Relato e reflexões sobre a pesquisa com os avá-canoeiro (tupi-guarani): subsídios educacionais



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RELATO E REFLEXÕES SOBRE A PESQUISA COM OS AVÁ-CANOEIRO (TUPI-GUARANI): SUBSÍDIOS EDUCACIONAIS

Mônica Veloso Borges1

Rosani Moreira Leitão2

Introdução

Os Avá-Canoeiro, que falam uma língua de igual nome, pertencente à família Tupi-Guarani (Rodrigues, 1984/1985; 1986), vivem nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil divididos em dois grupos. Um deles vive junto aos Javaé, na Ilha do Bananal, no Estado do Tocantins. O outro vive na Terra Indígena Avá-Canoeiro, nas margens do rio Maranhão (continuidade do rio Tocantins), no Estado de Goiás. Ao todo somam uma população aproximada de 20 (vinte) pessoas que são sobreviventes de perseguições e massacres que marcaram toda a sua trajetória de contato com a sociedade regional e nacional.

Além dos estudos bibliográficos, os dados que nortearam este estudo decorrem de pesquisa de campo desenvolvida em diferentes períodos entre os meses de julho de 2001 e agosto de 2002. A pesquisa teve como objetivo obter informações gerais acerca do povo Avá-Canoeiro, sobre sua história e relações de contato com a sociedade envolvente, sobre sua visão de mundo, situação lingüística e modo de vida atual, que pudessem oferecer subsídios para a elaboração de um projeto de educação escolar específico para esse povo3. Dessa forma, a partir dos dados da pesquisa, este trabalho procura fazer uma reflexão preliminar acerca da situação atual do grupo, inserindo-a no contexto das relações estabelecidas por ele com a sociedade não-indígena e com as políticas indigenistas oficiais.

1. Aspectos históricos

Existem poucas publicações sobre os Avá-Canoeiro, sendo os estudos mais significativos de autoria de Pedroso (1990, 1992, 1994) e Toral (1984/1985). Estes autores apresentam algumas hipóteses que tentam explicar a existência dos Avá-Canoeiro, um povo de origem Tupi, em regiões tradicionalmente habitadas por povos de origem Jê, tais como os Karajá, Xerente, Xavante, Krahó e Kaiapó. Toral (1984/1985) sugere, a partir dos estudos de Couto de Magalhães (1957), que eles seriam os Carijó de São Paulo trazidos por bandeirantes paulistas no século XVIII que, com a desorganização das bandeiras de mineração, teriam fugido para o norte goiano onde se mantiveram em isolamento. Pedroso (1994) faz uma análise etno-histórica do grupo nos séculos XVIII e XIX. Neste trabalho ela corrobora a hipótese construída por Rodrigues (1984/1985), a partir de estudos lingüísticos, que negam essa suposta origem paulista. Os Avá-Canoeiro, como outros grupos Tupi da região classificados como Tupi setentrionais, como os Tapirapé e os Asurini, teriam vindo da região norte do país, subindo pelo rio Tocantins e instalando-se em seu alto curso.

De acordo com os primeiros registros escritos, que datam do final de século XVIII e início do século XIX, quando se distribuíam ao longo do rio Tocantins e seus afluentes, os Avá-Canoeiro evitaram contato direto com populações de municípios e vilas das regiões em que habitavam até o final da década de 70, resistindo a processos colonizatórios, aldeamentos, ações missionárias, frentes de expansão agro-pastoris, e vivenciando conflituosos processos que resultaram em grande perda populacional do grupo e envolveram guerras e massacres (Karasch, 1998; Toral, 2002; Pedroso, 1990 e 1994). Segundo essas fontes, os Avá-Canoeiro do Tocantins e os do Araguaia constituíram no passado um único grupo, tendo parte dele se deslocado do Tocantins até o Araguaia, o que está amplamente registrado através do contato com a população regional e dos depoimentos dessa população. Entretanto, Toral (1984/1985) sugere que na década de 1940 os dois grupos já estavam separados e vivendo experiências diferenciadas4.

