Revista ilustrada: romances e leitura no brasil dos fins do século XIX



Baixar 61.07 Kb.
Encontro28.07.2016
Tamanho61.07 Kb.
Rubiana de Souza Barreiros (Mestranda em Teoria e História Literária - UNICAMP)
REVISTA ILUSTRADA: ROMANCES E LEITURA NO BRASIL DOS FINS DO SÉCULO XIX
O editor Angelo Agostini pode ser considerado uma figura importante na construção de uma história das práticas de leitura no Brasil. Inscrito na tradição da imprensa, Agostini fez parte de uma convenção que, em tempo e lugar marcados, permitiu, de forma objetiva, a disseminação de idéias e críticas políticas e literárias, utilizando como veículo de divulgação a Revista Ilustrada.i

A Revista Ilustrada, em foco neste estudo, destaca-se por fazer uso de imagens (em sua maior parte caricaturais) para a veiculação de um panorama cultural. A leitura de seus textos (formados pela conjunção do texto propriamente verbal e da criação pictórica) é representativa de uma prática de leitura específica. Sobre Agostini, Nelson Werneck Sodré salienta que:


ninguém manejou o lápis como arma no nível e com a eficácia do ilustrador meticuloso, que apanhava com o seu traço inconfundível não apenas os detalhes da observação colhida, mas a profundidade e a significação do que se exteriorizava nesses detalhes.”ii
Interessa-nos, portanto, compreender de que maneira tal prática de leitura se desenvolve quando entram em pauta, nesses textos, referências literárias. Busca-se perceber como o movimento de divulgação de leitores e leituras, veiculado pela Revista Ilustrada, funcionou na disseminação de certas representações romanescas, fornecendo pistas com relação a algumas práticas de leitura, especificamente com relação aos romances, realizadas no último quartel do século XIX no Brasil. A revista apresentaria, portanto, elementos para compreensão da maneira como determinados romances (reconhecidos ou pouco reconhecidos pelo público especializado da época) foram lidos, quais as leituras/interpretações foram feitas a partir destes livros, como estas foram divulgadas, seja na forma de ilustração ou pela escrita, numa impressa e em um veículo prestigiado neste intervalo temporal aqui determinado.

O percurso da Revista Ilustrada e o papel das revistas literárias
Angelo Agostini nasceu no Piemonte, Itália, em 1843. Iniciou seus estudos de pintura em Paris por volta de 1858. Aportou no Brasil no final de 1859. A partir de 1860, passou a residir em São Paulo e, quatro anos mais tarde, fundou a revista Diabo Coxoiii, com Luís Gama, lançando, em 1866, O Cabriãoiv. Os dois jornais delinearam os primórdios do periodismo ilustrado paulista, tendo sido tomados como “lançamentos audaciosos na pacata São Paulo de 1864v. Esses periódicos constituíam-se de uma série de imagens que atingia um público maior que aquele da restrita elite letrada da cidade. Tais publicações abordavam temas variados, como, as discussões em torno da guerra do Paraguai, comentavam as indecisões de Caxias e apresentavam, em primeira mão, tiras de histórias em quadrinhosvi.

Em 1867, Agostini foi para o Rio de Janeiro, onde estreou em O Arlequim e, pouco tempo depois, passou para A Vida Fluminense, cujo primeiro número saiu em 04 de janeiro de 1868 e o último em 1875. A 1º de janeiro de 1876, fundou a “sua” revista, a então intitulada Revista Ilustrada.

A revista de Agostini alcançou a tiragem de quatro mil exemplares; número, segundo afirmou na edição de 31 de dezembro de 1889, “que jamais foi atingido por nenhum jornal ilustrado na América do Sul”. Segundo Nelson Werneck Sodré, a publicação deste periódico foi certamente “um dos grandes acontecimentos da imprensa brasileira”vii, pela grande popularidade atingida logo em seu início.

