Reflexões sobre o Profissional de História: legislaçÃo e currículo da ufrj1



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Reflexões sobre o Profissional de História: LEGISLAÇÃO E CURRÍCULO DA UFRJ1
Profa. Dra. Regina Maria da Cunha Bustamante 2
Ao pensar a formação do Profissional de História, nada mais óbvio do que a necessidade de dialogar com a sociedade, na qual estamos inseridos, e refletirmos criticamente o “fazer histórico”. Novas exigências surgiram para a ciência histórica e, diante de tais perspectivas, se coloca a questão de “identificar as relações entre as atuais necessidades da sociedade contemporânea e o conhecimento histórico a ser veiculado pelas propostas curriculares” 3. Como se inserirmos o Ensino Superior neste quadro?

Tradicionalmente, operava-se nos Cursos de Graduação de História uma dicotomia: de um lado, o Bacharelado, e, de outro, a Licenciatura. Do primeiro, resultaria o pesquisador e, do outro, o professor. A ênfase estava contida na formação nos conteúdos da área do conhecimento. Desta forma, o Bacharelado surgia como a opção natural que poderia possibilitar também, como uma complementação pedagógica, o diploma de Licenciatura, ou seja, aos conhecimentos históricos específicos seriam acrescidos créditos definidos para a área pedagógica. Não havia uma preparação integrada que propiciasse uma reflexão dos conteúdos com a realidade específica da atuação docente. Era o que se convencionou chamar “esquema 3 + 1”. Neste contexto, a atuação do pesquisador ganhava relevância por ser aquele que produz o saber, enquanto a Licenciatura tornava-se residual, pois apenas instrumentalizava, através do aprendizado de métodos e técnicas de ensino, a reprodução deste conhecimento. Assim, a Licenciatura era vista, dentro dos muros da universidade, como “inferior”, em meio à complexidade dos conteúdos históricos, sendo, muito vezes, considerada como atividade “vocacional” ou que se caracterizaria por uma grande dose de improviso e auto-formulação do “jeito de dar aula”. Tal concepção foi perfeitamente expressa em uma das máximas proferidas por nosso então presidente Fernando Henrique Cardoso, significativamente revelando o ranço de um passado acadêmico extremamente conservador, “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Infelizmente, a situação consegue ser ainda mais lamentável, pois o fosso entre Bacharelado e Licenciatura é tão grande que o graduado, inserido no mercado de trabalho, acaba por reproduzir na sua sala de aula, não o que aprendeu no Bacharelado, mas sim, o que vira nos bancos escolares, quando era ainda estudante colegial, e/ou limita-se ao livro didático.