Pedroso (1994) e Toral (2000) mencionam vários conflitos decorrentes de confrontos entre frentes de expansão e exploração econômica da região e o povo Avá-Canoeiro, visto que o mesmo ocupava um espaço propício à expansão da pecuária, e que o rio Tocantins era visto como importante via de comunicação entre os principais pólos de desenvolvimento regional. Tais conflitos vão desde os confrontos remotos resultantes das ações de expedições oficiais, até massacres recentes organizados por habitantes regionais que desenvolviam atividades de expansão agro-pastoril e disputavam com os índios os territórios da região.

A ocupação do espaço por atividades agrícolas e pequenas propriedades, e conseqüentes conflitos que resultaram desses processos, fizeram com que a caça diminuísse, seus núcleos fixos de residência fossem substituídos por acampamentos provisórios, e as suas rotas de perambulação se tornassem cada vez mais restritas. O grupo passou a viver em esconderijos e constantemente em fuga, o que resultou na impossibilidade de praticar a agricultura, antes um componente importante na sua dieta alimentar. Conseqüentemente furtos e pilhagens nas propriedades dos regionais passaram a ser quase que as únicas alternativas para satisfazer às suas necessidades de subsistência.

De acordo com Toral, os Avá-Canoeiro passam então a viver em pequenos grupos com alta mobilidade, se deslocando em grandes extensões que atingem os Estados de Tocantins e Goiás5. Situações em que, após cuidadoso processo de observação do ambiente e de avaliação dos riscos, as mulheres adultas, deixando as duas crianças escondidas, desciam do alto dos seus esconderijos à noite para caçar ou apanhar nas roças dos regionais produtos para alimentação, são amplamente mencionadas nos discursos dos sobreviventes6.



2. Aspectos da situação atual dos Avá-Canoeiro de Goiás

Os Avá-Canoeiro que hoje vivem no município de Minaçu, após passarem por um longo período de fugas e por diversos esconderijos, buscaram espontaneamente contato direto com a população regional em 1983, sendo em seguida, instalados em um Posto Indígena da FUNAI, nas margens do rio Maranhão. Esse subgrupo é composto hoje por uma população de seis pessoas: Matxa, Nakwatxa, Iawi, Tuia, Trumak e Putdjawa. Matxa e Nakwatxa têm, respectivamente, de acordo com um cálculo feito por aproximação, cerca de 64 e 59 anos de idade. Dizem que são irmãs e foram as únicas de uma família, que parece ter sido numerosa, a escaparem com vida do último ataque de fazendeiros da região à aldeia onde viviam. Iawi, hoje com aproximadamente 41 anos, após perder os pais, foi adotado pelas duas mulheres quando tinha entre 08 e 10 anos de idade. Tuia, hoje com idade aproximada de 29 anos, é filha de Matxa; nasceu já em um processo de fuga e viveu, até uma idade aproximada de 15 anos, em completo isolamento, uma vez que ficava constantemente escondida na companhia de Iawi, enquanto as mais velhas saíam para procurar comida e outros produtos dos quais necessitavam. Trumak de com 16 anos e Putdjawa de 14 são filhos de Iawi com Tuia, e nasceram já após a instalação do grupo em um posto indígena nas margens do rio Maranhão. De acordo com os depoimentos que gravamos com eles, quando passou a viver no mato, o grupo de sobreviventes era um pouco maior. Entretanto, vivendo em condições precárias e em constante perigo, perderam mais algumas pessoas, entre elas o pai de Tuia, que teria sido atacado por uma onça, enquanto caçava, e a mãe de Iawi, que teria sido assassinada por um desconhecido não-indígena, enquanto andava no mato.