A existência de uma indústria livreira no Brasil, no século XIX, não bastou para conferir, especialmente às revistas, a função de suporte para a veiculação da imagem de um novo país: imagem que traduzia as conquistas técnicas com as quais a imprensa periódica se defrontava, construída a serviço de um ideário inovador e não raro também a serviço da manutenção do status quo. Não seria absurdo admitir que para aqueles idos, mais que o livro, a revista se igualaria ao jornal no intuito de se comportar como instrumento eficaz de propagação de valores culturais, dado seu caráter de impresso do momento, condensado, ligeiro e de fácil consumo.viii

Desta forma, as revistas foram se tornando um espaço da crítica por excelência, que se desenvolveu inicialmente através do humor, por meio de anedotas escritas e/ou caricaturas, daí as revistas ilustradas, posteriormente, através de resenhas, comentários ou mesmo propagandas. É interessante também acrescentar que este espaço dado à literatura, divulgou o próprio romance, pois foi justamente no jornal e nas revistas que romancistas começaram a publicar suas obras, na maioria das vezes, primeiramente em folhetim, depois em livro. Manuel Antônio de Almeida publicou as Memórias de um Sarjento de Milícias, sob o pseudônimo de Um Brasileiro, entre 27 de junho de 1852 a 31 de julho de 1853, no Jornal do Commercio. José de Alencar publicou no Correio Mercantil, várias crônicas e no Diário do Rio de Janeiro, O Guarani, em 1857 consolidando de uma vez, o sucesso dos folhetins. Machado de Assis aos 16 anos, estreou em A marmota, de Paula Brito, prestando uma homenagem ao jovem imperador, como era de bom tom na época.

Grandes “aliadas” na construção da imprensa e na consolidação da literatura foram as editoras. O desenvolvimento do país, marcado pelo início do avanço da vida urbana, o crescimento de uma classe média e o esboço de burguesia que começava a se fazer sentir, permitiu a ampliação de atividades culturais ligadas à imprensa. Firmaram então empresas como a Laemmert, em 1838 que atingiu um grande prestígio durante toda a metade do século XIX pelas obras publicadas, dentre elas de autores como Machado de Assis e Coelho Neto, e, obras como as três primeiras edições de Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Mas, ninguém superou no contexto brasileiro, B. L. Garnier – Batista Luís Garnier ou, para os maledicentes, o Bom Ladrão Garnier ix– que chegou ao Brasil em 1844. Só em 1854, ao que parece, abriu pequena loja de livros, na rua dos Ourives, depois transferida para a rua do Ouvidor. Sua fama e prestígio vieram com o novo prédio da Livraria Garnier, símbolo da sua importância inaugurado a 19 de janeiro de 1901, recebendo os convidados um volume autografado de Machado de Assis. Garnier foi o grande editor da segunda metade do século XIX e também editor da Revista Ilustrada, confirmando-nos que a casa enobrecia os autores que lançava. Ser editado por ele era a consagração. Entre os que mereceram, estavam José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Bernardo de Guimarães, Melo Morais, Silvio Romero, Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Joaquim Nabuco, Graça Aranha, João Ribeiro a revista literária de Ângelo Agostini.

No curso específico das revistas literárias, os recursos da ilustração são um marco revolucionário para a imprensa da época. Certo que há muito, desde os incunábulos, a ilustração se fizera presente nos textosx, diversificando-se com o passar dos anos através de iluminarias, xilogravuras e litogravuras. Contudo, o extraordinário avanço técnico registrado na Europa, a partir do final do século XVIII, foi amplamente utilizado pelos periódicos brasileiros, enriquecendo ainda mais as publicações, transformadas em objetos atraentes, acessíveis ao público mais afastado da leitura, se não à população analfabeta, que compreendia mensagens através das mais diversas imagens. Portanto, o caráter ligeiro, de fácil impressão e custo baixo, passível de reunir vários assuntos numa só publicação, bem como o advento da ilustração, constituíram a fórmula certa para o inicial exercício do impresso em nosso país, principalmente tendo-se em mente o fato de o Brasil apresentar uma história anterior marcada pela introdução tardia da imprensa, severa censura, ordem escravocrata e, conseqüentemente, pequeno número de pessoas alfabetizadas devido à escolarização precária. A Revista Ilustrada era regularmente distribuída em todas as províncias e nas cidades do interior, atingindo um grande público e ampliando seu alcance em diversos territórios periféricos. Seria lícito admitir que o fator ilustração contribuiu bastante para a disseminação da Revista e de seus conteúdos diversificados, como comentários, anúncios, críticas romanescas.

