Rias de um suicida yvonne do amaral pereira


Outra vez Jerônimo e família



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Outra vez Jerônimo e família
Ai do mundo por causa dos escândalos; pois, é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha.”

JESUS CRISTO — O Novo Testamento. (15)
Carlos de Canalejas viera buscar-nos ao Pavilhão Indiano ainda cedo, e, após efusivos cumprimentos, dis­sera-nos:

“— Sou de opinião que a programação de hoje se inicie pelo Isolamento. Encontra-se ali vosso amigo Jerô­nimo de Araújo Silveira e aproveitareis o ensejo para fazer-lhe a visita que há tanto vindes projetando. Sen­tir-se-á ele certamente confortado com vossa presença, enquanto tereis cumprido suave dever de solidariedade e fraternidade.”

Não distava muito o Isolamento do edifício central, em cujas imediações nos encontrávamos albergados.

A perder de vista estendia-se o planalto onde a cidadela do importante Departamento se assentava, en­volvida no seu triste sudário de neblinas. Ao longo dos caminhos que trilhávamos destacavam-se tabuleiros de açucenas e rosas brancas, que se diriam ser as flores mais adaptáveis ao melancólico retiro. Vinha-nos a im­pressão de que o Departamento Hospitalar, assim o da Vigilância, seriam arrabaldes bucólicos de uma grande


(15) Mateus, capítulo 18, versículos 6 a 10, 5, e 27 a 30.
metrópole, cujos ecos a distância nos não permitia sus­peitar. E conversávamos familiarmente, pouco nos aper­cebendo de que já não éramos homens e sim Espíritos despojados das vestiduras carnais.

A direção do Isolamento, assim como o tratamento fraternal dispensado aos penitentes, eram idênticos aos das demais filiais que visitáramos, inspirados na mais convincente justiça, na caridade amorosa e fraterna.

Encontravam-se, com efeito, asilados além daqueles muros imensos, onde nem mesmo faltava a interdição de uma ponte levadiça, pobres colegas nossos a quem as dores impostas pelo desânimo ou a revolta sobrepujavam às do arrependimento pelo mau ato praticado. Nestes corações desolados e inconsoláveis, o arrependimento li­mitava-se ao insuportável pesar de concluírem que o sui­cídio para nada mais aproveitara senão para lhes dilatar e prolongar os sofrimentos antes julgados insuportáveis, além de lhes apresentar, entre outras, a desalentadora decepção de se reconhecerem com vida, mas separados dos objetos de suas maiores predileções. Pode-se mesmo afirmar que o Isolamento era especializado nos casos sentimentais... pois é sabido que o sentimentalismo le­vado ao excesso constitui gravíssimo complexo, enfermi­dade moral capaz dos mais deploráveis resultados. E encontramos, com efeito, ali, os mais variados casos de suicídios sentimentais, em que o réprobo é agitado por vero sentimento extraido do coração, não resta dúvida, conquanto desequilibrado, desde o amante ofegante de paixão e ciúmes pela felicidade concedida ao rival feliz até o chefe de família desorientado por impasses dificúl­tosos ou o pai subjugado pelo desalento ante o esquife do adorado entezinho que era a razão da sua felicidade!

Consternação geral dominava o ambiente dessa fi­lial do Hospital Maria de Nazaré. Invariavelmente in­satisfeitos, seus hóspedes apresentavam o característico das criaturas irresignadas e impacientadas por tudo, além de se entregarem à dor sem se animarem a esforços para vencê-la, retendo-a, antes, com o exagero de um senti­mentalismo doentio e piegas, enquanto engendravam no vos motivos para sofrer, através de auto-sugestões pe­sadas que lhes envenenavam todos os instantes.

A direção interna do Isolamento, tal como a da Torre, achava-se confiada a um sacerdote católico, ao invés de um daqueles atraentes iniciados a quem já nos habituáramos ver à frente das organizações da Co­lonia.

Todo o corpo de auxiliares internos, aliás, era cons­tituído de religiosos católicos, exceção feita do corpo clínico, que se compunha de psiquistas iniciados. Não obstante, o cargo mais importante, isto é, o de diretor, conselheiro e educador, se era ocupado por um sacerdote, era este também iniciado nas altas doutrinas secretas, Espírito de escol, possuidor de méritos assinalados pe­rante a Lei, e benquisto na Legião dos Servos de Maria, além de honrosamente graduado no seio da falange de cientistas que governava o Instituto Correcional Maria de Nazaré.

A disciplina era verdadeiramente conventual.

Urgia fossem afastadas daqueles eternos insatisfei­tos e voluntariosos as atrações pelas paixões mundanas e pessoais, os arrastamentos impuros e caprichosos que os perderam. Cumpria à instituição que os acolhia ins­trui-los para os ditames da resignação na desventura, para as resoluções decisivas, para as renúncias inaliená­veis, reconciliando-os ainda com a verdadeira fé cristã, que até então desprezavam conhecer à luz do devido critério.

Haviam sido, todos eles, educados, na Terra, sob os auspícios de ensinamentos católicos-romanos. Em seus corações e em suas mentes, nas concepções religiosas que lhes dirigiam os pensamentos, não existia local para conceitos outros que não aqueles provindos da Igreja que acatavam desde a infância. Sentimentalistas fanatizados e caprichosos, amolentados mentalmente pelo descuido no exercício do raciocínio sobre alevantados assuntos, alongavam a morbidez dos preconceitos que lhes eram próprios às ilações religiosas fornecidas pelos catecismos, apaixonando-se intransigentemente por tudo quanto as tradições católicas houveram por bem infundir no senso pouco amadurecido da Humanidade. Muitos nem mesmo crença definitiva possuíam. Incrédulos, mesmo ímpios, ja­mais se haviam preocupado com a feição religiosa ou divina das coisas. Mas, habituados à Igreja pelo como­dismo e a tradição, só a ela conferiam os direitos de guiar consciências, só a ela permitiriam sábedoria bas­tante para os serviços de exegese.

Seria caridoso, pois, que a reeducação de tais men­talidades se fizesse à sombra de ambiente idêntico àquele que lhes inspirava confiança e respeito.

O próprio padre, portanto, lhes falaria do Evangelho da Verdade, para que aprendessem que acima do seu fanatismo dogmático pairava o eterno luzeiro de reali­dades que necessitavam aceitar a fim de saberem vene­rar devidamente o Criador! O próprio padre instruí-los-ia sobre a vida do mundo astral, lecionando-lhes observa­ções e experiências, varrendo-lhes do cérebro as supo­sições tacanhas a que se amoldaram preguiçosamente, rasgando ao seu entendimento os véus do conhecimento verdadeiro, a fim de que concluíssem por experiência própria que, tanto no seio da Religião como no da Ciên­cia, poderá resplandecer o ardor daquela Fé que norteia o coração para o Alto, purificando-o ao calor sempre vivo do Amor de Deus!

Cientificado do desejo que trazíamos de visitar um amigo ali retido, após a visitação, cujas minúcias omi­tiremos por apresentarem a generalidade das demais, Padre Miguel de Santarém, maioral da comunidade, ex­clamou bondosamente, entre risonho e satisfeito:

“— Fizestes bem em vir, meus filhos!... Agradeço-vos o afetuoso interesse por um companheiro de jornada tão carecedor de reconforto como esse em questão. Vi­sitar um enfermo, reanimar, com a presença consoladora, o pobre detento entristecido pela angústia de remorsos implacáveis, é obra meritória sancionada pelo Modelo Divino, amigo dos pobres e pequeninos... Jerônimo fi­cará satisfeito... Mandá-lo-ei chamar imediatamente.

Enquanto falava, reconhecêramos nele o religioso que confortara o antigo mercador de vinhos, na memo­rável tarde da visita à família havia cerca de três anos! Irmão Teócrito, conforme estamos lembrados, requisita­ra-o a fim de assistir o revel, a pedido deste mesmo, e, desde então, encontravase Jerônimo sob as vistas do competente conselheiro.

Enquanto aguardávamos a presença do companheiro de desditas, ia dizendo o diretor do Isolamento:

— Vosso amigo entra em fase de transição, pre­cursora do restabelecimento. Podereis apreciar nas cir­cunstâncias que o rodeiam o padrão dos demais internos do nosso educandário, pois o Isolamento se interessa por casos que têm, mais ou menos, os mesmos fundamentos, como não deixa de também suceder com as demais orga­nizações do nosso Instituto.

Após vencer a apatia a que o conduziram as revoltas improfícuas resultantes de desilusões cruciantes, esta­rá preparado para a repetição das experiências em que fracassou.

Encontra-se sob assistência rigorosa, como é devido a todos que nos são confiados, pois seu invólucro peris­piritual, assim a própria mente, carecem de profundos cuidados. Ao corpo clínico destacado para os serviços deste posto está afeto o tratamento daquele, o qual se resume em aplicações magnéticas especiais; a esta, po­rém, atendemos com as atenções inspiradas nos estatutos da Legião, que, no caso, aplica a reeducação, tratamento inteiramente moral, porque o mal que a Jerônimo infe­licita, como o que atormenta a vós outros, Somente com a renovação individual, operada interiormente pelo pró­prio paciente, será removido...

A paixão mórbida que desequilibradamente nutriu pela esposa e pelos filhos prestou-se a instrumento para as grandes expiações que os seus entes queridos tinham em débito nos assentos da Lei de Justiça que rege os destinos humanos! Jerônimo amava egoisticamente desorientadamente, entrincheirando o coração contra toda a Possibilidade de amparo que a razão e o lúcido racio­cínio poderiam conferir... e, como não deveis ignorar, cumpre-nos estar sempre advertidos de que, nem mesmo aos próprios filhos, deverá o homem amar discriciona­riamente, com os impulsos cegos da paixão!

