Reflexões sobre o estágio Supervisionado e a ação docente


Sobre o professor reflexivo



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Sobre o professor reflexivo

Consideramos importante esclarecer o que entendemos sobre reflexão-na-ação e sobre a ação docente, trabalhada nos estudos desenvolvidos.

O professor é um intelectual em processo contínuo de formação. O homem pode interferir, ser agente da história; o professor enquanto sujeito que não reproduz apenas o conhecimento, pode por meio da reflexão crítica, fazer do seu trabalho de sala um espaço de transformação, que é práxis docente. É na ação refletida e na redimensão da sua prática que o professor pode ser agente de mudanças na escola e na sociedade. Nessa perspectiva formação docente faz-se pelo trabalho de reflexão crítica sobre a prática pedagógica, a realidade, a fundamentação teórica estudada, bem como pela reconstrução permanente da idade pessoal e profissional. A partilha de saberes e a educação continuada possibilitam ao professor a postura de eterno aprendiz que é uma conquista crítica e está no horizonte da utopia, do vir-a-ser. Para nós, a reflexão vincula-se à atitude crítica e está ligada à emancipação humana, extrapolando os limites estritamente técnicos dos problemas que surgem na sala de aula.

A idéia de professor reflexivo, desenvolvido por Schön, deu a muitos educadores que trabalham com a formação de professores um redimensionamento de suas reflexões e estudos no sentido de valorizar a epistemologia da prática nos processos de desenvolvimento profissional do professor. No entanto, as múltiplas interpretações sobre reflexão-na-ação mereceram estudos de aprofundamento do assunto e o esclarecimento de pesquisadores como Alarcão (1996) e Contreras (1997).

Alarcão (1996:31), ao fazer uma análise contextualizada sobre a preferencial dos professores formadores pelas idéias do professor reflexivos de Schön, coloca-o no movimento que valoriza a epistemologia da prática nos processos de desenvolvimento profissional do professor; no entanto levanta algumas questões importantes para o debate dando, assim, um salto de qualidade no aprofundamento do assunto nos seguintes aspectos:


  • o papel formador da universidade, quanto às exigências de uma formação profissional;

  • quanto ao “estágio pedagógico, o parente pobre de todas as disciplinas, atividades que os docentes não vêem reconhecida, nem nas horas que lhe dispensam, nem no prestígios que essa atividade é vista”.

  • O receio de que a partir das idéias de Schön, as universidades cometam o equívoco de priorizar a racionalidade técnica e a ênfase no paradigma da ciência aplicada;

  • Quanto à abordagem reflexiva, uma importante indagação: “a questão que por vezes se coloca e que eu gostaria de fazer aqui é a que diz respeito ao objetivo da reflexão. Schön é claro: reflexão na ação e sobre a ação. Mas o que é a ação do professor? Em que domínio se manifesta?”.

  • Quanto à relação existente entre a reflexão e o conhecimento que é gerado e sustentado para reflexão. Até que ponto os professores iniciantes entram nesse processo?

  • Quanto às estratégias formativas de Schön e a exigência de que o formador tenha uma extraordinária capacidade de interpretação e compreensão do outro. “Será que nós supervisores temos essa competência?”

Contreras (1997) apresenta as contradições da prática docente, pois explica que a reflexão não encerra uma concepção concreta sobre si mesma e tem seu uso adaptável e obrigatório em qualquer corrente pedagógica, daí a confusão sobre esse tema . Com o objetivo de relacionar a prática reflexiva com o compromisso crítico o autor baseia-se em Kemmis (1985) para chamar a tenção sobre elementos que se configuram nesse processo, em cinco itens:




  • a reflexão tem a ver com o pensamento e ação, nas situações históricas e reais em que nos encontramos;




  • a reflexão não é um trabalho individual, pressupõe relações sociais;




  • a reflexão não é indiferente e passiva em relação aos problemas de ordem social;




  • a reflexão não é indiferente e passiva em relação aos problemas de ordem social;




  • a reflexão não é um processo, nem tampouco um processo puramente criativo à construção de novas idéias; é uma prática que expressa nosso ´poder de reconstruir a vida social em que estamos inseridos.

Juntando os estudos realizados anteriores com esse novo elemento, para o debate sobre a formação do professor reflexivo e, decorrência, sobre o Estágio Supervisionado, esperamos contribuir com outros olhares e outras luzes sobre a questão.
Esboço de uma conclusão para o momento

Os fundamentos teóricos e demais estudos e pesquisas na área de formação de professores, aliados ao trabalho que estivemos desenvolvendo nestes últimos anos, permite-nos chegar a algumas conclusões, aproximações e questionamentos:



  • Nenhuma experiência de Prática de Ensino visa a resolver as questões da unidade teórica-prática, no entanto as experiências por si podem nos levar a uma práxis criadora e a uma postura metodológica do compromisso com o fazer docente, abrindo, assim, possibilidades de dar o salto de como fazer para a compreensão e intervenção no todo fazer pedagógico;

  • o trabalho com o Estágio Supervisionado não pode ser pensado de forma isolada. Ele faz parte de um projeto coletivo dos cursos de formação de professores. Em consonância com docentes de outras disciplinas e com os professores de Prática de Ensino, é possível fazer grupos de estudos e mobilizar um projeto de Estágio para a universidade. Nesse caso, é fundamental a troca de experiências e pesquisas sobre o assunto. A rede de relação se estende ainda para os locais onde os estagiários atuarão, de forma que não seja apenas o professor que oriente o Estágio o responsável pelo trabalho de unidade entre teoria e prática;

  • a luta por um Estágio melhor elaborado não está desvinculada da luta pela melhoria dos cursos de formação de professores, pela valorização do magistério e por uma escola fundamental e média mais democrática e eficiente;

  • a luta por uma sociedade mais humana, mais justa e inclusive é o desafio de ética, competência e compromisso do educador de hoje e dos cursos de formação.

