Revisado beatificaçÃo do coadjutor artêmides zatti: novidade explosiva



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1. CARTA DO REITOR-MOR

Revisado
BEATIFICAÇÃO DO COADJUTOR ARTÊMIDES ZATTI:

NOVIDADE EXPLOSIVA

1. Pedrinha que faltava. – 2. Coadjutores de Dom Bosco. – 3. Perfil biográfico vocacional de Artêmides Zatti – 3.1 Encontro com Dom Bosco na Patagônia – 3.2. Vocação salesiana – 3.3 Provação da doença e sua aceitação – 3.4 Sempre com Dom Bosco, como salesiano coadjutor – 3.5 Bom samaritano com dedicação exclusiva – 3.6 Em direção do encontro com Deus, longamente preparado: reconhecimento popular ao “parente de todos os pobres”. – 4. Mensagem de Artêmides Zatti: perspectivas atuais 4.1 Testemunho original de santidade salesiana – Ímã de Dom Bosco – Entrega total – Enfermeiro educador – “Trabalho santificado”: síntese entre espiritualidade e profissionalismo – Reflexo de Deus com radicalidade evangélica. 4.2 Salesiano coadjutor – Figura do salesiano coadjutor – Acentuações particulares: - forma institucional dos Institutos; - salesiano coadjutor e leigos colaboradores; - formação do salesiano coadjutor. – 5. Pastoral vocacional: convite a um empenho extraordinário.

Roma, 31 de maio de 2001


Festa da Visitação de Maria




1. Pedrinha que faltava
O mosaico dos nossos santos e beatos, embora muito rico quanto à representatividade – Fundador, Co-Fundadora, Reitores-Mores, missionários, mártires, sacerdotes, jovens – ainda estava sem a pedrinha da preciosa figura do coadjutor. Isso, agora, está sendo realizado.

Tivemos, neste ano, a alegria de honrar como beatos, os primeiros sete coadjutores mártires, entre os 32 membros mártires da Família Salesiana, beatificados pelo Papa João Paulo II. Sua vida e sua morte proclamaram de forma clara a radicalidade evangélica da adesão a Cristo e a fidelidade à vocação.

Em 24 de abril passado, foi lido o decreto sobre o milagre obtido por intercessão do coadjutor Artêmides Zatti. Essa etapa, ao longo de uma Causa, antecede a Beatificação. Ele será, então, o primeiro coadjutor não-mártir a ser proclamado beato. Entre os membros da nossa Família Salesiana estão igualmente próximos das honras dos altares: Ir. Maria Romero, P. Luís Variara, Ir. Eusébia Palomino. Prevemos que a beatificação do Sr. Artêmides Zatti poderá acontecer durante o CG25: será certamente um momento forte da assembléia capitular!

Convido-vos a agradecer ao Senhor, tanto pela recente beatificação dos nossos mártires espanhóis, quanto pela próxima de Artêmides Zatti. Esta minha carta circular quer preparar as nossas comunidades para esse evento, colhendo a peculiaridade da mensagem que deriva da santidade deste nosso irmão. Desejo esclarecer, ao mesmo tempo, a atualidade da figura do salesiano coadjutor, o seu valor em nossa vida comunitária e missão e, sobretudo, a necessidade de uma proposta vocacional mais decisiva.


O título dado a esta carta pode provocar interrogativos justificados. E convém colhê-los sem receio! Que entre os nossos irmãos coadjutores existissem salesianos exemplares, providenciais e até santos, não havia dúvida. Nós os vimos, convivemos com eles nas comunidades ordinárias de trabalho e em terra de missão. Experimentamos a sua contribuição preciosa para a missão salesiana, prestada com competência e fidelidade. Alguns, quem sabe, prestavam serviços, aparentemente secundários (portaria, sacristia, enfermaria, cozinha, manutenção da casa...); em todos os lugares, porém, foram elementos educativos de primeira ordem, confirmando as palavras de Dom Bosco trazidas nas Memórias Biográficas: “Um bom porteiro é um tesouro para uma casa de educação”1. E isso, sem diminuir em nada os papéis de alta qualificação (chefes de oficina, professores, coordenadores de estudo, catequistas, animadores pastorais etc.) realizados por muitíssimos coadjutores, por todos conhecidos.

