Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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(11-a) A Excelsa Misericórdia encaminha, geralmente, tais casos, tidos como os mais graves, a reencarnações imediatas onde o delinqüente completará o tempo que lhe faltava para o término da existência que cortou. Conquanto muito dolorosas, mesmo anormais, tais reencarnações serão preferíveis às desesperaçõeS de além-túmulo, evitando, ao demais, grande perca de tempo ao paciente. Veremos então homens deformados, mudos, surdos, débeis mentais, idiotas ou tardas de nascença, etc. É um caso de vibrações, tão-somente. O perispírito não teve forças vibra­tórias para modelar a nova forma corpórea, a despeito do auxílio recebido dos técnicos do mundo Invisível. Assim concluirão o tempo que lhes faltava para o compromisso da existência prematuramente cortada, corrigirão os distúrbios vibratórios e, logica­mente, sentir-se-ão aliviados. Trata-se de uma terapêutica, nada mais, recursos extremos exigidos pela calamidade da situação. É o único, aliás, para os casos em que a vida interrompida deverá ser longa. Ó vós que ledes estas páginas! Quando encontrardes pelas ruas um Irmão vosso assim anormalizado, não pejeis de orar em presença dele: vossas vibrações harmoniosas serão tam­bém excelente terapêutica!
ruptível, irremediável porque perfeita e sábia, a nós cum­prindo procurar compreendê-la e respeitá-la, para não nos infelicitarmos pelo intento que tivermos de violá-la!

Daí a calamidade que sobrevém aos suicidas e a impossibilidade de abreviarmos os males que os afli­gem. O que lhes sucede é um efeito natural da causa por eles próprios criada, pois se colocaram na melindrosa situação de só o tempo poder auxiliá-los, O que a bene­fício deles podemos tentar, nós o tentamos sem medir sacrifícios: — é, de quando em vez, ou melhor, em oca­sião justa e adequada, organizarmos expedições de mis­sionários voluntários, que até seu inferno desçam a fim de encaminhá-los para esta instituição, onde são asilados e devidamente orientados para o respeito a Deus, de quem não se lembraram jamais, quando homens é nos reunirmos para o cultivo de orações diárias em seu bene­fício, irradiando centelhas benéficas de nossas vibrações em torno de suas mentes superexcitadas, procurando abrandar as ardências dos sofrimentos que experimen­tam com suaves intuições de esperança! Se não se con­servassem tão alucinados, soçobrados nos boqueirões da desesperança, da funesta descrença em Deus, na qual sempre se comprazeram, perceberiam os convites à oração que todas as tardes lhes dirigimos, ao cair do cre­púsculo, assim como as falas de encorajamento, inten­tando despertá-los para o advento da confiança nos poderes misericordiosos do Pai Altíssimo, pois não deve­mos olvidar que tratamos com povos cristãos que mais ou menos se emocionam ao recordar a infância distante, quando, ao pé da lareira, junto ao regaço materno, bal­buciavam as doces frases da anunciação de Gabriel àVirgem de Nazaré, que receberia como filho o Redentor da Humanidade... e nós nos vemos na preocupação de lançar mãos de todos os recursos lícitos para, de algum modo, enxugar as lágrimas desses míseros descrentes que se precipitaram em tão pavoroso abismo!

Sempre que um condenado tiver extinguido ou mes­mo aliviado o carregamento de vitalidade animali­zada — esteja ele sinceramente arrependido ou não —, avisaremos o serviço de socorro da Vigilância, o qual par tirá imediatamente ao seu encontro, trazendo-o para a guarda da Legião. Então, tal seja a sua condição mo­ral — arrependido, revoltado, endurecido — será encami­nhado por aquele Departamento ao local que lhe competir, conforme já sabeis: — o Hospital, o Isolamento, o Ma­nicômio e até para estas Torres, pois, como dissemos, em virtude de ainda não nos acharmos devidamente ins­talados, acumulamos afazeres, mantendo, aqui mesmo, postos auxiliares para custodiar grandes criminosos dos quais seja cassada a liberdade por demasiada permanên­cia nas vias do erro, isto é — suicidas-obsessores.

Com nossos aparelhos de visão a distância — (cla­rividente-magnético-mecâniCo) — os quais atrairão até nossa presença os fatos e as cenas que precisamos co­nhecer, selecionando-as de outros tantos, graças às dis­posições lúcidas com que são movimentados por nossos técnicos, — assim cómo o ímã poderoso atraindo as estilhas do aço — localizamos aquele que deverá ser socorrido, traçamos o esquema do trajeto, apresentan­do-o em seguida à diretoria da Vigilância; esta fornece os elementos para a expedição... e arrebatamos, com o favor de Deus e o beneplácito do Seu Unigênito, mais uma ovelha das garras do mal...

