RepresentaçÃo da criança na obra de werner zotz1



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REPRESENTAÇÃO DA CRIANÇA NA OBRA DE WERNER ZOTZ1

Danusia Apparecida Silva2
Apresentação do escritor: Nascido em Santa Catarina, Indaial. Aos três anos foi morar em Rio Negrinho e aos 19 foi estudar em Curitiba, PR, onde lecionou por algum tempo. À época da ditadura militar (1968) sofreu um inquérito administrativo que o levou à prisão por um bom tempo. Em 1978, iniciou a segunda fase como escritor, estourando em vendagens, prêmios e sucessivas reedições de seus livros que foram traduzidos para o espanhol, italiano, alemão e francês, tornando-o conhecido em nível internacional.

A literatura infanto juvenil produzida em Santa Catarina nos anos 50 pelos pioneiros, muitas vezes vale-se de recursos para converter a criança “no ente modelar e útil ao funcionamento da engrenagem social”3.Dessa forma, não se garante a autonomia do gênero que continua por mais duas décadas sem legitimação artística.

Somente a partir de 1970, vem a público uma produção para crianças e jovens sem a preocupação doutrinária, emergindo como obra literária disposta a levar o receptor a novas percepções, a imaginar e a viver o prazer estético. A criança passa a ser representada nas histórias e considerada como capaz de inteligentemente criar, recriar e criticar.

As histórias contextualizam as tendências contemporâneas e os escritores, segundo Werner Zotz, abandonam a posição de donos da verdade, buscam aprender com a criança, corresponder-lhe às expectativas, proporcionar-lhe prazer. Respeitam-na pela alteridade, pela diferença e não pela concordância, pela mesmice. Observando a posição conferida à criança, nos primeiros livros a ela endereçados e nos mais recentes, percebe-se nitidamente a intenção dos escritores em mudar o status quo estabelecido.

Nessa linha de raciocínio, Werner Zotz estréia na literatura infanto juvenil com Barco branco em mar azul (1978). Nessa obra, o menino-personagem que atende pelo diminutivo Geraldinho tem dez ou onze anos, é moreno de olho azul, imitando a cor do mar. É curioso, sempre a assuntar as conversas dos mais velhos, e gosta de ouvir histórias. Movido pela curiosidade, vai ver de perto o barco branco, motivo do alvoroço entre os pescadores. O mais curioso é o velho que mora no barco e conversa com uma gaivota. Enquanto se dirige para averiguar a notícia, Geraldinho vai relacionando o velho que nem conhece com os heróis das histórias lidas e ouvidas.

O menino faz uma viagem intimista, a bem de eliminar a maldade no coração, a fim de se purificar. Simbolicamente, inicia-se em um novo estágio de vida: a tentativa de descobrir sua individualidade.

Contando histórias em que a experiência conjuga-se com a memória, o velho Tomás transmite ao menino Geraldinho um saber, um conselho, motiva-o a lutar para conquistar sua identidade e superar o medo. Mostra-lhe que o fato de ser pequeno não o impede de disputar e alcançar o desejado. O velho provoca no menino a consciência de que a sua menoridade cronológica não constitui obstáculo à emergência de seu lado humano. Tão pouco ignora que toda criança, durante o processo de formação da personalidade, precisa de um herói que lhe sirva como exemplo de conduta humana.

Em Apenas um curumim (1979), a expressão indígena evidencia a presença de uma criança: kurumi, do tupi, significa menino. O curumim, cujo nome é Jari, é a representação do índio pequeno que transita na ficção. Aos poucos, o perfil da personagem vai emergindo. Além do nome, tem a cor e a fala do índio, mas não sabe pensar como a sua gente e, embora criança, olha e vive em sua viagem-lição, a sua iniciação. Reflete sobre a sua trajetória plena de estranhamento e tarefas que excedem as suas forças. Curumim não tem pai nem mãe nem irmãos, conta apenas com o velho pajé, cujo comportamento o deixa intrigado.