Guimarães Rosa nos diz que “mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende”. Exatamente esta postura de “eterno aprendiz” é o princípio norteador da nossa práxis educativa que consiste em aprender com a vida, com os livros, com o trabalho, com as pessoas, com a própria história.


_____________________________

¹ Texto resumo da minha dissertação de Mestrado. Estágio Supervisionado como elemento de mediação entre a formação inicial do professor e a educação continua – UFC, 1995. Para publicá-lo nesse livro incorporei alguns estudos feitos posteriormente sobre professor reflexivo.


Bibliografia

ALARCÃO, I Reflexão crítica sobre o pensamento de D. Schön e os programas de formação de professores. Revista da Faculdade de Educação. São Paulo vol. 22 nº 2 1996.

CARVALHO, L. M. de trabalho: relação teórica e prática nos estágios supervisionados 7º Encontro Nacional de Didático e Prática de Ensino. Anais Goiânia: Cegraf/UFG 1994.

CONTRERAS, J. La autonomia del professorado. Madrid: Morata, 1997.

FAZENDA, I. C. A. O papel do estágio nos cursos de formação dos professores PICONEZ, S. C. Bertholo. A prática de ensino e o estágio supervisionado. Campinas: Papirus, 1991.

FREITAS, H. C. L. Trabalho e relação teoria-prática nos estágios supervisionados de 1º Grau no Curso de pedagogia. 16ª Reunião da ANPED – 1993 (mimeo).

________O trabalho como princípio articulador da teoria prática. Campinas, 1994. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação de Campinas, UNICAMP.

GONÇALVES, C. L. e PIMENTA, S G. Revendo o ensino de 2º Grau, propondo a formação do professor. São Paulo: Cortez, 1990.

KENSKI V. M. A vivência escolar dos estagiários e a prática de pesquisa em estágios Supervisionados.

PICONEZ, S.B.C. (coord.). A prática de Ensino e o Estágio supervisionado. Campinas: Papirus, 1991.

KULCSAR, R. O estágio supervisionado como atividade integrada. PICONEZ. S.B.C. (coord.). A prática de ensino e o estágio supervisionado. Campinas Papirus, 1991.

_________ O estágio supervisionado como estratégia de integração entre a universidade e a comunidade. Universidade Estadual do Ceará, 1990.(mimeo).

LIMA, M. S. L. O estágio supervisionado como elemento mediador entre a formação inicial do professor e a educação continua. Dissertação (Mestrado). Fortaleza. UFC – Faculdade de Educação 1995 (mimeo).

LIMA, M. S. L. O estágio supervisionado como estratégia de integração entre a universidade e a comunidade: uma reflexão sobre a experiência de minicursos. Monografia. Limoeiro do Norte. UECE. 1990 (mimeo).

NÓVOA, A (org.) O professor e sua formação. Lisboa D. Quixote, 1992.

PICONEZ, S.C.B. A prática de ensino e o estágio supervisionado: a aproximação da realidade escolar e a prática de reflexão. Campinas: Papirus, 191.

PIMENTA, S.G. Formação de professores. São Paulo: 1995 (mimeo).

_______O pedagogo na escola pública. 2ª, Ed. São Paulo Loyola, 1991. (coleção Educar).

SCHÖN, D. A Formar professores como profissionais reflexivos. NÓVOA (org.). Os professores e sua formação. Lisboa: D. Quixote, 1992.

RIOS, T. A Ética e competência. São Paulo: Cortez, 1994. (Coleção Questões da nossa época Vol. 16).a)

VASQUEZ, A. S. Filosofia da práxis. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

VIEIRA, F. Fatores de constrangimento de uma abordagem reflexiva na formação didática de professores. Revista O professor. Lisboa, número, 29, 1992.



ATIVIDADES PARA REFLEXÃO


  1. Este texto aprofunda o conceito e analisa a prática do estágio. Desejo que ele sirva para a gente “mergulhar” um pouco mais no sentido do Estágio que estamos realizando neste curso. Podemos retirar das suas idéias e reflexões:

    1. Os conceitos de estágio, professor, professor reflexivo e outros mais.

    2. Os autores utilizados.

    3. A idéia básica e a conclusão.

    4. Algumas reflexões sobre a nossa vida de professores.




  1. Faça uma reflexão sobre o poema de Victor Hugo.


Desejo

Desejo primeiro que você ame.

Que amando, também seja amado.

E que se não for, seja breve em esquecer.

E que esquecendo, não guarde mágoa

Desejo, pois, que não seja assim,

Mas se for, saiba ser sem se desesperar.

Desejo também que tenha amigos,

Que mesmo maus e inconseqüentes,

Sejam corajosos e fiéis,

E que em pelo menos um deles

Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,

Desejo ainda que você tenha inimigos,

Nem muitos, nem poucos

Mas na medida exata para que, algumas vezes,

Você se interpele a respeito de suas próprias certezas.

E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,

Para que você não se sinta demasiado seguro.

(...)


desejo também que você plante uma semente,

Por mais minúscula que seja,

E acompanhe o seu crescimento,

Para que você saiba de quantas

Muitas vidas é feita uma árvore,

(...)