É rigorosamente proibida a entrada nestes gabine­tes a quem aí não exerça atividades. Por essa razão não vos convidarei a uma inspeção minuciosa no conjun­to do aparelhamento. Os funcionários são Espíritos de escol, missionários do Amor, técnicos especializados no gênero do serviço, os quais, podendo desenvolver opero­sidades em esferas floridas de luz e de bênçãos, preferem descer aos báratros sombrios da desgraça para servirem, por amor ao Mestre Divino, à causa sacrossanta dos seus irmãos inferiores e infelizes — verdadeiros anjos-guar­diães dos infortunados por quem velam!

São, estes, rendidos por outra turma, de doze em doze horas. Descansarão, se o desejarem, nos jardins do Templo, que, como sabeis, é o mais elevado plano de nossa humilde Colônia; ou se dedicarão a outros afazeres que lhes sejam afetos ou ainda alçarão às moradas a que em verdade pertencem. Refazem-se, aí, das angús tias suportadas no ambiente trevoso onde heroicamente laboram em favor do próximo e retornam no dia ime­diato, fiéis ao dever que voluntariamente abraçaram... pois convém frisar, meus amigos, que, para os serviços de socorro e proteção aos párias do suicídio, não exis­tem nomeações nem imposições de leis, uma vez que ele mesmo, o suicídio, está fora da Lei! São tarefas, por­tanto, realizadas por voluntários, florescência sagrada dos sentimentos de Caridade e Abnegação daqueles que desejam exercê-las por amor às doutrinas imaculadas do Cordeiro de Deus, daquele Modelo Divino que fez da Caridade a virtude por excelência, uma vez que a lei facultadora do direito de exercê-la confere o exercício de todo o bem possível em favor dos que sofrem!

“— Admira-me ver personagens tão altamente pren­dadas desdobrando-se em locais e labores tão pouco agra­dáveis — observou Belarmino com a azeda impertinência de quem, na Terra, levou vida afidalgada, de capitalista ocioso, para quem serão desdouro os trabalhos árduos, as lides continuas do dever. — Não existiriam na Legião funcionários espiritualmente menos evolvidos, mais con­cordes, portanto, com a natureza do ambiente e dos exaustivos desempenhos nele decorridos ?... Certamente sofreriam menos, visto que possuiriam menor grau de sensibilidade.. .“

Riu-se Anselmo com bonomia e simpatia, redar­güindo:

“— Bem se vê, irmão Belarmino, que desconheceis a delicadeza e a profundidade dos assuntos espirituais, cuja intensidade não é sequer suspeitada no globo ter­restre! Nosso corpo de funcionários menos evolvidos, po­liciais, assistentes, enfermeiros, vigilantes, etc., etc., poderá apresentar ótimo contingente de boa-vontade, como realmente apresenta, permanente disposição para o tra­balho, desejo de progredir através de atos heróicos, mas não se encontra ainda à altura de tão magno desempenho!

Somente um Espírito dotado de cândidas virtudes e experimentado saber poderia distinguir nos meandros do caráter complexo de um infrator, como o suicida, as verdadeiras predisposições para o arrependimento, ou se no seu invólucro físico-astral já não se refletem influên­cias do princípio vital demasiadamente pesadas para, en­tão, providenciar socorros que o encaminhem a local onde esteja seguro. Só um técnico, investido de exten­sos conhecimentos psíquicos, saberia extrair da memória profunda de um desses réus, martirizados pelos sofri­mentos, o pretérito de suas existências, retrocedendo com ele pelas vias do passado, revendo-lhe a história vivida na Terra, para, daí, formando-lhe a biografia, estudar a causa que o impeliu ao fracasso, orientando destarte o programa reeducativo que no Instituto será aplicado, pois é com os apontamentos fornecidos pelos técnicos dos Departamentos da Vigilância e do Hospital que os padecentes admitidos na Colônia serão classificados e encaminhados para os vários postos de recuperação de que dispomos, os quais se estendem até mesmo às para­gens terrenas, através dos serviços reencarnatórios. Só mesmo um ser abnegado, bastante evolvido na posse de si mesmo, poderia contemplar, sem se horrorizar até àloucura, as localidades inferiores onde a degradação e a dor atingem a cuhninância do mal, comparado às quais o Vale onde estivestes pareceria confortador!

Por exemplo: — Existem almas de suicidas que não chegam a ingressar no Vale por vias naturais. Ingressar ali já será estar o delinqUente mais ou menos amparado, porque sob nossa assistência e vigilância, embora oculta, registrado nos assentamentos da Colônia como candidato a futura hospitalização. Há no entanto aqueles que são aprisionados, ou seduzidos e desencaminhados, antes de atingirem o Vale, por maltas de obsessores, que, às ve­zes, também foram suicidas, ou mistificadores, entidades perversas e criminosas, cujo prazer é a prática de vile­zas, escória do mundo invisível desnorteada pelas pró­prias maldades, que continuam vivendo na Terra ao lado dos homens, contaminando a sociedade e os lares terre­nos que lhes não oferecem resistência através da vigi­lância dos bons pensamentos e prudentes ações, infelici­tando criaturas incautas que lhes fornecem acesso com a própria inferioridade moral e mental! Se escravizado por semelhante horda, o suicida entra a experimentar torturas à frente das quais os acontecimentos verificados no Vale — que são o resultado lógico do ato de suicí­dio — pareceriam meros gracejos?

