Resumo expandido



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Resumo expandido:
A relação entre intelectuais e formas de integração dos negros á nação (Guimarães, 2004:271-284) permite compreender os significados atribuídos ao nacionalismo e à mestiçagem nas Américas. Em Cuba, a forma como intelectuais representaram a nação transformou-se entre o final do século XIX e o início dos anos 1930. A abolição (1886) e a independência (1898) foram processos tardios, comparados aos demais países da América.

O longo processo de independência de Cuba (1868-1898) assumiu o caráter de guerra que opôs criollos (nascidos na ilha) e espanhóis. Houve um expressivo envolvimento da população negra e mulata, como soldados e generais do Exército Libertador Cubano. Este fato contribui, seja nos espanhóis ou nos criollos brancas nascidos na ilha, o “medo ao negro” e levou com que, principalmente, as autoridades espanholas criassem uma série de mecanismos de controle da população negra e “mulata” livre com o objetivo de evitar que Cuba se tornasse um “novo Haiti” (Naranjo Orovio; García González, 1996). Como reação a controle, em 1887, o jornalista Juan Gualberto Gomes (1854-1933) fundou e tornou-se presidente do Diretório Central das Sociedades da Raça de Cor (Fernández Robaina, 2004:127).

O Diretório dirigido por Gomes - ele abertamente apoiador da causa dos cubanos contra os espanhóis – conseguiu unificar um setor dos afrocubanos (divididos entre negros, mulatos, morenos, trigueños e outras subdivisões) em torno da “raça de cor”. A universalização do voto em Cuba, em 1902, fez com que os partidos políticos (liberal e conservador) disputassem o voto negro o que projetou este setor da população no cenário político da república pós-independência (La Fuente, 2004). É neste quadro de polarização política e racial (em torno do voto negro) que surge um partido negro (o Independente de Cor) que se insurgiu contra o que consideravam a manipulação política do voto negro por conservadores e liberais. A reação governamental foi extremamente violeta e os militantes do Partido Independente de Cor foram massacrados em 1912 (estimasse mais de 3 mil mortos) no episódio que ficou conhecido, na historiografia cubana, como “Guerra de Raças” (Helg, 2000). Apesar disso, os centros da “raça de cor” tem importância política do pós-independência ao fim do regime de Gerardo Machado, em 1933 (Broffman, 2004).

Apenas nos anos 20 e 30, do século XX, o movimento negrista altera o bi-racialismo presente na história nacional desde a segunda metade do século XIX. O final da década de 20 marca o surgimento do negrismo nas letras cubanas. Em 1928, Gustavo E. Urrutia passou a dirigir a coluna Ideales de una raza, no jornal Diário de La Marina (no período, um dos principais jornais de Havana). A coluna de Urrutia foi a expressão de um círculo de intelectuais formado por, entre outros, por Gustavo Urrutia, Nicolás Guillén, Lino Dou, Regino Pedroso, José Luciano Franco, Salvador Garcia Agüero, Alejo Carpentier, Fernando Ortiz, Lidia Cabrera e Juan Marinello. Alguns destes intelectuais haviam integrado o grupo Minorista (que se contrapunha a influência hispanista nas artes e letras cubanas) que, nos anos 20, fundou a Revista Avance (Moore, 2005). O negrismo, com diferentes variações, influenciou toda uma geração de intelectuais cubanos no campo da literatura, música, artes plásticas e ciências.

Em termos sociológicos, este é um grupo heterogêneo de intelectuais, seja quanto à origem de classe social, capital social, cultural e político, seja em relação às estratégias de que irão lançar mão para se inserir nos meios de consagração e difusão de bens simbólicos. São, portanto, debutantes a intelectuais motivados por possibilidades de consagração abertas pelo crescimento da oferta de cargos públicos, do mercado de bens simbólicos e formação de novas elites políticas (Miceli, 2001: 195-244). Este é um período de crise social e política: o crack da bolsa de Nova Iorque, de 1929, e a crise da economia açucareira, assim como, a dependência quase completa da economia cubana do capital norte-americano, levam a queda do machadato (como ficou conhecido o regime do presidente Geraldo Machado) e o surgimento do movimento estudantil, da classe média e dos sindicatos como novos atores políticos (Augier, 2005:142).

