Religião e sociedade Por: Maria Clara Bingemer



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Encontro30.07.2016
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Religião e sociedade

Por: Maria Clara Bingemer

A experiência religiosa não se dá apenas numa comunidade de fé, mas  também no meio do mundo, da história e da sociedade. É aí que se vai descobrir uma dimensão fundamental da fé, que é a dimensão da prática.  A fé nos é dada para que tenhamos uma prática decorrente e coerente com esta fé.  Tem que haver um agir que procede da fé, está motivado pela fé e dá testemunho da fé.  Tem que haver uma práxis na qual se manifesta a fé.


A fé que se expressa em uma tradição religiosa é abertura à realidade.  Não é só iluminação da existência.  É também renovação e transformação da existência.  No caso do Cristianismo, a fé  é antes de tudo uma prática que deve ser vivida radicalmente. Nesta prática se manifestam a teoria e a experiência vivida interiormente.  É agindo que vão se poder descobrir e nomear as experiências fundamentais e os conceitos, como amor, perdão, etc.

Praticar a verdade é,pois, o caminho para se chegar à luz dessa verdade.  A verdade da fé não é uma teoria que prescinda da pessoa e da existência real e histórica.  Mas é um caminho, no fio da história, que determina a existência de todo homem.

Portanto, a grande exigência da fé, antes que poder e saber enunciar corretamente seus conteúdos e conceitos, é poder e saber levar a cabo uma práxis vital orientada radicalmente à construção de um mundo mais justo.  O tema da fé, da religião e da salvação não é algo que se passa privadamente entre Deus e a “alma”, mas tem uma dimensão pública, social.  Isso implica que suas exigências e conseqüências também têm essa dimensão pública, social, histórica.

Quando se percebe que a realidade está atravessada pela opressão e injustiça, a fé é chamada a dar uma resposta libertadora e transformadora. Esta resposta não pode ser apenas paliativa e pontual, mas deve também atingir o nível estrutural, transformar as circunstancias e situações que impedem a justiça e o amor, criar condições melhores de vida.

A prática, portanto, é uma dimensão constitutiva da fé e não acidental.  A fé corretamente enunciada deve estar unida fundamentalmente com a fé corretamente praticada e levada a cabo no meio da história e da sociedade.    Os frutos da fé devem se fazer sentir no meio da realidade no sentido de produzir uma vida melhor para o homem todo e todos os homens.

O conjunto e a conexão da ortodoxia (enunciado correto da fé) e da ortopráxis podem fazer justiça ao conjunto da fé, com seus dons e exigências.  Só esse todo, esse conjunto, é verdadeiro e não parcial.



Hoje como ontem, a fé está ameaçada pelo risco do intimismo e da privatização da experiência religiosa.  Isso ameaça não só a identidade da fé, mas também sua credibilidade diante do mundo.  Uma fé, uma religião que não produzam frutos de justiça, de amor, de direito, serão ainda possíveis de ser reconhecidas como fé e como religião?

Hoje como ontem, portanto, a pergunta da fé é a mesma pergunta que foi enunciada por aqueles que ouviram o discurso de Pedro em Pentecostes: “Que devemos fazer, irmãos? “(At 2,37).  Hoje como ontem, a pergunta da revelação que chega ao seu destino e suscita a experiência da fé que se expressa nos rituais e símbolos religiosos, é pergunta por um “fazer”.


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