Rias de um suicida yvonne do amaral pereira


«A cada um segundo suas obras»



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«A cada um segundo suas obras»
Digo-vos, em verdade, que dali não sai­reis, enquanto não houverdes pago o Último ceitil.”

JESUS CRISTO — O Novo Testamento. (18)
Foi com emoção que, cerca de zero hora, deixamos o Pavilhão Indiano atendendo ao chamamento do nosso paternal amigo, por intermédio dos dois Canalejas.

Até então não saíramos jamais à noite. A discipli­na rigorosa das mansões hospitalares, verdadeiro método correcional, impunha-nos o dever de nos recolhermos às seis da tarde, não sendo permitido jamais a um interno a permanência fora dos muros do seu albergue depois dessa hora. Somente o diretor do Departamento poderia ordenar uma exceção, e muito raramente era que o fazia, e unicamente para fins de instrução.

Os locais por onde transitaríamos até ao bairro da Vigilância, assim como os demais núcleos e Departa­mentos, não se encontravam, no entanto, em trevas, mas aclarados por um sistema de iluminação a que nenhuma outra concepção congênere pudéssemos comparar. Não compreendíamos qual a natureza dessa luz que se esten­dia através das alamedas imensas contornadas de arvo­redos recobertos de neblinas. Mais tarde, no entanto, chegamos à dedução de que seria a própria eletricidade condicionada de modo favorável ao ambiente astral. O
(18) Mateus, capítulo 5, versículos 25 e 26.
que era certo é que esse fulgor, não obstante sóbrio, discreto, irisava-se ao sereno produzindo efeitos cristali­nos muito apreciáveis, mesmo belos, sobre a estruturação nívea local.

Aguardava-nos um veículo dos que comumente usa­vam os internos para giros locais. Ao chegarmos toda­via à sede da Vigilância, vimos que enorme caravana se dispunha a partir, enquanto milicianos e lanceiros a in­tegravam, zelando pela tranqüilidade geral.

Durante algum tempo sentimo-los deslizar suave-mente, sem que adviesse qualquer incômodo. E tanta a naturalidade que de forma alguma daríamos conta da verdadeira natureza do meio de tração.

Subitamente estacou o veículo, enquanto, atencio­so, um vigilante nos convidava a descer, o que fizemos, curiosos e satisfeitos.

Encontrávamo-nos em vasto pátio cercado de pos­santes muralhas, o qual, apesar do adiantado da hora, apresentava grande movimentação de transeuntes, desen­carnados e até de encarnados, conquanto se apresentas­sem estes apenas com suas configurações astrais, enquanto os corpos materiais jaziam descansados em seus leitos, entregues a sono reparador. Ao fundo, o edifício, imenso, fartamente iluminado, todo branco e lucilante à claridade de possante lampadário, afigurou-se-nos hotel ou repartição pública destinada a expedientes noturnos. Na verdade tratava-se apenas de um apêndice da Colô­nia, aldeamento necessário à variedade de serviços afetos àquela nobre instituição, posto de emergência móvel de que falara o chefe de nosso Departamento, e o qual não nos era totalmente estranho por dele ouvirmos referên­cias no caso de Margaridinha Silveira. Milicianos da Legião postavam-se de sentinela nos portões de entrada, ainda contornando a vigilância pelos arredores.

Cada grupo de caravaneiros possuía nesse edifício dependências particulares, onde estabeleciam gabinetes de trabalho. Em chegando ao local reservado a Teócri­to, observamos resumirem-se tais dependências em um gabinete de trabalho com aparelhamentos variados, já conhecidos da Colônia, e um palratório secreto. Teócrito reuniu Romeu e Alceste e, enquanto nos fazia sentar nas confortáveis poltronas que guarneciam a antecâmara, entregou-lhes dois endereços diferentes, observando:

“- Há cerca de duas horas que estas damas, cujos endereços vos confio, conciliaram sono reparador. Tra­zei-mas aqui, depois de prevenir-lhes o corpo físico com reservas magnéticas... Porfiai por trazerdes com elas seus respectivos esposos ou companheiros... Todavia, não é indispensável esta última recomendação. .

Forneceu-lhes auxiliares retirados da guarnição do próprio Posto e milicianos para as garantias necessárias, despedindo-os com animadoras palavras. Em seguida, voltou-se para nós e, sentando-se ao nosso lado, iniciou conosco animada palestra.

Sentíamo-nos grandemente satisfeitos. A presença dessa atraente personagem, cujas atitudes democráticas tanto nos desvaneciam, infundia em nosso imo tão sua­ves e benévolas impressões, que nos confessávamos re­vivescidos e encantados. Natural timidez, no entanto, inibia-nos dirigir-lhe a palavra antes de sermos inter­pelados. Ele, porém, lendo em nossos pensamentos as ânsias que flutuavam, não se fez esperar, vindo ao nos­so encontro com esclarecimentos utilíssimos, bondoso e sorridente:

Bem sei — disse ele — a interrogação que desde hoje à tarde vos excita a curiosidade, louvável curiosidade no caso vertente, porqüanto vejo irradiar de vossas cogitações o desejo nobre de aprender. Enquanto esperamos o regresso dos meus caros discípulos em mis­são, aproveitaremos o ensejo para pequenas observações. Estou ao vosso dispor, interrogai-me.”

Foi Mário, como sempre, que se atreveu, pois, como sabemos, agitava-se todas as vezes que ouvia referências à Terra e aos renascimentos em seus proscênios:

“— Poderíamos saber, caro mestre, o que foram fazer à Terra os vossos discípulos?...”

“— Sim, meu amigo! Nem eu aqui vos traria senão para proporcionar-vos algumas observações em torno dos nossos trabalhos de pesquisas. Romeu e Alceste foram à ilha de S. Miguel e a um lugarejo do Nordeste bra­sileiro — locais onde a penúria do infortúnio atinge pro­porções inconcebíveis aos felizes habitantes dos centroS civilizados — à procura de duas irmãs nossas cujos no­mes estão registrados em nossos arquivos como grandes delinqüentes do pretérito, as quais, no momento, pro­curam erguer-se moralmente, através de existência de severos testemunhos de arrependimentO, resignação, hu­mildade, paciência... Meus discípulos atrairão seus Es­píritos para aqui, uma vez que seus envoltórios materiais estão mergulhados em sono profundo e reparador, gra­ças ao adiantado da hora. Aqui, entraremos em enten­dimentos sobre a possibilidade de se tornarem mães de dois pobres internos do Manicômio, cujo único recurso a tentar, no momento, a fim de se aliviarem, será a reencarnação em círculo familiar obscuro e sofredor, pois só aí conseguirão libertar-se das deprimentes som­bras de que se contaminaram..

“— Pelo que vimos observando, esses infelizes re­nascerão em condições assaz embaraçosas?...“ — inter­veio Belarmino, impressionado.

“— Realmente, irmão Belarmino! — continuou. —Encontram-Se em situação tão desfavorável que, antes das experiências mesmas, que deverão repetir, uma vez que a elas se furtaram com o suicídio consciente e per­feitamente responsável, só poderão animar envoltório carnal enfermiço, meio deturpado, onde se sentirão to­lhidos e insatisfeitos através da existência toda! Assim, de posse de tal envoltório — com o qual se afinaram pelas ações que praticaram —, cumprirão o tempo que lhes restava de permanência na Terra, interrompida, antes do tempo justo, pelo suicídio. Dessa forma se ali­viarão dos embaraços vibratórios que se criaram, e ob­terão capacidade e serenidade para repetir a experiência em que fracassaram... mas isto implicará uma segunda etapa terrena, ou seja, nova reencarnação, como será fácil depreender... Temos já consultado várias damas, em outras localidades análogas, se se prestariam, de boa­mente, à caridade de aceitarem filhos doentes, por amor ao Bem e respeito aos sublimes preceitos da Fraternidade Universal. Infelizmente, porém, nenhuma delas pos­suía princípios de moral bastante elevados a fim de aquiescer em serviço à Causa Divina com abnegação, voluntariamente! A volta ao mundo das expiações, da­queles sofredores, em vista disso, sofria delongas, quan­do urgia proporcionar-lhes alivio por esse meio supre­mo! Então, a direção-geral do Instituto enviou-nos dados sobre as duas senhoras já mencionadas, capazes ambas de enfrentarem a espinhosa missão por devedoras de grandes reparações às Leis da Criação!...”

