Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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SEGUNDA PARTE –

OS DEPARTAMENTOS

1

A Torre de Vigia


Que vos parece? Se tiver alguém cem ove­lhas, e se se desgarrar uma delas, porventu­ra não deixa as noventa e nove nos montes, e não vai a buscar aquela que se extraviou? Assim, não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que pereça um destes peque­ninos.

JESUS CRISTO — O Novo Tes­tamento. (11)
Irmão Teócrito enviara-nos mensageiro com honro­so convite para uma assembléia na sala de audição do Hospital.

Em ali chegando percebemos que reduzido número de hospitalizados fora distinguido com idêntica solicita­ção, pois apenas integravam a assistência aqueles dentre os componentes de nossa falange que receberiam alta do tratamento a que se vinham submetendo.

Não se fez esperar o nobre diretor do Departamento Hospitalar. Acompanhado de Romeu e de Alceste, to­mou assento na cátedra de honra, ladeado por aqueles, enquanto o corpo clínico, que nos assistira durante a in­ternação, aparecia em segundo plano, em tribuna que lhe era destinada.
(11) Mateus, capítulo 18, versículos 12 e 14.
Servindo-se da costumeira dignidade, e mantendo as expressões da mais alta polidez e cordura nunca des­mentidas, o preclaro iniciado dirigiu-se aos assistentes mais ou menos nestes termos:

Bem haja Deus, Criador de Todas as Coisas, no mais alto dos Céus, meus amados irmãos e amigos, tes­temunhando esta reunião para a qual imploramos Suas vistas de Pai e Senhor!

Sincera satisfação faz que hoje nossas almas se di­latem em hosanas de agradecimentos ao Mestre Magnâ­nimo, levando-as ao júbilo do triunfo que nos é dado contemplar: — vossa conversão ao estado de submissão à Paternidade Divina e, portanto, à aceitação do Espíri­to como originário da centelha emitida pela vontade do Todo-Poderoso e destinado a gloriosa evolução através da Eternidade! Continuais, não obstante, fracos, vacilan­tes e pequeninos. Mas um carreiro infindável de pelejas reabilitadoras nem por isso deixará de se descortinar diante de vós através dos milênios futuros, convidan­do-vos ao perseverante labor do Progresso para a con­quista da redenção definitiva no seio amoroso do Cristo de Deus.

Certos de que um Pai misericordioso, justiceiro, amantíssimo, vela dedicadamente por sua prole, pronto a estender mão protetora a fim de exalçá-la às imar­cescíveis alegrias do Seu Reino — quem dentre vós não se sentirá encorajado, bastante animado para o prélio compensador, certo da vitória final?... Quem deixará de arregimentar toda a boa-vontade de que poderá dispor a fim de todos os dias procurar elevar-se mais um grau na longa e difícil, mas não impossível, ascensão, cujo ápice é a comunhão com o Mestre Bem-Amado, a unidade gloriosa do Seu Amor?...

Reunimos-vos a fim de levar ao vosso conhecimento que se encerra hoje o estágio que era permitido fazerdes neste Hospital, uma vez que as condições orgânicas do vosso físico-astral, obtendo sensíveis melhoras, mais nada poderiam pretender de nossa hospitalidade. Todavia, não só ainda não vos achais curados como até permaneceiS enfermos... e enfermos continuareis por muito tempo se a vontade disciplinada e forte não se apresentar em vosso auxílio para o restabelecimento completo! Não des­conhecemos os indefiníveis males, as pesadas angústias e indisposições aflitivas que em vosso íntimo estão a cla­mar por socorro, sem que compreendais por que vos li­bertamos do estágio hospitalar quando de tantos e tan­tos cuidados ainda vos sentis carecedores! É que, meus caros irmãos — entrais agora em fase nova do trata­mento que convém à vossa recuperação, tratamento esse de ordem exclusivamente moral e mental, pois a verdade é que não precisaríeis de um hospital, tampouco de ci­rurgiões e enfermeiros a fim de conseguirdes a recupe­ração do plano espiritual, se fôsseis individualidades do­tadas de qualidades morais elevadas, de desenvolvimento mental estribado nas virtudes do coração e no cumpri­mento do dever. Então, vossas vontades, conjugadas às vibrações superiores com que deverieis harmonizar as vossas próprias vibrações, descerrariam os véus do conhecimento espiritual para o qual vossas mentes se acha­riam habilitadas, graças às afinidades que lhes seriam espontâneas... e ingressaríeis natural e francamente no Mundo Invisível como se o fizésseis em vosso próprio lar doméstico — pátria de origem que é, o Invisível, de todas as criaturas! Infelizmente, porém, bem sabeis que vossa vida terrena, assim como as ações que praticantes não se padronizaram com as preclaras atitudes necessárias à venturosa admissão de um Espírito nas sociedades do mundo astral. Descurastes da nobreza dos princípios, da elevação dos fins; deseducastes o caráter ao embate febricitante das paixões deprimentes, que na Terra into­xicam a mente; escravizastes o coração aos preconceitos maldosos; apoucastes a própria alma aos insidiosos em­balos do orgulho desorientador e rematastes a série de imponderações, nas quais vos comprazíeis, com o atentado inominável contra a Lei dAquele que é Único Se­nhor de toda a Criação, e que, por isso mesmo, também é Único Soberanamente Poderoso para dispor da Vida de Suas criaturas!

Em tão viciadas condições, jungidos a prejuízos ca­lamitosos, nada lograríeis assimilar na Espiritualidade, não fora o recurso das formas concretizadas, dos empre­endimentos a que vossas mentes estavam habituadas. Convinha tolerar vossa ignorância e fraqueza mental a benefício de vosso próprio progresso! Convinha aplicar a caridade, santa bastante para as mais importantes con­secuções em curto espaço de tempo! Infinitamente mise­ricordiosa, a Providência Suprema faculta aos seus exe­cutores liberdade para servir ao Bem, dispondo métodos suaves, de preferência prudentes e persuasivos. Daí o darmos a todos vós, em meio da calamidade a que vos entregastes, o tratamento que melhor assentaria ao vosso estado mental, por mais rápido e eficiente no auxílio urgente de que carecieis! quando bastaria, em verdade, a reação mental de vós mesmos para conjurar o mal que vos afligia — se estivésseis em estado de tentá-la!