Das ações e palavras do pajé aprende que autoridade se conquista pela via do saber, da experiência e da coragem, mas tem medo. Na sua cabeça de criança é difícil aceitar as ações e reações do xamã, sobretudo, a lentidão: “Para o velho pajé, coisa bonita se faz devagar, com carinho, assim a ubá fica sendo nossa e a gente fica sendo ubá, uma coisa só” (p. 32).

Jari é solitário e triste. E, como qualquer criança, revela sua impotência, sua incapacidade de resolução: “E que posso fazer eu sozinho? Criança pode fazer alguma coisa? Sempre são os grandes que resolvem pela gente” (p. 24). Não se reconhecendo índio, porque vivera até então entre os brancos, confronta a cultura e os valores dos brancos com a dos índios e vive o conflito da identidade.

Para os evangelizadores, as crianças índias são uma cera branda, um papel branco que firma qualquer figura que se lhe imprima4 . Bem comprova a total transformação operada no menino Jari. Jari não é branco nem se sente índio, e nisso reside a sua angústia. Na busca de sua identidade, caminha em silêncio, conversa consigo mesmo, ao lado do pajé, que o reconduz ao povo de origem. Silêncio é, para os índios, sinal do espírito, e o velho xamã ensina ao menino a arte de ler os sinais através do movimento dos pássaros, dos ventos, dos rios, do fogo, maneiras pelas quais a Mãe Terra conversa com o ser humano, “a terra pro índio é mãe, é liberdade de poder andar, de poder caçar, de poder viver em paz” (p. 52).

É preciso ouvir a voz de dentro, a voz da própria identidade, que se dá num tom original, para o que é imprescindível passar por cerimônias, aprender a ler os ensinamentos registrados no movimento da natureza interna do Ser. Segundo Kaka W. Jecupé, os anciãos deixam os meios, os fundamentos e a sabedoria extraída de cada tempo antigo para que os novos possam se erguer e seguir a caminhada sagrada da vida5.

O pensamento primitivo da infância e da etnia indígena fundem-se no curumim que, viciado pelo branco, mente e por isso é censurado por Tamãi. Apesar de individualizado pelo nome Jari, o indiozinho da ficção simboliza uma realidade coletiva e, vivendo conflitos verossímeis, tem atitudes próprias de qualquer criança.

Em Não-me-Toque em pé de guerra (1982), os dados pessoais da criança-personagem e da sua circunstância são revelados pelo pai através de uma carta, na qual o destinatário, Pedro, é tratado com extremo carinho, já denunciado no vocativo inicial: Filhote. Pedro é corporificado, somando qualidades positivas, como coragem e decisão no que se propõe a executar, mas também com os caracteres que denotam as fragilidades de qualquer criança: saudade do pai, tristeza por se sentir discriminado, na cidade e na escola.

Pedro é carinhoso, calado, triste, curioso, gosta de pescar e é amante de aventuras. Mas, cioso dos seus sentimentos, prefere ler a carta, escondendo o olho vermelho e o nó que sobe pela garganta. A carta, além de denunciar a afinidade entre pai e filho, autênticos amigos, permite ao leitor saber que o pai do menino é um jornalista, exilado político, cuja esposa e filho passam, desde o incidente, a viver na casa do sogro, na pacata cidade Não-me-Toque.

Embora ausente o pai, por meio das cartas, procura garantir ao filho um viver livre e protegido pelo amor da mãe, pelo companheirismo sábio do avô. Sua condição de segregado, justificada pela instauração de um regime repressivo no País, não impede de provocar no filho a apreensão do mundo com os olhos e com a emoção da infância, sem desconsiderar a experiência do mais velho.

O avô ocupa um lugar privilegiado na vida do menino Pedro. É amigo, em cujo carinho e compreensão refugia-se. Mas a imagem encorajadora que lhe é dada pelo avô afetuoso é rompida no espaço externo a sua casa. Na escola é tratado de maneira arredia por professores e alunos mais velhos. Com a gurizada da redondeza brinca, enquanto não chega o pai ou a mãe de algum que, tomado pelo medo, grita:

— Carlinhos, vem pra casa, tá na hora ...

