Relações raciais, gênero e mobilidade social em Belém



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DONAS DA HISTÓRIA

Relações raciais, gênero e mobilidade social em Belém


O estudo das relações raciais tem sido apontado por diversos autores como fundamental para o entendimento de sociedades pluri-raciais (Thomas E. Skidmore, 1976, 1990; Richard Grahan, 1990 e George M. Fredrickson, 1995).

No caso das relações raciais – mais precisamente entre negros e brancos – na sociedade brasileira, pode-se dizer que o tema tem sido alvo de interesse desde o final do século XIX. Nossos intelectuais, informados pelas teorias raciais de então, que enfatizavam a superioridade da raça branca, pensavam o futuro do país com grande pessimismo. Este pensamento está associado, inicialmente, aos estudos de autores como Sylvio Romero, Raymundo Nina Rodrigues (o principal representante do racismo científico entre nós) e Oliveira Vianna.

Mas o debate em torno das relações raciais, como sabemos, vai surgir nos trabalhos de Roger Bastide e Florestan Fernandes1. Além destes autores, nomes como os de Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni, dentre outros, estão associados à “Escola de São Paulo”. Em que pese a importância do trabalho desses autores, a discussão em torno da questão racial não chegou a ser um tema central na academia2. Segundo a antropóloga Maria Angélica Motta-Maués (1997), mesmo levando em conta a influência desses autores (que desenvolveram seus trabalhos a partir das décadas de 1940 e 1950), o interesse pelo tema vai sofrer uma espécie de “esfriamento”, situação que persistiu por quase duas décadas, só rompida a partir de 1970 por um dos poucos cientistas sociais que continuam fiéis ao tema, justamente o sociólogo Carlos A. Hasenbalg, com seu referencial estudo (Hasenbalg, 1979)3. E esta importância, para Motta-Maués, está ligada ao fato de este autor tomar o dado étnico (raça ou cor) “(...) como elemento imprescindível de análise de uma sociologia que pretenda dar conta das múltiplas faces assumidas pela situação de enfrentamento de grupos vistos como racialmente distintos” (idem, p. 81)4.

Considerando estas questões (aqui apresentadas de maneira bastante esquemática), é que analisei, tendo como locus da pesquisa a cidade de Belém, como se dão e como são pensadas as relações raciais a partir dos relatos e das idéias expressadas por mães de famílias negras – mulheres, casadas ou não, que têm filhos e são negras - das camadas médias urbanas.

Neste trabalho, que aborda questões que desenvolvi na minha dissertação de mestrado5 (Cf. Julião, 2000), apresento um resumo das versões de minhas interlocutoras sobre o tema aqui tratado. Inspirada no antropólogo americano Clifford Geertz (1989), o que na verdade apresento são “interpretações de interpretações”: “(...) os textos antropológicos são eles mesmos interpretações e, na verdade, de segunda e terceira mão. (por definição, somente um ‘nativo’ faz a interpretação em primeira mão: é a sua cultura” (p. 25-26).


l Breve história da pesquisa
Além da relevância teórica do tema que venho estudando, posso dizer que a definição dessas mulheres (mães, negras) como via de acesso ao problema das relações raciais entre negros e brancos, não foi uma escolha arbitrária, nem casual. O interesse em conduzir a investigação aqui proposta já tem uma espécie de “tradição” de mais de dez anos em minha vida acadêmica, começando em 1988, quando realizei um pequeno estudo sobre discriminação racial em Belém. Naquela ocasião – ano do centenário da Abolição – entrevistei mulheres negras com instrução de nível superior sobre a pertinência, ou não, da comemoração da data, considerando a situação das mulheres negras em geral, e delas, em particular, no mercado de trabalho (Julião, 1988). Posteriormente, em um outro trabalho elaborado para analisar as dificuldades que as mulheres negras com escolarização superior enfrentam para ingressar no mercado de trabalho (Julião, 1993), entre os dados recorrentes, o que me chamou a atenção foi o fato de as mães serem apontadas como as grandes (ou quase únicas) responsáveis por essas mulheres terem estudado.

Um dos imperativos, apontados pelas entrevistadas, que levou as famílias a incentivá-las a estudar foi a situação financeira desfavorável da família. Mas as dificuldades de base racial acabaram emergindo. Dou como exemplo a fala de uma dessas mulheres, ao lembrar os conselhos da mãe: “(...) Ela bate até hoje, todo mundo já adulto, ela bate: ‘vocês não serão ninguém, vocês não serão aceitos se vocês não estudarem... porque as pessoas brancas, por mais pobres que sejam, elas têm um acesso muito maior’” (Julião: 1993, p. 17).. E foi pelo que vi e o que ouvi nos trabalhos anteriores e agora no final desta pesquisa, que posso falar que nessas famílias havia um projeto visando à mobilidade social ascendente das filhas. Um projeto que já era articulado, pelo que ouvi, na geração de seus avós.