Certamente que o devotamento à família conceder-lhe-á méritos diante do Legislador Supremo. Porém, mais honrosos se tornariam os lauréis se houvera enca­minhado os seres amados ao culto legítimo do cumpri­mento do Dever, e não proporcionando-lhes luxos e gozos mundanos enquanto descurava da educação moral que deveria prover em primeiro lugar, ainda que bracejando contra os arremessos da pobreza adversa, uma vez que todas as criaturas do Senhor são aproveitáveis e que, justamente a fim de auxiliá-las a progredir e educar-se em sentido benéfico, é que confere Deus a autoridade paterna ao homem encarnado. Se assim fizera, cum­prindo o sagrado dever de pai previdente e honrado, Jerônimo ter-se-ia furtado ao amargor de situações em­baraçosas, pelas quais se tornou responsável com o ato dramático do suicídio... Ei-lo, porém, que chega... Ele vos dirá coisas interessantes...“

Com efeito. Acompanhado por Irmão Ambrósio, um assistente religioso, o antigo negociante do Porto entrou no compartimento oilde nos achávamos e atirou-se em nossos braços, comovidamente.

“— Obrigado, queridos companheiros! — exclamou —por vos terdes lembrado de minha humilde pessoa, tão gentilmente! Vossa visita cala-me docemente no co­ração! Se soubésseis quão terríveis têm sido as minhas aflições’

Abraçamo-lo com efusão, apresentando votos pela sua felicidade pessoal, pois outra coisa não sabíamos, até então, dizer ou desejar aos amigos.

Pareceu-nos Jerônimo assaz modificado. Reconhece­mo-lo sereno, senhor de maneiras tocadas de encanta­dora distinção, a qual não lhe conhecêramos antes. E pensamos em que, certamente, o Isolamento, dirigido por virtuosos Espíritos de antigos sacerdotes, teria a missão de elevar também o nível da boa educação social, como internato conventual que era!

Ardíamos pelo desejo de interrogar o antigo com­parsa do Vale Sinistro, de recolhermos novas dos seus desgraçados filhos, que lá ficaram, na Terra, amorta­lhados de lágrimas e desditas. Mas o receio de uma in­ discrição deteve-nos, o que fez que o silêncio se prolon­gasse após os cumprimentos. Logo, porém, o virtuoso mentor Santarém encaminhou-nos a feliz ensejo, conhe­cendo a sinceridade que nos impelia.

“— Falávamos de ti, meu caro Jerônimo... Teus amigos desejam saber se te sentes melhor e mais recon­fortado no amor de Deus, pois partirão em breve para outro plano de nossa Colônia e, vindos para se despe­direm, estimariam levar a impressão de que deixam para trás um amigo em vias de verdadeiro reerguimento.. .“

Aplaudimos, corroborando tais expressões com o in­centivo de nos mostrarmos, a ele próprio, resignados e confiantes nos dias porvindouros, e acrescentamos:

“— Amparados por amigos tão desvelados como os que deparamos desde que para aqui nos encaminharam, sentir-nos-íamos até felizes, não fora a inclemência dos pesares que nos perseguem pela desonra com que avil­tamos nossa alma...“

O antigo comparsa curvou a fronte com enterne­cedora humildade, retorquindo:

“— Tendes razão, meus caros amigos! Será possível, sim! para nós outros, o alívio supremo na conquista da resignação e da fé, que levará à conformidade... Felizes, porém, não creio que poderemos ser tão cedo, porque não será pelas vias do suicídio que a individualidade encon­trará essa deusa Felicidade, que mais se afasta quanto maiores forem a revolta e a insubmissão no coração que a deseja! Quisera eu que o suicídio me houvera para sempre exterminado o ser. Assim não foi porém!... E assim não sendo compreendi que só me restava cur­var ao inevitável, enfrentando com resignação e fortaleza de ânimo a amargosa situação por mim mesmo criada! Devo à solicitude de Irmão de Santarém, a seus con­selhos e exemplos edificantes, como aos seus abnegados imediatos e às regras verdadeiramente providenciais des­ta mansão educadora, a transformação que em mim se vem operando. Tal como vós, sorvi o meu cálice de fel, traguei muitas amarguras entre uivos de desespero e blasfêmias de réprobo! Mas hoje me sinto outro indi­víduo, a quem a confiança no amor do Ser Supremo ressuscitou dos escombros da mais nefasta descrença, porque descrença mascarada com a hipocrisia da falsa fé, da afetação da virtude, as quais se mostravam com a ostentação convencional, o que, se satisfaz à sociedade, não aproveita, no entanto, nem mesmo para convencer o próprio que as simulou, quanto mais para edificar a sua alma perante o Criador!...

Eu poderia ser feliz, meus amigos, de algum modo, rodeado com a atenção destes nobres e excelentes pro­tetores, instruído, fortalecido, confortado como me vejo por sua incansável caridade, convencido das lutas e de­veres que me cabem, disposto a enfrentá-los quanto me acho. Mas cometi um crime de duras conseqüências, de conseqüências extensíssimas para mim e os meus! Con­templo-me carregado de falhas... e não me posso, de nenhum modo, sentir satisfeito em parte alguma, quando o arrependimento vivo e ardente flagela minhas horas, exigindo resgate imediato a fim de que a serenidade me retorne ao coração, permitindo-me novos empreendimen­tos, dignificantes e honrosos... justamente o oposto dos atos de antanho!

Devo confessar-vos que, como comerciante que fui, falido, arruinado, traindo a confiança de firmas hones­tas, com as quais mantivera compromissos, de institui­ções bancárias, cuja honorabilidade não levei ao devido apreço, e até das autoridades municipais, pois grandes prejuízos dei também às fiscalizações legais, como aos direitos alfandegários, visto que pratiquei não raras ve­zes o contrabando, envergonho-me de tal forma, por não me ter esforçado por sair honrosamente desse emara­nhado de inferioridades; pejo-me tanto de haver solvido tais compromissos acobertando-me sob a macabra ilusão do suicídio, que o rubor só me desaparecerá das faces quando me for possível ser comerciante outra vez, a fim de solvê-los pessoalmente, digna, honestamente! Oh, que ato indecoroso cometi perante a sociedade, meus amigos! Eu devo e não paguei! Eu defraudei os sacrossantos direitos da Pátria, da abençoada terra em que vivi! Te­nho compromissos vencidos, empréstimos, contas e mais contas, letras e mais letras a pagar!... E nada resgatei até hoje! O peso desta desonra converteu-me os dias em torturas ininterruptas, a par das desventuras que, por minha incúria, atingiram meus filhos!...”

“— Felizmente, porém, a Lei da Sábia Providência confere ao Espírito falido meios honrosos para liber­tar-se de situações incômodas e vexatórias como essas, e Jerônimo, em futuro não muito afastado, poderá re­parar tais compromissos, recuperando o beneplácito da própria consciência, servindo-se de experiências novas e novos ensejos, graças à reencarnação, que a todos é fa­cultada como meio de progresso e reabilitação... e ele bastante animado se encontra para a jornada nova... — acudiu irmão Santarém, cortando a expansividade humilhante para o próprio expositor.

“— Rejubilo-me sabendo-te confortado e decidido aos embates pela honra de uma vitória que encoberte de tua consciência a visão inglória da queda forte que também a ti arrastou à desgraça, amigo Jerônimo!... Praza aos céus que as forças se centupliquem em tua alma quanto as minhas em mim se multiplicam a cada nova vibração de minha própria dor... pois também me acho encorajado às mais rudes experimentações, con­tanto que se arrede de minhas íntimas visões o trágico fantasma dos remorsos pelo monstruoso delito que pra­tiquei” — vibrou Mário Sobral, a quem impressionante estremecimento sacudiu, fazendo-o agitar as mãos como que se esforçando por desvencilhâ-las de algo que o ia­quietasse e afligisse.

“— A prece, que aprendi a praticar, tornando-a em manancial indispensável à minha pobre alma, guiado pe­las férteis exortações de Irmão Santarém — continuou o ex-comerciante do Porto —, as súplicas veementes que aprendi a dirigir a Maria — nossa Mãe e Guiadora — concederam-me a trégua precisa para reunir os pensa­mentos atropelados pelo desespero e fixá-los no bom raciocínio... acontecimento que foi a chave áurea para a solução dos muitos problemas por mim considerados insolúveis...

A sorte imprevista de meus infelizes filhos, aos quais tanto e tanto amava, a conduta de Zulmira, prostituída e envilecida — como eu, incapaz de consagrar-se ao De­ver, vencendo honestamente as difíceis circunstâncias da miséria — eram fatos que me dementavam até à lou­cura e à blasfêmia, convertendo minhalma na de um réu selvagem e danado como não o seria a fera dos sertões africanos! A prece, porém, continuada, humilde, tal como o bom conselheiro recomendava, corrigiu a anomalia; e, pouco a pouco, recobrei a lucidez do senso, parecendo-me, ao depois de serenado o ânimo, que estivera du­rante séculos mergulhado nas trevas inferiores da irres­ponsabilidade! Ainda assim, a situação de meus filhos, que haveis de recordar, levava-me a sofrimentos incon­soláveis!...

