Revista Redescrições Revista on line do gt de Pragmatismo e Filosofia Norte-Americana



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Revista Redescrições

Revista on line do GT de Pragmatismo e Filosofia Norte-Americana



Ano V, número 2, 2014

ISSN: 1984-7157





 

Revista Redescrições é uma publicação quadrimestral do GT-Pragmatismo e  Filosofia Americana da Anpof. O conteúdo dos artigos publicados trata de temáticas relacionadas ao pragmatismo, à filosofia americana de uma maneira geral, ou uma aplicação do método de investigação pragmatista a questões contemporâneas


ISSN: 1984-7157
Corpo editorial:

Bjorn Ramberg – Universidade de Oslo (Noruega)

Cerasel Cuteanu – CEFA/Romênia

James Campbell – Universidade de Toledo (EUA)

Leoni Maria Padilha Henning (Universidade Estadual de Londrina)

Michel Weber – Centro “Chromatiques whiteheadiennes” (Bélgica)

Michel Eldridge - Universidade de North Caroline, Charlotte (EUA)†

Inês Lacerda Araújo - PUC-PR

Heraldo Silva – UFPI

José Nicolao Julião- UFRRJ

Gregory Fernando Pappas - Texas A & M University

Maria José Pereira - UCG

Aldir Carvalho Filho - UFMA

Vera Vidal - Fiocruz

Ronie Silveira – UFRB

Reuber Scofano – UFRJ

Baptiste Grasset - UNIRIO
Expediente

REDESCRIÇÕES

Revista do GT-Pragmatismo da ANPOF

ISSN: 1984-7157



Editores: Aldir Carvalho Filho e Susana de Castro

Editor executivo: Marcos Carvalho Lopes

Editor adjunto: Frederico Graniço

Logo da revista Redescrições: Paulo Ghiraldelli Jr.

Logo do GT de Pragmatismo e filosofia americana: Manufato

Ilustração da capa: "The Transfiguration of Christ”. Gerard David (1c. 1460 – 13 August 1523).


Revista Redescrições

Revista on line do GT de Pragmatismo e Filosofia Norte-Americana


Ano V, número 1, 2013
Sumário

Editorial 5
Notas & Comentários

ENTREVISTA COM ARTHUR C. DANTO – Susana de Castro 8
Artigos

O FIM DA ARTE COMO UM COMEÇO - Rachel Costa 11
O FILÓSOFO ARTHUR DANTO COMO ANDY WARHOL - Marcia Tiburi 34

O FIM DA ESTÉTICA – DADAÍSMO E ARTE POP - Susana de Castro 53

UMA FÁBULA PARA ARTHUR DANTO - Fernando Gerheim e Fabio Mourilhe 51
Tradução

PRAZERES ESTÉTICOS - Carolyn Korsmeyer 68

Resenha

DANTO, Arthur. Andy Warhol. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Editora Cosac Naify, 2012, 208 páginas. por Juliana Araújo 95





Editorial


EDITORIAL

Frederico Graniço


Neste número a Revista Redescrições homenageia o filósofo e crítico de arte norte americano Arthur Coleman Danto, por sua importância no debate contemporâneo sobre a arte. Danto foi professor emérito da Universidade de Columbia (Nova York) e crítico de arte da revista The Nation; até seu falecimento com 89 anos, em outubro de 2013.

Abrindo esta edição, republicamos uma Entrevista com Arthur C. Danto, publicada na Revista Redescrições do final de 2012 (número 4, ano 3). As questões aí se referem à concepção de arte do filósofo, à relação existente entre o trabalho do artista e o caráter da obra já enquanto objeto concluído; trata-se também das pinturas de Jasper Johns, e sobre a caracterização artística da performance, enquanto uma nova modalidade que se apresenta no cenário da arte.