Foi então que “levada pelas mãos de suas filhas” – mulheres negras, minhas interlocutoras nos primeiros trabalhos _ fiquei interessada em interpretar como estas mães de famílias negras de Belém pensam a questão racial, notadamente no que diz respeito às mulheres. Minhas atuais interlocutoras foram Dona Regina, Dona Isabel, Dona Ana Maria, Dona Isis, Dona Alice, Dona Maria da Penha, Dona Eliude e Dona Izoleide6. E foi por meio de suas histórias de vida que tive acesso às versões que estas histórias produziram sobre a questão das relações raciais, traduzidas em um discurso que tinha (tem), como ponto central, na verdade, um antigo projeto de vida. Projeto que incluía um cálculo social: a mobilidade social ascendente das filhas (dos filhos todos), alcançada através da educação. Esta última sendo (na visão delas), o pilar principal onde se apoia o projeto. Daí por que o fio condutor do meu “olhar” sobre o debate das relações raciais ser o discurso das mães sobre a importância da escolarização das filhas/filhos.


2 Lembranças da vida: na família, o começo da história
Embora o tema “família” não fosse a discussão central do meu trabalho sobre relações raciais, não pude ignorá-lo, pois, ao falarem da ascensão que conquistaram através da escolaridade, as minhas primeiras interlocutoras me levaram, como mediadoras, às suas mães e, consequentemente, às suas famílias7.

No Brasil, a literatura sobre o tema ilustra bem a dimensão do interesse que ele desperta. Os trabalhos vão desde a discussão da própria utilização do conceito até a formação da instituição, desde o período da colonização até a modernidade, ou seja, os possíveis modelos de “família branca brasileira” (Medina, 1974; Durhan, 1983; Freyre, 1984; Almeida, 1987; Da Matta, 1987; Lins de Barros, 1987; Samara, 1987; D’Incao, 1989; Bruschini, 1990; Corrêa, 1993; Stolcke, 1993; Vaistman, 1994; Silva, 1998; Gonçalves, 1999). Mas, em que pese o interesse e a as diversas abordagens, muitas interrogações ainda permanecem. Porém, como nos lembra Gilberto Velho (1987) a Antropologia tem mostrado que, embora o repertório seja limitado – aliás, como sempre - dentro dele existem “n” tipos de famílias.

A lição de Gilberto Velho é extremamente importante, pois me permitiu refletir e discutir, a partir do que falaram as minhas atuais interlocutoras sobre suas “famílias negras”. Um grupo que, ao se verificar a bibliografia, tem sido muito pouco estudado, em comparação com a grande preocupação dos estudiosos sobre o grupo oposto, a “família branca”.

Quando se fala de família negra no Brasil, a referência obrigatória para os estudos pós-escravidão é, sem dúvida, o trabalho de Florestan Fernandes (1979), “A integração do negro na sociedade de classes”. Um estudo posterior, de Irene Maria F. Barbosa (1983), que focaliza, especificamente, a família negra em Campinas, indica que, embora autores abordem o tema, a família negra não em sido o foco privilegiado das atenções.

O trabalho de Florestan adquire uma importância fundamental porque, ao focalizar o negro e o mulato, na São Paulo das três primeiras décadas deste século que está terminando – num momento em que coincidem a emergência da ordem social competitiva, a expansão urbana e a imigração - dá uma dimensão de como se estruturam as relações e as hierarquias raciais entre negros, mulatos e brancos e a conseqüente exclusão dos primeiros nessa nova ordem8. Ao considerar tanto a situação da mulher, quanto a da família negra no contexto de transformações pelas quais estava passando a cidade de São Paulo nesse período, não deixa de levar em conta, também, a vivida por negros e mulatos durante a escravidão. Ele credita, como sabemos, a uma “herança” daquele período, uma parcela considerável de responsabilidade pela incapacidade de inserção e adaptação dos negros e mulatos à nova ordem.

Em linhas gerais, pode-se dizer que o autor confere a essa “herança” as dificuldades de inserção no mercado de trabalho para homens e mulheres. No caso das mulheres, a “saída” terminou sendo o trabalho como empregada doméstica9, dentre outras ocupações. Estas circunstâncias vão dar origem a discussões sobre a “incompletude” da família negra.

Em trabalho recente, a antropóloga Teresinha Bernardo (1998), toma como tema central de seu livro “Memória em branco e negro: olhares sobre São Paulo”, as relações entre descendentes de italianos e de africanos nas primeiras décadas deste século, na mesma São Paulo (do mesmo momento) estudada por Florestan há quarenta anos atrás. Um dos capítulos do trabalho de Bernardo reconstitui, através de fragmentos da memória de velhas negras, a paisagem da cidade daquele período. E, segundo a autora, das memórias das velhas negras que ela entrevistou emerge uma situação – que também remete ao período da escravidão e que tem “raízes africanas”10 – que deixa claro que as mulheres negras “(...) constituíram a família matrifocal em São Paulo na primeiras décadas deste século, e que, em alguns casos, essa matrifocalidade perdura ainda hoje” (p. 66).