“— Suponhamos, Irmão Teócrito, que se recusem ?...“ — alvitrei, fiel ao azedo pessimismo que me não deixara ainda.

Não será provável, meu caro Camilo, uma vez

que se trata de duas almas bastante arrependidas de um mau passado, e que, atualmente, humildes, ignoradas, só desejam a reabilitação pelo sacrifício e a abnegação! Estou incumbido de convencê-las a aceitarem de boa­mente a melindrosa e heróica tarefa. Todavia, se se recusarem, a Divina Providência encarnada na Lei que rege o plano das Causas estará no direito de impor-lhes o mandato como provação nos serviços de reparação dos maus feitos passados, pois ambas são Espíritos que, em antecedentes existências planetárias, erraram como mães, furtando-se, criminosamente, às sublimes funções da Ma­ternidade, sacrificando, nas próprias entranhas, os en­voltórios carnais em preparo para Espíritos que delas deveriam renascer, alguns em missão brilhante, e des­curando-se, lamentavelmente, dos cuidados e zelos aos filhos que a mesma Providência lhes confiara de outras vezes... Agora, imersas nas trevas dos crimes que co­meteram contra a Divina Legislação, por menosprezarem a Natureza, a Moral, o Matrimônio, os direitos alheios e a si mesmas, encarceradas, uma na solidão de uma ilha de onde jamais poderá escapar-se, outra na aspereza de um sertão inclemente, ao em vez de filhos missioná­rios, inteligentes, considerados nobres e dignos no plano Astral, e, por isso mesmo, úteis e benquistos — que o seriam forçosamente na sociedade terrena — terão de expiar os infanticídios passados, debruçando-se sobre miseráveis berços onde gemerão, rangendo os dentes, outros Espíritos, agora culposos, reputados grandes condenados no plano espiritual, transformados pelo renascimento expiatório em monstrengos repulsivos, aos quais deverão dedicar-se como verdadeiras mães: amorosas, pacientes, resignadas, prontas para o sacrifício em defesa do fruto de suas entranhas, por mais desarmonioso que seja!...”

Após penoso silêncio, em que todos nós, raciocinando angustiosamente, nos perdíamos em conjecturas confu­sas, adveio ainda Belarmino, justificando o antigo reno­me de professor de dialética:

“— Dizei, Irmão Teócrito: obriga-nos a Lei a reen­carnarmos entre estranhos ?... como filhos de pais cujos Espíritos nos sejam completamente desconhecidos?... Pensamos que semelhante corretivo será sumamente do­loroso!. .

“— Sim, é doloroso, não resta a menor dúvida, meu amigo! Mas nem por isso deixará de ser justo e sábio o acontecimento! Geralmente, tal acontece não só a sui­cidas, como também àqueles que faliram no seio da fa­mília, levando, de qualquer forma, o desgosto aos cora­ções que os amavam! O suicida, porém, desrespeitando o seio da própria família ao infligir-lhe o áspero des­gosto do seu gesto, ultrajando, com o menosprezo de que deu prova, o santuário do Lar que o amava, ou incapa­citando-se para a conquista de um novo lar afim, colo­cou-se, de qualquer forma, na penosa necessidade de reeditar a própria existência corpórea fora do circulo fa­miliar que lhe era grato. Existem casos, não obstante, em que poderá voltar em ambiente afetuoso, se possuir afeições remotas que se encontrem novamente presentes às experiências terrestres, na época em que haja de re­encarnar, se estas consentirem em recebê-lo para aju­dá-lo na expiação... De qualquer forma, porém, renas­cerá em círculo favorável ao gênero de provação que deverá testemunhar. Casos outros não raramente se ve­rificam, são os mais dolorosos, em que terão de reiniciar o aprendizado carnal, a que se furtaram, entre Espíritos inimigos, o que será muito pior do que se o fizer entre estranhos, simplesmente... Acresce a circunstância de que todas as criaturas são irmãs pela sua origem espi­ritual e que há mister de que tais coisas se verifiquem sob a sublime lei de Amor que deve atrair e unir, indisso­luvelmente, todos os filhos do mesmo Criador e Pai!...”

Entrementes, davam entrada no singular gabinete dois infelizes asilados do Manicômio, amparados por au­xiliares de Irmão João. Passaram tristemente, parecendo alheios a tudo que os cercava, o olhar vago e indeciso, tardos os passos, expressões de angústias indefiníveis! Conduzidos ao palratório, foram ali introduzidos por Teó­crito, desaparecendo de nossas vistas. Escoaram-se al­guns minutos, Os assistentes de Irmão João aguardavam novas ordens na própria sala onde nos encontrávamos, conservando respeitosa atitude. Não nos atrevíamos a emitir sequer um monossílabo. O silêncio dominava o vasto ambiente do Posto singular e vago temor inibia-nos prosseguir na conversação.

De súbito, movimentou-se o exterior como se algo de muito importante se passasse... e Romeu e Alceste, e Carlos e Roberto, com alguns mais auxiliares, entra­ram no salão conduzindo duas senhoras, duas mulheres de humílinia condição social, ladeadas por lanceiros, quais prisioneiras de grande responsabilidade!

Curiosos, examinamo-las. Uma, franzina, delicada, parecendo enfermiça e frágil, aloirada, refletindo em seu físico-astral os trajes a que se habituara na existência objetiva diária, era portuguesa e não contaria senão dezoito primaveras, tudo indicando tratar-se de uma re­cém-casada. O marido acompanhava-a, humilde, respei­toso: era um pescador! A outra, atrigueirada, vivaz, espantadiça e nervosa, revelava-se imediatamente como sendo a brasileira, fazendo lembrar o tipo clássico egíp­cio, com os cabelos negros e lisos esparsos nas espá­duas, bem pronunciadas as maçãs do rosto, a expressão enigmática nos belos olhos cavados e luzentes, onde as lágrimas pareciam assinalar incoerentes amarguras! En­contrava-se só. Não era casada! O ludíbrio de um sedu­tor abandonara-a à mercê dos acontecimentos oriundos de um amor infeliz, mal conduzido e profanado pela trai­ção masculina — muma sociedade que não perdoa à mu­ lher o deixar-se enganar pelo homem em quem depositou confiança! — soubemo-lo mais tarde, penalizados!

Os três eram como que protegidos por tenuíssimo envoltório que se diria de cristal, cuja forma correspon­dia exatamente à da silhueta que traziam, e deles se desprendia estreita faixa luminosa, estendendo-se, alon­gando-se como se estivesse atada ao tronco de prisão invencível! (19)

Teócrito acolheu-os bondosamente, e, tratando-OS com imensa ternura, fê-los penetrar os gabinetes do palratório, onde já se encontravam os pupilos de Irmão João. Em seguida nos surpreendemos com a presença do próprio Irmão João, que se aproximara, sorridente. Levantamo-nos respeitosos e emocionados à sua passa­gem, dele recebendo cordial cumprimento. Penetrou, com Teócrito, no palratório... e o silêncio caiu novamente no salão.

Conquanto ali nos encontrássemos para instrução, não assistimos ao que se passou em secreto entre os obreiros de Jesus e os delinqüentes necessitados de re­denção. Hoje, porém, traçando o esboço destas memó­rias — trinta anos depois destas cenas se passarem —poderei esclarecer o leitor quanto ao dramático episódio desenrolado naquele augusto recinto que então nos era vedado, pois, nesse longo espaço de tempo, sólido conhe­cimento adquirimos que a tanto nos autorizam.