Desejo também que nenhum de seus afetos morra,

Por ele e por você,

Mas que se morrer, você possa chorar

Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Victor Hugo
ESTÁGIO E PESQUISA:

CONTRIBUIÇÕES PARA O DEBATE!¹

Maria Socorro Lucena Lima




  1. Pensar organizadamente o estágio

Essa convocação permite resgatar e refletir sobre a própria prática e teoria: o lugar de onde falo; quais as contribuições que recebi e recebo na construção do pensamento sobre o estágio supervisionado e na busca de sua organização no currículo.

Diz Tom Jobim em uma de suas poesias, “é impossível ser feliz sozinho” e eu acrescentaria que essa alegria de falar sobre o estágio, vem de uma caminhada que não foi feita sozinha. Contou com a experiência vivenciada ao longo da vida profissional, enquanto de professora prática de Ensino nos cursos de Magistério desde 1974, todas as lições que aprendi com os alunos e colegas, com as leituras e estudos acadêmicos realizados. Somam-se a essas vivências a troca de experiências e o exercício da prática reflexiva, a busca de uma política de estágio supervisionado para a universidade em que trabalho, com os colegas do grupo interdisciplinar de estudos sobre a prática de ensino e com os colegas da Universidade Estadual do Ceará. Contou ainda com as pesquisas especificas dessa área, bem como a influência das professoras orientadoras dos Mestrados e Doutorado – Susana Vasconcelos Jimenez – na UFC, área de Trabalho e Educação, e de Selma Garrido Pimenta- da área da Didática, na USP.



  1. Responsabilidade política de contribuirmos na superação de dificuldades

Tenho repetido muitas vezes que o estágio é o meu espaço de militância e paixão compreendido aqui como atitude política de práxis docente. O estágio permite a análise da realidade, das marcas do tempo histórico que estão na escola, nos estagiários, nas relações que se estabelecem nele, e a partir dele. Uma das maneiras que tenho encontrado para contribuir nas superações problemas do estágio supervisionado é tentar o aprofundamento teórico, ou seja, tratar o estágio como campo de conhecimento.

Dessa forma, pretendo, nesse texto, dar uma pequena contribuição para o debate, repartindo algumas reflexões feitas durante essa caminhada.



  1. A hora da prática

Lembrando a canção do Belchior que diz “Não quero te falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos; quero lhe contar como vivi e tudo que aconteceu comigo”, faço o enfoque sobre o conceito, tão comum, do estágio como a hora da prática, a parte prática do curso. Essa compreensão tem sido traduzida muitas vezes em postura dicotômicas em que a teoria e a prática são tratadas isoladamente, o que tem trazido equívocos graves nos processos de formação profissional.

A prática pela prática e o emprego de técnica sem a devida reflexão pode reforçar a ilusão de que há uma prática sem teoria ou uma teoria desvinculada da prática. Tanto é que ainda hoje é muito comum a abordagem dos alunos: “Na minha prática, a teórica é outra” ou ainda, a propaganda de uma Faculdade em outdoor que dizia “A Faculdade, onde a prática não é apenas teórica”. Isso teria sentido se a prática aqui fosse vista como práxis.

Práxis é a atitude (teórica-prática) humana de transformação da natureza e da sociedade. Não basta conhecer e interpretar o mundo (teórico), é preciso transformá-lo (práxis). De acordo com VASQUE (1977) a relação teórica e práxis é para Marx – teórica e prática – na medida em que a teoria, como guia de ação, molda a atividade do homem, particularmente a atividade revolucionária, teórica, a medida em que essa relação é consciente. A práxis seria, então, a prática impregnada e dinamizada pela reflexão.


  1. Aproximação da realidade

Um segundo enfoque mostra o conceito de estágio trabalho por GONÇALVES e PIMENTA (1990) EM QUE DEFENDEM O estágio como aproximação da realidade. Esse conceito sugere algumas indagações: aproxima-se de quem? Para quê? Que sentido está sendo dado a essa aproximação?

Aproximar-se da realidade tem sentido quando tem a conotação de “envolvimento” com intencionalidade, de ver, com o olho pedagógico de que fala Madalena freire, e de ver fundo, ver largo e ver claro, em profundidade e abrangente como diz a educadora Terezinha Rios, para poder fazer uma intervenção reflexiva, um olhar ético, que a reflexão crítica sobre um jeito de ser. A maioria dos estagiários burocratizados, carregados de fichas de observação que mais parecem uma enquête estão numa visão míope de aproximação da realidade.

Tem-se defendido muito a escola pública como lócus do estágio supervisionado. Eu também defendo essa questão, mas essa bandeira apenas não basta, é preciso ter claros os conceitos que estão embutidos na prática docente, quais os objetivos da mesma e qual a fundamentação teórico-metodológica que sustenta. Que sentido estamos dando ao estágio enquanto componente curricular relevante na mediação entre a formação inicial e continua?

Faz-se necessário um aprofundamento conceitual das práticas que se realizam no estágio. É preciso que o professor da universidade faça, no coletivo, junto a seus pares e seus alunos, essa aproximação maior, a partir da própria realidade conceitual de que se apropria. Para falar de estágio supervisionado na licenciatura ou no bacharelado, vale a pena verificar qual o sentido, qual o significado, o que representa para instituição e o professor: o que é estágio?, o que é o bacharelado? Essa caminhada conceitual certamente será uma trilha de novas experiências.




  1. Atividade teórica, instrumentalizadora da práxis

Em terceiro lugar, pretendo abordar sobre o estágio supervisionado enquanto atividade teórica instrumentalizadora da práxis (PIMENTA, 1994:121). Nessa concepção, o professor (ou futuro professor) é visto como um intelectual em processo de formação, e a educação como um processo dialético de desenvolvimento do homem historicamente situado. São as reflexões realizadas nas atividades do Estágio e a partir delas que propiciam a busca de reflexão na ação e sobre a ação (SCHÖN, 1992).