Lançando um olhar sobre Belém, a partir das lembranças das minhas interlocutoras, pude ver uma situação local e específica para a mesma problemática. Não estou querendo com isto dizer que negros e mulatos aqui não passaram por dificuldades, a exemplo do que ocorreu em São Paulo, mesmo que se leve em consideração a diferença do contexto sócio-econômico daquela cidade11 (em relação a Belém), na época estudada por Florestan, e que aparece também nas lembranças da velhas negras entrevistadas por Bernardo. Estou chamando a atenção – e creio que é isto que importa – para as possibilidades e estratégias diversas que os grupos humanos encontram vivenciando situações semelhantes.



O grupo de famílias que constituiu o meu universo de pesquisa – oito, o número das minhas interlocutoras – me permite falar em outras possibilidades, além das descritas por esses dois autores sobre a família negra. E aceitar este universo como válido para análise. Mesmo porque ele se amplia, pois, das lembranças e da vida concreta destas mães de famílias negras de Belém – como seus relatos revelaram - emerge um quadro relacional de avós, pais, tios, irmãos, sobrinhos, parentes, enfim, com respectivos cônjuges e descendentes. Por isto falo de universo ampliado, que me permite, por sua vez, falar em “outras possibilidades”.

2.1 Estudar para não ser “preto tu” e sim, “preto sim senhor”
As recordações destas mulheres negras indicam que nas primeiras décadas deste século em Belém12, algumas famílias começam a articular um projeto de ascensão social para os filhos, que se tornaria viável pela escolarização13. Lembro aqui, o que já mencionei antes, que no trabalho realizado em 1993, as minhas interlocutoras daquela ocasião apontavam as mães como as grandes (ou quase únicas) incentivadoras para que elas estudassem. As minhas interlocutoras para este trabalho, revelam que, além das mães, os pais (além de outros atores sociais como padrinhos e tios), estiveram envolvidos neste projeto pontual mais firme de escolarização. E nos revelam que, em meio às dificuldades, decorrentes de uma situação financeira nem sempre favorável14, seus pais as alertavam e apontavam a importância do “estudo”.

“Então ele [o pai] dizia que o estudo era a coisa principal, porque um dia, que nos discriminassem, que a gente não desse o troco com palavras grosseiras, nem fosse brigar, porque realmente a gente era negro, mas nós tínhamos o nosso DIPLOMA15! Nós tínhamos o nosso canudo.

E a mamãe, apesar dela também ter pouco estudo, ela deve ter estudado até um terceiro ano do antigo primário, ela dizia: ‘Olha, nunca vocês queiram ser preto tu, queiram ser sempre preto sim senhor’”! (Dona Isis)
Perguntei a Dona Isis se a mãe explicava o que significava para ela estas duas categorias e ele me respondeu que sim Segundo ela, para sua mãe

“Ela queria dizer que o preto “tu” era aquele preto lambudo, aquele preto que não se dava apreço, não se tocava, não queria se colocar no seu lugar, um lugar mais alto. Então o preto “sim senho” era aquele preto que tinha um diploma, que tinha um estudo, que todo mundo cumprimentava e baixava a cabeça: ‘Sim senhor! Sim senhor’!”
Dona Isis evoca ainda, com detalhes, como esses conselhos eram dados.

“Meu, meu pai... e minha mãe... a gente sentava em volta de uma mês, então eles diziam: ‘Olha, antes de vocês pensarem em casar, vocês estudem, porque o melhor marido é o estudo, é o saber, ninguém TIRA! Marido morre, marido vai com outra mulher e o estudo, não vai com ninguém, vocês levam pro túmulo’”.
Dona Ana Maria e mãe moravam na casa de sua madrinha, onde a mãe trabalhava como empregada doméstica. Ela estudou em colégio particular e formou-se em 1966 – é Técnica em Contabilidade - porque tinha bolsa de estudo, patrocinada pelo governo do Estado. Quando o governo atrasava a bolsa, o pai de sua madrinha pagava o colégio
Então o pai da dindinha pagava o colégio pra eu não se chamada na secretaria. Eles sempre pagavam. Quando o governo reembolsava o colégio, ele [o pai de sua madrinha] devolvia o dinheiro pra minha mãe. Eles doavam para ela”.
Ao falar de sua trajetória de estudante, Dona Ana Maria a associa ao sacrifício da mãe que, segundo ela “nunca teve carteira assinada”. Quando elas se mudaram - depois de formada e já trabalhando, a filha comprou uma casa - a mãe não foi sequer indenizada.
“A indenização dela foi a minha educação. Eu que considerei. Nunca teve carteira assinada, férias, nada! Nem sei quanto era o salário [da mãe] (...)”
Quando lhe perguntei se a vida da mãe lhe serviu de espelho, Dona Ana Maria admite que sim, evocando ainda o conselho materno, que ela não entendia muito bem, quando era criança

“Ah!... na época em que eu era criança, a minha mãe dizia assim: ‘Olhe estuda, estuda minha filha, estuda pra não puxar carroça’. E eu fiquei com medo daquilo... eu era muito tola