Porque não disponham de poderes espirituais verda­deiros, esses infelizes, que vivem divorciados da luz do Bem e do Amor ao próximo, aquartelam-se, geralmente, em locais pavorosos e sinistros da própria Terra, afi­nados com seus estados mentais, tais como o seio das florestas tenebrosas, catacumbas abandonadas dos ce­mitérios, cavernas solitárias de montanhas muitas vezes desconhecidas dos homens e até antros sombrios de ro­chedos marinhos e crateras de vulcões extintos.

Hipócritas e mentirosos, fazem crer às suas vítimas serem tais regiões obras suas, construídas pelo poder de suas capacidades, pois invejam as Colônias regene­radoras dirigidas pelas entidades iluminadas, e, aprisio­nando-as, torturam-nas por todas as formas, desde a aplicação dos maus tratos “físicos” e da obscenidade, até a criação da loucura para suas mentes já incendidas pela profundidade dos sofrimentos que lhes eram pes­soais; infligem-lhes suplício, finalmente, cuja concep­ção ultrapassa a possibilidade de raciocínio das vossas mentes, e cuja visão não suportaríeis por ainda serdes demasiadamente fracos para vos isolardes das pesadas sugestões que sobre vós cairiam, capazes de vos leva­rem a adoecer!

Mas... aos trabalhadores especializados, iluminados por um excelente progresso, nada afeta! São imunizados, dominam o próprio horror a que assistem com as forças mentais e vibratórias de que dispõem, e até às mais estranhas regiões do globo descem as lentes dos seus telescópios magnéticos, da sua televisão poderosa, assim como a solicitude dos seus elevados pensamentos de fra­ternidade cristã... E vão à procura da alma superatri­bulada dos desgraçados que se viram duplamente des­viados da rota lógica do destino, pelo próprio ato do suicídio e pela afinidade inferior que os arrastou à jun­ção com o elemento da mais baixa espécie existente no Invisível!

Encontram-nos, às vezes, depois de pesquisas perse­verantes e exaustivas. Nem sempre, porém, ao localizá-las, e disso informando a direção da Vigilância, a qual, por sua vez, se entende com a direção-geral do Instituto, poderemos arrebatá-las imediatamente. Será necessário traçar um plano para o resgate, um programa definido, bem delineado; o concurso de outras falanges, às vezes muito inferiores à nossa, em capacidade e moral, mas conhecedoras do terreno áspero e trevoso em que sere­mos chamados a operar; demarches, embaixadas, nego­ciações, empenhos e até truques, batalhas ríspidas, onde a espada não será chamada a intervir, é certo, mas em que a paciência, a tolerância, o interesse do Bem, a energia moral, a coragem para o trabalho, usados pelos li­bertadores, causariam admiração e respeito pelo herois­mo de que oferecem testemunho! Não raro descem estes aos locais satânicos onde a alma cativa se estorce fla­gelada pelos verdugos que a desejam adaptar aos pró­prios costumes. Imiscuem-se com a horda. Submetem-se à dramática necessidade de se deixarem passar, mui­tas vezes, por sequazes das trevas!... Invariavelmente sofrem em tais ocasiões, esses abnegados obreiros do Amor! Derramam lágrimas amargurosas, fiéis, porém, aos sacrossantos compromissos para com a causa reden­tora a que se consagraram! Mas não vacilam no posto de missionários, a que se comprometeram com o Divino Modelo que se sacrificou pela Humanidade, e prosseguem, enérgicos e heróicos, nos serviços a bem de seus irmãos menores!

E finalmente, após lutas inimagináveis, arrecadam os sofredores que, no tempo devido, não se encaminha­ram para o Vale; entregam-nos, como de direito, à Vi­gilância, que, por sua vez, os dirige para o local conve­niente, geralmente para o Manicômio, pois os desgraçados saem enlouquecidos, com efeito, das teias obsessoras em que se deixaram enredar... E, o que é sumamente im­portante: — arrebanham também os próprios obsesso­res, os algozes, os quais mais não são do que Espíritos audaciosos, de homens maldosos que viveram envolvidos nas trevas do crime, apartados de Deus! Se, além de obsessores, são também suicidas, nossa Colônia poderá retê-los. Hospedamo-los, no entanto, aqui mesmo, na Vi­gilância, em local apropriado desta fortaleza, pois, não possuindo eles afinidades para nenhum outro plano me­lhor que este, são, ao demais, considerados elementos perigosos e indesejáveis em dependências onde se opera o alevantamento da moral de outros delinqüentes já predispostos ao bem! Mantemo-los sob severa custódia, procurando, tanto quanto possível, ministrar-lhes forças e meios para se reeducarem e reabilitarem. Daqui não se elevarão a planos mais rarefeitos e confortadores sem que primeiramente hajam tornado a nova existência car­nal a fim de se despojarem do peso dos crimes mais revoltantes que cometeram, pois suas condições morais e mentais, excessivamente prejudicadas, lhes interceptam maiores possibilidades. A instrução deles limitar-se-á a pequeno aprendizado em torno de si mesmos, noções das leis fraternas expostas no Evangelho do Senhor e a la­bores regeneradores exercidos nos palcos da Terra, sob a direção de assistentes rigorosos, ou em nosso regimen­to de milicianos, onde mentores especializados no gênero guiá-los-ão à prática de serviços nobilitantes, em oposi­ção ao muito mal que praticaram no passado. Como milicianos, darão caça a outras hordas obsessoras que conheçam, indicam-nos antros maléficos que bem sabem existir aqui e além, prestando, assim, concurso valioso à nossa causa, o que muito será levado em conta na pro­gramação das expiações a que se obrigaram. Se se tra­tar, no entanto, de elementos simplesmente perversos, não suicidas, não nos será permitido asilá-los. Todavia, nosso Serviço de Socorro encaminhá-los-á aos postos de abrigo existentes nas zonas de transição, um pouco por toda a parte — espécie de postos policiais do Invisível —e, uma vez aí, terão o destino que melhor convir a sua triste condição de Espíritos inferiores, destino concorde, não obstante, com as leis da afinidade, da justiça e da fraternidade.”