Teócrito e João procuravam entrar em entendimen­tos com o casal português e com a brasileira nordestina sobre a vantagem do renascimento, por seu intermédio, daqueles míseros infratores da Soberana Lei, necessita­dos da existência corporal terrena para se aliviarem dos insuportáveis sofrimentos por que vinham passando! Os acontecimentos foram explicados com minudências a to


­(19 Trata-se do revestimento de fluidos vitais próprios de todos os Seres vivos e do cordão fluídico que une o Espírito ao corpo material, durante a encarnação, respectivamente.
­ dos três, enquanto os pretendentes à qualidade de filhos lhes eram apresentados em toda a dramática veracidade das circunstâncias em que se debatiam. Os pacientes paladinos da Fraternidade agiam como eméritos causí­dicos, que eram, da Suprema Legislação, expondo com eficiência e nobreza de vistas o sublime alcance da me­dida que aconselhavam. Os indicados para a grandiosa missão de caridade, isto é, de receberem o sagrado de­pósito dos filhos de Deus que necessitavam fazerem-se filhos do homem a fim de se reabilitarem do pecado, resistiam, porém, esquivando-se ao impressionante con­vite:

__ Oh, não, não! — diria o humilde casal de por­tugueses. — Não desejamos filhos doentes, aleijados ou débeis mentais! Casamo-nos há apenas um mes!... e nosso sonho mais querido é que o bom Deus nos conceda para o primogênito a alminha de um querubim rosado e sadio! Queremos filhos, oh, sim! mas que sejam fortes e alegrinhos... e que nos sirvam de arrimo precioso na velhice!...

E diria a brasileira, debatendo-se, envergonhada, diante de uma entidade como Teócrito, que conhecia seus mais secretos pensamentos, revelando-se senhor de todas as ações por ela praticadas:

“— Não, meu senhor, não posso ser mãe, prefiro antes a morte! Como arrastarei tal vergonha diante de meus pais, de meus vizinhos, de minhas caras amigui­nhas!... Seria por todos, certamente, menosprezada... e até mesmo por “ele”, bem o sei! Um filho paralítico!... Deus do Céu, como criá-lo e suportá-lo?...”

Intervinha, porém, Teócrito, secundado por Irmão João, lógico e grave, digno defensor da Causa Reden­tora, cujo chefe expirou nos braços de uma cruz mos­trando aos homens o roteiro sublime da abnegação:

“— Se, como mulher, erraste, negligenciando quan­to ao dispositivo sexto da Lei Suprema, que impõe à donzela o respeitoso dever da castidade até o advento sacrossanto do Matrimônio, carecerás, forçosamente, da reabilitação pela abnegação do sacrifício, observando com fidelidade dispositivos outros da mesma Lei, capazes,

pela largueza de expressão, de cobrir a infração do pri­meiro! O ensejo aí está, naturalmente advindo dos teus próprios atos! Se, necessariamente, serás mãe, visto que a maternidade é uma função natural da mulher fecun­dada para o divino serviço da reprodução da espécie humana, que aceites para animar a argila que se re­produzirá de ti um pobre Espírito delinqüente, como tu, e também necessitado de reabilitação! Ajudando-o a erguer-se do báratro onde se arrojou, operarás a tua própria redenção, e afianço-te, minha filha, em nome do Divino Messias, que, cumprindo os teus deveres de mãe, enquanto os homens te cobrirem de opróbrio e humilha­ções, castigando-te pelo teu erro, o Céu te reanimará a fim de que resistas a todos os embates e venças a provação, glorificando-te espiritualmente pelo heroísmo que testemunhares como mãe de um miserável enfermo, de um pobre suicida do passado, carente de alguém ca­ridoso bastante para amá-lo e protegê-lo apesar da sua desgraça, e que, servindo aos misericordiosos desígnios do Senhor, por ele vele, conduzindo-o nas expiações de nova permanência na carne! Debruçada sobre o berço pobre e humilhado do teu filho menosprezado por todos, mas não por ti nem pela Divina Providência, sorrindo com amor ao pequenino paralítico que te buscará com os olhos tristes cheios de confiança, reconhecendo tua voz entre mil e aquietando-se aos teus murmúrios afe­tuosos, terás encontrado, minha filha, a linfa generosa que lavará a mácula desonrosa de que te contaminaste...”

Recalcitravam, entretanto, os interlocutores. Mas Teócrito e João continuavam a exposição das vantagens de tal desprendimento, dos méritos que conquistariam perante a Lei Suprema, da assistência celestial de que se tornariam credores, da palma honrosa que receberiam, futuramente, da Legião patrocinada por Maria, como prêmio supremo ao gesto de caridade para com aqueles seus pobres tutelados!

Enquanto se verificavam tais demarches, estes, pre­sentes à grave confabulação, entrevendo dificultosamen­te o que se passava, sentiam-se uingularmente atraidos para as duas senhoras, afinando-se com o tônus vibra tório emitido por suas emanações mentais e sentimentais, podendo-se mesmo asseverar que a atração magnética, indispensável ao fenômeno de incorporação através do nascimento, desde aquele momento principiara a receber o impulso divino que a deveria consolidar! Porém, por­que chorosas e irresignadas as três personagens huma­nas não se animassem a estabelecer o acordo definitivo, os dois incansáveis instrutores, requisitando a colabo­ração de Romeu e Alceste, decidiram-se a uma medida vigorosa, capaz de encaminhá-las de boamente a razoável assentimento.

Sob a ação da vontade dos dois abnegados obreiros da Fraternidade, passaram as duas mulheres e mais o varão a rever os panoramas das próprias existências pre­téritas vividas sobre a Terra e arquivadas nas camadas incorruptíveis do organismo perispiritual: as ações in­confessáveis praticadas contra a Soberana Legislação, em prejuízo do próximo e de si mesmos, portanto; os crimes nefastos, cujas conseqüências estavam a exigir séculos de reparações e reajustamento, por entre as lá­grimas de mil dores decepcionantes!

O casal de portugueses reviu-se como abastados fi­dalgos emigrados para o Brasil, a extorquirem de braços escravos o bem-estar de que se ufanavam, levando ao desespero míseros africanos que vergavam, doentes e exaustos, sob a rudeza de labores excessivos, maltrata­dos, cada dia por novas disposições arbitrárias e impie­dosas! A infeliz nordestina, por sua vez, reconheceu-se como dama orgulhosa da própria formosura, que o fora em antecedente existência planetária, irreverente e vai­dosa, profanando os deveres conjugais com o desrespeito aos juramentos consagrados no altar do Matrimônio, recusando-se, ao demais, ao tributo às leis sublimes da Natureza, que dela exigiam o desempenho da Materni­dade, recusa que a levara até mesmo ao infanticídio!

Desfile sinistro de faltas abomináveis, de erros ca­lamitosos, de ações irreverentes e infaustas emergirem dos escrínios conscienciais daqueles infortunados, que haviam reencarnado desejosos dos testemunhos de rea­bilitação, os quais, agora, como acréscimo de misericór dia concedida pelo Todo-Generoso, recebiam o dadivoso convite para ajudarem a própria causa praticando a ex­celente ação de se prestarem aos serviços de paternidade terrena a outros delinqüentes, como eles, carecedores de evolução e progresso moral! E tal foi a intensidade das cenas revividas, que gritos lancinantes eram ouvidos do salão onde nos encontrávamos, o que vivamente nos emo­cionava e surpreendia.

Ao fim de algum tempo tornou o silêncio a dominar. Reabriram-se as portas dos gabinetes secretos, dando passagem a quantos ali se achavam. Tristonha, mas re­signada, pronta para cumprir sua generosa missão, a portuguesa caminhava ao lado do esposo, que compar­tilhava da sua conformidade com o inevitável, enquanto a brasileira, desfeita em lágrimas ardentes, se via re­conduzida sob a ajuda fraterna do velho de Canalejas e de seu inseparável filho Roberto.

No dia imediato, era já adiantada a hora em que nos vieram buscar para o prosseguimento da visita-ins­trução que nos cumpria levar a efeito antes de nos des­ligarmos da tutela do Departamento Hospitalar.

Reconduzidos ao edifício central do Departamento a ser visitado, ali encontramos Rosália, tal como fora por ela mesma prometido, e que, solícita, nos aguardava.

“— Faremos hoje a nossa derradeira excursão —esclareceu. — Irmão Teócrito deseja conduzir-vos à Ter­ra, onde cuhninareis o giro instrutivo que vindes expe­rimentando. Como tendes já idéia do que seja. um tra­balho de “Pesquisas” para se firmar o meio ambiente favorável às condições em que deverá um de vós encar­nar, levar-vos-ei à Seção de Planejamento de Corpos Físicos.