Após dois anos instalados na margem do rio Maranhão, e assistindo de perto a construção da Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, os Avá-Canoeiro acabaram por ser transferidos para outro lugar da área demarcada que passava por um processo de desocupação para abrigar o grupo. De acordo com depoimentos do responsável pelo Posto Indígena da FUNAI que abriga o grupo, o processo de desocupação da área foi difícil e conflituoso, uma vez que muitos posseiros insistiam em permanecer no local e não aceitavam a indenização. As discussões acerca do processo de desocupação da área e de indenização dos posseiros foram e continuam sendo amplamente divulgadas pela imprensa nacional7. A construção da Usina Hidrelétrica no local e as negociações decorrentes desse acontecimento também foram pauta de muitas notícias na imprensa. De acordo com essas informações e com depoimentos de pessoas envolvidas, houve um processo de negociação entre FURNAS e FUNAI, em decorrência do comprometimento de parte da terra indígena pela represa, em que esta última assume responsabilidades financeiras, com o objetivo de custear ações assistenciais voltadas para as necessidades e a segurança do grupo. Foram assim construídos, já com esses recursos, um novo posto indígena contando com uma estrutura completa: escritório do Posto Indígena, casas para abrigar o grupo e para funcionários do posto, além de outras construções, tais como garagem, paiol, sistema de tratamento de água etc. Podemos dizer, dessa forma, que, contando com a “proteção” da FUNAI, e com recursos provenientes de FURNAS, atualmente os Avá-Canoeiro de Minaçu se encontram numa situação relativamente tranqüila do ponto de vista da segurança física e da subsistência econômica, se comparados aos seus parentes da Ilha do Bananal8.

Em sua nova fase de vida, os Avá-Canoeiro aos poucos se apropriam do espaço físico legalmente garantido a eles e começam a desenvolver algumas atividades por iniciativa própria. Nesse contexto, construíram por conta própria uma casa de paredes feitas com a madeira do buriti e teto feito com palhas dessa mesma palmeira. Como no caso dos antigos esconderijos, a casa foi construída no alto de um morro próximo, lugar de ótima visibilidade e de difícil acesso. É nesta casa que o grupo atualmente vive a maior parte do tempo, deixando praticamente abandonada a casa de tijolo construída pela FUNAI nas imediações do Posto Indígena. Além disso, o grupo conserva e vivencia de forma privada no ambiente doméstico algumas práticas rituais, que, embora secretas, estão associadas ao uso do tabaco, do maracá e de cantos sagrados. Eles também mantêm constantemente, nas imediações das suas casas, pequenas plantações, principalmente de milho e tabaco, mamão e outros.

A construção de uma nova casa parece representar para o grupo um marco em sua nova fase de vida. Após décadas de experiência de um nomadismo forçado, às vezes habitando acampamentos construídos precariamente para estadias breves, outras vezes, recorrendo a cavernas para se proteger, finalmente, tem o seu território definido e pode explorá-lo com relativa segurança. Talvez essa seja a primeira casa construída pelos Avá-Canoeiro após abandonarem a vida de aldeia e passarem por esconderijos diversos e fugas constantes. A construção da casa talvez sinalize um novo ânimo, uma disponibilidade do grupo em recomeçar, e, a despeito da sua população reduzida, ousar uma autonomia nos limites possíveis, no contexto de experiência de quase 20 anos de uma vida administrada por instâncias assistenciais.

Quando recebem visitas, os Avá-Canoeiro apresentam a sua casa "nova" com orgulho. Falam do trabalho investido na sua construção, da dificuldade para coletar e preparar a madeira e a palha do buriti. Eles deixam clara a preferência que têm pela casa do alto e não poupam elogios a ela e, principalmente as mulheres mais velhas afirmam recorrentemente que não voltarão a residir na casa localizada junto ao posto que elas chamam de "casa velha da FUNAI".

Contudo, o reduzido tamanho do grupo dificulta a reprodução de práticas culturais tradicionais e limita as alternativas de comunicação na língua materna, favorecendo situações que desestimulam o uso dessa língua. Por outro lado, começa a ocorrer rejeição por parte dos mais jovens ao modo de vida adotado pelos mais velhos e uma grande sedução por parte deles com relação ao modo de vida não-indígena com que convivem através do contato com funcionários do posto indígena. É o Posto Indígena o local preferido dos jovens, em oposição ao ambiente familiar. É o lugar em que, em alguns períodos, vão apenas para dormir e, em outros, somente para visitas esporádicas, o que provoca muitas vezes ressentimentos com relação aos não-indígenas que se encontram ali e atitudes agressivas direcionadas a esses e aos dois adolescentes. Porém, se os adultos, buscando uma vida menos vigiada, mais livre e mais autônoma, com relação à administração da FUNAI, desejam o recolhimento e uma certa distância dos "brancos9" que trabalham na área, para os jovens esse recolhimento não é tão interessante. Eles nasceram em um contexto de posto indígena e ali cresceram. Suas experiências estão extremamente ligadas a esse ambiente. Assim, não os agrada a mudança dos adultos para o alto, e, a despeito da desaprovação desses, aos poucos retornam ao espaço do Posto Indígena, à companhia das pessoas que ali trabalham e a um modo de vida com o qual já se acostumaram a compartilhar e que exerce sobre eles grande sedução10.

