Reflexões sobre o estágio Supervisionado e a ação docente


Pelos caminhos do estágio supervisionado



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Parte I

Pelos caminhos do estágio supervisionado


Não, não tenho caminho novo.

O que tenho de novo é o jeito de caminhar

(Thiago de Mello)

Nosso jeito de caminhar


Pelo estágio supervisionado

Maria socorro Lucena Lima

Caminheiro, não existe caminho

O caminho se faz ao caminhar

(Antônio Machado)
Quando recordamos os nossos professores, dizemos que muitos sabiam apenas para eles mesmos, ou seja, não conseguiam transmitir o seu conhecimento (muitas vezes, profundo) para os seus alunos. Fica, assim, a memória de um professor que não deu certo, mesmo nas suas melhores intenções. Assim percebemos que o ato de ensinar não é tão simples. Ele requer um trabalho específico e reflexões mais amplas sobre o fazer pedagógico.

A profissão do professor está situada exatamente no intercâmbio entre o conhecimento sistematizado que a escola oferece e o aluno. Portanto, desenvolve-se nessa ponte representada na mediação entre o aluno e o saber, o ensino e a aprendizagem.

No intuito de refletir sobre a profissão docente, sugiro que façamos algumas paradas para acompanharmos esse percurso.

A primeira série na dimensão individual do trabalho do professor (NÓVOA, 1992). Quem realiza a tarefa de ensinar? A pessoa do professor é quem faz dessa ação o seu próprio trabalho. No seu desempenho ao planejar, executar e avaliar seus alunos está a sua visão de mundo, sua história de vida, os conhecimentos que adquiriu historicamente, a maneira de conceber a realidade e a educação.É uma prática tecida com o saber científico (os conhecimentos sobre a disciplina que leciona), o saber pedagógico (elementos de formação do docente), o saber da experiência (elaborados dentro de seu cotidiano) e o saber político, social, dentre tantos outros. Mesmo que o docente não tenha consciência disso, esses saberes serão postos em sua prática e dirão da sua visão de mundo e, dessa forma, diferentes maneiras de pensar e de agir poderão ser evidenciadas. Uma delas seria aquela que vê o mundo de forma dicotomizada, em que o professor, isolado em sua sala de aula passa os ensinamentos.

A escola é vista como uma ilha isolada do contexto, e, a sala de aula, um espaço, onde de forma supostamente neutra os alunos que forem esforçados ou inteligentes poderão aprender, enquanto os outros ficam à margem do processo. É a valorização da ciência, indiferente ao condicionamento histórico e social do conhecimento, o que ainda hoje é muito comum nas práticas escolares. Esta visão caracteriza-se como linear, que não vê no ato de ensinar perspectivas de transformação, nem para os alunos, nem para o professor, nem para a sociedade.

A outra maneira de tratar a ação docente é a que adota uma concepção de educação mais abrangente. Segundo Mendes (1983: 60), a educação é um projeto simultaneamente político e filosófico, cuja compreensão não cabe exclusivamente no âmbito da racionalidade científica. Nessa abordagem, o trabalho pedagógico tem uma dimensão maior que vai somar-se às outras influências, ou seja, é contextualizado. O homem pode interferir, ser o agente da história. A escola é um microsistema de um sistema maior que é a sociedade, como se fosse a fatia de um bolo. O professor - enquanto sujeito que não reproduz apenas, por ser também sujeito do conhecimento – pode, por meio de uma reflexão crítica, fazer do seu trabalho em sala de aula um espaço de transformação. Isso é o que chamamos de práxis docente. É na ação refletida e no redimensionamento de sua prática que o professor pode ser agente de mudança, na escola e na sociedade. Por isso é necessário que este procure se situar como pesquisador da sua própria prática, fazendo assim a práxis, que é a unidade teórica e prática de forma refletida e redimensionada. Segundo Pimenta (1994: 93),

Atividade docente é práxis...,

É sistemática e científica à medida em que tenta objetivamente

(conhecer) o seu objeto (ensinar e aprender) e é intencional, não casuística.

