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MUZART, Zahidé Lupinacci. Uma espiada na imprensa das mulheres no século XIX. Rev. Estud. Fem.,  Florianópolis,  v. 11,  n. 1,  2003.  Disponível em: . Acesso em: 18  Mar  2007.  Pré-publicação. doi: 10.1590/S0104-026X2003000100013

Revista Estudos Feministas

ISSN 0104-026X versão impressa

Rev. Estud. Fem. v.11 n.1  Florianópolis jan./un. 2003

doi: 10.1590/S0104-026X2003000100013


DOSSIÊ

 

Uma espiada na imprensa das mulheres no século XIX

 

A glance at women and the press in the nineteenth century

 

 



Zahidé Lupinacci Muzart

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 



RESUMO

No presente artigo, tento recuperar a memória literária das mulheres brasileiras no século XIX, examinando alguns periódicos fundadores por elas dirigidos. Detenho-me, especialmente, em Juana Paula Manso, fundadora do Jornal das Senhoras, considerado o primeiro periódico feminino no Brasil, e discuto tal atribuição, trazendo à luz o periódico de Maria Josefa Pereira Pinto, bem anterior ao de Juana Paula Manso. Não obstante o esquecimento político que os cercou, assinalo sua importância no sentido de despertar a consciência das mulheres para a necessidade de conquistarem direitos fundamentais ligados à educação, à profissionalização e, posteriormente, ao voto.



Palavras-chave: periódicos femininos, século XIX



ABSTRACT

In the present article, I try to recover the literary memory of the Brazilian women of the nineteenth century by reviewing some periodicals driven by them. I do focus specially in Juana Paula Manso, founder of the Ladies' Journal, considered as to be the first feminine periodical in Brazil. I bring it up to discussion by introducing Maria Josefa Pereira Pinto's periodical issued prior to Juana Paula Manso's one. Although the political disappearance that surrounded them, I reinforce their importance with the intention to arouse the women conciousness to the need to conquer their fundamental rights. Mainly, those related to Education, profession and voting.



 

 



Fui convidada para falar nesta mesa-redonda1 sobre o projeto da Editora Mulheres, coisa que posso fazer rapidamente e - quase uma armadilha -, algo muito mais difícil, recuperar a memória literária das mulheres no século XIX em livros, jornais e revistas.

E quando parei para pensar no pedido de recuperação da memória literária das mulheres do século XIX em 20 minutos... me dei conta do quanto ainda elas foram e são ignoradas e subestimadas, pois o número de mulheres no século XIX que escreveram, tanto em periódicos como em livros, é enorme e seu campo de atuação, também muito amplo: habitaram diversas regiões no Brasil, pertenceram a mais de uma classe social, da mais alta à bem pobre, foram brancas arianas ou negras africanas... de modo que, para falar dessa recuperação da memória das mulheres na imprensa do século XIX, seria obrigada a fazer um grande recorte e a me restringir a uma região ou a uma cidade, ou a um periódico e mais ainda a um tempo determinado. Mas decidi fazer então um breve passeio por esses periódicos fundadores e, sobretudo, por suas fundadoras e sua relação com os mesmos. Aproveitarei também para retificar uma idéia corrente sobre o primeiro periódico fundado por mulher no Brasil.

No Brasil, a literatura feminina somente começa a ser visível, ou um pouco respeitada, no primeiro quartel do século XX. Ainda que produtivas, nossas escritoras ficaram excluídas da historiografia literária, mas, curiosamente, embora à margem, a literatura feminina foi presença constante nos periódicos do século XIX, tanto nos dirigidos por homens quanto nos inúmeros criados e mantidos por elas próprias. Aliás, é quase impossível estudar a literatura feita por mulheres no século XIX sem nos debruçarmos no estudo e levantamento do que foi publicado nos periódicos dessa época. Além da produção em jornais, elas publicaram muitos livros, uma produção, ainda que desaparecida, nada desprezível. Estranhamente, tudo isso foi sendo colocado de escanteio a partir do século XX, e somente com algumas pioneiras - como Josefina Álvares de Azevedo, Corina Coaracy, Carmem Dolores e, principalmente, já no século XX, com a precursora obra de Gilka Machado, ou a de feministas como Maria Lacerda de Moura - é que a mulher foi conseguindo firmar pé na literatura e na cultura brasileiras.