‘Minha vida de foi a de uma criança normal, da situação que a gente tinha ... pobre mesmo. Mas papai sempre incentivou a gente a estudar, com as posses que ele tinha” (Dona Eliude).
Mas estas mulheres não chegaram a concretizar o projeto dos pais. E hoje, ao falarem de suas vidas, admitem que se tivessem estudado, teriam mais “chances” na vida.
Se tivesses estudado, teria mais chances. Quando me separei do pai da minha primeira filha, não fui para os Estados Unidos porque não sabia inglês. Um casal americano queria uma governanta de confiança. Uma mulher negra e sem instrução tem mais dificuldade” (Dona Regina).
“Estudei no colégio de freiras em Santarém16. O Colégio Santa Clara. Eu era interna. Não quis estudar. Mas acho que se tivesse estudado mais, teria mais chances na vida. Se tivesse estudado, não teria passado dificuldade quando meu marido morreu. Sofri muito” (Dona Isabel).
“Depois dos filhos criados, eu quis retornar17, ver se fazia... Mas justamente porque eu achava que os filhos precisavam estudar mais do que eu mesma, então eu murchei nas bases [risos]. Eu tenho certeza de ele [o pai], me ajudaria a ter minha farmácia, trabalhar por conta própria... Eu acho que teria mais oportunidades na vida” (Dona Isis).
“Se tivesse estudado eu acho que teria mais chances. Eu acho que sim. Ia muito bem... sempre trabalhando com a minha mãe. Eu tinha vontade de terminar o primário e ir pra Escola Prática de Comércio né? (...) Aí... por causa das circunstâncias mesmo [financeiras] que não deu. Aí eu preferi ficar em casa pra ajudar minha mãe e aí não tive mais oportunidade” (Dona Alice).
3 Donas da história
As lembranças das minhas interlocutoras para este trabalho sobre suas vidas com os pais e suas reflexões sobre as “chances” que perderam por não terem estudado (mesmo com o incentivo que receberam dos pais) indicam a primeira etapa do projeto de ascensão social. Que começa a se firmar quando elas se casaram e tiveram seus filhos.

Quando falam da trajetória de suas vidas com marido, filhas e filhos, elas revelam como retomaram o antigo projeto e conseguiram mudar a vida, senão de todas, pelo menos de algumas de suas filhas. O cálculo continuou sendo, como anteriormente, de ascensão social através da escolaridade. Considerando a situação da população negra em nossa sociedade, e das mulheres negras em particular, elas se tornaram mesmo “donas da história” pois foi a partir de suas experiências de vida que traçaram – com seus maridos - o rumo da vida das filhas. Estas sim as “doutoras”, com o “diploma”, com o “canudo” que elas próprias não “tiveram chance” de ter.


3.1 Um “acúmulo de desvantagens”
Ao analisar as possibilidades de mobilidade social ascendente para negros e mulatos no Brasil, Carlos Hasenbalg (1979, Cap. VII)18 chama a atenção para o fato de que existe um “acúmulo de desvantagens” dos filhos de pais “não-brancos”, ao competirem com os filhos de pais brancos. Desvantagens essas, segundo ele, que acompanharão os primeiros em suas subsequentes carreiras como adultos.

Conforme Hasenbalg, os filhos terminam por acumular as vantagens da família em que nasceram e foram criados. No caso de uma discriminação racial no passado – como ocorreu com os negros no Brasil, como sabemos - as gerações seguintes vão estar certamente em desvantagem, pois geralmente procedem de famílias de baixa posição social. Por isso ele postula que a filiação racial interfere “(...) tanto nos processos de acumulação de (des) vantagens pelos filhos quanto em suas subsequentes carreiras como adultos” (p. 199).

Essa situação, segundo o autor, se mantém em decorrência de práticas discriminatórias sutis e da existência de mecanismos sociais que singularizam a discriminação racial brasileira. Grosso modo, estes mecanismos são: 1) o processo histórico de manutenção dos não-brancos fora do mercado de trabalho; 2) a fragmentação da identidade racial da população de cor19; 3) as armas ideológicas: branqueamento e democracia racial.

Não resta dúvida de que os mecanismos de entrave ao processo de mobilidade social ascendente têm sido eficazes e permanecem atuantes, como analisou Hasenbalg e, mais recentemente, outros autores (Goldani, 1991; Batista & Galvão, 1992; Silva & Lima, 1992; Cailleux, 1994). Mas será que esta linha de análise, feita a partir de dados quantitativos, não pode ser complementada com outras abordagens?

A resposta a esta questão, que vem sendo procurada – timidamente até, eu diria – por alguns autores brasileiros, é discutida também por Hasenbalg (1996), em trabalho intitulado “Entre o mito e os fatos: racismo e relações raciais no Brasil”. Partindo de uma revisão de trabalhos que abordam a situação dos não-brancos, ao tratarem de temas como expectativa de vida, educação, participação no mercado de trabalho, renda, segregação racial e mobilidade social, ele salienta que a quase totalidade dos trabalhos revisados foi produzida a partir dos censos demográficos e pesquisas realizadas pelo IBGE (que ele tão bem utiliza). Por isto, ele afirma:

“(...) são dados inadequados para estudar tanto a forma como as pessoas vivenciam o racismo e as relações raciais na vida cotidiana quanto a operação de práticas racistas dentro de determinados contextos institucionais e organizacionais”.