A idéia do professor reflexivo, desenvolvida por SCHÖN (1992) quando fala sobre a reflexão-na-ação, tem contribuído no sentido de valorizar a epistemologia da prática, tendo como luz a teoria que poderá redimensionar a prática. Os esclarecimentos feitos por CONTRERAS (1997) explicam de qual reflexão estamos falando. Trata-se daquela que não encerra uma concepção concreta sobre si mesma e tem seu uso adaptável a qualquer corrente pedagógica: é crítica, intencional e específica. Não é um trabalho individual, pressupõe relações sociais; não é neutra, serve a interesses humanos, sociais, culturais e políticos; não é um processo puramente criativo na construção de novas idéias, é uma prática que expressa nosso poder para reconstruir a vida social em que estamos inseridos. É uma postura que consiste em articular o conhecimento e as ações nas situações práticas e na elaboração de novas teorias. Autores como ALARCÃO (1996), CHAVES (1999) E PERRENOUD (1998), entre outros, têm contribuído nessa discussão.

Desses fundamentos, flui a postura metodológica que supera um modelo de estágio. Acredito que a questão do como fazer vai-se delineando a partir da clareza do perfil de professor ou de profissional que se pretende formar.


Encaminhando uma conclusão

Os procedimentos de pesquisa etnográfica como vivência dos estagiários tem aberto a perspectiva para o estágio investigativo da prática docente. A utilização de histórias de vidas, memoriais, memórias de bons professores, tem caminhado como elemento de autoformação nessa mesma perspectiva. Assim, o estágio pode ser um espaço de autoconhecimento, reflexão e ética.


A viabilização de ambientes favoráveis à formação os movimentos pedagógicos, reconhecimentos como lugares de formação e a prática de pesquisas coletivas são caminhos que podem representar o entendimento e a prática do estágio como pesquisa. Para que isso aconteça é preciso reconhecer o estágio como um campo de conhecimento a ser investigado, e não como prática apenas, mas com sensibilidade pedagógica capaz de ver a aparte e nela assumir a postura e o compromisso de compreender o todo. Trata-se da aprendizagem pedagógico de ler nas entrelinhas da sala de aula, do estágio, da escola, da realidade da vida, como o poema “O Fotógrafo” de Manoel de Barros.
Difícil fotografar o silêncio

Entretanto tentei (...)

Tinha um perfume de jasmim

no beiral de um sobrado.

Fotografei o perfume.

Vi uma lesma pregada

na existência mais do que na pedra.

Fotografei o perfume.

Vi uma lesma pregada

na existência mais do que na pedra.

Fotografei a existência dela.

Vi ainda um azul-perdão

no olho de mendigo.

Fotografei o perdão

Olhei uma paisagem velha

a desabar sobre uma casa.

Fotografei o sobre.

Foi difícil fotografar o sobre (...)

___________________

¹ Texto produzido para o II encontro Interinstitucional de Estágio Curricular-Fortaleza-CE 2001




Bibliografia
ALARCÃO, I Reflexão crítica sobre o pensamento de D. Schön e os programas de formação de professores.

Revista de Faculdade Educação. Vol 22, nº 02 p. 11-42, São Paulo, 1996.

CHAVES, I. S. Supervisão: concepções e práticas. Conferência de Abertura da Semana da Prática de Pedagogia das Licenciaturas de Ensino. Universidade de Aveiro, Portugal, 1999.

FAZENDA, I. C. A O papel do estágio nos cursos de formação de professor PICONEZ,. C. Bertholo. A prática de Ensino e o Estágio Supervisionado. Campinas: papirus, 1991.

FREITAS, H. C. L. E PIMENTA, S. G. Revendo o ensino de 2º Grau, propondo a formação do professor. São Paulo: Cortez, 1990

LIMA, M. S. L. O Estágio Supervisionado como elemento mediador entre a formação inicial do professor e a educação continuada. Fortaleza, 1995. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Educação, (Mimeo)

NÓVOA, A (org). O professor e a sua formação. Lisboa: D. Quixote, 1992.

PERRENOUD, P. Saber refletir sobre a própria prática, objetivo central de formação de professores? Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Universidade de Genebra, 1998.

PIMENTA, S. G. O estágio na formação de professores: unidade-teórica e prática? São Paulo: Cortez, 1994.

RIOS, T. A Ética e competência. São Paulo: Cortez, 1994 (Coleção Questões de nossa época, vol 16).

SCHÖN, D. A Formação professores como profissionais reflexivos. NÓVOA, Antônio (org). Os professores e a sua formação. Liboa: D. Quixote, 1992.

VASQUEZ, A S. Filosofia da práxis. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra 1977.

CONTRERAS, J. La autonomia del professorado Madrid: Ed. Morata, 1977.



Atividades para Reflexão


  1. O texto e a vida. Em que momentos o nosso estágio corresponde à teoria escrita no texto?

  2. Veja o poema Árvore, de Manoel de Barros.


Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.

Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.

No estágio de ser árvore, meu irmão aprendeu de sol, de

céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu para

santo mais do que os padres lhes ensinaram no internato.

Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.

Seu olho no estágio de ser arvore aprendeu melhor o azul.

E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida no

tronco das árvores só presta para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores

são vaidosas

Que justamente aquele árvore no meu irmão

se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o

entardecer dos pássaros.

E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos

brejos. Meu irmão agradeceu a Deus aquela permanência em

árvore porque fez amizade com muitas borboletas.

(Barros, Manoel de Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Record, 2000.).