Ao vigor das evocações, Jerônimo reanimava-se. Nos­so grupo quedara-se muito atento, vibrando homogenea­mente com o emocionado narrador. E tais foram as tintas vivas e sugestivas com que soube esboçar os acon­tecimentos que lhe diziam respeito, tais as expressões ardentes emitidas pelas vibrações com que traduzia as sutilezas da memória, que julgamos rever com ele os episódios narrados. E será como se também os houvera assistido que os transmitiremos ao leitor.

“— Certo dia, ao entardecer — ia dizendo o enclau­surado do Isolamento —, encontrava-me quase absolu­tamente só, perambulando tristemente pelas ruas melan­cólicas do imenso parque que vedes... Aproximava-se o doce, emocionante momento do Ângelus. A unção religiosa — consolo e esperança dos desafortunados irre­mediáveis — sutilmente infiltrou-se pelos escaninhos de meu ser, reportando-me o pensamento ao seio maternal de Maria, Mãe boníssima dos pecadores e aflitos... Não ignorais que o momento da saudação a Maria é fielmente respeitado pelos seus legionários, homenageado com sin­ceras demonstrações de gratidão nesta Colônia, a qual se edificou, cresceu e produziu excelentes frutos de amor e caridade, para servir-me das expressões que ouço dos meus bondosos instrutores, à sombra augusta da sua proteção.


Sentei-me na relva, disposto a recolher-me também. Com o coração palpitante de fé aguardei o solene mo­mento da oração, o qual foi logo anunciado pelas dul­çorosas melodias que do Templo se ampliam para os recantos mais distantes desta habitação — ecos das vibrações dos varões diretores maiores da Colônia em co­munhão com os planos superiores — ainda me servindo das expressões dos mentores desta casa...

Orei, dessa vez, como nunca, jamais havia orado! Supliquei à amorosa Mãe do nosso Redentor assistência e misericórdia para meus filhos! Que intercedesse junto a Jesus Nosso Senhor, no sentido de beneficiar as in­felizes crianças por mim abandonadas aos inclementes arremessos da adversidade! Nomeei Margaridinha, minha pobre caçula, atirada à lama das sarjetas pela orfandade em que se vira com o meu suicídio! Lembrei Albino, atirado a um cárcere no verdor dos anos, porque um pai não tivera, digno bastante, para lhe prover caminhos e orientações honrosas, pois que eu! eu! que fora o pai, que perante Deus e a sociedade me comprometera ànobre missão da paternidade, desonrara-me e desonra­ra-o com os maus exemplos deixados como única e per­vertida herança! Bradei por sua maternal intervenção em torno da angustiosa situação de ambos, ainda que meus próprios sofrimentos se dilatassem por indetermi­nado tempo! Oferecia-lhe, como penhor do meu reco­nhecimento por qualquer benefício que lhes concedesse sua terna compassividade de Mãe, a renúncia a eles pró­prios, pois bem reconhecia eu não merecer a sacrossanta missão da paternidade! Afastar-me-ia para sempre, se tanto fosse necessário... mas que Margaridinha, sob seu maternal amparo, fosse afastada do Cais da Ribeira e Albino não levasse o desespero até arrojar-se ao suicí­dio, antes se resignasse ao cárcere, ao exílio, onde, mais tarde, poderia reabilitar-se, quem o saberia?!...

Irmão Ambrósio, vigilante incumbido de nos reunir ao anoitecer, veio encontrar-me lavado em lágrimas. Mais uma vez narrei-lhe minhas desventuras, pondo-o a par das súplicas que acabava de dirigir a Maria. Concedeu-me ele enternecidas expressões de reconforto, alentando-me de esperanças o coração dolorido, concluindo, enquanto bondosamente me amparava para o regresso à comunidade:

“— Deves perseverar nessas rogativas, meu caro Jerônimo! Faze-o com bom ânimo e coragem, exalçando energicamente, tanto quanto possível, o grau das tuas vibrações, a fim de que repercutam harmoniosamente teus pedidos, no momento muito justos, nas superiores camadas astrais onde viceja, irradiando flores de auxí­lios e bênçãos, a amorosa caridade da dulcíssima Guar­diã de nossa Legião. Não obstante, aconselho-te ainda a orar em conjunto, reunindo a outros o teu pensamento, a fim de que tuas forças, ainda inexperientes, se revigorem e avantagem ao calor dos demais... pois tuas súplicas deste momento são assaz importantes, represen­tando verdadeira mensagem dirigida a Maria... Falarei do ocorrido ao nosso bondoso conselheiro.”

Na manhã seguinte, com efeito, Irmão Miguel de Santarém visitou-me discretamente, convidando-me a to­mar parte em suas reuniões particulares, com mais al­guns afins, para que, fraternalmente unidos, solicitásse­mos os favores por mim desejados em torno dos fatos que mais me afligiam, porqüanto era justo que ajudas­sem, não apenas por ser eu um discípulo do internato que dirigiam, mas, acima de tudo, porque seria caridoso assistir a quem sofria, dever que alegremente cumpri­riam dada a justiça das aspirações por mim alimentadas em torno dos meus entes queridos.

Assim foi feito, realmente.

Sob as frondes farfalhantes, em certo recanto iso­lado do imenso parque, e quando as melodias da sau­dação diária a Maria enleavam de suaves sugestões a quietude harmoniosa do crepúsculo, Irmão de Santarém alçava o pensamento fiel e, humildemente, transmitia em preces sentidas o meu pedido à celestial Senhora. Deixei, assim, por várias vezes, minhalma arrastar-se através do traçado luminoso que iam deixando as mentes virtuosas dos meus boníssimos conselheiros, e acompa­nhava, vibrante de confiança e de esperança, as expres­sões que, do âmago do ser, arrancavam em meu benefício. Repetiram-se estas simples e doces reuniões muito em segredo, durante algumas vezes seguidas, e sempre generosas e ardentes. Os nomes saudosos de meus filhos eram ali pronunciados diariamente! E como era conso­lador ao meu compungido Espírito ouvir que a eles ca­ridosamente se referiam os amorosos seguidores do com­placente Mestre e Senhor, que até alçado nos braços infamantes da cruz tratava de regenerar os pecadores, condoído de suas grandes misérias!... E terna esperan­ça, e humilde paciência, e respeitosa résignação visita­ram os meandros do meu ser, qual raio de sol levantan­do aleluias nas trevas angustiosas depois de uma noite de tormentas!

Passados que foram alguns poucos dias, tive a sur­presa de ver reclamada minha presença no gabinete do Irmão Diretor. Apresentei-me inquieto e comovido, pois havia muitos anos que me habituara a somente reco­nhecer dissabores em volta de meus passos. O Diretor, porém, serenou-me logo de início por apresentar-me pe­queno rolo de pergaminho, espécie de “papiro” estrutu­rado em raios de luz compensada, enquanto era eu infor­mado do que acontecia:

“— Antes de mais nada, dai graças ao Senhor Todo Bondoso e Misericordioso, caro Jerônimo! Vossas men­sagens a Maria alcançaram êxitos perante as leis eter­nas e incorruptíveis!... Aqui está a resposta de nossa Amável Senhora e Guardiã, a qual, em honra a seu Augusto Filho, atende à intervenção que lhe rogastes!... Do Templo, onde militam os responsáveis por nossa Cô­lônia, e para onde chegam as instruções de Mais Alto, mandam os nossos orientadores estas instruções, espécie de programação a ser efetuada em torno de vossos filhos Albino e Margarida... Com o visto de Irmão Teócrito, como se encontra, hoje mesmo poderemos iniciar a ta­refa.

Aturdido com o inesperado da notícia, nada respon­di de momento, deixando, porém, que minhalma, célere, externasse, no segredo do pensamento, o meu agrade­cimento ao Deus Bom, ao Deus Misericórdia, que tão prontamente permitia fosse eu atendido nos meus mais fortes desejos do momento!

Segurei o pergaminho lucilante, voltando-o várias vezes entre as mãos, sem ousar abri-lo. O próprio dire­tor, porém, com a bondade que lhe é peculiar, veio em meu auxílio, desdobrando-o cuidadosamente...

Eram quatro páginas destacadas, as quais cintila­vam com reflexos de estrelas, em suas mãos. Caracteres azulados, como se estrigas do firmamento azul servissem aos iluminados do Templo para transmitirem as sublimes inspirações que recebiam no sentido de beneficência aos sofredores, traduziam as ordens que a Magnânima Se­nhora enviara para meu socorro supremo!

Ordenavam que minha pobre Margaridinha, assim como Albino, fossem, sem mais tardanças, atraidos a um posto de emergência mantido por este Instituto na Terra, ou em suas imediações, a fim de se submeterem a um tratamento magnético especial, com vistas ao reajusta­mento psíquico dos sistemas nervoso e mental, ambos muito enleados nas farpas do meio ambiente viciado em que se expandiam, desorganizados pela intensidade dos choques derivados das pelejas a que eram chamados a enfrentar nos testemunhos diários. Que fossem os po­brezinhos aconselhados, advertidos, esclarecidos, porqüanto o de que mais careciam era da iluminação interior de si mesmos. E que, em torno de ambos, caridosa cor­rente de amor, simpatia e proteção se estabelecesse, por­que o Astral Superior se encarregaria de criar os ensejos necessários aos acontecimentos...

Devo confessar-vos, no entanto, bondosos amigos, que bem pouco, até agora, entendo destas coisas... Nar­ro-as como aquele que de um fato sabe por tê-lo pre­senciado, sem aptidões para a necessária análise...

