Reflexão Crítica Sobre as Virtudes da Educadora ou do Educador Paulo Freire



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Reflexão Crítica Sobre as Virtudes da Educadora ou do Educador

Paulo Freire
Estas virtudes não podem ser vistas como algo com o qual um presente que recebe, mas como uma forma de ser, de encarar, de comporta-se, de compreender, tudo o qual se cria através da prática, em busca da transformação da sociedade.

Não são qualidades abstratas, que existem antes que nós, senão que se criam conosco ( e não individualmente).

As virtudes das quais vou falar não são virtudes de qualquer educador, mas daquelas que estão comprometidos com a transformação da sociedade injusta, para criar uma sociedade menos injusta.

DISCURSO E PRÁTICA





  1. Ser coerente entre o que diz o que se faz

A primeira virtude ou qualidade que eu gostaria de ressaltar, é a virtude da coerência. A coerência entre o discurso que se fala e anuncia a opção, e a prática que deveria estar confirmado o discurso.

Esta virtude enfatiza a necessidade de diminuir a distância entre o discurso do candidato e a prática.

Isto não é fácil de atingir.

Quando me refiro a esta virtude, no mais alto nível da luta política, eu digo que tem que diminuir a distância entre o discurso do candidato e a prática do que resulta elegido, de tal maneira que em algum momento a prática seja discurso seja prática.

Obviamente que nesta tentativa d coerência, é necessário assinalar em primeiro lugar, que não é possível alcançar a coerência absoluta e que, em segundo lugar isto seria um fastídio.

Imaginem vocês que a gente vivesse de tal maneira a coerência, que não tivesse a possibilidade de compreender o que é coerente, porque só se é coerente! Então não se sabe o que é.

Se necessita ser incoerente para se transformar em coerente.

Há, porém, um mínimo tolerado para a incoerência. Eu não posso proclamar minha opção por uma sociedade justa participativa, e ao mesmo tempo, rejeitar um aluno que tem uma visão crítica de mim como professor.

PALAVRA E SILÊNCIO





  1. Saber manejar a tensão entre a palavra e o silêncio

Outra virtude que emerge da experiência responsável é a virtude de aprender a lidar com a tensão entre a palavra e o silêncio. Esta é uma grande virtude que os educadores temos que criar entre nós.

O que quero dizer com isto?

Trata-se de trabalhar essa tensão permanente que se cria entre a palavra do educador e o silêncio do educando, entre a palavra dos educadores e o silêncio do educador.

Se nós, com educadores, não resolvemos bem esta tensão, pode ser que a nossa palavra termine por sugerir o silêncio permanente dos educadores.

Se não sei escutar e não dou o testemunho aos educandos da palavra verdadeira através de minha exposição à palavra deles, termino discursando “para” eles. Falar e discursar “para” termina em sempre em falar “sobre”, que necessariamente significa “contra”.

Viver apaixonadamente a palavra e o silêncio significa falar “com” os educadores para que também eles falem “com” a gente.

Os educandos têm que se assumirem também como sujeitos do discurso, e não como repetidores do discurso ou da palavra do professor.

Viver esta experiência da tensão entre a palavra e o silêncio não é fácil. Requer muito de nós.

Tem que se aprender algumas questões básicas como estas, por exemplo: não exemplo pergunta boba, como não existe resposta definitiva.

A necessidade de perguntar é a parte da natureza do homem. A ordem animal foi dominando o mundo e se fazendo homem sobre a base de perguntar e perguntar-se.

E preciso que o educador testemunhe nos educandos o gosto pela pergunta e o respeito À pergunta.

A pergunta é fundamental, enlaçada na prática.

Às vezes, por exemplo, o educador percebe em uma classe que os alunos não querem correr o risco de perguntar, justamente porque às vezes temem seus próprios colegas.

Eu não tenho dúvida em dizer que, às vezes, quando os colegas se burlam de uma pergunta, o fazem como uma forma de escaparem-se da situação dramática de não poder perguntar, de não poder afirmar uma pergunta.

Às vezes o próprio professor, frente à pergunta que não vem bem organizada, desenha um sorriso, dessas que todo mundo sabe que significam por sua maneira especial de sorrir.

Não é possível este modo se comportar porque conduz ao silêncio. E uma de castrar a curiosidade, sem a qual não há criatividade. È preciso desenvolver uma pedagogia de perguntar, porque o que sempre estamos escutando é uma pedagogia da contestação, da resposta.

Da maneira geral, os professores contestam perguntas que os alunos não têm feito.



SUBJETIVIDADE E OBJETIVIDADE





  1. Trabalhar criticamente a tensão entre a subjetividade e a objetividade

Outra virtude è a de trabalhar em forma crítica a tensão entre subjetividade e objetividade, entre consciência e mundo, entre ser social e consciência.

E difícil esta tensão porque nenhum de nós escapa à tentação de diminuir a objetividade e reduzi-la ao poder da subjetividade todo-poderosa. Então se diz que a subjetividade arbitrariamente cria o concreto, cria a objetividade.

Não se pode transformar o mundo, sem transformar as consciências das pessoas, esse é um dos mitos em que milhares de pessoas têm caído. Primeiro transforma-se o coração das pessoas e, quando se tem uma humanidade bela, cheia de seres angelicais, então, esta humanidade faz uma revolução que é divina também...Isto simplesmente não existe, jamais existiu.