Então, segundo Hasenbalg: “Aqui são claras as vantagens das abordagens menos quantitativas e mais antropológicas, mas esta área de pesquisa se encontra ainda em fase incipiente” (p. 241).

Concluindo seu trabalho, ele lembra que nos últimos 20 anos, o movimento social dos negros, de um lado, os estudiosos das relações raciais no Brasil, de outro, têm chamado a atenção tanto para os aspectos culturais da questão ( o particular e a diferença), quanto para o aspecto universal, ou seja, a cidadania. Esta tendência, ainda segundo ele, é decorrente de uma leitura externa do Brasil, baseada nas experiências norte-americana e da descolonização dos países africanos. Mas conclui: “Talvez a nova agenda deva preservar o equilíbrio entre o particular e o universal, mas partindo de uma interpretação do nos seus próprios termos, e não de uma leitura a ele externa” (idem, p. 246).

Entendo então que, se a perspectiva é antropológica, não se pode perder de vista o plano de nossas representações simbólicas. Ao levar em conta como as minhas interlocutoras pensam, vivenciam e falam sobre relações raciais entre negros e brancos, o que pretendo é salientar um determinado “ponto de vista” – o das minhas interlocutoras – sobre a questão.
3.2 “Pra ficar no apagado, não daria”
A trajetória da das famílias das minhas interlocutoras se constitui, também, em um exemplo da pertinência das análises (a partir de suas pesquisas quantitativas) do autores citados. Isto pode ser observado quando estas mulheres (minhas atuais interlocutoras) falam das dificuldades que elas e seus maridos passaram para criar os filhos, traduzidas, algumas vezes, em expressões como “vida restrita” ou “vida difícil”. Mas considerar a possibilidade de “penetrar na subjetividade do outro” (como nos ensina Roberto Cardoso de Oliveira, 1993) é contribuir para o desvelamento de outros discursos. Que certamente não invalidam os existente mas se acrescentam a eles como elos de uma trama de atualização e interpretações própria da complexidade da vida social.

Além disto, Gilberto Velho (1980), falando do trabalho do antropólogo em sua própria cidade nos lembra que: “A possibilidade de partilharmos patrimônios culturais com os membros de nossa sociedade não nos deve iludir a respeito das inúmeras descontinuidades e diferenças provindas de trajetórias, experiências e vivências específicas” (p. 16).


“Era uma vida restrita. O dinheiro era um só. Nós juntávamos. Eu recebia, ele [o marido] recebia. Tira daqui par pagar colégio, isso daqui é pra pagar aquilo... pagar todas as contas. O saldo [dos salários], ficava reservado pra emergências e pra nossa condução” (Dona Ana Maria).
“Eu e ele trabalhando. Eu na costura. Foi difícil. Mas eu costurava muito! Sabe como é. Quem tem filho, é dona-de-casa, tem que fazer as coisas de dia. Então à noite, eu ia costurar, adiantar as costuras” (Dona Maria da Penha).
“Começamos trabalhando com muita dificuldade. Mas o Anézio [o marido], é muito trabalhador. Hoje ele se acha muito cansado. Mas também! Uns trinta e cinco anos trabalhando, já é pra cansar. Eu trabalhei com ele de uma época para cá. Que ele tinha aquele negócio de que mulher não podia trabalhar fora. Depois, que ele viu que a mulher dele é inteligentíssima, aproveitou [risos]. (Dona Eliude).
“A vida não foi muito fácil, porque nós começamos assim: só ele trabalhando e eu criando os filhos em casa. Fazendo tudo, comprando as coisas. Eu mesma indo pra fazer tudo” (Dona Isis)
Este começo, “tão difícil”, nas palavras destas mulheres, foi sem dúvida responsável pela preocupação em relação ao futuro das filhas (dos filhos todos). É evidente que a situação dos negros, e das mulheres negras em particular, são dados que foram considerados20. E a “saída”, a possibilidade de ascensão social (superando todo um acúmulo de desvantagens), deveria ser, repito, através “dos estudos”, que elas mesmas não puderam concluir.

No entanto, quando se considera as análises sobre escolaridade, pode-se compreender quão ambicioso era o projeto destas mulheres. Embora seja um dado importante, poucas pesquisas consideram que raça ou cor sejam determinantes da escolaridade. Trabalhos como os de Figueira, 1990; Hasenbalg, 1992; Valle e Silva & Hasenbalg, 1992; Cedenpa, 1996 indicam as diferenças de realização educacional entre negros e brancos no Brasil.