Quanto a Marieta e a Arinda, que me tranqüilizasse: — eram honestas e trabalhadoras, encontrando-se am­bas harmonizadas com as situações que lhes cumpriam. Perseverássemos, todavia, em socorrer o infeliz esposo da primeira —. por quem eu não rogara em minhas ardentes súplicas, mas que não fora esquecido pela Amável Mãe do Senhor Jesus —, presa que era de arrastamentos inferiores, que dele faziam o tirano do lar. Severa vi­gilância se efetuasse em seu favor, pois seria dócil às influências generosas que lhe dispensassem. Seus obses­sores deveriam ser aprisionados e encaminhados às res­pectivas comunidades astrais... o que novos ensejos e benefícios novos lhes proporcionariam.

“— Vemos que é bem árduo o labor conferido ao Isolamento e que esforços máximos requerem, de todos vós, boa-vontade sempre crescente — interrompeu Ro­berto de Canalejas, também visívelmente interessado. —Já iniciastes o movimento regenerador?.. .“

Irmão de Santarém, a quem ele se dirigira, adian­tou-se sorridente, satisfazendo a justa curiosidade.

“— Sim — disse ele —, e com muito bons êxitos, visto que temos a Mãe das Mães como patrocinadora destes casos de redenção... cujas excelentes conseqüên­cias facilmente entrevemos...”

“— Rogo esclarecimentos quanto ao desempenho de tão espinhosa quão nobre tarefa, Irmão Santarém” —tomou o moço doutor.

“— Com muito prazer, meu jovem amigo, visto re­conhecer que falamos a amigos generosos e sinceros, que poderão até mesmo emprestar-nos o auxílio de suas fraternas simpatias...

Conforme não poderia deixar de ser — continuou o nobre religioso —, assumi a direção do empreendimento, com ordens do Irmão Diretor do Departamento, certo de que a intervenção de nossa augusta Protetora, assim como a generosa assistência dos nossos maiorais do Tem­plo, não nos abandonariam à indecisão das próprias fra­quezas.

Naquela mesma manhã foi encaminhada à direção do Departamento petição requerendo auxiliares volunta­rios para o áspero certame, pois não ignorais que para essa natureza de tarefas não existe obrigatoriedade em nosso núcleo. Os obreiros para serviços externos hão de oferecer espontaneamente o seu concurso, atendendo ape­nas ao chamamento especial que se proclama... além de que são todos voluntários os próprios servidores da nossa Colônia...

Atendido sem tardança, entendi-me cordialmente com os preciosos colaboradores que se apresentaram, todos animados de interesse e boa-vontade pela causa do Bem, ficando estabelecido que, antes da delineação do progra­ma decisivo, visitássemos as personagens em questão, estudando todas as faces do assunto e comparando-as com as nossas próprias possibilidades. Assim fizemos, até que, na noite do terceiro dia, após a homenagem que mui gratamente prestamos diariamente à nossa Guardiã, partimos todos juntos, em demanda da Terra...

Fazia o plenilúnio. A luz doce e merencória da Lua — a humilde irmã da Terra — suavemente aclarava os caminhos tristes do astral inferior por onde deveríamos transitàr. Para o transporte servimo-nos da levitação lenta, visto que as zonas pesadas por onde gravitaríamos não nos permitiriam o emprego da rapidez senão com grande esforço de nossa parte, o que de modo algum conviria fazer porque necessitávamos reservas de ener­gias para os serviços a realizar.

Oh, meus caros amigos! — continuou o antigo sa­cerdote com doçura intraduzível. — Não foi sem deli­cados frêmitos de emoção que avistamos os contornos da velha cidade do Porto, envolta nos véus das ondas atmosféricas, que a tornavam como inundada de sutil torrente de fumaças esgazeadas aos nossos olhos de Es­píritos, para quem o vácuo é vocábulo inexpressivo!

Nosso preclaro irmão, o Conde Ramiro de Guzman, que, como sabeis, chefia as expedições missionárias no exterior de nossa Colônia, e que, como sempre, foi o pri­meiro voluntário a se apressar em atender nosso humilde convite para o serviço extra, levou-nos a um giro pela cidade que tanto haviamos amado, pois também ele vi­vera no Porto e se abrigara sob aqueles tetos amigos, cujas cimalhas e vidraças agora distinguíamos beijadas pelas ternas cintilas do luar...

Procurávamos Margarida Silveira pelas imediações do Cais da Ribeira. O Douro amigo marulhava docemen­te, retornando sua poesia à nossa audição de portugue­ses, para quem as doçuras do antigo torrão natal — que o seria novamente, em posterior encarnação — não se extinguira ainda, muito apesar da longa permanência na Pátria Espiritual, o Espaço!...”

“— E Jerônimo fez, de certo, parte da importante expedição!...” — indaguei, ansioso.

“— Oh, não! Não seria prudente que o fizesse! Cum­pria-nos evitar-lhe o dissabor de realidades duríssimas... e mesmo seria Jerônimo um estorvo para nós, ao invés de auxiliar...

Não me permitirei, no entanto, descrever, meus anli­gos, o espetáculo amargo em que deparamos Margaridi­nha representando o principal papel! Imaginai, contudo, um daqueles antros de vícios e libertinagens, como tantos que, infelizmente, existem no sombrio globo terrestre, classificado policialmente como de quinta ordem, como se pudessem existir vícios menos degradantes uns do que outros! Pensai no que seria o impudor ali reinante, o deboche, os torpes arrastamentos dos instintos inferio­rizados e deprimidos pela perversão dos costumes — e tereis pálida idéia do inferno de que deveríamos arredar Margarida Silveira — porque assim ordenara o Astral Superior, solícito aos nossos apelos!

Como fazê-lo, porém?...

Ante as cenas lamentáveis que se nos deparavam, a angústia da repugnância intentou dominar nossas al­mas, tornando-se necessário da nossa parte a vigilância da comunhão mental com nossos diretores do Templo e de Mais Alto, a fim de que nossas vontades não enfra­quecessem, prejudicando a missão.

Torturada por infâmias inclementes, vilipendiada pela degradação, manietada ao miserável tronco de situação insolúvel para a sua inexperiência, Margaridinha apa­receu-nos como a grande vítima de um novo Calvário, onde também faltavam o conforto, o socorro de corações generosos dispostos a aliviar e consolar! Vimo-la, mau grado suas próprias repugnâncias íntimas, imediatamen­te por nós reconhecidas, submetida aos torpes caprichos de verdugos desalmados, os quais forçavam-na a sorver copázios de vinho, intoxicando-a, embebedando-a, impie­dosamente! A desgraçada, seminua, pois trazia as ves­tes rotas pelas brutalidades infligidas pelos algozes, e empapadas de vinho; cabelos desgrenhados, olhos alu­cinados pelos desvairamentos do álcool; boca espumante, desfigurada por trejeitos ridículos, via-se também força­da a dançar ao som de guitarras enfadonhas, cantando as peças mais em voga, para divertir os ínfimos algozes. Sem que o pudesse fazer convenientemente, porém, dado o lamentável estado em que se encontrava, sentia-se por esta ou aquela personagem duramente esbofeteada, en­quanto os vestidos eram ainda uma vez dilacerados pelas mesmas mãos brutais.

Lembrando-me de que as instruções recebidas de Mais Alto recomendavam fosse a pobre menina retirada com urgência daquele malsinado ambiente, não vacilei em tomar providências imediatas, lançando mão de me­didas extremas.

A um aprendiz da Vigilância, que comigo levara, justamente daqueles que iniciavam experiências regene­radoras através dos serviços de beneficência ao próximo, indiquei a mísera jovem, dizendo:

— Será necessário arrebatá-la daqui... O Astral Superior recomenda assistência imediata em torno dela... Adormece-a, meu amigo, com uma descarga magnética forte, servindo-te dos elementos fluídicos dos circunstan­tes... Dá-lhe aparências de doente ....... e afasta com presteza estes infelizes que a maltratam...

Este aprendiz sabia operar com certo desembaraço, não obstante serem parcos os seus conhecimentos e pe­queno o cabedal moral que possuía. Fora, não havia muito, chefe de falanges contrárias ao Bem e ao Amor. Convertido, porém, desde certo tempo, à aprendizagem sincera da Luz e da Verdade, agora se fazia obreiro sub­misso, subordinado à direção de individualidades escla­recidas, capazes de guiá-lo à regeneração completa, as quais não só o ajudavam a instruir-se como a elevar-se moralmente, oferecendo-lhe oportunidades de serviços reabilitadores. Chama-se Osôrio e, como é natural, ainda se encontra sob nossos cuidados. Outrora vivera nos sertões brasileiros, onde praticara ritos e magias africanas.

O resultado da ordem por mim emitida não se fez esperar.

Aproximou-se ele da infeliz peixeira do Cais da Ri­beira, passou-lhe as mãos ambas à altura dos joelhos, como laçando-os. A pobre menina cambaleou, amparan­do-se a uma banca próxima. Quase sem interrupção, o mesmo “passe” repetiu-se à altura do busto e, em seguida, contornando a fronte, toda a cabeça! Margari­dinha caiu estatelada no chão, presa de convulsões im­pressionantes, levando a mão ao peito e gemendo sentidamente. Sem interromper-se no afã da sua competência, e enquanto eu distribuía outras recomendações aos de­mais voluntários, Osório chegou-se a um dos comensais que se mantinham estupefatos ante o incidente, e se­gredou-lhe algo ao ouvido, com veemência e emoção, interessado em sair-se bem da tarefa, O indivíduo so­bressaltou-se subitamente, exclamando aterrado, criando pânico indescritível entre os boêmios:

— Céus! A coitadinha está a morrer por culpa nos­sa!... Fujamos! Fujamos antes que apareçam os be­leguins!...

Saíram em confusão, empurrando-se mutuamente, deixando a pobre vítima de tantas brutalidades à mercê dos possíveis sentimentos de caridade do proprietário do antro.

Margarida, com efeito, estrebuchava, parecendo nas vascas da agonia. Rodeamo-la, eu e meus dedicados au­xiliares, no intuito de beneficiá-la com os bálsamos de que no momento poderíamos dispor. Convém frisar, no entanto, que nem eu nem meus adjuntos éramos sequer pressentidos, quer por ela ou pelos demais circunstantes do plano material, pois nossa qualidade de Espíritos de­sencarnados tornava-nos inatingíveis à visão deles.

No entanto, a moça experimentava a ação nervosa produzida pela rispidez da descarga magnética necessá­ria ao seu lamentável estado. Aplicamos bálsamos se­dativos, compungidos ante seus sofrimentos. Tornou-se inanimada, gradativamente acalmando-se, continuando, porém, estendida sobre as lajes do antro, enquanto o taverneiro, apavorado com o acontecimento, providenciava socorros médicos e um leito no interior da casa, pois cumpria ocultar a verdade em torno do caso, por não desejar complicações com a polícia, dada a ilegali­dade do comércio.

Quanto a nós outros, os servos de Maria, desejáva­mos ve-la em um hospital e jamais num cárcere! Por essa razão afastamos a possibilidade da presença de po­liciais, enquanto providenciávamos o concurso de algum facultativo cujos sentimentos de caridade nos inspiras­sem confiança.

Alguns minutos depois, chegando o facultativo, que a considerou gravemente doente em virtude de grande intoxicação pelo álcool, providências humanitárias foram tomadas, pois tecêramos em torno dele corrente harmo­niosa de sugestões compassivas...

E assim foi que, tal como desejáramos e tornava-se necessário, passadas que foram as sombras dramáti­cas daquela noite decisiva, a filha do nosso pupilo aqui presente dava entrada em modesto hospital, caridoso bastante para resguardá-la enquanto providenciássemos quanto aos meus dias futuros, guiados pelas inspirações generosas de Maria...

“— Se nosso Jerônimo não deveria tomar parte na expedição, a fim de que lhe fossem poupados cruciantes amargores, como está informado dos acontecimentos!... Não te sentes compungido, chocado com estas descrições, meu amigo?... Principalmente porque são estranhos que as ouvem?...” — inquiri ousadamente, desejoso de tudo investigar.

“— Com efeito, sinto-me amargurado, e nem pode­ria deixar de ser assim... Aliás, a amargura e o pesar têm sido meus companheiros de todos os momentos... Não obstante, o sofrimento e as instruções que venho aqui recebendo elucidaram-me o bastante para hoje melhor raciocinar do que em outro tempo... Convém re­flitais, meu caro Sr. Botelho, que, se Irmão de Santarém descreve, para vós outros, os acontecimentos que a mim dizem respeito, será porque aqui viestes para os serviços de instrução, além de que sois amigos sinceros, irmãos afins capazes de atitudes fraternais não apenas em meu benefício, mas também daqueles que me são caros! Não data de hoje a nossa afeição... lembro-me bem que es­tamos unidos por uma comovedora amizade desde as tris­tes peripécias do Vale Maldito...”

“— Sim! — cortou o lúcido instrutor —, ele deveria ser de tudo informado, em ocasião oportuna, embora a caridade houvesse aconselhado sua ausência do teatro dos acontecimentos... Nada poderia mesmo ignorar, uma vez que se tornou responsável por tudo que resultou do abandono a que legou a família e porque ainda urgia meditar sobre os delicados acontecimentos com vistas aos planos para as próximas reparações...”

Ao incidente seguiu-se pequena pausa, a qual foi quebrada pelo próprio Jerônimo, ao exclamar:

“— Rogo-vos continueis elucidando meus companhei­ros de jornada com a seqüência do meu drama pessoal, venerando Irmão Santarém, pois julgo-o bastante expres­sivo, conforme tantas vezes me tendes feito analisar, para também a outrem edificar e instruir..

“— Sim, meu filho, estou certo de que calarão bem em suas almas o ouvirem o episódio que vimos narran­do... — aquiesceu pacientemente o sacerdote, cujo sor­riso bondoso dulcificou o mal-estar criado pela minha impertinência. — Aliás, a vida de cada um de nós en­cerrará ensinamentos majestosos e sublimes, desde que nos demos ao trabalho de compreendê-la à luz das leis divinas que regem os destinos humanos..

Interrompeu-se por um momento, como se concate­nasse lembranças, continuando em seguida:

“— No instante em que Margarida Silveira tombava nas lajes da taverna, tratamos de remover o seu Espí­rito — parcial e temporariamente desligado do fardo car­nal — para o Posto de Emergência que este Instituto man­têm nas adjacências do globo terrestre.

Os serviços ali são variados e constantes como no interior da Colônia. Muitos enfermos encarnados são ali curados pela medicina do plano espiritual, muitas cria­turas transviadas no caminho do Dever hão recebido sob aqueles hospitaleiros abrigos forças e vigores novos para a emenda e conseqüente regeneração, enquanto que mui tos corações aflitos e chorosos têm sido consolados, acon­selhados, norteados para Deus, salvos do suicídio, rein­tegrados no plano das ações para que nasceram e do qual se haviam afastado.

Para aí conduzida em Espírito, Margarida foi sub­metida a exame rigoroso, observando os nossos irmãos incumbidos do mandato as precárias condições em que se encontrava sua organização — fluídica — o perispíri­to — e que urgente se fazia um tratamento a rigor. En­quanto isso o corpo carnal também o era pelo cientista terreno — o médico assistente do hospital para onde fora transportado em estado comatoso.

Assentado ficara por nós outros que, a benefício do futuro de Margarida Silveira, o estado letárgico se prolongasse por vários dias, tantos quantos necessários à assistência moral mais urgente que a premência da situação exigia. Por isso mesmo, todo o interesse, os cuidados mais delicados tributamos ao seu corpo físico-material, ao qual transmitíamos as vitalidades necessá­rias à saúde e conservação. A jovem não se achava, ao demais, verdadeiramente doente, senão apenas intoxicada pelas forçadas libações de álcool. Apresentava órgãos normais, exceção feita do sistema nervoso, que sofria os resultados da amargurosa anormalidade que vivia. Seus sofrimentos graves, cuja natureza estava a requisitar desvelos abnegados, eram morais, razão por que os fa­cultativos do hospital do Porto, onde se encontrava o fardo carnal, a deixaram em observação, confundidos com o estado letárgico singular.”

Irmão Santarém deteve-se durante alguns instantes, consultando se nos interessaria a seqüência da narrativa. Em coro suplicamos que se não detivesse, porqüanto, não só a sorte da pobre menina nos preocupava muitís­simo, pois, à força de nela ouvirmos falar por seu pai, havia tantos anos, muito de coração a estimávamos ago­ra, como também o ensinamento nos atraía profunda­mente, calando em nosso âmago com fortes repercussões. De outro lado, o próprio Jerônimo animava a exposição dos passados fatos, o que era o melhor incentivo para o narrador.

Agradeceu o bondoso conselheiro com amável sor­riso e continuou, enquanto nossa atenção recrudescia.

Ficai sabendo, meus amigos, que Margaridinha não só não era má como não se amoldava de boamente ao vício. Repugnava-o até, ansiando libertar-se dele. No seu caso doloroso, o que havia era tenebrosa expiação, seqüência funesta e imprescindível de arbitrárias ações por ela mesma praticadas em antecedentes encarnações e que ficaram a clamar justiça e reparações através dos séculos, não apenas nos refolhos de sua própria cons­ciência, mas também nos harmoniosos códigos da Lei Su­prema, que absolutamente não se harmoniza com quais­quer transvios do caminho reto!”

Poderíeis dar-nos pequena amostra das ações praticadas pelo Espírito dessa jovem em antecedentes encarnações e que dessem causa às graves situações que no momento ela experimenta?” — atrevi-me a solicitar, levado por sincero desejo de aprender.

“— O estudo da Lei de Reencarnação é profundo e melindroso, meu amigo, ao mesmo tempo que singelo e fácil de compreensão, porqüanto nos apresenta o indício esclarecedor de muitos problemas que perseguem a Hu­manidade, os quais aparentemente se apresentam insolúveis. Futuramente fá-lo-eis em vós próprios, relendo as páginas do livro da consciencia... Até lá, no entanto, não haverá nenhum incónveniente em satisfazer-vos a natural curiosidade, uma vez que tereis a lucrar conhe­cendo mais um dos seus multiplos aspectos.

Sim, meus amigos! A profundidade das leis divinas é vertiginosa, podendo mesmo apavorar os Espíritos me­díocres, não ensaiados ainda para a sua compreensão! Mas a justiça que ressalta dessas leis destila tanta sa­bedoria e tão grande misericórdia, que o pavor se transformará em respeitosa admiração, a um exame mais prudente e minucioso!