— Joaquim, a janta tá na mesa ...

— Mário, tá na hora de tomar banho ... (p. 24)

A condição que Pedro vive é atípica. Discriminado por ser filho de comunista, é impedido de brincar com seus pares. Seqüestrado dos brinquedos em grupo, referencial de toda criança, busca refúgio no rio, e dos peixes faz seus interlocutores. Então, a vontade de pôr em prática as sugestões, as lições aprendidas com o pai, fazem-no aventurar-se baía a dentro.

Inteligentemente o menino planeja um meio de derrotar seus perseguidores, que pensam chegar ao pai, ou seja, capturar o peixe maior, seguindo o filho. Pedro revela-se autoconfiante, a ponto de convencer seu amigo Tec-Tec, o jornalista adulto, a seguir suas orientações. Vivendo uma circunstância que reporta à do Pequeno Polegar e a de outras personagens, quando confrontadas com a complexidade do mundo que as cercam, Pedro, conhecedor de todos os segredos da baía de Não-me-Toque, passa a ser chamado de Capitão Pedro, o que muito o envaidece.

Em Mamãe é mulher do pai e outras histórias (1983), a criança-personagem transita anonimamente, sem revelar suas marcas físicas. A questão gênero revela-se somente numa construção verbal e num vocativo: “E eu não estou acostumado, que nem os grandes... (p.14). “— Filho — ele começou...” (p.16). Assim, o perfil subjetivo vai sendo desvelado no contato com a realidade: o menino capta, apreende, incorpora, mas questiona o que vê, a realidade que vive. Põe a nu os valores morais pregados pelos adultos, porém não cumpridos por eles mesmos, pois “gente grande só sabe enxerir o nariz em coisa de criança”(p.10).

Na construção da personagem, destaca-se a predominância dos sentimentos: primeiro a efusão para contar a novidade, depois a decepção. A repreensão, em voz alterada, vinda do pai: “Não aprendeu a bater em porta fechada antes de entrar?” (p.11), acorda no menino o sentido das conveniências, das normas vigentes em uma sociedade, bem como o sentimento de sua fraqueza ante o adulto.

O menino-narrador invade um universo que lhe é vedado: abrir a porta do quarto sem antes anunciar-se enquadra-se como falta de ética. O menino, porém, não entra no quarto dos pais num ato de desobediência nem movido por curiosidade. Ele quer tão somente contar-lhes uma novidade, mas ante a expressão de susto, a cara vermelha, a brabeza e o grito do pai, sai de mansinho e as conjeturas, as comparações e os conflitos digladiam-se dentro dele.

A reação do pai provoca a imaginação do menino, pois a ele não é permitido trancar a porta do seu quarto porque, segundo a mãe, é para evitar alguma desgraça. No caso de fazer alguma arte, essa tem de ser flagrada sem aviso prévio, sem batida na porta. O mesmo, porém, não vale para o quarto do adulto. Ótica e ética invertidas, ele não entende a reação tão brusca do pai por causa de um gesto tão espontâneo.

As reflexões decorrentes do incidente, que se instalam no menino, trazem à tona uma questão de ordem psicanalítica — o complexo de Édipo, que atormenta a criança dos quatro anos até a puberdade6: “Entendi bem direito o que está acontecendo: o pai roubou mamãe de mim” (p.12). À luz da psicanálise, os conflitos edípicos são inevitáveis e, na história, o incidente e a reação do pai desconcertam o menino que, então, necessita pôr ordem na sua casa interior. Precisa entender o mundo complexo, onde ordens e valores diferem para pessoas grandes e pessoas pequenas.

