Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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Os primeiros ensaios

Todas as vezes que ajudastes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes.”



JESUS CRISTO — O Novo Testamento. (21)
Dois dias se passaram após os acontecimentos há pouco narrados, durante os quais nos entregamos a sérias ponderações sobre quanto víramos e soubéramos nas visitas aos Departamentos Hospitalares.

Compreendêramos as lições.

Nenhuma ilusão seria mais possível reter depois de concluído o estudo daquela bíblia espelhante e sábia que representava cada uma das seções visitadas!

Estávamos angustiados! E no recinto plúmbeo do Pavilhão Indiano, rodeados de nostalgia e solidão, vimos as lágrimas banharem as faces uns dos outros!

Na manhã do terceiro dia foi ainda Roberto de Ca­nalejas quem contribuiu para arredarmos o estado de depressão para o qual resvalávamos, convidando-nos a passear pelo parque em sua companhia.

Servindo-se da encantadora afabilidade que era o seu característico, discreta e singela, advertiu enquanto caminhávamos:

“— O desânimo é sempre mau conselheiro, cujas sugestões devemos fustigar com todas as nossas melho­res forças! Reagi, meus amigos, voltando vossas vonta­des
(21) Mateus, capítulo 25, versículos 31 a 46.
para a Força Suprema, de onde emanam as energias que alimentam o Universo... e logo sentireis que dis­posições regeneradoras reerguerão vossas capacidades para o prosseguimento da jornada...

Quando vos sentirdes pusilânixnes e tristes diante do inevitável, trabalhai! Procurai na oportunidade, na ação enobrecedora e honesta o restaurador para as faculdades em crise! Nunca seremos tão insignificantes e destituí­dos de possibilidades, quer na Terra quando homens ou no Invisível como Espíritos desagregados da carne, que não nos permitamos servir ao nosso próximo, cooperando para seu alívio e bem-estar. Ao invés de vos aprisionardes neste Pavilhão, dando largueza de expansão a pen­samentos cruciantes e improdutivos, que vos agravam os sofrimentos, vinde comigo, a visitar vossos irmãos que sofrem mais do que vós e se acham hospitalizados ainda, ergastulados no drama de trevas que sobre vós também já se estendeu... Voltemos ao Hospital a fim de rever os amigos, os colegas, os enfermeiros que bon­dosamente por vós zelaram, consolando vossos corações esmorecidos pela dor, os médicos que vos auxiliaram a expulsar da mente as impressões contumazes que vos amorteciam a coragem...

Aquiescemos. O dia todo, por ele acompanhados, visitamos novos enfermos, dirigimos frases solidárias a pobres recém-chegados do Vale Sinistro, abraçamos Joel e demais dedicados amigos que por nós se desvelaram por dias e noites de angustiada memória, apresentamos respeitos e homenagens aos eminentes psiquistas que tantas vezes se abeiraram de nossos leitos levando-nos caridosos refrigérios nas reconstituintes energias das suas virtudes hialinas!... E por tudo isso suave recon­forto bordejou nossas apreensões, ensinando-nos a bus­car tréguas para as próprias dores, aliviando as dores alheias, aquecendo-nos junto de corações virtuosos capa­zes de nos compreenderem!

À tarde, já de regresso ao albergue, um emissário de Teócrito comunicara-nos que, no dia imediato, deve­ríamos atingir a sede da Vigilância, reunindo-nos a gran­de caravana que demandaria a Terra.

Teócrito não fizera parte da assisténcia para essa caravana. Todavia, sua autoridade fez-se representar nas pessoas de seus dignos discípulos Romeu e Alceste, os quais zelariam por nossos interesses e necessidades en­quanto nos encontrássemos em liberdade, não obstante houvessem de fazê-lo ocultamente, a fim de não nos pri­var do mérito e da responsabilidade. Carlos e Roberto de Canalejas, no entanto, Ramiro e Olivier de Guzman, Pa­dre Anselmo e outros amigos a quem nos habituáramos a querer, integravam o numeroso cortejo, incumbidos, por ordens superiores, das instruções que se tornassem precisas, caso nosso procedimento durante a liberdade arrastasse a necessidade de mais vultosos empreendimentos.

E quando as primeiras paisagens do torrão na­tal se desenharam indecisamente, entre as emanações pesadas da atmosfera, o pranto rolou-me dos recôncaVoS do ser, num sacrossanto hausto de saudade, respeito e alegria!

Havia dezesseis anos que o fardo carnal, por mim recebido da Natureza-Mãe para, através de seu inesti­mável concurso, habilitar-me para o radioso reinado da Imortalidade, tombara em convulsões sinistras, triturado nas garras tétricas do suicídio!

Dezesseis anos de prisão, de lágrimas, de dores cru­ciantes e inenarráveis em sua verdadeira expressão!

Atordoado, já desambientado da minha própria terra natal, assaltou-me incoercível receio de perlustrar sozi­nho as tão conhecidas e saudosas ruas de Lisboa, do Porto, de Coimbra, que eu tanto amara! Senti-me cons­trangido e triste, verificando-me de posse da liberdade. Nossos amigos retiraram-se de nossa visão, refugian­do-se em invisibilidade inatingível pelas nossas capaci­dades, e deixaram-nos entregues a nós mesmos, não obstante não nos terem de todo abandonado. Profundas modificações, de certo, o longo estágio de sofrimentos no Invisível havia cavado em meu interior, porque me reconheci tímido e apavorado face a face, outra vez, com aquela sociedade a quem eu amara e desprezara a um mesmo tempo; que eu fustigara em iras incontidas ao lhe deparar as mazelas, para em outra vez exaltar em comovidas páginas extravasadas do coração, ferido sem­pre por bem dramáticas razões! Lembrei-me de que ad­versas etapas constituíram minha existência a que o desespero acabou por destruir, a qual, se não primou pelas virtudes, que não demonstrei possuir, ao menos se impôs pelo padrão de infortúnio que arrastou!