É importante salientar que as revistas literárias mereceram um grande espaço na história da leitura do Brasil do século XIX. Contribuíram para o aparecimento de tipografias, para a colocação de autores no cenário literário e criação de um mercado consumidor. De modo geral, era prática e reforçava a viabilidade do gênero revista impressa ao longo do século XIX, seu potencial de suporte adequado para a propaganda e a publicidade. Na paulatina construção de um mercado consumidor, as revistas desempenharam esta função com propriedade, percebidas então como melhor veículo da propaganda na disseminação de idéias e de publicidade para a venda de produtos, dentre eles, os livros.

Devido às características aqui descritas, não é possível esquecer que tais periódicos tornaram-se um campo de debates sobre o gênero romântico, variadas obras e alguns autores. Isso pode ser verificado em apresentações nas quais os críticos (editores/jornalistas) se ocupam em atacar, defender, explicar, justificar ou divulgar romances. Este percurso crítico se apresenta na Revista Ilustrada sob distintas formas, ora objetivamente ora de maneira camuflada.

O periódico em estudo, durante os seus 22 anos, em momento algum se mostrou alheio aos diversos problemas brasileiros seja no campo social e político (ocupou-se com grande afinco da questão da Aboliçãoxi), seja no literário. A Revista Ilustrada era recheada de informações sobre diversos romances e/ou romancistas, informações estas que hoje, salvas as devidas diferenças, poderíamos reconhecer como crítica literária.

Neste caminho em que se cruzam revistas e romances, pode-se afirmar que outra singularidade deste periódico foi ser, justamente, uma das poucas publicações regulares que teve na liberdade do processo de realização uma das suas maiores características. Para a obtenção dessa conduta, a Revista Ilustrada manteve-se como um periódico independente e, diferentemente da maioria das revistas, tirava seus proventos exclusivamente da vendagem dos números que editava. Angelo Agostini jamais permitiu imprimir, durante a época em que esteve à frente da publicação, um único anúncio em suas páginasxii.

No entanto, apesar de declarar não existirem anúncios de produtos comercializados em geral, como havia em jornais contemporâneos (a Gazeta de Notíciasxiii, por exemplo, continha cerca de quatro páginas para propagandas dos mais variados produtos), podemos afirmar que existiam sim indícios de propagandas de livros e, dentre eles, de romances. A título de exemplificação, observe-se esta nota feita em 1877 nas páginas da Revista sobre a obra Casa de Pensão, de Aluízio de Azevedo:


Na casa de pensão que acaba emfim de appareccer em edição completa, conta-nos o Sr. Aluízio Azevedo a história ou antes o triste romance d’um maranhese na Corte.



Um comprovinciano do autor, que é assassinado aqui na Corte. E os fluminenses vão recordar talvez no romance do intelligente romancista, um triste facto que não há muito tempo, se produzio na capital do império.

Creio todavia que assim não é.

Há typos bem observados no livro do Sr. Aluízio, e o estylo é bom e ligeiro.”

Este trecho, se aproxima do anúncio publicitário na medida que ressalta qualidades do enredo do romance em si e do próprio autor, e também se enquadra em uma espécie de crítica e/ou resenha literária, pois é resultado de uma leitura específica de romance, que se detém em alguns pontos centrais. Um deles é a relação entre o enredo, que chama atenção para os “typos” nele presentes, e uma possível correspondência com o real. Outro ponto relaciona-se com o cuidado dado ao nome do autor e suas “qualidades” morais (“intelligente”) e técnicas (“estylo bom e ligeiro”).

Como outro exemplo do feitio divulgador de escritores e obras que caracterizava a Revista, podemos citar o trecho seguinte que diz respeito a Visconde De Taunay, autor de Inocência, e então governador da província de Santa Catarina. Personalidade conhecida tanto por ser literato quanto político, era figura freqüente nos comentários de Agostini:


Livros a ler

Innocência, o mimoso livro do Sr. Escragnolle Taunay, se não é a sua melhor obra, é pelo menos o mais applaudido de todos os seus romances.