2.1. A análise da língua Avá-Canoeiro

O conhecimento que se tem acerca do Avá-Canoeiro resume-se quase que exclusivamente a listas de itens lexicais, como as que foram coletadas por Couto de Magalhães, em 1863/1864 (publicada em 1975)11, Harrison, em 1974, e Toral (s/d), todas bastante restritas. Resumidamente, pode-se afirmar que essa língua possui somente alguns dados coletados e algumas análises preliminares, carecendo, por conseguinte, de pesquisas pormenorizadas.

O estudo mais detalhado sobre a língua Avá-Canoeiro resultou na dissertação de mestrado de Paiva (1996). Esse estudo, porém, é bastante incipiente, já que abordou apenas a variedade da língua Avá-Canoeiro falada na aldeia Canoanã, deixando de lado a variedade da aldeia próxima a Minaçu. Ademais, como adverte o próprio autor, seu trabalho restringiu-se à fonologia do segmento, não envolvendo a constituição silábica e aspectos suprassegmentais ou traços prosódicos como acento, duração, tom ou entonação. A exigüidade de dados fez com que essa análise ficasse incompleta e superficial em muitos aspectos, tais como no estabelecimento do estatuto das vogais nasais, consideradas, a priori, como distintivas. Além dessa dissertação, há as análises de Borges (2002, 2003a, 2003b).

Em suma, trabalhos aprofundados sobre a língua Avá-Canoeiro são inexistentes. Os estudos que há, além da dissertação de Paiva (1996) e os de Borges (2002, 2003a, 2003b), limitam-se a listas de itens lexicais. Nesse sentido, uma documentação e uma análise minuciosas sobre o Avá-Canoeiro são tarefas de extrema urgência, dada a situação sociolingüística vivenciada por esse povo indígena, constantemente ameaçado de extinção. Mais urgente ainda é uma pesquisa a respeito da língua Avá-Canoeiro falada na aldeia próxima a Minaçu, sobre a qual quase nada há documentado e analisado, à exceção de Borges (2002, 2003a, 2003b). Nessa perspectiva, esse estudo é relevante para a documentação dessa língua, e inclusive para subsidiar ações educacionais para os Avá-Canoeiro e de (re)vitalização da língua e da cultura, a fim de que essas ações estejam em consonância com o contexto sociolingüístico desse povo, e que contribuam para sua preservação física e lingüístico-cultural.

Até agora, a pesquisa tem contemplado apenas o Avá-Canoeiro falado em Minaçu, mas, posteriormente, será estudada também a variedade falada em Canoanã, com vistas a uma análise comparativa. Nessa aldeia encontram-se os outros Avá-Canoeiro, vivendo uma situação sociolingüística completamente distinta dos Avá-Canoeiro de Minaçu, pois lá há, além dos falantes de português e de Avá-Canoeiro, falantes de Javaé12.

A análise da língua tem-se baseado em diálogos e entrevistas, e a coleta de dados está sendo feita tanto de maneira formal, com gravações e elicitações, quanto em momentos informais. Os dados elicitados referem-se ao léxico da língua. A metodologia empregada nesse estudo, que ainda encontra-se em construção, e está sendo adotada também na pesquisa etnográfica com o grupo, é bem variada, e baseia-se entre outros trabalhos em Samarin (1967), Kibrik (1977), Duranti (2000), e Newman & Ratliff (2001). Os dados são, em sua maioria, obtidos em situações reais e informais de fala, como diálogos entre os mais idosos. A intenção é que a documentação da língua Avá-Canoeiro seja a mais abrangente possível, abarcando um grande número de eventos comunicativos, tais como diálogos, relatos de experiências e de acontecimentos vivenciados no dia-a-dia pelos Avá-Canoeiro, variadas situações de interação discursiva entre eles, e a narração de histórias, mitos e músicas, como também a descrição de festas, danças e artesanatos de que os adultos ainda se recordem.