De muitos deles lemos e ouvimos repetir a história. Deram-se alguns medalhões, nos quais se percebe, com clareza, o que significou para esses homens viver a própria responsabilidade histórica, inseridos no amor de Cristo e trabalhando na órbita de Dom Bosco, ou seja, realizando o seu desejo de santidade na caridade pastoral, vivendo a consagração total a serviço dos jovens. Os aspectos fundamentais que caracterizaram a sua experiência vocacional são ainda hoje determinantes em nossa história. A vida consagrada sempre se moveu e expressou através da santidade, que não conhece substitutos.

Pessoalmente, conheci não poucos desses coadjutores: de muitos deles foi escrita uma biografia, que nos permite penetrar em seu caminho vocacional. Apresentam-se como “homens de Dom Bosco”, fascinados por ele, identificados com o seu espírito e missão. Teriam dito como o P. Cagliero: “Frade ou não-frade, é a mesma coisa. Estou decidido, como sempre estive, a jamais me separar de Dom Bosco!”2. Substância, portanto! Que quer dizer relação sentida com o Pai, entusiasmo por Jesus Cristo, desejo de santidade e caridade perfeita, convicção do chamado de Deus para viver tudo isso na missão e na fraternidade salesiana.

A novidade de hoje, a que se refere o título desta carta, consiste justamente em incluir um coadjutor entre aqueles que a Igreja, com ato público, considerou dignos de serem propostos como modelos de vida espiritual e de caridade aos seus irmãos religiosos e, mais largamente, a todos os cristãos. E isso, baseando-se no testemunho de muitos, confirmado por Deus através de um fato “miraculoso”, atribuído à sua intercessão.

Artêmides Zatti é o primeiro coadjutor não-mártir beatificado e o fato confere, como disse, um toque exaustivo à série de modelos de espiritualidade salesiana, que a Igreja declara oficialmente como tais.

Chamei essa novidade de explosiva, no sentido que nos sacode, nos interpela em nossa fidelidade carismática e na capacidade de propor hoje modelos de vocação salesiana laical, realmente significativas e atraentes.

Referindo-me nesta carta ao salesiano coadjutor, não quero enfrentar questões já aprofundadas em intervenções anteriores, como o caráter indispensável de tal figura3 ou a relação entre serviço da autoridade salesiana e ministério sacerdotal4. Não quero, muito menos, colocar à mesa a questão da natureza da nossa Congregação, sobre o que, porém, direi uma palavra mais adiante. Existem outras sedes indicadas para refletir sobre essas e outras questões, e existem também os tempos justos e os sujeitos autorizados para tratá-las.

Quero, por outro lado, dirigir um convite urgente a meditar sobre a figura de Zatti, com a finalidade de suscitar uma orientação e um empenho prático, em nível inspetorial e regional, em favor da vocação do salesiano coadjutor. Lá onde não se consegue comunicar e “contagiar” nesse nível, torna-se pouco incisivo o nosso trabalho e estéreis os sonhos de reformas globais. A fim de sermos realmente eficazes é indispensável pensar em nível global e agir com decisão em nível local.


2. Coadjutores “de Dom Bosco”
Partamos de Dom Bosco e da primeira experiência do nosso estilo peculiar de santidade. Deparamos, desde os primeiros anos, com figuras de coadjutores que, formados diretamente pelo Fundador, influíram fortemente na fisionomia da Congregação. Basta pensar – por exemplo, num Pedro Enria, para entender o quanto Valdocco teria sido pobre sem a sua presença. Eles contribuíram de modo determinante para tornar grande a Congregação, sobretudo na área das escolas profissionais e no serviço aos mais pobres.

Cada Inspetoria, cada nação, cada continente tem a sua galeria de retratos. Não faltaram publicações felizes que deram luz às fisionomias mais significativas, oferecendo à história a contribuição dada por eles para a santidade da nossa Família.

É o caso, por exemplo dos coadjutores vividos na Terra Santa, que honraram a santidade, na pátria de Jesus. Eles têm o seu representante mais qualificado no venerável Simão Srugi, associado a Zatti no mesmo papel, enfermeiro a serviço dos irmãos doentes, que esperamos em breve ver com ele nos altares.
Entre os primeiros coadjutores de Dom Bosco, alguns eram jovens crescidos no Oratório, outros vieram adultos, com a laicidade amadurecida no mundo e na Igreja. Compreendiam, em contato com Dom Bosco, que podiam empregar suas qualidades e profissionalismo adquirido, trabalhando em sua obra educativa e pastoral. Surgia neles aquele entusiasmo que o P. Cagliero expressou com o propósito: “Eu fico com Dom Bosco...!”. É a centelha da verdadeira vocação, como no-lo indica o artigo 21 de nossas Constituições; o fascínio da missão e do Fundador, o desejo de continuar o seu carisma e fazer com que viva o seu espírito.

