Relatório de projeto de pesquisa puic disciplina



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RELATÓRIO DE PROJETO DE PESQUISA PUIC - DISCIPLINA
Nome do Projeto: Como a vovó fazia: pesquisa, “resgate” e novas aplicações de antigas habilidades técnicas desenvolvidas na moda ao longo da História.
Protocolo:
Nome da Orientadora: Liliane Edira Ferreira Carvalho

Campus/Unidade: Florianópolis

Data do Relatório: 20 de agosto de 2008

Tipo do Projeto: PUIC - Disciplina



1. Introdução
Moda é o novo, diriam alguns desavisados da profundidade teórica incutida nesta palavra que, além de se adequar a um conceito de produto, abre-se para a percepção de um sistema que mergulha o vestuário em considerações sociais de pertencimento e exclusão que ultrapassam em muito a mera funcionalidade. Mais do que apenas o novo, Moda pode ser, também, o velho em nova roupagem. Os mesmos elementos estéticos usados há dois mil anos voltam às passarelas de tempos em tempos como o mais novo hit da moda: novos tecidos, novas composições e novas técnicas em antigos plissados egípcios, borlas e franjas mesopotâmicas ou drapejamentos gregos. Os bordados da vovó, o tricô, o crochê, o macramé, as técnicas da alfaiataria e mesmo o simples engomar, saem e voltam à moda num movimento de perpétua readequação do antigo aos novos discursos estéticos. No entanto, muitas dessas novas “antigas habilidades” se perderam ao longo das gerações, ficando hoje restritas ao domínio de uns poucos profissionais.

Partindo deste princípio, percebeu-se a necessidade da pesquisa não somente da técnica, mas dos usos, costumes e relações sociais associados a ela, agregando identidade às habilidades produzidas em diferentes gerações. A falta dessas técnicas condiciona os projetos desenvolvidos ao longo do curso de Tecnologia em Moda, posto que as criações não exploram, por desconhecimento, muitos destes recursos estéticos.

Assim, este relatório apresenta o resultado deste projeto que visou resgatar a técnica, a história e as relações sociais estabelecidas em diferentes habilidades técnicas como tricô, crochê, fuxico, tinturas a frio, tecelagem, patchwork, entre outras, trazendo para o espaço universitário um conhecimento que, aliado as tecnologias atuais, agrega valor estético e histórico aos discursos das novas coleções dos alunos do curso. Para além disso, a pesquisa pontuou a percepção de que a crescente valorização do discurso do artesanal e único na moda corresponde ao desejo de individualidade moderna em associação com a tradição, num destes paradoxos de que a sociedade de moda se serve tão bem.
2. Objetivos:
2.1 Objetivo Geral:

Trabalhar as relações sociais e a prática de antigas habilidades técnicas criadas ao longo da história da moda, trazendo-as para o contexto da moda atual.


2.2 Objetivos Específicos:

- Pesquisar diferentes técnicas como o plissado, bordado, crivo, macramê, crochê, tricô, arranjos florais, entre outras a serem definidas.

- Entrevistar pessoas, profissionais ou não, que dominem algumas destas técnicas, apreendendo seus usos e significados para o grupo que as mantêm.

- Buscar em revistas, livros e sites referências sobre estas atividades e mesmo diferentes usos e fazeres.

- Executar o passo a passo de cada habilidade proposta compondo amostras.

- Registrar o passo a passo de cada habilidade proposta por meio fotográfico.

- Criar um acervo documental que sirva de material de pesquisa e didático.

- Produzir um CD ROM para a divulgação desse material para os alunos do curso, para a biblioteca e uso em aulas de História da Moda, Criatividade e Ateliê.



3. Materiais e Métodos
Este projeto foi desenvolvido com a turma de terceira fase, do curso de Tecnologia em Moda da Unisul, na disciplina de História da Arte e da Moda III no primeiro e segundo semestres de 2007. As orientações sobre a execução da pesquisa e possíveis fontes foram dadas em aula. Num primeiro momento, criou-se equipes de trabalho que deveriam buscar as informações sobre diferentes técnicas de trabalho artesanal junto de seus familiares. Diversas foram as técnicas sugeridas por cada grupo, sendo que ao final escolheram, por conhecimento prévio deles ou dos familiares, facilidade de contato com materiais ou sugestão da professora, as habilidades que mais interessaram.