Já abrindo a seção de artigos temos O fim da arte como um começo, onde Rachel Costa apresenta a teoria filosófica de Arthur Danto sobre a arte, sua questão sobre o "fim da arte", e o "fim da história". A autora apresenta a posição de Danto sobre a arte em seu período "clássico", o renascimento, a modernidade e a contemporaneidade, ou a "arte pós-histórica" – um momento em que a arte perde a perspectiva ontológica de um objetivo físico, e recai num pluralismo auto-reflexivo, que a aproxima da própria filosofia. Nesse enredo, a autora caracteriza e também apresenta críticas às concepções de Arthur Danto.
O filósofo Arthur Danto como Andy Warhol, de Marcia Tiburi, aprofunda sobre o mesmo tema. Se Danto considera a Pop Art como um momento de um novo paradigma na história da arte, com a especificidade de ser um ponto de auto-esclarecimento completo que justifica o termo "pós-história", no sentido hegeliano de que a arte reconhece a si mesma e a todos os movimentos antecessores como contemporâneos e igualmente possíveis – migrando assim para uma arte auto-reflexiva que possui valor intelectual filosófico; por outro lado a autora do artigo traz o próprio filósofo para o centro da baila, ao tentar compreender seu movimento como um descobrimento de si mesmo. Marcia Tiburi questiona a interpretação de Danto relacionando o filósofo com o artista, a percepção com o ser percebido, entre Danto e Warhol. Nesse sentido, pode-se falar num Andy Warhol filósofo, que teria influenciado Danto, e num Arthur Danto artista, que teria reconhecido teoricamente o trabalho de Warhol.

O terceiro artigo, de Susana de Castro, O fim da estética – dadaísmo e arte pop, contextualiza o tema com um pequeno histórico de alguns movimentos artísticos do século XX, salientando as diferenças entre o dadaísmo e a arte-pop – uma espécie de neo-dadaísmo por desenvolver os conceitos contidos no primeiro. Aqui Susana relaciona os movimentos artísticos a seus contextos históricos, e também às questões que essas correntes tinham esperança de dar conta.

Fechando essa sessão, Fabio Mourilhe e Fernando Gerheim apresentam Uma fábula para Arthur Danto, onde os autores mostram as características de uma instalação fictícia em uma estação de metrô desativada; ali é narrada uma experiência estética que tem a reflexão de Danto sobre a arte como pano de fundo. O teor do trabalho acaba por confundir os conceitos padronizados sobre o que conta como obra de arte, trazendo para a perspectiva do observador a definição do que seria arte. O artista Kwame através destes questionamentos e intervenções amplia o universo artístico e abala ‘o curso unificado e os valores de mercado da arte ocidental’.

Na sessão de traduções temos o 2º Capítulo (Prazeres Estéticos) do livro de Carolyn Korsmeyer: Gender and aesthetics - an introduction. Ali a autora, buscando a posição da mulher na arte contemporânea, faz um levantamento dos conceitos modernos que cunharam a discussão estética sobre o belo, e o gosto. Nessa esteira, a questão polêmica entre o significado da beleza estética é abordada, entre outros, no que se refere ao caráter da experiência estética – se deve ser apartada ou não da historicidade, dos interesses e dos desejos.

Fechando este número, na seção de resenhas, Juliana Araújo apresenta uma obra de Arthur Danto sobre a arte: Andy Warhol. Ali, segundo Araújo, o interesse de Danto não se reduz a um interesse biográfico sobre o pintor, empresário e cineasta norte-americano; mas também sobre as questões filosóficas envolvidas na arte, e a polêmica questão sobre “o que torna algo uma obra de arte”. Segundo Araújo, Danto pondera que uma obra de arte não pode ser caracterizada somente a olho nu.
Frederico Graniço, editor adjunto.