Nos currículos dos Cursos de História ainda vigentes, apesar da manutenção do currículo mínimo de 1962, pautado fundamentalmente em disciplinas teóricas determinadas segundo uma periodização espaço-temporal tradicional da História (Histórias do Brasil e da América e Histórias Antiga, Média, Moderna e Contemporânea), já se atentara para as transformações da ciência histórica. No “Preâmbulo” da proposta de Diretrizes Curriculares dos Cursos de História, documento elaborado por uma Comissão de Especialistas do MEC 4, que teve a contribuição das discussões ocorridas desde 1998 no âmbito de várias universidades e levadas aos núcleos regionais e à ANPUH Nacional 5, sendo aprovado em grande parte pelo parecer da Câmara Superior de Educação (CSE) do Conselho Nacional de Educação (CNE) em 3 abril de 2001 6, denunciavam-se estas limitações:
(...) Com efeito, nos anos que vão de 1968 a 1980 apareceram, em diferentes cronologias segundo os países (por exemplo já claramente em 1974 no caso da França, em 1980 nos Estados Unidos, bem mais tarde entre nós, pelo menos como consciência de rupturas radicais), questões que levavam à nova e mais complexa configuração do quadro em que se desenvolviam os estudos históricos. Se houve querelas epistemológicas e teóricas às vezes acirradas, o que mais interessa a nosso assunto é a formidável ampliação ocorrida nos objetos e enfoques disponíveis para os historiadores. Diante dela, o currículo mínimo passou a ser mais do que nunca uma camisa de força (grifos nossos) (...).”
Especificamente no currículo do Curso de História da UFRJ, recorreram-se às disciplinas complementares de escolha condicionada e, dentre elas, em especial aos denominados “Tópicos Especiais”, para dar conta desta ampliação do campo histórico e também superar as limitações do currículo mínimo. As disciplinas complementares objetivam verticalizar conhecimentos específicos nas áreas tradicionais anteriormente referidas, aprofundando e atualizando temáticas e abordagens, muitas vezes apenas esboçadas nas disciplinas obrigatórias. Neste conjunto, os “Tópicos Especiais” permitem que temas e abordagens, pesquisados no momento pelo corpo docente do nosso Departamento e que não se incluam no elenco de disciplinas temáticas predeterminadas de História, possam ser trabalhados. Assim, este tipo de disciplina garante um espaço para experimentação e atualização constantes. Este tipo de disciplina foi avaliado de forma muita positiva pelos professores e alunos do nosso Departamento durante o I Seminário sobre Reforma Curricular 7 e considerado um ganho a ser mantido no nosso próximo currículo. Entretanto, estamos cientes de que há a necessidade de se repensar o currículo como um todo e que o acréscimo de disciplinas é apenas um paliativo limitado para as amarras do currículo mínimo, como apresentado no referido documento dos especialistas do MEC:
(...) e a solução não seria a simples inclusão de novas áreas de conhecimento histórico e disciplinas afins em sua lista, já que a mencionada ampliação foi de tal ordem que, de fato, impunha a introdução de escolhas: não seria possível, obviamente, tentar esgotar a totalidade do campo percebido para os estudos da História no âmbito de um curso de Graduação, cuja duração deve obedecer a limites de ordem prática e relativos aos custos aceitáveis na formação de especialistas.”
Visando permitir uma maior flexibililidade, o atual currículo de História da UFRJ estabeleceu como único pré-requisito a Metodologia da História I, que introduz o graduando nas principais questões envolvidas na produção do conhecimento histórico. Há uma grade curricular recomendada, entretanto deve-se ressaltar que o graduando tem total liberdade para montar seu currículo, respeitando certas determinações da administração acadêmica da UFRJ. Em linhas gerais, recomenda-se que o aluno curse inicialmente as disciplinas da área de Ciências Humanas 8, efetivando um diálogo interdisciplinar, e disciplinas específicas do campo da História relacionadas ao período contemporâneo 9 por serem mais próximas à realidade do aluno e ao que ele aprendeu no ensino médio, cujo conteúdo faz parte do programa do vestibular do Rio de Janeiro. Na 1a metade do curso, seriam realizadas as disciplinas teóricas obrigatórias, estabelecidas pelo currículo mínimo. Desta forma, se obteria uma visão geral do processo histórico. A 2a metade seria dedicada a um aprofundamento de uma determinada área a partir do interesse do aluno através das disciplinas teóricas de escolha condicionada e de livre escolha e das disciplinas práticas voltadas à pesquisa discente. Nesta 2a metade, também seriam feitas as disciplinas específicas da complementação pedagógica, sob responsabilidade da Faculdade de Educação e tendo como campo de estágio o Colégio de Aplicação, para o turno diurno, e as escolas da rede pública, para o turno noturno.

Paradoxalmente, a flexibilidade do nosso currículo, pensada para dar maior liberdade ao aluno, foi avaliada com reservas pelos alunos, de acordo com a participação discente no já citado I Seminário sobre a Reforma Curricular. Houve inclusive a sugestão da volta dos pré-requisitos. Tal situação é compreensível se considerarmos que, até agora, a educação formal dos alunos caracterizou-se pela imposição curricular. Há, portanto, uma necessidade de se trabalhar melhor com esta situação objetivando quebrar esta prática impositiva para que o graduando se sinta seguro com a flexibilidade e a aproveite de forma construtiva, sem se recorrer ao pré-requisito e ao aumento das disciplinas obrigatórias, o que seria incompatível com a flexibilidade curricular. A inscrição nas disciplinas, quando realizada on line 10 pelo graduando, é um fator que dificulta uma efetiva orientação acadêmica na medida em que o aluno, contanto que esteja conectado ao sistema por internet, pode fazer sua inscrição em qualquer computador e a qualquer momento dentro do prazo estipulado. O sistema apenas considerará objetiva e restritamente os critérios previamente estabelecidos pelo nosso currículo (como o pré-requisito em Metodologia da História I) e pela Coordenação (limite de 60 alunos por turma, posição da disciplina na grade curricular recomendada, número de créditos realizados, coeficiente de rendimento, antigüidade da matrícula...). Por isso, nas discussões da Comissão de Reforma Curricular, pensam-se em estratégias para enfrentar este problema que se agrava com o número expressivo de graduandos no nosso Curso, aproximadamente 1.000, sendo a entrada anual de 180 para os dois turnos. É imprescindível, portanto, um aprofundamento da orientação e do acompanhamento acadêmicos até agora realizados, aventando-se inclusive a possibilidade de uma disciplina (teórica ou prática) ou seminários nos primeiros semestres com a finalidade de se debater com os alunos a sua trajetória no curso visando garantir e efetivar de forma proveitosa um currículo flexível.