O protagonista da história, exercendo tríplice função (narrador, vítima e juiz), assume uma postura de quem, num plano superior, pondera, assevera o mau comportamento do pai para com a mãe – na imaginação infantil – e para com ele próprio, o filho; os dois segmentos frágeis da tríade familiar: “Fiquei com pena do pai, mas ele precisa aprender a não judiar da mãe. E nem adianta fazer de conta que está tudo bem. Porque não está” (p.12).

Em Fura-Bolo, a segunda história do livro Mamãe é mulher do pai e outras histórias, o protagonista apresenta a característica inerente a toda criança de gostar de brincar com barro, o que muito irrita a mãe.

O menino chama-se Guto, mas atende pelo apelido de Fura-Bolo, porque tem o vício de cavoucar o nariz. Sem direito à voz, conformado e passivo, não protesta contra as constantes implicâncias da mãe, que atua como espelho deformante e encarna somente o papel das normas, da antiinfância. Guto é, na verdade, um refém dessa mãe perfeccionista, que o obriga a viver no pólo oposto ao do Menino Maluquinho, que aproveita cada novo instante com emoção, que flagra com avidez o que lhe é oferecido pelo dia-a-dia7. O menino-protagonista representa a infância tolhida em sua autenticidade, subordinada à adultocentria, ao mundo normativo dos mais velhos. A mãe manda e o menino obedece.



Brincadeira antiga encerra a tríade do livro Mamãe é mulher do pai e outras histórias. A protagonista, uma menina de idade e perfil físico não declarados, apenas esboçados pelo nível de brincadeiras e interação com os amigos e com o pai, atende pelo apelido Chica. Essa nominação abreviada não lhe dá uma identidade, porém iguala-a às tantas crianças negligenciadas em seu meio familiar. Com o intuito de sair da condição de preterida, mas de ser enxergada pelos pais e quebrar o clima tenso que reina em casa, Chica, na sua descontração infantil, entra em cena, cantando a tradicional brincadeira “Bento que bento frade da boca do forno vocês fazem o que o mestre manda?”.

O pai sabe muito bem flexionar os verbos querer e mandar, mas não conjuga, com a mesma habilidade, o verbo que valoriza o fazer cotidiano da mulher-dona-de-casa e pouco olha a filha. Nesse clima de animosidade, em que a linha vertical, que separa o adulto da criança, se materializa, e sob a visão caolha do pai autoritário, Chica não ultrapassa a menoridade. Só lhe dirigem palavras de mando: “Come mais, assim vai emagrecer, come salada; já fez a lição? Agora pronto é hora de criança ir deitar...”(p.28).

Assim, o livre e saudável desenvolvimento da menina é tolhido pela imposição unilateral de vontades e valores, impedindo-a de sorver com prazer o convívio familiar. E porque a criança saudável não vive passivamente, no existencial coletivo, mas participa dele, Chica vai em busca de um talismã contra a incompreensão e a insensibilidade dos pais.

Apropria-se das palavras do Boca-de-Forno, um jogo tradicional, vivo e ruidoso da infância dos tempos antigos. E pelo jogo do frade inverte sua condição, vira mestre, dá ordem para os amigos procurarem um pouco de enxergamento. Ela mesma quer achar um pouco de espontaneidade e poder viver um tempo de bom humor na relação doméstica.

O jogo folclórico e a brincadeira realimentam o imaginário infantil e o emocional da menina leva-a a transformar as palavras em ação, a brincar para atenuar a hostilidade e a indiferença do meio familiar. O jogo, segundo Celso Antunes, permite à criança realizar tudo quanto deseja, transformar-se no que ou em quem quer ser, ordenar o que quer, decidir sem restrições8. No jogo, portanto, a criança revigora-se, expressa-se em sua plenitude e recria-se naquilo que a palavra nomeia.