  1. Que aprendizagens outras podemos elencar em nossos estágio, a exemplo do menino da poesia citada?


O bom professor nos filmes¹

Maria Socorro Lucena lima

Pérsio Nakamoto

Sou mais autêntico quanto mais

Me aproximo do meu sonho

(Filme: Tudo sobre minha mãe)


Quando se assiste a um filme cujo personagem principal é um mestre, é muito comum o enredo transmitir uma mensagem de otimismo, uma lição de vida, uma capacidade inata de perseverança e, principalmente, muito cuidado e dedicação. Muitas vezes, no entanto todo esse esforço é infrutífero deixando transparecer a decepção e a impotência.

Nesse texto, gostaríamos de estar refletindo sobre:



  1. o conceito de bom professor;

  2. a maneira como esse conceito se apresenta nas películas e

  3. a utilização desta como recurso pedagógico na formação docente.

O uso de filmes como ponto de partida para a reflexão pode ser de grande importância na formação inicial e contínua dos docentes. No entanto, requer um estudo prévio da fundamentação teórica sobre os conceitos, sobre a realidade apresentada no enredo e a articulação que é possível fazer entre o contexto do filme e a realidade vivenciada pelos educadores.

A maioria dos espectadores desse tipo de filme acaba refletindo se seria capaz de ser um professor nos mesmos moldes ou pelo menos ter o mesmo sucesso. Outros ainda se lembram daqueles professores que marcaram suas vidas profundamente. Nem todos, no entanto, percebem o real papel do professor na escola, na sociedade, na vida e o valor pedagógico do debate que o filme pode suscitar. Questionamos para isso: o que ser um bom professor no filme que fora dele? Que conceito e valores levam as pessoas a considerar esse personagem como bom? Bom para quem? Em quais circunstancias?

O conceito de bom professor não pode ser elaborado a partir da dicotomia entre “bom” e “ruim”. Essa compreensão é muito mais complexa, pois envolve circunstâncias históricas materiais, expectativas sociais e contexto estrutural de diversos grupos. Não se trata de uma lista de requisitos que juntos resultariam no perfil de bom professor, mas uma análise do processo como um todo e das relações que se estabelecem entre eles. Nesse sentido, CUNHA (1989) nos fornece algumas reflexões sobre o bom professor, mostrando que o conceito”(...) é valorativo, com referência a um tempo e a um lugar. Como tal é também ideológico, isto é, representa a idéia que socialmente é construída sobre o professor de hoje, com certeza, é diferente do de outrora; e o bom professor de um lugar é diferente do de outro lugar. O bom professor de Matemática para os alunos da 3º ano de ensino médio de uma escola de elite pode ser “o rígido” e para aluno do curso noturno de uma escola de periferia pode ser “o compreensivo”.

Devido ao papel social, criam-se muitas expectativas em relação ao professor, pois os atributos que a sociedade espera dele, no exercício de sua função (e muitas vezes, além desse limite), estão intrinsecamente ligados aos valores produzidos por essa mesma sociedade. Ao estudarmos o bom professor nos filmes, convém questionar como a temática é tratada na complexidade e na totalidade social e quais qualidades do mestre são evidenciadas, sem perder de vista a totalidade e as condições objetivas em que se desenvolve. É preciso ter cuidado de observar que o professor sozinho não vai dar conta de todas adversidades.

O segundo ponto a ser refletido é sobre a ideologia que se faz presente nas entrelinhas da história. Como é apresentado o professor na perspectiva individual, coletiva e organizacional? Até que ponto a afetividade poderia resolver de forma objetiva todos os problemas? Não estaria o professor assumindo a postura do herói romântico que tudo pode e, ao deixar de fazê-lo, as circunstâncias continuariam como sempre estiveram.

Em estudo realizado por nós na disciplina de Didática, com a professora Selma Garrido Pimenta, na FEUSP, por ocasião do Seminário: O bom professor nos filmes, verificamos que a maioria dos filmes que trabalhamos mostra as dificuldades do professor, ressaltando pontos comuns que podem ser destacados:


  • o professor, dentro do contexto e da realidade da sala de aula, pode encontrar mecanismo de sensibilização para que os alunos se mostrem motivados para uma possível mudança de atitude;

  • o professor consegue, com paciência e habilidade aproxima-se dos alunos, mesmo os mais resistentes e arredios;

  • o professor foge à regra geral e sua atuação tem uma originalidade que o faz amado e respeitado por seus alunos e, muitas vezes, admirado pelos colegas.

  • a questão afetiva se alia à competência teórica e metodológica;

  • o professor termina fazendo o papel de herói, ensinando aos alunos a encontrarem seus caminhos mesmo que eles próprios tenham momentos de crise e fraqueza.

A seguir, uma lista de alguns filmes e suas respectivas fichas técnicas com sinopses. A maioria deles pode ser encontrada em locadoras de vídeo. Perceber-se-á que em algumas dessas películas, a ênfase é dada ao aluno ou ao produto final, Isto é, ao ensino, mas a figura central do professor ainda aparece, em circunstância diversas.



1. Ao mestre com carinho - (To sir with love, 67 Inglaterra). Direção James Clavell. Com Sidney Poitier, Judy Geesen, Lulu, Suzy Kendall, Christian Robert, Faith Brook, Geoffrey Baydon. Drama sobre o cotidiano das escolas públicas na Inglaterra dos anos 60, em que um professor recém-contratado tenta transformar seus alunos rebeldes em jovens adultos.

2. Ao mestre com carinho – parte 2 (to sir wiht love II, 95 Inglaterra) Direção: Peter Bogdanovich. Com: Sidney Poitier, Christian Payton, Dana Eskelson, Fernando Lopez, Judy Geeson, Lulu. Aposentado, o professor assume aulas em uma escola da periferia de Chicago para, novamente, tentar mudar a vida de seus alunos.

