Revista Redescrições Revista on line do gt de Pragmatismo e Filosofia Norte-Americana



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Conclusão
Portanto, em detrimento das dificuldades geradas pela proposta dantiana, sua tese acerca do fim da arte aponta vários caminhos propícios para pensar a arte contemporânea. A tese do pluralismo, aliada à ausência de periodização e de características estilísticas, permitevislumbrar a necessidade de reestruturação da forma como a história da arte é construída. Acredito, inclusive, que a precariedade das narrativas que constituem a história auxilia nessa questão. Além disso, a necessidade de pensar a arte para além de suas características físicas abre espaço para construções filosóficas cada vez mais intricadas à própria produção artística, haja vista a dificuldade do próprio Danto de separar arte e filosofia.

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O FILÓSOFO ARTHUR DANTO COMO ANDY WARHOL

Marcia Tiburi
RESUMO

O presente artigo pretende mostrar como a análise de Andy Warhol feita por Arthur Danto expõe uma espécie de meta-teoria da própria filosofia de Arthur Danto. Minha hipótese é que Danto usa Warhol para explicar a si mesmo. Arelação entre arte e filosofia - questão fundamental da obra de Danto- corresponde à relação entre o próprio Danto e Andy Warhol. Em última instância, é possível que, por meio da análise dessas relações, possamos entender o nexo entre o fazer artístico e filosófico em nosso tempo, apontando para novas compreensões tanto da arte quanto da filosofia.



Palavras-Chave: Arthur Danto, Pop Art, Andy Warhol, filosofia contemporânea, estética
ABSTRACT

This article aims to show how the analysis that Danto does of Andy Warhol outlines a kind of meta-theory of the former’s own philosophy.My hypothesis is that Danto uses Warhol to explain himself. The relation between art and philosophy – fundamental question of Danto’s work – corresponds to the relation between Danto himself and Andy Warhol. Ultimately, it is possible that, through the analyses of these relations we understand the link between the artistic and philosophical work in our timing pointing to new comprehensions both art and philosophy.



Key-words: Arthur Danto, Pop Art, Andy Warhol, contemporary philosophy, aesthetics

O filósofo Arthur Danto como Andy Warhol
Neste artigo pretendo comentar aspectos do que Arthur Dantodiz sobre Andy Warhol na intenção de mostrar como Arthur Danto, ao falar da arte de Warhol, constrói uma espécie de meta-teoria de sua própria filosofia. Em termos bem simples, quero dizer que,de certo modo, Danto usa Warhol para falar de si mesmo. Warhol seria, de certo modo, em termos talvez não tão simples, mas muito correntes, o “alterego” de Danto. Isso pode significar que, filosoficamente falando, Danto seja, de certo modo, o duplo de Warhol. Nosso problema aí seria entender o que pode querer dizer “de certo modo” quando comparamos esses dois personagens, considerando que são duas pessoas muito diferentes e compará-los enquanto pessoas seria um projeto inútil e sem sentido. Por isso, quero pensar evidentemente não em suas pessoas físicas, mas em suas posições como personagens culturais: Warhol como artista, Danto como filósofo. A expressão “de certo modo” nos ajuda nesse ponto, pois por meio dela se indica no uso corrente, algum aspecto específico da relação entre uma coisa e outra. Ora, “de certo modo” indica o que é e não é, o que é sob um certo aspecto e não é , sob outro. Levando isso em conta, creio ser possível justificar a tese da meta-teoria, ou, em termos mais adequados, do meta-posicionamento, da obra de Danto e partir da obra de Warhol.

Danto vê na arte de Warhol uma posição filosófica das mais avançadas. Se sua filosofia nasce a partir de Warhol, como veremos, creio que, falando no artista, ele posicione sua própria filosofiacomo algo que ele não espera que seja menos avançada filosoficamente do que a arte filosófica de Warhol. O que Danto alcança em termos filosóficos desde que empreende uma investigação e uma atenção sobre Warhol é o que precisamos tem em vista.

Danto desenha um Andy Warhol totalmente seu, mas podemos dizer que é o melhor retrato que se poderia fazer de um artista como Andy Warhol cuja complexidade não poderia ser deixada de lado, justamente porque essa complexidade relaciona-se ao mais simples, ao que há de mais “banal”. Warhol fez arte a partir do mais banal, o que, por muitos motivos, jamais seria chamado de “arte” se este procedimento de denominação e de definição não fosse ele mesmo, de certo modo, artístico e filosófico. Verdade que uma definição dessas nunca é produzida apenas por uma pessoa ou grupo institucionalizado tais como filósofos e artistas. Esse tipo de definição vem de uma época, por um desejo coletivo que se expressou no que foi chamado desde então de Pop Art.

O que Danto diz sobre Warhol é um retrato que faz de Warholenquanto artista um personagem filosófico ímpar. Esse personagem é único, mas ao mesmo tempo, ambíguo: filósofo e artista, o que ele produz em termos de obra, na visão de Danto, não tem precedentes. No entanto, creio que é possível afirmar que a filosofia de Danto, como Dantomesmo sabe, também não tenha precedentes. E não o tem porque a filosofia de Danto se deve a muito do que Warhol provocou em sua visão e posicionamento em relação ao mundo. Danto deriva de Warhol, mas não apenas em um sentido histórico como se uma teoria da arte necessariamente surgisse para dar conta da interpretação de uma obra. O que Danto diz de Warhol, o modo como desenha o retrato de Warhol, serve para que desenhe o seu próprio. Quero dizer com isso que se o procedimento de Warhol é filosófico enquanto ele é artista, o procedimento de Danto é artístico enquanto ele é filósofo.

Ora, por meio desse retratofeito por Danto sobre Warhol se pode definir o que é um artista e um filósofo. Semelhante a Sócrates, Warhol é alguém que muda um paradigma. Pelo menos mudou o paradigma de Danto, como veremos. Essa mudança implica que o retrato feito sobre o artista é ao mesmo tempo um autorretrato do filósofo. Tendo isso em vista, creio ser possível ver em Danto um filósofo pop, do mesmo modo como Andy Warhol foi, enquanto artista, e para Danto, um filósofo pop.

Na construção desse argumento que envolve pensar a autorreferencialidade de Danto em relação a Warhol (sendo este último o eixo, o dispositivo e o objeto que permite a Danto ver-se a si mesmo, e a nós “outros” vermos Danto), é preciso levar em conta um aspecto elementar que não perde de vista o “certo modo” com o qual podemos pensar esta relação: que Arthur Dantonão foi um artista como Andy Warholé um artista, do mesmo modo como Andy Warhol não foi um filósofo como Arthur Danto foi um filósofo. Esse fato que poderia estragar o meu argumento é o fato mais importante que o justifica, justamente, por certo mecanismo sustentado na “ambiguidade” entre obra e vida, entre obra de arte e coisas ordinárias e entre artista e filósofo, sobre o qual falaremos.

Quando digo que Danto não era artista, penso em seu posicionamento profissional e institucional. Mas Dantoque fora em certo momento de sua vida um artista em sentido institucional, poderia ter continuado sendo artista, pois começou uma carreira como artista, embora tenha desistido dela. Ou seja, podemos partir do pressuposto de que Danto diz que Warhol era um filósofo, enquanto não se pode dizer que Danto fosse um artista, embora pudesse ter sido se tivesse construído outro futuro para si nesta direção. No entanto, levando a sério o argumento de Danto, vemos que ele diz que Warhol é um filósofo não em um sentido profissional ou institucional. Mas em um sentido inusual e inusitado. E até mesmo em um sentido irreverente. A irreverência da designação do artista como filósofo é, ela mesma, um ato que podemos chamar de “pop-filosófico”, um ato de Pop Art aplicado, ou incorporado, à filosofia de Danto. O que nos leva a pensar que talvez ele estivesse produzindo os seus textos não apenas com intenções analíticas em relação a Warhol, mas tentando mostrar o avanço concreto no tempo presente e o futuro da própria filosofia em relação ao advento da arte, bem como, em outro sentido, buscando entender Warhol em um sentido dialógico, tentando, digamos assim, espelhar-se nele para expor as motivações e potencialidades da filosofia enquanto tal e da sua própria.

Neste sentido é que tentarei mostrar que Danto, mesmo não sendo artista no sentido institucional, era um artista no sentido de ser um “filósofo pop” como Andy Warhol era um “artista pop” que, enquanto artista,era filósofo. A pergunta que norteia este texto e que, a meu ver, pode ajudar a pensar o destino da filosofia contemporânea – ou o que já vem acontecendo com ela há certo tempo - é justamente aquela que se constrói levando em conta que tipo de filósofo é um artista pop para entender que tipo de artista é um “filósofo” como Danto,desde que o advento da Pop Arte de Andy Warhol como artista tem que ser levado em conta para pensar o que é a própria filosofia de Danto e, não creio seja exagero dizer, a filosofia como um todo. Em termos muito simples, podemos nos colocar a pergunta: o que é a filosofia depois da PopArt?Que foi a meu ver a pergunta essencial que a filosofia de Danto se colocou. Mas podemos pensá-la em um sentido universal. Quem são os filósofos depois de Andy Warhol?



Esse é um problema de definição. E o problema de definição é um dos mais importantes problemas tanto para Arthur Danto quanto para o Warhol de Danto que estamos começando a analisar.
O artista enquanto personagem define a filosofia
Na intenção de demonstrar minha hipótese seguirei de perto o que Arthur Dantodiz acerca da Pop Art a partir de seu texto “Pop Art e Futuros Passados” (DANTO, 2006B). Neste texto analisando o “vergangeneZukunft”, “o futuro como apareceu naquele momento passado àqueles para quem ela era presente”(2006B, p. 128) ele pensa na relação tensa entre a escola de Nova York, os abstracionistas tais como Pollock, De Kooning, Rothko e outros, e os realistas. A questão de Danto é tentar entender como os realistas – que se viam sem futuro - teriam algum futuro possível diante do futuro prometido totalmente aos abstracionistas.Hoje, talvez nós não consigamos imaginar como uma figura como Hopper pudesse em sua época ser alguém meio marginal. E ele era enquanto o abstracionismo da escola de Nova York se colocava como a tendência dominante. A divisão entre abstração e realismo tinha, segundo Danto, uma “intensidade quase teológica” (2006B, p. 133). A abstração era a lei e o realismo uma prática quase herética. Bom, já neste ponto chegamos a uma questão que é preciso elaborar: Danto afirma que havia uma “correção estética” que “cumpria o papel que veio a ser desempenhado pela correção política de nossos dias”. E ele segue: “as ações de Hopper e seus companheiros transmitem a indignação e o choque que todos os livros conservadores sobre o politicamente correto hoje provocam” (2006B, p.134). O abstracionismo era a norma estética contra a qual o realismo nada podia. E o que acontecia é que os realistas, inevitavelmente, sentiam-se ameaçados em sua existência diante da ideologização do abstracionismo. Isso não iria durar muito, porque tanto um como outro dos modos de fazer arte seriam logo superados. O que é curioso, e a meu ver não podemos deixar passar, é que Danto compare esse sentimento de ameaça dos realistas ao “modo como os professores foram ameaçados com a perda do cargo efetivo, ou ao menos sentiram-se temerosos dessa perda, a menos que seus programas e seu vocabulário de sala de aula fossem adequados” (2006B, p.134). Essa questão proposta por Danto enquanto pensa em abstracionistas e realistas, em Hopper e Greenberg, nos ajuda a entender uma questão filosófica que não é pouco importante: a questão institucional da filosofia. E neste sentido, no lugar da filosofia acadêmica em relação a outras formas de fazer filosofia. Na verdade, do ponto de vista acadêmico não há outra forma de fazer filosofia. E isso é o que a configura não apenas como instituição escolar, mas como “instituição” legal no sentido “falogocêntrico” do termo. Do mesmo modo que, para pintores acadêmicos, a arte ou seria acadêmica - e seria pintura -, ou não seria nada, a filosofia ainda hoje ou é acadêmica ou não é nada. Se pensarmos a filosofia acadêmica em sua metodologia dominante que se propõe como “história da filosofia”,qualquer outra forma de fazer filosofia parece absurda. Pois bem. Aqui é que o argumento de Danto se torna mais interessante, porque é neste lugar da disputa entre os defensores dos expressionistas abstratos, como Clement Greenberg, e seus oponentes, aqueles que defendiam ainda o realismo, que as coisas se tornam surpreendentes. As tendências estavam preocupadas com seu próprio futuro e não percebiam o que estava acontecendo em seu tempo presente. E foi aí, justamente, que as coisas aconteceram de um modo inesperado para todos. A Pop Art surgiu aí neste exato ponto, como que de surpresa. Danto comenta que a Pop Artnasce meio ligada ao expressionismo (“impulsos dissimulados sob respingos e escorrimento de tintas”), mas logo afirmando-se como algo particular. Ao mesmo tempo, os artistas do movimento Pop se interessam por Hopper, não faltando quem visse nele um precursor do movimento. Neste ponto, devemos voltar à comparação que fiz com a filosofia acadêmica ou institucional: não podemos dizer que haja um equivalente no mundo da filosofia acadêmica entre realismo ou abstracionismo, como filosofia crítica ou analítica, hermenêutica ou fenomenológica. Não se trata, no caso dos movimentos filosóficos da tradição que conhecemos, de uma disputa por pontos de vista ou por tendências que, dentro dos cursos, se estabelecem por afinidade. Mas talvez a Pop Artesteja acontecendo na filosofia e, perdidos entre “abstracionismos” e “realismos”, estejamos perdendo o que mais importa ter em vista, não mais na arte, que costuma estar adiante da filosofia, mas na filosofia que, desde que foi inventada, sempre chega tarde em relação à arte. Quero dizer com isso que o que Danto– para quem as mudanças culturais se manifestam primeiro na arte (DANTO, 2008, p. 27) nos mostra é que alguma coisa que ficou velha na arte também pode ter ficado velha na filosofia.

Danto vai até a história da pintura nos anos 50 e começo dos 60 para mostrar que a questão da Pop Art é muito mais delicada. Ela é mais do que histórica, no sentido da narrativa da história como grande narrativa. Ela é filosófica. É justamente neste sentido filosófico que a Pop Art seria, para Danto, o “movimento de arte mais crucial do século” (2006B, p. 134). É neste sentido que ele também dirá que a PopArt desempenha “o papel filosoficamente principal” na narrativa da história da arte moderna (2006B, p. 135) que ele também ajuda a construir sobretudo ao levantar a questão do fim da arte. Do mesmo modo é que ele afirmará que “a pop marcou o fim da grande narrativa da arte ocidental ao trazer à autoconsciência a verdade filosófica da arte. Que ela foi uma mensageira improvável da profundidade filosófica é algo que prontamente reconheço” (2006B, p. 135) afirma Danto, com todas as letras para que se entenda de uma vez e sempre seu posicionamento.

Danto diz tudo isso acerca da Pop Art para poder contar sua própria relação com a história na qual nasceu a Pop Art, mas insere-se neste ponto, de um jeito muito peculiar, no qual creio ser possível reconhecer a banda de Moebius que se cria entre o artista e o filósofo definindo, ao mesmo tempo, o lugar mutuamente criado do artista e do filósofo. Creio que é neste ponto, com o nascimento da Pop Art que Danto consegue inscrever seu lugar como pensador que é artista, embora seja pensador. Danto, neste texto, pede licença para inserir-se na narrativa como alguém que viveu aquele momento, alguém cujo testemunho nós temos que valorizar enquanto leitores respeitosos. Ele conta essa história em outros textos, sempre no mesmo tom, mas aqui ele é bem definitivo. Ele justifica o modo como vai se apresentar, afirmando que “artistas, quando mostram seus slides e conversam sobre seus trabalhos, de um modo característico relatam momentos decisivos em seu desenvolvimento” (2006B, p. 136).Ele fará o mesmo. Danto justifica que sua vida como filósofo começou no momento em que foi convidado a falar sobre a Pop Art. Ele mesmo conta como deveria ter sido artista (e aí avalia o seu vergangeneZukunft) e como acabou sendo filósofo. Relatando sua vida naquele momento, ele comenta como seu trabalho como artista não cabia nem no abstracionismo, nem no realismo. O surgimento da Pop Art, que Danto descobriu por meio de uma revista de arte, o que era comum naquela época, o deixou, como ele mesmo afirma, “aturdido”. A ponto de que ele deveria se tornar filósofo, o que já vinha fazendo, deixando de ser artista no sentido institucional. Penso que se pode dizer que ele não poderia ser um artista como Andy Warhol era, mas havia nele algo de artista que permitia que ele fosse um filósofo como Andy Warhol.

A meditação de Danto, neste ponto, é bem importante para os fins dessareflexão. Em suas palavras ele diz “eu sabia que se tratava de um momento surpreendente e inevitável, e compreendi imediatamente, em minha própria mente, que, se era possível pintar algo como aquilo (...) então qualquer coisa era possível” (2006B, p. 136). Para Danto, a questão do futuro das artes, das correntes, havia se dissipado. E ele segue dizendo “para mim, isso significava que não havia nenhum problema, como um artista, fazer o que quisesse fazer” (grifo meu, p. 136). O texto neste ponto, fica um pouco truncado. Mas podemos considerar que Danto fala de si como “um artista” que ele de fato era, para em seguida dizer que “a partir daquele momento eu era obstinadamente um filósofo”. Um filósofo era o efeito de um artista que poderia fazer o que quisesse. O que ele quis fazer, como artista, a meu ver, foi tornar-se filósofo. Depois, ele conta que em 1984 passou a ser crítico de arte. O que fez Danto querer ser filósofo – e depois crítico de arte - e deixar de lado a carreira de artista no sentido institucional,pode ser, e certamente é, uma pura escolha pessoal. Mas é também mais do que isso. Danto está, na construção de sua avaliação crítica sobre a parte importante não apenas na narrativa do artista, mas na autonarrativa do filósofo que deixou de ser artista e passou a ser um filósofo, ao mesmo tempo agindo como artista na produção de uma filosofia.O crítico de arte que ele foi era um modo de ser filósofo diante da arte, não sendo mais artista, mas isso só foi possível quando ele agiu “como artista” fazendo o que quisesse fazer. Danto percorre toda a banda de Moebius que ele constrói com Warhol para ser uma coisa sendo outra, do mesmíssimo modo que Warhol é filósofo enquanto artista e que a obra de arte é uma coisa que não se parece nada com uma obra de arte desde que Warhol decidiu fazer coisas como obras de arte.

Ora, Andy Warhol é, na visão de Danto, um artista como filósofo. Danto, neste momento, se espelha no modo como se expressa o artista quando faz a sua narrativa, e no advento da Pop Art como um momento impressionante,para pensar a si mesmo como filósofo enquanto há ainda nele algo de artista. Algo considerável filosoficamente porque metodologicamente interessante. Ora, Danto conta ao leitor que muda o sentido de sua escolha profissional, ou seja, deixa de ser artista, justamente no momento em que descobre a Pop Art. Deixa de ser artista para tornar-se filósofo em um sentido muito próximo do ato e da performance geral de Andy Warhol que era o artista enquanto filósofo. Danto passa de um lado a outro, do mesmo modo que percebe que, conscientemente ou não, Warhol o faz. Isso fica claro no texto sobre “O filósofo como Andy Warhol” (2001, p. 107) quando ele fala que o elemento filosófico da Pop Art que encantou Danto elaborou-se como um “via negativa”. Danto afirma que Warhol não disse o que era arte, mas “abriu caminho para aqueles cujo trabalho fosse providenciar teorias filosóficas”, ou seja, abriu pela via negativa, sem imaginar, caminho para ele, Arthur Danto que é uma espécie de continuador de Warhol: se o artista é filósofo, o filósofo também é artista.

De um lado, parece claro que Danto não poderia ter se tornado filósofo se a Pop Art não o tivesse impressionado tanto a ponto de que ele tenha deixado de ser artista em sentido institucional e estrito quando ela surgiu. Que surja um filósofo na via negativa do artista é algo que parece estar claro. De outro lado, por Andy Warhol ser um personagem tão fundamental nesse processo, de um lado ele parece o alter ego de Danto, de outro ele é o personagem emblemático, como um dia foi Sócrates, e paradigmático do gesto que, de algum modo ou por diversos caminhos,de certa maneira “forma” ou “faz” de alguém um “filósofo”. Sem dúvida que está em jogo aí a compreensão do que é filosofia, de quem é o agente da filosofia, de quem a põe em cena, de quem a aciona. Ora, quem define o que é filosofia e quem pode ser o filósofo depois que aprendemos que o discurso filosófico é altamente sofístico e ligado ao poder de dizer a verdade? Até Warhol as coisas pareciam decisivas, mas a história não tinha acabado. Nem a da arte, nem a da filosofia. Poderíamos a partir de Andy Warhol pensar não apenas um fim da história da arte como fez Danto, mas também um fim da história da filosofia como grande narrativa? Penso que não é nada absurdo pensar que Danto nos leva a este desafio.

Andy Warhol é o personagem de Danto. Ele o tem em tão alta conta que sabe perfeitamente que mesmo que Andy Warhol não tenha definido a arte, conseguiu com suas brincadeiras mostrar “como a forma da questão filosófica deve ser” (2001, p. 106). A forma da questão filosófica já havia sido discutida por Wittgenstein com a proposta das “piadas” das quais Danto tanto gosta. Mas também no retorno ao ordinário e aos “conteúdos desprezados e rejeitados” (2001, p. 110). Aqueles conteúdos banais ligados à simples vida. Andy Warhol como artista foi muito importante para a arte, mas igualmente importante para a filosofia que, até hoje, não percebeu a importância das questões postas em cena por Warhol. Wittgenstein seria quem mais teria se aproximado disso. E, diz Danto acerca de Warhol: “fazendo isso, ele invalidou alguns milênios de investigações indevidamente conduzidas”. Danto não explica muito bem como, mas segundo ele “foram as imagens do pop que o habilitaram a fazer isso”. Creio que isso pode ser explicado se compararmos Warhol com Sócrates não porque ele tenha feito nada de semelhante a Sócrates em termos de temas ou métodos, mas porque como Sócrates ele foi um personagem que criou a maioria das questões filosóficas que conhecemos. Quero dizer com isso que Warhol está para Sócrates assim como Danto está para Platão. Danto poderia ter dito isso sobre Wittgenstein, mas Wittgenstein não foi tão longe quando Warhol. Warhol fez a Brillo Box e isso muda tudo o que se pensava sobre arte, mas também sobre filosofia e algumas de suas questões mais cruciais.

Danto comenta o momento em que encontrou a Brillo Box quase num tom testemunhal.A Brillo Box é um verdadeiro talismã filosófico para Danto. Em seu livro chamado Andy Warhol (2012) ele simplesmente afirma ter “amado” a Brillo Box (p. 14) num tempo em que muitos diziam que aquilo não era arte. Ele a comenta muitas vezes. A Brillo Box talvez seja, em temos de imagem, tão emblemática da filosofia comouma dia foi a famosa Navalha de Ockam. Danto dedica a esta Brillo Box páginas e páginas de seus livros. É como se ela fosse não uma caixa, mas a verdadeira pedra filosofal da contemporaneidade, de um tempo pós-histórico para a arte e para a vida como um todo. Se Warhol foi, segundo Danto, um adorador do ordinário, Danto também o é e é um adorador do modo como Warhol sem querer colocava questões nada ordinárias a partir de coisas ordinárias. A Brillo Box é esta coisa que reúne ordinário e extraordinário no mesmo tempo e espaço impedindo-nos de decidir o que pesa mais. Warhol colocou em alta o mundo banal com esta caixa de sabão que é uma obra de arte e é esse mundo banal que ele “celebrou do jeito que ele era” (2001, p. 109). E assim confundiu tudo. E nessa confusão conseguiu não apenas transformar a arte em reflexão filosófica, mas a vida em arte, digamos assim. A vida é o que se pensa em última instância quando se vê uma caixa de sabão Brillo que não é uma caixa de sabão Brillo. Danto percebeu bem cedo que essa era a questão de Warhol, a relação entre as coisas bobas da vida e as coisas não bobas da vida que queremos representar por meio das chamadas “obras de arte”. Ele viu que alguma coisa nova - realmente nova, seja lá em que sentido se possa dizer isso - tinha aparecido, deixando outras coisas realmente velhas.

Uma dessas coisas velhas, era o debate de seu tempo. Danto viu que “a inteira estrutura do debate que havia definido o cenário artístico de Nova York até aquele ponto deixara de vigorar” (2006B, p. 137). Neste ponto do texto que citamos acima, ele comenta que todas as teorias discutidas até então, não davam conta do novo fenômeno. Vemos que o velho problema da “obra de arte” e da “arte” continua em cena. Danto pretendia dar conta dessa coisa nova que os outros não estavam dando conta. Mas o modo como o fez define, a meu ver, não apenas uma tarefa hermenêutica da filosofia – em particular da estética - em relação à arte, mas uma modificação no próprio lugar ocupado pelo filósofo enquanto alguém que se desloca do seu lugar para poder ocupar um outro lugar. É este deslocamento que se trata de levar a sério.

Neste sentido, é que me parece claro que se Danto fala de “O filósofo enquanto Andy Warhol”, para compreender o que ele quer dizer e o efeito do que ele diz, podemos também falar de “O filósofo enquanto Arthur Danto”, mas desde que levemos em conta que antes - e atravessando esse posicionamento filosófico - há “O artista enquanto Arthur Danto”. “O artista enquanto deixou de ser artista”. Um jeito de entender isso é dizer que o filósofo – seja lá o que isso queira significar - não será mais o mesmo depois do advento da Pop Art.Outro jeito de pensar é o seguinte: assim como o filósofo não existia antes de Sócrates, ou existia de um modo diferente, ele não é mais o mesmo depois da existência de Andy Warhol. Ou pelo menos do Andy Warhol de Arthur Danto. E quem encena essa nova performance é justamente Arthur Danto. Lendo Danto conseguimos entender quem é esse filósofo depois da Pop Art, depois, sobretudo, de Andy Warhol. Isso nos leva a pensar junto com Danto, mas sobretudo “depois” de Danto. Essa ambiguidade entre Warhol e Danto pode ser proveitosa como poderemos ver.

Depois de Arthur Danto o filósofo pode se colocar questões tais como a do lugar do artista quando, deixando de ser artista, deslocando-se de seu lugar, ele se torna filósofo. Em 1964,Danto escreve seu artigo inaugural como filósofo da arte, “O mundo da Arte” (2006A) que, segundo ele, nunca foi citado para a discussão sobre o Pop, mas que se tornou, segundo suas palavras “a base para a estética filosófica da segunda metade do século 20” (2006B, p. 137). Danto diz isso avaliando a distância entre os mundos da arte e da filosofia, por mais que esses mundos sejam filosoficamente próximos. A grande relevância da Pop Art será, para Danto, que por meio dela é que “a arte mostrou qual era a questão propriamente filosófica sobre si mesma” (2006B, p. 138), aquilo de que a forma de Warhol fazer arte é a forma própria das questões filosóficas. Danto traduz essa questão levando em conta a velha teoria platônica sobre a arte: “o que faz a diferença entre uma obra de arte e algo que não o é, se, na verdade, ambos se parecem exatamente?”. Danto afirma que essa diferença não pode ser colocada se “alguém pudesse ensinar o sentido de “arte” por meio de exemplos, ou enquanto a distinção entre arte e realidade parecesse perceptual, como a diferença entre a pintura de uma cama em um vaso e uma cama real” (2006B, p. 138).A questão que é superada é a mimesis com a qual Platão e toda uma tradição até Vasari (arte representacional) e depois até Greenberg (condições para a identificação da arte). O que a Pop Art coloca em cena é um outro mundo da arte que a própria arte não conseguia ver até a Pop Art, na qual a necessidade de uma identidade filosófica para a arte não estava mais em jogo (daí o fim da arte e da história da arte enquanto grande narrativa sobre a arte). Diante dessa nova fase, como sabemos, o que importava para Danto é que “os artistas estavam livres para fazer tudo o que desejassem fazer”. Os filósofos também.

Se a história da arte estruturada como narrativa tinha se acabado, valeria a pena colocar a mesma questão para pensar a filosofia: que a história da filosofia enquanto grande narrativa explicativa também tenha se acabado desde Warhol e desde Danto enquanto continuador de Warhol. A filosofia que surge a partir de Danto – o artista enquanto filósofo, e, mais ainda, o filósofo enquanto artista – implica a possibilidade do filósofo estar livre para fazer “tudo o que desejasse fazer”. E o que Danto deseja fazer? Ele fez o que ele desejou, como sabemos, ele virou filósofo. O modo como conseguiu isso foi uma teoria da arte que o coloca em espalhamento com o artista. Mas isso nos lega uma questão: se o artista de certo modo equivale ao filósofo – e vice versa – a Pop Art pode corresponder a um novo “movimento” na filosofia? Ela poderia dizer respeito à algo como Pop Filosofia?

Ora, assim como Danto entende que Warhol era pós-histórico no sentido de Marx e Engels – aquele tempo em que se poderá fazer coisas como pescar e escrever sem ter que ser pescador ou escritor. Do mesmo modo, se tentamos entender o empreendimento filosófico de Danto, talvez seja possível perceber que ele está interessado naqueles que “não são o que são e são o que não são”. Ele está interessado nesse tempo que está para além da “identidade”. Um tempo em que ele mesmo será filósofo ou artista sem precisar ser filósofo ou artista. Ou seja, ele está interessado em um poderoso deslocamento que altera o sentido de uma identidade. O surgimento da Pop Art tem a ver com o tempo pós-histórico em que o fim da história põe as coisas todas – inclusas identidades em geral - em outro lugar. Esse tempo que podemos resumir como sendo um tempo de crise de identidades, um tempo em que a cultura também foi vivida como contracultura, implica outra arte e, até mesmo uma outra filosofia que não se distinga mais da arte ou das outras atividades da vida. Um tempo em que a irreverência entra em cena, forjando o próprio termo “Pop” e que põe a irreverência como uma prática comum é um tempo a ser pensado. Talvez este seja um tempo cínico em que não há mais lugar para falsificações. A Pop Art será, para Danto, parte de “um momento cataclísmico” (2006, p. 146) que põe em cena outros valores e desejos e não necessita mais de grandes ídolos e de grandes sistemas de pensamento explicativos do mundo.



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