Em Brincadeira antiga, infância e cantiga folclórica, dentro de uma família autoritária, aproximam-se pelas relações verticais da sociedade que coloca ambos, criança e povo, em uma instância de inferioridade. O anacronismo da cantiga popular, pois é coisa de tempos antigos, relega à infância um material simbólico abandonado pelo adulto e pela criança dominada pela mídia eletrônica. Como reinvenção, porém, a cantiga não pode ser ignorada, pois, pelo ilogismo, quebra e recompõe os padrões de comportamento9. Nessa perspectiva, a menina Chica sobrepõe-se à condição de mera receptora e executa uma atividade criativa, uma invenção que desconcerta o adulto.

Em Rio Liberdade (1984), Moreno, um menino de quase 12 anos, como todos da sua faixa, gosta de aventuras, é ousado e valente, mas sente medo ante o desconhecido. Ama seus pais, valoriza a liberdade de todo ser vivo e mostra-se afeito à vida natural. Desde a abertura, a narrativa é entregue a Moreno, personagem principal, que descreve as peripécias vividas na Região do Pantanal Matogrossense, em duas situações. Na primeira, é acompanhado pelos pais, quando atua mais como observador, como aprendiz. Na segunda, é agente principal de uma memorável aventura, quando foge do internato para buscar abrigo na companhia da tia Chica.

Em companhia da mãe e do pai, jornalista, Moreno viaja para o Pantanal onde reencontra a irmã do pai, tia Chica, bióloga responsável por uma reserva ecológica. Pelo respeito que devota aos animais, à natureza, à liberdade, a tia passa a ser ponto de referência para o menino, instaurando-se entre os dois um relacionamento que assume nuances de compreensão e amizade. Assim, imbuídos desses sentimentos, eles partilham a vontade de dar liberdade a Garrancho, o gavião que é ferido ao tentar atacar um ninho de colhereiro.

Tia Chica sabe estabelecer com o menino uma comunicação que, não obstante pedagógica, é também afetuosa e livre. Ensina-lhe como portar a espingarda pesada de dois canos e calibre grosso, sempre arrematando a aula com um sorriso bonito, diferente, um sorriso só de olho. Apesar da diferença de estatuto entre os dois, o menino admira a tia pela sua cumplicidade, pelo sabor que sabe dar à vida em liberdade. Tal amizade completa o estado de felicidade em que vive com os pais e, na progressão da aprendizagem infantil, a participação adulta pode impulsionar o lançamento da criança à realidade10.

De volta para São Paulo, a família de Moreno sofre um acidente no qual perecem o pai e a mãe, ficando o menino com um problema nas pernas que o impede de caminhar por longo tempo. Após o acidente, Moreno toma ciência de que criança não conta, pois na hora de decidir com quem deve morar, sua palavra não tem valor e o juiz decide deixá-lo aos cuidados da outra tia, a Jondira, irmã da mãe, que mora em São Paulo, a tia rica.

Portanto, a relação de afetividade entre Moreno e tia Chica não é levada em conta e, em nome da justiça, transacionam a liberdade de uma criança a quem, sem direito a querer e muito menos a decidir, só resta concluir: “É tudo tão complicado, vá a gente querer entender o que se passa na cabeça dos grandes....”(p.37).

Moreno relata passo a passo sua viagem de São Paulo ao Pantanal prenhe de suspense, desafio e ousadia. Esse Ulisses brasileiro, mesmo acometido pela saudade da mãe e do pai, acossado pelo frio e pela fome, acuado pelos inimigos, continua sua travessia sempre movido pela sede de liberdade, em cuja busca é, como todo ser humano, permanentemente um aprendiz. Moreno, embora, iniciante na travessia, luta à exaustão para não perder as conquistas logradas.

No Pantanal, vive perigosamente, fazendo jus à máxima do outro viajor do sertão, Riobaldo: “Viver é muito perigoso...”11. Assim como Riobaldo, em Grande sertão: veredas, o menino de Rio Liberdade, à medida que se desloca por terra ou por água na imensidão do Pantanal, vai percorrendo veredas no seu eu interior. São caminhos de idéias ancoradas na emoção e na razão, que lhe dão forças para agir, reagir e prosseguir, mesmo quando o medo dele se apodera. No curso dessa aventura, muitos medos detonam o imaginário do menino que, frente a circunstâncias inusitadas, lembra-se da persistência do pai, em situações de desafio.