Não ignorais, meus amigos, que antes de que a re­encarnação de um de vós esteja definitivamente esta­belecida, foi estudado não só o meio ambiente como até o estado fisiológico dos futuros pais, isto é, sua saúde, as questões de hereditariedade física, etc., etc., mor­mente se o Espírito culpado é passível de sofrer defor mações físicas, doenças graves e incuráveis, etc. Somente depois de tudo isso esclarecido, esboçar-se-ão os planos para os futuros corpos, os quais, absolutamente, não serão construídos à revelia do Espírito reencarnante e tampouco dos cientistas, prepostos do Senhor para o no­tável empreendimento que deverão fiscalizar.

“— Sede bem-vindos a esta casa, meus amigos! —exclamou a dama que nos recebera, e a quem fomos apresentados por nossa gentil acompanhante. — Entrai confiantemente... Irmã Rosália vos acompanhará..

Em seguida, conduziu-nos a uma sala de grandiosas proporções, rodeada de portas cujas arcadas de fino lavor artístico deixavam-se velar por extensos reposteiros lu­cilantes e flexíveis como a melhor seda.

Penetramos o interior por uma daquelas passagens, e logo se nos apresentou um iniciado risonho e simpático.

Surpreendidos, verificamos haver ingressado em re­cinto que se afigurava à nossa apreciação como legítimo cenáculo de Arte, recanto sedutor, se assim nos podemos referir a um atelier de artistas eméritos, onde mestres das artes plásticas exerciam sublimes encargos, cônscios das responsabilidades de que os investia a ação da Di­vina Providência.

Várias salas se sucediam em bonita perspectiva cir­cular, todas deixando passagem umas para as outras em sentido reto e através de arcadas magníficas, traçadas por bem inspirados engenheiros da mais pura arquitetura hindu, e cada uma comunicando-se para o exterior com uma entrada independente, como vimos na antecâmara guardada pelo vigilante.

Na primeira dependência dessa admirável fileira de salas circulares destacamos obreiros curvados sobre pá­ginas de apontamentos e documentações importantes para os serviços a se realizarem, provindos de outras seções como a de Análise e a de Pesquisas, bem assim do Templo, e relativos aos vários pretendentes ao in­gresso no mundo objetivo ou material.

Era uma longa fila de bancas de estudo e trabalho, disposta à feição da sala, isto é, em semicírculo, sob a impressionante claridade azul-dourada que descia de ma­ jestosas cúpulas, lembrando velhas catedrais. Das jane­las, sugestivos primores de arquitetura, destacava-se o panorama vasto do Departamento com seus jardins sua­vemente coloridos à influência magnânima do azul do céu alcandorado pela luz do Sol, que, ali, espalhava os valores sadios do seu magnetismo, parecendo bênção ins­piradora iluminando a mente dos artistas.

Uma vez estudado aí o teor dos apontamentos pro­venientes do exterior, seguiam ordens para a seção de Modelagem, disposta na sala seguinte, no sentido de se esboçar o corpo futuro tal como as instruções determi­navam, a saber:

a) — mutilado desde o nascimento;

b) — passível de o ser no decurso da existência, por enfermidade ou acidente;

c) — passível de aquisição de doenças graves e in­curáveis;

d) — normais, o que indicaria, portanto, fatos decisivos na programa­ção do carreiro a ser vivido pelo paciente, harmonizados ao feitio das expiações e testemunhos a cada caso, pois convém não esquecermos que muitos daqueles míseros albergados, nossos cômpares, reencarnariam possívelmen­te em envoltõrios físicos normais e até belos e sadios, por exigirem as suas novas experiências que assim fosse, avultando, em casos tais, lutas e sofrimentos irrepará­veis, de ordem moral tão-somente.

Ora, no gabinete seguinte viam-se também os es­boços dos corpos primitivos, isto é, dos que o suicídio havia malbaratado, destruído antes da época normal, habilmente classificados da seguinte forma, em local apropriado, de fácil acesso ao observador, porque em pedestal conveniente, pois estes esboços eram como es­tátuas móveis, grandemente belas, dadas a perfeição e naturalidade que apresentavam, sugerindo a presença real do próprio envoltório já destruído:

a) — o envoltório primitivo, tal como existiu e foi aniquilado pelo suicídio;

b) — ao lado, numa placa fosforescente, a descri­ção do estado em que se encontrava o mesmo envoltório na ocasião do sinistro, a saber: — estado da saúde, vo­lume das forças vitais, grau de vibrações, estado mental, grau de instrução social, ambiente em que viveu, data do nascimento, data da época normal que se deveria dar o trespasse e a extinção da força vital, data em que se verificou o suicídio, local do desastre, o gênero do mesmo, causas determinantes, nome do infrator;

c) — o órgão atingido pelo atentado, e cuja alte­ração motivara a extinção das fontes de vida localizadas no envoltório, era assinalado, no esboço, com lesão idên­tica à que sofrera o corpo material;

d) — casos especiais: afogamentos, trituração por esmagamento, queda. Reprodução plástica dos restos do envoltório, tal como o suicídio o reduziu.

A impressionante perfeição desta última reprodução chocaria qualquer outro observador não esclarecido como aqueles mestres ou não dolorosamente experimentados como nós outros.

A esta sala, que seria a mais bela e sugestiva, se houvesse ali algum local inferior aos demais, seguia-se a da preparação de esboços para os corpos futuros e se­qüente encarnação. Seria a seção de Modelagem. Idên­tica às suas congêneres, esta recâmara sobrepunha-se, no entanto, pela intensidade e delicadeza do labor de­senvolvido e pelo número elevado de obreiros. Os mapas ou esboços encomendados eram organizados sob rigorosa obediência às instruções recebidas, encaminhando-se ao depois para revisão e aprovação do Templo, das seções de Análises e Pesquisas e até para o Recolhimento, onde os pretendentes os examinavam demoradamente, sob o critério de seus mentores e Guias particulares. Não raramente seus futuros ocupantes aprovavam-nos por en­tre crises de angustiosas lágrimas, dando-se mesmo casos de requererem delongas para os preparativos finais, a fim de se fortalecerem ainda um pouco e melhor se encorajarem para o inevitável! Mas se, porventura, o estado do penitente, por demasiado precário, lhe não permitisse lucidez para exame conveniente e respectiva aprovação, o Templo e os seus Guias missionários su­priam-lhe as deficiências, zelando por seus interesses com justiça e amor, quais criteriosos advogados com seus constituintes.

Percorremos o agrupamento e salas possuidos de singular comoção, tudo observando com interesse máxi­mo. Acompanhava-nos, lecionando esclarecimentos pre­ciosos, além de nossa boa Rosália, o iniciado responsável pela seção, Irmão Clemente, cuja cultura e grau de elevação no mundo em que vivíamos seriam fáceis de en­trever através das responsabilidades de que era investido.

“— Sim, meus caros amigos, meus irmãos! — dizia Clemente, enquanto paternalmente nos guiava de sala a sala, propondo-nos teses formosíssimas e reconforta­doras em torno das Soberanas Leis de que era digno intérprete, as quais tantas elucidações levaram à mi­nha pobre alma obscurecida pelo erro, que não me nega­rei ao desejo de também transcrevê-las para estas despretensiosas páginas de além-túmulo. — Sim, meus amigos, bendito seja o Criador Supremo, Dirigente do Universo, cujas sabedoria e bondade inexcedíveis nos soerguem das incompreensões do erro para as alcando­radas vias da regeneração, através dos serviços ininterruptos dos renascimentos planetários! Na Terra, os homens estão ainda longe de conhecer a sublime ex­pressão dessa Lei que só o Pensamento Divino, com efeito, seria capaz de estabelecer a fim de à Sua Criação dotar com possibilidades de vitória!

A ignorância dos elevados princípios que presidem aos destinos da Humanidade, a má-vontade em querer participar de conhecimentos que os conduziriam às fon­tes elucidadoras da Vida, assim como os preconceitos inseparáveis das mentalidades escravizadas ao servilis­mo da inferioridade, têm impedido os homens de reco­nhecerem esse vasto e glorioso alicerce da sua própria evolução, da sua emancipação espiritual! O homem de ciência, por exemplo, considerado semideus nas socieda­des terrenas, das quais exige todas as honrarias e fictí­cias glórias, não admitirá, em hipótese alguma, que o grande orgulho que arrasta, a par da ilustração, poste­riormente possa condená-lo a uma reencarnação obscu­ra e humilde, na qual seu coração, ressequido e árido de virtudes edificantes, adquirirá os doces sentimentos de amor ao próximo, as delicadas expressões da vera fra­ternidade, que só o respeito e a veneração à causa cristã poderão inspirar, enquanto o intelecto repousa... O so­berano, o magnata, as classes consideradas “privilegia­das” pela sociedade terrena, que levianamente se utiliza­ram das concessões feitas pelo Soberano Supremo a fim de que contribuíssem no labor de proteção à Humanidade e desenvolvimento do planeta, não admitirão que os des­pautérios cometidos em desencontro das divinas leis os induzam a renascimentos desgraçados, em os quais exis­tirão miséria, servidão, humilhações, lutas contínuas e adversas, a fim de que em tão laboriosas recapitulações expiem pela indiferença ou maldade de que deram pro­vas no passado, deixando de favorecer as classes opri­midas, o bem-estar geral da sociedade e da nação em que viveram, preferindo à solidariedade fraterna, devida pelos homens uns aos outros, o egoísmo acomodatício e pusilânime! O branco, o de pele alva, cioso da pureza da raça que o preconceituoso conluio do orgulho com a vaidade lhe faz supor seja privilegiada pelo favor di­vino, não concordará em render homenagem a uma Lei Universal e Divina capaz de impor-lhe, um dia, a neces­sidade de renovar a existência carnal ocupando um en­voltório cuja pele será negra, ou amarela, bronzeada, mestiça, etc., etc., obrigando-o a reconhecer que o Espírito, e não o seu passageiro e circunstancial envoltório físico-material, é que necessitará clarear-se e resplande­cer, através das virtudes abnegadas e aquisições mentais e intelectuais, coisas que poderá obter no seio de uma ou de outra raça! E mais: que negros, brancos, amarelos, etc., todos descendem do mesmo Princípio de Luz, do mesmo Foco Imortal e Eterno, que é o Pai Supremo de toda a Criação!

Entretanto, meus amigos, admitam ou deixem de admitir todos esses respeitáveis cidadãos terrenos, ainda que a eles e também a vós repugne o imperativo dessa Lei magistral, o certo é que ela é irremediável e indes­trutível e que, por isso mesmo, todos os homens morrem num corpo para ressurgirem em uma vida espiritual e depois voltarem a renascer em novos corpos humanos... até que lhes seja concedido, pelo progresso já realizado, ingressar em planetas mais ditosos — também reencar­nados — e em cujas sociedades iniciarão novo ciclo de progresso, na escala ascensional da longa e gloriosa pre­paração para a Vida Eterna! Isto, porém, levará milênios sobre milênios!...

Nenhum homem, portanto, como nenhum Espírito, poderá fugir às atrações irresistíveis dessa Lei, quer dela se desagrade ou lhe tribute respeito, uma vez que é ne­cessária a toda a Criação, como fatora que é do seu pro­gresso, da sua ascensão para o Melhor, até o Perfeito!

Na Vinha do Senhor — o Universo Infinito —existem obreiros indicados ao melindroso serviço de pro­movê-la. No que concerne à Terra, encontram-se eles sob as vistas do Unigênito de Deus, a quem se acha afeta a redenção do gênero humano. Assim como diariamente o homem assiste ao romper do Sol e ao seu declínio no horizonte; assim como sente soprarem os ventos e vê caírem as chuvas, crescerem e frutescerem as plantas, as flores rescenderem seus perfumes e os astros rebri­lharem no infinito dos espaços, sem avaliar a imensidão e aspereza do trabalho que tudo isso significa, e ainda menos a dedicação, os sacrifícios que tão sublime labor requer das legiões de servos invisíveis que, no mundo astral, são incumbidos da conservação do planeta, segun­do os altos desígnios do Onipotente Criador, também diariamente assiste a milhares de renascimentos de Se­melhantes seus, e de muitos outros seres vivos e orga­nizados, ignorando a emocionante, encantadora epopéia divina que contempla! E tanto se habituou o homem a ver-se rodeado das manifestações divinas, que se tornou a elas indiferente, não cogitando da apreciação e do lou­vor às suas grandezas, considerando-as naturais, mesmo comuns, como realmente são! Como, porém, não ser as­sim, se ele próprio está mergulhado no Selo do Universo Divino, como descendente do Divino Criador de Todas as Coisas?..

Ouvíamos com muito agrado, sem nos animarmos ao menor aparte. Tudo aquilo era novo e muito emocio nante para nós. Sentíamo-nos como diminuídos, vexados em face de uma sociedade para a qual nos reconhecíamos incapacitados. E admirava-nos de que dela recebêssemos trato tão gentil, amistosas atenções, como naquele mo­mento!

Fomos atraídos para uma das esplêndidas galerias onde se alinhavam as belíssimas estátuas-mapas. À fren­te de cada uma, a mesa de trabalho do operador. Vários iniciados ali se encontravam, fiéis ao nobilitante dever de servir a irmãos menos experientes da ciência da Vida, mais atrasados na peregrinação para Deus! Alguns exa­minavam detidamente as minúcias da configuração a seu cuidado, outros estudavam apontamentos e instruções, enquanto ainda outros examinavam a fotografia dos des­pojos, esboçando mapas de futuros envoltórios a serem encaminhados para a provação, etc., etc. E cada um, empregando nesse extraordinário ministério o máximo da atenção e da boa-vontade de que eram capazes, fez­

-nos conceber o ideal do funcionalismo perfeito, cônscio do dever a cumprir!

Aproximamo-nos das estátuas. Eram o mapa anti­go, anterior ao suicídio. Surpreendidos, observamos se­rem esses modelos singulares animados de movimentos e vibrações, tornando-se, assim, o tipo ideal a ser plas­mado. Assim era que, através das artérias, víamos des­lizar, em toda a pujança e precipitação naturais ao corpo humano, um filete de líquido rubro luminoso, indicando o sangue com suas manifestações normais num corpo material terreno. As vísceras, tal como o sangue, eram traçadas por substâncias fluídicas luminosas sutilíssimas, translúcidas, como se para obtê-las houvessem de com­primir reflexos da luz delicada do luar... Quanto às cartilagens, o rendilhado dos nervos, a carne, eram igual­mente representados por tessituras mimosas, de cam­biantes níveo, jalde, róseo, respectivamente, o que à peça fornecia expressão de grande beleza!

O pequeno universo do corpo humano, pois, com todos os seus pormenores, ali se encontrava ideado com mestria de verdadeiros artistas e verdadeiros anato­mistas!

Havia dependências particularizadas para os modelos e para os casos femininos. Jamais, em nossas observa­ções, observamos serviços mistos, em quaisquer setores!

Ao fim de alguns minutos, ouvimos que Rosália exclamava, traindo singular emoção:

“— Com efeito, meus amigos! É um maquinismo magnífico!... O homem terrestre deveria considerar-se honrado e ditoso, por obter da inexcedível bondade do Criador a mercê de poder fazer a própria evolução pla­netária na posse de um veículo assim!... No Universo Infinito existem mundos físicos onde o Espírito que neles reencarna tem de arrastar ciclos de progresso ocupando fardos materiais pesadíssimos, os quais, comparados a estes, seriam considerados monstruosos...”

Silenciamos, chocados, sem ânimo para divergir, en­cetando polêmicas tão do nosso agrado, dada a igno­rância em que nos achávamos quanto ao palpitante e arrojado assunto... O nobre instrutor, porém, interveio, dirigindo-se a nós outros, risonho como sempre:

Sim! Ë mais do que um simples maquinismo, meus amigos! Ë o próprio Universo em miniatura, onde suntuosos fenômenos a todo momento se reproduzem, pois, com efeito, sua natureza participa de muitas con­dições contidas na organização do próprio Universo! É um templo!... Um santuário onde será depositada a centelha sagrada que emanou do Todo-Poderoso, isto é, a Alma Imortal, para que nele se alinde e aperfeiçoe na seqüência dos renascimentos...

Vede o coração! Órgão sensível e heróico, infatigá­vel sentinela, destinado aos mais elevados serviços de uma reencarnação, escrínio onde o Espírito localiza a sede dos sentimentos que consigo carrega desde a vida espiritual!... Examinai o cérebro, aparelhamento pro­digioso, jóia só imaginada pelo Excelso Artista, tesouro inapreciável que o homem recebe ao nascer, sobre o qual agirá a mente espiritual, dele servindo-se para as novas aquisições dos labores efetuados! É um outro universo em miniatura, farol que norteia a própria vida humana, bússola generosa em meio das trevas do encarceramento físico-terrestre!

E o aparelho visual?... que carreia para o cérebro a impressão das imagens, traduzindo-as em entendimen­to, compreensão, certeza, fato?... Não será, porventu­ra, digno similar dos primeiros?... Será nesse precioso relicário de luz que se acumularão as potências sublimes da visão espiritual, dosadas harmoniosa e sensatamente, para o uso conveniente do indivíduo durante o estágio carnal, assim lhe facilitando as realizações que lhe com­petirem no concerto das sociedades humanas...

Atentai, não obstante, nestes escaninhos auditivos, caprichosos labirintos que apresentam indubitáveis har­monias com os antecedentes! Tão bem dotados, tão per­feitamente dispostos que permitirão ao encarcerado ter­restre alcançar as mais delicadas vibrações, aquelas que lhe forem necessárias ao progresso e tarefas que deverá realizar, e até mesmo, em muitos casos, a sutil expres­são provinda de um anseio, de um murmúrio dos planos invisíveis!...

Porém, não é só. Eis a organização gustativa, de­tentora do paladar. Sutil, obscura, modesta, tão preciosa qualidade do envoltório carnal, no entanto, absolutamen­te indispensável ao gênero humano, a este auxilia gene­rosamente, co-participando do trabalho alimentar, fiel colaboradora da conservação do fardo precioso do corpo! Quão grandioso deverá, outrossim, parecer o labor da língua ao observador consciencioso, órgão que traduz, ao demais, o pensamento da criatura encarnada, através da magia da palavra enunciada! Oh! como o homem seria respeitável se desse aparelho sublime se utilizasse apenas a serviço do Bem, do Belo, da Verdade! É da complexa fibratura da língua que se desprendem as vibrações emitidas pelo pensamento, tornando possível o entendimento entre a Humanidade através da palavra. É graças ao seu produtivo labor que se concretizam os sons das mais belas expressões conhecidas na Terra, tais como as doces promessas de amor, quando o cora­ção entusiasta, nobilitado por alevantados projetos sen­timentais, se inflama de ardentes aspirações; as harmo­nias arrebatadoras dos vossos mais caros poemas, assim como as suaves nênias do amor materno junto ao berço em que adormece o querubim risonho... e também o nome sacratíssimo do Todo-Poderoso, nos cicios férvidos da oração!...

Nem uma peça inútil! Nem uma linha supérflua, votada à inatividade! Todas as particularidades são es­senciais, integrando o todo generoso; são indispensáveis à sua harmonia magistral, completam-se, correspondem-se, atraem-se, confraternizam-se, numa beleza majesto­sa de atividades subseqüentes e heróicas, dependendo umas das outras para a sublimidade de vistas do gracio­so conjunto favorável ao equilíbrio do Espírito que nele temporariamente habitará, qual lâmpada sagrada em santuário eficaz!...

A Natureza, meus amigos, que é a Vontade de Deus manifestada sob a pressão soberana do Seu Divino Poder Magnético, tornou o corpo humano habitação suntuo­sa para o Espírito necessitado da reencarnação para o aprendizado que lhe cumpre no ciclo terreno... pois ficai certos de que a finalidade da reencarnação é o pre­paro do ser espiritual para o triunfo na imortalidade, e não apenas para os serviços da expiação! Esta será a conseqüência do desvio da verdadeira rota, simples­mente, e existe unicamente pela responsabilidade do “eu” de cada um!

O estado definitivo dos fardos humanos para a tem­porária habitação daquele que se derivou de um hausto divino, o modelo originado da vontade do Sublime Ar­tista, penosamente evolutido através dos séculos, é a beleza! A existência de desarmonias no conjunto pro­vêm de que os Espíritos que o modelaram a fim de nele habitarem, servindo ao próprio progresso ou a causas excelentes, assim o desejaram, fossem por modéstia e humildade, fosse comodidade e receio de situações pertur­badoras, pois a beleza física, muito admirada sobre a Terra, torna-se, no entanto, qualidade perigosa em suas sociedades, diante das tentações e excessos a que se ve exposta. Também muitas vezes a rejeitam, preferindo o seu inverso ou a mediocridade de linhas discretas, aque­les que renascem expiando grandes erros pretéritos, pois não ignorais que o estado de fealdade, de anormalidade ­de traços, por não ser o natural, torna-se repugnante, penoso para aquele que o arrasta, constituindo provação!

Vede estes modelos em tamanho natural!... Ao reencarnarem, seus possuidores receberam corpos carnais assim, perfeitos: formosos, dotado. de forças vitais e magnéticas que garantiriam excelentes funções orgâni­cas, saúde permanente, capacidade para as competições diárias. Nada faltou aos seus ocupantes senão a força de vontade, a coragem para lutar e vencer! O auxílio que dependeu da Natureza, para que vencessem, ela o forneceu com o invólucro carnal apropriado ao gênero de labor a que eram chamados a desenvolver, qual ar­madura sólida de outros cruzados que pleiteassem a vi­tória do Espírito! Apesar, porém, de todas as reservas concedidas pelo Céu em seu proveito, não só faliram, furtando-se aos deveres para que reencarnaram, como até destruíram o precioso fardo posto em seu poder, tão bem dotado, aniquilando-o com o suicídio!...”

Não nos calavam bem na consciência as exposições do ilustre técnico do Planejamento. Amarga tristeza ia avassalando nossas mais Intimas faculdades a cada novo conceito proferido. Não obstante, seguimo-lo de boa­mente, à renovação do convite para nos aproximarmos das mesas onde inspirados anatomistas traçavam os ma­pas de futuros envoltórios a serem modelados na carne pelo Espírito culposo, prestes a reencarnar.

“—. Nestas bancas de trabalho — continuou, minu­cioso —. auxiliares meus preparam mapas corporais para suicidas portadores de débitos vultosos, os quais, antes do malogro, haviam recebido aparelhos materiais bem dotados em toda a sua admirável organização.

Abusaram eles da magnífica saúde que possuíam. Saúde! bem inapreciável de que o homem desdenha, fin­gindo ignorar que se trata de um auxílio divino que a solicitude do Altíssimo concede às criaturas, com vistas a encorajá-las nos trabalhos dignificantes que lhes fa­cultarão os lauréis do progresso espiritual!

Sem a mínima demonstração de respeito à autori­dade do Criador, aqueles nossos inditosos irmãos enve­nenaram os fardos preciosos com excessos de toda a natureza! Lentamente, depredaram-nos com os abusos do álcool! Intoxicaram-nos com as inalações do fumo! Avil­taram-nos com os vícios sexuais! Brutalizaramo-nos com as imoderações alimentares, desviando-se para a gula, o que para aqueles conquistou alterações nas funções gástricas, ingurgitamento das glândulas hepáticas, dani­ficando lamentavelmente, por acúmulo de operosidade, o delicado aparelho digestivo, que vedes acolá, no modelo primitivo, retratado naquelas estátuas que tanto admi­rastes! Outros, não satisfeitos com esse gravoso des­respeito a si mesmos como ao Generoso Doador da Vida, o qual, só por si, responderia por um autêntIco gesto de suicídio, incapazes de suportar as conseqüências de tanta intemperança, isto é, um câncer, muitas vezes, a tuberculose torturante, uma úlcera, a neurastenia, um desvio mental, alucinações produzidas pelo péssimo estado do sistema nervoso, a hipocondria, enfermidades físicas, mentais e morais que para si mesmos criaram, usaram de violência igualmente reprovável... e coroaram o acer­vo de inconsequências destruindo completamente, matan­do brutalmente o fardo concedido pela bondade pater­nal de Deus, empunhando contra si próprios armas ho­micidas!

Eis, todavia, o resultado de que se apavoram!

Não morreram, porque o verdadeiro ser não era aquele santuário destruído, mas a individualidade que nele habitava! E agora, arrependidos, excruciados pela inalienável dor dos remorsos e convencidos do erro que praticaram, voltam ao teatro dos desatinos cometidos, animando argilas corporais não mais idênticas às des­truidas por sua espontânea vontade, mas apropriadas ao gênero de expiação que criaram com a conseqüência natural das mesmas infrações..

A essa altura sentíamo-nos como fatigados de afli­ção, profundamente melancólicos. A realidade forte que se irradiava daqueles planejamentos, o próprio ambiente, contornado por sugestões inerentes às reencarnações ex­piatórias, infiltravam angustioso mal-estar em nossos corações, acovardando-nos até à ansiedade! Mas o esta­do de apreensão e angústia era acontecimento tão vulgar em nosso ser que de nada nos queixamos, antes silen­ciávamos, pensativos.

Convidou-nos a continuar ouvindo-o, em repouso, apresentando-nos confortáveis poltronas onde nos sen­tássemos. Em seguida, tomando lugar ao nosso lado, fraternalmente recomeçou o operoso Irmão Clemente:

“— Estais inteirado por Irmã Celestina de como se verifica vossa internação neste Departamento, para que me alongue nas mesmas exposições. Direi apenas que se­remos por vós responsáveis enquanto durar a vossa exis­tência planetária, essa existência anormal que criastes fora da programação estatulda pela Divina Providência; assistiremos vossos momentos difíceis na ardência da expiação; enxugaremos vossas lágrimas nos momentos culminantes, insuflando novo ânimo nos vossos corações através de sugestões benéficas, que não regatearemos em vosso favor; segredaremos alvitres mediadores para as aflições que vos atingirem através da vossa faculdade de intuição, acesa pela solércia do sofrimento; zelaremos por vossa saúde, por vossas condições físicas, ne­cessárias à permanência na experimentação terrestre; vigiaremos para que se não agravem as provações por que passareis, dadas as condições egoísticas em que se mantêm as sociedades em que sereis chamados a teste­munhar o arrependimento em que permaneceis, as quais vos poderiam dificultar demasiadamente a vitória, acumu­lando dores excessivas em vosso trajeto, já de si mesmo contaminado de urzes e espinhos... E somente encer­raremos tão vasta quão espinhosa missão quando, ces­sada vossa expiação reparadora do ato de suicídio, cor­tarmos os liames fluídicos que vos ligarem ao fardo tornado naturalmente cadáver, e vos reconduzirmos para aqui, encaminhando-vos ao Departamento do qual vos recebemos, e o qual, por sua vez, aguardará ordens do Templo a flui de encaminhar-vos a locais novos que por direitos e afinidades vos convierem...

Jamais — repitamos — o retorno ao campo físico-material se efetivará a contragosto vosso. Poderá dila­tar-se vossa permanência nesta Colônia por longo tempo, porque, contra a vossa vontade, não reencarnareis. Nem mesmo a Lei Soberana constranger-vos-á a novas ten­tativas nas liças terrenas, porqüanto, um dos seus mais sublimes dispositivos, que nos impulsiona à aquisição de honrosos méritos, é justamente não impor o cum­primento do Dever a quem quer que seja, senão facultar a todos possibilidades de voluntariamente observá-lo! O mais que faremos, tendo em mira o animar-vos para o formoso desempenho, é aconselhar-vos, procurando con­vencer-vos ao renascimento através do raciocínio e do exame dos fatos. Tais diligências, entretanto, serão efe­tuadas durante o estágio no Departamento em que in­gressastes e não neste, conforme tivestes ocasião de observar durante as instruções que tendes obtido.

Geralmente, porém, o suicida vê-se em tão precárias condições, quer físico-astrais, quer morais e mentais, que bem poucas vezes nos obrigamos ao trabalho de cate­quese para a reencarnação! Ele próprio deseja-a ansio­samente, apressa-se em obtê-la, suplica-a mesmo ao Todo-Misericordioso, através de preces ardentes, não raro em ocasião inoportuna, o que nos força a contrariá-lo, obri­gando-o a uma espera que permitirá maiores probabili­dades de êxito.

Permitiu-se nosso respeitável expositor pequena pau­sa, durante a qual atendeu a alguns discípulos, que o consultavam acerca dos importantes serviços em elaboração.

Observamo-lo com muito interesse, durante os rápi­dos minutos em que confabulava com os seus. Não dis­tinguimos o de que tratavam. Em compensação notamos que conservava, invariavelmente, no delicado semblante, sorriso cativador que bem poderia ser o característico do seu ser eternamente afável! Irmão Clemente era, ao demais, jovem e dotado de grande pureza de linhas. Dir-se-ia o modelo ideal que aos estatuários da Grécia antiga inspirou as obras-primas que nunca mais os ho­mens produziram! Parecia não contar ainda as trinta primaveras, o que bastante nos surpreendeu, dada a alta responsabilidade de que o víamos investido, pois, então, ignorávamos que o Espírito é independente de idades, podendo apresentar-se sob o aspecto fisionômico que lhe for mais grato ao coração como às recordações. Víamo-lo como se fora realmente um homem, nobremente trajado com o uniforme da falange. Mas algo se irradiava de sua individualidade, indefinível para nós, atestando sua excelente qualidade espiritual, não obstante o caridoso favor de materializar-se tanto, a fim de nos consolar e servir.

Retornando ao nosso grupo, continuou, paciente e grave:

“— De toda a extensa falange de penitentes que por estes umbrais têm passado, excetuo da exemplificação em apreço os internos do Manicômio. Excessivamente pre­judicados, sob pressão vibratória limitadíssima, reencar­narão sob os imperativos da Lei, mas igualmente assis­tidos pela Paternal Solicitude daquele que é o Amor Supremo para todas as criaturas! Não se encontrando em situação de facilitar auxílio em proveito próprio, suas lacunas serão preenchidas pelo seu Guardião Maior e demais guias dedicados, os quais passarão a dirigir dire­tamente tudo o que de melhor convenha ao pobre tute­lado, incapacitado para o exercício do raciocínio, do livre­-arbítrio!.. .“

Ofereceu-nos a examinar certos mapas que lhe baloi­çavam entre as mãos, tomados a um de seus discípulos. Eram esboços para o futuro, miniaturas encomendadas para a encarnação próxima, ao passo que as estátuas em tamanho natural eram o que, em verdade, deveriam estar em atividade, porque representavam a configuração carnal aniquilada pelo suicídio. Tomando das miniaturas, observamos não se encontrarem nelas, desenhados se­quer, os arremedos daquelas, mas figuras esquálidas, torturadas por sintomas impressionantes de funda amar­gura interior, caricaturas assinaladas por indicações de enfermidades atrozes, tais como a paralisia, a cegueira, a demência, etc. — que tanto afligem as criaturas em todas as classes sociais terrenas!

Fez-nos caminhar com ele até um dos clássicos mo­delos que se viam ao longo da formosa galeria das es­tátuas e explicou, não sem deixar entrever expressivo acento de tristeza, enquanto, com assombro, líamos sobre a placa do pedestal esta curiosa indicação:

“Vicente de Biqueira Fortes. (20)

Reencarnado a 10 de Outubro de 1868.

Deveria retornar ao Lar Espiritual aos setenta e quatro anos de idade, ou seja, pelo ano de 1942.

Suicidou-se na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, no ano de 1897, atirando-se à frente de um comboio de estrada de ferro, contando vinte e nove anos de idade.”