Despertada a subconsciência, tão carinhosamente em­balada e adormecida pela terapêutica do Instituto Maria de Nazaré, ante o retorno ao teatro do pretérito, o drama que vivi desenrolou-se às minhas lembranças com o mesmo acre sabor de antanho, alvoroçando-me as en­tranhas anímicas com as agruras e tribulações outrora suportadas! Lembrei-me dos que amei, dos que me ama­ram, ou, pelo menos, dos que tinham o dever de me amar, e tive medo de buscá-los!

As desilusões sofridas por Jerônimo Silveira encon­travam-se ainda muito vivas em minhas recordações para que imprudentemente me arrojasse a provocá-las para mim, visitando, sem muito ponderar, o velho lar, os amigos, a parentela de quem eu apenas tivera fugidias notícias, por jamais dela receber demonstrações saudo­sas através de bons votos que me dirigissem, no fervor de uma prece!

Vali-me, então, da afeição de Belarmino, a quem eu conhecera nos dias de desgraça, suplicando-lhe que me não abandonasse, antes marchássemos juntos, nas idas e vindas que pretendêssemos... pois Mário lá se fora à cata de noticiário da esposa e dos filhos, dos quais

jamais soubera no Invisível, até aquela data!

O antigo professor de línguas deixara-se bordejar por idênticas impressões. Conservava-se mudo e compe­netrado, enquanto eu dava elasticidade ao pensamento, externando-o por todos os motivos.

Voltei com ele ao antigo solar que o vira nascer e vicejar, onde desfrutara o convívio amoroso da família, que tanto o prezara, e por cujas salas atapetadas o vulto de sua inconsolável mãe parecia ainda mover-se alucinadamente, desde o momento em que o vira extin­guindo-se, com os pulsos seccionados! Já não perten da aos de Queiroz e Sousa a quinta formosa, nem lá se encontrava a amorosa velhinha que ele, agora, os remorsos porejando dos escaninhos da alma, buscava com aflição, inconsolável por não lograr jamais notícias, quando todo o seu ser vibrava em ânsias de saudades!... Vi o antigo professor de Dialética chorar diante da la­reira, posto de joelhos no local justo onde outrora se conservava o balanço da velha senhora, rogando seu perdão pelo desgosto atroz infligido ao seu terno coração de mãe; a suplicar, entre pranto aflitivo e comovedor, sua presença saudosa, ainda que por alguns instantes, a fim de que se amenizasse em seu peito a dor feraz da saudade que lhe estorcia a alma!

Qual peregrino desolado procurou-a por toda a par­te onde supôs provável encontrá-la. A amorosa velhinha, porém, para quem vida, alegria e felicidade se resumiam nele, não era encontrada em parte alguma! Até que idéia desconcertante lhe apontou a derradeira possibilidade: dirigiu-se ao jazigo da família, onde repousavam as cin­zas dos seus antepassados. Sua mãe decerto também lá estaria...

Com efeito! O nome adorado lá se encontrava, gra­vado na pedra tumular, ao lado do seu próprio nome...

Belarmino ajoelhou-se então, à beira do próprio tú­mulo, e orou por sua mãe, desfeito em lágrimas.

Entardecia quando, silenciosos, descemos a encosta alfombrada do Campo Santo. Procurei, à medida das mi­nhas possibilidades, levantar o ânimo do amigo querido; e, enquanto vagávamos pelas ruas, observei, esforçan­do-me por parecer confiante e consolativo:

“— Será fácil deduzir quanto ao destino de tua ve­neranda mãe, ó meu amigo! Não se achará, com certeza, enclausurada naquela gaiola de mármore e podridão, pulverizando-se com os últimos elementos materiais que ali se encerram... uma vez que nem tu lá te encontras!... O senso indicará que, sendo nós ambos seres portadores de personalidade eterna, também ela o será... e que, como nós, se encontrará em local apropriado àsua existência extracorporal, mas nunca no poço tumular...”­

“— Sim!... Eu já o havia pensado, Camilo... Po­rém, onde estará ela?... Em que local do Infinito Invisível?... E por que será que nunca mais, nunca mais, sendo eu imortal, pude encontrar minha mãe querida?... Por que não a entrevi jamais, refletida nos possantes aparelhos de nossa enfermaria, em visita telepática?... Vê-la-ei porventura algum dia?...”

“— Perdão, Belarmino... Pareceu-me ouvir-te dizer que também a senhora tua respeitável mãe comparti­lhava das crenças materialistas que professaste ?...

Como quererias, então, que vivesse a orar por ti, fazendo-se refletir na sensibilidade de um medidor de vibrações espiritualizadas, para servir-me das explicações dos nossos caros amigos da Colônia?... Indaguemos an­tes do seu paradeiro ao Dr. de Canalejas ou ao nos­so Roberto... Quanto a mim não anteponho dúvidas à possibilidade de a reveres tu! Se tudo quanto nos tem envolvido, desde que penetramos o além-túmulo, impõe-se pela justeza da lógica, a mesma lógica conduzir-te-áa reveres tua mãe, mais tarde ou mais cedo.. .“

“— Sim, perguntemos ainda uma vez aos doutores de Canalejas... Quantas vezes já o fiz, esquivando-se ambos a respostas decisivas!... Mas... onde os encon­traremos agora .... Não deixaram endereços!...”