Notas & Comentários

ENTREVISTA COM ARTHUR C. DANTO

Tradução Susana de Castro


O filósofo octogenário Arthur C. Danto é um dos maiores filósofos vivos da atualidade. No Brasil duas de suas obras forma traduzidas, Transfiguração do Lugar comum e Após o fim da arte. Abaixo a entrevista que fizemos por email com ele.
Redescrições: de Platão a Heidegger os filósofos tentaram justificar a realidade especial das obras de arte. Na Origem da obra de arte, Heidegger diz, como você, que a obra de arte possui um lado bem ordinário enquanto um artefato comum, mas também possui algo além da sua materialidade, a questão, então, é determinar o que seria esse outro. A obra de arte diferente dos artefatos são alegorias e símbolos (no sentido grego dos termos), diz Heidegger. No seu livro Transfiguração do Lugar Comum, você afirma que as obras de arte são representações. A fim de entender corretamente o que são obras de arte precisamos definir o que representam. Quais são as diferenças entre o seu conceito de representação e o conceito de símbolo utilizado por Heidegger para caracterizar a tradição segundo a qual se move a caracterização da obra de arte? Você concordaria que ele está apontando para uma realidade fora do artista enquanto você não?
Danto: através da representação, uma obra de arte é limitada pelo artista e o seu entendimento. Um templo em nenhum sentido é capaz de se tornar uma edificação cristã, apesar de que quando o rei se converte ele pode decretar que o templo romano é agora uma edificação cristã. Isso pode ter ocorrido ao se colocar uma cruz na porta da frente. Em sentido algum é algo que o rei “descobre”. O arquiteto não se torna um cristão depois de sua morte. Se Heidegger está se movimentando em direção a uma realidade fora do sujeito, não há um limite para aquilo que pode ser, e nenhuma verdade de interpretação. Considere a Torre Eiffel, imagine quando conquistaram Paris os alemães tivessem declarado que ela seria a Sublimidade do Espírito Alemão. Na minha perspectiva, apenas o que está nas intenções do artista pertence ao que a obra é.
Redescrições: a arte POP algumas vezes é erroneamente descrita como um movimento artificial ou superficial, especialmente no que diz respeito às obras de Andy Warhol. Você concordaria que os seus escritos sobre Andy Warhol tiveram o efeito de mostrar o quanto de trabalho árduo se escondia por trás de suas obras?
Danto: Alguma vezes é sugerido que Warhol poderia ter usado como “readymades” simplesmente caixas de cartolina. De fato, no museu de arte moderna de Stockholm inúmeras centenas de caixas foram colocadas no edifico para provocarem efeito. Warhol queria que as caixas tivessem lados e cantos nítidos. Assim, ele tinha que as ter mandado ser fabricadas de madeira, o próprio oposto do produto pronto (readymade).
Redescrições: atualmente há uma grande exposição das gravuras de Jasper Johns em São Paulo1. Como você avalia a sua contribuição para o movimento pop?
Danto: Jasper Johns foi Pop no sentido em que suas imagens são realidades – números, letras, cores, alvos, bandeiras. Elas são realidades e representações ao mesmo tempo. São pintadas belamente.
Redescrições: Você conhece o trabalho de Ron Athey? Ele acaba de se apresentar sua performance “St. Sebastian/50” no Rio de Janeiro no projeto “Entre Lugares, Rio – Londres”2. Como você vê o efeito das performances para a história da arte, já que uma performance é um evento único e efêmero enquanto um quadro possui a vantagem da durabilidade?
Danto: Não conheço o trabalho de Ron Athey. Mas uma performance implica um corpo, propriedade de uma única pessoa. Marina Abramovic treina seus estudantes para realizarem suas performances. Dessa forma as performances de Marina podem fazer parte dos conteúdos do museu. Não sei como solucionar esse problema.
Redescrições: muito obrigada por essa entrevista.


Artigos

O FIM DA ARTE COMO UM COMEÇO

Rachel Costa3


RESUMO

O artigo interpreta a teoria acerca do fim da arte de Arthur Danto, apontando, ao final, críticas à proposta do filósofo, sem esquecer de mostrar em que medida a teoria se mostra frutífera para pensar a arte contemporânea.


Palavras-Chave: Pluralismo, Narrativa, História.
ABSTRACT

The paper interprets the theory about the end of art Arthur Danto, pointing at the end, criticism of the proposal of the philosopher, not forgetting to show to what extent the theory proves fruitful for thinking about contemporary art.