Seguem-se, assim, as instruções de Himmelmann (1998), que afirma que, principalmente no caso de línguas ameaçadas de extinção, a documentação deve ser a mais abrangente possível, envolvendo não apenas dados que mostrem o sistema lingüístico, mas também diversas práticas e tradições lingüísticas da comunidade de fala pesquisada. Dão suporte à coleta de dados lingüísticos com os Avá-Canoeiro: músicas indígenas, desenhos, jornais e revistas, livros sobre botânica, zoologia, insetos, anatomia humana, fotos e postais de diversos povos indígenas.

A coleta e a análise de dados buscam conciliar os pressupostos teórico-metodológicos da pesquisa bilíngüe com os da monolíngüe, assim como os de estudos sobre línguas ameaçadas de extinção (cf. Grosjean (1982), Seki (1984), Romaine (1995), Grenoble & Whaley (1998), Himmelmann (1998), Crystal (2000) e Everett (2001)).

Uma atitude adotada com freqüência é usar tudo o que já se sabe sobre a língua, de modo especial enunciados, como sugerido em Everett (2001). Essa atitude tem-se mostrado relevante por dois motivos. Primeiramente, porque serve de estímulo para que os Avá continuem usando sua língua; e, em segundo lugar, para motivá-los a continuar ensinando-a, já que esse uso certifica que temos aprendido o que eles nos têm ensinado.

Uma questão que muito nos preocupa quanto ao futuro da língua Avá-Canoeiro é que, embora esta seja falada por todos os Avá-Canoeiro, existe uma comunidade reduzida de falantes, e o não domínio dessa língua por parte dos não-indígenas com quem convivem, cerca de dez funcionários, entre caseiros e auxiliares do Posto Indígena, limita suas alternativas de uso do Avá-Canoeiro, e estimula uma necessidade cada vez maior de emprego da língua portuguesa, o que pode provocar o desuso da língua Avá-Canoeiro em várias situações comunicacionais, especialmente pelas duas crianças.


3. O Convênio FURNAS/FUNAI


Devido às circunstâncias já mencionadas se, por um lado, os seis Avá-Canoeiro de Minaçu têm hoje a subsistência e a segurança garantidas pela “proteção” da FUNAI e os recursos financeiros advindos do convênio com FURNAS, por outro lado, vivem um processo de dupla dependência, que tem como conseqüência prática uma situação de dupla tutela. Atualmente é de um programa assistencial de FURNAS que os Avá-Canoeiro obtêm quase que o total daquilo de que necessitam para sua subsistência, desde gêneros alimentícios até bens de consumo, tais como artefatos para uso doméstico e produtos de limpeza e higiene pessoal.