Em seu trabalho mais recente, Luiz Claudio Barcelos (1992) enfatiza que as desigualdades não têm sido a dimensão mais enfocada na literatura sobre relações raciais no Brasil e reafirma que, no que diz respeito à educação, esse tema tem merecido pouca atenção. Seu artigo, na verdade, faz uma revisão dos estudos realizados na área - enfocando o que é conhecido sobre a escola e os índices de realização educacional - e atualiza os diagnósticos da Pesquisa Nacional por amostragem de Domicílio (PNAD), de 1987 e 1988. Segundo ele

“(...) o que os dados nos revelam sobre os diferenciais de realização educacional dos grupos raciais é alarmante. Menos alfabetizados, retidos em patamares educacionais mais baixos, poucos negros conseguem chegar à universidade (...) Um negro com curso superior completo é um ‘sobrevivente’ do sistema educacional e, ademais, enfrentará sistemática discriminação no mercado de trabalho (...)” (p. 55).


Se a situação educacional é tão “alarmante” como enfatiza Barcelos, se tão poucos negros conseguem “sobreviver” ao sistema, este grupo de famílias negras de Belém nos últimos cinqüenta anos enfrentou e encaminhou a situação tentando fazer com que seus filhos e, em particular, as filhas superassem o “acúmulo de desvantagens” para ascender socialmente. Ele também pode ser tratado como parte das amostragens constantes das pesquisas que examinam a relação desigualdade racial x escolaridade. Embora com outra forma de referir a questão.

“(...) o meu ideal era ser farmacêutica, que se eu tivesse concluído esse ideal, eu não seria tão sacrificada na criação delas (...) Então, já que eu não pude concluir esse ideal, eu falei pra elas que elas deviam estudar, porque eu não ia tentar estuar pra dar espaço pra elas” (Dona Isis).
“Eu penso que a pessoa tem que estudar. Além de ser negra, se não estudar, não tem acesso a outros lugares, é discriminado. As pessoas não têm respeito. E isto eu não quero pra ela” (Dona Izoleide) .
“O fato delas serem negras também pesou. Estudar... estudando, pra não serem humilhadas. Porque o negro sem estudo não é NADA! E no caso delas serem mulher, complica um pouco. Porque o homem... não passa o que a mulher passa. Ele tem... Ele é mais respeitado! Ele é mais respeitado” (Dona Ana Maria).
“No caso das minhas filhas, eu achava mais importante que elas tivessem uma profissão primeiro. Mais importante do que casar, é ter uma profissão, não depende do homem. Mas eu não sou contra o casamento! No caso da mulher negra, é uma forma dela não ser discriminada. Com o diploma, ela já consegue se impor. No caso das minhas filhas, acho importante. Se elas não tivessem estudado, não teriam conseguido o que conseguiram, NÃO TERIAM MESMO”! (Dona Isabel).
Dona Beatriz, irmã de Dona Alice e que sempre participou das entrevistas, complementando as lembranças da irmã, avalia que foi importante para toda a família a ascensão das sobrinhas

“Eu acho que na família não mudou. Na família não mudou, eu quero dizer, essa nossa posição de entendimento. Mudou sim, para melhor! Porque elas, com esta qualidade e sabedoria delas, melhorou pra família. Porque se não tivesse essa qualidade delas estudar, de aprender, de se formar e tudo, a família não teria se desenvolvido. O conhecimento delas enriqueceu a família no sentido material e de conhecimento. E isso é muito importante. Importantíssimo! Pra mim é. Deus me livre, pra ficar no apagado, não daria” [risos].
Levada pelas mãos de suas filhas (minhas interlocutoras no trabalho que realizei em 1993) cheguei a estas mães que me revelaram como pensam as relações raciais, de que maneira procuraram superar os mecanismos sociais que a sociedade brasileira utiliza para manter subordinados negros e mulatos e, em particular, as mulheres negras. Mas essas mulheres são realistas. Quando analisam as chances de ascensão social das filhas – mesmo com diploma – elas têm consciência da situação.

“Hoje eu acredito que os pretos têm mais chances, desde que estudem. Pra uma mulher negra, era difícil. Hoje também é. Uma mulher negra que estuda, tem mais chances na vida. Mas as brancas têm mais chances do que as pretas. Se duas doutoras – uma branca, outra preta – procuram emprego, a branca tem mais chances. Se tiver uma só vaga, é da branca, mesmo que a preta seja mais inteligente” (Dona Regina).
Em depoimento à revista Veja, na reportagem especial da jornalista Daniela Pinheiro intitulada “A classe média negra”, a gerente financeira da Mitsubishi no Brasil, Conceição Vianna, que é negra, exemplifica, de certa forma, a interpretação de Dona Regina. Embora tenha conseguido o emprego na empresa, ao disputar uma vaga de contadora com um colega – branco – recebeu dele, o que ela chamou de “cumprimento cruel”, que, segundo ela “ainda guarda na memória”, embora preferisse tê-lo esquecido: “Quando ele soube do resultado, virou-se par mim e disse que, se pudesse, entraria numa máquina do tempo e mataria a princesa Isabel (...)” (1999, p. 61).