Key-words: Pluralism, Narrative, History.
Introdução
A afirmação acerca do fim da arte, pelo seu próprio teor, necessita ser pormenorizada. Durante as últimas décadas surgiram teorias, tanto elogiosas quanto drásticas, tendo o fim da arte ou como objetivo, ou como justificativa.Arthur Danto é um dos que afirmou o fim da arte como justificativa de um processo histórico, utilizando a filosofia hegeliana como inspiração para realização de sua própria. Este artigo pretende analisar a tese do fim da arte na perspectiva de Arthur Danto, mostrando como ele a constrói e quais são os principais problemas derivados da forma como ele o faz. As questões que surgem dessa escolha são: em quais termos essa afirmação foi feita? O que ela representa? Quais os benefícios de propor algo tão drástico? Essas questões colocam o eixo temático de desenvolvimento deste artigo.
A história em narrativas e suas particularidades
Para começar a desenvolver os problemas que emergem dessas questões, é preciso partir da afirmação dantiana de que ele é um essencialista histórico, o que significa que a história, sua estrutura e o que ela representa na forma de pensar a arte, são a chave para a compreensão de sua estética. Tendo a história como a base de sua investigação, a declaração acerca de seu fim é feita no momento da aceitação de objetos exatamente iguais a objetos cotidianos como obras de arte, o que Danto chama de indiscerníveis. O fato que uma obra de arte poder ser exatamente igual a um objeto qualquer, aponta uma ruptura com o processo da história toda. O que leva ao fato de que o fim da arte não é o fim da arte propriamente dita, até porque essa seria uma declaração despropositada, já que obras de arte continuam a serem feitas e o próprio Hegel, influenciador desse tipo de posição, afirmou a morte da arte como ele conhecia e não o fim da mesma. Danto diz que Hegel nunca se preocupou com a arte do futuro, somente afirmou que a vocação da arte estava terminada em seu momento histórico. É importante compreender que a não preocupação de Hegel com a arte do futuro, não significa que ela acabou. Hegel diz que a “Idade da Arte” estava terminada, e Arthur Danto interpreta essa afirmação como: a idade da arte como ele a conheceu estava terminada (DANTO, 2004, p.84). O que acaba para Danto é a história da arte, a organização teleológica de modos de fazê-la e pensá-la. E esse fim é extremamente profícuo, pois se constitui como uma espécie de liberdade por autocompreensão.Autocompreensão porque a distinção física entre mimesis e realidade funciona como a base mesma da história da arte, e os indiscerníveis apontam para a impossibilidade de considerar esse critério como parte da definição de arte, porque são eles que modificam a forma como a história da arte pensava sobre a arte. O que permite declarar o fim da arte é a ideia de que só é possível responder à questão acerca da identidade da arte após o surgimento dos indiscerníveis (DANTO, 2006a, p. xix).

O problema que se sobrepõe a esse é o da compreensão do que seria história nessa conjuntura.Uma característica ele explicita já em seus primeiros textos sobre o assunto, é impossível pensar a arte do futuro, pois qualquer tentativa de imaginar o que será o futuro está arraigada no próprio presente. Para exemplificar essa afirmação, Danto utiliza a série de imagens do artista francês Albert Robida, denominada “Le VingtièmeSiecle”, que tem o intuito de retratar, em 1883, como seria o mundo em 1952.



Albert Robida, “Teatro em casa via Telefonoscópio”, 1883; “Casa suspensa e giratória”, 1883


As imagens, além de demonstrarem que toda a tentativa de imaginação se ancora, em seus pressupostos mais simples, na situação presente, mostram também que seria impossível ao artista vislumbrar que em 1915,Duchamp faria “After a brokenarm” (DANTO, 2004, p.83-4). Elas chegam a serem cômicas, pois pressupõem um mundo quase como o da série de televisão “Os Jetsons”, mas totalmente impregnado das características do século XIX. O que permiteDanto concluir que, qualquer compreensão histórica deve se dar do presente em direção ao passado e não o contrário. É exatamente isso que LydiaGoehr afirma no prefácio da nova edição de NarrationandKnowledge. Ela diz que Danto faz filosofia da história de posfácio, ou seja, que ele parte do que aconteceu para compreender o que está acontecendo agora, e não o contrário (DANTO, 2007, p. XIX). A análise dantiana da arte está fundada na análise do passado, para que este sirva como base de uma teoria que funciona para o presente e que possa almejar funcionar também para o futuro.