O documento referente a um convênio firmado entre FURNAS/FUNAI (Convênio nº 10323 de 29 de junho de 1992), intitulado "Programa da Questão indígena", prevê medidas que visam ao desenvolvimento de ações destinadas a compensar os Avá-Canoeiro pela inundação de parte do seu território. Essas ações estão divididas em quatro partes, três delas com prazos determinados para serem encerradas e atualmente já consideradas concluídas ou em fase de conclusão, e a outra que, nas palavras do próprio texto, tem por objetivo garantir o "equilíbrio sócio-cultural do grupo", tem previsão de continuidade. As ações contempladas pelo convênio abrangem: a) localização e contato dos índios Avá-Canoeiro que ainda se encontravam supostamente isolados; b) redefinição dos limites da terra indígena e reposição das áreas inundadas; c) regularização fundiária da terra indígena, através da disponibilização de recursos para o pagamento de indenização dos posseiros instalados na área e outros custos dos procedimentos de regularização da terra; d) Por último, o desenvolvimento do Programa Avá-Canoeiro do Rio Tocantins (PACTO), subdividido em subprogramas com ações assistenciais previstas nas áreas de: a) saúde, prevendo tratamento médico-hospitalar e odontológico, bem como equipamento para a enfermaria; b) educação: algumas ações, como é o caso já mencionado do estudo preliminar de aspectos sócio-culturais e lingüísticos do grupo para subsidiar ações educacionais; c) meio ambiente, prevendo a recuperação de áreas degradadas pela obra e proteção e fiscalização da terra indígena por meio da construção de barreiras de fiscalização e contratação de vigilantes, motoristas e barqueiro; d) auto-sustentação, envolvendo a manutenção do Posto Indígena e a contratação de Auxiliar do Posto e motorista; e) unificação do Povo Avá-Canoeiro e Crescimento Populacional, prevendo a criação de condições para interação com os Avá-Canoeiro do Araguaia e com os índios Tapirapé, o povo Tupi compreendido pelo convênio como sendo o mais próximo culturalmente dos Avá-Canoeiro; f) documentação e memória; e g) obras e equipamentos como é o caso que envolveu a construção de um novo Posto Indígena, a construção de duas pontes dando acesso ao Posto Indígena e construção de duas Barreiras de Vigilância nos limites da Terra Indígena. Não raro a imprensa publica cobranças e críticas a FURNAS por sua atuação junto ao povo Avá-Canoeiro e por não cumprir partes do convênio (cf. Assunção, 2003)13.


4. Autonomia dirigida ou dupla tutela? Considerações finais

Se até as últimas duas décadas os Avá-Canoeiro rejeitaram o contato direto com a sociedade envolvente e se recusaram a se submeter às regras dessa sociedade, optando por uma existência autônoma, embora em condições precárias e perigosas, atualmente têm o seu cotidiano quase que completamente controlado e administrado por duas agências externas: FURNAS e FUNAI.

Não queremos dizer com isso que eles não tentem desenvolver ou que não desenvolvam estratégias para burlar controle e a vigilância. Principalmente os mais velhos, sobretudo as mulheres, visivelmente adotam atitudes de rebeldia e desagrado, contra a ingerência das agências assistenciais. Essas atitudes se manifestam na realização de atividades ou ocorrência de situações tais como: a) a realização de pequenas caçadas, a despeito da orientação fundada em princípios de preservação ambiental que desaconselha e mesmo reprime a caça aos animais. De vez em quando Trumak e Putdjawa relatam situações em que ajudaram a transportar para casa pedaços de carne de animais caçados. Outras vezes relatam situações em que levaram para casa a carne de animais, tais como porcos do mato – queixadas e caititus – encontrados mortos recentemente atacados por onças. Algumas vezes, Iawi levantava a camisa rapidamente, para mostrar de forma furtiva um estilingue, pequena "arma" usada para matar passarinhos que traz escondida presa no elástico do calção embaixo da camisa, e ficava muito bravo se eu fazia qualquer comentário a respeito em voz alta; b) as fugidelas para passeios que extrapolam os limites e as barreiras da terra indígena para visitar conhecidos moradores da região. Essas visitas são normalmente feitas por Iawi e Tuia ou Iawi e Nakwatxa, que costumam levar escondidos gêneros alimentícios como óleo, açúcar e leite em pó, e outros objetos para presentear ou trocar com conhecidos que vivem nas imediações da Terra Indígena. Isso demonstra a persistência de um sistema de solidariedade e de vizinhança, apesar de muitos desses vizinhos terem sido, segundo informações de funcionários do posto, antigos posseiros da terra Avá-Canoeiro e de terem apresentado resistência durante o processo de desocupação14; c) a demonstração de desagrado através de atitudes agressivas que evidenciam a desaprovação da presença dos funcionários e de outras pessoas no local, bem como às suas atitudes de interferir na vida do grupo, sobretudo no que se refere ao controle sobre os mais jovens.

