Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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(12) Seria uma como “doutrinação” levada a efeito pelo Guia, como as que costumamos assistir nas sessões experimentais bem dirigidas, de Espiritismo, certamente avantajada pelas cir­cunstâncias e pela sabedoria do expositor.­
E tal labor, da exclusiva competição da consciência, po­deria ser tentado por todos os reclusos, independendo de cultura intelectual!

Perplexos diante da intensidade e extensão dos ser­viços na Torre, indagamos do paciente elucidador:

“— Uma vez que este pobre Espírito se convença da necessidade do Bem, para onde será encaminhado?... Que vai ser dele?... E por que obtém, apesar da má-vontade manifesta, mestre de tal valor, lições profun­díssimas como as que presenciamos, ao passo que nós outros, que nos dispomos a trilhar o futuro de boamen­te, através de vossos conselhos, mal vislumbramos esses iniciados que tanto nos agradam, e nem conseguimos sequer um texto onde aprendamos as leis que nos re­gerão daqui por diante, quanto mais apetrechos de es­crita!. .

Foi concludente a resposta e não se fer esperar:

“— Em primeiro lugar — esclareceu Padre Ansel­mo —, não devíeis esquecer que sois enfermos a quem somente agora concederam alta do Hospital, e mais que, havendo ingressado há apenas três anos neste abrigo, não passais de recém-chegados que nem mesmo concluí­ram o reajustamento psíquico... Tão flagrante diferen­ça, aliás, se patenteia nas vossas mútuas condições, que não admitem sequer um confronto para discussões! Não vos adinireis, portanto, que esse, que acolá observamos, obtenha o que parece imerecido... Vossa época de ilu­minação virá a seu tempo e não perdereis por espe­rá-la... Há trinta e oito anos ingressou Agenor Peflalva nesta Torre e só agora concorda em aplicar-se ao in­dispensável estudo de si mesmo para acatar a Lei e minorar a situação própria, que lhe vem pesando amarguradamente... De outro lado, justamente devido à inferioridade moral de que se rodeia, necessita maior vigi­lância e assistência do que vós, cujos pendores para a conversão à Luz muito bem auguram para o futuro...

Trabalho prolongado tem requerido o endurecimento do coração em que se entrincheirou aquele pecador, te­meroso qual se sente das conseqüências futuras dos des­baratos que converteram em trevas a sua vida. Fora mesmo necessária a perseverança paternal de um Olivier de Guzman, afeito ao trato com os nativos do Norte e semibárbaros do Oriente, a fim de convencer o grande transviado que aí tendes ao encorajamento para a emen­da! Voltará ele muito breve à reencarnação! Encontra-se excessivamente prejudicado, em suas condições mentais, para que seja lícito conduzir-se a situações de verda­deiro progresso! Só uma existência terrena longa, dolo­rosa, operando-lhe decisivas transformações mentais, por alijar da consciência, sobrecarregada de sombras, con­siderável bagagem de impurezas, permitir-lhe-á ensejos para novos traçados na rota do progresso normal... E é a fim de convencê-lo satisfatoriamente a tal resolução, sem jamais obrigá-lo; é no intuito de prepará-lo para a aquisição de forças suficientes para as pelejas arden­tes que enfrentará nos proscênios terrestres, que assim o detemos, procurando moralizá-lo o mais possível, re­conciliando-o consigo mesmo e com a Lei! Se o não fizermos, sua próxima e inevitável reencarnação tornará ao mesmo círculo vicioso em que têm degenerado as demais, o que absolutamente não convém a ele e tampouco a nós outros, visto que por sua reeducação nos responsabilizamos perante a mesma Lei!

Continuai, porém, observando o que se passa em seus aposentos. .

Prestando seguidamente a máxima atenção, fomos surpreendidos com acontecimentos que se desenrolaram com precipitação, os quais por sua natureza altamente educativa merecem narrados com especial carinho.

A um gesto do preceptor, vimos que o paciente le­vantou-se a fim de acompanhá-lo submissamente, como tocado por influências irresistíveis. Caminharam ao lon­go da galeria extensa, onde se localizavam as “prisões” dos abrigados, Olivier à frente. Penetraram, dentro em pouco, espaçosa sala, espécie de gabinete de experimen­tações científicas. Dir-se-ia um tabernáculo onde nustérios sacrossantos se desvendavam, afirmando ao obser­vador o quanto conviria aprender e progredir em psi­quismo, para se tornar merecedor da herança imortal que o Céu legou ao gênero humano.