Essa ideia se explica devido à suaclara inspiração hegeliana para a estruturação de uma história dialética. A tese do projeto dantiano pode ser resumida pela seguinte citação: “Há uma espécie de essência transhistórica da arte, sempre a mesma em todo lugar, mas ela só se revela por meio da história”4 (DANTO, 1997, p.28). A essência da arte só se torna clara com o fim da história, pois ela se mostra de acordo com as características de cada momentoatravés da história. É a consciência dessa essência que acaba com a história, pois ela se configura como a essência por traz dos téloi particulares de cada narrativa. Aquilo que une as narrativas dentro da mesma ideia de arte é justamente a tentativa de conhecer a essência, e essa tentativa é a própria história. Segundo o filósofo, toda a história da arte, da forma como ela aconteceu, não permitiu que a filosofia da arte se desenvolvesse dentro da própria arte, pois cada período ou movimento artístico possui todo um pensamento errado sobre a totalidade da arte. Ele é errado, pois serve somente para pensar aquele movimento ou período (DANTO, 2006a, p. xiii). Assim, a história precisou terminar para que a característica filosófica da arte se tornasse clara.

É nessa perspectiva que se encontra a ideia de um movimento histórico sistemático da arte rumo a sua autocompreensão. Danto entende que sua proposição corrobora o resultado alcançado por Hegel de que a arte deve ser consumida pela sua própria filosofia. Assim, a importância da arte está no fato de ela gerar uma filosofia da arte. Essa característicanão é relativa apenas à arte contemporânea, mas a toda arte produzida pelo mundo Ocidental, visto que toda ela depende de uma teoria para existir. É importante ressaltar que essa teoria não é algo externo, mas parte da própria manifestação artística (DANTO, 2004a, p.17). A diferença da arte contemporânea para os períodos da história é que esse é o momento da consciência dessa natureza filosófica, a qual sempre existiu, mas que era mascarada por características relativas a cada um dos movimentos. Danto atribui esse pensamento ao próprio Hegel, que afirma, no segundo tomo dos “Cursos de Estética”, que a arte convida ao pensamento, e isso não se relaciona com a criação de novas obras de arte, mas com a compreensão filosófica do que ela seria. Para Danto, a história da arte é uma confirmação das análises hegelianas (DANTO, 1997, p.32).

Consequentemente, ele apresenta dois momentos da história da arte para, através da dialética histórica,demonstrar o terceiro, o qual responde positivamente à afirmação acerca do fim da arte (DANTO, 2004a, p.3). Os dois momentos da história são chamados de narrativas, i.e., a história da arte possui duas narrativas mestras, uma subsequente à outra. O fim da arte acontece porque, ao chegarem ao fim, cada uma delas permite a tomada de consciência sobre um aspecto essencial da arte. Otélos maior da história é atingido com os indiscerníveis, visto que eles são a consciência da característica filosófica da arte, mas eles só foram possíveis, devido a todo o desenvolvimento histórico pregresso. Nesse sentido, a ideia de contextualização histórica da obra de arte transforma-se em chave para a interpretação de obras de arte, poissua localização, como em um gráfico de coordenadas, é condição sinequa non de sua compreensão como arte.

Obviamente, pensar a história teleologicamente é uma opção restritiva, pois significa que ela possui um télos a ser alcançado, e se desenvolve com o objetivo de atingi-lo. Para minimizar a situação, Dantousa a afirmação de Hegel de que algumas partes do mundo não faziam parte do mundo histórico, para dizer que algumas formas de arte não fazem parte da arte historicamente, pois estão fora dos limites da arte (DANTO, 1997, p.26). Essa expressão, os limites da arte (thepaleofhistory), que aparece no subtítulo de seu livro sobre o assunto, também vem da filosofia hegeliana. O filósofo tem consciência das limitações de sua proposta, mas, mesmo assim, considera-a utilizável. Logo, dentro da estrutura da história da arte apenas uma forma de arte é correta, aquela que se adéqua ao télos da história.E o que caracteriza o fim da arte é, justamente, a ausência de télos, permitindo afirmar que todas as formas de arte são corretas e coexistentes (DANTO, 1997, p.27). Por isso, qualquer narrativa após o fim da arte será falsa, visto que não há uma forma histórica que se imponha (DANTO, 1997, p.28). O fim da arte não funciona como algo negativo, ou descredenciador, muito pelo contrário, funciona como o início de um período em que arte se desvincula de suas amarras históricas.