“— Esperemos, então, até encontrá-los... Sejamos pacientes... Amigo de Queiroz e Sousa! Em dezesseis anos de desgraças surpreendente, creio que aprendi ru­dimentos da sublime virtude denominada Paciência!...“

“— Todavia, Camilo amigo, preferia não ter voltado a Portugal... Sinto-me intranqüilo e triste...”

Não obstante, sentíamos fadiga e queríamos des­cansar.

Onde, porém, achar abrigo?...

O decoro, o respeito ao domicílio alheio inibia-nos buscar hospedagem em casas ....... Quanto aos velhos amigos, não nos podendo perceber, tornavam-se ainda mais respeitáveis para nós, por não desejarmos participar de sua intimidade como intrusos ou indis­cretos.

Habituados à disciplina confortadiva do Instituto, era premidos pela saudade do suave aconchego que conti­nuávamos a transitar pelas ruas da cidade. Incoercível tristeza anuviava-nos o coração, ao passo que o crepús­culo derramava nostalgia em derredor, avolumando as sombras e as impressões que nos chocavam.

Belarmino alvitrou nossa hospedagem em uma igre­ja, cuja nave, repleta de fiéis, convidava francamente à intrusão. Repeli, no entanto, a sugestão, fiel à antiga incompatibilidade com os representantes do clero. Nu­merosos locais foram, em conseqüência, lembrados, mas tanto os indicávamos como imediatamente eram rejei­tados...

De súbito, como se a fraternal solicitude de Teócrito nos observasse através dos espelhos magnéticos, acom­panhando nossos passos como fizera a Jerônimo, idéia salvadora iluminou-me a mente e bradei, jubiloso:

Fernando!...

Sim, Fernando de Lacerda! o protetor inesquecível, cujos caridosos pensamentos de amor e de paz, diluídos em cintilações de preces, tantas vezes me visitaram no desconsolo apavorante do tugúrio de trevas, onde mi­nhalma expiava a ousadia de se haver antecedido à de­terminação da Justa Lei!

Sim, Fernando! o coração boníssimo, que continua­va, incansável e piedoso como ele só, a cativar-me com suas constantes visitas mentais, seus abraços amoráveis convertidos em radiações benfazejas de novas preces para novas conquistas de dias melhores para o meu destino!...

Não ignorávamos o domicílio do velho amigo. Tam­pouco a repartição onde exercia seu honesto labor. Tampouco o local onde se reunia de preferência, para experimentações científicas e culturais, a que, ao lado de atenciosos companheiros, emprestava os melhores esfor­ços, por já o havermos visitado quando da primeira vez que lográramos descer à Terra. Para seu domicilio, pois, nos dirigimos, ali nos abrigando, discretos e humildes, ocupando cômodo acima do telhado, “água-furtada” que se diria apropriado pelo Invisível para hóspedes de nos­sa categoria.

Alguns dias de permanência ao lado de Fernando e seus cômpares foram suficientes para me readaptarem aos acontecimentos terrenos, reambientando-me na vida social. Não foi, todavia, sem sensíveis constrangimentos que o fiz, sinceramente saudoso do convívio sereno e leal da sociedade invisível a que já me habituara.

Largamente confidenciei-me com o precioso médium tão benquisto em nosso Instituto. No suave abrigo ofe­recido pelas “águas-furtadas” reuni idéias e deliberei realizar um programa, com vistas à efetivação das re­comendações de Teócrito. Deveria, antes de tudo, voltar a esclarecer aos meus antigos amigos, colegas, editores, e até aos adversários, que o suicídio não lograra dece­par-me a vida, tampouco a inteligência e a ação. Escre­vi, então, falando ao cérebro de Fernando, em colóquios amistosos que muito me confortavam, e servindo-me de sua mão como de uma luva que calçasse à minha própria mão, longas cartas a amigos de outrora, que a morte me não fizera olvidar; noticiário sincero e verídico de minhas impressões, procurando identificar-me no estilo literário que me conheciam. Não comportava já, porém, vaidades o meu gesto! Pretendia antes preparar ambien­te para mais amplas reportagens futuras. Meu intento era avisá-lo, antes de mais nada, de que eu continuava vivo, bem vivo e pensante, não obstante a tragédia in­concebível que o túmulo ocultara aos débeis olhos hu­manos! Meu desejo era revelar-me àquela mesma socie­dade que me conhecera, rejubilá-la com as alvíssaras de que, como eu, também ela era imortal; preveni-la, en­fim, conscienciosamente, dos perigos existentes atrás das sombrias ciladas forjadas pelo monstro — Suicídio!

Mas... apesar da boa-vontade de que me sentia possuido, da dedicação do generoso amigo que me em­prestava inestimável concurso, passei pela decepção e a vergonha de ser repelido pela maioria daqueles mesmos a quem desejava servir revelando-me individualidade pen­sante, inteligência viva, independente e normal, não obs­tante a invisibilidade do estado em que me achava. Sem o desejar, grandes desgostos atraí para o pobre Fernan­do, a quem antes eu quisera respeitado e honrado em virtude do magnífico dom que trazia, tal o de transmitir facilmente o pensamento das almas defuntas: e foi ele alvo de críticas demasiado ardentes e injustas, insultos ingratos, remoques abusivos!

Desapontei-me, contrariado. Não era possível à mi­nha boa-vontade o defender o nobre amigo, visto que me não desejavam ouvir. De nada valiam tantos e tão interessantes noticiários que trazia eu das minhas ban­das nevadas do Além a fim de surpreender antigos com­petidores na literatura; tantos e tão impressionantes dramas e narrativas com que enriquecer outros editores que necessariamente me reconheceriam através da lin­guagem que lhes fora habitual! Via-me forçado a calar, porque bem poucos eram os que me aceitavam a volta!

Entretanto, o convívio com Fernando compensava-me das derrotas nos outros setores, muito edificado me senti graças às palestras que comumente com ele em­preendia, reservando-lhe eu a minha melhor afeição, um tono sempre crescente de gratidão pelas simpatias que a mim, como aos meus cômpares, infatigavelmente de­monstrava.

Por uma tarde de sol, um mês depois de nossa che­gada a Portugal, quando os perfumes amenos dos aloen­dros se misturavam ao sugestivo olor dos pomares fartos, espalhando vida e encantamento pela atmosfera serena, voltei, sozinho e pensativo, num gesto abusivo e temerário, à Quinta de S...

Recordações doridas erguiam-se quais duendes obses­sores a cada palmilhar pela estrada alfombrada e tepi­da... e o Passado impunha-se a pouco e pouco, sa­cudindo de minhas lembranças as cinzas do esquecimento, que os dúlcidos favores celestes haviam espargido sobre minhas dores, assim aviventando-as para novamente me cruciarem o coração!

Afigurou-se-me desguarnecido o velho casarão. Um por um dos solitários compartimentos foram por mim visitados sob o cáustico mental de recalcitrantes ansieda­des. Sombras de odiosas amarguras incidiam sobre meu raciocínio, compelindo-o para trás a cada ressurgimento das lembranças que estabeleciam estranha retrospecçãO da vida que tão fértil me fora em episódios adversos, decepcionantes! Panorama autêntico do que havia sido o meu viver, com lutas e responsabilidades imanentes em cada dia, desenvolveu-se milagrosamente em minha consciência superexcitada pelo fenômeno da introspeCÇãO voluntária, obrigando-me à subserviência de outra vez sentir, sofrer e reviver integralmente o que para trás me pungira, calcando-me a alma! E suores de agonia pore­javam das sutilezas do meu ser astral, denunciando à consciência a completa ausência de méritos que, naquele instante melindroso, me galardoassem com honrosos be­neplácitos! Dir-se-ia que os episódios evocados pelas emoções aboboradas no ambiente em que outrora vivi, pensei, agi e impregnei de forças mentais deletérias se agigan­tavam à minha hipersensibilidade momentânea, trans­mutando-se em fantasmas tirânicos que me deprimiam, quando deixavam de acusar!

O insuportável convívio da intimidade doméstica, que as vetustas paredes testemunharam; as desarmonias e incompatibilidades constantes, que me tornavam a vida oceano conflagrado; o peso lúgubre de pensamentos vi­ciados por insatisfação doentia, que a tara neurastênica arrastou à completa desorganização nervosa; a desola­ção das trevas que se confirmavam, tapando-me a luz dos olhos, que cegavam; a longa premeditação para o desfecho sinistro; o desespero supremo; a queda final para o abismo, tudo se ergueu assombrosamente, das entranhas do meu “eu”, sob as sugestões pesadas do ambiente malsinado que presenciou os últimos dias da minha existência de homem! E — ó grandiosa facul­dade, que tanto premia como pune a consciência, tais sejam as ações desempenhadas que se hajam fotografado em suas suscetibilidades! — revi, sentindo-lhes os efeitos, até mesmo as cenas derradeiras, isto é, os es­tertores macabros da morte aniquilando, antes do justo prazo, aquele fardo que me fora confiado pela solicitude divina como sagrado depósito, para a recuperação hon­rosa de um passado ominoso, carregado de opróbrios!

Desorientado, tomado de crise atordoante, perdi a memória do presente, embrenhado que me deixei ficar pelos espinheiros do pretérito, como absorvido por infer­nal demência retrospectiva, e entrei a bramir, réprobo que fora nas convulsões sinistras de antanho, a ulular e gemer, a blasfemar e chorar o pranto satânico daquele para quem se extinguiram a esperança de consolo, a trégua para repousar e refletir!... E quem, porventura, ali ainda residisse, ou pelos arredores passasse então, e pudesse dilatar os dons psíquicos, percebendo a tra­gédia por mim rememorada, afirmaria que dezesseis anos depois de minha morte ali me pressentira ainda, entre gemidos e atroamentos de incontidas dores!

Quando voltei a mim, refeito do colapso maldito, Romeu e Alceste, ternos e solícitos, ungiam minha fron­te com os refrigerantes eflúvios de suas peregrinas po­tências magnéticas, os quais me tonificavam a alma quais neblinas benfazejas sobre a planta ressequida e débil!

O céu enluarado revelava que muitas horas eu as­sim passara, alucinado dentro do círculo ígneo do Pas­sado, pois era já noite, as estrelas longínquas lucilavam, alindando o firmamento!

Vi-me em repouso sob o frescor dos arvoredos per­fumosos, e os velhos ramados do vinhedo próximo dis­seram-me que me encontrava ainda na Quinta. Inaudito desgosto pungia-me o coração, enquanto as lágrimas des­lizavam suavizando a opressão que me sufocava o seio.

Roguei aos eminentes Guias que, por mercê especial, me reconduzissem ao Pavilhão Indiano, onde me consi­deraria seguro, a coberto de qualquer cilada da mente entrechocada pelos passados despautérios. Portugal com suas recordações amaríssimas, Lisboa, o velho Porto — a Terra enfim — tudo enoitava meu Espírito, predis­pondo-o à extração de sombras e sofrimentos que eu desejava, precisava esquecer! Mas não fui atendido, a benefício de minha própria reabilitação moral, asseve­rando-me os nobres mentores que algo eu deveria realizar naqueles mesmos ambientes, como testemunho das capacidades de renunciação e desprendimento adquiridas para incursões novas nos planos espirituais, os quais nem eu nem tampouco meus cômpares havíamos verda­deiramente atingido até então, não obstante a repug­nância infligida pelas atormentadoras recordações locais!

Comovido até às lágrimas, emiti então ardente sú­plica, intimidado diante das pesadas responsabilidades que me sobrecarregavam:

“— Nobres e queridos mentores, indicai-me então o que seja lícito tentar a fim de mitigar as torturas morais que me intoxicam as energias, depauperando-me a vontade! As lembranças revivescidas, o ambiente, as desilusões, o olvido sentimental a que lançaram minha memória aqueles em que mais confiei, são dissabores que me excruciam dolorosamente o coração, superexci­tando-me a sensibilidade a um grau desolador!... Que eu saiba agir com acerto, algo praticar de meritório, bastante honroso para me permitir refrigério e consolo eficiente! Aconselhai-me!...”

Proferida que foi minha súplica, e enquanto as ima­gens formosas dos dois jovens se adelgaçavam cada vez mais, rarefazendo-se sob os raios opalinos do crescente lunar que romantizava a paisagem, ouvi que me respon­diam com uma interrogação:

“— Quais foram as advertências de Roberto ao vosso grupo, na véspera da descida para estas instru­ções?. .

“— Oh!... Ah! sim, lembro-me... Que procurás­semos refrigerar as faculdades convulsionadas pelo so­frimento... levando balsamizador auxílio a sofredores em mais criticas situações... E nos reanimássemos ao contacto dos bons e sinceros amigos, cujos corações, iluminados pelas refulgências de lídimas virtudes, fossem fortes bastantes para aquecer-nos o frio do desânimo, in­dicando-nos os passos para roteiros prometedores...”

“— Pois fazei isso... Roberto aconselhou como devia. .

Reuni então todas as forças de que era capaz, im­pus serenidade aos sentidos abalados pelas emoções, alcei energias mentais recordando as invocações ao Mestre Nazareno, e orei também, fervoroso e humilde, a pedir socorro e proteção.

A solidão em redor aterrava-me! contemplei o ca­sario sinistro e arrepios de odiosas emoções incentivaram em mim o desejo de afastar-me, mas afastar-me para muito longe, onde fosse possível esquecer a tragédia que, para mim, tudo aquilo recordava! Fustiguei os passos e afastei-me... mas, ao transpor os umbrais malditos, compensadora surpresa aguardava-me, resposta, certa­mente, à súplica feita ao Amigo Divino:

Ramiro de Guzman e Roberto de Canalejas ali es­tavam à minha espera!

“— Louvado seja Deus !“ — exclamei, num hausto de gratidão profunda...

E confiante segui tão valiosa companhia, que me reconduziu piedosamente ao modesto domicílio terreno, retirando-se em seguida.

Obedientes a impulsos de longas elucubrações, oriun­dos de antigos conselhos, advertências e exemplos dos nossos vigilantes e instrutores, organizamos uma como

“associação de classe” no intuito de estudarmos e reali­zarmos ações combativas às idéias de suicídio, às incli­nações mórbidas, detentoras de infernal predisposição que contaminava as diferentes classes sociais, às quais, ago­ra, poderíamos voltar, como entidades invisíveis que éra­mos. Eivada de duros percalços, todavia, se nos apre­sentou a vultosa empresa... E não fora os eficientes socorros da luminosa assistência que nos inspirava, cer­tamente não lograríamos quaisquer resultados satisfa­tórios.

Quiséramos de início nos tornarmos vistos e com­preensíveis pelos homens, acreditados nos seus conceitos através de testemunhos, francos e minuciosos, que lheS forneceríamoS, da realidade do mundo em que vivíamos, fosse positivando nossa identidade ou por várias outras particularidades ao nosso alcance. Quiséramos com eles entreter relações amistosas e sérias, confabulações in­ teressantes e elucidativas, intercâmbio permanente de no­ticiário, por nós considerado da mais alta utilidade para todo o gênero humano, porqüanto tendia a adverti-lo do perigo desconhecido que representava o suicídio para a sociedade terrena. Raros, porém, aqueles que consen­tiram em aceitar nossas tão sinceras efusões, e, assim mesmo, quase todos estranhos para nós, fora, mesmo, de Portugal! Comumente, no entanto, sucedia que, após grandes esforços e fadigas no trabalho de criarmos opor­tunidades para o almejado momento; depois de conse­cutivos dias de experiências exaustivas em torno de mé­diuns ansiosamente descobertos aqui e ali, porque nossos versos ou nossa prosa de além-túmulo se apresentassem algo desfigurados à falta da puridade do estilo que nos fora habitual, como se não tivéssemos a vencer exaus­Uvas dificuldades apresentadas, não apenas por aqueles instrumentos como, principalmente, pela exigente e im­piedosa comitiva que geralmente os cerca, negavam-se a dar-nos crédito e repeliam-nos ríspida e chocantemente, servindo-se para as críticas, com que nos recebiam, de zombarias e remoques ofensivos, impróprios de corações educados, correndo conosco como a vagabundos e inde­sejáveis do Astral, acoimando-nos de mistificadores e mal-intencionados! Se tentávamos narrar as surpreen­dentes peripécias deparadas pelo desvio a dentro do sui­cídio, ou descrever a vida para além fronteiras do tú­mulo, com todas as cores mais fortes do ineditismo, por entendermos dever de solidariedade o ajudar os incautos a se precatarem, desviavam as atenções do plano espiri­tual sério e dignificante para se permitirem interrogar-nos sobre assuntos subalternos que só a eles próprios diziam respeito e interessavam, e os quais ignorávamos completamente, vexando-nos a idéia de solicitarmos au­xílio de nossos nobres instrutores a fim de nos tornar­mos agradáveis; preferiam tratar de frivolidades e ques­tões medíocres, pouco criteriosas muitas vezes, o que nos decepcionava e entristecia, provocando freqüentemen­te nossas lágrimas, pois o tempo corria e nada obtínha­mos que registrasse algo de bom e meritório no severo livro da Consciência!

Encontrávamo-nos, assim, em luta para a conse­cução desse desiderato, quando nos assaltou desejo arden­te de nos transportarmos para o Brasil. Sabíamos ser o país irmão campo vasto e fácil para os exercícios que trazíamos em mira, certamente muito menos preconceituoso do que o deparado em nossa Pátria - Repercutia ainda em nossas lembranças a formosa reunião a que assistíramos certa noite, no interior de Minas Gerais, onde fôramos levados em falange por nossos desvelados educadores do Instituto, e quiséramos, agora, experimen­tar falar com os brasileiros, a ver se lograríamos algo de mais positivo. Como fazer, porém, para chegarmos até lá?!...

Foram ainda aqueles Incansáveis legionários que acudiram aos veementes brados de socorro dirigidos por nossas mentes ansiosas, unidas em preces, à Caridade Sublime de que eram dignos representantes. Encami­nharam-nos ao local almejado transportando-nos facilmente sob sua proteção, felicitando-nos com novas ins­truções em asilo seguro, sob a proteção do qual estaria-mos a coberto de surpresas desagradáveis. Tratava-se de benemérita instituição registrada no Mundo Espiri­tual como depositária de inspirações superiores, a servir de padrão para as demais que se quisesssem expandir em terras de Santa Cruz, dedicando-se aos estudos e prá­ticas das doutrinas secretas e aos feitos benemerentes próprios de veros iniciados cristãos.

Iniciamos, então, luta árdua e exaustiva.

Todos os recursos, no entanto, de que podíamos dis­por, tentamos a fim de aproveitarmos médiuns brasilei­ros para o almo, sacrossanto projeto que tínhamos em mira! Humildes, dóceis, afáveis, amorosos, sinceros no desejo de servir, encontramos vários deles que se pode­riam ter tornado cireneus de nossas aflições, suavizando nosso calvário de reparações e experiências - Tudo fize­mos por utilizarmos suas faculdades para os trabalhos literários com que quiséramos testemunhar a Deus nosso arrependimento por infringirmos Suas Leis.

Mas, oh! a tortura do idioma!

Por que os brasileiros, Deus do Céu, descendentes nossos, nossa raça, mesmo nosso sangue, tanto se des­viaram do nosso culto pela língua pátria?... E por que ao menos os homens não tratavam de se habilitar num idioma tornado universal, que a nós, Espíritos, como a eles, concedesse possibilidades de expansões brilhan­tes!... O que, então, poderíamos produzir, servindo-nos de médiuns como os há em terras do Brasil!...

Lembrei-me, certa vez, das advertências de Roberto, prevenindo das dificuldades com que esbarraria para me comunicar com os homens, e reconheci-as justas, verda­deiras!

O desânimo invadia-me! Profunda tristeza ameaçava renovar dissabores deprimentes, apoucando-me a alma, quando, uma noite em que nos achávamos reunidos, tra­tando tristemente do que tanto nos preocupava, em nos­so abrigo da magna instituição brasileira, fomos surpre­endidos pela visita de Fernando, cuja vestidura carnal adormecera profundamente, em seu domicílio, no velho e amado Portugal, pois ia já alta a noite. Orara ele em nosso benefício ao recolher-se, impressionado com nossas freqüentes aparições ao seu peregrino dom mediúnico; e, certamente impulsionado por inspirações caritativas do plano etéreo, não tardou a descobrir-nos a fim de piedosamente nos servir ainda uma vez, prestativo como sempre.

Estabeleceu-se então amistosa e útil confabulaçãO no silêncio propicio da magna agremiação. Convidou-nos ele a exercer com mais freqüência o almo dever da ora­ção, criando, através dele, meios de comunicação mais diretos com nossos mentores, a fim de lhes recebermos com maior viveza a inspiração permitida no caso, pois éramos como alunos que pusessem à prova ensinamentos já recebidos para se permitirem ensejos novos no futuro. Reiterou oferecimentos para os intuitos que trazíamos, aflitos que nos reconheceu ante as impossibilidades que se nos antolhavam. Concitou-nos a continuar dizendo algo ao mundo por seu intermédio, não nos dando por vencidos ante as algaravias de adversários vezados ao hábito da crítica insana, abandonando ao nosso dispor, como sempre, suas hialinas faculdades psíquicas, onde nos sentíamos refletir como num espelho! Do seu cora­ção generoso soube extrair conselhos e advertências, com o que nos mitigou a ansiedade do terror que nos oprimia à idéia de um fracasso nos penosos exames a que de direito nos víamos expostos. E acrescentou, comovido e sincero, desejoso de nos impelir à linha reta:

“— Se em vez do que vindes tentando improficua­mente, procurásseis meios de vos tomardes agentes da lídima Fraternidade, exercida com tanta eficiência pelo Divino Modelo do Amor, já vos encontraríeis vitoriosos, espalmando alegrias que longe estariam de vos manter a alma assim torva e encapelada.

A Caridade, meus amigos — permita-me que vo-lo recorde —, é a generosa redentora daqueles que se des­viaram da rota delineada pela Providência! Por isso mesmo o sábio Rabi da Galiléia ofereceu-a como ensina­mento supremo à Humanidade, que Ele sabia divorciada da Luz, por mais fácil e mais rápido caminho para a regeneração!

É tempo já de pensardes com desprendimento na Divina Mensagem trazida por Jesus e de saturardes os arcanos do ser com algumas gotas das suas essências imortais e incomparáveis!

Reparando o rápido gesto que vos impeliu ao abis­mo, podereis praticá-la, a um mesmo tempo servindo àvossa e à causa alheia.

Avultam nas camadas sociais terrenas, como nas in­visíveis, problemas dolorosos a serem solucionados, des­varios a serem moderados, infinitas modalidades de des­graças, desventuras acérrimas a afligirem a Humanidade, requisitando concurso fraterno de cada coração generoso a fim de serem ressarcidas, consoladas!

Nos hospitais, nas prisões, nas residências humil­des como na opulência dos palácios, por toda a parte encontram-se mentes enoitadas pela incompreensão e pelo desespero, corações precipitados pelo ritmo violento de provações e de problemas insolúveis neste século! Em qualquer recanto onde se haja ocultado a descrença, onde a paixão se instale e a desventura e o infortúnio se mesclem de revolta ou desânimo; onde a honra, a moral, o respeito próprio e alheio não forem consultados para a prática das ações, e onde, enfim, a vida se con­verteu em fonte de animalidade e egoísmo, lavra a pos­sibilidade de uma queda nos abismos de trevas onde vos agitastes entre raivosas convulsões!

Diligenciai por encontrar tais recantos: estão por aí, a cada passo!... Aconselhai o pecador a deter-se, em nome da vossa experiência!... e apontai-lhe, como bálsamo para as amarguras, aquele mesmo que des­denhastes quando homem e hoje reconheceis como o úni­co refrigério, a única força capaz de soerguer a criatura da desgraça para enobrecê-la à mirífica luz da confor­midade nos prélios dignificantes de onde sairá vitorio­sa, quaisquer que sejam as decepções que a açoitem: O Amor de Deus! A submissão ao irrevogavel! Tomai-Vos consoladores, exercitando agenciar a Beneficência, segre­dando sugestões animadoras e reconfortativas ao coração das mães aflitas, dos jovens desesperados pelas desilu­sões prematuras, das desgraçadas mulheres atiradas ao lodo, cujos infortúnios raramente encontram a compas­sividade alheia, as quais sofrem insuladas entre os es­pinhos das próprias inconseqüências, desencorajadas de reclamarem, para si também, a ternura paternal de Deus, a que, como as demais criaturas têm sacrossantos di­reitos! São, todos estes, seres que estão a requisitar alento protetor dos corações sensíveis, bem-intenciona­dos, quando mais não seja com a dádiva luminosa de uma prece! Pois dai-lho, uma vez que também o rece­bestes de almas serviçais e ternas, quando vos encon­tráveis a bracejar entre bramidos de dor, nas trevas que vos surpreenderam após a tragédia em que vos deixastes enredar! Contai-lhes o que vos sucedeu e concitai-os a sofrerem todas as situações deploráveis que os depri­mem, com aquela paciência e aquele valor que vos fal­taram, a fim de que não venham a passar pelos transes dramáticos que vos endoideceram além das fronteiras da vida objetiva!

... E quando, virtualmente, encontrardes médiuns cujas organizações vibratórias se adaptarem às vossas, não vos preocupeis com os lauréis passados, que aureo­laram o vosso nome entre os humanos. Esta glória des­penhou-se convosco nos pélagos do pretérito, que não soubestes legitimamente honorificar! Furtai-vos ao vai­doso prazer de identificar-vos ao fazerdes vossos discur­sos ou mensagens psicográficas através dos médiuns. Ainda que afirmando grandes verdades, não seríeis tais como fostes, como até agora não o tendes sido! Vosso nome glorificou-se de singular popularidade sobre a Ter­ra, para que a Terra se conforme em vê-lo retornar àsua sociedade filtrado pela mente humilde de médiuns obscuros!...

Preferi, portanto, as manobras santificantes da Ca­ridade discreta e obscura, preferi!... E bem cedo reco­nhecereis, através das trilhas que haveis de palmilhar, as florescências de muito doces alegrias..

Ouvimo-lo com muito agrado e interesse. Fernando, mesmo a falar em corpo astral, enquanto a armadura carnal ressonava acolá, em Portugal, dir-se-ia inspirado por alguém de nossa Colônia saudosa, interessado em nos­sos êxitos. Reconhecemos mesmo, por várias vezes, em seu fraseado vigoroso e terno a um mesmo tempo, as expressões dulçorosas de Teócrito, o acento paternal, singelo, amoroso, do amigo distante que não nos esque­ceu... e as lágrimas rolaram de nossos olhos, enquanto funda saudade nos transportava o coração...

No dia imediato deliberamos visitar hospitais, enfer­mos em geral, deixando para mais adiante empreendimen­tos outros, relativos aos serviços de auxílios ao próximo, que nos fossem sugeridos. Éramos ao todo trinta enti­dades, e entendemos dividir-nos em três grupos distintos, por imitarmos os métodos do nosso abrigo do mundo astral.

Com surpresa notamos que, não só nos percebiam os pobres enfermos em seus leitos de dores, como até naturalmente nos ouviam, graças à modorra em que os mantinha suspensos a gravidade do mal que os afligia, a febre como a lassidão dos fluidos que os atavam ao trono do fardo corporal. Tanto quanto se tornou pos­sível, levamos a essas amarguradas almas enjauladas na carne o lenitivo da nossa solidariedade, ora insuflando-lhes conformidade no presente e esperança no futuro, ora procurando, por todos os meios ao nosso alcance, minorar as causas morais dos muitos desgostos que per­cebíamos duplicando seus males.