Além das novas reflexões acerca dos pressupostos, fundamentos e objetivos do conhecimento histórico, evidenciam-se também novas condições profissionais, que demandam mudanças curriculares. Retomando o documento da Comissão de Especialistas do MEC,
Com efeito, quando do estabelecimento do antigo currículo mínimo, na década de 1960, os cursos de Graduação em História apresentavam quase todos, neste país, baixo grau de profissionalização e uma presença muito limitada (quando não a simples ausência) de atividades de pesquisa desenvolvidas por docentes e, com maior razão, por estudantes. Os professores universitários trabalhavam em condições difíceis, marcadas quase sempre pela ausência do regime de dedicação exclusiva; inexistia um sistema de bolsas de pesquisa para docentes e discentes. A época inaugurada pela década seguinte, entretanto, em função de mudanças que se davam no seio da área de conhecimento e de transformações institucionais importantes - surgimento e expansão do regime de dedicação exclusiva, implantação progressiva de um sistema nacional de Pós-Graduação em História, aparecimento de um sistema consistente e permanente de bolsas de pesquisa para professores e alunos, mais tardiamente uma proliferação das revistas e outras publicações especializadas -, foi marcada por passos muito importantes no sentido da profissionalização dos historiadores e da consciência da necessária indissociabilidade do ensino, da pesquisa e da extensão na Universidade (grifo nosso), ponto posteriormente transformado em preceito constitucional.”
Eis aqui a pedra angular das Diretrizes dos Cursos de História: “consciência da necessária indissociabilidade do ensino, da pesquisa e da extensão na Universidade”. Este trinômio também é defendido em outros cursos, como se comprovou em discussões realizadas pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ durante o I Congresso Interno de Licenciatura da UFRJ, ocorrido de 8 a 10 de agosto de 2001. Já há algum tempo, evidencia-se um consenso neste aspecto. Desde a Constituição do Brasil de 1988, estabelecera-se que as Universidades deviam obedecer ao “princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” (Art. 207, Seção I, Capítulo III, Título VIII).

O documento original da Comissão de Especialistas segue nesta mesma linha:


(...) não se deve pensar em um curso que forme apenas professores, uma vez que a formação do profissional de História se fundamenta no exercício da pesquisa, não podendo a formação do docente ser compreendida sem o desenvolvimento de sua capacidade de produzir conhecimento (grifo nosso).”
Este documento foi desvirtuado no texto final das Diretrizes Curriculares dos Cursos de História, cujo parecer (CNE/CES 0492/2001) foi aprovado em 3 de abril do ano passado e sua resolução (CNE/CES 13) em 13 de março do corrente. Na parte referente às “Competências e Habilidades” do parecer, criou-se uma separação entre “Gerais” e “Específicas para Licenciatura”, limitando esta última ao “domínio dos conteúdos básicos” e “dos métodos e técnicas pedagógicos que permitem a transmissão do conhecimento (grifo nosso)”. O parecer anunciava que os Cursos de Licenciatura seriam orientados pelas Diretrizes Curriculares para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica em Cursos de Nível Superior, que foram antecedidas de uma proposta de um Grupo de Trabalho do MEC (maio de 2000) avaliando a Reforma da Educação Básica e sua relação com a formação de professores e apontando para as Diretrizes. Este documento foi resumido no parecer CNE/CP 009/2001 de 8 de maio de 2001, que propôs um projeto de resolução, havendo adendos (parecer CNE/CP 021/2001 de 6 de agosto e os pareceres CNE/CP 027/2001 e 028/2001 de 2 de outubro de 2001) relativos à determinação da carga horária e à natureza do estágio curricular. Finalmente, em 2002, foram publicadas duas resoluções: a que institui as Diretrizes Curriculares para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica em Cursos de Nível Superior (CNE/CP 01 de 18 de fevereiro) e a que estabelece a duração e carga horária dos Cursos de Licenciatura (CNE/CP 02 de 19 de fevereiro).