3. Conrack - (Conrack 74 EUA). Direção: Martin Ritt, com John Voight, Paul Winfield, Hume Cronin, Madge Sinclair, Tina Andrews, Antônio Fargas. Numa empobrecida escola da Carolina do Sul, um criativo professor se utiliza de inusitado método de ensino.

4. Lições de infância - ( The elementary shool, 91 Respcheca). Direção Jan Sverák. Com Vaclav Jakoubec, Tadoslav Budac, Marek Endel, Michal Skrabal, Jan Triska. No interior da República da Checoslováquia, durante a II Guerra Mundial, garotos têm, na figura de professor, um modelo diferente de conduta.

5. Mentes perigosas - (Dangerous mind, 95, EUA). Direção: John N. Smith. Com : Michelle Pfeiffer, Robin Barlett, George Dzundza, John neville, Revnold Santiago. Ex-oficial da marinha abandona sua carreira militar para se tornar uma professora de Inglês, cujo desafio maior será ensinar literatura a um grupo de estudantes rebeldes.

6. Meu mestre minha vida - (Lean on me 89, EUA). Direção: John Avildesn. Com: Morg Freeman, Beverly Todd, Robert Guillaume, Alan North, Robin Barlett, Michael Beach. Professor retorna à escola de nova Jersey, onde lecionou vinte anos atrás, para livrá-la dos alunos violentos e viciados em drogas

7. Mr. Holland – Adorável professor (Mr. Holland’s opus, 95, EUA).Stephen Herek. Com Richard Dreyfuss, Glessa Headly, Jay Thomas, Olympia Dukakis, Alicia Witt. Mr. Holland ensina música em uma escola enquanto tenta compor uma peça sinfônica. No entanto, seu maior desafio é vencer a barreira que o separa de seu filho que é surdo.

8. Mudança de hábito 2 – (Sister Act 2, 93, EUA). Direção: Bill Duke. Com Whoopi Goldberg, Maggie Smith, Kahty Nadjimy. Disfarçada de freira, a cantora dá aula de música em escola religiosa freqüentada por alunos problemáticos. Com isso ela tenta transformá-los em adultos responsáveis

9. Nenhum a menos (Yi ge dou bu neng shao, 99 China). Direção Yimou Zhag. Com Minzh Weihuike Zhang Zhenda Tian, Enman Gao, Zhimei Sun. Em uma pequena vila montanhosa, uma menina de 13 anos se torna professora ao substituir o único professor durante um mês. Seu dever é fazer com que nenhum dos alunos desista da escola.

10. O preço do desafio (Stand and deliver, 88 EUA). Direção: Romon Menezes. Com Edward James Olmos, Lou Diamond Phillips, Andy Garcia, Rosana de Soto, Will Gotay. Numa escola pública, professor sul americano tenta lecionar Matemática para alunos marginalizados, ao mesmo tempo em que lhe proporciona uma nova postura frente à realidade que enfrentam.

  1. O substituto (The substitute, 96 EUA). Direção Robert Mendel. Com tom Berenger, Ernie Huudson, Dian Venora, Glenn Plummer, William Forsythe. Numa escola pública, professor é enviado pelo governo para que imponha a ordem, pois é um local onde impera a violência e as drogas.

  2. Onde tudo começa ( Ça commence aujourd’hui, 99 França). Direção Bertrand Tavernier. Com : Philippe Torreton, Maria Pitarresi, Nadia Kaci, Véronique Ataly, Nathalie Bécue, Emmanuelle Bercot. Daniel é um professor de uma escola infantil em uma pequena cidade francesa, cuja economia local, baseada na extração de carvão, sofre com a depressão econômica e com o descaso político governamental. No entanto, ele tenta educar as crianças da melhor forma possível.

  3. Sociedade dos poetas mortos (Dead Poets Society 89, EUA). Direção: Peter Weir. Com: Robin Willian Robert Sean Leonard, Ethan Hawke, Josh Charles, Gale Hansen, Dylan Kassman, Allelon Ruggieri, James Waterson. Drama em que alunos de uma escola conservadora dos anos 50 são influenciados pelo professor de literatura que os estimula a refletir por meio de poesias e com isso criar conflitos com a direção do colégio.

  4. Um novo homem (Renaissance man, 94, EUA). Direção: Penny Marshall. Com: Danny DeVito, Gregory Hines, James Rimar, Cliff Roberston, Lillo Brancatto. Um homem, que não é professor, é contratado pelo exército americano para dar aulas para recrutas considerados “menos” inteligentes.

  5. Um olhar para a vida (Une semaine de vacance, 80 França). Direção Bertrand Tavernier. Com Nathalie Baye, Gerard Lanvin, Michel Calabru, Philippe Noiaret, Philippe Lotard. Professor questiona os valores da profissão ao ficar esgotado nervoso por causa da sua relação com os alunos.

Ainda existem muitos filmes sobre o tema, no entanto, a lista continuará inacabada, uma vez que muitas películas ainda serão produzidas com certeza.

Tais filmes constituem um excelente recurso didático desde que se possa fazer uma reflexão crítica sobre os mesmos ao relacioná-los com a realidade em que estamos inseridos bem como o registro e troca de experiências. Por isso, após a projeção de algum desses filmes, sugerimos algumas reflexões. Essa tarefa poderá vir acompanhada da leitura de um texto pedagógico.


  • Levando em conta a postura do professor no filme, o que é preciso ser, sentir e fazer para se ensinar algo a alguém?