A origem de uma vanguarda artística e intelectual que passa a valorizar a cultura afrocubana e a mestiçagem, a partir do final dos anos 20 e nos anos 30, deveu-se à combinação complexa de fatores internos e externos à dinâmica deste grupo intelectual. Sua principal característica é a formação de uma rede de relações transnacionais. A experiência intelectual cubana, neste período, é marcada pelo incremento das relações com os Estados Unidos, a Espanha, a França e os demais países do caribe (a exemplo do Haiti). Por sua posição geográfica e história, Havana converteu-se em destino de poetas, escritores, escultores e músicos nos anos 20 e 30. Além disso, a intelectualidade cubana tem relação direta com o que é produzido pelas vanguardas artísticas na Europa, principalmente, na França; assim como, como os Estados Unidos.

Segundo os geógrafos, as ilhas continentais são as que se encontram próximas aos continentes ou ligadas à plataforma continental. De acordo com esta classificação, Cuba seria uma ilha oceânica – isolada em pleno mar aberto – apesar de geograficamente ela formar, com as outras ilhas da região, o arquipélago caribenho. No entanto, no caso de Cuba, a história parece negar a geografia. As batalhas do Exército Libertador Cubano e o labor intelectual e militar de José Martí (1853-1895) e Antônio Maceo (1845-1896) influenciaram os anarquistas na Espanha, França e Itália, assim como a José Rizal (1861-1896), líder da independência das Filipinas (Anderson, 2006:143-147). José Martí – desde Nova York – reunia e organizava os cubanos exilados no Partido Revolucionário Cubano (Anderson, 2006:147-148).

Este aspecto corrobora com a visão de Benedict Anderson de que as duas últimas décadas do século XIX testemunhou o que ele chama de “Globalização Prematura ou Inicial”. Ocorreu a invenção do telégrafo, seguida de outras descobertas (cabos submarinos transoceânicos); a inauguração da União Postal Universal, em 1876, acelerou o movimento confiável de cartas, revistas, jornais, fotografias através do mundo; a invenção do navio a vapor – seguro, rápido e barato – fez possível migrações massivas sem precedentes de estado a estado, de império a império, de continente a continente; e, por fim, a ferrovia fez possível a mobilidade de milhões de pessoas e mercadorias (Anderson, 2006:1-9).



Este fato nos remete a uma característica constante na história cubana: a circulação de intelectuais, ativistas políticas e líderes revolucionários, dentro e fora da ilha. Cuba é – a um só tempo continente e entreposto. Logo, não obstante o nacionalismo cubano reivindicar a singularidade de sua cultura, ele surge em um ambiente profundamente cosmopolita e globalizado. Não é de se estranhar, por exemplo, que no campo intelectual, o discurso da mestiçagem cubano do final da década de 20 – pouco mais de dez anos depois do massacre do Partido Independente de Cor e num país em que as desigualdades raciais eram flagrantes – tenha emergido da conjunção entre o folclorismo de Fernando Ortiz (que neste sentido, tem como antecessor o nacionalista filipino Isabello de Los Reyes e o seu El Folk-Lore Filipino, de 1887) (Anderson, 2006), o “hispanismo” de Ruben Darío (com a exaltação das raízes hispânicas da cultura cubana), a negrophilie (de origem metropolitana, francesa, e que aporta em Cuba antes mesmo do movimento da negritude dos poetas africanos e caribenhos Aimé Césaire, Léopold Senghor e Léon Damas) e o New Negro Movement, especialmente, na figura do poeta afro-americano Langston Hughes.

O objetivo é, portanto, através das trajetórias de Fernando Ortiz, Nicolás Guillén e Gustavo Urrutia analisar as condições sociais, culturais e política do trabalho destes intelectuais. Com isso, poderemos cartografar como estes intelectuais conformaram redes e como estas contribuíram para o fortalecimento e difusão de movimentos como o negrismo e o afrocubanismo (na literatura, na música, nas artes plásticas e nas ciências sociais), ou mesmo, do conceito de transculturação (criado por Fernando Ortiz, na antropologia). Suas implicações foram muito importantes à construção da identidade nacional cubana em bases mestiças e a incorporação de forma da cultura afrocubana. Porém, negrismo, afrocubanismo e transculturação tem um significado que transcende a realidade cubana e teve influência no pensamento social latino-americano. A experiência cubana, portanto, contribui para que iluminemos um novo território do pensamento latino-americano, entendendo as condições sociais em que emergiram estes movimentos intelectuais, a partir das trajetórias de Fernando Ortiz, Nicolás Guillén e Gustavo Urrutia, mas, principalmente, da circulação de ideias e a formação de rede de intelectuais e pensadores.


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