O profissionalismo incipiente, alimentado pela boa inteligência, temperamento maduro e humanidade cultivada, levava-os a prestar um serviço preciso às comunidades e ao ambiente educativo. Assim foram, não só em Turim, mas também no extremo sul da Patagônia, porteiros cordiais e confiáveis, missionários de fronteira, administradores de canteiros de obras, chefes de oficina.

A vocação salesiana, desde o início, ofereceu múltiplas possibilidades de realização, determinadas mais pelo impulso da caridade e do apelo da missão, do que pela importância do serviço ou papel realizado na comunidade. Pela identidade e colocação do irmão coadjutor, não havia normas rígidas, mas um discernimento que avaliava a generosidade, disponibilidade, espírito comunitário, alegria vocacional.

Dom Bosco visava a qualidade. Não parece que se tenha colocado o problema da proporção, por exemplo, entre clérigos e leigos. Acolhia aqueles que Deus lhe mandava, padres ou leigos, e unia-os na consagração religiosa, na missão e na caridade.


Podemos apresentar alguns perfis, entre muitos, para confirmar o que foi dito.

José Buzzetti foi um dos primeiros “meninos de Dom Bosco”. Fez a profissão como coadjutor muito tarde porque “não se sentia digno”, mas, na prática, viveu e colaborou com Dom Bosco durante a vida toda. Veio ao Oratório com seu irmão Carlos, que se tornará empreiteiro na construção civil e construtor de várias casas salesianas. Inicialmente, queria ser sacerdote, mas depois de ser atingido por um projétil disparado por alguém que queria matar Dom Bosco, teve de deixar a batina. Passou por momentos difíceis, tanto que estava para deixar o Oratório. Após um colóquio com Dom Bosco, decidiu não deixá-lo. Foi assistente, catequista, responsável da livraria, mestre de canto, organizador de rifas: verdadeiro braço direito de Dom Bosco, testemunha fiel de toda a epopéia do nosso Fundador.

Pedro Enria também se tornou oficialmente coadjutor muito tarde. Era um pequeno prodígio, sabia fazer de tudo: mestre de música, diretor de teatro, pintor, cozinheiro, enfermeiro. Manifestou seus dotes de sensibilidade e delicadeza, sobretudo nessa última atividade. Prodigalizou-as em várias circunstâncias pelo próprio Dom Bosco, particularmente na última doença que levou nosso Pai à morte.

José Rossi foi o primeiro entre os coadjutores que não vieram diretamente das fileiras do Oratório. Aos 24 anos tivera nas mãos o Jovem Instruído, escrito por Dom Bosco. Entusiasmou-se logo e, deixando seu lugarejo na Província de Pavia, veio a Valdocco. Fez a profissão em 1864. Foi roupeiro, assistente dos aprendizes, encarregado de incumbências na cidade, administrador, homem de confiança enfim, com a responsabilidade de todos os bens materiais da Congregação. Essa tarefa levou-o a empreender não poucas viagens pela Itália e exterior. Dom Bosco queria-lhe muito bem e brincava de bom grado com ele.