Seguiu-se curto silêncio. Estávamos suspensos, sur­presos com o inesperado da exposição que nos faziam, a qual, em verdade, valia por uma aula de elevada eru­ dição! Anselmo de Santa Maria fitou docemente o olhar em nossos semblantes preocupados pela atenção desper­tada por sua palavra, e murmurou, como se estendesse o pensamento através das flóreas estradas perfumadas pela essência incomparável do Evangelho do Magnânimo Educador:

“— Sim, meus filhos!... Assim é que fatalmente teria de acontecer, pois o próprio Nazareno afirmou que o bom pastor deixa o rebanho obediente, amparado em seu redil, e parte em busca da ovelha transviada, só des­cansando após reconduzi-la, salva dos perigos que a cer­cavam!... E acrescentou, para justiça e glória dos nos­sos esforços em cooperar com Ele:

“— Das ovelhas que meu Pai me confiou, nenhuma se perderá...”

2

Os arquivos da alma
Honrai a vosso pai e a vossa mãe. (Decálogo.)

ÊXODO, capítulo 20, versículo 12.
Ia entardecendo. As sombras se acentuavam no ho­rizonte plúmbeo da pesada região. Descemos para o pavim­ento imediato e, pelo trajeto, arrisquei uma interro­gação:

“— Desculpai, Revmo. Padre, o desejo de investi­gar pormenores de um assunto que tão bem soube aos meus sentimentos de cristão e à minha preocupação de aprendiz: — Como chegam os diretores desta magna Ins­tituição a saber que Espíritos infelicitados pelo suicídio são aprisionados por falanges hostis, encontrando-se de­saparecidos?...



“— Se nos comprometemos perante Jesus ao ser­viço de auxiliares do seu ideal de redenção, filiando-nos à Legião patrocinada por Sua venerável Mãe — respon­deu prontamente —, manteremos técnicos nesta Torre com o mister exclusivo de procurar os desaparecidos, au­xiliados com o emprego infalível dos aparelhos que aca­bastes de entrever... Têm eles, cada um, demarcada-a as regiões que deverão sondar... Por sua vez, antigos opressores, regenerados sob nossos cuidados e adidos ao corpo de milicianos, tocados pelo arrependimento vêm, voluntariamente, indicar localidades do Invisível ou da Terra, do seu conhecimento, onde são aglomeradas as vitimas da opressão obsessora e onde as maiores atroci­dades se praticam. Verificados exatos, esses locais serão visitados e saneados... Geralmente, porém, os avisos e as ordens vêm de Mais Alto... de lá, onde paira a assistência magnânima da piedosa Mãe da Humanidade, a Governadora de nossa Legião... Se as entidades em apreço não pertencem à sua tutela direta de Guardiã, poderá o Guardião da falange ou da legião a que per­tencerem impetrar o seu favor em prol dos transvia­dos, seu amoroso concurso para o alvo a ser coliniado, porqüanto existe fraterna solidariedade entre as várias agremiações do Universo Sideral, infinitamente mais per­feitas que as existentes entre as nações físico-terre­nas... Outrossim, por mais desgraçado e esquecido que seja um delinqüente, existira sempre quem o ame e por ele sinceramente se interesse, dirigindo apelos fervoro­sos a Maria em seu favor, quando não o fizerem dire­tamente ao Divino Mestre ou ao próprio Criador! Se, portanto, um suicida não deixa na Terra alguém que se apiade de sua imensa desgraça, concedendo-lhe brandas e carinhosas expressões de caridade através da Prece generosa, será bem certo que no Além haverá quem o faça: — afeições remotas, antigos amigos, temporaria­mente esquecidos graças à encarnação; seres queridos que o acompanharam em peregrinações pregressas, na Terra; seu tutelar, o amoroso Guardião que lhe conhece todos os passos, como seus menores pensamentos, assis­ti-lo-ão com os veros testemunhos do amor fraterno, que cultivam à inspiração do amor de Deus! Se é dirigida a Maria a súplica, imediatamente ordens serão expedidas a seus mensageiros, as quais, por estes distribuídas aos vários postos e institutos de socorro e asilo aos suicidas, mantidos pela Legião, indicam aos servidores o momen­to das atividades em torno do novo sofredor, seu nome, sua nacionalidade, a data do desastre, o local em que se verificou, o gênero de suicídio escolhido. Com tais informes, se, por exemplo, o indivíduo em questão en­contra-se em região pertencente ao raio de nossas ações, a busca será feita pelos servos da Vigilância, conforme ficou dito. Onde quer que se encontre será localizado a despeito de quaisquer sacrifícios! Geralmente, se não foi arrebatado da situação normal ao caso pelas hordas perversas e obsessoras que o assediavam desde antes, o trabalho será fácil. Se, no entanto, a tarefa, por muito espinhosa e árdua, carecer do concurso de outros ele­mentos de nossa mesma Legião ou estranhos a ela, te­mos o direito de solicitá-los, sendo prontamente atendidos. Há casos, como ficou esclarecido, em que nos vemos na necessidade de apelar até para o concurso de elementos inferiores, isto é, o auxílio de falanges que nos ficam abaixo em moral e esclarecimentos!