A segunda parada na ponte do processo ensino-aprendizagem é a compreensão de que o trabalho é um princípio educativo. Ao realizar a sua ação docente, o professor aprende também e vai construindo o seu conhecimento. O trabalho, como principio educativo, está situado no movimento de articulação entre a teoria e a prática pedagógica, que é a profissão do professor e constitui a sua identidade como tal. Sendo o trabalho o eixo articulador entre a teoria e a prática, a indissociabilidade entre esses dois termos realiza-se por meio das atividades do professor, na ação-reflexão refletida. Nessa perspectiva, a formação do docente se faz pelo repensar sobre a prática, sobre a realidade, bem como pela construção permanente da identidade pessoal.

O terceiro ponto de reflexão é sobre a ética e a competência quando nos propomos a lecionar. O saber – o saber fazer bem – remete-nos aos bons professores que nos convenceram por suas práticas, na escola e fora dela. Leva ainda a dimensão política do docente enquanto cidadão. Concordamos com Rios (1994: 50) quando lembra que é importante falar em competência e nela apontar seus componentes – interligados indissolúveis, essenciais – o técnico e o político.

Assim, a competência estaria ligando o técnico ao político mediado pela ética. Entendemos ética, como o sentido que se dá à profissão, à atitude de respeito e de compromisso com o aluno e com aprendizagem, indiferente de quem ele seja, onde more, a escola que freqüente, principalmente se aquele aluno não tem acesso à infra-estrutura cultural com jornais, internet e outros. Muitas vezes, o professor é a única via de conhecimento sistematizado que o aluno tem e este boicota esse conhecimento ou não, o conduz com a seriedade devida. O professor é “bonzinho”; mas não contribui para o conhecimento dos alunos. O coletivo envolve ainda os companheiros que caminham conosco neste processo e que nos leve a mais uma dimensão da competência: ela se faz no coletivo (RIOS, 1994).

Compreendemos que o estágio supervisionado é o lugar por excelência para trazermos à tona estas questões e aprofundar os nossos conhecimentos e discussões sobre elas. É o momento de revermos os nossos conceitos sobre o que é ser professor, para compreendermos o seu verdadeiro papel e o papel da escola na sociedade.

O estágio não é a hora da prática! É a hora de começar a pensar na condição de professor na perspectiva de eterno aprendiz. É a hora de começar a vislumbrar a formação contínua, como elemento de realimentação dessa reflexão.

O fato de intervir na vida concreta da escola, fundamentados pela teoria sobre a formação docente, poderá ser a grande contribuição da prática de ensino no direcionamento ou redirecionamento profissional do futuro professor ou do professor que já está em sala de aula. Dessa forma, o estágio será trabalhado na perspectiva de Schön (1992:80): o conhecimento na ação e a reflexão na e sobre a ação.

O estágio supervisionado, visto como atividade teórica instrumentalizadora da práxis do futuro professor (PIMENTA, 1994:121), é o lócus dessas reflexões sobre o professor e seu trabalho. É fazendo do estágio esse espaço de reflexão sobre a docência, que esperamos contribuir na formação de professores crítico-reflexivos, competentes, comprometidos e cientes da sua função social.

Essa maneira de conduzir as atividades do estágio é o nosso jeito de caminhar na educação, diz dos projetos e utopias do nosso momento histórico.

Bibliografia

CUNHA, M. L. O bom professor e sua prática. Campinas: Papirus, 1989.

MENDES, D. T. Existe filosofia na educação brasileira? Filosofia da educação brasileira. Rio de Janeiro: Civil Brasileiro, 1983.

PIMENTA, S. G. O estágio na formação de professores: unidade, teoria e prática? São Paulo: Cortez, 1994.

RIOS, T. A Ética e competência. São Paulo: Cortez, 1994. (coleção Questões de nossa época)

SCHÖN, D. A. (Org). O professor e sua formação. Lisboa: D. Quixote, 1992.



