4 – Meu abraço às irmãs – Irmãs: Sandra Maria, Sônia Cristina e Selma Regina Dallago.

5 – Lúcio Germano Dallago – “Filho de Maria de França e Lúcio Dallago, nasceu em Goiânia a 23/9/1956. Sua breve e saudosa passagem terrena foi caracterizada por uma personalidade carinhosa e alegre, marcada por um espírito caridoso, deixando um grande círculo de amigos na sociedade goianiense. Quando desencarnou, a 25/11/77, preparava-se para o vestibular no Colégio Carlos Chagas”. (Dados biográficos divulgados juntamente com a sua carta mediúnica, em impresso feito pela família.)


Ítalo Scanavini
5
Meritória e abençoada premonição

- Estão aqui algumas fotos históricas do Instituto, que tenho comigo há muitos anos, e peço-lhes guardá-la, porque poderão ser úteis no futuro – disse-nos o dileto amigo Ítalo, entregando-nos, logo após uma reunião doutrinária, um envelope com dezenas de fotografias.

- Como? Eu guardar as fotos, após tantos anos em seu poder, com tanto carinho? – respondemos de pronto, surpreendido com aquela atitude do companheiro.

Com voz pausada e serena, que lhe era habitual, insistiu com o seguinte esclarecimento:

- Solicito-lhe receber, pois estou fazendo um acerto geral em meus papéis, e como você é o secretário, elas ficarão melhor em suas mãos.

Diante desse argumento o atendemos, nunca passando pela nossa mente que o incansável confrade Ítalo Scanavini, Diretor-Tesoureiro do Instituto de Difusão Espírita, de Araras, São Paulo, desde a sua fundação, estava se despedindo de todos nós – na atual romagem terrena -, colocando a sua documentação particular em tal ordem, como alguém que pretendesse ausentar-se por longo tempo...

De fato, uns trinta dias depois de nosso diálogo, ele partiria rumo ao Mais Alto, a 8 de março de 1979, deixando uma irreparável lacuna em todas as áreas de sua afetuosa, fraterna e dinâmica atuação, principalmente familiar, espírita e maçônica.

Ítalo, nascido em Araras, SP, a 29 de setembro de 1916, era filho do casal: José Scanavini – Joana Chignolli Scanavini.

***

Comprovando a premonição de nosso companheiro, sua família contou-nos o interessante fato:



Aproximadamente um mês antes do desenlace, fugindo completamente da rotina, Ítalo começou a trabalhar no seu lar, todas as noites, acertando as escritas de sua loja, com o auxílio de máquinas de escrever e de somar. A esposa e filhos estranharam esse trabalho extra, mas ele apenas explicava que precisava pôr os seus papéis em ordem, sem outros esclarecimentos...

A 2 de março, após o jantar, fortes dores precordiais provocariam a sua hospitalização de emergência. E, no dia seguinte, embora estando melhor, sob tratamento intensivo, afirmou à esposa: - “Velha, vai acontecer o pior, eu não vou voltar para casa”.

De fato, com a vestimenta carnal, Ítalo não mais regressaria ao seu ninho familiar.

***


As suas atitudes, indicativas de uma preparação para a Grande Viagem, só podem ser explicadas por abençoada e meritória premonição, isto é, um aviso dos Benfeitores Espirituais, muito discreto, mas capaz de induzi-lo a um comportamento mental introspectivo e levá-lo, com a motivação de uma pequena dor torácica, à relativa certeza de final de caminhada terrena. Nessa época, Ítalo não apresentava sinais de enfermidade, nem submetia-se a qualquer tratamento médico.

Somente mais tarde, por via mediúnica, ele esclareceria: “Os tempos últimos haviam sido para mim de muita reflexão. Meditava nas experiências da vida, até que percebi um ponto de dor que se abria em meu peito, à maneira de um aviso discreto de que o tempo na vida terrestre estava a terminar. Comecei atualizando nossas escritas e revisando tudo o que pudesse impor cuidados maiores ao seu coração de esposa e mãe, e, em verdade, acertei...

Você se lembrará de que havia dito no Hospital a minha convicção de que não mais regressaria à nossa casa...”
Homenagem do “Anuário Espírita”
O Anuário Espírita 1980 publicou, em suas primeiras páginas, expressiva e carinhosa homenagem ao nosso inesquecível amigo e confrade Ítalo, sob o título: “Mais um anuarista retorna ao Mundo Maior”, que a seguir transcreveremos:

“No dia 8 de março de 1979, em Araras/SP, nosso querido companheiro de lutas doutrinárias, Ítalo Scanavini, regressou ao Mundo Maior, sob os efeitos de um enfarte que, em poucos dias, lhe desorganizou o veículo físico.

Foi um dos fundadores, em 1958, do Grupo Espírita Sayão, entidade espírita que, além das suas atividades doutrinárias, mantinha programa assistencial, através da assistência alimentar (sopa diária), serviço odontológico e albergue noturno. E que, no início da década de 70, instalou oficina gráfica para impressão de livros espíritas. Sempre foi seu Tesoureiro.

Fez parte, também, do elenco de confrades que fundaram o Instituto de Difusão Espírita, em 1963, cujo programa de atividades tinha seu núcleo na edição de livros espíritas, especialmente o Anuário Espírita. Em muitas gestões foi seu Tesoureiro.

Em 10 de setembro de 1974 as duas instituições se fundiram, permanecendo o nome de Instituto de Difusão Espírita, enfeixando todas as atividades exercidas por ambas e, desde então e até a sua desencarnação, foi seu Diretor-Tesoureiro.

Homem humilde e zeloso no cumprimento do dever, sempre foi muito respeitado e querido por quantos lhe desfrutaram a convivência.

Fora das lides doutrinárias, foi membro ativo da Loja Maçônica “Fraternidade Ararense”, onde sempre conviveu com desmedido entusiasmo e dedicação, tendo ocupado muitos cargos de direção.

Foi um dos fundadores da Associação Atlética Ararense, de cujo Conselho Consultivo fez parte por longo tempo.

Profissionalmente, foi conceituado comerciante.

Espírito disciplinado, seu zelo chegava aos detalhes, sempre procurando o melhor em todas as atividades que participava emprestando seu concurso.

Nós, seus amigos mais íntimos, pelos laços profundos de afeição e de trabalho, não podemos regatear elogios à sua atuação ao longo de duas décadas de atividades espíritas, e o amigo leitor talvez não pudesse entrever nesse extravazamento afetivo, o que representou realmente a vida de nosso saudoso confrade na comunidade ararense, assim também as qualidades pessoais desse Espírito valoroso.




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