No entanto, se a outro eminente Espírito for dirigida a súplica, será esta encaminhada a Maria e seguir-se-ão as mesmas providências, pois, como vimos af ir-mando, é Maria a sublime acolhedora dos réprobos que se arrojaram aos temerosos abismos da morte voluntá­ria... Tudo isso, porém, não quererá certamente dizer que nossa Excelsa Diretora precisará esperar súplicas e pedidos de quem quer que seja a fim de tomar suas caridosas providências! Ão contrário, estas foram pe­renemente tomadas, com a manutenção dos postos de observação e socorro especiais para suicidas; com os não especializados, mas que igualmente os acolherão em oca­sião oportuna, disseminados por toda a parte, no Invi­sível como na Terra, e com os próprios dispositivos da lei de amor e fraternidade, que manda pratiquemos todo o bem possível, fazendo ao próximo o que desejaríamos que ele nos fizesse, lei que no Invisível esclarecido éamorosa e rigorosamente observada!

De qualquer forma, porém, a Prece, como vistes, externada com amor e veemência em favor de um sui­cida, é o sacrossanto veículo que carreia, em qualquer tempo, inestimáveis consolações, mercês celestes para aquele desafortunado, porqüanto é um dos valiosos ele­mentos de socorro estatuídos pela citada lei em favor dos que sofrem, elemento com o qual ela conta a fim de acionar vibrações balsamizantes necessárias ao trata­mento que a carência do mártir requer, constituindo, por isso mesmo, erro calamitoso a negativa, por parte das criaturas terrenas, desse ato de solidariedade, interesse e beneficência, pela injusta suposição de que seria inútil sua aplicação por irremediável a desgraçada situação dos suicidas! A Prece, ao contrário, torna-se ato de tão louvável e prestimosa repercussão, que aquele que ora, por um de vós, faz-se voluntário colaborador dos obrei­ros da Legião de Maria, coadjuvando seus esforços e sacrifícios na obra de alívio e reeducação a que se de­votaram!

Como tendes percebido, por esta pálida amostra, nos­so labor é vultoso e intenso. Se as criaturas que atentam contra o sagrado patrimônio da existência corporal —pelo Todo-Poderoso concedido à alma culpada como en­sejo bendito e nobilitante de reabilitação — conhecessem a extensão dos sofrimentos e dos sacrifícios que por elas arrostamos, é certo que se deteriam à beira do abis­mo, refletindo na grave responsabilidade que assumirão, quando não por amor ou compaixão de si mesmas, ao menos em consideração e respeito a nós outros, seus guias espirituais e amigos devotados, que tantos prélios exaustivos, tantos dissabores suportamos, tantas lágri­mas arrancaremos do coração até que os possamos en­caminhar para as consoladoras estâncias protegidas pela Esperança!”

O amável cicerone falara da existência, numa da­quelas sombrias dependências que circundavam a torre central, cognominada simplesmente — a Torre —, da­queles temidos obsessores, chefes ou prosélitos de fa­langes trevosas e perversas, os quais, além de suicidas, seriam também responsáveis por crimes nefandos, pre­vistos nas leis sublimes do Eterno Legislador como pu­níveis de reparações duríssimas através dos séculos. Ma­nifestáramos desejo de vê-los. Afigurou-se-nos tratar-se de entidades anormais, desconhecidas completamente pela nossa capacidade de imaginação, monstros apocalípticos, talvez, fantasmas infernais que nem mesmo apresenta­riam forma humana. Sorrindo paternalmente, o velho doutor de Canalejas interrogou ao emérito elucidador, que nos guiava, se seria possível defrontarmos algum deles, visto ser de utilidade conhecê-los a fim de nos acautelarmos durante a próxima viagem aos planos ter­renos, onde enxameiam bandos numerosos da mesma es­pécie. Padre Anselmo bondosamente aquiesceu, não po­rém sem pequena restrição:

Estou informado, pela diretoria do vosso Hos­pital, das conveniências que cabem aos aprendizes aqui presentes. Concordarei portanto em apresentar-lhes pe­queno panorama do local onde alojamos os pobres pu­pilos responsáveis por tantos delitos, justamente a Torre que nos fica fronteira. Ali estão localizadas as chama­das prisões, e ali são eles custodiados sem interrupção, como jamais o seriam prisioneiros na Terra!

Devo inteirar-vos de que tais obsessores se encon­tram já em vias de regeneração. Sacodem-lhes o pesado torpor em que têm mantido as consciências os embates aflitivos dos primeiros remorsos. Acovardam-se com o fantasma do futuro. Bem percebem o que os espera na angustiosa plaga das expiações, sob o ardor das varia­das reparações que terão de testemunhar mais tarde ou mais cedo. Amedrontados ante o vulto infamante das próprias culpas, supõem que, enquanto resistirem aos convites que diariamente recebem para a regeneração, es­tarão isentados daquelas obrigações... Daqui, porém, não lograrão sair, reavendo a liberdade, sem que o arre­pendimento marque roteiro novo para suas consciências denegridas pela blasfêmia do pecado... ainda que per­maneçam enclausurados durante séculos — o que não émuito provável venha a dar-se.

Oh, meus caros amigos, vós, que iniciais os primei­ros passos nas sendas redentoras dessa Ciência Divina que redime e eleva o caráter da criatura, seja homem ou Espírito! Oh, vós, cuja visita ao meu posto humilde de trabalhador da Seara do Senhor tanto me honra e desvanece! Colaborai comigo e meus auxiliares desta espinhosa seção do Departamento de Vigilância! Colaborai com a direção deste Instituto, sobre cuja respon­sabilidade pesam tantos destinos de criaturas que devem marchar para Deus! Cooperai com a Legião dos Servos de Maria e com a causa da Redenção, esposada pelo Mestre Divino, orando fervorosamente por estas ovelhas transviadas que resistem ao doce chamamento do seu Meigo Pastor! Seja o primeiro ato com que iniciareis a caminhada extensa das reparações que devereis prati­car — o gesto da sublime caridade que irá reacender seus imortais aromas de beneficências no seio amoroso do Cristo de Deus: — a Prece pela conversão destes in­felizes trânsfugas da Lei, que se arrojaram, temerários e loucos, ao mais tenebroso e trágico báratro a que épossível chafurdar-se a criatura dotada de raciocínio e livre-arbítrio! Orai! E afianço-vos, acreditai! — que te­reis começado formosamente a programação das ações que devereis realizar para a confirmação do vosso pro­gresso!

Porém, são eles aqui — continuou, depois de uma pausa que não ousamos profanar com nenhuma indis­crição — assistidos por dedicados zeladores. Levada em conta a ignorância fatal de que deram mostras, esco­lhendo a prática do mal, único atenuante com que podem contar a fim de merecerem proteção e amparo, a mise­ricórdia exposta na Lei que nos rege ordena lhes forne­çamos ensino e esclarecimentos, meios seguros de se reabilitarem para o reingresso nas vias normais da evo­lução e do progresso, elementos com que combatam, eles mesmos, as trevas de que se rodearam. Para isso, re­tendo-os, cassando-lhes a liberdade, de que muito e mui­to abusaram, damos-lhes conselheiros e elucidadores, vul­tos traquejados no segredo das catequeses de selvagens e nativos das regiões bárbaras da Terra, tais como da África, da Indochina, das Américas, da Patagônia dis­tante e desolada...

Vinde... e assistireis, através de nossos aparelhos de visão a distância, ao que se passa na Terra fronteira...

Encaminhou-se a um vasto salão que se diria gabi­nete de fiscalização geral do diretor. Mobiliário sóbrio, utensílios de estudo e farto aparelhamento de transmis­são da palavra e da visão, permitindo rápido entendi­mento com toda a Colônia, era tudo o que compunha o solitário compartimento. Fez-nos sentar, e ao passo que se conservava de pé qual mestre que era no mo­mento, prosseguiu na sua atraente elucidação:

“— Eis em que consistem as “prisões” neste recanto sombrio do Instituto Maria de Nazaré..

Aproximou-se dos aparelhamentos televisionadores, acionou-os destramente... e encontramo-nos miraculo­samente em extensa galeria cujas arcadas, lembrando antigos claustros, exprimiam o estilo português clássico, que tanto nos falava à alma.