Entretanto, a despeito dessas atitudes observadas, os Avá-Canoeiro não têm tido até então muitas alternativas quanto a direcionamentos que tomam as suas vidas. Esse processo de administração e controle geralmente ocorre em situações em que o indigenismo oficial compartilha as responsabilidades sobre grupos indígenas atingidos por projetos de desenvolvimento com empresas responsáveis por impactos causados aos índios por esses projetos, resultando, além do indigenismo estatal, em um tipo de “indigenismo empresarial”, como compreendido por Baines (1993, 1996), que ao mesmo tempo em que “protege” e provê as suas necessidades básicas15, deixa um espaço muito limitado, quando não inexistente, para uma possível autonomia.

A situação descrita não foge à regra observada entre outros povos que vivem sob a assistência indigenista não só do Estado, mas também de empresas que realizam projetos de desenvolvimento em seus territórios, e que, através de convênios firmados com o órgão oficial, destinam recursos para a realização de ações assistenciais como forma de compensação aos impactos causados, o que implica em mais uma forma de controle externo, embora indireta, sobre a vida desses povos (cf. Oliveira (2002) e Baines (1993, 1996)).

Oliveira trata da discrepância entre o discurso e a ação de agências indigenistas oficiais ou não, que, ao mesmo tempo em que, no discurso, defendem a autonomia indígena, na prática desenvolvem mecanismos de controle e administração colonial junto aos povos com os quais atuam (cf. Granado, 2002). Baines, por sua vez, analisando a situação dos Waimiri-Atroari (Amazonas e Roraima), que vivem sob assistência de um indigenismo oficial mantido com recursos empresariais da Eletronorte, compreende a situação como caracterizada por um tipo de indigenismo em que a agência oficial se une com agências empresariais para prestar serviços assistenciais aos grupos atingidos por impactos decorrentes de projetos de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que aumentam o controle sobre a vida dos desses povos. Para Baines (1993, 1996), se por um lado, estas agências adotem um discurso a favor da autonomia indígena, por outro, adotam uma prática de controle e de manipulação, que permite, quando muito, uma suposta “autonomia dirigida” por instâncias assistenciais, que em casos extremos operam como instituições totais que controlam até os mínimos detalhes da vida privada e do cotidiano do povo assistido.

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1 Mestre em Lingüística pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e Doutoranda em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professora da Faculdade de Letras da UFG e Membro do Setor de Antropologia do Museu Antropológico da mesma universidade.

2 Mestre em Educação pela Universidade Federal de Goiás e Doutoranda em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB). Membro do Setor de Antropologia do Museu Antropológico da UFG.

3 Esta pesquisa foi realizada na Terra Indígena Avá-Canoeiro, no âmbito do projeto: “Avá-Canoeiro Uma Proposta de Educação: vitalização da língua e da cultura”. A primeira etapa do projeto foi realizada pelo Museu Antropológico/Universidade Federal de Goiás e contou com apoio da Fundação Nacional do Índio e de FURNAS Centrais Elétricas.

4 Os Avá-Canoeiro do Araguaia foram contatados em 1973, e instalados no Posto Indígena de Canoanã, próximos aos municípios de Gurupi e Formoso do Araguaia.

5 Vale ressaltar, entretanto, que talvez essa capacidade adaptativa dos Avá-Canoeiro a situações de constantes deslocamentos tenha encontrado suporte no modo de vida tradicional desse povo. Os Avá-Canoeiro, a exemplo de outros grupos Tupi da região Central do Brasil, apesar de terem vivido e ainda viverem em aldeias, provavelmente nunca foram completamente sedentários. A mobilidade geográfica parece ser uma das características dos grupos Tupi, que costumam se movimentar no espaço dentro do mesmo território. Os Tapirapé, por exemplo, até a década de 50, quando pesquisados por Wagley, mudavam as suas aldeias a cada 5 ou 7 anos, com o objetivo de alternar o uso da terra na agricultura e de ter novos locais para enterrar os mortos que deviam ser sepultados no piso da casa do grupo familiar extenso (Wagley, 1988).