“— Vedes esta miniatura? — continuou Clemente, destacando uma das que examinávamos. — Pois, assim alterada, reproduz o estado mental e vibratório a que se reduziu Vicente com o desesperado gesto que praticou! Foi extraída do próprio estado atual do seu físico-astral, o que é o mesmo que dizer que, se assim se encontra, é porque assim se fez, pois a Lei que cria a Beleza não impõe este estado dramático e feio às suas criaturas! Agora, o pobre Vicente, como tantos outros que entre nós se acham, é obrigado a retomar o corpo carnal, nas­cer de novo a fim de conpletar o tempo que lhe faltava para o compromisso da existência que destruiu! Urge, ao demais, que reencarne, com apenas nove anos de es­tada no Invisível, porque, tão grave foi o choque vibrado em sua organização astral pela infernal resolução de matar a organização animal que, a fim de lograr com­preensão que lhe permita progresso razoável, será pre­ciso a permanência na carne, única terapêutica, como já sabeis, bastante eficaz para reconduzi-lo ao estado de alívio! Mas voltará plasmando o barro carnal sob o mol­de perispiritual que no momento arrasta, o que significa dizer que renascerá enfermo, presa de males atrocíssi­mos, irremediáveis no plano objetivo, indefiníveis fora das leis psíquicas; abalado por vibrações anormais, que o incapacitarão para o desfrute de boa saúde, ainda que herde dos genitores composição animal vigorosa, assim como de qualquer expressão de paz e de alegria! E tal


(20) Nome fictício. Qualquer semelhança será mera coincidência.
seja aquela composição, de pais sifilíticos, por exemplo, anêmicos, alcoólatras, etc., etc., será possívelmente pa­ralítico, ou débil mental, ou ainda tuberculoso, etc., etc.!”

“— Não poderia o desgraçado demorar-se ainda no Manicômio até que, de qualquer forma, se minorasse tão lamentável estado de coisas, a fim de se não expor 8 situações tão dramáticas e dolorosas, no plano da reen­carnação ?“ — perquiri, desolado.

“— Oh, não! Absolutamente não conviria aos seus interesses espirituais semelhante delonga! — tornou o erudito chefe do Planejamento. — Seria demasiadamente longo e doloroso tal processo! Ele não possui nem po­derá adquirir percepções para a vida espiritual enquan­to se encontrar neste estado! Cumpre-lhe refazer-se ao contacto das forças vitais que, com o suicídio, se dis­persaraxn indevidamente pelo seu físico-astral, com o qual concertavam poderosas afinidades químico-magnéti­co-psíquicas, dando em resultado este tenebroso efeito, esta inqualificável intoxicação perispirítica e mental, não prevista por lei, mas realizável por aquele que se dis­sociou das leis mentais e morais que se inclinam para a verdadeira idéia de Deus!...”

“— Mas... meu ilustre Irmão!... Semelhante es­tado de coisas positivará o elevado padrão da Justiça Celeste, em a qual tanta esperança depositávamos?... considerando o que há pouco afirmastes, isto é, que o Supremo Amor do Pai Altíssimo acompanharia estes desgraçados em seus renascimentos expiatórios?... Que digo eu?... acompanharia a mim, a Belarmino, a Mário, a João, pois também estamos acorrentados a esta falan­ge infortunada?... Existirá misericórdia no consentir a Providência este acúmulo de desgraças quando — infe­lizes que somos! — se nos perdemos nos brenhais do suicídio, foi porque múltiplas desventuras já nos infeli­citavam a existência ?...“ — investiguei eu mesmo, pos­suído de superlativa angústia.

Irmão Clemente sorriu com bondade, não levando meus protestos em consideração. Respondeu simplesmen­te, com naturalidade desconcertante para nós:

“— Esquecestes, meu amigo, de que o Universo todo está submetido a Leis Imutáveis e Harmoniosas, as quais nos cumpre procurar conhecer e respeitar, enquanto nos honramos com a sua sublime observação? Por que tanto se descuram os homens encarnados quanto ao dever de a si mesmos estudarem a fim de melhor se conhecerem, procurando respeitarem-se, dando a si mesmos o valor que merecem como criação divina que são?... O de que cuidamos no momento apenas se trata de uma inobser­vância das mencionadas Leis... Ë um simples efeito lógico de desarmonia, nada mais!... É o que é, o que os homens inventaram para se torturarem, em desacordo com o que para a sua felicidade o Criador estabeleceu com Suas Leis Harmoniosas, Imutáveis e Perfeita.... Aliás, não é para aliviar o suicida, justamente, desligan­do-o desse estado de coisas, insustentável para um Es­pírito, que a Lei o impele à reencarnação?... O que jul­garíeis, então, que faríamos a Vicente ou a qualquer de vós, sob as vistas amorosas do Médico Celeste e os conselhos maternais de Sua Mãe, por quem somos orien­tados !... A reencarnação para Vicente — tal como se acha ele, e tal como será ela — é a medicamentação apropriada para o caso! Reencarnado, continuará alber­gado em nosso Instituto! Estará, da mesma forma, hos­pitalizado pelo Manicômio, tal como se encontra no mo­mento! Assistido pelos médicos e psiquistas daquele estabelecimento, além da vigilância exercida pela direção do Departamento Hospitalar, do Departamento da Re­encarnação, da Direção-geral do Templo, assim como pelos assistentes missionários nomeados pelo Alto! Essa reencarnação, que vos parece horrorizar, será como in­tervenção cirúrgica melindrosa, medida drástica, prevista pela Grande Lei para reação do Melhor sobre o inferior, mas que proporcionará alívio e cura, reerguimento das forças vibratórias, desentorpecimento das faculdades con­tundida. pelo traumatismo atroz!

Se há amor e misericórdia em permitir a Lei o re­torno à arena carnal na condição atual!... Oh! como ousam conceber maior soma de tolerância, de amparo, de misericórdia do que essa, de conceder o Altíssimo novos ensejos para o grande pecador — denominado sui­cida — reerguer-se do báratro em que se despenhou, mas reerguer-se honrosamente, sob a tutela do Meigo Nazareno, e à custa dos esforços próprios, da nobreza edificante do Dever fielmente cumprido?... Porventura estará ele destituído dos direitos de criatura de Deus, de Espírito em marcha evolutiva para a glória da Vida Imortal!... Não lhe estão sendo, ao contrário, confe­ridas oportunidades preciosas, com a reencarnação?... Não estará, porventura, amparado, hoje como amanhã, pelos cuidados de Jesus Nazareno, paternalmente assis­tido por obreiros Seus, por legionários de Maria, que o ajudarão na caminhada áspera desse calvário forjado do ato insano que praticou à revelia da Lei de Deus ?... Espíritos que pairam em esferas celestes, como o próprio Divino Médico das Almas, não estão, porventura, preocupados com ele, solicitando ao Soberano Onipotente novas oportunidades para que se reedifique ao calor de atos justos e meritórios, forrando-se da humilhante si­tuação em que jaz no momento, dentro do mais breve prazo possível?...

Se ele sofre, de quem foi a responsabilidade?... Não 6, aliás, o sofrimento, lição magnificente, que acumula sabedoria através da experiência?...

Quem, na Terra, ignora que o suicídio é infração que se não deve cometer por ser contrária à Natureza e à Lei e ao Amor de Deus!...

Na Terra, as religiões, a razão, o sentimento, o sen­so, a honra, tudo o reprova e condena!...

Aí está por que: o pensamento, a intuição que O bom-senso tem da deplorável situação a que se reduz a alma de um suicida!...

A Vicente, como vedes, a Lei outorgara o sagrado direito de existir sobre a Terra animando um envoltório físico-material perfeito, como este modelo que aqui se encontra, neste pedestal!

Que fez ele desse corpo, porém?...

Rejeitou-o! Espezinhou-o! Atirou-o brutalmente à destruição!... Tão desrespeitosamente como se o ati­rasse de retorno à face do próprio Deus!

O insulto à Lei, porém, muito caro lhe há de custar! Expiará as conseqüências naturais do ato, reparará os desastres ocasionados a si mesmo, como a outrem, se alguém, além dele, foi prejudicado; amargará sacri­fícios e lágrimas, herança lógica do desatino praticado, até que consiga forças vibratórias suficientes para obter da Providência a concessão de outro empréstimo corpo­ral equivalente ao destruído, um outro templo, perfeito e sadio, a fim de recomeçar o carreiro normal da evo­lução, interrompido pela queda nos desvios do suicídio!

Ele sofre, é certo. Mas... quem o fez sofrer?... Por que sofre?...

Onde o maior responsável pelos seus sofrimentos ?...“ Contrafeito e triste, baixei a fronte, preferindo si­lenciar.



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