É o primeiro, creio, que acaba de alcançar o sucesso de uma segunda edição.

O que entre nós não é de certo muito commum.

E eu mesmo acho n’este livro o Sr. Taunay muito differenciado que é nos outro.

Não sei se em conseqüência do assunto, se pela forma de trata-lo; mas nunca em nenhum outro, elle é tão natural e tão interessante. A narração corre fluente e leve, e as paysagens realmente pittorescas.

Esta nova edição, que é trabalho dos Srs. Leusinger &Filhos, está nitidamente impressa.”

Muitas vezes, a referência se dava diretamente à figura pública do autor, como nesta nota em uma das páginas iniciais da revista:

“– Nunca hei-de perdoar ao Taunay de me chamar feio e antipathico. Eu, que alem dos dotes physicos possuo tudo o que há de mais fino em perfumarias, eu, o mais cheiroso e o mais penteado de todo o ministerio, eu poeta lyrico, recitador, conquistador...

Ora console-se commigo e deixe-se de ser amollador.”


Nas palavras de Sodré, a Revista Ilustrada era “só comparável ao que, de outra época, deixaram Rugendas e Debret, na fase anterior ao aparecimento da imprensa ilustrada em nosso país, mas com a superioridade de uma arte participante.xiv E arte participante é o que diferencia esta Revista que não se incomodava em ultrapassar os limites da mera informação e agia ativamente no panorama literário brasileiro. Em 1874, por exemplo, uma caricatura mostrava uma leitura diferente da hoje reconhecida, sobre a obra O Guarani, de José de Alencar:
Cecy no banho”. Romance de Alencar. A pura e casta Cecy,

soprehendida pelo canto do Bemtevi, na ocasião em que dava o seu seio a Isabel para esta...mamar.”


A alusão às passagens de livros mostra que, a Revista exerceu papel de grande importância no reconhecimento e divulgação de diversas leituras de romances, confirmando neste momento o cruzamento entre a imprensa e o romance.

A Revista Ilustrada publicou seu último número no ano de 1898 interrompendo sua participação na história do jornalismo. Deixando, no entanto, sem dúvida nenhuma, marcas convincentes e relevantes na divulgação de leituras de obras romanescas, tendo exercido por isso importante papel na história literária brasileira. Por conta disso, faz-se necessário um estudo mais complexo para que seja possível traçar o caminho desta história. A intenção é de perscrutar como os textos/ilustrações da Revista se relacionam com o gênero romance; como eles se configuram enquanto representação da leitura de certas obras.

O Romance e os Periódicos
[...] o objeto literário é um estranho pião, que só existe em movimento. Para fazê-lo surgir, é necessário um ato concreto, que se chama leitura, e ele só dura enquanto esta leitura possa durar. Afora isso, só há traços pretos no papel.”

Sartre
Sartre afirma que o livro não é redutível ao seu caráter de objeto e que sua essência supõe uma recepção por um sujeito radicado na históriaxv. Também a leitura, segundo Sartre, não é mera projeção, nem mesmo antecipação e julgamento crítico. É em si um ato criador. E nenhum outro gênero permitiu tantos atos criadores, por meio dos seus inúmeros leitores, como o romance.

Ao aparecer, o romance moderno causou um certo abalo no mundo das letras. Por se tratar de algo novo, foi alvo de uma série de ataques morais, religiosos, intelectuais e estéticos ao longo de sua consolidação como gênero. Na tentativa de se definir o romance enquanto gênero, muitos traços eram perseguidos como sendo característicos deste em especifico, o que nem sempre foi possível definir, pois, segundo Bakhtin, vários e diferentes poderiam ser indícios do romance, ou seja, poderia ser um gênero de muitos planos, mas existem excelentes romances de um único plano; o romance poderia ser, então um gênero que implicaria um enredo surpreendente e dinâmico, mas existem romances que atingiram o limite da descrição pura; o romance, desta forma, seria um gênero de problemas, mas o conjunto de produção romanesca corrente apresenta um caráter de pura diversão e frivolidade, inacessível a qualquer outro gênero; o romance poderia ser uma história de amor, mas os maiores modelos do romance europeu são inteiramente desprovidos do elemento amoroso.