6 Toral, baseando-se no fato de ter observado na casa dos Avá-Canoeiro, já instalados no Posto Indígena, grande quantidade de artefatos adquiridos nas propriedades regionais ou resultantes de processos de reciclagem de coisas abandonadas por estas populações, sugere que, apesar de ter buscado o isolamento, talvez esse povo não quisesse o isolamento completo das populações regionais. Talvez fosse necessário manter uma devida distância que os permitisse recorrer aos produtos de suas roças, suas criações, pequenos artefatos utilitários, bem como produtos descartados que ainda poderiam ser reciclados e reaproveitados (Toral, 2002). Mesmo os mais jovens, que não vivenciaram os massacres, as fugas e os esconderijos, guardam na memória detalhes dessas experiências, tais como os tipos de animais caçados, entre eles um cavalo, e os tipos de frutas e outros produtos colhidos nas roças, tais como banana, mamão, melancia e milho. Também mencionam artefatos, tais como facões e panelas, bem como os procedimentos utilizados para adquiri-los sem que fossem vistos por seus donos.

7 Conferir, por exemplo, Oliveira (2000), Herald (2002), Kritsch (2002), Villaméa (2003), Assunção (2003), Jornal Poratim 254 (2003).

8 No que se refere ao direito à terra, a área adquirida e demarcada para o grupo tem uma dimensão aproximada de 38.000 hectáres, situação melhor se comparada aos outros grupos indígenas do Estado de Goiás, Karajá e Tapuios, que, apesar de terem populações mais numerosas, contam com menos de 2.000 hectáres cada, ainda não totalmente regularizados e alvos de disputas por agentes da população regional não-indígena, o que tem resultado em constantes conflitos. De acordo com dados de 1999, da FUNAI, citados pelo ISA (2000), tanto a população Tapuia dos municípios de Nova América e Rubiataba, como a Karajá de Goiás do município de Aruanã é de aproximadamente 100 pessoas cada .

9 Dizemos “certa distância”, porque a fuga para a casa do alto não implica em eliminar o contato com o "branco". Eles sabem que precisam ir ao posto a cada vez que precisarem de gêneros alimentícios e outros produtos básicos de consumo. Esse comportamento não destoa das atitudes do grupo no passado nem mesmo quando eram considerados arredios.

10 Essas atitudes são compreensíveis, uma vez que os dois jovens Avá-Canoeiro vivenciam desde a primeira infância, através do posto indígena e de seus funcionários, experiências que extrapolam as fronteiras do seu grupo doméstico, o qual, devido ao seu pequeno número de indivíduos, apresenta um universo extremamente restrito do ponto de vista das relações sociais, não possibilitando aos mais jovens oportunidades de conviver com outras crianças ou adolescentes da sua faixa etária. Assim, enquanto Matxa afirma que não voltarão mais para a outra casa, que ela chama de "casa velha da FUNAI", Putdjawa e Trumak se referem à outra casa, não como sua casa e sim como "a casa do Iawi".

11 A partir do vocabulário coletado por Couto de Magalhães, Nimuendajú (apud Baldus, 1970) faz algumas considerações sobre a língua Avá-Canoeiro.

12 Mônica Veloso Borges observou, em viagem de campo à área Javaé, em 1993, que havia ainda uma família Guarani falante da língua Guarani morando na aldeia Canoanã.

13 De acordo com informações escritas prestadas por Eliana Granado, uma antropóloga de FURNAS em setembro de 2002, a "vigência do Convênio nº 10.323 foi de 5 anos, prorrogado por outros 5", cujo prazo expirou em 29/06/2002, estando atualmente em processo de elaboração e de discussão por FURNAS e FUNAI um novo convênio, abrangendo questões cujas ações foram avaliadas como necessitando de continuidade.

14 Esse é um dos motivos usados como justificativa para a não aprovação dos passeios aos vizinhos que vivem fora da Terra Indígena, pois estariam os Avá-Canoeiro correndo riscos de vida, uma vez que a garantia à terra motivou hostilidades dos moradores regionais.

15 Esse é, alias, o discurso oficial de especialistas ligados a FURNAS, segundo o qual essa empresa protege e cuida dos Avá-Canoeiro (cf. Granado, 2002).




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