Resumo expandido



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Encontro31.07.2016
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RESUMO EXPANDIDO
As regras ou normas figuram como elementos centrais na organização da vida em sociedade, independentemente de tempo e espaço considerados. Logo, devem ocupar lugar destacado em qualquer arranjo teórico que ambicione explicar ou compreender as mais diversas formas humanas de agir e se comportar. Assim, é inevitável que uma sociologia/antropologia do esporte acabe dedicando atenção especial às regras que regem a prática de cada modalidade.

Segundo Norbert Elias e Eric Dunning (1992), a emergência de regras mais rígidas, explícitas e diferenciadas, voltadas para um maior controle do uso da violência, foi um dos fatores que tornaram possível o que eles chamam de esportivização das atividades de lazer, processo este ocorrido entre os séculos XVIII e XIX e que se originou em Inglaterra. Assim, no âmbito esportivo, as regras integram um processo no qual os indivíduos foram levados a serem cada vez mais disciplinados e adestrados corporal, social e moralmente, de modo que pudessem constituir configurações sociais normativamente marcadas por uma maior observância de determinados constrangimentos estabelecidos com relação a certos comportamentos e ações sociais.

Não é à toa que a identidade própria de cada esporte é dada a partir do estabelecimento e manutenção de regras específicas, responsáveis por erigir as bases legais e morais de sustentação da sua prática. Isto se aplica também ao caso do futebol, pois, assim como os demais jogos esportivos, ele possui regras que estabelecem os termos nos quais se dão a disputa das partidas. Ademais, essas regras são capazes de definir também as formas e estilos coletivos e individuais de prática e vivência deste esporte.

Todavia, ainda hoje estudos socioantropológicos continuam a desconsiderar a necessidade de se analisar as regras e normas esportivas em seu desenvolvimento histórico, ou seja, de verificar como e por que elas vieram a se tornar naquilo que se constituem em um dado momento. Com isto, se ignora o fato de que tais regras, dentre elas as do futebol, não se apresentam como estáticas, imutáveis no tempo. Elas estão constantemente sujeitas a alterações, as quais, para serem legitimamente adotadas na prática cotidiana da modalidade, precisam ser refletidas e consentidas pelas entidades responsáveis por garantir tanto a manutenção da identidade particular do futebol quanto o interesse permanente do público por ele. Assim, desde 1863 – ano em que se constituiu como um esporte distinto dos demais, graças à codificação de seu primeiro conjunto oficial de regras –, até a atualidade, o futebol vivenciou inúmeras mudanças em suas regras. Em maior ou menor grau, elas tiveram o efeito de tensionar as formas pelas quais o jogo é jogado pelos grupos (equipes) e indivíduos (jogadores), bem como influenciar de maneiras diversas as perfomances coletivas e individuais dentro de campo.

A despeito disto, é mister salientar que as alterações ao longo da história nas regras futebolísticas não acarretaram transformações no que concerne ao “espírito” que subjaz à aplicação delas como meio de controle legítimo da competição entre os contendores, tanto de equipes como de jogadores. Esse “espírito”, outrora citado pelo ex-árbitro brasileiro Emídio Marques de Almeida, é norteado por três princípios: a igualdade, a segurança e a fruição do jogo.

Tomando as colaborações de Francis Kew (1987) e Luiz Henrique de Toledo (2008), é possível visualizar as razões que levaram (e ainda levam) os legisladores do futebol a preservar aqueles princípios e, por extensão, o “espírito” que permeia a cultura das regras futebolísticas. Ao versar sobre como e porque se dão os processos de mudanças nas regras dos chamados jogos de invasão, Kew enfatiza que os legisladores esportivos, ao pensarem sobre possíveis alterações que aquelas possam sofrer, têm como preocupações básicas: 1) garantir que o jogo não perca sua identidade própria; 2) assegurar que o mesmo continue a ser viável e sustentável como atividade de interesse tanto para seus praticantes como para aqueles (especialistas e espectadores) que o acompanham.

Na medida, então, que os princípios da igualdade, segurança e fruição são preservados como valores necessários e imprescindíveis ao respeito e cumprimento das regras, tem-se que os objetivos explicitados acima conseguem ser atendidos de forma plena. Isto porque a sua perpetuação no interior das regras possibilita, a despeito dos sentidos e intenções imediatos das mudanças realizadas, a constituição de um substrato simbólico comum ao qual todas as regras se encontram fixadas. E é justamente esse substrato um dos fatores que auxiliam na manutenção identitária do futebol e do interesse com aspecto de paixão despertado por ele nas mais distintas regiões do mundo. Em suma, os princípios do “espírito” das leis do jogo atuam como uma espécie de linguagem simbólica que permite a leitura do futebol em termos universais.