Na pesquisa sobre as escritoras brasileiras do século XIX, deparei-me com vários textos nitidamente feministas de feministas ativas como as periodistas, as fundadoras de jornais e periódicos. Essas tiveram uma quota considerável de responsabilidade no despertar da consciência das mulheres brasileiras, um papel fundamental. Entre elas, salienta-se Josefina Álvares de Azevedo (Recife, 1851), jornalista e dramaturga, cuja luta em prol do sufragismo foi marcante.2

Uma das razões para a criação dos periódicos de mulheres no século XIX partiu da necessidade de conquistarem direitos. Em primeiro lugar, o direito à educação; em segundo, o direito à profissão e, bem mais tarde, o direito ao voto. Quando falamos dos periódicos do século XIX, há que se destacar, pois, essas grandes linhas de luta. O direito à educação era, primordialmente, para o casamento, para melhor educar os filhos, mas deveria incluir também o direito de freqüentar escolas, daí decorrendo o direito à profissão. E mais para o final do século, inicia-se a luta pelo voto. O sufragismo foi o mote de luta do feminismo, como todos sabem, e foi também a primeira estratégia formal e ampla para a política das mulheres. Sobre tal assunto, há um número muito grande de textos, de manifestos no mundo ocidental em geral, e no Brasil não foi tão diferente, embora de modo menos acentuado. A escritora Josefina Álvares de Azevedo, com seu periódico A Família e com a peça que escreveu, O voto feminino, muito lutou pela causa no final do século. A Família, fundado em São Paulo, em 1888, foi mais tarde transferido para o Rio, onde contou com a colaboração de muitas feministas, tendo circulado quase por dez anos, de 1888 a 1897. No jornal, Josefina publicou uma série de artigos sobre a questão principal que a movia, o sufragismo, reivindicando a igualdade prometida pela República, recém-implantada. E na peça O voto feminino lutou pela mesma causa mas empregando as armas do humor.

Resumindo, em praticamente todos os escritos das mulheres da metade do século ao seu final, encontra-se a luta pelo direito à educação e à profissão. Algumas, poucas, escritoras lutaram igualmente pelo direito ao divórcio (ver as gaúchas Andradina de Oliveira e seu livro Divórcio e Delia, pseudônimo de Maria Benedita Bormann, que desenvolve o tema em seus romances).

Vou falar um pouco do início do periodismo feminino no Brasil. Registra-se em todo dicionário que o primeiro jornal fundado por uma mulher em nosso país foi o Jornal das Senhoras, de Juana Paula Manso de Noronha. Tinha conhecimento de Juana Paula Manso3 desde muito tempo como uma das primeiras jornalistas 'brasileiras' e seu Jornal das Senhoras como o primeiro dirigido por uma mulher em nosso país. Mas não tinha idéia da real dimensão de Dona Juana, de tudo o que havia realizado, fora do Brasil. A partir de convite para escrever sobre a escritora, comecei a procurar ler sobre ela, sobre a Argentina do século XIX, sobre a ditadura Rosas, tema central de sua obra e de sua luta, e sobre outras escritoras. No meio dessas leituras, avulta a figura de uma mulher de caráter, inteligente, capaz e muitíssimo atuante. Mas ficou esquecida. E, estranhamente, esquecida até no Brasil, país em que morou, exilada, com a família, casou-se com o músico português Noronha e foi abandonada por ele. Mas, principalmente, pela grande contribuição dada para a integração das mulheres na educação e na cultura, é estranho que tenha ficado tão ignorada.

Mas gostaria de destacar hoje uma observação que me veio com a leitura de Dona Juana, também chamada em sua pátria de "la Loca". Observa-se que aquelas que compactuaram com o status quo, que compactuaram com ditaduras e opressões, ou simplesmente foram senhoras burguesas bem comportadas, essas foram muito louvadas. Na verdade, o esquecimento de escritoras do século XIX é um esquecimento político. Pois não só porque mulheres escritoras são esquecidas; são esquecidas sobretudo as mais atuantes, as feministas, em uma palavra. Posso adiantar, das brasileiras, Josefina Álvares de Azevedo, Ana Aurora do Amaral Lisboa, Ildefonsa Laura César e Maria Firmina dos Reis foram bastante atuantes. Das que foram louvadas em sua época há um exemplo marcante: Júlia Lopes de Almeida, a Dona Júlia. Mulher de vida impecável, para quem a literatura ficava em segundo plano depois do atendimento ao marido e aos filhos, a casa, o jardim, foi muitíssimo respeitada e louvada em sua época. Todos a elogiavam como modelo de mãe, em primeiro lugar. Não foi uma feminista militante, embora em sua obra, nas entrelinhas, haja muita idéia 'forte' escondida. Mas concluindo essa digressão: as senhoras foram louvadas, tiveram grande apoio da crítica masculina em sua época. Outras, como Délia (Maria Benedita Bormann), de idéias muito mais livres, sobretudo em relação ao sexo como o apoio ao divórcio, foram totalmente apagadas. Porém, no cômputo geral, todas ficaram esquecidas, militantes ou colaboracionistas, senhoras ou cortesãs!