Não sei se as ondas fluido-magnéticas que se im­primiam como veículo desses aparelhos teriam o poder de se infiltrarem pelas fibras do nosso físico-astral, ca­sando-se às irradiações que nos eram próprias; não sei se, irradiando suas propriedades ignotas pelo ambiente, nos predispunham a mente para o alto fenômeno da su­gestão lúcida ou se seria esta o fruto poderoso da força mental dos mestres do magnetismo psíquico que inva­riavelmente nos acompanhavam quando nos levavam a examinar as transmissões, O certo era que, naquele momento, tínhamos a impressão de que caminhávamos, realmente, por aquela galeria toda envolvida em pesada penumbra, o que transmitia penosas impressões de an­gústia e temor aos nossos inexperientes Espíritos.

De um lado e outro da galeria, as “enxovias” apre­sentavam-se aos nossos olhos surpresos como pequenos recintos para estudo e residência, tais como sala de aula, refeitório e dormitório, oferecendo conforto suficiente para não chocar o recluso com a humilhação da neces­sidade insolúvel, predispondo-o à desconfiança e à re­volta. Dir-se-iam pequenos apartamentos de internato modelar, em o qual o aluno recebesse hospedagem indi­vidual, pois esses aposentos eram para habitação de ape­nas um prisioneiro!

Não me pude conter e atrevi-me a externar impres­sões, dirigindo-me a Padre Anselmo:

“— Pois quê? !... Vejo aqui um educandário, não uma prisão!... Rodeados de amplas janelas e belos e sugestivos balcões por onde penetram ventos sadios, des­guarnecidos de grades e de sentinelas, estes aposentos convidam antes ao recolhimento, à meditação e ao estudo proveitoso, dado o silêncio inquebrantável de que se ro­deiam... Oh! bem vejo a influência generosa de eméritos missionários educadores, afeitos à direção de ins­tituições escolares, não carcereiros a se imporem pela violência!...”

“— Sim — redargüiu sorrindo o nobre governador da Torre —, cumprimos os dispositivos das leis de amor e Fraternidade, sob as normas essencialmente educado­ras do Mestre Magnífico. Realmente, não nos cumpre castigar quem quer que seja, por mais criminoso que se afigure, porqüanto nem Ele o fez! Nosso dever é instruir e reeducar, levantando o ânimo decaído, o caráter vaci­lante, através de elucidações sadias, para a regeneração pela prática do Bem!... pois que a punição, o castigo, o próprio delinqüente os traz dentro de si, com o in­ferno em que se converteu sua consciência ininterrupta­mente conflagrada por mil diferentes aflições... o que dispensa atormentá-lo com mais castigos e represálias! Ele próprio é que se julgará e em si mesmo aplicará as punições que merecer... Quereis um exemplo vivo, dos mais sugestivos .... Prestai atenção...”

Aproximou-se de um daqueles aparelhos que orna­vam a sala, acionou atentamente um novo botão lumi­noso e, enquanto se reproduzia no espelho magnético um vulto masculino, em tudo semelhante a nós outros, no vigor dos quarenta anos, ia gentilmente elucidando sempre:

“— Eis um dos temíveis obsessores, chefe de peque­na falange de entidades endurecidas e maldosas, porta­dor de múltiplos vícios e degradações morais, criminoso e suicida, que arrastou ao seu abismo de vileza e misé­rias quantos incautos — desencarnados e encarnados —pôde seduzir e convencer a segui-lo, e cujos crimes avultam com tal gravidade nos códigos das leis divinas que não nos admiraríamos ver chegar, de uma para ou­tra hora, ordens do Alto para o seu encaminhamento aos canais competentes para uma reencarnação expiató­ria fora do Globo Terrestre, em planeta ainda inferior à Terra, ou para um estágio espiritual em suas circun­vizinhanças astrais, em os quais, num período relativa­mente curto, poderia expiar débito que na Terra requereriam séculos! Tal cometimento, todavia, seria medida drástica que repugnaria à caridade e ao inimaginável amor do nosso Meigo Pastor, o qual preferirá, primeira­mente, esgotar todos os recursos lógicos e legais para persuadir ao arrependimento assim como à regeneração, servindo-se da grande ternura e piedade de que só Ele sabe dispor!

Maria intercedeu por este infeliz, junto a seu Divino Filho, enquanto a nós outros recomendou a máxima pa­ciência, a mais fecundas expressão de caridade e de amor de que formos capazes, a fim de serem aplicados no seu lamentável caso! Assim é que, prisioneiro embora, como o vedes, recebe sem interrupção toda a assistência moral, espiritual e até “física”, se assim me posso expressar, que a sua natureza animalizada e grosseira requisita. A moral cristã, que absolutamente desconhece, é-lhe for­necida diariamente, como alimento indispensável de que não pode prescindir, na indigência chocante em que se encontra... E recebe-a através do ensino do Evangelho bendito, durante aulas coletivas, figuradas e encenadas, como presenciastes naquelas reuniões terrenas a que fostes conduzidos, as quais não são mais do que peque­nos postos auxiliares dos serviços realizados no Invisí­vel e é, como os demais alunos prisioneiros, ajudado a examinar os excelsos ensinos do Redentor e a confron­tá-los com as ações que lhe foram próprias... aquele Redentor que, fiel à Sua finalidade de Mestre e Salvador, estende-lhe a mão compassiva, levando-o a erguer-se do pecado!