  • De acordo com o pensamento do educador Paulo Freire, “testemunhar a abertura aos outros, a disponibilidade curiosa à vida, a seus desafios são saberes necessários à pratica educativa”, como esse processo acontece no filme?

  • Diz o educador Paulo Freire que “(...) o que importa é que o professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos”. Dessa forma poderia acrescentar à sua prática docente ou a sua vida pessoal?

  • Se você pudesse interferir, o que mudaria ou acrescentaria no filme?

Assim como não há pessoas iguais nesse mundo, os professores também são todos diferentes. O filme, como instrumento de reflexão pedagógica, pode representar um excelente mecanismo de formação de docente. A internacionalidade da atividade na sala de aula, a clareza dos objetivos, o debate a partir dos problemas e das possibilidades apresentadas, o estudo crítico do enredo do filme, bem como a articulação com a realidade dos professores, tempo histórico e no espaço, constituirão uma oportunidade de diálogo e ressignificação do trabalho do professor.


__________________________

¹Na época do doutorado fui monitora da Profª Selma Garrido Pimentel no curso de Didática da licenciatura na USP em 1998. aluno dessa disciplina, Pérsio Nakamoto preparou comigo um Seminário sobre O Bom Professor nos Filmes e elaboramos este texto.

Bibliografia

CUNHA, M. I. O bom professor e sua prática. São Paulo: Papirus, 1989.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra 1996.


As coisas comuns nem sempre são banais ¹

Maria Socorro Lucena Lima


Lembro-me com bastante clareza como tudo começou

Até poderia dizer que começou do jeito muito normal (...)

As coisas mais comuns nem sempre são tão

banais como nós pensamos.

(Jostein Gaarder)
Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado

Fotografei o perfume

(Manoel de Barros)



Introdução

Essa reflexão convoca-nos a estar atentos para as questões da nossa prática cotidiana, que parecem comuns corriqueiras, no entanto podem conter grandes lições para a nossa formação pedagógica. Esperamos que ela possa abrir o debate e, assim constituir-se uma troca de experiências de grande importância para o desenvolvimento de uma postura reflexiva no dia-a-dia do nosso trabalho de formadores.

Trabalhar com alunos que já são profissionais do magistério requer desafios, por tratar-se de professores muitos deles, com experiências e conhecimentos acumulados. Nossa preocupação vai no sentido de questionar as possibilidades e limites do professor reflexivo que desejamos ser e quais são os caminhos dessa busca.
Contando a história

A disciplina Prática de Ensino previa encontros destinados à fundamentação teórica na área de formação de professores, orientação e acompanhamento do estágio Supervisionado. Tema da aula: prática docente. A professora tinha previsto, como embasamento teórico, o livro Pedagogia da autonomia de Paulo Freire, os alunos deveriam trazer o texto lido para discussão em classe.

A metodologia da aula consiste em uma divisão dos alunos em equipe, que trabalhariam o texto a eles destinado e, ao final um representante do grupo apresentaria o trabalho para o debate em sala de aula.

Uma das equipes tentava explicar o pensamento do autor: “ensinar é uma prática essencialmente humana” quando um dos colegas fez a seguinte provocação (mas é claro que apenas os humanos ensinam! Já viram algum animal ensinando alguma coisa a alguém?” a inesperada intervenção fez o debate parar, inclusive a professora, mesmo já sendo acostumada a trabalhar com o livro de Paulo Freire, nos cursos de formação de professores, tentava pensar rapidamente para conseguir bons argumentos e desfazer o impasse provocado.

Às vezes, as coisas que parecem tão óbvias e comuns, não são tão banais, como diz o autor em epígrafe desse texto: “As coisas comuns nem sempre são tão como nós pensamos “(GAARDER, 1997). Requerem uma abrangência, aprofundamento e uma contextualização para que possamos entendê-las.

Aquela provocação, que inicialmente soava como limitação do colega, deixava a classe, por um momento, sem resposta. A professora até pensou em sugerir uma outra pesquisa, em transformar aquele problema em investigação.

No entanto, foi caminhando no conceito das palavras de Paulo Freire que a questão pôde ser trabalhada ali mesmo. O que é conceito? É uma forma de pensar a realidade (LUKESI, 1990). A partir daí, todos foram convocados a pensar sobre o sentido de cada palavra.


  • O que é ensinar? Dentro da pedagogia, que é a ciência da educação, enquanto prática social, temos uma área chamada Didática, cuja preocupação concentra-se nas questões do ensinar e do aprender. Esse processo situado histórica e concretamente envolve tanto os alunos como os professores. O que é ensinar e o que é aprender? Em que circunstâncias? A que classe social pertencem? Quais as marcas da sociedade moderna globalizada que estão batendo na porta da escola e da sala de aula, onde o professor exerce sua profissão e os alunos estudam? Para que serve a educação?

  • O que é educação? Foram abertos novos questionamentos sobre a educação. Para que serve a educação? Serve principalmente para humanizar o homem. Para resgatar dele a sua genuína essência: ser gente e, como tal, realizar-se na comunhão com os outros homens. Essência foi entendida como sendo aquilo que se retirarmos, a coisa deixa de ser o que é. Entendendo assim, foram adiante para ver a educação como uma das instâncias da vida humana. Ela precisa de um contexto em que as necessidades humanas básicas, como comer, vestir, morar entre outras, estejam acontecendo assim como a liberdade e a dignidade. A falácia do discurso da educação como suas necessidades básicas são negadas. Dessa forma, concordamos com CORTELLA (1999) quando diz que:

Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação Libertária de que “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é ninguém é livre.