Diante da dificuldade em se definir o gênero, o romance trilhou um grande percurso até atingir um reconhecimento crítico, apesar de uma significativa divulgação pelo mundo.

No Brasil, a partir de 1808 passou a ser possível adquirir livros impressos no país pela Impressão Régia, ou importá-los de outras localidades além de Portugal, no entanto a importação de livros já se fazia anteriormente neste território. Obviamente, estes atos só poderiam ser realizados mediante autorização dos órgãos aos quais competiam a censura. Entretanto, mesmo com um severo sistema de controle, o volume de requisições submetidas à instituição censória em Lisboa sempre permaneceu elevadoxvi.

Portanto, não há como negar a ampla difusão da leitura de romances no final do século XVIII e XIX, tendência reconhecida nos países europeus e também muito forte no Brasil, mesmo que, no princípio, houvesse obstáculos na difusão dos escritos por parte da Coroa Portuguesa, que temia a divulgação de idéias “perigosas”xvii.

Dentre as alternativas de acesso à erudição está o periódico literário. Por meio dele, a divulgação de romances, a concentração de críticas sobre eles e sobre a posição do escritor enquanto homem de letras, não se davam de forma rara e escassa. Pelo contrário, a aproximação de jornais e revistas aos romances pode ser conferida em duas instâncias: primeiro, os dois meios de veiculação informativa se configuraram um alicerce financeiro por parte dos escritores de romances que tinham, em sua maioria, um cargo na imprensa jornalística e que, por meio deste cargo, tiravam seu sustento; em um segundo momento, jornais e revistas passaram a ser uma arma de reconhecimento e prestígio de obras e, conseqüentemente, de escritores. Havia, portanto, um estreitamento entre jornais/revistas e romances. Sobre ele, Silvio Romero teceu o seguinte comentário:


No Brasil mais do que em outros países, a literatura conduz ao

jornalismo e este à política que, no regime parlamentar e até simplesmente representativo, exige que seus adeptos sejam oradores. Quase sempre as quatro qualidades andam juntas: o literato é jornalista, é orador, e é político.”xviii
Desta forma, as revistas literárias, e de modo bastante peculiar a Revista Ilustrada, passam a contribuir à formação de uma esfera literária, agindo para que o trabalho crítico transforme, ao longo dos anos, o círculo restrito daqueles que faziam arte, e contribua para a evolução da categoria de simples amador literário à de crítico profissional. Haja visto que os denominadores essenciais para a formação de um sistema literário conforme estabelecidos por Antonio Candidoxix (um conjunto de produtores literários, um conjunto de receptores – que forma diferentes tipos de público – e um mecanismo transmissor que liga uns aos outros), se mostram já consolidados.

Inseridos, portanto, em um espaço simbólico, os periódicos literários apresentaram-se como mediadores de conflitos culturais entre o novo e o já institucionalizado. São como uma voz experiente diante de um público não especialista, funcionando como juízes desse mesmo público perante os próprios autores ou, através deles, estabelecendo critérios para a eleição de alguns deles, alguns gêneros e algumas maneiras de ler.

Ao escolher a Revista Ilustrada como representante significativa do gênero revista literária, o objetivo desta apresentação e posterior estudo é investigar uma série de aproximações entre a Revista e os romances, sejam elas feitas através de ilustrações seja por meio de críticas, resenhas, caricaturas, anúncios, propagandas, comentários ou anedotas, devendo ressaltar o relevante papel da Revista Ilustrada como inovadora e divulgadora de um novo modo de se utilizarem as criações técnicas do material impresso; e ainda conhecer mais profundamente o movimento do qual foi baliza na divulgação de certas leituras de romances e de representações romanescas.