O citado gabinete mantinha-se perenemente saturado de vaporizações magnéticas apropriadas à finalidade para que fora organizado, as quais suavemente emitiam fos­forescências azuladas, tênues, sutis, quase imperceptíveis à nossa visão ainda muito débil para as coisas espirituais, e absolutamente invisíveis à percepção embrutecida da­quele que nelas penetrava a fim de se submeter à ope­ração conveniente. Sobre um tablado polido como o cris­tal via-se uma cadeira estruturada em substâncias que igualmente se assemelhavam à transparência do cristal, mas pelo interior da qual perpassava um fluído azul, fosforescente, como sangue que corresse pelos canais ar­teriais de um envoltório carnal, desde que fossem acionados botões minúsculos, quais pequeninas estrelas, que se apresentavam no conjunto de todo o estranho apare­lhamento. À frente da singular peça, congênere daquela existente na sala de recepções do Hospital, onde assistí­ramos ao fenômeno do nosso próprio desprendimento da organização material, retrocedendo mentalmente até à data do suicídio, sob a direção de Teócrito e a assistên­cia de Romeu e Alceste, destacava-se um quadrângulo de cerca de dois metros, fulgurante qual espelho, placa fluido-magnética ultra-sensível, capaz de registrar, em sua imaculada pureza, a menor impressão mental ou emocional de quem ali se apresentasse, e a qual vimos ensombrar-se gradativamente, à entrada de Agenor, como se hálito impuro a houvesse embaciado.

Insofrido e curioso perquiri, pondo reparo no apa­relho e descuidando-me da discrição que conviria con­servar:

“— Dir-se-ia um gabinete de fenomenologia trans­cendental! Qual a utilidade disto, Revmo. Padre?...”

“— Raciocinais bem! Com efeito, trata-se de um sa­crário de operações transcendentalissimas, meu amigo! O aparelhamento que vedes, harmonizado em substâncias extraídas dos raios solares — cujo magnetismo exercerá a influência do ímã —, é uma espécie de termômetro ou máquina fotográfica, com que costumamos medir, repro­duzir e movimentar os pensamentos... as recordações, os atos passados que se imprimiram nos refolhos psíqui­cos da mente, e que, pela ação magnética, ressurgem, como por encanto, dos escombros da memória profun­da de nossos discípulos, para impressionarem a placa e se tomarem visíveis como a própria realidade que foi vivida’

Um frêmito de terror sacudiu nossa fibratura psí­quica. O primeiro ímpeto que tivemos, ouvindo a respos­ta sucinta quanto profunda em sua vertiginosa amplitude, fora o de fugir, apavorados que ficamos ante a perspec­tiva de vermos também nossos pensamentos e ações passadas, assim devassados.

Intimamente presumíamos que nossos mentores co­nheciam minuciosamente quanto nos dizia respeito, sem exceção mesmo do pensamento. Mas a discrição, a ca­ridade desses incomparáveis amigos, que jamais se pre­valeciam de tal poder para afligir-nos ou humilhar-nos, nos deixavam à vontade, prevalecendo em nosso imo a cômoda opinião de que seríamos inteiramente ignorados. O que, porém, em verdade nos alarmava não era o ser­mos totalmente conhecidos deles, mas a possibilidade de vermos, nós mesmos, essas fotografias do passado; de assistirmos, nós mesmos, às monstruosas cenas que fatalmente se refletiriam no insuspeitável espelho, ana­lisando-as e medindo-as, o que inesperadamente surgia para nós como patíbulo infamante que nos aguardaria com um novo gênero de suplício!

“— Uma entidade iluminada — continuou explican­do o lente emérito, diretor interno da Torre de Vigia —, já educada em bons princípios de moral e ciência, não se utilizará desses aparelhos quando deseje ou necessite extrair dos arquivos da memória os pensamentos pró­prios, as recordações, o passado, enfim Bastar-lhe-á a simples expressão da vontade, a energia da mente acio­nada em sentido inverso... e se tornará presente o que foi passado, vivendo ela os momentos que foram evo­cados, tal como os vivera, realmente, outrora! Para a reeducação doa inexperientes, porém, assim dos inferio­res, tornam-se úteis e indispensáveis, motivo pelo qual os utilizamos aqui, facilitando sobremodo o nosso serviço.