Atividades para reflexão



1. Ler, cantar e relacionar a música de Gonzaguinha com o momento que estamos vivenciando.

O que é, que é

Eu fico com a pureza da resposta das crianças,

é a vida, é bonita e é bonita.

Viver e não ter a vergonha de ser feliz.

Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.

Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não

impede que eu repita, é bonita é bonita e é bonita.

E a vida? E a vida o que é diga lá meu irmão?

Ela é a batida de um coração? Ela é uma doce ilusão?

E a vida, ela é maravilha ou é sofrimento?

Ela é alegria ou lamento? O que é, o que é meu irmão?

Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo.

É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo.

Há quem fale que é um divino mistério profundo.

É o sopro do criador numa atitude repleta de amor;

Você diz é luta é prazer, ela diz que a vida é viver,

ela diz que melhor é morrer, pois amada não é e o verbo é sofrer.

Eu só sei que confio na moça e na moça eu ponho a força e a

Fé... Somos nós que fazemos a vida como der ou puder ou quiser.

Sempre desejada, por mais que esteja errada. Ninguém quer

a morte, só saúde e sorte;

E a pergunta roda, e a cabeça agita. Eu fico com a pureza da

resposta das crianças, e a vida, é bonita e é bonita!

(Gonzaguinha)


2. Destaque pontos comuns entre a vida do grupo e a letra da música.

3. Para você, o estágio pode ser um dos momentos de alegria e “beleza de ser um eterno aprendiz”?


Por que estágio supervisionado


para quem já exerce o magistério?

Maria Socorro Lucena Lima

Os discursos de quem não viu, são discursos;

os discursos de quem viu, são profecias

(Pe. Antônio Vieira)

É possível que se questione o porquê do estágio supervisionado quando o aluno já exerce a profissão de professor. Realmente, se pensarmos este componente curricular apenas como o momento da prática, a questão faz sentido. Temos conhecimento de modalidades de estágio que não têm sido trabalhadas com a devida clareza quanto aos seus objetivos e finalidades. Muitas têm recebido interpretações equivocadas quanto ao seu desenvolvimento e realizadas de forma burocratizada, quando os estagiários são submetidos, algumas vezes, a situação tecnicista, reduzidas a um mero preenchimento de fichas que pouco auxiliam na sua formação. Existem ainda os estágios cheios de boas intenções, mas vazios de ações sistemáticas de planejamento e de avaliação, inclusive conhecemos casos de algumas escolas. Por outro lado, mesmo os cursos de formação preocupados com a questão, em muitos casos, vêm tentando siderar a caminhada dos professores. Prevalece a lógica da racionalidade técnica ou a leitura de textos acadêmicos, fazendo oposição à formação de professores a partir da realidade que estão inseridos.

Compreendemos o profissional do magistério como um intelectual em processo contínuo de formação, que tem na teoria o elemento básico para realizar uma ação coerente e transformadora, ou seja, sua práxis docente. Essa formação, que envolve além dos saberes adquiridos na prática cotidiana e na história da sua vida, ainda necessita da fundamentação teórica necessária para a reelaboração deste saberes e a melhoria da qualidade docente. É um processo continuo que vai sendo construído no trabalho, é enriquecido pela aquisição da teoria que realimenta a prática, como elemento indispensável para o desenvolvimento profissional.

Muitas das pesquisas atuais sobre formação docente insistem na necessidade de a partir de uma reflexão fundamental sobre a profissão docente para além do campo estritamente acadêmico, como explica Nóvoa (1992: 25) ao afirmar que:


Urge por isso (re) encontrar espaço de interação entre as dimensões pessoais e profissionais permitindo aos professores apropriar-se dos seus processos de formação e dar-lhe um sentido no quadro das suas histórias de vida.
Daí ser preciso pensar sobre as próprias experiências pessoais e profissionais de maneira coletiva para que possamos construir juntos uma nova identidade docente. GOMEZ (1992) é um defensor do professor prático, autônomo, que reflete, toma decisões e cria durante a sua própria ação, ao que chama de diálogo reflexivo, capacidade que é considerada por Schön (1992), como reflexão na ação.