Mercê da Sábia Providência, hoje aqui nos reunimos para estas singelas instruções a que já podeis emprestar o valor devido!

Assim é, portanto, que o que nos competia realizar a vosso benefício foi integralmente realizado, isto é, le­var hábil e pacientemente vosso estado vibratório às condições de suportardes programação nova em vossa trajetória de Espíritos delinquentes que, por isso mesmo, muito terão a realizar. Uma vez recuperados ao esta­do espiritual, devereis trabalhar a prol da reabilitação. Vossa permanência neste Departamento foi como o curso preparatório para a admissão em planos onde será pre­ciso demonstreis todo o valor e boa-vontade de que Sois capazes!

Uma nova reencarnação será inevitável no vosso caso. Devereis repetir a experiência terrena que malo­grastes com o suicídio, negando-vos ao cumprimento do sagrado dever de viver o aprendizado da Dor, a be­nefício de vós mesmos, de vosso progresso, vossa felici­dade futura! Não obstante, sois livres de a preferirdes agora ou mais tarde, depois que, mais bem equipados com o cabedal moral que adquirirdes entre nós, vos con­siderardes aptos para, em uma só etapa terrena, solver os compromissos expiatórios mais urgentes — o que será de muito proveito para vossos Espíritos e muito meritório!

Compreendestes, certamente, que isso quer dizer que, se reencarnardes já, solvereis apenas uma pequena par­cela da divida que adquiristes; se mais tarde, solvê-la-eis toda, porque estareis em condições favoráveis para a resistência aos embates que tão vultoso expurgo exigiria.

Seria, sim, aconselhável retardardes ainda um pouco a repetição do compromisso terreno para a reparação. Enquanto isso, poderíeis, caso vos sentísseis verdadeira­mente inclinados aos estudos da Ciência do Invisível, fazer um curso de iniciação entre nós, o que — vo-lo afiançamos — vos habilitaria sobremodo para a vitória, suavizando ainda as agruras e percalços inerentes às ex­periências reabilitadoras, dolorosas como são elas, como sabeis, pois, o que vos ofereceríamos, com tais ensinos, seria justamente a Ciência da Vida, sob os auspícios do Grande Educador Jesus de Nazaré, cujas doutrinas a Humanidade insiste em rejeitar, desconhecendo que, re­jeitando-as, é a própria felicidade, é a glória imarcescível para o seu destino infindo que afasta para um futuro remoto!

Essa Ciência, poderíeis apreendê-la na Terra mesma, porque lá existem vários elementos, sólidos e verazes, capazes de iluminar cérebros e corações, impulsionando-os para o caminho da Verdade. Na grandiosa história da Humanidade rebrilham vultos eminentes, assinalados com as veras credenciais das virtudes e da sabedoria que lhes conferiram o título de instrutores capazes de orien­tar os homens para os seus magníficos destinos de filhos da Divindade Suprema. Desceram eles das altas esferas espirituais, reencarnaram entre seus irmãos, os homens, diminuíram-se no sacrifício do corpo carnal, a fim de servirem aos soberanos desígnios do Criador através do Amor às criaturas menos evolvidas, às quais procuram educar e elevar, concedendo às operosidades em torno de tão sublime ideal o melhor dos esforços e da boa-vontade que alcandoram suas almas de missionários e instrutores! Em Jesus de Nazaré encontrareis o mais eminente desses respeitáveis vultos que perlustraram as sombrias plagas terrenas, e sob cuja orientação agiram os demais, visto que até hoje nenhuma entidade que habitou a Terra teve capacidade para atingir, com o pen­samento remontado às origens do planeta, a época exata em que o Senhor Amado recebeu das mãos do Todo- Poderoso a Terra e suas humanidades para levantá-las do abismo inicial, educá-las e glorificá-las nas irradiações da Luz Imortal!

Mas... há milênios que vindes reencarnando na Terra e até agora, de tão preciosos tesouros nela depo­sitados pelas inestimáveis bondades do Céu, jamais cogi­tastes de vos servir... por eles haveis passado indife­rentemente, sem lhes examinar sequer o valor devido, sendo de temer que, se partirdes daqui sem as habili­tações que lá, na Terra, também poderíeis colher, con­tinueis debatendo-vos no mesmo círculo vicioso em que vindes permanecendo... pois sois fracos, não sabeis re­sistir às tentações do próprio orgulho e necessitais de forças para recomeçar a caminhada...

Dentre tantos que convosco aqui ingressaram há três anos, muitos continuam em condições de absoluta­mente nada poderem, por enquanto, tentar. Alguns, pre­sos às recordações das paixões absorventes, endurecidos no erro das descrenças e do desânimo, completamente incapacitados moral e mentalmente para os serviços do progresso normal, requererão ainda a tolerância e a ca­ridade do amor santo de Maria, que tanto se compadece dos desgraçados, como Mãe Modelar que é. Outros de­verão, ao contrário, reencarnar imediatamente, a fim de corrigirem distúrbios gravíssimos que em seus corpos astrais permanecem como resultantes da violência do choque recebido com a morte voluntária. Sem que re­encarnem para corrigir tais distúrbios, que lhes obscure­cem até’ a razão, nada poderão tentar, nem mesmo a repetição do drama que os levou ao ato execrável, drama que fatalmente será vivido novamente, pois que era um resgate de crimes praticados em existências pretéritas, quando não conseqüências de desvios atuais pelos quais se tornaram responsáveis perante a Grande Lei, e aos quais se quiseram furtar através do suicídio, aos quais também terão de cobrir, porque assim o exigirá a consciência deles próprios, desarmonizada e aviltada perante si mesma! São, estes, aqueles mesmos cujo gê­nero de suicídio, muito violento, exorbitou da possibili­dade de alívio através da terapêutica psíquica em vós outros aplicada, e os quais conheceis bastante para que se torne necessário enunciá-los. O estágio na matéria, longo, proveitoso, será, como se percebe, a terapêutica urgente e de excelência comprovada, visto que corrigirá a desordem vibratória por arrefecer a intensidade e ar­dência da mesma, tornando o Espírito, após tão aluci­nante parêntesis, à lucidez propícia a nova etapa, preo­cupando-se, só então, com as experiências de reabilitação, pois já se encontrará em estado de fazê-lo, com tendên­cias para a vitória!