Todavia, tudo quanto obtivermos da mente de cada um será para nós como sacrossanto depósito que jamais será atraiçoado, podendo-se mesmo adiantar que apenas o mestre instrutor do paciente será o depositário dos seus terríveis segredos, guardando-os zelosamente para instrução do mesmo, pois assim determinam as leis da caridade. Esporadicamente, como neste momento, pode­remos algo surpreender, visto tratar-se da iluminação da coletividade, ainda com maior razão quando essa co­letividade se anima da boa-vontade para o progresso e do critério que vemos irradiando de vós outros...”

No entanto, Âgenor, visívelmente apavorado com a feição que iam tomando os acontecimentos, apelou para a mistificação, ignorando a alta mentalidade daquele por quem era servido, o qual piedosamente se diminuiu a fim de ser melhor compreendido:

Não senhor, meu mestre, não senhor! Não fui mau filho para meus pais!... As anotações que ontem apresentei dessa particularidade de minha vida são ver­dadeiras, juro-vos!... Existe, por certo, algum engano no pormenor que vos levou a rejeitá-las!... Engano e rigor excessivo para comigo!... Fazeis-me escrever as normas de um bom filho, de acordo com as leis do Senhor Deus Todo-Poderoso, que eu temo e respeito! Quereis que, mais uma vez, eu as estude para, amanhã, expor minhas recordações em torno de minha condição de fi­lho, nas páginas do diário íntimo que sou forçado a criar, analisando-as em confronto com aquelas normas... Porém, se tenho certeza do que venho afirmando em torno de minhas recordações, para que tão exaustivo la­bor?... Peço-vos, antes, encaminheis a quem de direito o meu rogo de libertação... Por que me fazem sofrer tanto?... Não existe, pois, perdão e complacência na lei do bom Deus, que eu tanto amo?... pois sou profun­damente religioso... e estou arrependido dos meus gran­des pecados... Encontro-me aqui há tantos anos!... Passei por infernais calabouços, nas mãos da horda mal

vada que me arrebatou, após o suicídio, para sua ban­da... Atormentado, vaguei por ilhas desertas, antes de me submeter aos seus detestáveis desejos... Enfrentei as fúrias tétricas do oceano, abandonado e perdido so­bre rochedos solitários... Durante dez anos me vi acor­rentado à cova imunda de um cemitério, onde sepultaram meu corpo asqueroso, enlameado e fétido! Perseguido fui por grupos sinistros de inimigos vingadores; batido como cão raivoso, maltratado como um réptil, corroí­do por milhões de vermes que me enlouqueceram de hor­ror e angústia, sob a tortura suprema da confusão que nada permite esclarecer, sem lograr compreender a trá­gica aflição de sentir-me vivo e deparar-me sepultado, apodrecido, devorado por imundos vibriões!... Carregaram-me prisioneiro, os malvados, atado de cordas resis­tentes, e prenderam-me na própria sepultura em que jazia... bem... quero dizer... Vós já o sabeis, meu mestre... Em que jazia aquela que eu amei... Sim! Que eu desgracei e depois assassinei, temendo represá­lias da família, visto tratai-se de uma menina de quali­dade aristocrata... Ninguém jamais identificou o assas­sino... Mas aqueles malvados sabiam de tudo e depois do meu suicídio vingaram a morta... De tal forma me vi perseguido que, a fim de me libertar de tal jugo e eximir-me dos maus tratos que recebia, tive de unir-me ao bando e tomar-me um similar, pois era essa a alter­nativa que ofereciam... Devo, portanto, ter muitas ate­nuantes... Depois, além do mais, aprisionado por lan­ceiros, emasmorrado no Vale Sinistro, onde padeci nova série de horrores... E agora, nesta Torre, tolhido em minha liberdade, sem sequer poder recrear-me pelas ruas de Madrid, que eu tanto amava, nem respirar o ar puro e fresco dos campos, como tanto me apraz!... Sou ou não sou filho do Bom Deus?!... Ou serei irmão do pró­prio Satanás?!...”