As técnicas do tricô, crochê, fuxico, tintura a frio, tecelagem, patchwork, macramê e a desconhecida 1,2,3,4, foram as habilidades escolhidas entre as diversas sugeridas pelas equipes, após o que cada grupo iniciou a pesquisa histórica em fontes orais, revistas e livros para responder ou aprofundar questões consideradas pertinentes. Nessa fase inicial da pesquisa, a orientação e acompanhamento eram no sentido de direcionar o melhor andamento dos projetos de cada equipe. Assim, orientou-se que cada equipe devia entender a técnica para repassá-la aos colegas; além da técnica, deviam pesquisar sobre a história da habilidade, localizando-a histórica e espacialmente; deviam fazer entrevistas com pessoas que desenvolvem a técnica, buscando informações de usos, posto que não necessariamente são técnicas usadas na moda; após tudo isso, deviam sugerir inovações para o uso da técnica na moda.

Então, num segundo momento, buscou-se organizar e analisar os dados coletados, partindo para um aprimoramento das técnicas de forma que pudessem ser trabalhadas em sala. Finalizando o projeto, todas as equipes, apresentaram suas pesquisas ao restante da turma na forma de textos e imagens em PowerPoint e atividade de exercício prático. Iniciaram com a localização histórica da habilidade, partindo para informações sobre materiais e métodos de forma a permitir a apreensão da técnica em suas diferentes configurações. Após a explanação teórica, abriu-se espaço para as atividades práticas em que se ensinou o passo a passo.

Por fim, as equipes discutiram a valorização do artesanal e tradicional nos discursos estéticos modernos e as novas possibilidades de usos das técnicas apreendidas. Após as discussões em sala, todo material coletado foi dado à orientadora para que desse futuros encaminhamentos à pesquisa.




  1. Resultados

Muitos são os resultados, diretos e indiretos, alcançados com este projeto. Por diretos, pode-se apontar o envolvimento dos alunos em uma prática de pesquisa não somente documental e de análise histórica, mas cuja habilidade técnica também foi agregada a formação profissional. Além disso, espera-se que o material obtido sirva de base para outros projetos, formando um acervo documental que oriente novas pesquisas e criações.

Os resultados indiretos são, entretanto, não menos interessantes: ao repassar o conhecimento na forma de mini-curso, os alunos são levados a uma percepção do próprio papel como agentes da história, posto que participam de um processo de aprendizado em que o velho e o novo travam relações.

Não somente em livros, mas na memória de muitos dos que foram entrevistados estavam as informações técnicas desejadas e as suas explicações. O contato entre as diferentes gerações, a necessidade da apreciação e respeito para o aprendizado, permitiram que os alunos do curso de Tecnologia em Moda da Unisul percebessem que a Moda e sua História são feitas de pessoas e não de máquinas. Indiretamente, então, perceberam que é na base do respeito as habilidades particulares e ao conhecimento adquirido ao longo das gerações que se pode crescer como profissional. Os relatos do processo de pesquisa foram tocantes: algumas alunas que achavam as tias, mães e avós tão “carolas” como as técnicas que executavam perceberam o grau de dificuldade exigido para a execução das peças e, em muitos casos narrados, criaram respeito pelo conhecimento familiar e tradicional.

As habilidades não eram conhecidas da maioria dos alunos antes do trabalho de pesquisa, mas a necessidade obrigou-os a conhecer e aprofundar as habilidades para que pudessem ensinar. Este, considera-se, foi o grande motivador, pois como deviam passar aos colegas o conhecimento, tiveram de extrapolar a superficialidade inicial.

No que concerne a criação de novos usos, a pesquisa encontrou problemas. A maioria dos alunos não desenvolveu novas aplicações. Apenas uma aluna, da equipe que pesquisou os fuxicos, apontou que o conhecimento da técnica levou-a a sugerir alterações em sandálias vendidas na loja de calçados da família. Os fuxicos acrescentaram, segundo ela, mais graça a peças consideradas comuns e massificadas e haviam despertado o interesse da clientela. O único relato interessante, neste sentido, foi da equipe que trabalhou a tecelagem: buscaram informações junto a uma artesã do Sul da Ilha e, durante o processo de aprendizagem da técnica, na calor da troca de informações e idéias, acabaram sugerindo materiais novos que ainda não haviam sido trabalhados pela artesã. Esta, segundo foi dito, adorou a idéia e testou na mesma hora a viabilidade técnica. Este relato reafirma a questão mais importante do papel da universidade na comunidade: a via de mão dupla que permite a troca do conhecimento.