Como vedes, meus caros amigos, um século, dois séculos... talvez ainda mais!... e o suicida estará sor­vendo o fel da conseqüência espantosa do seu ato de desrespeito à lei do Grande Criador de Todas as Coisas!”

Ouvíamos atentamente, curiosos e pávidos ante a perspectiva do futuro, incapazes de precisá-lo, temerosos da gravidade da falta em que incorrêramos, a qual nos sabia à alma tão ou mais acremente que uma condenação ao patíbulo, penalizados ao compreendermos a necessi­dade de deixarmos aquele caridoso abrigo a cuja som­bra, se não encontráramos a satisfação por que suspi­rávamos — linerecedores que éramos dela — no entanto adquiríramos o mais precioso bem a que um Espírito delinqüente poderá aspirar para lhe servir de promissor farol nas estradas onde se assentará o seu calvário de expiações: — abnegados irmãos, amigos tutelares fiéis aos elevados princípios cristãos do Amor e da Frater­nidade!

Continuou, porém, Teócrito, satisfeito por perceber nossa atitude mental, que solicitava conselho franco:

“— Chegou a oportunidade de visitardes a Terra, como tanto desejais! Forneceremos guardiães e meios seguros de transporte, visto que sois inexperientes e continuais ligados à Legião, porqüanto não demos por terminado o concurso que devemos emprestar à causa da vossa reabilitação! Uma vez chegados à crosta terrestre, convém reflitais com a máxima prudência — orando e vigian­do —, como aconselharia nosso Divino Modelo, isto é, raciocinando claramente às inspirações do Dever, da Mo­ral, do Bem, e não vos deixando arrebatar por antigos desejos e seduções, pelas vaidades, pela ociosidade tão comum nas baixas regiões do planeta.

Advertimos-vos de que vos dareis mal se preferirdes permanecer úa Terra olvidando vossos amigos desta Co­lônia, o aconchego fraternal e cristão que aqui desfru­tais. Porfiai por não perderdes o desejo de voltar com os dedicados acompanhantes que vos servirão. Se voltardes a este lar, que temporariamente será o único ver­dadeiro a que pertenceis, entregando-vos de boamente àdireção maternal de nossa Augusta Protetora, ser-vos-a facultado ingresso em outro Departamento deste Insti­tuto, melhor dotado do que a Vigilância e o Hospital, e para o qual subireis, não para desfrutar alegrias e venturas a que não tendes direito ainda, porqüanto não as conquistastes, mas em busca de habilitações para os prélios do progresso que cumpre atinjais!

Antes de demandardes a Terra sois convidados a uma visita de instrução aos Departamentos que compõem os primeiros planos do nosso Instituto. Nada perdereis com os esclarecimentos que poderão ser fornecidos pela Vigilância, assim também as dependências do Departa­mento Hospitalar, isto é, o Isolamento, o Manicômio, e ainda o Departamento de Reencarnação e suas interes­santes seções, que muito de perto vos interessarão... pois a verdade é que não deveis rever a Pátria terrena sem os conhecimentos que nossos Departamentos fornece­rão: — estareis mais fortes para resistir às lembranças das antigas seduções... Convém, todavia, não conserveis ilusões quanto ao que vos aguarda nessa peregrinação pela Terra: — lembrai-vos de Jerônimo!... Há muitos anos já que deixastes os despojos carnais na lama do sepulcro... Muitos de vós já foram olvidados por aque­les a quem magoaram com o suicídio... se não com­pletamente, pelo menos o bastante para se terem desin­teressado pela sorte do ingrato que não trepidou feri-los com tão acerbo desgosto: — envolvido nas efervescências da vida material, o homem tudo esquece com facilidade... Não julgueis, portanto, encontrar alegrias nessa pere­grinação! Aliás, a Terra jamais concedeu dádivas com­pensadoras àquele que, sabendo ser descendente de uma centelha divina, procura marchar para Deus empolgado pelas alegrias celestes que o espreitam... Sentimo-nos, porém, despreocupados quanto a tais particularidades! Convosco não sucederá o que surpreendeu Jerônimo: —estais preparados para as possíveis decepções, para os choques inesperados de sucessos que ignorais!

Agora, ide repousar... E que o Mestre Divino vos conceda inspirações...”

Na manhã seguinte, mudamos de residência.

Joel conduziu-nos a um pavilhão anexado ao Hos­pital, espécie de albergue onde se hospedavam os recém-desligados da grande instituição, engrinaldado de rosas trepadeiras e todo orlado de ciprestes esguios, recor­dando paisagens clássicas da velha Índia, tão querida e celebrada pela plêiade de mestres a que nos víamos li­gados. Chamavam-lhe Pavilhão Indiano ou ainda Man­são das Rosas. Todavia, as névoas amortalhavam de nostalgias também a esse recanto plácido, envolvendo-o em seu eterno sudário branco.

Bem-estar indefinível visitava-nos a alma nessa ma­nhã encantadora. Belarmino, que de ordinário se man­tinha sério e pensativo, apresentava-se risonho, comuni­cativo. João d’Azevedo confessava-se muito esperançoso e afirmava estar disposto a só realizar o que Irmão Teócrito aconselhasse, para o que pretendia entender-se ainda com aquele boníssimo diretor. Quanto a mim, sen­tia-me até feliz, permitindo-me mesmo a veleidade de projetos literários para o futuro, pois tinha para mim que na próxima visita à Terra conseguiria estrondoso sucesso de além-túmulo, voltando às lides literárias que me foram comuns com o concurso do primeiro instru­mento mediúnico que deparasse. Então, estávamos ainda longe de suspeitar o volume das árdegas lutas que a jornada das reparações exigiria de nossos esforços... e o conforto, o carinhoso acolhimento recebidos daqueles abnegados servos do Bem, tendo desfeito a clâmide trá­gica que recobrira de dores os nossos Espíritos, levava-nos a raciocinar que, afinal, o suicídio não fora tão cruel como quereria parecer...