Juana Paula Manso, mesmo sem se dar esse título, foi uma feminista contumaz. Filia-se ainda à ideologia das Luzes na crença no progresso, no desafio à tradição e na busca da liberdade. A educação foi-lhe uma meta, uma religião. Além da educação, procurou Juana um meio de transmitir suas idéias e chegou ao periodismo.

No editorial do primeiro número do Jornal das Senhoras, em 1º de janeiro de 1852, ela afirmava, entre outras coisas, que o que a motivava era a vontade e o desejo de propagar a ilustração, e cooperar com todas as suas forças para o melhoramento social e para a emancipação moral da mulher.

Redigir um jornal é para muitos literatos o apogeu da suprema felicidade, já sou Redator, esta frasezinha dita com seus botões faz crescer dois palmos a qualquer indivíduo.

No círculo ilustrado o Redator é sempre recebido com certo prestígio do homem que em letra de imprensa pode dizer muita coisa, propícia ou fatal a alguém.

Ora pois, uma Senhora à testa da redação de um jornal! que bicho de sete cabeças será?

Contudo em França, em Inglaterra, na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos, em Portugal mesmo, os exemplos abundam de Senhoras dedicadas à literatura colaborando [em] diferentes jornais.

Porventura a América do Sul, ela só, ficará estacionária nas suas idéias, quando o mundo inteiro marcha ao progresso e tende ao aperfeiçoamento moral e material da Sociedade?

"Ora, pois, uma Senhora à testa da redação de um jornal! que bicho de sete cabeças será?": essa é a frase-chave do editorial de Juana Paula Manso. O periódico abordava temas como moda, literatura, belas-artes, teatro e crítica. Mas era o primeiro redigido inteiramente por mulheres e o bicho-de-sete-cabeças era a mulher-chefe de um jornal... Essa atitude vem romper com a imprensa tradicional, que dedicava ao público feminino tão-somente temas como bordados, cosméticos e modas, e criar um canal para as reivindicações das mulheres e, sobretudo, um motor impulsionador de instrução, de educação, de mudança de atitudes, de idéias. A imprensa feminista teria nascido, pois, no Brasil, com a argentina Juana Paula Manso, cujas idéias foram logo encampadas por outras mulheres que também se tornaram jornalistas, e isso foi uma verdadeira bola de neve, pois os periódicos pipocaram por todo o país. No Nordeste, fértil celeiro, foram inúmeros e traduziam não somente as inquietações das mulheres sobre a condição feminina mas também o momento político nacional. As nordestinas escreveram muitos artigos, poemas, contos sobre a questão da abolição da escravatura, visando sempre a uma maior participação nas áreas da educação, da profissionalização e da política.

Os títulos sucediam-se. Entre a moda e a literatura, a imprensa feminina brasileira caminhava. Com nomes de flores, pedras preciosas, animais graciosos, todos metáforas da figura feminina, foram editados A Camélia, A Violeta, O Lírio, A Crisálida, A Borboleta, O Beija-Flor, A Esmeralda, A Grinalda, O Leque, O Espelho, Primavera, Jornal das Moças, Eco das Damas e assim por diante. Segundo Dulcília Schroeder Buitoni,4 uma das primeiras, ou a primeira, a estudar a imprensa feminina no Brasil, era "um canal de expressão para as sufocadas vocações literárias das mulheres, principalmente no caso das produções menores".

Mesmo que a fundação de um jornal de mulheres tenha acontecido, no Brasil, somente em 1852, pode-se afirmar que antes da segunda metade do século XIX já se observa a participação de mulheres em alguns jornais. É o caso dos primeiros escritos de Nísia Floresta no jornal Espelho das Brasileiras, periódico que, apesar de dedicado às senhoras pernambucanas, era dirigido por homens. Estreando, em 1831, nas letras, Nísia participou com artigos nos 30 números publicados. Houve vários jornais dedicados às mulheres durante a primeira metade do século XIX (O Espelho Diamantino, Rio de Janeiro, 1827; O Espelho das Brasileiras, Recife, 1831; A Fluminense Exaltada, Rio de Janeiro, 1832, e outros), mas todos eles 'fundados e dirigidos por homens'.