A “enxurrada” de textos oficiais sobre a Licenciatura, alguns bem densos, diga-se de passagem, assusta e demanda paciência daqueles que queiram se inteirar sobre a questão. Distintamente das Diretrizes Curriculares dos Cursos de História, estes textos acabam por amarrar demais os Cursos de Licenciatura, não respeitando a autonomia universitária nem considerando a flexibilização local e regional das leituras sobre o assunto. Se, por um lado, houve a interpretação de que a legislação sobre a Licenciatura tinha em foco mais os cursos novos do que aqueles já em funcionamento, por outro, permanecia a questão da avaliação institucional, tratada no mesmo artigo, pois o grau de adaptação das estruturas existentes à nova resolução do MEC poderia afetar o processo de avaliação institucional. Em que medida se respeitaria a autonomia universitária das IES (estabelecida no Art. 207, Seção I, Capítulo III, Título VIII da Constituição Brasileira de 1988) garantindo-nos certa flexibilidade na interpretação das regras?

Além disso, as Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores despertaram preocupações no tocante à superação da dicotomia ensino-pesquisa. Durante o XXI Simpósio Nacional de História da ANPUH, em 25 de julho de 2001 em Niterói, aprovou-se uma moção condenando as Diretrizes Curriculares para Formação do Professor por não respeitar “o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, bem como entre Licenciatura e Bacharelado”. Havia o receio de que elas acabassem por alargar o fosso entre Bacharelado e Licenciatura, em prejuízo de uma formação mais completa, complexa e integrada de um profissional de História, como apontada na proposta inicial das Diretrizes Curriculares do Curso de História, que seguiu em linhas gerais um documento do MEC, datado de 1986, contendo um diagnóstico dos Cursos de História e que teve a contribuição importante das reflexões levadas pela ANPUH em seus Simpósios Nacionais e Encontros Estaduais a partir da década de 1980. Em novembro de 2001, num encontro nacional da diretoria da ANPUH com representantes dos núcleos regionais e membros do GT de Ensino de História da entidade, apresentaram-se os pontos de contradição entre a proposta original da Comissão de Especialistas e as Diretrizes para a Formação Inicial do Professor da Educação Básica (CNE/CP 009/2001), a saber: negação de uma formação de um profissional de História capacitado ao exercício do trabalho do historiador em suas múltiplas dimensões; limitação a uma “transposição” do saber acadêmico para a área da educação fazendo com que o professor seja um mero reprodutor de conhecimento; centralização na “pedagogia da competência” que periga de se confundir com habilidades técnicas e mecânicas; e o abandono de uma avaliação processual e qualitativa por uma produtividade concentrada no mensurável. A partir desta avaliação, reafirmaram-se a formação integral do profissional de História, a indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão, o diálogo contínuo e renovado entre saberes acadêmicos e escolar e a natureza educativa e social de toda e qualquer dimensão do trabalho do historiador 11.

Nas discussões preliminares, realizadas no âmbito da Comissão da Reforma Curricular e que serão posteriormente estendidas ao Departamento de História, há a tendência de construir um currículo que estreite os laços entre Bacharelado e Licenciatura, praticamente tornando-os um só curso e garantindo assim a indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão, configurada desde o início através de uma entrada única no vestibular. Atualmente, os debates estão centrados na viabilidade de se manter um curso único visando coadunar o perfil de graduado, que queremos formar, com as determinações de carga horária, estipuladas pela legislação, e a exeqüibilidade da integralização do curso dentro de um prazo de tempo razoável. É o momento de avaliarmos a estrutura do nosso Curso e propormos parâmetros que contemplem e privilegiem as nossas necessidades e anseios, procurando evitar o “engessamento legislativo”.