Marcelo Rossi teve de esperar a maioridade para dispor livremente de si mesmo e ir viver com Dom Bosco. Este lhe confiou o encargo “provisório” de porteiro, que ocupou “provisoriamente” por bem 48 anos com pontualidade, fidelidade e confiança. Foi chamado de sentinela do Oratório, e o Cardeal Cagliero, apontando-o certo dia, indicou-o como “o verdadeiro monumento de Dom Bosco”.
Poderíamos continuar com muitas outras figuras de coadjutores da primeira hora. Pela semelhança com Zatti na experiência da emigração e do seu “cair” na órbita sedutora de Dom Bosco, faço ainda uma breve referência ao coadjutor Silvestre Chiappini. Era filho de imigrantes italianos na Argentina. Não realizou coisas memoráveis, mas foi o primeiro filho de Dom Bosco no novo mundo5. Era cozinheiro num hotel de Buenos Aires. Aos dezoito anos encontrou os Salesianos na igreja que lhes era confiada, aonde ele mesmo ia freqüentemente para rezar. Começou a fazer parte da comunidade e aí foi cozinheiro. Em seguida, pediu para ser salesiano. Foi aceito, fez-se coadjutor e, por quarenta anos, foi cozinheiro, enfermeiro e adido a tantas outras pequenas incumbências de que a comunidade precisava.
A comunidade salesiana, visível e operosa, atraía com o testemunho de suas figuras excelentes, a começar de Dom Bosco. Tal fascínio não se limitava aos mais jovens, mas seduzia também os “bons cristãos” adultos. A instituição tornava-se uma casa e uma família, também pela presença e sensibilidade dos coadjutores, e a missão era enriquecida de novas expressões com a sua contribuição criativa.
3. Perfil biográfico vocacional de Artêmides Zatti6
Concentremos agora a atenção mais especificamente sobre Artêmides Zatti e a sua experiência de santidade salesiana. Em quem o encontra pela primeira vez, ao menos em certa profundidade, surgem algumas perguntas espontâneas. Quem foi Artêmides Zatti? O que ele representa para a nossa Família? Quais as palavras e quais as mensagens que nos transmitiu com a sua existência? Quais os desafios que lança hoje? É o que procuraremos descobrir, relendo o seu perfil biográfico e dando nome às suas mensagens.
3.1 Encontro com Dom Bosco na Patagônia

O chamado de Artêmides Zatti para unir-se às fileiras missionárias de Dom Bosco reproduz vários traços da vocação dos primeiros coadjutores. Cada pessoa é, também, evidentemente, portadora de uma originalidade própria.

Emigrante em busca de condições melhores de vida, Artêmides Zatti chegou a Bahía Blanca com 17 anos. Vinha da Itália, com sua família. Os pais de Artêmides, Luís Zatti e Albina Vecchi, tiveram oito filhos, quatro mulheres e quatro homens. Os Zatti, que moravam em Boretto, província de Reggio Emilia, pouco distante do Pó, não tinham terras próprias, mas trabalhavam como arrendatários para outras famílias.

Artêmides, terceiro filho, nasceu em 12 de outubro de 1880. Foi batizado no mesmo dia com os nomes de Artêmides Joaquim Desidério. Se a família não tinha recursos materiais, levava uma intensa vida cristã, que se tornou evidente quando emigrou para a Argentina. No ambiente de família, Artêmides aprendeu logo a enfrentar os cansaços e as responsabilidades do trabalho.

“Em janeiro de 1897 – lemos na Positio –, não sabemos se por decisão imprevista, se depois de sofrido amadurecimento ou por algum fato particular da família, Luís Zatti, pai de família, resolveu deixar a Itália e emigrar para a Argentina com a mulher e os filhos. No final do século passado, a emigração dos italianos para a América era um fenômeno de grandes proporções e muitas razões justificavam essa corrente... Pode ter influído sobre a decisão o convite de um tio, João Zatti, que já estava na Argentina, na nascente cidade de Bahía Blanca e, ali, tinha encontrado um discreto trabalho”7.

“A saída da pátria abriu ao Servo de Deus a possibilidade de desfrutar no novo mundo, não só o trabalho de seus braços, mas ainda mais as energias espirituais de uma sólida educação cristã. Parecia que fosse ao encontro do desconhecido, mas seguia o caminho indicado por Deus”8, que o levaria ao encontro de Dom Bosco.

A família Zatti chegou a Buenos Aires no dia 9 de fevereiro de 1897 e, no dia 13 do mesmo mês, de trem, a Bahía Blanca, inserindo-se no ambiente onde já vivia um numeroso grupo de emigrantes italianos.

É preciso dizer que o ambiente de emigração, com valores muito apreciados como o forte empenho no trabalho, o amor à família e outros, oferecia também elementos de heterogeneidade cultural de relevante peso. Havia, entre os emigrantes italianos, um consistente grupo que tinha exportado a orientação anticlerical e a forma de adversidade ao papado e à Igreja, desenvolvidas na Itália durante a segunda metade do século XIX. Essa atitude encontrava todos os anos a ocasião de manifestar-se de modo rumoroso, em algumas datas especiais, tendo como alvo a paróquia e a comunidade salesiana9.