Mário Sobral era o único que se não iludia, pois falou-nos, presenciando nossa satisfação nas primeiras horas que passamos no Pavilhão Indiano:

“— Que Deus assim vos conserve para sempre, ami­gos!... Minha consciência não me permite tanto!... Acusa-me intransigentemente, não permitindo tréguas ao meu desgraçado coração! O silêncio que nossos ami­gos guardam, acerca do crime por mim praticado, apavora-me mais do que se me acusassem diariamente, pre­nunciando-me represálias!... Não é possível que meu procedimento com minha esposa e meus filhos, com a desgraçada Eulina, com meus pobres país, passe desper­cebido à Lei cujos umbrais começam a se descerrar para meu raciocinio... Se sou criminoso para comigo mesmo, suicidando-me, sê-lo-ei também pelo mal praticado em outrem... Sabes, Camilo?... Há já algum tempo venho sentindo as mãos entorpecidas... aéreas... vazias... como se houvessem sido decepadas... Às vezes procuro-as, confuso, pois deixo de senti-las comigo... e, de re­pente, enquanto a mim mesmo indago do que poderia motivar tal estranheza, visão excruciante conturba-me o cérebro: — vejo Eulina abatida sobre o canapé, estor­cendo-se sob o fragor das bofetadas com que lhe torturei o rosto... a estertorar entre minhas mãos assassinas... que lá estão, separadas de meus punhos, estrangulan­do-a!... Oh, meu Deus! Que representará semelhante anormalidade?!... Que mais confusão mental aparece­rá para castigar-me?!... Por quem és, Camilo amigo, dá-me tua opinião valiosa...”

“— Devem ser os pesares que te alucinam a mente, meu caro amigo... Os remorsos que te inquietam a cons­ciência... pois, afinal de contas, não deixaste de amar aquela pobre mulher... Por que não te aconselhas com Irmão Teócrito?...”

Já o fiz, Camilo, já o fiz..

E então?... que te disse ele?..

“— Aconselhou-me a confiar na Providência Divina, que jamais abandona qualquer criatura que lhe suplique assistência; a resignar-me com o irremediável da situa­ção por mim mesmo criada e a revigorar-me na Fé para corrigi-la... Incitou-me à oração constante, ao esforço para estabelecer corrente magnética simpática, em sú­plicas a Maria para que me socorra, esclareça, console, preparando-me intimamente para o futuro... pois não existe outro recurso a meu alcance a não ser esse, no momento...”

Pois faze-o!... Se ele a isso te aconselhou éque somente daí virá o de que necessitas..

Tenho feito, Camilo, tenho feito!... — insistiu, excitado e sofredor. — Mas, quanto mais o tento e ao fervor consagro-me, mais me certifico ser essa visão um prenúncio do futuro: — ao reencarnar, como afirmam Alceste e Romeu que acontecerá, para expiar meu duplo crime, irei mutilado, sem as mãos... porque elas estão ocupadas noutra parte, a serviço do crime... elas se desonraram em minha companhia, estrangulando uma pobre mulher indefesa... Já nem sequer as tenho, Ca­milo!... Não as sinto, não as vejo... foram sepultadas com o corpo de Eulina... e a fim de reavê-las, honradas e redimidas da mácula infamante, precisarei padecer o martírio de uma existência terrena destituído delas, a fim de aprender no sacrifício, nas torturas inimagináveis daí conseqüentes, na vergonha da anormalidade humilhante, que as mãos são patrimônio sacrossanto do apa­relho carnal, a advertir-nos de que somente deveremos empregá-las a serviço do Bem e da Justiça, e não do crime!... Eulina era duplamente indefesa: — por ser mulher, e, portanto, frágil, e desamparada da família e da sociedade, pois era apenas uma desgraçada meretriz! Mas... antes de ser assim, tão infeliz e desgraçada, era, acima de tudo, criatura de Deus, filha de um Ser Supre­mo, Todo-Poderoso e Justiceiro... como eu também o sou, como tu, Camilo amigo, e toda a Humanidade! Esse Pai, que a todos os filhos ama indistintamente, agora me pede contas da vida que eu tirei, bem supremo de que só Ele sabe e pode dispor, visto que só Ele sabe e pode conceder! O direito de filha do Criador Supremo ninguém poderia arrebatar a Eulina!... a ela, coitada, que nenhum outro direito possuía naquele mundo de ab­jeções, nem mesmo o de viver, pois que eu não quis que ela continuasse a viver, e por isso matei-a! Eu matei Eulina!... E, agora, ouço repercutir, nos recôncavos mais afastados do meu Espírito impregnado de remorsos, a voz austera e comovente da Consciência — que é ‘como a voz do próprio Deus repercutindo em nosso ser imor­tal: “— Caim, Caim!... Que fizeste de teu irmão?... Oh, Camilo, Camilo, meu amigo!... Quando estrangulei Eulina, eu me esqueci de que tanbém ela era filha de Deus! que também possuía sagrados direitos concedidos por esse Pai Misericordioso e Justiceiro! E agora...

As lágrimas correram em borbotões interceptando-lhe a palavra, e nuvem comovedora recobriu de tristeza o ar sereno da Mansão das Rosas. Aliás, a satisfação que visitara nosso íntimo naquela manhã originara-se tão-somente do fato de havermos causado alegrias a Teócrito com o progresso conquistado durante aqueles três anos de internação...

Carlos e Roberto de Canalejas prontificaram-se a acompanhar-nos na visita de instrução sugerida pelo ex­periente diretor do Departamento Hospitalar. Opinára­mos por iniciá-la justamente da Torre de Vigia que, qual fortaleza invencível em plena região bárbara do Invisível, defendia um posto avançado de vigilância contra inves­tidas nocivas de múltiplos gêneros, visto que até as ema­nações mentais inferiores, provindas do exterior, eram ali combatidas como das piores invasões a se temerem.

A extensão a percorrer era grande. Um carro sin­gelo e alígero recolheu-nos, pois não vislumbráramos se­quer, até então, a possibilidade de nos impulsionarmos com o pensamento, praticando a volitação. A certa al­tura da viagem, quando já bem distanciados do Pavilhão Indiano, respondendo a certa confidência de Mário So­bral, ouvimos que Roberto dizia:

O desânimo é mau conselheiro, amigo Sobral! Será de bom aviso meditares serenamente no alvitre for­necido pela experiência de Irmão Teócrito. Aparente­mente é um conselho trivial e inexpressivo. Mas fica sabendo que encerra sabedoria profunda e representa a chave áurea com que descerrarás barreiras que se te afiguram existir nas estradas para a reabilitação! Que importa, alias, uma existência de trinta, sessenta anos de sacrifícios, em a qual o corpo carnal poderá ser muti­lado, se através dela é que reconquistaremos a honra espiritual, a paz que nos falta à consciência, no ensejo para a realização salvadora que nos identificará com a Lei que infringimos?... Não temas os serviços da expiação, Mário, uma vez que todos nós, os que erramos, carecemos do seu concurso para desobrigarmos a consciência e, portanto, o destino, das responsabilidades avil­tantes cujo volume tanto nos indispõe com as harmonias da Lei Divina, criando anormalidades em torno de nós. Tens o Futuro diante de ti a fim de auxiliar-te na re­novação moral de que necessitas! Ele afirmará ao teu raciocínio, se te quiseres dar ao trabalho de ilações pru­dentes e sérias, que poderás expungir da alma o reflexo humilhante das más ações com a interferência dos de­veres santificadores! Se, portanto, é necessário renovar a experiência terrena em corpo mutilado, a fim de que aprendas nas dificuldades daí originadas a te servires de todo o conjunto do envoltório carnal somente em sen­tido dignificante, não vaciles, enfrenta o sacrifício! pois estás convencido de que erraste, e por isso certamente entenderás justo o assumires a responsabilidade dos atos que praticaste em detrimento de tua própria individua­lidade, pois a honra espiritual e a dignidade moral do Espírito assim o exigem! E se a tempo souberes clarear o teu ser com os resplendores da confiança em Deus, da esperança na Sua paternal bondade, alimentando-o de coragem e resignação, certo de que jamais te abandonará nas asperidades do caminho reparador o Amor daquele Pai que não condena e sim ajuda a Sua criatura a se erguer do abismo em que se deixou resvalar, po­derás até mesmo sorrir à desgraça, deparar encantos ao longo do calvário que palmilharás!”

A veemência com que o jovem doutor emitira suas abalizadas advertências parecera reanimar nosso míse­ro comparsa, que silenciou, mostrando-se sereno o resto do dia.

Eis, porém, que ao longe entreviam-se os sugestivos aldeamentos do Departamento a que pertencíamos. Pen­sativo, murmurei, sem prever que seria compreendido:

“— Em que recanto destes encontrar-se-á o pobre Jerônimo?...”

“— Vosso amigo Jerônimo de Araújo Silveira en­contra-se acolá, detido no Isolamento — retorquiu Carlos de Canalejas —, como infrator que foi dos regulamentos hospitalares.

“— Por que dão a essa dependência a designação de Isolamento?.. .“ — interpelou Mário receosamente.

“— Porque para ali são enviados aqueles cujo proce­dimento se contrapõe às disciplinas exigidas pelos regu­lamentos do Hospital, os inconformados, que abusariam da liberdade, sem serem, todavia, verdadeiros rebeldes... Será uma como prisão... Repugna, porém, este vocá­bulo humilhante aos diretores da Colônia, e que, ao de­mais, não traduziria a verdadeira natureza da finalidade a que se destina, como ainda haveis de verificar. .

“— Jerônimo encontra-se, pois, detido?...”

“— Perfeitamente!... A seu próprio benefício e para o bem daqueles a quem ama...”

Mário agitou-se, impressionado, voltando a perquirir:

“— Como é possível compreender-se, Dr. de Canalejas, que Jerônimo, esposo amantíssimo, pai extremoso, se encontre preso, enquanto eu, duas, três, dez vezes criminoso, permaneço entre bons amigos?...”

“— És um Espírito sinceramente arrependido, Má­rio, que te deixas aconselhar pelos responsáveis por tua tutela diante de Maria; que desejas ser devidamente guia­do a normas salvadoras, disposto que te mostras aos mais rudes sacrifícios a fim de apagar o passado culpo­so... enquanto que Jerônimo obsidiou-se com a incon­formidade e a incompreensão, apegando-se intransigen­temente a todas as recordações do passado, cuja perda lamenta e do qual vive, sem forças para esquecê-lo, avesso à cogitação de elementos para suavizar a situa­ção, que seria bem outra se se desse à prudência da resignação!... Aliás, não estiveste longos anos prisio­neiro das trevas sinistras do Vale, cativo, em desesperos, amargando o peso férreo que te esmagava a consciên­cia?... E porventura não te conservas moralmente ca­tivo de ti mesmo, pois tua mente desgostosa e inconso­lável não proIbe ao teu coração e ao teu entendimento toda e qualquer satisfação?...”

“— Surpreende-me verificar que, quando morremos, poderemos sofrer, entre muitas coisas inesperadas e sur­preendentes, o fato de nos vermos arremessados a uma enxovia...” — murmurei, contrariado com a novidade, que se me figurou absurda.

Carlos, porém, delicada e bondosamente, conquistou-me o raciocínio como conquistara o coração, apenas com esta sensata e lógica exposição:

Em primeiro lugar, Camilo, és tu que te referes a “enxovia”, quando eu apenas tratei de um Isolamento, pois o vocábulo prisão tornava-se impróprio para a fina­lidade que ali se verifica. Em segundo lugar, convinde, todos vós, que não deveria constituir surpresa a existência de prisões aqui, no além-túmulo. Fostes homens de muitas letras, pensadores eruditos, profundos dialé­ticos... e tal ignorância se torna notável justamente por serdes esclarecidos!

Pensamos aqui, muitas vezes, depois que chegamos a compreender as atuações gerais dos Espíritos desen­carnados inferiores, sobre o que seria a Humanidade terrestre se não existissem repressões nas sociedades es­pirituais, uma vez que, mesmo havendo-as, hordas sinis­tras de malfeitores do plano invisível atacam a todas as horas os homens incautos que lhes favorecem o aces­so, contribuindo para suas quedas e para a desordem entre as nações!

Na Terra há quem não ignore a realidade que aca­bais de descobrir aqui e que tanto parece desgostar-vos. Jesus referiu-se a esse importante fato várias vezes, e até mesmo aventou a possibilidade de se atar o delin­qüente de pés e mãos. As religiões insistem em apregoar tão sombrio ensinamento; e, conquanto o façam imper­feitamente, nem por isso deixam de prever uma reali­dade! Por sua vez, a Terceira Revelação, que, na Terra, há já alguns anos vem apresentando extensas reporta­gens do Mundo Invisível, põe a descoberto, para o entendimento de qualquer inteligência, impressionantes por­menores a respeito da palpitante realidade que até mesmo os povos mais antigos aceitavam e compreendiam na sua justa expressão, como verdades dignas de respeito! Se vos surpreendeis neste momento com a informação de que vosso amigo se encontra detido no Isolamento dos rebeldes, será porque nunca vos preocupastes com assun­tos realmente sérios, preferindo nortear vossos peregri­nos dotes intelectuais para os declives das frivolidades iniprodutivas, próprias das sociedades humanas que se comprazem na ociosidade mental, na inércia do comodis­mo intelectual!.

Calei-me, contrafeito, rememorando efetivamente não poucas referências que a tal respeito obtivera quando homem, através de leituras e estudos, mas às quais não prestara senão relativa atenção, pois, enceguecido pela vaidade de supor-me sábio, prudente e lógico, conside­rava as filosofias religiosas, em geral, fontes suspeitíssi­mas do interesse coletivo que as ideara, reservando res­peitosas deferências apenas para os Santos Evangelhos, os quais reputava excelentes códigos de Moral e Frater­nidade, estatuídos, com efeito, por um Homem Superior que se apresentaria como o padrão modelo da Humani­dade, porém, excessivamente místico para poder ser imi­tado por criaturas em choques perenes com esmagadores obstáculos, tanto que, para o meu doentio entendimento, virulado pela ignorância presunçosa, que, fora do próprio âmbito azedado pelo orgulho, só trevas pode deparar, falira ele próprio na prática das normas áureas que ex-pusera, pois deixara-se vencer num patíbulo infamante, enquanto a Humanidade continuou resvalando para a sequência de insondáveis abismos.

De Canalejas, porém, continuou, atraindo-nos com a conversação:

“— Ao demais, por que não existiria deste lado da vida prisões e rigores se há cá maior percentagem de delinqüentes que do lado de lá?... pois grandes erros existem, cometidos pelos homens, contra os quais não há penalidade estatuída na jurisdição humana, mas os quais sobremodo pesam nos incorruptíveis estatutos da Justiça de Além-Túmulo! Outrossim, quantos crimes dei­xam de receber corretivos na Terra, não obstante haver para eles penalidades na mesma jurisdição terrena? Ou pensais poderia o homem viver à revelia da Justiça, ao sabor das próprias inconveniências?... Porventura julgais que a morte transforme em bem-aventurados a quantos se excederam na prática de desatinos no mun­do material ?... Enganais-vos! O homem que viveu como ímpio, desafiando diariamente as leis divinas com atos desarmoniosos em desfavor de si mesmo, do próximo e da sociedade, em chocante desrespeito ao futuro espiri­tual que o aguarda, entrará como ímpio, como réu que é, no mundo das realidades, onde será punido pelas con­seqüências lógicas e irremediáveis das causas que criou! Daí o que vedes aqui ou em outras regiões em que pro­lifere o elemento espiritual inferior, e também no próprio cenário terreno, porqüanto a Terra oferece à Jurisdição Divina campos vastíssimos para o exercício das penali­dades necessárias aos seus réus: — acumulo de sofri­mentos, lutas árduas, incontáveis, no sentido de apagar das consciências culpadas os fogos dos remorsos aluci­nadores... E como nas estâncias sombrias do Invisível só ingressam Espíritos criminosos a se julgarem ainda homens, voluntariosos e prepotentes, querendo continuar a agir em prejuízo do próximo e de si mesmo, a neces­sidade de rigores se impõe, como na sociedade terre­na sucede com aqueles que infringem as leis humanas, pois é bom saibais que as organizações terrestres são cópias imperfeitas das instituições modelares da Espiri­tualidade!”

Deslizava o veículo, já se aproximando da meta para a qual nos dirigíamos. Caiu o silêncio em torno, conser­vando-nos todos nós pensativos com o que acabáramos de ouvir. Tão simples, tão real se apresentava aquele mundo astral, que sua mesma realidade, sua impressio­nante simplicidade contribuía para a confusão de nos julgarmos homens, quando éramos Espíritos!

A Torre de Vigia desenhava-se como incrustada nas camadas acinzentadas da cerração, trazendo à lembrança antigas fortalezas da Europa. Majestosa e sugestiva, infundiria respeito, senão pavor, ao transeunte das vias do Invisível que lhe desconhecesse a finalidade.

Acompanhados dos guias que levávamos, obtivemos passagem livre em seus pórticos. Comoção penosa pre­cipitou vibrações de angústias em nosso ser acovardado pelas recordações dos dissabores suportados, pois dir-se­-ia que aquele ambiente pesado e sombrio falava à nossa alma dos dramas vividos nas penumbras do Vale Sinistro.

A Torre era, como sabemos, dependência do Depar­tamento de Vigilância, e, conquanto tivesse direção au­tárquica, havia ela de trabalhar em harmonia com a direção-geral daquele Departamento, em coesão perfeita de idéias e fraterna solidariedade. Seria o posto de maior responsabilidade de toda à Colônia, se ali pudesse exis­tir algum menos responsável que o seu congênere, por­que situada em zona perigosa do astral inferior, rodea­da de elementos nocivos e perturbadores, sendo dever seu a estes combater, desviar, impedindo o assédio de Espíritos assaltantes, encaminhar para outras paragens infelizes perseguidos por obsessores, que a todo custo na Colônia se desejassem abrigar, o que não seria pos­sível, porqüanto tratava-se de local especializado para alojamento de suicidas.

A direção interna achava-se a cargo de um ex-sa­cerdote católico, português, também havia muito iniciado dos Templos de Ciências da Índia. Sob sua orientação serviam vários outros condiscípulos não iniciados, obe dientes, porém, aos mais exaustivos labores em regiões inferiores, serviços por eles próprios escolhidos volun­tariamente, como expiação pelos desmandos com que ha­viam tratado os interesses do Evangelho do Crucificado, quando na Terra, investidos da alta dignidade de pastores de almas, e ao qual haviam conspurcado com a mentira, a hipocrisia, as falsas e ardilosas interpretações! As funções de diretor, todavia, eram apenas internas, limi­tadas a uma fiscalização (assistência de Maioral); as providências para a defesa cabiam à sede central do De­partamento.

Recebidos por assistentes amáveis, fomos imedia­tamente conduzidos à sala da diretoria e apresentados por nossos bons amigos de Canalejas, os quais por sua vez apresentaram a credencial fornecida por Teócrito, solicitando a visita que tanto convinha aos grupos que iniciavam instrução.

Bondosamente acolhido, fomos saudados em nome do Mestre dos mestres e da Guardiã da Legião, tendo ainda o diretor apresentado bons votos pelo nosso res­tabelecimento completo e conseqüente progresso. Encan­tados, notamos não existir superficialidade ou afetação social nas maneiras daqueles que nos falavam. Ao con­trário, a simplicidade, as formosas expressões de vera solidariedade irradiavam indefiníveis atrativos, cativan­do-nos gratamente!

Concertado o programa da visita entre nossos guias e o diretor, Padre Anselmo de Santa Maria, não se per­deu tempo em conversações ociosas, iniciando imediata­mente o digno dirigente importantes explicações enquan­to caminhávamos demandando os pavimentos superiores.

Não nos furtaremos ao grato dever de concluir este capítulo com os informes colhidos durante a curiosa visita.

“— Principiarei por esclarecer, meus queridos ami­gos — ia dizendo Padre Anselmo, enquanto subíamos que a Torre de Vigia, no momento, acumula afazeres, dada a circunstância de ainda não se encontrar nosso Instituto definitivamente estabelecido. Há carência de trabalhadores especializados, e todos os nossos Departamentos se encontram sobrecarregados, desdobrando-se em atividades múltiplas. Nós, por exemplo, os da Torre, atendemos a casos tão variados quanto espinhosos, como vereis, diferentes mesmo da especialidade de que só de­veríamos tratar.”

Havíamos, porém, alcançado o pavimento mais alto, pois nossa inspeção partiria em sentido inverso, isto é, do andar superior para os que lhe ficassem abaixo.

Um salão circular, vastissimo, imerso em penumbra, como se as quintessências de que era construído se ba­seassem nos mais pesados exemplares que por ali existis­sem, surgiu à nossa frente, rodeado de cômodos bancos estofados. Portas largas, envidraçadas, estendiam-se em toda a circunferência, deixando ver o que se passava no interior de cada aposento. A convite do amável cicero­ne aproximávamo-nos das portas e examinávamos tanto quanto possível o interior, não nos sendo, porém, fran­queada a entrada. No entanto, não ouvíamos um único som: — as vidraças seriam de substâncias isolantes, àprova total de ruído!

No primeiro gabinete existiam estranhas baterias de aparelhos que pareciam ser telescópios possantes, maqui­narias aperfeiçoadas, elevadas ao estado ideal, para son­dagem a grandes distâncias, espécie de “Raios X’, ca­pazes de perquirir os abismos do Espaço infinito, assim como do Mundo Invisível e da Terra. Outros, porém, desafiavam nossa compreensão de calouros do mundo espiritual.

No segundo gabinete, telas luminosas, colossais, das quais as existentes nas enfermarias do Hospital pare­ciam graciosas miniaturas, indicavam haver necessidade, ali também, de retratarem-se acontecimentos e cenas ocorridos a imensuráveis distâncias, tornando-os presen­tes aos técnicos e observadores para tanto credenciados, a fim de serem devidamente estudados e examinados. Semelhantes aparelhos, cuja perfeição o homem ainda não concebe, não obstante já se achar em seu encalço, permitiria ao operador conhecer até os mínimos detalhes qualquer assunto, mesmo o desenvolvimento dos infusó­rios nos leitos abismais do oceano, se necessário, bem assim a seqüência de uma existência humana que se pre­cisasse conhecer ou as ações de um Espírito em ativi­dades no Invisível, ‘nas camadas inferiores ou durante missões penosas e excursões pertinentes aos serviços assistenciais. Todavia, os regulamentos, rigorosamente observados, rezavam sua utilização apenas em casos ver­dadeiramente necessários.

Existia, porém, ainda um terceiro, o maior de todos, pois ocupava todo um andar da majestosa torre, pare­cendo tratar-se antes de uma oficina por assim dizer me­cânica, onde os operários seriam eminentes vultos da Ciência. Era este o local reservado à maquinaria magnética que permitiria o uso e a ação de todos os magní­ficos aparelhamentos existentes na Colônia, inclusive o do sistema de iluminação noturna, espécie de usina ele­tromagnética distribuidora de fluidos diversos, capazes para o bom funcionamento dos mesmos aparelhos. E em todos os compartimentos uma azáfama sem interrup­ções, labor incessante e árduo, quiçá exaustivo. Muitas damas figuravam no quadro de funcionários que em tais dependências víamos desenvolvendo meritórias atividades. Pareciam figuras aladas, indo e vindo em silêncio, sérias e atentas, envolvidas em belos vestuários brancos, tão alvos que se diriam lucilantes, particularidade que nos despertou atenção, fazendo supor à nossa incapacidade tratar-se de uniformes para uso interno, quando em ver­dade nada mais era senão o padrão do bom estado vi­bratório de suas mentes. Esforçavam-se por diminuí-lo, num local incompatível com suas verdadeiras expansões.

“— Esta fortaleza — continuou Anselmo de Santa Maria —, à qual pertence não só a Torre de Vigia como as demais que aqui se vêem, aquartela o regimento de milicianos e lanceiros especializados, que fazem a senti­nela e defesa da mesma contra possíveis contratempos partidos do exterior. Muitos dos integrantes desse re­gimento são discípulos da Iniciação Cristã popular, e ensaiam os primeiros passos na senda dos labores edi­ficantes, caminho da redenção! Alguns foram também suicidas, que agora experimentam conosco a reparação de antigos deslizes. Outros, no entanto, saíram da mais negra impiedade, pois foram, além de suicidas, temíveis obsessores, e seus delitos, os crimes que praticaram du­rante tão lastimáveis ofícios, são bem fáceis de avaliar! Todos eles, porém, são tratados pela direção da Colônia com desvelado amor e caridade cristã, à qual se acham afetos os trabalhos de auxílio à sua reeducação. Sobre os últimos, isto é, os obsessores, existem mesmo reco­mendações especiais provindas de Mais Alto, visto que a Insigne Guardiã da Legião deseja vê-los o mais cedo possível integrados nas hostes dos verdadeiros conversos da Doutrina do Amado Filho, na Legião dos trabalhado­res devotados da Causa Magnânima do Mestre dos mes­tres! Assim sendo, além dos trabalhos que desempenham e que também fazem parte da instrução que lhes é de­vida, todos estudam, aprendem com seus instrutores no­ções indispensáveis do Amor, da Justiça, do Dever, do Bem legítimo, habilitam-se na Moral do Cristo de Deus, no respeito devido ao Todo-Poderoso, até que tornem à reencarnação para os testemunhos decisivos. Não obs­tante, muitos já venceram as primeiras etapas dos tes­temunhos indispensáveis, isto é, voltaram já das terríveis reencarnações expiatórias, continuando aqui a instrução para progressos futuros! Não poderei deixar de fazer referências aos batalhões de lanceiros hindus aqui tam­bém aquartelados, os quais, voluntária e abnegadamente, se dedicam a servir de modelo para os recém-arrependi­dos, fiscalizando-os e cooperando conosco para sua rea­bilitação, enquanto prestam outros inestimáveis concur­sos à direção de nosso Instituto. Esses hindus, antigos discípulos particulares dos iniciados aqui domiciliados, alguns já bastante encaminhados para a luz da Verdade, são, como facilmente percebemos, o verdadeiro susten­táculo da ordem e da disciplina que mantém a paz entre os demais.

Nossa vigilância há de ser incansável, rigorosa, mi­nuciosa, dada a zona de desordens em que se encontra situada nossa estância, avizinhando-se da Terra e des­ta recebendo seus múltiplos reflexos perturbadores; das gargantas sinistras onde se localiza o vale em o qual aglomeramos nossos futuros hóspedes; das regiões inferiores onde prolífera o elemento maldoso proveniente das sociedades terrenas, e das estradas por onde perambu­iam hordas endurecidas no mal, cuja preocupação é se­duzir, bandeando para suas hostes Espíritos incautos e inexperientes, como vós. Tudo isso sem nomear as ondas malignas invisíveis de fluidos e emanações mentais que sobem da Terra, engrossando as do invisível inferior, e às quais, desta Torre, damos caça como o faríamos a micróbios endêmicos de peste.

Através dos aparelhamentos que vedes, estamos em ligação permanente com os sucessos desenrolados no Vale dos Suicidas. Graças a eles permanecemos presen­tes ao que ali ocorre, de tudo sabemos e tudo ouvimos. Poderíamos exercitar a clarividência, a visão a distân­cia, assim como outros dons anímicos que igualmente possuem os nossos técnicos, a fim de nos inteirarmos do que necessitarmos saber, pois temos, mesmo na Torre, funcionários capazes de tão vultoso quanto melindroso serviço, como aquelas operosas irmãs que acolá observa­mos atentas no cumprimento do Dever. Preferimos, po­rém, geralmente, os aparelhos, porque seria sacrificar demasiadamente, sem necessidade, tão preciosas faculda­des anímicas num local heterogêneo como este, carre­gado de influências pesadas, que delas exigiriam gran­de dispêndio de energias preciosas, esforços supremos, quando o aparelhamento de que dispomos realiza o mes­mo serviço sem exigências vultosas de ordem mental.

Por muito desgraçados, pois, que sejam os galés do Vale, ou os transviados que se aprazem no mal e cujo raio de ação se encontre no caminho de nossas ativida­des, jamais se acharão desamparados, pois os servos de Maria velam por eles com o auxílio destes magníficos aparelhos de visão e comunicação e os socorrem no mo­mento oportuno, isto é, desde que eles mesmos estejam em condições de serem socorridos, transportados para outro local. Mas... existe uma como fatalidade a ex­trair-se do ato mesmo do suicídio, contra suas atribula­das presas, a qual impede sejam estas socorridas com a presteza que seria de esperar da Caridade própria dos obreiros da Fraternidade: — é o não se encontrarem elas radicalmente desligadas dos liames que as atêm ao en­voltório carnal, isto é, o se conservarem semi-encarnadas ou semidesencarnadas, como quiserdes!

As potências vitais que a Natureza Divina imprimiu em todos os gêneros da Criação e, em particular, no ser humano, agem sobre o suicida com todas as energias da sua grandiosa e sutil atividade! E isso graças à natureza semimaterial do corpo astral que possui, além do envol­tório material. Viverá ele, assim, da vida animal ainda por muito tempo, a despeito mesmo, em vários casos, da desorganização do corpo de carne! Palpitarão nele, com pujança impressionante, as atraçôes vivíssimaz da sua qualidade humana, até que as reservas vitais, fornecidas para o período completo do compromisso da existência, se esgotem por haver atingido a época, prevista pela Lei, da desencarnação. Em tão anormal quão deplorá­vel situação permanecerá o suicida, sem que nada pos­samos fazer a fim de socorrê-lo, apesar da nossa boa-vontade! (11-a) Isso, meus filhos, assim é que é, e vós, mais do que ninguém, o sabeis! É de lei, lei rigorosa, incor



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