Com as novas demandas sociais, que ampliaram o campo de atuação do profissional de História e a necessidade de dominar novas tecnologias, metodologias e conceitos, potencializou-se a importância de uma reforma curricular. Tal situação fora apontada pela Comissão de Especialistas do MEC:
A mesma ampliação se dava quanto às ocupações funcionais dos profissionais formados em História no Brasil. Se a tradicional dicotomia entre Bacharelado e Licenciatura parecia bastar no começo da década de 1960, ela parece cada vez mais limitada ou acanhada numa época como a nossa, quando, além das tradicionais destinações (ensino de primeiro e segundo grau, por um lado; ensino universitário ao qual se vinculava a pesquisa, por outro), pessoas formadas em História atuam, crescentemente (e a lista a seguir é seletiva, incompleta): em institutos de pesquisa que não desenvolvem atividades de ensino; realizando pesquisas ligadas a questões vinculadas ao patrimônio artístico e cultural, à cultura material (associação Arqueologia/História, atuação em museus) ou a serviço dos meios de comunicação de massa (imprensa, televisão etc.); funcionando em assessorias culturais e políticas também; trabalhando na constituição e gestão de bancos de dados, na organização de arquivos e em outras áreas de um modo geral ligadas à reunião e preservação da informação (grifo nosso).”
Sensíveis a esta expansão de possibilidades de atuação no mercado de trabalho, para o nosso I Seminário de Reforma Curricular, convidamos profissionais de História que desenvolviam atividades em diversas áreas: magistério, arquivos privados, museus... Uma questão levantou-se na ocasião: por mais flexível que o campo do profissional de História possa se configurar, ele esbarra nas profissões regulamentadas em áreas afins, o que finda por definir o nosso campo de atuação regular como ensino e pesquisa. Seja como for, não podemos nos furtar a ocupar estes espaços tão vitais para nós. O Departamento de História já iniciara uma discussão neste sentido ao propor três novas disciplinas de caráter prático e geral (Práticas de: Bibliotecas, Arquivos e Patrimônio Histórico), para serem trabalhadas conjuntamente com a Prática de Ensino de História, procurando assim atender ao objetivo do curso que é a formação de um profissional de História que conjugue ensino e pesquisa. É necessário ressaltar que, para o educador, o domínio do trabalho em arquivos históricos, bibliotecas e patrimônio histórico é fundamental tanto no processo ensino-aprendizagem como na formação de uma memória social e de uma consciência de cidadania entre os educandos. De certa forma, o Curso de História da UFRJ desenvolveu este aspecto nos denominados RCCs – Requisitos Curriculares Complementares – que abrangem atividades práticas.

No Curso de História da UFRJ, a pesquisa discente foi implantada oficialmente no nosso atual currículo com a obrigatoriedade da Monografia para a obtenção do Bacharelado e da Licenciatura. Para tanto, adotaram-se disciplinas práticas para o Bacharelado – através do Requisito Curricular Complementar (RCC) – que englobam tanto as atividades nos grupos de pesquisa como a Monografia, todas avaliadas com aferição de grau. O primeiro tipo de atividade, ou seja, a pesquisa em grupo, é desenvolvida no âmbito dos 8 Laboratórios existentes no Departamento de História até o presente momento: Laboratório de História Antiga (LHIA); Programa de Estudos Medievais (PEM); Laboratório Medievo (MEDIEVO; em implantação); Programa de Teoria, Historiografia e História da Cultura (PROCULT; em implantação); Programa de Estudos Americanos (PEA); Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa em História Social (LIPHIS); Núcleo de Pesquisa e Estudos Históricos (NPEH); e Laboratório de Estudos do Tempo Presente (TEMPO). Estas disciplinas práticas são optativas e duas delas são equivalentes a uma disciplina teórica complementar de escolha condicionada ou de livre escolha. Elas contribuem de maneira significativa na elaboração da monografia, condição sine qua non para obtenção do Bacharelado e da Licenciatura em História. Além disso, os Laboratórios realizam e incentivam a participação nas atividades de extensão, atendendo, portanto, a este importante aspecto da formação discente. Esta experiência foi considerada extremamente positiva pelos professores e alunos do Curso e também pela “Avaliação da Comissão da Área de História” 12, realizada em 1998 pela Coopera, formada por professores externos à UFRJ:


(...) um sucesso, constituindo verdadeiramente a espinha dorsal do curso. É o lugar em que é possível a integração Graduação – Pós-Graduação, facilitando a circulação dos conhecimentos produzidos além de possibilitar também a ação em nível de extensão. É verdadeiramente um ‘locus’ privilegiado para atualização e modernização do curso.”
Quanto à Monografia, é um RCC obrigatório realizado em 3 períodos. Constitui-se num trabalho monográfico com base na pesquisa sobre um tema específico de livre escolha do aluno, cuja elaboração é desenvolvida sob orientação de um professor. As monografias, como trabalhos terminais do Curso de Graduação, podem ser o elo com as diversas modalidades de pós-graduação (Especialização, Mestrado, Doutorado). Elas são avaliadas não apenas pelo professor orientador, mas também por dois outros professores, não necessariamente do nosso Departamento, que possam contribuir para o aperfeiçoamento do trabalho do aluno.