Demonstrando a mais singular serenidade, replicou o mentor generoso:

Em ouvindo alguém estranho as tuas eternas queixas, Agenor Peflalva, suporia que se cometem injus­tiças no recinto iluminado pelos almos favores da Mag nânima Diretora da nossa Legião!... No entanto, a longa série de infortúnios que expuseste teve origem apenas nos excessos pecaminosos dos teus próprios atos e na truculência dos instintos primitivos que conservas... Há trinta e oito anos vens sendo pacientemente exortado a uma reforma Intima, que te assegure situações menos ingratas! Porém, negas-te sistematicamente a toda e qualquer experiência para o bem, enclausurado na má-vontade de um orgulho que te vem intoxicando o Espí­rito, por tolher os movimentos a prol dos progressos que de há muito deverias ter concretizado! Grande compla­cência há-se desenvolvido aqui, em torno de ti, apesar de não a reconheceres! Bem sabes que tua retenção em nosso círculo de vigilância equivale à proteção contra o jugo obsessor da falange que chefiavas, assim como não ignoras que de ti depende a obtenção da liberdade que tanto almejas! Jamais foste molestado aqui. Te­souros espirituais diariamente te oferecemos desejosos que somos de ver-te enriquecido com a aquisição das luzes que deles se irradiam! Hóspede da Legião de Maria, foste por Ela recomendado à direção deste Instituto, no sentido de não concertarmos tua volta ao círculo carnal - à reencarnação — sem que positivasses grau de pro­gresso eficiente para o bom êXItO dos futuros testemu­nhos terrenos, que serão duros, dada a gravidade dos teus débitos no conceito da Lei!

Diariamente são expostos ao teu exame os motivos por que tua liberdade foi tolhida. Sabes que és culpado. Sabes que arrastaste ao sorvedouro do suicídio uma de­zena de homens incautos, que se deixaram embair pelas funestas sugestões das tuas manhas de obsessor inteli­gente... desgraçando-os pelo simples prazer de praticar o mal ou por invejá-los de algum modo... assim como outrora, quando homem, desvirtuavas pobres donzelas enamoradas e levianamente confiantes, levando-as ao sui­cídio com a amarga traição com que as decepciona­vas — prenúncios do obsessor que futuramente serias... Mas teu orgulho sufoca as conclusões lógicas do raciocínio e preferes a revolta e o sofisma por mais cômodos, fur­tando-te às responsabilidades por permaneceres dilatan do a aceitação de compromissos que te apavoram, porque tens medo do futuro que tu mesmo preparaste com as iniqüidades que houveste por bem praticar! Agora, po­rém, existem ordens superiores a teu respeito: — urge apressemos tua marcha para o progresso, forrando-te da permanência indefinida no circulo vicioso que te pro­longa os sofrimentos. Para que ponhamos fim a tão lamentável estado de coisas, faremos a experiência su­prema! Quiséramos evitá-la por dolorosa, concedendo-te prazo mais que justo para, por ti mesmo, procurares o caminho da reabilitação. Advirto-te de que, a partir deste momento, diariamente farás um exame sobre ti mesmo, provocado por nós, lento, gradativo, minucioso, que te faculte a convicção da urgência na reforma inte­rior de que careces... Sei que será penoso tal cotejo. Provocaste-o, porém, tu mesmo, com a resistência em que te vens mantendo para o ingresso nas vias do reer­guimento moral!

Foste bom filho para teus pais, dizes... Tanto me­lhor, nada deverás temer ante a evocação desse passa­do! Será, portanto, por esse confronto que iniciaremos a série das análises necessárias ao teu caso, uma vez que o primeiro dever que cabe ao homem cumprir na socie­dade em que vive será no santuário do lar e da Família!

Vejamos, pois, os méritos que terás como filho, pois todos os que possas ter serão rigorosamente creditados em teu favor, suavizando tuas futuras reparações:

Agenor Peflalva! Senta-te à frente deste espelho, sob o pálio magnético que irá fotografar teus pensamen­tos e recordações! Volta tuas atenções para a época dos teus cinco anos de idade, na última existência que ti­veste na Terra! Rememora todos os atos que praticaste em torno de teus pais... de tua mãe em particular!... Assistirás ao desfile de tuas próprias ações e serás jul­gado por ti mesmo, por tua consciência, que neste mo­mento receberá o eco poderoso da realidade que passou e da qual não se poderá furtar, porque foi fiel e rigo­rosamente arquivado nos refolhos iniperecíveis da tua alma imortal!...­­”

Como todo Espírito grandemente culpado, no mo­mento preciso Agenor quis tentar a evasão. Encurra­lou-se, de súbito, a um ângulo do aposento, bradando apavorado, no auge da aflição, o olhar desvairado de per­feito réprobo:

“— Não senhor, meu mestre, por obséquio, éu vo-lo suplico!... Deixai-me regressar ao meu aposento ainda esta vez, para novo preparo! Eu...”