Moreno é um menino de ação, nem mesmo a doença o faz parar, pois, se não caminha, a mente planeja o vôo da liberdade. Solitário, percorrendo todo o trajeto mostrado no mapa (p.46), na verdade, seu caminho para a liberdade, não se deixa abater, pois confia em sua capacidade.

Em Garnisé gabola acabou gabiru (1986), a entrada das personagens crianças Danilo e Mauro, na história, coincide com sua entrada na escola da cidade. Suas características físicas restringem-se ao adjetivo taludinho, enquanto as morais e os traços da personalidade vão emergindo ao longo da narrativa.

Danilo, o mais velho, e Mauro, o mais novo, com a participação dos colegas da escola, Odilon e Dori, transformam o galinheiro construído pelo pai, no quintal da casa da cidade, num espaço de aventuras. Entre capoeiras e arbustos revivem as façanhas de Daniel Bone, com os índios no seu encalço, Tarzan sem Chita e sem Jane, saltando entre os galhos das árvores, Mão-de-Ferro acompanhado de Winnetou, vagueando pelas campinas americanas, capitão Ahab à caça de Moby Dick, pelos oceanos.

Travestidos em heróis, os meninos vivem o mundo imaginário no qual os acontecimentos, segundo Walter Benjamin, não são nunca idênticos, mas semelhantes, impenetravelmente semelhantes entre si12. O faz-de-conta marcado pela autenticidade da infância está longe da dicotomia menino bom/menino mau, recompensa/castigo. Tal condição permite aos protagonistas a fruição do tempo lúdico, do prazer acrescido de um desenvolvimento pleno e equilibrado da inteligência.

Os protagonistas vivem a fase em que aflora a necessidade das aventuras acionadas pelas emoções, o que leva Danilo, Mauro e seus pares a admirarem os heróis humanos e a querer imitá-los13.

Os filhos de seu Urbano e dona Gertrudes, Danilo e Mauro, crescem por fora e por dentro graças à vida emocional doméstica e ao encaminhamento moral. Criados na religião católica, são assíduos freqüentadores da missa dominical. Danilo prefere ir à das seis e meia, assistida pelos caçadores, pescadores e fazendeiros, porque “além de sentir-se um pouco adulto, ficava mais tempo livre pras as invenções de domingo” (n.p.).

Dotados de acentuado grau de observação e infensos à prepotência e à opressão, mostram-se dispostos a encarar os fatos com seriedade e a extirpar a injustiça que vêm testemunhando no galinheiro, pois o galo garnisé, a despeito do seu pequeno porte, é prepotente e trata a pontapés os frangos ainda incipientes na arte do cocoricó

Danilo, Mauro e seus amigos, energicamente, tomam a defesa do estrato inferior dos galináceos. Não se rendem à supremacia do garnisé e não querem anular a capacidade e iniciativa dos frangos. Por meio de brincadeiras, trabalham a consciência de justiça, de respeito aos direitos do outro. Tendo como pano de fundo um espaço mágico-aventuresco, os meninos organizam-se para uma ação mais pragmática, ou seja, instaurar o respeito no galinheiro.

Traçados com realismo, os meninos-personagens dessa obra werneriana aproximam-se do Tom Sawyer, de Mark Twain, ou seja, representam meninos de carne e osso14, vivendo impetuosamente, revivendo uma infância consoante com a máxima de Cecília Meireles: a vida só é possível reinventada15.

Em Presente de um domingo chuvoso (1986), Carolina, cuja idade não é declinada, é bonita, morena, cabelos compridos, olhos escuros, grandes e brilhosos, incrivelmente brilhosos! Esperta e curiosa, padece de uma alergia crônica e tem um medo irracional de cachorros, exceto do de pano, branco e marrom, de orelhas grandes e caídas, mas cara bonita, presente ganho de seu maior amigo. Estuda no colégio em frente à livraria do velho Henrique, a quem considera como avô por sua amizade.