Nossos métodos, todavia, mantêm outra espécie de ensinamento, enérgico, quase violento, ao qual somen­te os iniciados poderão atender, dada a delicadeza da operação a ser tentada, que requer técnica especial... Por essa razão esta parte será sempre confiada a um especializado dos mais populares em nossa Colônia —um técnico — Olivier de Guzman, a quem conheceis como diretor do Departamento de Vigilância. Acumula ele, assim, tarefas das mais melindrosas, não só por ser esse o dever que lhe cumpre, visto que na Seara do Senhor jamais o bom obreiro estará inativo, como também de­vido à escassez de trabalhadores, a que me referi. Apre ciai o que se passa no apartamento deste réu-aluno e avaliai por vós mesmos..

Com efeito! Sentado à mesa de estudo, as faces en­tre as mãos, em atitude de desânimo ou preocupação profunda; cabelos revoltos, cheios e ondulados; semblan­te atormentado por pensamentos conflagrados, que emi­tiam em torno do cérebro evaporações espessas quais nuvens plumbeas, encontrava-se o prisioneiro, ali, à nos­sa frente, como presente no mesmo salão em que nos achávamos! Surpreendidos, porém, nesse terrível obses­sor reconhecemos apenas um homem, simplesmente um homem — ou um. Espírito que fora homem! — mas não um ser fantástico! Um Espírito apartado das formas carnais, é certo, mas trazendo a configuração humana, grosseira e pesada, indiciando a inferioridade moral que o distanciava da espiritualidade! Trajava tal como no momento em que sucumbira, em sua organização carnal, sob o golpe do suicídio: — calça de fino tecido de lã preta, o que indicava que, na Terra, fora personagem de elevado trato social, e camisa de seda branca com punhos e peitilho de rendas de Flandres. A julgar pela indumentária entrevista fomos levados a crer que não andaria longe de um século sua estada entre as som­bras da maldade do plano invisível, o que às nossas pro­fundezas anímicas levou penoso frêmito de compaixão. A altura do coração, apesar do longo tempo decorrido, o estigma trágico denunciava-o como integrante da si­nistra falange de réprobos à qual também pertencíamos:

— o sangue, vivo e fresco, como se houvera começado a jorrar naquele momento, derramava-se de largo ori­fício produzido certamente por florete ou punhal, fer­reteando impiedosamente o físico-astral; derramava-se sempre, ininterruptamente, apesar do tempo, como se se tratasse antes da impressão do fato ocorrido, sobre a mente alucinada e trevosa do desgraçado!

Eis, todavia, que entrava o mestre que o assistia, o qual, piedosamente, ia, de aposento a aposento, acen­der nos corações incultos daqueles míseros delinqüentes as lâmpadas estelíferas do Conhecimento, a fim de que se norteassem com elas a estradas mais compensadoras!

O antigo obsessor levantou-se respeitoso, fazendo vênia própria de um gentil-homem. Olivier de Guzman — pois era ele o mestre — cumprimentou-o carinhosa­mente:

“— A paz do Senhor seja contigo, Agenor Peffalva !“

O réu não respondeu, conservando-se de cenho con­trafeito; e, a um sinal daquele, sentou-se novamente à mesa, enquanto o guia formoso permanecia de pé.

Fisionomia grave, atitudes delicadas, conversação pa­ternal, Olivier de Guzman, que, como os demais iniciados superiores, trajava a indumentária da bela e operosa falange a que pertencia, entrou a expor ao discípulo a explicação do dia, fazendo-o anotá-la em cadernos, isto é, levando-o a analisá-la, a meditar sobre ela a fim de cuidadosamente imprimi-la na mente. No dia imediato deveria o discípulo apresentar a resenha das conclusões feitas em torno do assunto ventilado. Consistia essa aula, por nós presenciada, em importante tese sobre os direitos de cada indivíduo, assim na sociedade terrena que na astral, à luz da Lei Magnânima do Criador; nos direitos de mútuo respeito, solidariedade e fraternidade que a Humanidade a si mesma deve na harmoniosa cadeia das ações de cada criatura em torno de si mesma e dos seus semelhantes. Analisaria o aluno a tese melin­drosa em presença das próprias ações cometidas duran­te a existência última, que tivera na Terra, e durante a permanência no Invisível até aquela data, confrontan­do-as ainda com as normas expressas nas leis que regem o mundo astral e nos códigos da moral cristã, indispen­sáveis ao progresso e bem-estar de todas as criaturas, e dos quais vinha ele recebendo esclarecimentos havia já algum tempo. Ao aluno assistia o direito de apre­sentar objeções, indagar em torno de dúvidas que pu­desse ter, e até de contestar... observando nós outros o volume de preciosos esclarecimentos fornecidos pelo mestre a cada contestação do endurecido discípulo! (12)



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