Conceição Vianna teve sua competência reconhecida pela empresa. Afinal, ficou com a vaga. Mas não teve reconhecido o seu direito a esta vaga pelo colega. Pelo fato de ser branco, ele se julgou preterido por alguém que deveria esta em outro lugar. E nem sequer considerou a possibilidade de sua colega negra ser mais competente, ou preparada, do que ele.



Minhas atuais interlocutoras têm a exata dimensão da discriminação. O que fazem é encará-la de uma maneira particular. Como diz Dona Eliude:

“Existem as discriminações. Mas a gente nem... tira de letra. A gente nem enxerga. Passa por cima, vai levando. Às vezes a gente vê uma pessoa fazendo discriminação, mas a gente faz de conta que não enxerga, que não entendeu! É assim [risos]. A vida tem que levar assim [risos]. A vida a gente tem que levar assim: LUTANDO”!
E foi “tirando de letra” – ou seja, aprendendo a viver e também procurando superar as discriminações e as desigualdades raciais – que estas mães de famílias negras de Belém ensinaram as filhas (os filhos), a também “tirarem de letra” (seus “diplomas”) as dificuldades enfrentadas.
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1 Envolvidos no projeto patrocinado pela UNESCO que, através de uma grande pesquisa, procurou analisar as relações entre negros e brancos no Brasil, buscando comprovar a existência de relações democráticas entre os dois grupos, contrapondo-a ao antagonismo existente nos Estados Unidos.

2 Carlos A. Hasenbalg (1992) traça um breve, mas ilustrativo panorama do desenrolar deste debate e suas teses centrais a partir da década de 1930, com os trabalhos de Gilberto Freyre, até a década de 1970.

3 A Antropóloga americana Peggy. A. Lovell (1992), também chama a atenção para a importância dos trabalhos de Carlos A. Hasenbalg e Nelson do Valle e Silva, referências obrigatórias para o estudo das questões raciais entre negros e brancos no Brasil, a partir da década de 1970 (Cf. p. 85-98).

4 Além de Hasembalg, sem dúvida a referência mais importante para os estudos das relações raciais entre negros e brancos no Brasil, autores como Yvonne Maggie (1996), Lívio Sansone (1996), Fernando Rosa Ribeiro (1997), Antonio Sérgio Alfredo Guimarães (1998) e Lilia Moritz Schwarcz (1993), vêem estudando a questão, focalizando aspectos gerais e particulares da mesma, tais como classificação de cor, relações raciais e racismo, relações entre antropologia e ideologia racial.

5 Apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia do Departamento de Antropologia da UFPA, par obtenção do grau de Mestre em Antropologia, aprovada em 22 de agosto de 2000.

6 Ao tomar este número – oito - como referência, na verdade me reportei ao número de mulheres que participaram do meu segundo trabalho (1993) e que fizeram referências enfáticas às mães. Destas, quatro ainda têm mães com vida e com três sempre mantive contato. Foi a elas que retornei primeiro para ver se havia possibilidade de falar com suas mães. Por intermédio então, dessas mães, estabeleci uma rede de relações de parentes e amigas que se dispuseram a falar comigo e participar da pesquisa.

7 Os estudos sobre família sempre estiveram presentes na Antropologia. Trabalhos de autores como Lewis Morgan, Radccliffe-Brown e Lévy-Straus são considerados clássicos dentro da temática, considerando aqui as chamadas sociedades “primitivas”. Os estudos sobre famílias em sociedades complexas passam a ocupar espaço na disciplina a partir da década de 1969, quando os antropólogos voltam-se para o exame de sua própria sociedade (Woortmann, 1977).

8 A situação de negros e mulatos, interpretada tão enfaticamente por Florestan como de desorganização social – nos seus termos (ou da sociologia durkheimiana, com que ele opera), anomia – o leva, como têm demonstrado as mais variadas análises do seu trabalho, a dar uma atenção maior aos mecanismos de integração e de funcionamento da família negra “(...) em torno dos quais iriam gravitar as outras influências negativas ou perturbadoras do ambiente “ (p. 155).

9 A prostituição da mulher negra é também um tema recorrente. Mas ainda segundo Florestan, esta não parece ter sido uma especialidade econômica para ela (Cf. p. 181).

10 O historiador Robert W. Slenes (1999), chama a atenção para a discussão sobre o tema da família escrava (ou cativa) no Brasil. Segundo ele, novos estudos, baseados em novas fontes demográficas e que focalizam principalmente o Sudeste do país, “têm contestado diretamente a antiga visão da vida sexual e familiar do escravo como pouco mais do que uma desordem cultural, ou (nas palavras de Bastide) uma ‘vasta promiscuidade sexual’” (p. 43). E aponta, em seu trabalho, para outros “modelos “ de família africana. Voltando o olhar para os Estados Unidos – nosso perene “espelho”, particularmente em assuntos de relações raciais – temos no trabalho de Eric Foner (1988), evidências (como no Brasil, condicionadas às imposições do sistema) da existência de laços familiares efetivos.