Henrique é um livreiro, também conhecido como o professor, e a menina, embora não lhe tenha afinidade biológica, é sua neta pela força do carinho e do amor que os une. A fim de freqüentar a escola, Carolina mora no apartamento do avô durante a semana e na sexta de noitinha vêm os dois para a praia Lagoa dos Encantos, onde o avô tem sua casa, vizinha à dos pais de Carolina.

É nesse espaço paradisíaco que acontece o inusitado: “(...) escutou o guinchar dos freios de um carro, as rodas derrapando na estrada de areia, agora molhada da chuva, e o ganir de um cachorro” (p.13). Assim como criança abandonada à porta de alguém, o cachorro, na verdade, uma cadelinha, ganha uma família constituída de um velho e uma criança. Quebrando a monotonia de um domingo chuvoso, a cadelinha passa a ser alvo dos cuidados da menina, que a batiza de Pipoca, lembrando uma onomatopéia. Isso bem comprova a natural afeição que o animalzinho desperta na criança, que logo o transforma em amigo e confidente.

Mas todo o carinho que Carolina dispensa à Pipoca não livra a cadelinha de uma doença fatal, cujo avanço se transforma em calvário para o velho e para a menina, a quem a dor castiga muito mais, pois, no dizer de Werner Zotz, além de criança é mulher.

Apesar dos redobrados esforços, Pipoca morre ainda jovem e Carolina aprende, entre tantas outras lições, a “estabelecer a relação de cumplicidade amiga com cada um dos pequenos componentes que fazem a vida mais simples e mais fácil” (p.106).

A posse do animal humanizado propicia à menina um melhor conhecimento do outro, do sentimento de perda, além de assegurar-lhe firmeza ante os embates da vida. A presença da cachorrinha anula a diferença etária, o adultocentrismo, igualando velho e criança nos sentimentos. Ante as decisões tomadas pela menina, em certas ocasiões, fica evidente que ela é determinada, que reage com prontidão e sabe defender seus interesses.

Disposto a endereçar à criança uma literatura isenta de regras fixas, Werner Zotz vive intensamente as personagens criadas e inseridas em uma história verossímil, em tempo e espaço reais. Falando sobre sua criação, o autor declara que, ao término de cada obra, acredita ter crescido um pouco, ter descoberto respostas para suas dúvidas e ter compreendido melhor a si próprio e o mundo do qual faz parte16.

Procura fazer histórias novas ou dar novo paladar a temas da realidade, enriquecendo-os com elementos fornecidos pela inventividade e, através do imaginário e do lúdico, o leitor vislumbra um objetivo de vida, uma certeza de que a liberdade é um bem maior, cuja busca culmina na realização do homem. Com realidade e imaginação, Werner Zotz tece uma literatura compromissada com a arte e como bom artesão, produz uma ficção para a criança e pela criança que continua existindo em todo adulto. Analisando a concepção criativa do escritor, há que endossar as suas palavras: “Busco, sim, uma perfeição, sempre maior, usando todos os recursos necessários para isto. Mas sem nunca esquecer que como ficcionista, sou um contador de histórias...”17.

Nas histórias wernerianas, as personagens, fortalecidas pela afetividade do seu criador, adquirem consciência dos seus medos e desejos e, como sujeitos ativos, entram no processo movidos pelo querer se superar constantemente. O menino de Werner Zotz ama o rio, cujo curso lhe permite a fuga para a liberdade, “pois só o rio sabe de onde ele vem, para onde vai e o que faz”18. Através de manifestações externas, os meninos e as meninas criadas pelo autor projetam seus sentimentos, suas potencialidades, optam pelo crescimento interno, pelo novo, pelo desconhecido.

Em termos numéricos, a personagem feminina leva desvantagem, pois dentre as oito histórias, a menina protagoniza apenas duas: Brincadeira antiga e Presente de um domingo chuvoso em cujo percurso as meninas Chica e Carolina vivem conflitos circunstanciais. A primeira, a desarmonia familiar e a não valorização de sua pessoa; a segunda, a perda do animalzinho de estimação. Ambas lutam para reverter as situações e mostram-se donas de personalidades fortes, capazes de sustentar seus direitos de ser humano, seu poder de convencimento “transformante sobre o Eros do homem, seja o pai ou o amigo”19.

Fugindo a um padrão de comportamento, a personagem representada por Werner Zotz já traz em suas ações e reações a resposta à pergunta de Ana Maria Machado: “Pra que é que presta uma menininha?”20. Certamente, não reedita Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, nem aceita o papel de submissão ou foge aos desafios. Mas, é capaz de vivenciar suas potencialidades, tornar-se assertiva, correspondendo, assim, ao que a realidade atual espera do segmento feminino.

Sem se distanciar do real, Werner Zotz confirma a premissa de que ao homem também é permitido sentir e, se não externa suas dores, a culpa é do meio opressor. Criado em uma sociedade em que as emoções reservam-se às mulheres frágeis, ao homem cabe essencialmente a força, a coragem desmedida, a luta.



Reconhecendo na criança um ser humano, trabalha intensamente sobre os sentidos e os sentimentos, exercitando a cidadania. Suas personagens não nascem prontas, são frutos do exercício do dia-a-dia. É o dizer do pai e o ensinamento do velho que vão construindo o menino. E num exercício de autoconstrução, a criança vai se afirmando, afirmando o seu ser.



1 Parte da tese de doutorado – “Representação da Criança na obra de Maria de Lourdes Krieger e Werner Zotz”.

2 Dr. Em Letras/PUC RS. Professora de Língua Portuguesa e Literatura da Universidade do Planalto Catarinense – UNIPLAC – Lages/SC.

3 KHÉDE, Sônia Salomão (Org.). Literatura infanto-juvenil: um gênero polêmico. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986, p.8-29.

4 DEL PRIORE, Mary (Org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999. p. 58.

5 JECUPÉ, Kaka Werá. A terra dos mil povos: história indígena brasileira contada por um índio. São Paulo: Peirópolis, 1998. p. 23.

6 BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p. 49.

7 RESENDE, Vânia Maria. O menino na literatura brasileira. São Paulo: Perspectiva, 1988. p.139.

8 ANTUNES, Celso. Jogos para a estimulação das múltiplas inteligências. Petrópolis: Vozes, 1988. p.17.

9 PERROTI, Edmir. A criança e a produção cultural. In: ZILBERMAN, Regina (Org.). A produção cultural para crianças. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. p.10-27.

10 RESENDE, Vânia Maria. O menino na literatura brasileira. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 208.

11 ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.17.

12 BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 39. (Obras escolhidas, v.1).


13 GÓIS, Lúcia Pimentel. Introdução à literatura infantil e juvenil. São Paulo: Pioneira, 1984. p.31.

14 BRAVO-VILLASANTE, Carmem. História da literatura infantil universal. Lisboa: Vega,1977, p.155. v. 2.

15 MEIRELES, Cecília. Reinvenção. In: Flor de poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. p. 94. (Seleção Paulo Campos).

16 CAGNETI. Sueli de Souza; WERNER, Zotz. Livro que te quero livre. Rio de Janeiro: Nórdica, 1986. p. 51.

17 CAGNETI. Sueli de Souza; WERNER, Zotz. Livro que te quero livre. Rio de Janeiro: Nórdica, 1986. p. 55.

18 ZIRALDO. Menino do rio doce. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1996. (n.p.).

19 FRANZ, Marie-Louise Von. O feminino nos contos de fadas. Petrópolis: Vozes, 1995. p. 14.

20 MACHADO, Ana Maria. Pra que é que presta uma menininha? In: ABRAMOVICH, Fanny (Org.). Antologia: o mito da infância feliz. São Paulo: Summus, 1983. p. 49.



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