Em Bahía Blanca, os salesianos eram responsáveis pela paróquia de Nossa Senhora das Mercês, em cujo território fora morar a família Zatti. Tinham duas escolas: um liceu e um centro profissional. Os cristãos e as pessoas de boa vontade, que não faltavam nem sequer entre os manifestantes fanáticos, viam na obra salesiana alguns sinais e encontravam um centro de agregação. Artêmides Zatti estava entre os que fizeram essa escolha e entraram na órbita de Dom Bosco. Sua família estreitou uma sólida e fecunda amizade com o pároco, P. Carlos Cavalli, missionário bom e zeloso, atencioso, sobretudo para com os pobres e enfermos.

Artêmides encontrou no P. Carlos um amigo sincero, um confessor sábio e um diretor espiritual experiente, que o formou ao ritmo cotidiano de oração e à vida sacramental semanal. Estabeleceu com o sacerdote uma relação espiritual e de colaboração10.

Sob o exemplo e o encorajamento do P. Cavalli, Artêmides unia progressivamente à preocupação pela sua formação, a ânsia de fazer o bem. Lemos, com efeito, que ele passava o tempo livre na paróquia, onde se sentia como em sua casa, e acompanhava o pároco nas visitas aos doentes, nos funerais, no serviço à missa, na realização das funções de sacristão11.

O amplo ambiente social dos operários católicos foi um dos campos onde os missionários se empenharam. Artêmides Zatti era assistente assíduo dos círculos operários que se reuniam aos domingos; passava a tarde com eles, fazendo amizade, interessando-se pelas diversas situações, encorajando e canalizando as vontades para o bem.

Fazia tudo espontaneamente, sem retribuição, como um serviço afetuoso e generoso ao Senhor e ao próximo. “Não poderia esperar mais de um jovem emigrante, no mundo materialista e negocista de Bahía Blanca. Essa vida e essa atitude interior prolongou-se por três anos, da chegada a Bahía Blanca em 1897 a 1900, quando amadureceu a realidade da vocação”12.
3.2 Vocação salesiana
Lemos na Positio que “a vocação salesiana na vida do Servo de Deus surgiria espontaneamente, como fato quase natural. A seriedade de seu trabalho espiritual e a vontade de servir ao Senhor e ao próximo levavam a isso. Por outro lado, vivendo em contato cotidiano com o P. Cavalli e com outros irmãos da laboriosa comunidade salesiana, tinha diante de si um testemunho que devia dar o maior encorajamento para consagrar a vida de forma mais radical”13. A generosidade apostólica do P. Cavalli, o ambiente salesiano e a afirmação da obra de Dom Bosco na Patagônia exerciam uma atração cotidiana e constituíam um ideal muito mais atraente do que qualquer outra perspectiva para um distante, mas bom emigrante vindo da Itália14.

Teve a possibilidade de ler a biografia de Dom Bosco na biblioteca do pároco. Ficou fascinado. Foi o verdadeiro início da sua vocação salesiana. Há sempre, no início da nossa vocação, um encontro inspirador com o Fundador e com os seus seguidores15.

Quando o P. Cavalli lhe propôs o início do caminho para o sacerdócio na Congregação de Dom Bosco, Zatti já tinha demonstrado maturidade com simplicidade, com sentido sobrenatural, convicção irremovível de fé, zelo e habilidade na orientação de pequenos e grandes para o Senhor.

Assim, com o consenso da família, em 19 de abril de 1900, com vinte anos, movido pelo desejo sincero de seguir sua vocação, entrou com plena disponibilidade no ritmo de vida do aspirantado de Bernal, onde havia também os noviços e pós-noviços. Aceitou sem complexos sentar-se entre os meninos de 11-14 anos; prestou-se a todas as ocupações que os Superiores lhe confiaram, percebendo a sua maturidade e generosidade; imergiu-se no estudo para suprir o tempo perdido, sem lamentar-se dos trabalhos materiais que perturbavam a sua aplicação. Seguir a vocação estava acima de todos os seus pensamentos e, sem deixar-se perturbar pelas dificuldades, procurava desfrutar dos recursos que o Senhor lhe colocava à disposição16.