11 Em nenhuma outra cidade do Brasil ocorreu um processo tão grande de exclusão do negro, como ocorreu em São Paulo. Deve-se considerar, repito, que também foi esta cidade que recebeu o maior contingente de imigrantes a partir de final do século XIX e início do XX. A história do desenvolvimento social e econômico de Belém – que está associada à história da Amazônia - é tratada por autores como Roberto Araújo de Oliveira Santos, 1980; Rosineide Bentes, 1992 e Violeta Refkalesfsky Loureiro, 1992, dentre outros. Vicente Salles (1988) de certa forma, remete a esta questão, ao tratar da utilização da mão-de-obra escrava africana na Amazônia. Ver também Ana Maria Daou (2000) e Maria de Nazaré Sarges (2000) sobre o período áureo da borracha na Amazônia, ou seja, final século XIX e primeiras décadas do XX.

12 Minhas interlocutoras do trabalho realizado em 1993, filhas destas mulheres a que me refiro aqui (minhas atuais interlocutoras), são a 4ª geração de uma “família negra” que remonta até o início da década de 1871. O pai de Dona Isis e Dona Isabel, segundo relato da primeira, nasceu em 1871, ano da lei do Ventre Livre. Mas, em certos casos, a memória de constituição dessas famílias só vai até as primeiras décadas do século XX, o que pode ser confirmado considerando-se o ano de nascimento das minha atuais interlocutoras: Dona Regina, 1918; Dona Ana Maria, 1944; Dona Alice, 1925; Dona Maria da Penha, 1922; Dona Eliúde, 1951; Dona Izoleide, 1947.

13 Motta-Maués (1988, 1997), lembra que o discurso das “elites negras” em um determinado momento, via na escolarização a “saída” para os negros no Brasil. Nas falas das minhas atuais interlocutoras não aparece qualquer referência de que ecos desses discursos elaborados pelas lideranças negras em São Paulo na década de 1930 tenham chegado até suas famílias (seus pais).

14 Ao chamar a atenção para “certos mecanismos de socialização e de controle coordenados pela estrutura da família ou dirigidos através de suas funções básica”, Florestan escolheu para análise a ordenação das relações sexuais e a escolarização. Como o segundo caso, por razões óbvias, me interessa mais de perto, saliento (de uma maneira bastante esquemática) a análise dos dados do autor, a partir do relato de seus informantes. Para ele, as famílias negras de São Paulo no período por ele estudado, alguns pais “ignoravam a existência e a utilidade das escolas”, nas famílias “ordeiras”, mesmo querendo que os filhos “chegassem a doutor”, freavam essas aspirações, para evitar-lhes dissabores, porque “sabiam que iriam encontrar todas as portas fechadas” (Cf. p. 220).

15 Segundo Luiz Antonio Marcushi (1986), na transcrição de conversações, quando uma sílaba ou uma palavra é pronunciada com ênfase, o fato deve ser indicado escrevendo-se a realização com maiúsculas.

16 Cidade paraense da Mesorregião do Baixo Amazonas, situada às margens do rio Tapajós.

17 Quando estive na casa de Dona Isis para falar da minha pesquisa, ele me disse que o seu projeto era ser farmacêutica. Veio estudar em Belém (a família morava em Belterra, cidade localizada às margens do rio Tapajós, próxima de Santarém) mas conheceu o seu “príncipe encantado” – o Sr. Abelardo, futuro marido – e apaixonou-se pela “verdejância” dos olhos dele. O projeto, então, foi abandonado.

18 O autor adverte para a impossibilidade de generalização, mesmo reconhecendo que a amostra é representativa de uma das regiões mais desenvolvidas do país – Centro-Sul, outras regiões com um contigente mais expressivo de não-brancos (onde estão localizados os estados do Maranhão e Bahia), não foram incluídas (Cf. p. 202-203).

19 Segundo Hasenbalg, o cruzamento entre os grupos originais diluiu as categorias originais em um “contínuo de cor”. A esse contínuo de cor relaciona-se um “complexo sistema de nomenclatura racial” no qual as diferenças nos tons de pele transforma-se em dados significativos: como sabemos, no Brasil, à medida em que o tom de pele se distancia (no caso de mulatos e negros) da categoria original, as chances de aceitação no grupo hegemônico – branco – aumentam (cf. p. 236).

20 As discussões de minhas interlocutoras remetem, sem dúvida, à chamada “questão de gênero”. Neste caso, imbricados com a questão racial. A “questão de gênero”, como se sabe, foi precedida pela discussão do movimento feminista na década de 1970. A partir dessa década, as discussões têm como tema a universalidade da dominação masculina. É somente a partir da década de 1980 que a questão tornou-se alvo de uma debate acadêmico mais sistemático (Stolcke, 1991; Costa & Bruschini, 1992; Machado, 1992: Gonçalves, 1994; Ortner, 1996; Lasmar, 1997; Piscitelli, 1997; Motta-Maués, 1999). No caso das relações raciais e de gênero, aponto artigo de Mariza Corrêa (1996), uma tentativa preliminar de refletir sobre as possíveis relações entre raça e gênero no universo das classificações brasileiras.



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