Acreditamos que a análise da Revista Ilustrada é um veículo importante para a elucidação de certas passagens no que se refere ao processo de reconhecimento do romance como gênero literário, sua ampla divulgação e consolidação no Brasil.



i Meu contato inicial com a Revista Ilustrada deu-se durante a realização de uma pesquisa de Iniciação Científica sobre romances dos séculos XVIII e XIX, integrado ao Projeto “Caminhos do Romance nos séculos XVII e XIX”, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Márcia de Azevedo Abreu.

iiSODRÉ, Nelson Werneck. A História da imprensa no Brasil, Rio De Janeiro: Civilização Brasileira,1966, p.250


iii Diabo Coxo, São Paulo,1864. Por trás desse título, havia uma história de referências a títulos alusivos, com destaque para El Diablo Cojuelo, do espanhol Luis Vélez de Guevara, de 1641, e de Le Diable Boiteux, de Lesage, de 1772.

iv Cabrião, Semanário humorístico editado por Angelo Agostini, Américo Campos e Antonio Manoel dos Reis, São Paulo, 1866-1867.

v Cf. MARTINS, A. L. Revistas em Revista. Imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922), São Paulo: Edusp, 2001, p.41.

vi “As aventuras de Nhô-Quim (1869) e As aventuras Zé Caipora (1883) são reconhecidas pelos pesquisadores como as primeiras de longa duração, listadas, também, entre as pioneiras do âmbito mundial.” (CARDOSO, A. E., org., As Aventuras de Nhô-Quim e Zé Caipora. Brasília: Senado Federal, 2002).

vii SODRÉ, N. W. A História da Imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1966, p. 237.

viii MARTINS, A. L. Revistas na emergência da grande imprensa: entre práticas e representações (1890-1930). Mimeo.

ix Sodré, N. W. A História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, pág.237.1966.


x Sobre Leituras de imagens, cf. MANGUEL, A. Uma História de Leitura. p.129.

xi Nabuco considerava a Revista Ilustrada a “bíblia da abolição daqueles que não sabiam ler”. Apud. SODRÉ, N. W. A História da Imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1966, p. 240.

xii Monteiro Lobato, declarado apreciador da revista observou que “a voga da revista foi tão grande, a ponto de permitir que, durante anos, o desenhista vivesse do produto das assinaturas, sem necessidade de recorrer à ‘cavação’, arte que iria ter o seu esplendor na República”.

xiii Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro (1850-1916).

xivSODRÉ, N. W. A História da Imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1966, p. 25.

xv SARTRE, J. P. Qu’est que la littérature? Paris: Gallimar, 1948, p.36- 37. Apud. FRAISSE E., POMPOUGNAC J. e POULAIN, M. (orgs). Representações e imagens da Leitura, trad. Osvaldo Brito.São Paulo: Editora Ática, 1989, p.120.

xvi ABREU, M. Os caminhos dos livros. Campinas: Mercado das Letras, Associação de Leitura do Brasil (ABL), Fapesp, 2003, p.345.

xvii Segundo Márcia Abreu, “a leitura de romances era tida como perigosa pois fazia com que se perdesse tempo, com que se corrompesse o gosto com que se tomasse contato com situações moralmente condenáveis. Havia também uma preocupação para que os leitores não se identificassem com personagens, atitudes pecaminosas.”, cf. ABREU, M. Os caminhos dos livros. op. cit.

xviii Apud. SODRÉ, N. W. A História da Imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1966, p.212

xix CANDIDO, A. Formação da Literatura Brasileira. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 200, p. 23
Bibliografia
ABREU, Márcia. Os caminhos dos livros. Campinas: Mercado de Letras, Associação de Leitura do Brasil (ABL), Fapesp, 2003.

________ (org). Leituras no Brasil. Campinas: Mercado de Letras/ABL, 1995.

________ Leitura, história e história da Leitura. Campinas: Mercado de letras/ALB/ Fapesp, 2000.

ALENCAR, José de. O Guarani. In: Obra Completa. V 1. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958.

AZEVEDO, Fernando de. A cultura brasileira. Introdução ao estudo da cultura no Brasil. 4 ed.Brasília: Editora Universidade de Brasília,1963.