“As cartas escritas aos familiares naquele período dão um testemunho muito eficaz da atitude interior do Servo de Deus. Otimismo, aderência alegre à vida da comunidade, submissão cordial e fiel aos Superiores, sentido profundamente religioso e, ao mesmo tempo, prático em todas as coisas, abandono humilde à vontade de Deus, serenidade diante de qualquer prova: estas as características que emergem do epistolário”17.

Artêmides Zatti transcorreu quase dois anos de intensa formação e estudo no aspirantado de Bernal.


3.3 Provação da doença e a sua aceitação
Uma circunstância imprevista mudou a sua vida. Seguros da sua responsabilidade, os superiores confiaram-lhe a assistência de um jovem sacerdote doente de tuberculose. Zatti cumpriu o encargo com responsabilidade, mas pouco depois apresentou a mesma doença18.

A doença, que colocava em perigo a própria vida, e o conseqüente abandono de Bernal, que punha um forte interrogativo quanto ao caminho para o sacerdócio, foram um fato determinante na vida de Zatti.

“Pode-se imaginar facilmente o seu estado de espírito. Devemos constatar, porém, que jamais saiu de sua boca qualquer lamento pelo acontecido: nem pela doença em si, nem pelos Superiores, nem pelas circunstâncias em que se viu”19. Ao contrário, essa experiência que se prolongou por anos e a incerteza que ela comportava evidenciaram a sua robustez espiritual, manifestada na aceitação consciente e generosa do mal, não fácil num jovem daquela idade20.

Assim escreve de Viedma aos pais para confortá-los, no dia 4 de setembro de 1902: “Parece-me que vos tenha impressionado, caríssimos genitores, a carta que vos escrevi sobre minha saúde, porque embora diga que vou sempre melhorando, percebi que vos traz desprazer aquilo que segue, quando vos digo que a tosse não me quer abandonar. Creio, queridos pais, que não vos esquecereis daquele ditado que diz ‘não há folha que se mova, sem que Deus o queira’ e que, por isso, se estou em Viedma e com a tosse, é porque agradou a Deus, para a sua maior glória, conformando-me à sua divina vontade, ou também para o bem da minha alma, permitindo-me, assim, fazer um pouco de penitência pelos meus pecados... Podendo, fazei alguma boa obra, para que obtenha do Senhor a graça da perseverança e a conformidade à sua vontade, pois são muito aceitas ao Senhor as obras que se fazem por aquilo que se ama. Ficai tranqüilos e faça-se a vontade de Deus em tudo”21.

Após uma consulta médica, os Superiores enviaram Zatti a Viedma, que será a pátria definitiva da sua missão. A florescente família salesiana, centro de irradiação do movimento missionário da Patagônia e residência do Vigário Apostólico, o clima suave e a presença do P. Evásio Garrone, salesiano médico, tinham determinado essa opção.

A chegada de Artêmides Zatti a Viedma coincide com a de Zeferino Namuncurá, que vinha de Buenos Aires e sofria do mesmo mal. Os dois viveram em cordial relação de amizade, até que Zeferino partiu em 1904 para a Itália com Dom Cagliero.

Quando Artêmides Zatti chegou a Viedma em 1902, a cidade contava com pouco mais de 5.000 habitantes, de diversas proveniências e nacionalidades. O povo era pobre em sua grande maioria.

A presença salesiana era significativa. Dois colégios, das Filhas de Maria Auxiliadora e dos Salesianos, exerciam grande influência para a elevação das condições morais e materiais da vida citadina. Os salesianos tinham um grande conjunto, que compreendia internato e externato com escola primária, a escola profissional, que deu os primeiros operários qualificados à Patagônia, a escola agrícola na periferia. No centro da obra salesiana, a Igreja Catedral, oficiada como paróquia. Ao lado da Igreja, o Hospital e a Farmácia.

O Hospital São José fora fundado em 1889 por Dom Cagliero e pelo diretor da obra salesiana P. Bernardo Vacchina, com a audácia dos pioneiros, a fim de responder às necessidades dos pobres. P. Evásio Garrone, que estudara e praticara medicina na Itália e depois se fizera salesiano e missionário, recebeu no dia 15 de junho de 1889 o encargo de organizar e dirigir o hospital, poucas horas depois da ordenação sacerdotal22.

Hospital e Farmácia serão o campo de trabalho de Zatti.




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