Na Argentina, houve jornais dirigidos por mulheres desde 1830, com a fundação, por Dona Petrona Rosende de Sierra, do periódico La Aljaba. Também circularam La Argentina, em 1831, e La Camelia, a partir de 1852.5 Mas devo assinalar que desde 1801 já há no país vizinho participação feminina em jornais dirigidos por homens. Mas no Brasil, devido às leis que proibiam a existência de gráficas, o desenvolvimento da imprensa foi tardio.6 Somente em 1808 D. João VI revogou os decretos que proibiam a instalação de gráfica na colônia, criando então a Imprensa Régia. O fim da proibição da existência de gráficas possibilitou o surgimento de jornais e revistas, assim como uma relativa circulação de notícias e idéias.7

Escritora e jornaista, porém essencialmente educadora, Juana estava empenhada no 'combater a ignorância' e defendia com veeemência os direitos da mulher. Duas frases célebres criadas por ela dão uma idéia de sua maneira de ser: "La ignorancia me rechaza" e "Cada uno es lo que es y no lo que debiera ser". Foi partidária militante da liberdade de imprensa: "La más bella de las conquistas civiles". Também sustentou que "La verdadera prosperidad de un pueblo, como la verdadera nobleza de los individuos, está basada en la educación".

Entre as mulheres que ousaram escrever, no Brasil, no século XIX, destacam-se muitas brasileiras. No entanto, creio poder afirmar que houve uma ação civilizadora de Juana Paula Manso aqui, pois seu periódico trazia não somente moda e receitas de cozinha, mas também idéias e sugestões, pensamentos e críticas. E a partir de sua fundação já incluiu brasileiras em seu projeto, tendo deixado em seu lugar a baiana Violante de Bivar. Efêmero, embora, o periódico marcou época e influenciou seguramente a algumas escritoras.

Vou falar agora de outra jornalista e de uma idéia que me ocorreu ao fazer este trabalho. Ao escrever sobre várias escritoras do século XIX, estudei uma surpreendente mulher, raramente mencionada pelos estudiosos: Maria Josefa Barreto Pereira Pinto, que literariamente usava o nome de Maria Josefa Barreto,8 nascida em Viamão, Rio Grande do Sul, em 1775. Foi poetisa, escritora, professora e jornalista. Filha ilegítima, foi exposta em casa de um cidadão que, não tendo filhos, a adotou, deixando-lhe toda a herança. Casou-se em Rio Pardo, em 1800, com Manuel Inácio Pereira Pinto,9 primeiro carcereiro da cadeia de Porto Alegre. Em seu trabalho, o marido deixou escapar um preso e respondeu a processo sobre o caso. Depois de condenado, desapareceu para sempre, deixando esposa e um casal de filhos.

Depois disso, como meio de subsistência, Maria Josefa fundou em Porto Alegre, inovadoramente, uma escola primária mista que ficava em sua própria casa. Esse seria o primeiro curso misto no país, o que já mostra o quanto era avançada.10

Encontrei alguns textos de um ex-aluno de Maria Josefa, o Coruja, que mais tarde se tornou professor e jornalista. Em Antigualhas, ele nota: "Abaixo da venda do Chico Cambuta na esquina da rua da Ponte seguia-se a meia-água em que a poetisa D. Maria Josefa tinha a sua escola de crianças de ambos os sexos, de que eu também fazia parte."11 Nesse livro, o professor Coruja faz algumas pequenas referências a Maria Josefa, nunca se esquecendo de mencionar a poetisa. Já por esse tipo de menção pode-se concluir que era muito conhecida na pequena cidade e que teve suas poesias declamadas. Uma outra referência interessante de Coruja é a comparação que faz entre os honorários de um professor, o Amansa (professor Antônio d'Ávila, vulgo Amansa-burros), e os de Maria Josefa: "Esqueci-me de dizer no lugar competente, que o Amansa [....] recebia como honorário duas patacas por mês, ao passo que a poetisa D. Maria Josefa se contentava com uma pataca só!" Embora o escritor não analisasse as razões de tal fato, fica claro que, desde as origens, aqui no Brasil, as professoras - mulheres - sempre receberam menos por idêntico trabalho de seus colegas!12

Maria Josefa foi poetisa e feminista, tendo fundado um jornal, com o estranho título de Belona Irada contra os Sectários de Momo,13 mais conhecido como Belona.

Esse teria sido o primeiro jornal fundado por mulher no Brasil, 19 anos antes daquele de Juana Paula Manso, que é considerado por todos como o fundador do periodismo feminino. O jornal, como o nome o indica, polêmico, era um jornal político, muito diferente dos objetivos do Jornal das Senhoras. O Belona não fez escola, e o que se tornou modelo inicial para os periódicos feministas do século XIX foi o Jornal das Senhoras. Maria Josefa não era lady, era uma trabalhadora e uma mulher 'de faca na bota'... Segundo Guilhermino César, "política e literatura, exasperação romântica e ideologia - eis a dieta dessa mulher que foi também adversária dos Farrapos e contra eles manejou a pena".14 Mais tarde fundou outro, junto com Manuel dos Passos Figueroa, de nome Idade d'Ouro, "um dos jornais mais característicos de nossa imprensa", no dizer do mesmo Guilhermino César.

Idade d'Ouro se definia como "jornal político, agrícola e miscelânico". Apareceu em 1833 e foi partidário, tal como Belona, dos Caramurus. Esse jornal foi publicado pelo menos até o número 32, segundo Abeillard Barreto,15 e dele não existe senão o número 31, pertencente ao Museu da Biblioteca Pública de Pelotas, onde conseguimos uma cópia, graças à boa vontade da colega Susana Funck.16

O artigo da primeira página, que seria o editorial do jornal, embora sem assinatura, dá acesso às idéias dos dois editores, que muito provavelmente seriam os únicos trabalhadores do periódico! À página 122, há menção ao outro jornal de Maria Josefa, o Belona Irada contra os Sectários de Momo. O artigo é resposta a ataques da imprensa e, pela linguagem de tom virulento, poderia ter sido escrito pela própria Maria Josefa:

Ora eis aqui os nossos fazedores de Repúblicas! E que tal! Sem saberem os primeiros elementos, querem dar-nos regras, e obrigar-nos a seguir suas doutrinas! Não há maior desaforo! Além de perversos, ignorantes, a ponto de não entenderem o que com a maior clareza está escrito! Quanto é desgraçado o Brasil, a quem esta corja de pedantes afeta querer endireitar!! Ora bravos os Solons, e os Licurgos que nos querem dar a Lei! Malvados aproveitai-vos da época; e temei Pan! Pan! Que já vos prognosticou a invicta BELONA. Brasileiros, o vosso Governo é traído, e vós o sois com ele igualmente: no centro da vossa Província se há suscitado uma facção, que tem por fim somente dominar-vos, espezinhando o Pacto Social, postergando as Leis, e não atendendo mais que a seus caprichos: não vos aconselhamos a que violentamente recobreis vossos direitos, nada há mais perigoso, que um semelhante modo de proceder: desenganai-vos, porém, e lançai mão dos recursos legais que vos assistem; ainda é tempo de dardes remédio ao mal, reagindo com a mesma arma, que contra vós empregarão.

Pode me ser argumentado que o jornal de Maria Josefa não fez escola, não teve a repercussão do de Juana Paula Manso. Isso é verdade. Mas temos de pensar que era um periódico fundado na província, com objetivos essencialmente políticos e que, nessa época, o que se passava nesse fim de mundo da Província de São Pedro realmente ali ficava confinado. À diferença do que era realizado na Corte! Creio que Maria Josefa pode ser considerada, pioneira que foi, como feminista e fundadora do primeiro jornal dirigido por uma mulher. E um jornal que provavelmente não trazia nem bordados nem culinária, nem boas maneiras. Por isso, estava muito à frente de seu tempo!

Depois desse breve passeio pelos periódicos e suas fundadoras, não poderia deixar de falar dos periódicos de mulheres em terras catarinas. Na criação de periódicos femininos ou feministas, Santa Catarina esteve bem atrás de outros estados como Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.

Não se conhecem exatamente as razões, mas talvez o fato de poderem publicar nos jornais locais tenha sido a razão principal.

O jornal Crepúsculo, por exemplo, dirigido por Sabbas Costa, não sendo um jornal feminista na acepção atual do termo, era um jornal pró-mulher escritora. As mulheres tinham uma acolhida muito grande em suas páginas, suas colaborações eram recebidas com destaque e louvor e seus nomes apareciam no frontispício do jornal como colaboradoras. Lêem-se, ali, os nomes de Revocata de Mello, Rosa Valente, Cândida Fortes, Delminda Silveira, Ibrantina de Oliveira, Alice de Alencar, Ubaldina A. de Oliveira, entre outras. Os primeiros artigos de uma colaboradora são sempre precedidos de nota de apresentação elogiosa. Por exemplo, antes do primeiro artigo de Rosa Valente, lemos o seguinte: "Mais uma moça vem de nascer na arena luminosa da literatura pátria! Essa moça, que começa humildemente mas que será uma das glórias do Brasil, chama-se Rosa Valente. Um bravo a todas as moças que seguem neste rutilante caminho de vitórias!"

Sabbas Costa terá sido um escritor com uma visão mais aberta sobre o papel da mulher nas letras nacionais? Pelo que pudemos ler no jornal Crepúsculo, certamente o foi. Seu jornal mostra uma filosofia editorial que preconizava uma mulher mais consciente e mais participante. Segundo o colaborador Francisco Cardona, "a mulher educada é a fase boa da sociedade; a fase ruim é o homem sem educação" (1888).

Em uma série de artigos intitulada "Princípios Literários", em 1889, encontra-se o seguinte:

O século é de luz, por isso que a mulher hoje aspira galgar à epopéia da glória literária como fizeram a universal George Sand e a laureada Maria Amália Vaz de Carvalho. Não há de se ser breve e facilmente que hão de aparecer escritoras; porque ainda o sexo feminino não tem em sua totalidade energia própria para apresentar-se na arena de luz, especializando algumas notáveis brasileiras que são o verdadeiro espelho. Imitem-nas; sem o que sereis sempre o que tendes sido, nunca alcançareis os louros verdejantes e frescos dos vastos conhecimentos modernos, nunca ocupareis sincera posição perante o caminho da intelectualidade. Todas vós precisais ler, ler muito, compreender bastante, estudar sempre...

E por aí vai o discurso de incentivo às jovens desterrenses do final do século passado. Incentivo esse que pode parecer bem fraco nos nossos dias, mas, no contexto do século XIX e, sobretudo, da cidadezinha de Florianópolis, confrontados com outros periódicos e outros dizeres, parecem-nos avançados.

É importante notar, então, essa atividade relevante da mulher desterrense. Cronistas e poetas como Ibrantina de Oliveira, Júlia da Costa, Rosa Valente, Delminda Silveira e Ubaldina de Oliveira foram colaboradoras de vários jornais onde deixaram muita coisa dispersa. Talvez por essas razões já tenhamos em 1859 publicado um romance de uma mulher catarinense, Ana Luísa de Azevedo Castro, e livros de poemas de Júlia da Costa, em 1867.

Apesar de a mulher desterrense no século XIX ter tido acesso aos jornais (onde publicava suas composições), é só no século XX que vamos encontrar o primeiro suplemento dirigido por uma mulher e com publicações de mulheres somente.

Em 1918, aparece Penna, Agulha e Colher, subtitulado "Jornal de donas e donzelas", dirigido por Zenir Alcéa, provavelmente pseudônimo. Era um semanário do jornal Época, de orientação católica. Trazia receitas de cozinha, cartas das leitoras, poemas, charadas, peças de teatro e crônicas. Em geral, as mulheres só assinavam com o primeiro nome, sem o sobrenome ou com pseudônimo.

A importância desse pequeno jornal não está realmente no valor literário dos textos que publica, mas no fato de ser dirigido por mulheres e escrito por mulheres para mulheres. Longe está de ser feminista, mas oferece à mulher um lugar seu para publicação e uma secção importante, as "Cartas do leitor", onde, anonimamente, a mulher teve ocasião de escrever e discutir suas idéias.

Nas peças da dramaturga catarinense Edésia Aducci, as personagens mulheres dominam e as mais importantes exercem uma profissão: são professoras, médicas, escritoras, donas de hospedaria...

Sob o pseudônimo de Heloísa, temos alguns textos curiosos. Colaboradora do jornal, ela estabelece uma condição para continuar a fazê-lo, a de que o jornal não publique textos escritos por homens: "Não que o talento masculino deixe de ser, por vezes, admirável e digno de nossos aplausos e louvores, porém temos tantas e tão belas produções de distintas patrícias que muito melhor ficariam em nossa secção exclusivamente feminina".

Em 1918, Heloísa apela para as mulheres catarinenses para que escrevam: "Vinde, pois, donas e donzelas, não fiqueis inativas, como donas inválidas a espreitar de vez em quando pelas sotéias se cavaleiros mouros vêm a correr até a barbacã..."

Qual o interesse, pois, hoje, de lembrarmos dessa publicação?

Para um estudo da história dos periódicos femininos, pode-se estudar mesmo um semanário sem muita pretensão que foi um instrumento de luta embora não específica e declaradamente feminista. Enfatizando a educação como essencial para o preparo da mulher para a vida na sociedade, esse jornal teve a sua função e foi um degrau na conscientização da mulher catarinense.

O que é muito notável quando se examinam os periódicos femininos do século XIX até meados do XX é a criação de uma verdadeira rede de sororidade que congregava mulheres do Norte ao Sul. Delminda Silveira, por exemplo, poetisa de Florianopólis, publicou no Ceará, em Pelotas, em São Paulo e outros lugares. Ibrantina Cardona, que viveu alguns anos em Desterro, publicou em Florianópolis, no Rio, em São Paulo, no Mato Grosso. Assim também Júlia Lopes de Almeida, que publicou no Brasil todo, e muitíssimas outras. Além de poemas, contos e crônicas, é na seção de cartas que se encontra esse diálogo entre elas. Embora segregadas da vida literária, da vida produtiva, refugiaram-se nessas atividades não respeitadas e encaradas com olhares condescendentes, tais como brinquedos de crianças com quem elas seriam sempre identificadas.

Para a avaliação desses periódicos, há que bem situá-los nesse tempo de um feminismo nascente, com outras condições políticas, econômicas e sociais. Somente assim poderemos avaliá-los corretamente. Esses periódicos foram avançados: defenderam os escravos, pregaram o direito ao voto, a igualdade diante da lei, o direito às profissões liberais, o pacifismo... E teceram uma imensa rede de mulheres brasileiras, e algumas portuguesas ou latino-americanas, cuja troca de idéias e de informações foi fundamental para que hoje estivéssemos aqui discutindo periódicos feministas no Brasil.

 

Referências bibliográficas

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BUITONI, Dulcília Schroeder. Imprensa feminina. São Paulo: Ática, 1986.

CÉSAR, Guilhermino. "Mulheres, o assunto". Correio do Povo, Porto Alegre, 24 mar. 1973. Caderno de Sábado.

CORUJA, Antônio Alves. Antigualhas: reminiscências de Porto Alegre. Introdução e notas de Sérgio da Costa Franco. Porto Alegre: ERUS - Companhia União de Seguros Gerais, 1983.

FLORES, Hilda Agnes Hübner. Sociedade: preconceitos e conquistas. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1989.

LEWKOWICZ, Lidia F. Juana Paula Manso: uma mujer del siglo XXI. Buenos Aires: Corregidor, 2000.

MUZART, Zahidé Lupinacci. "Mulheres de faca na bota: escritoras e política no século XIX". In: FLORES, Hilda Agnes Hübner (Org.). RS: cultura, história e literatura. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1996.

SOARES, Pedro Maia. "Feminismo no Rio Grande do Sul: primeiros apontamentos (1835-1945)". In: BRUSCHINI, Cristina; ROSEMBERG, Fúlvia (Orgs.). Vivência: história, sexualidade e imagens femininas. São Paulo: Fundação Carlos Chagas; Brasiliense, 1980.

SOUTO-MAIOR, Valéria Andrade. Índice de dramaturgas do século XIX. Florianópolis: Mulheres, 1996.

_____. O florete e a máscara: Josefina Álvares de Azevedo, dramaturga do século XIX. Florianópolis: Mulheres, 2001.

VIANA, Lourival. Imprensa gaúcha (1827-1852). Porto Alegre: DAC; SEC, 1977.

 

 

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* Excepcionalmente neste artigo, as notas, em virtude de sua extesão, estão editadas ao final do texto.

Notas

1 Trabalho apresentado na mesa-redonda de abertura do I Encontro Brasileiro de Publicações Feministas, intitulada "Panorama das publicações feministas no Brasil: do século XIX ao século XXI". O Encontro, promovido pela Revista Estudos Feministas, realizou-se em Florianópolis, entre 7 e 9 de agosto de 2002.