Em contrapartida à estrutura hegeliana dos momentos da arte, Danto constrói narrativas que possuem algumas particularidades. A diferença principal é que o télos de Hegel, não somente está pressuposto desde o início, mas também guia o desenvolvimento da arte, ou seja, os momentos da história da arte são movimentos rumo ao télos, enquanto em Danto, as narrativas parecem uma série de acasos que deram certo, pois seus objetivos estão associados ao progresso de técnicas específicas que no fim do processo levam à compreensão da essência da arte (DANTO, 1997, p.62). Então, a história se constitui como um movimento único rumo à compreensão do que seria essencial na arte pela própria arte.

Para atingir tal objetivo ele aponta a existênciadas narrativas, as quais são télos que, naquele determinado momento da história, eram considerados como a essência mesma da arte. A necessidade de progresso aparece pelo fato de que esses objetivos não demonstravam o que era, realmente, essencial na arte. Seria necessário, então, que eles fossem alcançados para que a compreensão de sua não adequação também fosse atingida. Dessa forma, os limites da história fazem sentido dentro desse contexto, pois tudo que está fora dos limites da história, está fora da busca da arte de conhecer sua essência (DANTO, 1997, p.64).

A ideia de progresso só existe quando um parâmetro é fixado como critério, senão seria somente uma espécie de evolução natural (DANTO, 1997, p.62). Então, cada narrativa funciona como uma espécie de história da arte inteira. Dessa forma, as narrativas são estruturas históricas objetivas, as quais são definidas em sua fundação (DANTO, 1997, p.43) e terminam por gerar uma leitura a-histórica da arte como um todo, por conferir essencialidade a suas características e desconsiderar todas as outras (DANTO, 1997, p.29).

A organização exterior das narrativas funciona como a teoria dos paradigmas de Thomas Kuhn (DANTO, 1997, p.29). Cada narrativa é um paradigma que, ao ser superado por outro, passa por um processo de transição. Já, para pensar o interior de cada narrativa Danto utiliza a teoria do falibilismopopperiana. O crescimento do terreno da arte pode ser representado de forma narrativa porque ele se dá, progressivamente, rumo à tentativa de produzir algo que se adéque, cada vez mais, ao objetivo que a sustenta (DANTO, 1997, p.50). E, como a estrutura é progressiva, obviamente a ideia do falibilismo se encaixa, tendo em vista que cada novo movimento dentro da narrativa pode mostrar a fraqueza do movimento anterior. Então, o objetivo não está relacionado com a capacidade de dizer o que é correto ou não, mas em dizer o que já se mostra não tão adequado assim.

E é exatamente por esse motivo que Danto diz que há teorias, como a de Panofsky, que não funcionam para pensar o interior das narrativas, apenas a estrutura como um todo. Panofsky constrói uma história da arte como consequência de formas simbólicas que substituem uma as outras sem caracterizar desenvolvimento (DANTO, 1997, p.65), ou seja, na perspectiva do filósofo, a teoria de Panofsky funciona para a arte do mesmo modo que a teoria dos paradigmas de Kuhn para a ciência.

Para construir as narrativas Danto adota Gombrich como base teórica. Este já havia aplicado a estrutura dafilosofia hegeliana à arte atual, em seu livro “Arte e Ilusão”. Com Gombrich, o filósofo associa a história da arte à história da arte de fazer alguma coisa melhor que seus antepassados, e esse fazer é basicamente técnico (DANTO, 1997, p.50).A história da arte é uma tentativa de fazer cada vez melhor o que está sendo feito em cada narrativa, e a avaliação de que algo é melhor do que o algo anterior é pensada a partir do falibilismo.

Utilizando essa série de referências cruzadas juntamente com a ideia de filosofia de posfácio, Danto desenvolve as narrativas a partir de seu fim, ou seja, se a história da arte é progressiva, pelo menos a história da pintura terminou (DANTO, 2004a, p.3). Isso deixa antever que ele constrói uma história especificamente da pintura e está consciente disso, porque acredita que ela funciona como uma espécie de estrutura central, na qual as outras artes atuam em posição secundária (DANTO, 1997, p.62).

É importante compreender as narrativas enquanto estruturas, pois o seu conteúdo não é rígido no curso do pensamento do filósofo. Em seu primeiro texto “O fim da arte”, ele elege Vasari e Croce, respectivamente para embasarem as narrativas. Em “Após o fim da arte”, a discussão se dá com Vasari e Greenberg. Em “Whatartis”, ele troca ambas as narrativas, tanto a da modernidade, quanto a da arte tradicional. Substitui Vasari por Alberti e a teoria da pintura como janela para o mundo (DANTO, 2013, p.1), e afirma que a modernidade tem dois conceitos de abstração, os quais ele constrói sem recorrer ao Greenberg (DANTO, 2013, p.11). A segunda narrativa passa por várias opções na obra do filósofo. No próprio “Após o fim da arte”, ele afirma como narrativas modernistas, a de Greenberg e as de Malevich, Mondrian, Reinhardt entre outras (DANTO, 1997, p.28). O que significa que ele oscilou entre a afirmação de uma narrativa única para a modernidade até mesmo no livro que propõe a greenbergiana como sendo a leitura mais efetiva do período.

O interessante nessa situação é que ela permite duas conclusões: a primeira, que as escolhas teóricas que constroem o objetivo de uma narrativa não são cristalizadas; e a segunda, que a ideia hegeliana de uma estrutura progressiva é o esqueleto de seu projeto filosófico, i.e., as narrativas podem ser repensadas, mas não descartadas. Além disso, as narrativas são imprescindíveis, pois ele pressupõe a necessidade de uma teoria credenciadora para cada forma de arte (DANTO, 1997, p.54).

A primeira narrativa é contextualizada historicamente por Arthur Danto através da afirmação, com base na análise da obra de Hans Belting denominada “O Fim da Arte”, de que a arte antes de, aproximadamente, o século XV não era compreendida enquanto uma realização humana, mas como algo miraculoso. Só no Renascimento a arte passa a ser realização humana e ganha contornos próximos do que seria a arte atualmente. O mesmo filósofo, em seu livro “A imagem antes da Era da arte”, fala do que seria arte no pensamento contemporâneo desde os romanos até 1400 d.C. Como mostra o título de seu livro, até esse momento a relação cultural com as imagens era outra. Elas eram compreendidas como possuindo origem divina. Além disso, o conceito de artista só se torna central com Giorgio Vasari e seu livro “A vida dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos”5 (DANTO, 1997, p. 3).

Dessa forma, os conceitos de artista e de arte, como são conhecidos hoje, somente se formam a partir da Renascença, mais propriamente com Vasari(DANTO, 2006, p. 4). Arthur Danto argumenta que o que aconteceu foi uma descontinuidade entre a arte de antes da era da arte e a arte da era da arte. Assim como há uma descontinuidade entre a arte da era da arte e a arte após o término dessa era (DANTO, 2006, p. 5). Essa análise inicia o livro “Após o fim da arte” e atesta a ideia de haver um modelo histórico da arte que começa no Renascimento, visto que a própria concepção de arte teria surgido nesse momento. O que significa que toda e qualquer manifestação artística anterior ao Renascimento foi nomeada como tal a partir de critérios elaborados posteriormente. A partir disso, Danto argumenta que não há qualquer impossibilidade de se pensar o fim da arte, pois ela possui um começo, e um começo bastante delimitado temporalmente.

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