Por mais incrível e incômodo que vos pareça, meus filhos, em antecedentes vidas planetárias, isto é, em mais de uma existência terrena, o Espírito que atualmente conheceis sob o nome de Margarida Silveira andou reen­carnando em corpos masculinos! Existindo como homem — porque o Espírito não é subordinado aos imperativos do sexo, tal como na Terra se compreende — abusou da liberdade, das prerrogativas que a sociedade terrena concede aos varões em detrimento dos valores do Espí­rito, e conspurcou deveres sagrados! Como homem, levou a desonra a lares respeitáveis, aviltou donzelas confian­tes, espalhou o fel da prostituição em torno dos seus passos, desgraçou e destruiu destinos que pareciam ró­seos, esperanças docemente acariciadas!... Mas... Veio um dia em que a Suprema Lei, que não quer a destruição do pecador, mas que ele viva e se arrependa — impe­diu-o de continuar o execrável atentado à Sua Sobera­nia! Cassou-lhe a liberdade, impôs-lhe ensejos favoráveis para se refazer da anomalia de tantas iniqüidades, im­pelindo-o a renascer sob vestes carnais femininas, a fim de mais eficientemente provar o mesmo fel que fez a outrem sorver, e a si mesmo poupar tempo precioso na programação dos resgates, por sujeitar-se ao rigor de penalidades idênticas às outrora impostas pelo seu mal orientado livre-arbítrio! Reencarnou como mulher a fim de aprender, na desgraça de ser atraiçoada na sua castidade, desacreditada, vilipendiada, abandonada, a empolgante lição de que não é em vão que se infringe um só dos mandamentos assinalados no alto do Sinal como padrão de honra para a Humanidade, que antes se deveria educar com vistas à finalidade sublime do amor a Deus e ao próximo!”

Inquietante mal-estar trouxe emoções de pavor ànossa mente surpreendida com a expectante novidade. Estremecemos, enquanto sentimos como que porejar suo­res gelados de nossa epiderme. Naquele momento lem­brávamos, vivainente, de que fôramos homens, de que nossas consciências não acusavam apenas ações angeli­cais em torno do gravíssimo assunto. Não obstante, fiel ao enraizado defeito de polemista, que teimava em acom­panhar-me assustadoramente, até nas paragens além da morte, vibrei, decepcionado, atordoado:

“— Se assim foi, como Jerônimo se tornou respon­sável pelos desastres da filha?...”

“— Ah, meu amigo! Bastaria pequena dose de ra­ciocínio para compreender que nem por ser assim dei­xará a consciência do pobre pai de acusá-lo duramente !...

— suspirou tristemente o sacerdote iniciado. — “O escândalo há de vir, mais aí do homem por quem o es­cândalo venha” — asseverou nosso Mestre Sábio e edu­cador incomparável, visto que, se assim procedeu, era que ele se achava, positivamente, em desacordo com os ditames virtuosos da Lei Suprema! Margarida Silveira tinha reparações a testemunhar, é certo; mas, infeliz­mente, o suicídio de seu pai, desamparando-a, foi a pedra de toque que a levou a se precipitar nos tristes acon­tecimentos! A dívida tenebrosa deveria ser resgatada através do tempo. Poderia não ser obrigatória para a existência presente, permanecendo pendente de ocasião oportuna. O livre-arbítrio de seu pai, no entanto, le­vando-o ao erro fatal do suicídio, precipitou acontecimen­tos cuja responsabilidade bem poderia deixar de pesar sobre seus ombros, a fim de que, agora, não sofresse ele as conseqüências do remorso! Que me direis, caro amigo, de um homem que se tornasse causa da morte trágica de um ser amado, embora não alimentasse in­tenção de assassiná-lo, abominando até a idéia de vê-lo morrer?!... Não sofreria, acaso .... Não viveria cor-roído de remorsos o resto dos seus dias, amargurado, desolado para sempre?!... Margaridinha deveria expiar o passado, é certo. Mas não seria necessário que a pedra do escândalo que a devesse atingir fosse engendrada pelas conseqüências de um ato praticado pela imprevi­dência de seu próprio pai!. ..“

Desapontado, silenciei, enquanto Irmão Santarém continuava:

“— Uma vez que a jovem peixeira não se compra­zia no vício, antes sofria a humilhante situação ansiando pela hora libertadora de a ele eximir-se, fácil foi a nós outros ajudá-la a reerguer-se, convencê-la à regeneração, norteando-a para finalidade segura.

Durante os seis dias em que a hospedamos na man­são de repouso do mencionado Posto, longas conversações estabeleci com ela, já que, em torno da solução para esse drama imenso, fui indicado como conselheiro e agen­te hierárquico dos verdadeiros Guias que trabalham a prol da regeneração da penitente. Ali albergada, era en­caminhada a certo gabinete apropriado ao gênero de con­fabulações que convinha promover, espécie de pafrató­rio, em que ondas magnéticas, de excelência capital, favoreciam a retenção de minhas palavras em sua cons­ciência, agindo fielmente sobre sua memória e assim levando-a a colecionar, nas camadas caprichosas da sub­consciência, todas as recomendações que eu lhe fazia e que lhe convinha recordar quando desperta, na ocasião opor­tuna para a execução, o que, com efeito, veio a fazer mais tarde, sem perceber, no entanto, que apenas cum­pria as recomendações que haviam sido aconselhadas ao seu Espírito durante a letargia em que estivera mergu­lhado o corpo material, pois, ao despertar, esquecera tudo, como era natural!

Exortei Margarida, em primeiro lugar, à prece. Fi-la orar, o que fez banhada em lágrimas! Dei-lhe a conhecer o recurso salvador da oração como luz redentora capaz de arrancá-la das trevas em que se confundia, para guiá-la a paragens reabilitadoras. Ministrei-lhe, tanto quanto me permitiam a exigüidade do tempo de que dis­punha, e bem assim a circunstância incomum que me fora preciso provocar, rudimentos de educação moral religiosa, e ela, que jamais a recebera, falando dos de­veres impostos pelo Criador Supremo em Suas Leis, re­cordando ainda que, no amor do Divino Crucificado, encontraria ela fortaleza de ânimo a fim de remover as montanhas das iniqüidades que a vinham escravizando à inferioridade, assim como bálsamos bastante eficazes para lenificar o fel que infelicitava sua vida. Infundi-lhe esperanças, novo ânimo, coragem para uma segunda eta­pa que se fazia mister em seu destino, confiança no Amigo Celeste que estendia mão compassiva e protetora aos pecadores, amparando-os na renovação de si mes­mos... e convenci-a de que, se como mulher fora desgraçada, no entanto sua alma encerrava valores cuja origem divina da sua força de vontade exigia ações no­bres e heróicas, capazes de promoverem sua reabilitação perante sua própria consciência e no conceito dAquele que de Si mesmo extraiu estrigas de luz para nos dar a Vida!

Fiel às observações que do Templo recebia por via telepática, concitei-a a envidar esforços para afastar-se do Porto, mesmo de Portugal! Continuar no berço natal seria impossibilitar a reação da vontade para a conse­cução da emenda... quando ela necessitava até mesmo esquecer de que um dia vivera no Cais da Ribeira! Crias­se, com o esforço heróico da boa-vontade, um abismo entre si própria e o passado nefasto, a fim de iniciar nova fase de vida. Era imprescindível que confiasse em si mesma, julgando-se boa e forte para vencer na peleja contra a adversidade!... porque o Céu enviaria ensejos propícios à renovação! O Brasil era terra hospitaleira, amiga dos desgraçados, enquanto seus portos, como o coração de seus filhos, generosos bastante para acolhê-la sem cogitar de particularidades pretéritas... Que pre­ferisse o exílio em solo brasileiro, porque tal exílio con­verter-se-ia mais tarde em mansão confortadora... ain­da porque o Espírito é cidadão universal e sua verdadeira pátria é o infinito, o que o levará a entender que, onde quer que se encontre, o homem estará sempre em sua Pátria, à qual deverá sempre amar e servir, honrando-a e engrandecendo-a para os altos destinos morais! Esque­cesse! Esquecesse o passado! E, com alma e coração voltados para o Eterno Compassivo, esperasse a ação do tempo, as dádivas do futuro: — a solicitude celeste não a deixaria órfã na experiência para a regeneração!“

Ouvíamos comovidos, apreciando o valor inerente à tese, vasta bastante para servir a quantos se vissem incursos em penalidades idênticas. Guardávamos todavia silêncio, enquanto o digno educador, cujo fraseado mais se ameigava à proporção que se empolgava na preleção formosa, continuou, após alguns instantes de pausa:

“— Convinha despertar Margarida, isto é, fazer seu Espírito voltar ao templo sagrado do aparelho carnal, retorná-lo a fim de continuar as tarefas impostas pelo curso da existência.

Como, realmente, não se achava doente, o despertar operou-se natural e suavemente, sob nossa desvelada assistência, tal como se voltasse de prolongado e benfa­zejo sono. Médicos e enfermeiros confessaram-se atôni­tos. A jovem, porém, mostrava-se penalizada por haver tornado à vida objetiva, e derramava abundantes lágri­mas. Incoercível angústia pesava-lhe sobre o coração. Do que se passara com seu Espírito durante aqueles seis dias de sono magnético não se recordava, de modo al­gum. Apenas vaga sensação de ternura imprimia-lhe no imo do ser misteriosa e doce saudade, que não poderia definir...

Após alguns dias de ansiosa expectação, deliberara transportar-se para Lisboa à procura de sua irmã Arin­da, a quem sabia servindo num hotel de boa reputação.

A situação, porém, apresentava-se difícil para a desventurada jovem. Não possuía recursos a fim de empreender a viagem. Seu passado cheio de máculas e sua infeliz reputação inibiam-na colocar-se em casas ho­nestas, como criada de servir. Todavia, em torno dos desgraçados existem sempre anjos-tutelares prontos a intervir na ocasião oportuna, remediando situações con­sideradas insolúveis. Em torno de Margaridinha a in­tervenção do Céu fez-se representar, para os recursos necessários ao transporte, por suas pobres companheiras de enfermaria, as quais, vendo-a chorar freqüentemente, dela arrancaram a confissão da amargurosa situação. Pobres, humildes, bondosas, sofredoras, e, por isso mes­mo, podendo melhor interpretar as desditas alheias, as boas criaturas cotizaram-se, exigiram ajuda dos maridos e parentes e, no fim de poucos dias, Margarida recebeu o necessário para transportar-se à capital do Reino.

Arinda acolheu a irmã. Perdoou-lhe os passados des­varios, compreendendo, finalmente, que em tão lamen­tável drama houvera mais ignorância e desgraça do que verdadeira maldade, pois não possuía esclarecimentos filosóficos capazes de perceber, nos acontecimentos em torno da manazinha caçula, os antecedentes espirituais que acabei de revelar.
Empregou-a no hotel, ao pé de si, procurando habi­litá-la nos misteres domésticos visando a colocá-la futura­mente em ambientes familiares. Acontece, porém, meus amigos, que a filha de Jerônimo irá para o Brasil mais depressa do que se esperava... É que, neste hotel, hos­peda-se atualmente uma família portuguesa residente em S. Paulo — o grande centro industrial brasileiro. Visita a terra natal e excursiona pela capital, a qual só ago­ra tem ocasião de conhecer... Margarida, guiada pela irmã, serve-a com atenções e bondade... Há simpatias de parte a parte... A menina acaba de ser convidada a partir para o Brasil, em companhia da família, como criada de servir... Arinda interveio, compreendendo as vantagens daí conseqüentes... Margaridinha concordou prazenteira... e dentro de alguns dias será encerrada a página negra de sua existência para recomeçar expe­riências novas, com novos ensejos de progresso e rea­lizações...”

Entreolhamo-nos ansiosos, como num singular de­sabafo, detendo-nos compungidamente a fitar Jerônimo, personagem que figurava na tormentosa odisséia que acabávamos de ouvir, com a tremenda responsabilidade, perante a lei divina, de havê-la provocado com a ação relapsa do suicídio! O ex-comerciante de vinhos, porém, conservava-se de fronte curvada, concentrado em pensa­mentos profundos.

De súbito, em meio do silêncio augusto que sucedera à comovedora exposição, uma voz compassiva, a reve­lar carinhosas entonações, interrogou, sinceramente inte­ressada:

“— E Albino, Irmão Santarém?... Decerto o Céu concedeu-lhe também alguma dádiva?...”

Era Belarmino, cuja alma bondosa, convertida para a emenda, apresentava já os melhores e mais sólidos característicos de fraternidade, dentre os do nosso grupo.

Albino!... — disse sorridente o digno sacer­dote, como absorvido em grata recordação. — Albino vai muito bem, melhor muitas vezes do que a irmã!... O insulamento do cárcere foi-lhe propício à meditação, fazendo-o refletir maduramente e levando-o a procurar Deus através das asas remissoras do sofrimento! Tal como foi feito à irmã, doutrinamo-lo em nosso campo de repouso, e, facilmente aceitando nossas admoestações, depressa resignou-se à dolorosa situação, compreendendo justa a punição, pois que realmente errara no seio da sociedade! Dedicou-se a leituras e estudos educativos, guiado muito de perto por uma alma de escol em quem depositamos muita confiança, e presentemente encarnada na Terra — nosso agente fiel e porta-voz sincero — isto é, um médium, um iniciado cristão da Terceira Revela­ção, por nome Fernando...

Pois bem, ainda nos serviços realizados no Posto de Emergência já citado, instruções foram dadas ao caro intérprete a respeito do que deveria fazer a fim de au­xiliar-nos em torno do jovem em apreço, transportado que fora para aquele local o seu Espírito operoso, du­rante sono profundo. Ora, assim sendo, Fernando, que exerce atividades profissionais na própria inspetoria de polícia, como adepto que é da Terceira Revelação vem procurando, tanto quanto possível, testemunhar os pre­ceitos do Divino Missionário. Dentre os inúmeros atos generosos que vem evidenciando como espírita-cristão, destacaremos o interesse tomado pelos encarcerados e sentenciados, aos quais procura assistir e servir. Leva-lhes um raio de amor em cada visita que lhes faz. In­funde-lhes esperanças aos corações desfalecidos. Acal­ma-lhes a revolta interior com a suavidade fraterna e boa da sua palavra inspirada, de onde jorram esclare­cimentos regeneradores para desalterar-lhes a sede de justiça e proteção!

Albino sentiu-se atraído por aquelas expressões ma­viosas que lhe revelaram as doçuras do Evangelho do Reino de Deus, como falando de um mundo novo, uma era nova que surgiria em sua vida de rapaz desampa­rado! Os olhos grandes e sonhadores de Fernando, como refletindo o manancial de Luz que deslumbrava sua alma de escolhido do Céu, impressionaram fortemente o filho de Jerônimo, que, aturdido e dominado por sin­gular simpatia, lhe confiou a própria história atormen­tada! Nosso querido agente comoveu-se sinceramente, Confortou o rapaz, ministrou-lhe educação moral-reli­giosa sob as inspirações da Terceira Revelação, tal como lho havíamos recomendado, o que nos evitou grandes trabalhos em torno do jovem encarcerado...

Na solidão do próprio cárcere, assim, bem cedo Al­bino pôde receber diretamente nossos incentivos, pois, graças aos piedosos esforços do servo do Senhor e àboa-vontade do próprio penitente, tornou-se possível a este falarmos tomando-lhe da mão e ditando-lhe pre­ceitos educativos, dos quais tanto e tanto necessitava a fim de se fortalecer para as caminhadas redentoras! E o próprio Albino escreveu o que lhe sussurrávamos ao pensamento através da intuição, banhado em lágri­mas, protestando interiormente continuada boa-vontade para o futuro!

Porém, não paralisou aí a solicitude verdadeiramente fraterna do nosso caro Fernando.

Possui ele relações de amizades sociais achegadas ao Paço das Necessidades. Desdobrou-se e obteve as atenções de Sua Majestade, a Rainha D. Amélia, para o infeliz filho do nosso suicida. Fê-la compreender tra­tar-se da pessoa de um õrfão desamparado, a quem a inexperiência e seduções maléficas haviam infelicitado, mas a quem se poderia auxiliar ainda, tornando-o útil à sociedade, com um pouco de proteção e ajuda fraterna.

Aqui, em o nosso Instituto, não se ignora que o Espírito dessa ilustre dama da sociedade terrena é assaz generoso, compassivo, desejoso sempre de acertar. Para o progresso moral e espiritual de Albino, por sua vez, segundo as instruções que recebêramos de Mais Alto, seria dispensável a prova do cárcere a alongar-se ainda por três anos. Coadjuvamos, portanto, no momento, os esforços de Fernando, fielmente inspirado por nós ou­tros, no sentido de obtermos quanto antes a projetada remoção do prisioneiro para a África, onde, consoante foi estabelecido, ficará em liberdade...”

“— Perdão, respeitável Padre Santarém! Preferiria eu que Albino fosse encaminhado para o estrangeiro... Para o Brasil, por exemplo, a segunda pátria dos por­tugueses, onde gostamos tanto de viver e também de morrer, em deixando Portugal... Pobre Albino! A Afri­ea!... Inóspita e inclemente!. . .“ — atreveu-se inge­nuamente Mário Sobral, sem medir a inconveniência que proferia.

Não, meu jovem amigo! Albino necessita ainda ser conservado em custódia, quer policial terrena quer espiritual, por parte dos que zelam por seu futuro... No Brasil encontraria demasiadas facilidades, que pode­riam afastá-lo da unção em a qual se vem conservando desde que conheceu Fernando e se filiou à magna Ciên­cia da Espiritualidade! Teria liberdade excessiva, pois a grande democracia brasileira não é o que lhe convém no momento... Arrastá-lo-ia, possívelmente, a desvios prejudiciais, quando, ao iniciar a própria regeneração, rodeado de responsabilidades, se encontra ainda muito fraco para vencer tantas e tão grandes tentações, como as que se lhe deparariam no seio daquele generoso país. A África inclemente ser-lhe-á mais propícia aos interes­ses espirituais! Há mais caridade encaminhando-o para ali do que para ambientes contrários à emenda que lhe cumpre tentar a bem dos próprios destinos imortais!

Estamos, pois, na expectativa de vê-lo transportar-

-se para Lourenço Marques ou outra qualquer localidade africana...