Mas, pela primeira vez desde que ingressáranlos no magno educandário, soou aos nossos ouvidos uma ex­pressão forte e autoritária, proferida por um daqueles delicados educadores, pois que Olivier de Guzman repetiu com energia:

“— Senta-te, Agenor Pefialva! Ordeno-te!”

O pecador sentou-se, dominado, sem mais proferir uma palavra! Suspendêramos a própria respiração. O silêncio estendera-se religiosamente. Dir-se-ia que a ve­nerável cerimônia recebia as bênçãos da assistência ia­crossanta do Divino Médico das almas, que desejaria pre­sidir ao cotejo da consciência de mais um filho pródigo prestes a se encaminhar para os braços perdoadores do Pai.

Agenor parecia muito calmo, agora. Olivier, cujo semblante se tornara profundamente grave, como se con­centrasse as forças mentais à mais alta tensão, acomo­dou-o convenientemente, envolvendo-lhe a fronte numa faixa de tessitura luminosa, cuja alvura transcendente denunciava-a como originando-se da própria luz solar. A faixa, no entanto, que lembraria uma grinalda, pren­dia-se ao pálio que cobria a cadeira por fios luminosos, quase imperceptíveis, de natureza idêntica, o que nos levou a deduzir ser o pálio o motor principal desse me­canismo tão simples quanto magnífico na sua finalidade. A tela, por sua vez, igualmente ligava-se ao pálio por múltiplas estrias lucilantes, parecendo harmonizada no mesmo elemento de luz solar.

A voz do mentor elevou-se, porém, autoritária, en­volvida, não obstante, em intraduzíveis vibrações de ter­nura: “— Contas cinco anos de idade, Agenor Peflalva, e resides no solar paterno, nos arredores de Málaga... o único filho varão de um consórcio feliz e honrado... e teus pais sonham preparar-te um futuro destacado e brilhante!... São profundamente religiosos e praticam nobres virtudes de envolta com as ações diárias.. aca­riciando o ideal de te consagrarem a Deus, fazendo-te envergar a alva sacerdotal... Acorda dos refolhos da alma tuas ações como filho, em torno de teus pais... de tua mãe particularmente! Faze-o sem vacilar! Estás em presença do Criador Todo-Poderoso! que te forneceu a Consciência como porta-voz de Suas Leis’.. .“

Então, surgiu para nossas vistas assombradas o me-narrável em linguagem humana! O pensamento, as re­cordaçôes do desgraçado, seu passado, suas faltas, seus erimes mesmo, como filho, em torno de seu.s pais, tra­duzidos em cenas vivas, movimentaram-se no espelho sensível e impoluto, diante dele, retratando sua própria imagem moral, para que ele a tudo assistisse, revendo-se com toda a hediondez das quedas em que soçobrara, como se sua Consciência fosse um repositório de todos os atos por ele praticados, e os quais, agora, arrebatados do fundo da memória adormecida, por transcendentalíssima atração magnética, se levantassem eonflagrados, esma­gando-o com o peso insuportável da tenebrosa realidade!

A lamentável história dessa personagem — assassi­no, suicida, sedutor, obsessor — ocuparia um volume pro­fundamente dramático. Furtamo-nos ao desejo de narrá­-la. Para o complemento do presente capítulo, porém, apresentaremos pequeno tópico do que presenciamos na­quela memorável tarde de além-túmulo, e que julgamos não será totalmente destituído de interesse para o lei­tor... já que, infelizmente, nem hoje são comuns os fi­lhos modelos no respeitável instituto da Família terrena!

— Desde os primeiros anos da juventude fora Agenor Pefialva filho indócil e esquivo à ternura e ao respeito dos pais. Não reconhecera jamais na so­licitudes de que era alvo: — seus pais seriam es cravos cujo dever consistiria em servi-lo, preparan­do-lhe condigno futuro, pois era ele o senhor, isto é, o filho!

— Na intimidade do lar mantinha atitudes in­variavelmente despóticas, hostis, irreverentes, cruéis! Fora do lar, porém, prodigalizava amabilidades, afa­bilidades, gentilezas!

— Insubmisso a toda e qualquer tentativa de corrigenda.