A partir da alegação de Emídio de Almeida quanto ao “espírito” das regras, Toledo investe em uma exposição analítica dos três princípios que o comporiam. Para ele, esses princípios, fixados ora explícita, ora implicitamente nas regras do futebol, visariam estabelecer uma mínima equivalência na performance entre as equipes e indivíduos envolvidos nas disputas. Assim, o princípio da fruição – relacionado à dimensão lúdica do jogo, a qual engloba o prazer e a plasticidade da disputa em si para quem a pratica e para quem a assiste –, se submete ao princípio da igualdade. Este, por sua vez, expressaria a ideia de que os indivíduos e grupos a prioristicamente devem possuir condições iguais nas situações sociais marcadas pela competitividade. Por fim, o último princípio, o da segurança, propicia o exercício com riscos mínimos da condição dada aos indivíduos e grupos de poder agir e se comportar socialmente sabendo que as leis (regras) são formalmente iguais para todos.

Quando mudanças de caráter semântico – aquelas que alteravam o sentido da prática futebolística – ocorreram nas regras, as mesmas se justificavam devido à necessidade de se restabelecer o equilíbrio perdido na prática do jogo. No momento em que as regras deixam de atender aos propósitos da igualdade, segurança e fruição – o que muitas vezes decorre de uma “falha” no próprio fluxo de interpretação e vivência delas ao se pensar ou jogar o jogo –, é preciso ir atrás de novas estratégias que deem conta de reajustar cada engrenagem (uma regra qualquer) no lugar que lhe cabe (o conjunto de regras).

Para tratar disso, vamos recorrer ao exemplo emblemático da regra 14, referente ao tiro penal (o popular pênalti). A manifestação dos três princípios se dá de maneira bastante complexa, merecendo assim uma atenção analítica redobrada. De imediato, vem à cabeça a lembrança do pênalti como um dos momentos em que jogadores e espectadores podem sentir com maior intensidade a fruição do jogo. Fortes e inesquecíveis emoções associam-se a ele: cobranças eficazes e belas que enganam os goleiros (vide as polêmicas “paradinhas”); pênaltis perdidos que selam o destino de atletas, jogos e campeonatos; goleiros que se consagram graças a arrojadas defesas etc. Não é preciso gastar muitas linhas para se evidenciar a manifestação do princípio da fruição nessa regra.

A marcação do pênalti é a contrapartida dada pelo árbitro à equipe que sofreu uma falta, dentro da área penal, enquanto a bola estava em jogo. Assim, o tiro penal talvez seja uma das punições mais temidas que um árbitro pode oferecer a uma equipe durante toda a partida. O princípio da segurança aparece aqui na medida em que o pênalti constitui-se como uma oportunidade ímpar de o árbitro exercer a função que lhe cabe no jogo, que é a de controlar o andamento do jogo, sobretudo com relação à utilização da violência (física e/ou emocional) em campo.

Já a igualdade aparece mais implicitamente, mas de nenhum modo deixa de ser importante no contexto em que vivemos. Sua manifestação tem a ver com o “duelo” que se trava entre o goleiro e o jogador que baterá o pênalti. Não seria loucura dizer que esse “duelo” foi/é motivo de grandes discussões e polêmicas no círculo futebolístico. Até que ponto é possível dizer que goleiro e cobrador estão em situações de igualdade quando do ato da cobrança do pênalti? O adiantamento do goleiro, ou então a parada súbita do jogador antes de chutar a bola não seriam ações que atentariam contra esse princípio?



Como se vê, a regra 14, a do tiro penal, é emblemática, pois mostra com nitidez a acentuada interligação existente aqui entre os princípios da fruição, segurança e igualdade. Formatações historicamente distintas da mesma regra implicam, obviamente, em diferentes dinâmicas e concepções do jogo. Considerando tal regra especificamente, o propósito aqui, portanto, é evidenciar a natureza do processo sócio-histórico de preservação dos princípios que dão sustentação ao “espírito” das regras do futebol. Para isto, a sociologia figuracional e a etnometodologia servirão de base teórica para a análise.


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