Considerando que os acontecimentos descritos pelo verbo eloqüente e sugestivo do conselheiro do Isolamento necessariamente influiriam no coração aflito daquele pai suicida, fornecendo-lhe a um mesmo tempo lembranças torturantes e esperanças reanimadoras, felicitei-o since­ramente pelo formoso êxito das suas rogativas de pre­ce, louvando ainda, com júbilo, a amorosa solicitude da Virgem de Nazaré, cuja intervenção remediara situa­ções supostas definitivas. E concluí com uma interro­gação, cuja resposta tão interessante me pareceu, que não me furtarei ao desejo de ajuntá-la a estas notas, finalizando o capítulo. Indaguei de Jerônimo, abraçando-o fraternalmente, enquanto os companheiros de caravana pareciam apoiar meu gesto, com sorrisos amistosos:

E agora, meu caro Jerônimo, resolvidos os mais prementes problemas que te ensombravam de amar guras o viver, não te sentirás, porventura, mais sereno a fim de cuidares do futuro que, segundo depreendo, bastante prejudicado já foi pelas aflições constantes e impaciências contraproducentes, em que te trazia a re­cordação dos filhos queridos?... Não exultas, sabendo o herdeiro do teu nome prestes a poder servir honrada­mente a sociedade, o coração aberto às auras celestiais de uma fé religiosa que é como a bênção do Todo-Pode­roso glorificando-lhe o futuro?... Não sorrirás, resig­nado, sabendo tua loira Margaridinha recebida no seio de uma família respeitável, tão respeitável que foi hon­rada com as atenções da Virgem, a quem suplicaste, para encaminhá-la à reabilitação imorredoura?... Sim, Jerô­nimo, estarás jubiloso! Todos nos congratulamos contigo, meu amigo!.. .“

Só então levantou o semblante entristecido, enquan­to respondia com entonações lacrimosas:

- Sim, amigo Camilo! Tão vastos e de tão pro­fundo alcance foram os benefícios por mim recebidos através da assistência dispensada aos meus entes mais caros, que jamais serão bastante eloqüente quantas ex­pressões possa eu ter para testemunhar à Mãe Santa do meu Salvador a gratidão que me enternece o seio... a não ser que, por misericórdia ainda mais extensa, ve­nha a me transformar em protetor de órfãos e aban­donados, evitando que se despenhem pelos abismos em que vi submersos meus queridos filhinhos!



Alenta-me a esperança de que um tal milagre se concretize, ó Camilo! Pois aprendi com meus dedicados mestres desta casa acolhedora que o Espírito vive sobre a Terra sucessivas vidas, nascendo e renascendo em for­mas humanas quantas vezes sejam necessárias ao desen­volvimento do seu ser em busca da bênção de Deus! Espero, portanto, aquilo mesmo fazer um dia, na Terra, com outra forma humana que me seja concedida! Se, como hoje ardente e sinceramente aceito, possuimos uma alma imortal, marchando progressivamente para Deus, demonstrarei meu reconhecimento às Potestades Celes­tes, criando, reencarnado na Terra, orfanatos, interna­tos amorosos e acolhedores, lares cristãos onde pequeninos órfãos estejam ao abrigo das dramáticas situações em que meu suicídio arremessou meus indefesos filhos!... Sim! Reconfortado, agradecido, esperançado, eu estou! Mas, jubiloso, ainda não, porqüanto uma avalancha incô­moda de dívidas a solver abrasa-me a consciência, re­queimando-a com os fogos impiedosos de mil razões para os remorsos! Oh! eu não acuso Zulxnira, porque também me sinto culpado da sua queda nefanda! A po­breza irremediável, as privações acumuladas, a fome torturadora, foram algozes que a perseguiram e ven­ceram, encontrando-a moralmente desaparelhada para a resistência necessária às pelejas diárias contra a ad­versidade, pois a infeliz, que no lar paterno fora educada às brutas, por mim, que a amava tanto, habituada fora a conforto excessivo e contraproducente, a ociosidade nefasta que o dinheiro mal dirigido produz! Se eu, o varão, a quem cabia o dever sagrado de velar pelo fu­turo da família, educando a prole, defendendo-a, honran­do-a, fraquejei desastrosamente, abandonando-a na des­graça, ocultando-me atrás de um suicídio a fim de evi­tar a luta honrosa, completamente desencorajado para o desempenho da missão que até os seres inferiores da Criação observam com apego, ternura e satisfação; se eu, o chefe natural, que perante os homens com o Ma­trimônio, e perante Deus com a Paternidade, compro­metera-me a conduzir o rebanho da Família ao santuário da Honra e da Felicidade, abandonei-a ao fogo vivo das iniqüidades mundanas, escondendo-me debaixo do túmulo cavado pela covardia de um suicídio — quem mais se obrigaria ao dever que era meu!... Que poderia fazer a pobre Zulmira, se eu, pior que ela, cheguei a matar-me para evitar o cumprimento de deveres inalienáveis!... Oh! para que Zuhnira vencesse à frente da desgraça, defendendo e honrando quatro filhos menores, seria pre­ciso que se houvesse habilitado à luz de princípios ele­vados, sob orientação de adiantada compreensão cristã, como tantas vezes asseverou Irmão de Santarém, ven­do-me sofredor e inconformado com o seu procedimento! Pobre Zulmira; porém, que, como eu, ignorava até mes­mo se, com efeito, era criação divina!... não obstante a afetação religiosa exigida pela sociedade herética e hipócrita em que vivíamos! A oração é o meu conforto, assim como os estudos que venho fazendo em torno da pretensão à nova concessão de um corpo terreno... E rendo graças a Deus por tudo isso, meu amigo, pois já é muito para quem, absolutamente, nada fez para mere­cer tanta misericórdia...”

“— Podeis prestar-nos alguns informes quanto às condições em que se verificarão as experiências novas do nosso caro Jerônimo, Irmão de Santarém?” — inquiri, atraído pela sucessão dos ensinamentos que de todos aqueles fatos se depreendiam.

Será raciocínio simples, meu amigo, ao alcance de todo aprendiz aplicado.

Quando, na sociedade terrena, praticamos delitos irre­mediáveis ao voltarmos à Pátria Espiritual havemos de nos preparar para mais tarde tornar ao teatro das nos­sas infrações, em existências posteriores, a fim de recapi­tular o passado operando de modo contrário ao em que fracassamos. Partindo dessa regra, no caso vertente veremos, necessariamente, meu pupilo em apreço nova­mente defrontar-se com a ruína financeira, a desonra comercial, tal como a Terra considera a falência de uma firma comercial; com a pobreza, com o descrédito — motivos estes que ontem o levaram ao suicídio —, a fim de que prove o arrependimento de que se acha possuído e os valores morais que a amarga experiência de além-túmulo levou-o a adquirir. Para que assim seja, a ruína deverá positivar-se, no entanto, a despeito dos seus es­forços por evitá-la e apesar da sua probidade, mas nunca pela incúria de que acaba de dar provas, depredando em gozo. e vaidades mundanas o empréstimo da fortuna que o Distribuidor Supremo lhe confiara com vistas a amplas possibilidades de progresso para ele próprio, como para seus semelhantes... Restará o grave impasse cria­do com a família, a quem abandonou em situação espi­nhosa, fugindo ao dever sagrado de lutar para defen­dê-la... A consciência aconselhá-lo-á as particularidades do desempenho de tão melindrosa reparação, de acordo com os seus próprios sentimentos, pois ele possui o livre-arbítrio. As pelejas da expiação, no entanto, os teste­munhos amaros, os dramas que será levado a viver no âmbito das reparações inadiáveis serão agravados por um precário estado de saúde orgânica e moral, males indefiníveis, que a ciência dos homens não removera, porque serão repercussões danosas das vibrações do pe­rispírito prejudicado pelo traumatismo, resultante do sui­cídio, sobre o sistema nervoso do envoltório físico-ma­terial, que então possuirá. Ë possível que até mesmo a surdez e uma paralisia parcial, que poderá afetar o aparelho visual, assinale seu futuro estado de reencar­nado... porqüanto preferiu ele matar-se dilacerando o aparelho auditivo com um projetil de arma de fogo... e sabeis, meus amigos, que o corpo astral — o Peres­pírito —, sendo, como é, organização viva e semimaterial, também se ressentirá, forçosamente, com a bruteza de um suicídio... e assim modelará o futuro corpo pa­decendo mentalmente dos mesmos prejuízos..

Despedimo-nos do Irmão Santarém com as lágrimas a oscilarem em nossas pálpebras. Não tínhamos expres­sões com que agradecer a gentileza das elucidações pro­porcionadas. Abraçamos Jerônimo e saímos, penalizados com a gravidade da situação que o premia, pois, apesar de tudo quanto acabáramos de saber, o pobre com­panheiro não passava de um solitário circunscrito ao Iso­lamento, de onde não se afastaria nem mesmo a fim de visitar os filhos, senão para se instruir dentro da me­dida das próprias capacidades, e sob vigilância severa dos mentores. Carregado de vibrações pesadas e cho­cantes, o contacto com os seres amados poderia suges­tioná-los angustiosamente, arrastando-os a possibilidades desastrosas.

“— Deveis encerrar esta série de visitas com uma pequena demora pelo Departamento de Reencarnação — advertiu o velho doutor de Canalejas —, pois, dentro de alguns dias mais, devereis realizar o antigo sonho, re­vendo a Pátria e o antigo lar...

Pequeno veículo esperava-nos. Sobre nós fechou-se a imensa ponte levadiça. Saímos para o extenso campo marchetado de açucenas. Indefinível amargura cruciou nossos corações, enquanto eu mesmo traduzia as impres­sões de todos os meus pobres cômpares, ao exclamar:

— Adeus, pobre Jerônimo! Não sei se nos veremos ainda, antes que a grande e inevitável jornada da re­encarnação nos separe!... Que o Celeste Benfeitor se amerceie do teu Espírito, iluminando com os favores da Sua paternal demência a rota por onde peregrinarás rodeado de espinhos e decepções! A tua história é tam­bém a nossa, eu bem o sei!... Quando o nobre Irmão de Santarém ilustrava os teus problemas com o seu ver­bo sugestivo e elucidador, bem percebia eu que, carido­samente, ele desejava advertir-nos quanto aos momentos difíceis que a nós outros também esperam...”





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