— Desejosos de lhe garantirem futuro isento de trabalhos excessivos, nas duras lides dos campos agrícolas, que tão bem conheciam; e sabendo-o, ao demais, ambicioso e inconformado com a obscurida­de do nascimento, arrojaram-se os heróicos genito­res a sacrifícios imensuráveis, mantendo-o na capital do Reino e pagando-lhe os direitos para a aquisição de um lugar na companhia dos exércitos do rei, visto que não sentira atração para a vida eclesiás­tica, desencantando logo de início o ideal paterno. Pretendera antes a carreira militar, mais concorde com as aspirações mundanas que o arrebatavam, e que facilitaria, ao demais, o ingresso em ambientes aristocráticos, que invejava.

— Envergonhara-se da condição humilde daque­les que lhe haviam dado o ser e velado abnegadamen­te por sua vida e bem-estar desde o berço; repudiou o honrado nome paterno, de Peflalva, por outro fic­tício que melhor retumbasse a ouvidos aristocratas, proclamando-se mentirosamente descendente de ge­nerais cruzados e nobres cavaleiros libertadores da Espanha do jugo árabe.

— Com o falecimento do velho pai, a quem não visitara durante a pertinaz enfermidade de que fora vítima, desamparou desumanamente a própria mãe! Arrebatou-lhe os bens, sorveu-lhe os recursos com que contava para a velhice, esquecendo-a na Provín­cia, sem meios de subsistência.

— Fê-la verter as inconsoláveis lágrimas da de­silusão em face da ingratidão com que a brindara quando mais a vira carente de proteção e carinhos, legando-a a dolorosa via crucis de humilhações pelo domicílio de parentela afastada, onde a mísera re­presentava estorvo indesejável!

— Negou-se a recebê-la em sua casa de Ma­drid — pobre velha rude no trato, simples no lingua­jar, rústica na apresentação —, pois era sua casa fre­qüentada por personagens destacadas entre a alta burguesia e a pequena nobreza, em cuja classe con­traira matrimônio, fazendo-se passar por nobre.

— Encaminhou-a secretamente para Portugal, visto que teimava a pobre criatura em valer-se da sua proteção na miséria insolúvel em que se via soçobrar. Enviou-a a um seu tio paterno que havia muito se transferira para o Porto. Fizera-o, porém, aereamente, sem se certificar do paradeiro exato do aludido afim. Sua mãe, assim, não lograra localizar o cunhado que ali já não residia, e perdera-se em terras lusitanas, onde fora acolhida por favor pelos compatriotas piedosos.

— Escreveram-lhe os mesmos compatriotas, par­ticipando-lhe a angustiosa situação da genitora, que novamente lhe implorava socorro. Não respondera, desculpando-se perante a consciência com determi­nada viagem que empreenderia dentro em breve.

- Com efeito, alimentando ideais desmedida-mente ambiciosos, transferira-se para a América lon­gínqua, abandonando até mesmo a esposa, a quem iludira com falaciosas promessas, e a fim de fur­tar-se a conseqüências de revoltante caso passional, no qual mais uma vez assumira a qualidade de algoz, seduzindo, vilipendiando e até induzindo ao suicídio pobre e simplória donzela de suas relações. Desin­teressando-se, assim, completamente de sua mãe, abandonou-a para sempre, vindo a infeliz velhinha ao extremo de arrastar-se miseravelmente pelas vias públicas, à mercê da caridade alheia, enquanto ele prosperava na livre e futurosa América!

Eram quadros dramáticos e repulsivos, que se suce­diam em cenas, de um realismo comovedor, angustiando-nos a sensibilidade, desgostando os mentores presentes, que baixavam a fronte, entristecidos.

Agenor, porém, que, a princípio, parecera sereno, exaltara-se gradativamente, até o desespero; e, chorando convulsivamente, agora bradava, em gritos alarmantes, que o poupassem e dele se compadecesse o instrutor, re­pelindo as visões como se o próprio inferno ameaçasse devorá-lo, o semblante congesto, enlouquecido por su­prema angústia, atacado da fobia cem vezes torturadora dos remorsos!