Mas não foi só o conhecimento prático e emocional que surgiu da experiência de pesquisa. Há ainda a questão norteadora que, indiretamente, suscitou o projeto: a relação entre a individualidade, o moderno e a tradição hoje. Analisando as propostas para moda e decoração nos últimos dois anos, percebeu-se que existe nestes espaços a tendência de revisitar do passado. Isto, em si, não é nenhuma novidade. O novo se dá na “cara” de velho que devem ter os objetos. Aparência de experiência vivida. Esta tendência se explica pelos contornos que, segundo autores como Bauman e Giddens, configuram a modernidade: a pluralidade das experiências vividas na atualidade encerra em si a negação de modelos prontos e acabados. Há um desencaixe do indivíduo em sua relação com o vivido. Neste sentido, busca-se significar o corpo e o seu entorno numa tentativa de reencaixe.

Mas estes elementos de contextualização espaço-temporal não se prendem somente ao vestuário, então roupas, objetos, móveis e espaços relacionados entre si é que pontuam e buscam estimular emoções, sentidos, memórias. Então, através da atualização do passado pelo artesanal, único ou vintage (peças originais usadas normalmente junto de outras modernas), criam-se discursos de individualidade moderna, legitimada pelo passado, pela tradição e pela história, tornando a experiência ainda mais única na medida que não pode ser reproduzida ou comprada por outros. Assim, a experiência entra como diferencial do indivíduo moderno – ela pode ser familiar, grupal ou individual - e pode ser visível nos objetos. Assim, com materiais, formas, cores, reutilização de peças, a tendência hoje é o velho em nova roupagem, compondo uma atualização com cara de antiguidade ou antiguidade com cara de atual, apontando para a experiência sensorial e afetiva, um retorno ao aconchego. Na falta de “contornos” de “sustentação”, o corpo e a casa resignificam as individualidades modernas. Então, ironicamente, hoje a “cara de coisa da vovó”, atualiza o homem moderno, relacionando-o a memória afetiva e ao sentimento de pertencimento histórico.




  1. Outros Resultados

Derivado desta pesquisa é o artigo intitulado Como a vovó fazia: moda e tradição na individualidade poética do século XXI”, inscrito como Comunicação Oral no Simpósio “História, Moda e Cultura Material” do XII Encontro Estadual de História: História, Ensino e Pesquisa. Este Encontro se realizou entre 21 e 25 de julho de 2008, na Unidade Acadêmica de Humanidades, Ciências e Educação da UNESC, em Criciúma, reunindo os estudantes, professores e pesquisadores da área de história para uma troca de experiências de pesquisa.


6. Conclusões
No que diz respeito a proposta de suscitar e divulgar a pesquisa em sala, este projeto atingiu seu objetivo. Conforme relatado acima, os resultados superaram as expectativas no que concerne, diretamente, ao conhecimento e aprendizado da técnica e, indiretamente, na percepção do indivíduo como atuante no processo histórico. Considera-se que os resultados foram positivos e só ficaram aquém do desejado no que se refere a criação de novos usos para as antigas técnicas.

Com relação ao CD-ROM, espera-se os resultados de novas levas de pesquisa que estão em andamento com nova turma neste semestre para produzir material mais substancial. Assim, avaliando estes primeiros resultados deste PUIC em Disciplina, decidiu-se dar continuidade a este processo, trabalhando novas habilidades.




  1. Referências

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. São Paulo: Zahar, 2001.

BOURDIEU, P. A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. São Paulo: Zouk, 2004.

CASTELLANI, R.M. Moda ilustrada de A a Z. São Paulo: Manole, 2003.

CHARTIER, R. A História Cultural entre práticas e Representações. Lisboa: Difel, 1990.

COSGRAVE, B. História de la moda desde Egipto hasta nuestros días. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2005.

GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 2006.

LAVER, J. A roupa e a Moda. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

LURIE, A. A linguagem das roupas. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

O’HARA, G. Enciclopédia da moda. Cia das Letras, 1992.

RACINET, A. Le Costume Historique: du monde antique au XIX siècle. Paris: Taschen, 2006.



  1. Anexos


Fig 1 - Alunos exercitando a técnica do patchwork. Fig. 2 – Aluna ensinando o patchwork.


Fig. 3 e 4 – Ensinando a tintura de tecido a frio.


Fig. 5 – Alunas ensinando as técnicas do fuxico. Fig.6 – Os diferentes modelos ensinados.



Fig. 7 e 8 – Aluna apresentando a pesquisa sobre tecelagem manual e ensinando a técnica de forma simplificada.



Fig. 9 e 10 – Aluna ensinando técnica de tecelagem manual e alunos exercitando.



Fig. 11 e 12 – Ensinando e exercitando o macramê.


Fig. 13 – Alunos ensinando e aprendendo a técnica do crochê.





Fig. 14 – Alunos ensinando e aprendendo a técnica do tricô.


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