A subjetividade muda no processo de mudança da objetividade.

Eu me transformo ao transformar. Eu sou feito pela história ao fazê-la.

Outro erro que está nesta tensão é o de reduzir a subjetividade a um puro reflexo da objetividade. Então, esta ingenuidade assume que só deve-se transformar a objetividade para que, no dia seguinte, mude a subjetividade.

Não é assim porque os processos são dialéticos, contraditórios, processuais.

Quando eu lhes digo que é fácil que agente ande pelas ruas da história sem sofrer alguma destas duas tentações e andei caindo um pouco para o lado da subjetividade.

Lembro, por exemplo, que na ”Educação como Prática da Liberdade” tive alguns momentos que anunciavam que tinha sido picado pelo subjetivismo.

Quando leio a palavra “conscientização” – palavra que nunca mais usei desde1972, a impressão que tenho é que o processo de aprofundamento de tomada de consciência aparecia em certos momentos da minha prática como algo subjetivo.

Me auto critiquei quando vi que parecia que eu pensava que a percepção crítica da realidade já significa sua transformação. Isto é idealismo. Superei essas fases, esses momentos, essas travessias pelas ruas da história em que fui picado pelo psicologismo ou pelo subjetivismo.



AQUI E LÁ



4. Diferenciar o aqui e o agora do educador, do aqui e o agora do educando
Outra virtude do educador e da educadora é não só compreender, mas viver a tensão entre o aqui e o agora do educador e o aqui e o agora do educador e o aqui e o agora dos educandos.

Porque na medida em que eu compreendo a relação entre “o meu aqui” e o “aqui” dos educandos é que começo a descobrir que o meu aqui é o lá dos educandos.

Não existe lá sem aqui, o que é obvio. Só reconheço que existe um aqui porque há algo diferente que é o lá.

Somente é possível conhecer um aqui porque existe um contrário.

Se eu estou numa rua, existem só três posições possíveis: no meio, em um lado ou no outro. As demais são aproximações a estas três posições básicas. Se eu estou do lado daqui e quero ir do outro lado devo atravessar a rua.

É por esta razão que ninguém chega lá partindo de lá. Isto é algo que nós políticos – educadores e educadores- políticos nos esquecemos, é dizer respeitar a compreensão do aluno, da sociedade, da sabedoria popular, do sentido comum que têm os educandos.

Então pretendemos partir do nosso aqui.

Eu não estou dizendo que os educadores devem ficar permanentemente no nível do saber popular. Há uma diferença muito grande entre ficar e partir.

Eu falo de partir do nível em que o povo se encontra, porque alcançar o lá passa pelo aqui.


“ESPONTANEÍSMO” E MANIPULAÇÃO



5. Evitar o “espontaneísmo” sem cair na manipulação
Existe outra virtude que é evitar cair em práticas “espontaneístas” sem cair em posturas manipuladoras.

Isto não é assim. O contrário destas duas posições é o que eu chamo uma aposição radicalmente democrática.

A esta altura quero dizer que não se deve temer pronunciar a palavra democracia. Porque existem muitas pessoas que, ao escutar essa palavra, a associam com a sociedade com social-democracia e, imediatamente, com reformismo.

TEORIA E PRÁTICA



6. Vincular teoria e prática
Outra virtude é a de viver intensamente a relação profunda e a teoria, não como superposição, mas como unidade contraditória. De tal maneira que a prática não possa prescindir da teoria.

É preciso pensar a prática para, teoricamente, poder melhorar a prática.

Fazer isto demanda uma enorme seriedade, uma grande rigorosidade (e não superficialidade). Exige estudo, criação de uma disciplina séria.

Pensar que tudo o que é teórico é ruim, é algo absurdo, é absolutamente falso. Há que lutar contra esta afirmação. Não se deve negar o papel fundamental da teoria.

Porém, a teoria deixa de ter qualquer repercussão se não uma prática que motive a teoria.

PACIÊNCIA E IMPACIÊNCIA



7. Praticar uma paciência impaciente
Outra virtude é a de aprender a experimentar a relação tensa entre a impaciência, de tal maneira que jamais se rompa a relação entre as duas posturas.

Se uma enfatiza a paciência, cai no discurso tradicional que diz: “Tenha paciência meu filho, porque teu será o reino dos céus”. O reino deve ser feito aqui mesmo, com uma impaciência fantástica.

Se nós rompemos a relação entre paciência e impaciência, deixando-nos ganhar pela impaciência, caímos no ativismo. O ativismo esquece que a história existe, não tem nada a ver com a realidade, pois está fora dela.


TEXTO E CONTEXTO



8. Ler o texto a partir da leitura do contexto
Finalmente, eu diria que tudo isto tem a ver com a relação entre a leitura do texto e a leitura do contexto.

Esta é uma das virtudes que deveríamos viver para testemunhar aos educandos, qualquer que seja seu grau de instrução-universitário, básico ou de educação popular-, a experiência indispensável de ler a realidade sem ler as palavras. Para que inclusive possam entender as palavras.


Toda leitura de texto pressupõe uma rigorosa leitura do contexto.






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