AZEVEDO, M. D. Moreira de. “Origem e desenvolvimento da imprensa colonial brasileira”. Revista Trimestral. Rio de Janeiro: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil. Tomo XXVIII, 4º Trimestre, 1865.

BAKHTIN, Michael. Questões de literatura e estética (a teoria do romance).São Paulo: Editora da Unesp, 1993

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1977.

BOSI, Ecléa. Cultura de massa e cultura popular. Petrópolis: Vozes, 1972.

________ Memória e Sociedade. São Paulo: T. A. Queiroz, 1981.

CAMARGO, Ana Maria de Almeida & Moraes, Rubens Borba de. Bibliografia da Impressão Régia do Rio de Janeiro. v 1. São Paulo: Edusp; Kosmos, 1993.

CULLER, Jonathan. Teoria Literária: Uma introdução.São Paulo: Becca, 1999

CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. São Paulo: Editora Nacional,1976.

________ Formação da Literatura Brasileira. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2000.

CESAR, Guilhermino.Historiadores e críticos do Romantismo: a contribuição européia: crítica e história literária. Rio de Janeiro: Livros técnicos e científicos: São Paulo: Edusp, 1978.

CHARTIER, Roger. A aventura do livro do leitor ao navegador, trad. Reginaldo de Moraes, São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1998.

________ e CAVALLO, Guglielmo (orgs), História da Leitura no mundo Ocidental. São Paulo: Ática, 1998.

DARTON, R. e ROCHE, D.(org). Revolução Impressa. A imprensa na França (1775-1800), trad. Marcos Maffei Jordan São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,1996.

DOYLE, Plínio. Histórias de Revistas e Jornais Literários. Vol 1. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura/ Fundação casa de Rui Barbosa, 1976.

FERREIRA, Orlando C. Imagem e Letra.São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.

FRAISSE E., POMPOUGNAC J. e POULAIN, M. (orgs). Representações e imagens da Leitura, trad. Osvaldo Brito.São Paulo: Editora Ática, 1989.

GAZETA DE NOTÍCIAS. Rio de Janeiro (1850-1916).

GUEDES, Fernando. O livro e a leitura em Portugal. Subsídios para a sua história. Séculos XVIII-XIX. Lisboa: verbo, 1987.

LAJOLO, Marisa E ZIBERMAN, Regina. Leitura rarefeita, livro e leitura no Brasil . São Paulo: Brasiliense, 1991.

_______ A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.

_______O preço da leitura: leis e números por detrás das letras.São Paulo: Ática, 2001.

LAJOLO, Marisa. Literatura: leitores & leitura.São Paulo: Moderna, 2001.

_______ Como e por que ler o Romance Brasileiro.Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

LOBATO, Monteiro. A caricatura no Brasil: Ângelo Agostini, em Idéias de Géca Tatu, São Paulo: Ed. Da Rev do Brasil, 1919.

LUKACS,G. Teoria do romance. Lisboa: Editorial Presença

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura, trad. Pedro Maia Soares, São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

MARTINS, Ana Luiza. Revistas em Revista. Imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922), São Paulo: Edusp, 2001.

________ Revistas na emergência da grande imprensa: entre práticas e representações (1890-1930). Mimeo.

MEYER, Marlise. Folhetim, uma História. Companhia das Letras.

PORTO, Ana Gomes. “Um esqueleto no paço imperial: Literatura e política em alguns folhetins do início da república” In: Cadernos AEL 16/17. Literatura e imprensa no século XIX. Campinas, UNICAMP/IFCH/AEL, v. 9, n.16/17, 2002.

REVISTA ILUSTRADA. Rio de Janeiro (1876-1898).

SERRA, Tânia Rebelo Costa. Antologia do Romance Folhetim, Brasília:UNB,1997.

SODRÉ, Nelson Werneck. A História da Imprensa no Brasil, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1966.



VITORINO, Artur J. R., “Leitores e Leituras de Romances Franceses em nossas plagas imperiais”. In: Cadernos AEL 16/17. Literatura e imprensa no século XIX. Campinas, UNICAMP/IFCH/AEL, v. 9, n.16/17, 2002.






©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal