Resumo Capítulo I



Baixar 103.91 Kb.
Página4/4
Encontro29.07.2016
Tamanho103.91 Kb.
1   2   3   4

Baltasar



Blimunda



Alguns intertextos do Memorial do Convento


A propósito da procissão do Corpo de Deus e da preocupação do narrador com o vestuário, faz-se notar que "só os lírios do campo não sabem fiar nem tecer e por isso estão nus", o que vem de encontro ao Salmo bíblico: "Olhai os lírios do campo, não fiam nem tecem...". Outra referência bíblica surge ainda aquando da decisão do Rei de imprimir maior velocidade às obras do convento, marcando a data da sagração da basílica coincidente com o seu aniversário. A ironia do narrador leva-o a comparar a decisão do Rei com outras proclamações históricas, como "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito".

É também ainda a ironia do narrador que o faz exclamar, perante, mais uma vez, as exigências do Rei quanto à data de sagração do convento, "vós me direis qual é mais excelente, se ser do mundo rei, se desta gente", invertendo completamente (...) a mensagem de Os Lusíadas, na Dedicatória, de onde, com ligeira adaptação, este passo foi retirado. E que, se em Os Lusíadas era a grandeza, a coragem e a determinação de um povo que orgulhava e engrandecia o seu rei, aqui é justamente a capacidade de obedecer sem limites e a subserviência total que elevam o rei a quem todas as vontades, por mais inconcebíveis que sejam, são imediata e inquestionavelmente satisfeitas.

Referências soltas a episódios de Os Lusíadas também vão surgindo num ou noutro momento da narrativa, sobretudo quando se trata de comparar a epopeia da descoberta do caminho marítimo para a índia com a epopeia da viagem na passarola, também ela de descoberta, rumo à aventura e ao desconhecido. Assim, toda a descrição da viagem de Lisboa a Mafra mantém estreitas semelhanças com uma viagem marítima, estabelecendo o narrador comparações várias como a que se segue, enumerando episódios da viagem que marcam as dificuldades por que tiveram de passar os navegadores: "é como se finalmente tivessem abandonado o porto e as suas amarras para ir descobrir os caminhos ocultos, por isso se lhes aperta o coração tanto, quem sabe que perigos os esperam, que adamastores, que fogos de santelmo, acaso se levantam do mar, que ao longe se vê, trombas de água que vão sugar os ares e o tornam a dar salgado".

Nova referência ao Adamastor surge já perto do local onde vão aterrar e com o qual estiveram prestes a chocar e a desfazerem-se: "Na frente deles ergue-se um vulto escuro, será o adamastor desta viagem, montes que se erguem redondos da terra, ainda riscados de luz vermelha na cumeada". Mas uma outra referência ao Adamastor também já tinha sido feita no momento em que grandes ventos destroem a Igreja de madeira que tinha sido especialmente construída para a cerimónia de sagração da primeira pedra do Convento de Mafra. O narrador afirma que a grande tempestade ocorrida "foi como o sopro gigantesco de Adamastor, se Adamastor soprou, quando lhe dobravam o cabo dos seus e nossos trabalhos.

Também a descrição da "caça" aos homens para trabalhar nas obras do convento de Mafra segue de muito perto o episódio de Os Lusíadas das despedidas em Belém e da fala do Velho do Restelo. As mulheres, ao verem os homens partir sob o jugo dos quadrilheiros, vão clamando, qual em cabelo, "Ó doce e amado esposo e outra protestando, Ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha". E, face a esta cena, faz-se ouvir a voz da oposição a esta epopeia que era a construção do convento: "Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó pátria sem justiça", para sempre silenciada por uma "cacetada na cabeça" de um quadrilheiro, mostrando até que ponto a História é circular e os seus episódios se repetem.

ANA MARGARIDA RAMOS, Memorial do Convento, da leitura à análise (texto com supressões), Edições Asa.


Um estilo híbrido: a convergência do Património Cultural

Registo de língua


Popular: "de boca à banda" (p. 27)

Familiar: "Meu querido filho, como foi isso, quem te fez Isto..." (p. 106)

Cuidado: "não havendo portanto mediano termo entre a papada pletórica e o pescoço engelhado, entre o nariz rubicundo e o outro héctico" (p. 27).

Interacção com a literatura portuguesa


Quadras populares: "Aqui me traz minha pena com bastante sobressalto, porque quer voar mais alto, a mais queda se condena" (p. 104).

Contos tradicionais: "Era uma vez uma rainha que vivia com o seu real marido em palácio..." (p. 260).

Luís de Camões, Os Lusíadas: "O homem, bicho da terra" (p. 65).

Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes: "Estão parados diante do último pano da história de Tobias, aquele onde o amargo fel do peixe restitui a vista ao cego, A amargura é o olhar dos videntes, senhor Domenico Scarlatti,..." (p. 173).

Fernando Pessoa, Mensagem: "Em seu trono entre o brilho das estrelas, com seu manto de noite. solidão, tem aos seus pés o mar novo e as mortas eras, o único imperador que tem, deveras, o globo mundo em sua mão, este tal foi o infante D. Henrique, consoante o louvará o poeta por ora ainda não nascido... (p. 233).

Estilo barroco: "Parece apenas um gracioso jogo de palavras, um brincar com os sentidos que elas têm, como nesta época se usa, sem que extrema mente importe o entendimento ou propositadamente o escurecendo." (p. 172).

Introdução do fantástico


"Entre S. Sebastião da Pedreira e a Ribeira entrou Blimunda em trinta e duas casas, colheu vinte e quatro nuvens fechadas, em seis doente já as não havia, talvez as tivessem perdido há muito tempo, e as restantes duas estavam tão agarradas ao corpo que, provavelmente, só a morte as seria capaz de arrancar de lá. Em cinco outras casas que visitou, já não havia vontade nem alma, apenas o corpo morto, algumas lágrimas ou muito alarido." (p. 186).

A música como metáfora da obra literária


"Se a música pode ser tão excelente mestra de argumentação, quero já ser músico e não pregador. Fico obrigado pelo cumprimento, mas quisera eu que a minha música fosse um dia capaz de expor, contrapor e concluir como fazem sermão e discurso" (p. 168).

Do sonho à concretização



O paralelismo simbólico dos episódios iniciais e finais


Auto-de-fé de Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda

As últimas páginas...

Auto-de-fé de Baltasar Sete-Sóis

Primeiro encontro entre Blimunda e Baltasar

- Blimunda "repetia um itinerário de há vinte e oito anos".
- O rio como imagem da precariedade da vida.
- Blimunda está em Lisboa pela sétima vez: encerramento de um ciclo de vida.

Último encontro de Blimunda e Baltasar

- "Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas".

- "Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda".

Espaço - Rossio

Espaço - Rossio

- "O Rossio está cheio de povo".

- "Meteu-se pela Rua Nova dos Ferros, virou para a direita na igreja de Nossa Senhora de Oliveira, em direcção ao Rossio"

Ambiente soturno:

 

Ambiente soturno:

- "sobre o Rossio caem as grandes sombras do convento do Carmo;
- "e as pessoas voltarão às suas casas, refeitas na fé, levando agarrada à sola dos sapatos alguma fuligem, pegajosa poeiras de carnes negras, sangue acaso ainda viscoso se nas brasas não se evaporou".

- "caminhava no meio de fantasmas, de neblinas que eram gente";
- "Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o da carne queimada".

A multidão reúne-se

A multidão reúne-se

- "O Rossio está cheio de povo".

- "havia multidão em S. Domingos"

As condenações da Inquisição:

As condenações da Inquisição:

- condenação da mãe de Blimunda (ao degredo).

- condenação de António José da Silva, "autor de comédias de bonifrates";
- condenação de Baltasar Sete-Sóis.

Ritual de morte

Blimunda comunica enigmaticamente com a mãe

Blimunda que, no primeiro encontro com Baltasar, prometera que nunca o veria por dentro, usa os seus dons nos momentos finais da vida de Baltasar e vê uma nuvem fechada que está no centro do seu corpo - RECOLHE A SUA VONTADE.