  • Ser profissional da educação É preciso compreender o sentido de ser “profissional da educação”, de ser “educador”, de ser “professor”, cujo trabalho é ensinar. Ensinar aqui estava sendo entendido como construir com os alunos, o conhecimento, de forma crítica, emancipatória, transformadora. Essa prática precisa ser considerada como uma construção, tecida pelos professores, os alunos e o conhecimento, considerando-se as condições objetivas, junto da realidade em que estão inseridos.

Ao mesmo tempo, o saber do conhecimento e o saber da experiência juntamente com o saber pedagógico, entre outros, precisam estar evidenciados na competência do trabalho do professor, que faz bem sua sala e sente-se bem em fazê-la, como diz Terezinha Rios em sua tese de doutorado. Com a consciência de que a essência do ato de educar, realizada também, através do ato de ensinar é a humanização do homem, fazê-lo crescer como pessoa que vive junto com todas as outras do seu tempo em um determinado lugar ficava mais fácil compreender a sentença do Paulo Freire: “ensinar é uma prática essencialmente humana” não apenas para dar de pronto um esclarecimento, mas para provocar novos debates e novas perguntas.
Ensinando e aprendendo

Esta aprendizagem de sala de aula tanto pode servir de pretexto para conversar com os professores, quanto para os colegas que trabalham com formação contínua de professores e dela levantamos alguns pontos para reflexão:




  • Quantos dos nossos alunos, pelo fato de já serem profissionais do magistério, não têm a coragem de expressar-se em colocações dessa natureza?

  • Será que muitos deles, mesmos não acompanhando o debate, fica calado para não se expor diante dos colegas?

  • Será que os alunos-professores não estariam priorizando a verbalização de idéias publicamente aceitas pelo professor formador e pela classe?

  • Será que não estamos sendo engolidos pela pressa com que os cursos de formação estão sendo concebidos e realizados, o que muitas vezes, impede ou dificulta o aprofundamento e a reflexão?

Talvez, na pressa de concluir as atividades pedagógicas, estaríamos passando por cima de lições fundamentais para a formação docente como de uma reflexão dessas, por exemplo.

Uma das lições mais fortes que ficaram dessa aula seria a sugestão de estarmos atentos para a importância de trabalhar os conceitos, para a necessidade de penetrar no sentido das palavras que dizemos e até defendemos. Nesse momento histórico que estamos vivenciando, esta postura metodológica poderia ser também uma forma de resistência ao discurso da política neoliberal, que vem utilizando e distorcendo os conceitos utilizados pelos educadores e pelos trabalhadores.

Que este texto possa cumprir sua função social de ser uma troca de experiências com os professores, com colegas formadores em formação contínua. Esse diálogo é um desafio a ser enfrentado. Fica para nós o recado da Gaarder.

__________________________

¹ A partir de uma aula dada em janeiro de 2000, no Programa Especial de Formação Pedagógica elaborei este texto. Sou grata aos alunos daquela turma pelas lições que no momento deixou para formador e formandos.




Bibliografia

CORTELLA, M. S. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos: São Paulo: Cortez 1998.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996a (Coleção Leitura).

GAARDER, J, Ei! Tem alguém ai? São Paulo Companhia das Letrinhas, 1997.

LUKESI, C. C. Encontro de formação de professores. Belo Horizonte, 1990

RIOS, T. A Por uma docência da melhor qualidade. São Paulo: 2000. Tese de doutorado. Faculdade de educação USP.




Atividades para Reflexão

Ele se inclinou bem para frente fazendo uma reverência. (...)

- Por que você está se inclinando desse jeito?(...)

- Lá de onde eu venho, explicou ele, nós sempre fazemos uma reverência quando alguém faz uma pergunta fascinante. E quanto mais fascinante for a pergunta, mais profundamente a gente se inclina. Nesse caso, perguntei, o que vocês fazem quando querem se cumprimentar? – Temos que fazer uma pergunta inteligente. Essa resposta me impressionou tanto, que fiz uma profunda reverência, me inclinando o máximo.

- Porque você fez uma reverência? Perguntou ele num tom quase ofendido.

- Porque me deu uma resposta superinteligente para minha pergunta, - respondi. “Daí numa voz bem alta e clara, ele me disse algo que eu haveria de me lembrar pelo resto da vida – Uma resposta nunca merece uma reverência. Mesmo quando for inteligente e correta, nem assim você deve se curvar para ela. Quando você se inclina, você dá passagem para uma resposta. (...) A resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você. Só a pergunta pode apontar o caminho para a frente”.

(Gaarder,Jostein. Ei! Tem alguém ai? São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1997)


  1. Relacione o texto com atividades de estágio e ação docente que você está desenvolvendo.

  2. Que perguntas sobre o estágio e a ação docente você lançaria para “apontar o caminho para frente”.



Catálogo: conteudos
conteudos -> Edital nº 07/2013-dta-fcl/CAr – Concurso para obtenção de título de Livre-Docente
conteudos -> Anexo II declaração [a que se refere a alínea a do n.º 1 do artigo 81.º]
conteudos -> Apl associação Portuguesa de Linguística Boletim Informativo nº 37 Fevereiro de 2003 Associação Portuguesa de Linguística boletim informativo
conteudos -> Projeto pibid: um relato de experiência na escola estadual de ensino fundamental e médio professor josé soares de carvalho
conteudos -> Do futuro, a força preventiva
conteudos -> Obesidade infanto-juvenil no contexto escolar: primeiras aproximaçÕES
conteudos -> Figuras do sistema preventivo próximas a dom bosco
conteudos -> Combate à pobreza e à exclusão social em período de crise económica e além: o método da governação multi-nível
conteudos -> Identidade e Valores
conteudos -> Breve biografia de Martin Luther King Jr


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