“— Não! Não, meu mestre, mil vezes não! — voci­ferava entre lágrimas e gestos dramáticos de desespe­rada repulsa. — Basta, pelo amor de Deus! Não posso! Não posso! Enlouqueço de dor, meu bom Deus! Mãe! Minha pobre mãe, perdoa-me! Aparece-me, minha mãe, para eu saber que não amaldiçoas o filho ingrato que te esqueceu, e me sentir possa aliviado! Socorre-me com a esmola do teu perdão, já que não posso ir até onde estás a suplicar-te, pois vivo no inferno, sou um réprobo, condenado pela sábia lei de Deus!... Não posso mais suportar a existência sem a tua presença, minha mãe! As mais angustiantes saudades desorientam o meu co­ração, onde tua imagem humilde e vilipendiada por mim gravou-se em caracteres indeléveis, sob os fogos devoradores do remorso pelo mal que contra ti pratiquei! Oh! venha o teu vulto triste clarear as trevas da des­graça em que se perdeu meu miserável ser, envenenado pelo fel de tantos crimes! Aparece-me ao menos em so­nhos, ao menos em minhas alucinações, para que ao me­nos eu obtenha o consolo de tentar um gesto respeitoso para contigo, que suavize a mágoa insuportável da tor­tura que me esmaga por te haver ofendido! Aparece-me, para que Deus, por ti, perdoar-me possa todos os males de que vilmente te cumulei!... Perdão, meu Deus, per­dão! Fui um filho infame, ó Deus clemente! Sei que sou imortal, meu Deus! e que Tu és a misericórdia e a sa­bedoria infinitas! Concede-me então a graça de retornar à Terra a fim de expurgar da consciência a abominação que a deturpa! Deixa-me reparar a falta monstruosa, Senhor! Dá-me o sofrimento! Quero sofrer por minha mãe, a fim de merecer o seu perdão e o seu amor, que foi tão santo, e o qual não levei em consideração! Cas­tiga-me, Senhor Deus! Eu me arrependo! Eu me arrependo! Perdoa-me, minha mãe! Perdoa-me!.. .“

Retirou-lhe o lente sábio a faixa lucilante da fronte. Levanta-te, Agenor Peflalva!” — ordenou, au­toritário.

Levantou-se o desgraçado, cambaleante, olhos des­vairados, como atacado de embriaguez.

Haviam cessado as visões.

Inconsolável, porém, ele — mísero furioso conscien­te — rojou-se de joelhos, cobriu as faces transtornadas com as mãos crispadas e deixou continuar o pranto, vencido pelo mais impressionante desalento que me fora dado presenciar em nosso Instituto até aquela data...

Olivier de Guzman não interveio, tentando conso­lá-lo. Apenas levantou-o e, amparando-o paternalmente, reconduziu-o aos seus apartamentos. Em ali chegando recompôs sobre a mesa de estudo um grande álbum, cujas páginas diz-se-iam amarfanhadas; e, numa folha em branco, escreveu um titulo e um subtítulo cuja pro­fundidade abalançou nossa alma num frémito de grande, de penosa emoção:

— TESE: O 4º Mandamento da Lei de Deus: —“Honrai o vosso pai e a vossa mãe, a fim de viverdes longo tempo na Terra que o Senhor vosso Deus vos dará.” — Relação dos deveres dos filhos para com seus pais.

Em seguida, afastou-se. Não mais articulara uma palavra! Outro discípulo esperava-o. Nova tarefa requi­sitava seus desvelados desempenhos...

Padre Anselmo torceu o botão minúsculo do apare­lho. Findara igualmente a nossa visão!

Não me pude conter e, quase mal-humorado, per­quiri:

Com que, então, deixam o infeliz assim desam­parado, entregue a tão desesperadora situação?... Haverá em tal gesto suficiente caridade . da parte dos obreiros da magnânima Legião que nos acolhe, incumbidos de sua proteção?.. .“

Carlos e Roberto sorriram vagamente, sem respon­der, enquanto o velho sacerdote iniciado satisfazia, bon­dosamente, minha indiscreta ansiedade:

“— Os mentores conhecem minuciosamente os seus discípulos e as tarefas a que se dedicam. Sabem o que fazem, quando ....... De outro modo, quem vos disse que o penitente ficará só e desamparado?... Ao contrário, não se encontra sob a tutela maternal de Ma­ria de Nazaré?..

Quando os portões da fortaleza se fecharam sobre nós, a fim de iniciarmos a marcha de retorno, ouvíamos ainda, ecoando angustiosamente em nossas mentes ator­doadas, a grita do mau filho entre as convulsões rábicas do remorso:

“— Perdoa-me, minha mãe! Perdoa-me, ó meu Deus!”



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