Blimunda comunica enigmaticamente com Baltasar

- "não fales, Blimunda, olha só com esses olhos que tudo são capazes de ver;
- "adeus Blimunda que não te verei mais".

- "Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis".

Lisboa é o último (grande) espaço a ganhar importância e a fechar o círculo iniciado no capítulo V, verdadeiro incipit do romance (funcionando os primeiros capítulos como amostras das peças de encaixe do romance como construção). É num dia de auto-de-fé que Blimunda (re)encontra Baltasar, agora no lugar de condenado, a arder na fogueira, e acolhe a sua vontade comungada com ela. Esta vontade acolhida em si transforma o momento em espaço de encontro e de partilha.

In Interacções, 12.º ano


Elementos simbólicos

Sete


Para a cultura cristã, o algarismo 7 corresponde a:

  • Sete céus, sete sóis, sete esferas da antiga astrologia hermética: Sol, Lua, Mercúrio, Marte, Vénus, Júpiter e Saturno;

  • Sete virtudes cristãs (as teologais: fé, esperança e caridade; as cardeais: força, temperança, justiça e prudência);

  • Sete pecados capitais: orgulho, preguiça, inveja, cólera, luxúria, gula e avareza;

  • Sete sacramentos baptismo, eucaristia, ordem, confirmação, casamento, penitência e extrema-unção;

  • Sete dias da criação do mundo narrados no Génesis;

  • Sete tabernáculos e sete trombetas de Jericó;

  • No Apocalipse: sete candelabros; sete estrelas; sete selos; sete cornos; sete pragas; sete raios.

Pode ainda corresponder a:

  • Sete cores do arco-íris;

  • Sete notas da escala musical.

Sol


O Sol identifica-se com fonte de vida, com a própria vida - o que faz corresponder Sete-Sóis a Sete Vidas, que, por sua vez, significaria que Baltasar encarna simbolicamente a vida de todos os homens do povo, sempre labutando e sempre perdendo o fruto do seu trabalho, independentemente de épocas históricas e de regiões geográficas.

O Sol percorre um ciclo celeste diurno de Oriente para Ocidente - assim Baltasar percorre, no interior da Passarola, um ciclo entre Lisboa e Montejunto; e tal como o Sol, para nascer, segundo a antiga mitologia, tem que vencer todos os dias todos os guardiães da noite/morte, Assim Baltasar terá que vencer os guardiães da "noite histórica": a Inquisição, a credulidade popular, as forças espirituais retrógradas da Escolástica. E, assim como o Sol atravessa o céu, mas nele não se detém nem o conquista definitivamente para si, Baltasar atravessa o céu, rompe os céus, rasga a imagem pura de um céu morada de Deus. Neste aspecto, Baltasar, sob as ordens científicas do padre Bartolomeu de Gusmão, assume o estatuto de herói mítico que ousa desafiar a estabilidade aparentemente eterna da ideologia cristã. E, para que o simbolismo clássico do herói maravilhoso e trágico que ousa desafiar os deuses seja cumprido na totalidade, Baltasar morre pelo fogo, como herético, o padre Bartolomeu de Gusmão morre louco, em Toledo, e Blimunda vagueia pelo mundo sem destino.

Baltasar, Blimunda e o padre Bartotomeu de Gusmão repetem o desejo de Faetonte, filho mortal de Apoio, que, querendo imitar o pai, conseguiu deste a promessa de o deixar guiar o carro do Sol por um só dia. Porém, Faetonte não conseguiu manobrar os cavalos e sustentar o carro do Sol na abóbada celeste e o carro despenhou-se sobre a Terra, incendiando-a e matando o jovem ousado. Do mesmo modo, o padre Bartolomeu de Gusmão e Baltasar morrerão devido ao seu desejo de voar e Blimunda tornar-se-á em mulher errante.

Lua


Se o nome de Sete-Sóis torna esta personagem num quase herói mítico, o nome de Blimunda de Jesus, Sete-Luas, faz de igual modo repercutir ecos mítico-ancestrais. Antes de mais, o nome próprio, Blimunda, deriva-nos de imediato para as narrativas baseadas na matéria da Bretanha e para os ciclos celtas do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Porém, o apelido Jesus integra desde logo estas possíveis derivações semânticas no quadro do pensamento cristão.

Blimunda não é de origem Sete-Luas; é o padre Bartolomeu de Gusmão que a crisma assim por ela ser companheira de Sete -Sóis: "... o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou: Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem baptizada estava, que o baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um." (p. 94).

No romance, Sete-Luas só se compreende por directa relação com Sete-Sóis e, de facto, a Lua, porque não tem luz própria, é o princípio passivo do Sol. Porém, na intriga romanesca de Memorial do Convento, o narrador histórico revoluciona este princípio simbólico da passividade feminina e atribui a Blimunda capacidades intuitivas e ecovisionárias, dependentes das fases da Lua, que a tornam, como elemento activo, tão importante quanto Baltasar.

Blimunda não se compreende sem Baltasar, mas este também não tem existência romanesca sem Blimunda, exactamente como o par antitético mas intimamente complementar de dia-noite, claro-escuro, Sol-Lua; porém, em Memorial do Convento existe uma substancial diferença: enquanto mitológica e religiosamente a nossa civilização confere um peso ontológico superior ao primeiro elemento dos pares antitéticos (o que se explica naturalmente por os olhos humanos terem sido feitos para receber a luz e não a escuridão), neste romance, Baltasar e Blimunda sofrem de igual nível de protagonismo, nenhum deles sendo superior ao outro. Esta característica subversiva do estatuto social feminino no século XVIII, estatuto então perfeitamente passivo e submisso face ao poder masculino, é subsidiária do modo de vida a dois do casal, sem casamento oficial e com igualdade de mando e obediência entre ambos. Mas a Lua, devido às suas fases, que aliás condicionam o poder de Blimunda, é também símbolo do ritmo biológico da Terra, é medida do tempo, frutificadora da vida, guardadora da morte, dispensadora de geração. E é deste modo que Blimunda, devido aos seus poderes, é aquela que acolhe as vontades humanas dos moribundos, as junta nas duas esferas para com elas e com estas gerar energia vital ("O ar que Deus respira") que, em conjunto com âmbar e o íman, movem a Passarola. A junção das vontades humanas, teorizadas pela nova ciência, que produzem mais força, mais vontade, tão imensa que faz os Homens subirem aos céus, significa aqui, simbolicamente, a Primavera mítica que arranca a Humanidade do dogma da religião, do terror inquisitorial e da teologia supersticiosa, três símbolos que designam uma só realidade: a morte humana, o pensamento falso e passivo, a vontade resignada que enquadrava o Portugal da época.



Blimunda é a mulher liberta do futuro, que trabalha ao lado do marido e em ele tudo vive e decide, é a nova mulher, é a não-mulher coquete-objecto (de notar que nunca é descrito o corpo de Blimunda, a não ser uma ligeira referência à sua altura e à sua magreza (p. 56), é aquela em que, à imitação de Julieta, de Inês, de Isolda, de Heloísa, de Mariana Alcoforado, o amor vence, e vence ao ponto de durante nove anos não desistir de procurar o seu amado até que, encontrando-o, permite-se ficar deste "grávida" espiritualmente, comungando em si a vontade de Baltasar.

A mãe da pedra


Uma outra situação-acontecimento de cariz mítico em Memorial do Convento constitui-se com a gesta heróica, epopeica, do transporte da pedra gigante de mármore, a mãe da pedra, de Pêro Pinheiro para Mafra. Desde o início, a narração anormaliza as situações descritivas: o tamanho gigantesco da pedra, o carro especialmente construído para o seu transporte (uma "nau da Índia"), as duzentas juntas de bois e os seiscentos homens necessários para o puxarem, os difíceis obstáculos do caminho, à semelhança das narrativas de heróis clássicos, em que se anunciam os "trabalhos" fabulosos que terão de ser contornados e o esforço imperioso, mais do que humano, que terá de ser despendido.

In Interacções, 12.º ano


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal