Revista Redescrições Revista on line do gt de Pragmatismo e Filosofia Norte-Americana



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Transfiguração
Um conceito fundamental na obra de Danto pode dar conta do sentido de Pop pelo qual ele mais se interessa e que, creio, explica a sua posição como filósofo enquanto artista. Trata-se do conceito de transfiguração.

Neste ponto, gostaria de pensar o conceito de transfiguração em 2 sentidos. Em primeiro lugar no sentido próprio de Danto, tendo em vista o que ele diz dealgum emblema da cultura popular que se transforma em arte. Não se trata, portanto, do Pop enquanto elemento que é colocado na arte elevada, como uma citação de um cartaz ou jargão publicitário como nas pinturas de Hopper, por exemplo. Mas de seu potencial transfigurativo como quando a imagem de Marylin Monroe é colocada numa moldura dourada e transformada em ícone. Danto fala da transfiguração como um conceito religioso. E neste ponto ele oferta o seu sentido mais essencial: a “adoração do comum” (2006B, p. 142). A adoração do comum é a própria transfiguração. Coisas do campo do “comum”, coisas “comuns”, “coisas que significavam muito para as pessoas” (2006, p. 143) foram alçadas a temas da arte e, assim, elevadas a um lugar respeitável simbolicamente. Neste ponto, o conceito de transfiguração que quero usar pode ser aplicado não apenas a coisas comuns, mas também a pessoas comuns, ou a designações e classificações comuns. O lugar que o próprio Andy Warhol ocupa no panteão de Danto tem a ver com o fato de que Danto transfigurou um artista em filósofo. Andy Warhol era um artista muito ordinário. O artista mais banal que poderia haver. Andy Warhol estava longe de ser um virtuose, um gênio no sentido corrente. Ele parecia, neste sentido, o mais comum dos sujeitos. O mais comum dos sujeitos que gostava dos mais comuns dos objetos. Foi o artista ligado ao mais comum – ele mesmo comum, mas também alguém que era já um “adorador” do comum - que guardava um potencial inusitado e altamente filosófico. Danto percebeu esse potencial transfigurador em Warhol. Warhol não era bem isso nem bem aquilo. Warhol era, neste sentido, sua própria obra: “aquele persona era ela mesma um de seus trabalhos” (2001, p.114). Por meio desse procedimento, de mostrar o potencial de transfiguração de Warhol, ele transfigura seu objeto comum e ordinário que é Andy Warhol na prática.É deste modo que podemos dizer que depois de Danto, Warhol nunca mais será o mesmo, assim como depois de Warhol,Danto como filósofo pode passar a existir em um novo sentido, não sendo nunca mais o mesmo. Danto não apenas se coloca diante de seu “duplo”, sendo ele mesmo sujeito e objeto de Warhol. A ambiguidade os une num jogo de espelhamento em que definir um e outro se torna mais complexo do que parece porque um já não existe sem o outro. E consegue, neste lance de dados involuntário, sinalizar para a filosofia que se faz – ou que se pode fazer - em nossos dias.



O que digo aqui faz sentido se perceberemos que, na sequência desta argumentação de Danto, sobre o futuro passado da Pop Art, Danto segue explicando qual seria a “contrapartida filosófica” da Pop Art. Para justificar isso ele usa um argumento de Panofsky ao comentar a unidade de certas manifestações da cultura. Danto falará de uma tonalidade comum entre artes visuais e filosofia em meados do século 20. A filosofia analítica de Wittgenstein e Austin seria aquela que sinalizaria para certo “fim” da filosofia enquanto metafísica. Danto cita Austin para falar do arsenal de “palavras comuns” que interessam a um filósofo como ele, preocupado com coisas fundamentais e, ao mesmo tempo, as mais simples da vida, como o ato de falar e tentar entender o que se diz. Danto comenta que a filosofia depois do fim, assim como a arte depois do fim, poderiam se colocar a serviço da humanidade de um modo direto. E ele dá como exemplo a mosca a sair da garrafa de Wittgenstein, que é o equivalente contemporâneo da alegoria da caverna de Platão. De comum entre Pop Art e a filosofia analítica está o fato da revolta contra a tradição em nome da vida real. Ambas são criações culturais libertadoras. Contra a metafísica, contra a religião, contras as utopias distantes, o sentimento geral das pessoas dentro da cultura quando surgiu a Pop Artera o de algo urgente. A Pop Art foi o nascimento de uma nova consciência quanto aos “benefícios da vida comum”. E, em Danto, isso será altamente político, porque sem essa consciência, que a própria televisão trouxe para a Alemanha oriental, por exemplo, não haveria queda do Muro de Berlim.É, portanto, a “mudança na trama da sociedade” o que está em jogo. Quando surge a Pop Art ela aparece como a irrupção de um modo de ver o mundo totalmente outro enquanto ao mesmo tempo ficamos atentos, ligados e irônicos em relação ao próprio mundo. Se a arte antes olhava para um mundo que não estava presente, o outro mundo da arte, o mundo da Pop Art é um mundo totalmente presente, exposto na superfície que é suficientemente profunda para um filósofo artista e pra um artista filósofo.
A transfiguração - Andy Warhol ou Arthur Danto
Em seu texto “O filósofo como Andy Wahrol” (2001) Danto faz uma brincadeira falando da inteligência filosófica de Warhol que para ele tinha uma “grandeza extasiante”. Segundo Danto, “ele não tocava alguma coisa sem com isso também tocar as fronteiras do pensamento, pelo menos do pensamento sobre arte” (2001, p. 100). Ainda, segundo Danto, Warhol contribuiu para a história da arte colocando “a prática artística no nível de uma autoconsciência filosófica jamais atingida”. Danto citará a famosa ideia de Hegel acerca do “Espírito Absoluto” quando arte e filosofia são dois momentos que coincidem. Warhol, o mais debochado e aparentemente superficial dos artistas teria conseguido uma coisa tão pomposa como essa, mas sem pompa alguma. Danto tentará falar da estrutura filosófica da arte de Warhol, mas fará não procurando a narrativa grandiosa da história da arte da qual ela faria parte, e sim, buscando entender o que ele afirma como “pensamento que ela nos trouxe à consciência” (2001, p. 100). Levando a sério Warhol como filósofo,Danto diz que ele “violou todas as condições tidas como necessárias a uma obra de arte mas, ao fazer isso, revelou a essência da arte” (p. 100). É neste sentido que a Pop Art traz uma consciência à tona, uma consciência da arte como filosofia.

No texto citado encontramos a exposição da lógica do procedimento artístico de Warhol que explica porque esse procedimento é filosófico. A ambiguidade é a questão de Warhol enquanto é explorada por Danto. Trata-se da ambiguidade entre arte e realidade. Os exemplos de Danto são o filme Empire ea inevitável Brillo Box. O filme é por demais conhecido: o edifício Empire State é filmado por horas sem que nada aconteça. Para explicar a ambiguidade como “método” de Warhol,Danto usa um exemplo imaginário de um filme feito a partir do livro “Ou/ou” de Kierkegaard no qual aparece apenas a página de rosto do livro. A ambiguidade que interessa a Danto é aquela que se verifica no livro enquanto “objeto físico” e enquanto “objeto significante”. Warhol explica que “essa ambiguidade transfere-se imediatamente para o conceito de alguma coisa ser baseada em algo” (2001, p. 101). Lembremos da questão posta um pouco antes, o fato de Danto ser baseado em Warhol. Então, Danto aproveita para explicar isso com um aforismo de Warhol:


“o que os filósofos tem a dizer sobre a realidade é normalmente tão desapontador quanto uma vitrine em que se lê um letreiro dizendo ‘Passa-se roupas aqui’. Se você entrasse com as suas roupas para ser passadas ali se sentiria um idiota, porque era apenas um letreiro que estava sendo comercializado”.
A coisa e a mensagem que ela manda demonstram uma ambiguidade que é ao mesmo tempo uma brincadeira sobre a qual as obras de Warhol se erigem. O exemplo do filme feito a partir do livro “Ou, ou” nos faz saber que Danto explora o método de Warhol inserindo-o no seu jogo com a filosofia. Também ele quer brincar. Também ele é capaz de inventar. Afinal ele é um filósofo que só pode sê-lo enquanto é um efeito dos procedimentos filosóficos de Warhol. Ele é um filósofo que leva a sério o trabalho filosófico “como artista”. Na sequência Danto assume a brincadeira dando o exemplo de um homem que fosse a um mercado buscar uma caixa de sabão Brillo e tivesse entrado numa galeria onde a obra estivesse exposta valendo uma fortuna, e de outro homem que fosse a uma galeria procurando as caixas de Brillo sendo que, na verdade, teria entrado no mercado onde elas não valiam muito. A ausência de diferença perceptual poderia desapontar os visitantes da Galeria Stableonde a obra foi exposta em 1964 em seus propósitos de verem uma obra de arte e encontrarem uma mera coisa, embora a obra de arte não fosse uma mera coisa no sentido da mera coisa. Danto comenta esse problema para levantar a questão de que se a arte enviava ao sublime e extraordinário, Warhol faz a arte remeter ao “banal” e ao ordinário encontrando nesse novo modo de ser algo totalmente outro. O mais interessante desse tipo de exemplo é que arte e realidade entram em um jogo que confunde tudo. As Brillo Box “se apropriam de uma indagação filosófica entre arte e realidade, questionando, com efeito, por que, se elas são arte, as caixas de Brillo no supermercado, que não tem nenhuma diferença perceptível delas, não o são” (2001, p. 103). É, para Danto, o critério perceptivo que animou a arte por séculos e séculos o que cai por terra. A brincadeira baseada na ambiguidade põe em cena um outro jeito de pensar a arte e a vida.

A meu ver, essa brincadeira por ambiguidade acontece já no primeiro livro de Danto que leva justamente o título de “A Transfiguração do Lugar-Comum” e que foi publicado em 1981. No prefácio desse livro Danto conta sobre o título do livro. Ele teria copiado o título de um livro escrito por uma “freira de passado duvidoso” que era personagem de um romance de Muriel Spark. O livro escrito por essa freira se chamava justamente “A Transfiguração do Lugar-Comum”. Ele comenta que esse livro que ele queria que se tornasse famoso também fosse uma transfiguração do lugar comum enquanto o próprio livro era um objeto comum que transfigurava o comum. O livro era a Transfiguração que ele almejava. Aquilo que Warhol teria feito com sua obra, Danto queria fazer com seu livro. O próprio livro “A Transfiguração do Lugar-Comum” é ao mesmo tempo que uma brincadeira, um modo de colocar a questão filosófica depois de Warhol. Ele é uma citação do livro de Spark e do livro da freira no livro de Spark. É uma brincadeira com camadas de significação. Mas é também a própria coisa que não é mais a mesma coisa. “A Transfiguração do Lugar-Comum” é como a Brillo Box e como o filme Empire. Ele é, não custa repetir, a forma própria da questão filosófica tal como Danto descobriu em Andy Warhol. Por isso, não apenas o conteúdo complexo, que não há espaço para resumir aqui, mas a própria capa, a superfície, importa tanto para Danto.

Contando sobre as capas de seus seríssimos livros anteriores Danto nota como escolheu a capa de “A Transfiguração do Lugar-Comum”, o que a meu ver, deflagra seu procedimento artístico – baseado na brincadeira da ambiguidade - no gesto de transfigurar o lugar comum que é o livro da transfiguração do lugar comum:
“pensei em usar a imagem de uma das pinturas de Jim Dine, onde se vê uma gravata listrada pintada acima das palavras ‘Universal Tie’. O título ‘Universal Tie’ nos pareceu deliciosamente ambíguo, aludindo simultaneamente às gravatas que os homens usam no mundo inteiro quando querem estar bem vestidos e a um conceito filosófico – o de causação universal, que liga tudo o que há no mundo em um único sistema. E uma gravata na sobrecapa se prestava a um trocadilho visual. O livro deveria ter muitos exemplos tirados da arte contemporânea e um estilo ágil e recheado de piadas. (2005, p. 14)
Ele segue dizendo que queria fazer um livro só com piadas, como teria sido a sugestão de Wittgenstein. Oportuno e eterno, como, segundo Danto, deveria ser a filosofia. Mas ele declara que o livro deveria ter um “duplo enfoque”: “mais filosófico do que a maioria dos livros escritos para leitores não versados em filosofia”e “mais voltado para as preocupações correntes do mundo da arte do que a maioria dos livros escritos para um público de filósofos” (p. 14). Danto conta nesse livro a mesma história sobre o momento de nascimento da Pop Art explicando seu lugar naquele momento histórico. Mas aqui ele explica que não tinha interesse de fazer Pop Art – como artista ele era por demais ligado à visão da pintura dos artistas dos anos 50 – enquanto ao mesmo tempo se interessava demais pela Pop Art. Assim, experimentando também uma certa ambiguidade em relação à arte é que ele escolhe seguir fazendo filosofia. A arte se torna uma espécie de pano de fundo da experiência filosófica de Danto.

De fato, ele repete a história toda contada no texto sobre Pop Art e futuros passados (2006B). Mas neste livro seu lugar como artista fica ainda mais claro, não mais como artista visual, ou pintor, mas como escritor, alguém interessado em “uma prosa de qualidade estética”: “se alguém decide tornar-se escritor, é melhor que tenha gosto pelas palavras” (2005, p. 13). E arremata: “não me parece haver nenhuma incompatibilidade entre a verdade filosófica e a habilidade literária”.

É por conta desse exercício de liberdade literária enquanto liberdade filosófica que Danto escreverá o seu Transfiguração como um diálogo com personagens que toma como modelo o romance “Jacques, o fatalista” de Diderot.Isso é inusitado em Danto, mas é o seu gesto inaugural como filósofo, o momento em que ele publica seu grande livro. Assim, buscando uma teoria da arte como teoria da representação e percebendo que a arte não era uma representação como qualquer outra Danto chega à conclusão de que a obra de arte é um veículo de representação que “corporifica” seu significado. Eis o que é o livro da Transfiguração. Danto mesmo afirma jamais ter desenvolvido esse conceito de corporificação e aponta para a chave para compreender a corporificação que seria a interpretação como uma tarefa do crítico. No mesmo livro ele falará que a “interpretar uma obra é propor uma teoria sobre o assunto de que ela trata, sobre seu objeto”(2005, p. 183) levando em conta elementos que podem ser identificados no quadro sem ao mesmo tempo projetar na obra de arte alguma coisa que lhe é exterior. Isso nos faz pensar que, aplicando sua própria teoria a ela mesma, a transfiguração é a própria “coisa” da transfiguração. Interpretá-la é dar-se conta do que ela é. É prestar atenção no que ela nos apresenta.

Para concluir, gostaria apenas de levantar ainda um aspecto. Ora, a obra, qualquer obra, nos apresenta alguma coisa. Danto nos apresenta Warhol enquanto o representa. O Andy Warhol de Arthur Danto poderia ser também o Arthur Danto de Andy Warhol. Warhol nos faz pensar na própria teoria de Warhol em seu famoso livro de filosofia chamado “A filosofia de Andy Warhol, de A a B e de volta a A”(2008), começa com um texto de introdução que traz um subtítulo sugestivo: “Como Andy assume seu Warhol”. Creio que podemos usar este subtítulo para pensar “Como Arthur assume seu Danto”. Penso neste caso na relação entre A e B exposta por Warhol, na sua maneira debochada, mas também irônica, e neste sentido ambígua, de dizer uma coisa dizendo outra. De dizer desdizendo. A e B são, neste caso, personagens que explicam bem a ambiguidade e, neste sentido, também a transfiguração enquanto ato por meio do qual uma coisa torna-se outra coisa: o comum não é mais comum, o incomum fica comum, o banal que é deplorável pelos artistas e que seria tarefa da arte revelar torna-se adorável. E adorável teologicamente falando. Isso pode ser visto no texto de Warhol quando o personagem A se explica a B: “eu sou tudo o que meu álbum de recortes diz que eu sou” (p. 23).B é alguém, sabemos pela narrativa de A com que começa o texto. A, segundo ele mesmo, não é ninguém. B ajuda A, segundo A, a matar o tempo. Mas isso tudo o que A diz de si mesmo e de B é só um jeito de Warhol debochar de tudo, de todos os que se levam a sério, debochando de si mesmo.

Danto não foi o A nem o B de Warhol, pode parecer que ele se levou mais a sério do que Warhol, mas por isso mesmo é que não se levou tão a sério. O modo como Danto levou a sério Warhol na contramão de tantos, sobretudo se levamos a sério o que a filosofia institucional e acadêmica pensa de si mesma e o lugar subalterno em que põe a estética, então Danto foi o mais debochado dos filósofos. Ele foi o próprio filósofo enquanto Andy Warhol que ele procurou entender. Que possamos a partir dele entendermo-nos a nós mesmos, é uma questão a pensar se quisermos, também nós,construir uma filosofia para o nosso tempo.

REFERÊNCIAS
DANTO, Arthur. A Transfiguração do Lugar Comum. Vera Pereira. São Paulo: Cosacnaify, 2005.

DANTO, Arthur. Andy Warhol. Trad. Vera Pereira. São Paulo: Cosacnaify, 2012.

DANTO, Arthur. O filósofo como Andy Warhol. Originalmente publicado em Philosophizing Art. SelectedEssays. Berkeley: UniversityofCalifornia Press, 2001. P. 61-83. http://www.cap.eca.usp.br/ars4/danto.pdf pesquisado em 29/04/2014.

DANTO, Arthur. O Mundo da Arte. In Artefilosofia. Ouro Preto. N1. P. 13-25. Julho 2006 A http://www.raf.ifac.ufop.br/pdf/artefilosofia_01/artefilosofia _01_01_mundo_arte_arthur_danto.pdf Pesquisado em 30/04/2014.

DANTO, Arthur.Pop Art e Futuros Passados. In Após o Fim da Arte. A Arte Contemporânea e os Limites da História. Trad. Saulo Krieger. São Paulo: EDUSP, Odysseus, 2006 B.

FEITOSA, Charles. O que é isto – Filosofia Pop? In Nietzsche e Deleuze. Org. Daniel Lins. Rio de Janeiro: RelumeDumará, 2001. P. 95-104.

FEITOSA, Charles. Explicando a Filosofia com arte. Rio de janeiro: Ediouro, 2004.

WARHOL, Andy. A filosofia de Andy Warhol. De A a B e de volta a A.Trad. José Rubens Siqueira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2008.



O FIM DA ESTÉTICA – DADAÍSMO E ARTE POP

Susana de Castro



RESUMO

Qual a relação entre arte e gosto popular? A obra de Danto nos mostra como a arte pop revolucionou a arte ao aproximar o objeto de arte dos objetos comuns. Neste trabalho são feitas as relações entre o dadaísmo e a arte pop mostrando-se as principais características dos dois movimentos.



Palavras chaves: arte pop. Andy Warhol, readymades
ABSTRACT

What is the relationship between art and popular taste? Danto's work shows us how pop art revolutionized the art when approached the art objects to the common objects. This work make ​​relations between Dadaism and pop art, making clear the main features of the two movements.



Key-words: pop art, Andy Warhol, readymades
Segundo Arthur Danto (2006, p. 45), os readymades do dadaísta Marcel Duchamp representaram uma profunda desconexão entre arte e estética. Marcam o início do fim da era estética. Fim este que só se completaria cinquenta anos depois, com as caixas de Brillo Box do artista pop Andy Warhol.

Para os dadaístas, de maneira geral, a ideia de uma arte pura, voltada para a apresentação e contemplação do belo, não fazia mais sentido, face os horrores da Primeira Grande Guerra (1914-1918). Como continuar a dedicar-se a retratar o belo, captar o efêmero, expressar os sentimentos, quando as potências europeias levavam para o front de batalha 65 milhões de soldados, dos quais 20 milhões não sairiam vivos da guerra? A Guerra pôs em questão o compromisso ético do artista de continuar a agradar uma sociedade com suas obras, quando a elite que apreciava e comprava suas obras era a mesma responsável pela morte de milhares de pessoas. Não poderia haver desconexão entre arte e sociedade. Neste momento de caos moral, não haveria mais espaço para arte. O máximo que se poderia fazer, seria criar peças fortuitas, produzidas ao acaso, e feitas para terem vida curta e não para mofarem nos museus. É com este espírito rebelde e irreverente que Marcel Duchamp cria, entre 1913 e 1915, seus readymades. Peças criadas a partir de objetos comuns do cotidiano às quais Duchamp atribuía um novo sentindo ou sentido algum. Duchamp põe em xeque a imagem do artista romântico inspirado que cria a partir da sua própria imaginação, em meio à solidão e ao sofrimento. A arte podia ser feita com qualquer coisa desde que expressasse o olhar crítico do artista. As obras de Duchamp eram feitas a partir de produtos manufaturados. O que os transformava em obra de arte, era apenas uma ideia, o conceito introduzido pelo artista na obra. A partir do momento em que ele escolhe o produto entre tantos outros, dá-lhe um nome, ele deixou de ser um exemplar, entre vários do mesmo tipo, para tornar-se outra coisa.

Ao deslocar os produtos manufaturados de seu espaço original e inverter sua disposição, como nas obras Fonte e Roda, Duchamp impregna de ironia os símbolos do avanço da civilização ocidental.

Roda (1913)



Fonte (1917)


Da mesma forma como Duchamp com seus readymades dialogava criticamente com a sociedade belicista de sua época, os artistas pop da segunda metade do século XX insistiam que a arte deveria dialogar com a cultura de massa contemporânea. Os artistas pop, chamados, por alguns, de neodadas ou neorrealistas, dialogavam em suas obras de maneira irônica com a sociedade de consumo que surgia após a Segunda Guerra Mundial. O contraste entre o racionamento e a escassez do período entre as duas grandes guerras, e durante as guerras, e a abundância do pós-guerra, a intensificação da presença dos meios de comunicação de massa, como o cinema, a televisão e as revistas de grande circulação, na vida do cidadão comum, a invasão maciça da propaganda como mecanismo de criação de desejo de consumo, entre outras coisas, modificaram profundamente a sociedade americana e inglesa, locais de origem da arte pop17. A obra de Eduardo Paolozzi, É um fato psicológico que o prazer melhora a sua disposição, de 1948, marca o começo dessa nossa sensibilidade estética.

Eduardo Paolozzi, É um fato psicológico que o prazer melhora a sua disposição (1948)


Antenados com as suas sociedades e impregnados pelas imagens de seus produtos, como eletrodomésticos, comida enlatada, revistas em quadrinhos, filmes, fotografias, os artistas não podiam deixar de retratar em suas obras esse ‘novo’ espírito, hedonista, urbano. Mas com esta aproximação entre propaganda, consumo, vida urbana e arte, os artistas pop amplificaram a concepção dadaísta de que a arte não poderia estar separada da vida. De um lado, compartilhavam como o dadaísmo da desmistificação do artista. Este não era mais considerado como alguém especial que estaria em contato com as fontes únicas do ser. Ao contrário, porque se apropriavam de imagens veiculadas nos meios de comunicação de massa, os artistas pop questionavam a ideia da manipulação única dos materiais na obra. A obra de Roy Lichtenstein, Pincelada (1965) é uma paródia dessa concepção romântica da obra de arte como resultado exclusivo da ação do artista.

Roy Lichtenstein,Pincelada (1965)


O movimento artístico que antecedeu o nascimento do pop da década de sessenta nos EUA, foi o expressionismo abstrato, representado, entre outros, por Jackson Pollock. As obras destes artistas, além de abstratas, eram marcadas por um estilo chamado de gestual, pois nelas se podia perceber a marca da ação da pincelada do artista. Nelas a presença do artista ficava em primeiro plano, sua marca era inconfundível.

Jackson Pollock, Convergence, 1952


Um outro aspecto que distinguia a arte pop do expressionismo abstrato era o uso de técnicas de reprodução da imagem, como a serigrafia, o que tornavam a obra ainda menos ‘original’. Essa técnica foi utilizada por Andy Warhol e Roy Lichtenstein, entre outros. Os artistas pop utilizavam-se de fotos de revistas, imagens de histórias em quadrinhos, fotografias de artistas famosos, e com essa reprodução de algo já existente, criavam ao mesmo tempo um reconhecimento e um estranhamento, pois as imagens estavam deslocadas de seu local original. A imagem original, saturada pela sua exposição em massa, era facilmente reconhecida pelo apreciador da obra. Esse reconhecimento imediato servia como um veículo de aproximação direta do espectador com a obra. Por outro lado, a repetição da imagem da mídia na obra de arte e o seu reconhecimento provocavam o efeito de‘espelho’. Aqueles eram produtos e imagens do tempo presente.

Ainda que, em larga medida, a arte pop possa não ter tido o mesmo espírito não conformista e anti-burguês do dadaísmo, pois não questionava diretamente a transformação da sociedade em uma sociedade do lazer, e dos cidadãos em consumidores, por outro lado, ao aproximar suas obras da sensibilidade da época, sensibilidade esta marcada pela ‘estética do descartável’, os artistas pop seguiam a ‘filosofia’ de arte dadaísta, na medida em que quebravam a separação entre gosto popular e gosto refinado, entra arte popular e arte refinada. Diferente do expressionismo abstrato, gestual, não realista, que convidava seus apreciadores a uma experiência quase religiosa com a arte, os artistas pop trouxeram a arte da rua, de massa para dentro da esfera exclusiva das belas artes.

Em várias de suas obras, Arthur C. Danto reitera a importância dos quadros e esculturas de Andy Warhol para a filosofia da arte. Desde Platão, perguntava-se “o que é arte?”, desde Warhol, a pergunta da filosofia da arte é “o que faz com que dois objetos indiscerníveis do ponto de vista material e ótico possam, no entanto, ser diferentes? Um ser arte e o outro não?”. Somente com essa segunda formulação, continua Danto, podemos fazer verdadeiramente filosofia da arte. O marco referencial para essa mudança é a exposição em 1964 na Galeria Stable em Nova Iorque das caixas de Brillo Box de Warhol. As caixas empilhadas com a logomarca da esponja Brillo como se estivessem no armazém do supermercado à espera de serem abertas e seus produtos colocados nas prateleiras, não se diferenciavam em nada das caixas originais de empacotamento, a não ser pelo material, de madeira e não de cartão.



Enquanto o objeto comum serve a finalidades práticas, o objeto de arte está carregado de significado. Interpretá-lo implica recorrer a uma série de ocorrências culturais e biográficas. É nesse sentido que a arte no sentido figurativo e belo morre definitivamente, e o que resta é apenas a arte que se pensa a si mesma e aos símbolos culturais que cercam a época do artista.

Essa transformação da arte pela arte pop, sua ruptura com as barreiras entre a arte popular e a as belas artes, refletia uma transformação profunda na sociedade. A pop art representou o rompimento com o espírito do modernismo (Danto, 2009, p. 31; Wyss, 2004, p. 21), que não admitia a mistura de estilos, tendências, motivos e orientações. É evidente que outras correntes e estilos artísticos, como, por exemplo, o cubismo, já operavam com as coisas redundantes do cotidiano, como bule de café, garrafas, instrumentos musicais. Também o dadaísmo questionava propositadamente o bom-gosto com peças provocativas e efêmeras. Porém, tanto o cubismo, quanto o dadaísmo representam movimentos de vanguardas. Seus representantes consideravam-se os eleitos da arte, aqueles que traçariam o caminho mais verdadeiro das artes do futuro. Ainda que possamos dizer que a pintura pop foi precursora de um novo caminho nas artes, não seria correto identificar artistas como Andy Warhol com propostas vanguardistas, pois sua obra é o avesso da ideia do artista como o interlocutor especial com os sentidos mais puros da arte. Sua obra quer propositadamente seguir o gosto popular e suas ideias não objetivam projetar na obra uma subjetividade profunda do artista. No caso de Warhol a técnica da serigrafia utilizada em muitas de suas obras lhe permitiu imprimir justamente o sentimento de alheamento e indiferença que as aproximam de uma obra industrial, produzida e reproduzida mecanicamente, quase sem a intervenção direta da mão direta do artista. Como Warhol disse algumas vezes, sua vontade era a de aproximar cada vez mais a sua produção artística da industrial e comercial, e transformar-se ele mesmo em uma máquina. Mas ainda que tenha se distanciado do ideal do artista engajado com uma busca muito especial de sentido, podemos dizer que sua obra e sua persona revolucionaram o mundo das artes e da sociedade de tal maneira que ainda que a pintura pop tenha acabado nos anos 60 e cedido lugar para outras correntes, a nossa era ainda é a era de Andy Warhol, pois sua persona perdurou como um ícone que marcou o comportamento da sociedade americana de uma maneira geral (Danto, 2009, p.x, p.4). Ele ampliou bastante o universo dos cultivadores da arte. Ele se tornou conhecido entre pessoas que sabiam pouca coisa sobre arte. De certa maneira ampliou bastante o alcance da arte, retirando-a do domínio exclusivo dos museus. Quando em 1965, o Instituto de Arte Contemporânea da Universidade da Pensilvânia inaugurou uma retrospectiva de sua obra, uma multidão de pelo menos duas mil pessoas apareceu, não para ver a exposição, mas para encontrá-lo pessoalmente. Como os artistas de uma banca de rock famosa, ele e seus amigos tiveram que se refugiar no teto do prédio.





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