2 Essa escritora foi resgatada e estudada por Valéria Andrade SOUTO-MAIOR, 2001.

3 Juana Paula Manso de Noronha (1819-1875) nasceu em Buenos Aires, Argentina. Professora, jornalista, dramaturga, romancista. Mudou-se com sua família para o Brasil, destacando-se como jornalista, inicialmente em Pelotas, onde foi redatora do jornal A Imprensa, em 1851. Fixou residência no Rio de Janeiro, onde colaborou em vários periódicos e, em 1852, fundou O Jornal das Senhoras. Durante algum tempo, exerceu também o magistério. Separou-se do marido, o compositor português Francisco de Sá Noronha, com quem teve duas filhas. Com elas regressou à Argentina em 1853, onde desenvolveu uma carreira brilhante como educadora. Várias das peças de teatro que escreveu foram representadas no Rio de Janeiro, e uma delas foi publicada em Buenos Aires. Durante o governo de Juan Manuel de Rosas emigrou para Montevideu com seus familiares e viajou posteriormente por Cuba, Brasil e Estados Unidos. De regresso a sua pátria, em 1854, propiciou a criação de escolas e bibliotecas públicas e defendeu a emancipação da mulher. Obras: La familia del comendador; Los misterios del Plata, novelas; Compendio de historia de las Provincias Unidas del Río de la Plata; Esmeralda, drama em cico atos e seis quadros; O Ditador Rosas e a Mashorca, drama; As manias do século, comédia-vaudeville; Família Morel, drama; Saloia, drama; La revolución de Mayo, 1864. Ver: Valéria Andrade SOUTO-MAIOR, 1996.

4 BUITONI, 1986, p. 40.

5 Lidia F. LEWKOWICZ, 2000, p. 37-41.

6 Hipólito José da Costa lançou o Correio Brasiliense em Londres (1808-1822); Gonçalves de Magalhães, ao imitar o gesto, a Niterói - Revista Brasiliense (1836).

7 Entretanto, essa liberalização não significava liberdade de imprensa. Por decisão do governo, a administração da Imprensa Régia caberia a uma junta composta por três autoridades encarregadas de "examinar os papéis e livros que se mandasse publicar e fiscalizar que nada se imprimisse contra a religião, o governo e os bons costumes". Assim, o ato que criava a imprensa na Colônia criava, também, a censura. A aplicação da censura aos livros fez com que houvesse, nessa época, um intenso contrabando de publicações para abastecer a elite letrada da Corte.

O primeiro jornal publicado, de caráter quase oficial, foi a Gazeta do Rio de Janeiro. O primeiro número saiu no dia 10 de setembro de 1808, em papel de baixa qualidade, com quatro páginas, com distribuição no início semanal e depois três vezes por semana. Não publicava notícia que interessasse ao público em geral, tratando somente das relacionadas ao estado de saúde dos príncipes europeus; aos aniversários dos membros da família real, entoando-lhes louvores. Para o inglês Armitage, "a julgar-se do Brasil pelo seu único periódico, deveria ser considerado um paraíso terrestre, onde nunca se tinha expressado queixume".

8 Sobre esta escritora, ver Hilda Agnes Hübner FLORES, 1989, p. 73-78.

9 Nascido em Porto Alegre em 1773 e falecido em 1830.

10 Outras mulheres também fundaram, ou tentaram fundar, escolas mistas. Uma delas foi Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense. Em 1880, fundou uma escola gratuita para crianças de ambos os sexos. Segundo Raimundo de Meneses, essa aula mista "escandalizou os círculos locais, em Maçaricó [....] e por isso foi a professora obrigada a suspendê-la depois de dois anos e meio". Segundo Nascimento Morais Filho, a escola mista de Maria Firmina dos Reis era "uma revolução social pela educação e uma revolução educacional pelo ensino, o seu pioneirismo subversivo de 1880".

11 Antigualhas, Reminiscências de Porto Alegre. Introdução e notas de Sérgio da Costa Franco. Porto Alegre: ERUS - Companhia União de Seguros Gerais, 1983, p. 127.

12 Ver Antônio Alves CORUJA, 1983, p. 70.

13 Segundo Abeillard Barreto, pouco se sabe desse semanário crítico e literário redigido por Maria Josefa Barreto. O primeiro número apareceu em novembro de 1833. A publicação foi, segundo Lourival Viana, pelo menos até o número 10, de 21 janeiro de 1834. Ver VIANA, 1977, p. 45, citado por BARRETO, 1986, p. 52.

14 CÉSAR, 1973.

15 BARRETO, 1986, p. 49.

16 Agradeço à professora doutora Susana Bornéo Funck ter-me conseguido, com muito empenho, a cópia desse exemplar do jornal Idade d'Ouro.



 

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