Nas discussões sobre a Reforma Curricular, a ampliação deste tipo de atividade foi consensual. Assim, pensa-se em adotar também os RCCs – Requisitos Curriculares Complementares – que contemplariam atividades práticas de apoio (como grupos de estudo, apoio, leituras e mesmo cursos de extensão e eventos) e estágios. Assim, se valorizariam algumas atividades informais que já são efetuadas, mas que não são computadas no currículo do aluno nem consideradas na carga horária do docente. Interessante constatar que, neste aspecto, as novas Diretrizes Curriculares para Formação de Professores concedem um tempo significativo para estas atividades: “400h de prática como componente curricular, vivenciadas ao longo do curso” e “200h para outras formas de atividades acadêmico-científico-culturais” (Resolução CNE/CP 02, Art. 1o, Itens I e IV, de 19 de fevereiro de 2002).



Refletir sobre a formação do profissional de História demanda debater sobre as diretrizes, as estratégias, o perfil do profissional que formamos e do que queremos formar. Esta necessidade já era por nós sentida em nossa vivência cotidiana dentro e fora do espaço universitário e se aprofundou e se tornou premente com a aprovação das resoluções governamentais que estabeleceram as Diretrizes Curriculares tanto para os Cursos de História como para a Formação de Professores. É um desafio, mas que vale a pena aceitá-lo. O X Encontro Regional da Associação Nacional de História é um fórum ideal e privilegiado para abrigar uma mesa-redonda desta natureza abrindo assim o diálogo entre os profissionais de História interessados em participar.

1 Trabalho apresentado na mesa redonda “Olhares sobre a formação dos professores de História” do GT de Ensino de História durante o X Encontro Regional de História da Associação Nacional de História – Núcleo Rio de Janeiro (UERJ, 14 a 18/10/2002).

2 Coordenadora de Licenciatura do Curso de História e representante do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) na Comissão Permanente de Licenciatura (CPL) do Conselho de Ensino de Graduação (CEG) da UFRJ.

3 BITTENCOURT, C. Capitalismo e cidadania nas atuais propostas curriculares de História. In: BITTENCOURT, C. (org.). O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1997. p. 14.

4 Composta pelos professores doutores: Ciro Flamarion S. Cardoso, Elizabeth Cancelli e Luzia Margareth Rago.

5 Ver BOLETIM DA ANPUH 7 (14): 2, 1o. trimestre de 1999.

6 Parecer n° CNE/CES 492/2001.

7 Ocorrido durante os dias 12, 13 e 14 de abril do corrente e promovido pela Comissão da Reforma Curricular do Departamento de História, composta pelos professores doutores: Manoel Luís L. Salgado Guimarães (Presidente), Ana Maria Monteiro (Profa. de Prática de Ensino de História, lotada na Faculdade de Educação), Gracilda Alves, Leila Rodrigues da Silva, Marieta de Moraes Ferreira, Marta Mega de Andrade, Sílvio de Almeida Carvalho Filho e eu (Professores do Departamento de História) e pelas representantes discentes, Anna Carolina de Oliveira M. D. Costa e Giovana Xavier.


8 Filosofia I e II, Sociologia Geral, Antropologia Cultural e Economia.

9 História do Mundo Contemporâneo, História da América Contemporânea e História do Brasil Contemporâneo.

10 Atualmente, está sendo implantado o SIGA (Sistema Integrado de Gestão Acadêmica), que, quando plenamente operacional, permitirá ao aluno fazer não apenas a inscrição nas disciplinas mas também acompanhar sua vida acadêmica e obter documentos como comprovante de inscrição em disciplinas do período corrente, boletim e histórico escolar.


11 INFOANPUH 28 DEZEMBRO-2001 – DIRETRIZES CURRICULARES. In: “informe-anpuh” <informe-anpuh@uol.com.br>, disponível em 22/12/2001, 10:03:46 –0200, pp. 3-5.


12 COOPERA. Avaliação Institucional do CFCH. Relatório Final. Rio de Janeiro: 1998. p. 127.




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