Revista “Cabral, o Viajante do Rei” 7ª Edição



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Revista “Cabral, o Viajante do Rei” - 7ª Edição


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Santarém na História do Mundo Moderno*


Santarém sempre manteve íntima relação com os territórios ultramarinos. Esta materializou-se, desde logo, em ligações comerciais, militares ou familiares, em face da preponderância que, desde sempre, o Tejo manteve como via privilegiada no intercâmbio de homens e mercadorias.

Assim, de Santarém partiam, rumo à capital e aos territórios ultramarinos, as manufaturas (panos, linho e curtumes), os minérios (metálicos e não metálicos) e os produtos agrícolas (madeiras, vinhos, cereais, azeite, mel e cera) e a ela chegavam as mercadorias vindas do Império.

A uberdade dos campos de Santarém é salientada por todos os autores clássicos, servindo mesmo a Fernão Lopes de Castanheda como termo de comparação com as mais ricas áreas agrícolas da Índia.

Santarém também se assumiu como pólo de recrutamento militar. Sede privilegiada da fidalguia do reino, fornecia um rol considerável de capitães, escudeiros, soldados, pilotos e marinheiros, atingindo alguns deles grande notabilidade pelos seus feitos náuticos e militares.

O fato de Santarém se constituir em residência privilegiada de importantes famílias nobres explica, por sua vez, a estreita ligação familiar da vila e de sua gente com os territórios ultramarinos, sendo freqüente encontrar verdadeiras dinastias de escalabitanos entre os vultos mais ilustres da expansão portuguesa – caso das famílias dos Meneses, Escobar, Saldanhas, Anaias, Cabrais e Noronhas.

Nos alvores da Idade Moderna, a morte do futuro rei da Espanha, o infante D. Afonso, filho do rei D. João II, em Alfange (1491), marca o fim da presença assídua da Corte em Santarém. Depois desse fato, os deslocamentos à vila passam a ser mais esporádicos e marcados por uma lógica sazonal bem demarcada e definida, quer pela presença real no Paço de Almeirim, quer pelas montarias e serões palacianos.

Esse aspecto não afetou, porém, a presença da nobreza, que continuou a ter na cidade condições materiais de alojamento que não encontrava em Almeirim.

Num contexto em que Lisboa ascendia, reforçando seu papel de verdadeira capital e centro da nação, a Santarém quinhentista passa a ser um dos principais pólos de apoio à capital, em bens agrícolas e manufaturados (armaria, alambéis, linhos cânhamos e enxárcia).

Não obstante, sua importância cultural e artística é ainda bem visível, quer pelas obras manuelinas e renascentistas edificadas, quer pela formação humanista da nobreza local (na qual se notabilizou o italiano Cataldo Sículo), quer pela geração de historiadores das descobertas lá nascidos (Fernão Lopes Castanheda, Lopo de Sousa Coutinho) ou pela plêiade de intelectuais formados nas suas escolas (entre os quais se salientaram alguns bispos).

A eminência da perda da independência nacional, cujo ambiente político envolveu as Cortes de Almeirim de 1579-80 (e nas quais se destacou o procurador do concelho de Lisboa, Febo Moniz), originou uma importante movimentação popular que levou à aclamação de D. António Prior do Crato como rei de Portugal. A oposição castelhana a esta proclamação trouxe os exércitos espanhóis ao território luso, movendo o confronto entre as forças de D. António e Filipe II de Espanha.

A derrota do pretendente português trouxe algumas conseqüências à nobreza e burguesia escalabitana, quando o monarca castelhano desembarcou na Ribeira de Santarém, em 1581. As Cortes de Tomar, ao pacificarem o país, geram um período de governo tutelado pelos reis espanhóis, durante o qual o burgo foi sentindo gradualmente os efeitos da sua opção de 1580. Todavia, a Vila é visitada por Filipe III de Espanha, em 1619. Por volta de 1630 notam-se grandes inquietações na vida da urbe, motivadoras de um sentimento de revolta popular: há notícia de motins em 1629, 1636 e 1637.

A insegurança social e o agravamento da situação econômica que estão na origem da Restauração da Monarquia Portuguesa de 1 de dezembro de 1640 tiveram lugar na Praça do Município de Santarém um importante episódio: Fernão Teles de Menezes, 1º Conde de Unhão, lidera os conjurados e procede à aclamação de D. João IV como rei de Portugal.

A ação deste nobre, descendente de Vasco da Gama, marcou de resto toda a história escalabitana da 2ª metade do século XVII, a ponto do período ficar conhecido como “Século do Conde de Unhão”. Deste período ficou-nos uma interessante perspectiva da Vila monumental, desenhada por Pier Maria Baldi, artista acompanhante de Cosme de Médicis a Portugal e que visitou Santarém a convite do nobre santareno. Uma nova urbe vai nascer, influenciada pelas idéias do catolicismo tredentino, adotados pela monarquia brigantina, pelas correntes estéticas do maneirismo e pelas iniciativas públicas do Conde de Unhão. Edificam-se importantes edifícios religiosos, como o Colégio dos Jesuítas, os Conventos de Nossa Senhora da Piedade e de Santa Teresa do Carmo, a Capela da Ordem Terceira de São Francisco. Dá-se um importante surto de ressurgimento de confrarias e a estratificação social atinge o seu auge.


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* Baseado em artigo dos historiadores portugueses João Custódio e Luís da Mata, publicado no suplemento “Santarém”, do jornal “O Ribatejo”, edição de 23.04.98






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