É válido descobrir espaços em que o professor possa enunciar suas vivências em sala de aula partilhar os saberes que lhe possibilitem desempenhar os papéis de formadores e formandos. Nas aulas de prática de ensino é importante encontrar caminhos nesse sentido, pois os problemas nessa aérea extrapolam os muros da Universidade e vão somar-se a tantos outros do ensino fundamental e médio. Dentro da abordagem de que o estágio é a atividade teórica instrumentalizadora da práxis (PIMENTA, 1994:121), é que pretendemos fundamentar e justificar a dinâmica desta disciplina que tem o trabalho docente como eixo articulador entre a teoria e a prática.

O fato de professores buscarem na universidade seu desenvolvimento profissional é indicativo de que, juntos, podemos realizar um estágio que possibilite maior conhecimento para nós e para a comunidade onde atuamos. As reflexões sobre a nossa prática pedagógica certamente se constituirão um processo dialético, juntamente com os novos conhecimentos teóricos, como a nossa realidade e as experiências adquiridas ao longo do tempo.

Propomos que o estágio seja este espaço de unidade teórica-prática e que tenhamos como ponto de partida e de chegada as nossas atividades docentes. A mobilização do saber da experiência, aliada ao saber pedagógico e a fundamentação teórica poderão nos oferecer os elementos necessários para compreender e analisarmos o nosso próprio desempenho profissional. Não a prática pela prática e sim a prática fundamental na teórica em confronto com a realidade para um redimensionamento do nosso trabalho. Que tal fazermos da nossa sala de aula, da relação com os nossos alunos, dos avanços e dificuldades docentes e dos entornos ao nosso trabalho, um campo de estágio e pesquisa?


_________________________________

1 Em 1995 começava se intensificar a presença de professores que já eram profissionais do magistério nos cursos de formação docente. Pensei nesse texto para sensibilizá-lo para o Estágio Curricular dentro da realidade em que estavam inseridos.




Bibliografia

GOMZ, A P. O pensamento prático do professor: a formação do professor como profissional refletivo.

NÓVOA, a (COORD). Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote 1992

LIMA, M. S. L. O estágio supervisionado como elemento mediador entre a formação inicial do professor e a educação continuada. Fortaleza (mimeo) Dissertação de Mestrado Universidade Federal do Ceará - Faculdade de Educação, 1995.

______.O estágio supervisionado como estratégia de integração entre a universidade e a comunidade. Uma reflexão sobre a experiência de minicursos. CADERNOS UECE, Nº 1. Fortaleza: Editora UECE, 1994. p. 45-52.

PIMENTA, S. G. O estágio na formação de professores unidade, teoria e prática? São Paulo: Cortez, 1994.

SCHON, D. A. Formar professores como profissionais reflexivos. NÓVOA, Antônio (coord.) Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.

Atividades para reflexão




  1. Relate um dia da sua vida de professor

  2. Quem foi um “bom professor” em sua memória?

  3. Preencha


O bom professor

O que já tenho


O que me falta



Catálogo: conteudos
conteudos -> Edital nº 07/2013-dta-fcl/CAr – Concurso para obtenção de título de Livre-Docente
conteudos -> Anexo II declaração [a que se refere a alínea a do n.º 1 do artigo 81.º]
conteudos -> Apl associação Portuguesa de Linguística Boletim Informativo nº 37 Fevereiro de 2003 Associação Portuguesa de Linguística boletim informativo
conteudos -> Projeto pibid: um relato de experiência na escola estadual de ensino fundamental e médio professor josé soares de carvalho
conteudos -> Do futuro, a força preventiva
conteudos -> Obesidade infanto-juvenil no contexto escolar: primeiras aproximaçÕES
conteudos -> Figuras do sistema preventivo próximas a dom bosco
conteudos -> Combate à pobreza e à exclusão social em período de crise económica e além: o método da governação multi-nível
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