Belarmino, a quem a tuberculose impelira à deserção da vida objetiva, preferira dirigir-se aos enfermos dessa categoria, a fim de segredar sugestões de paciência, es­perança e bom ânimo aos que assim expungiam débitos embaraçosos de existências antigas ou conseqüências de­sastrosas de despautérios do próprio presente. Eu, que fora paupérrimo, que preferira desobrigar-me do dever de arrastar a vida, até final, pelas ruinosas estradas da cegueira, dando-me à aventura endiabrada de um suicí­dio, fui impelido, mau grado meu, pelo remorso, a pro­curar não só nos hospitais aqueles que iam cegando a despeito de todos os recursos, mas também pelas ruas, pelas estradas, pobres cegos e miseráveis, para lhes ser­vir de conselheiro, murmurando aos seus pensamentos, como mo permitiam as dificuldades, o grande consolo da Moral Radiosa por mim entrevista ao contacto dos emi­nentes amigos que me haviam assistido e confortado no estágio hospitalar onde me asilaram os favores do Senhor Supremo! E muitas vezes compreendi que obtinha êxi­tos, que corações tarjados pelo desânimo e pela desolação se reanimavam às minhas sinceras e ardentes exortações telepáticas! João d’Azevedo, o desgraçado que se avil­tara nas trevas de inomináveis conseqüências espirituais, escravizando-se ao vício do jogo; que tudo sacrificara ao abominável domínio das cartas e da roleta: fortuna, saúde, dignidade, honra, e até a própria vida, como a paz espiritual, voltara, angustiado e oprimido, aos antros em que se prejudicara a fim de sugerir advertências e conselhos prudentes a pobres dominados, como ele o fora, pelo letal arrastamento, tudo tentando no intuito de afastar do abismo ao menos um só daqueles infelizes, suplicando forças ao Alto, concurso dos mentores que ele sabia dedicados à ação de desviar do suicídio incautos que se deixam rodear de mil possibilidades desastrosas.

Eram mais rudes ainda, porém, os testemunhos do desventurado Mário Sobral!

Ulcerada pelos hábitos do passado, sua mentalidade arrastava-o para os lupanares, mau grado o sincero arre­pendimento por que se via possuido; exigia-lhe repara­ções dificultosas para um Espírito, atividades heróicas que freqüentemente o levavam à violência de sofrimentos indizíveis, provocando-lhe lágrimas escaldantes! Víamo-lo a querer demover, desesperadamente, a juventude in­conseqüente da contumácia nos maus princípios a que se ia escravizando, narrando a uns e outros, através de discursos em locais inadequados, as próprias desventu­ras, no que não era absolutamente acatado, porque, nos antros onde a perversão tem mantido o seu império letal, as intuições de além-túmulo não se fazem sentidas, porqüanto, as excitações dos sentidos animalizados, viciados por tóxicos materiais como psíquicos, de repulsiva infe­rioridade, tornam-se barreiras que nenhuma entidade em suas condições será capaz de remover a fim de se fazer compreendida!

Estendemos tais ensaios, após, às prisões, obtendo êxito no sombrio silêncio das celas onde se elaboravam remorsos, no trabalho da meditação... E por fim inva­díamos domicílios particulares à cata de sofredores in­clinados à possibilidade de suicídio, e que aceitassem nossas advertências contrárias através de sugestões be­névolas. Havia casos em que o único recurso que nos ficava ao alcance era o sugerir a idéia da oração e da fé nos Poderes Supremos, induzindo aqueles a quem nos dirigíamos, geralmente mulheres, a mais amplo devo­tamento à crença que possuíam. No entanto, sofríamos, porque o trabalho era demasiado rude, excessivamente vultoso para nossa fraqueza de penitentes cujo único mérito estava na sinceridade com que agiam, na boa-vontade para o trabalho reparador!

Assim foi que viajamos pelo interior do Brasil pro­curando, quanto possível, prevenir contra a malfazeja tendência observada, tristemente, por nossos Guias, no caráter impulsivo dos brasileiros, tendência que dava em

resultado estatísticas inquietadoras nos casos de sui­cídios!

Conhecemos, assim, as extensões desoladas do Nor­deste inclemente, rendendo homenagens ao sertanejo he­róico que, em lutas árduas e incessantes com a penúria da eterna estiagem, não descria jamais nem do seu Deus nem do futuro, esperançado sempre no advento de dias melhores, de uma Pátria compensadora que, em verdade, só encontraria no seio da Imortalidade!

Nas caravanas altamente instrutivas a que nos le­vavam, grandes lições recebemos então, as quais mui profundamente calaram em nossos corações, iluminando nossas mentes com novas e fecundas apreciações filosó­ficas. Representantes da direção espiritual das terras de Santa Cruz, como o grande, o boníssimo Bezerra de Menezes, e o mavioso poeta do Senhor — Bittencourt Sampaio — lecionavam para nós outros, ao lado de nos­sos mentores, exemplos fecundos colhidos na vida coti­diana de muitos brasileiros, sobre os quais choramos de pena e arrependimento, pois tivemos ocasião de examinar com eles modalidades de desgraças e sofrimentos com­parados aos quais aqueles que nos haviam levado ao desespero não se apresentariam senão como truanices próprias de boêmios piegas... No entanto, nordestinos, amazônicos e mesmo nativos do centro incivilizado do país tudo suportavam resignadamente, até mesmo a in­diferença de seus compatriotas mais felizes, com o pensamento vigoroso daquele que sabe crer, que sabe es­perar!

Entrementes, víamos com desgosto que Mário Sobral distanciava-se a pouco e pouco das possibilidades de outro futuro imediato que não aquele por ele mesmo escolhido, único, aliás, para que se sentia impulsionado:

o retorno imediato à encarnação, para resgates pesados, em meio familiar afinado com seu estado mental!

Mário desatendia freqüentemente ao chamamento do dever para as reuniões e caravanas elucidativas presi­didas pelos assistentes; faltava às expedições piedosas de visitação aos sofredores, olvidando deveres sagrados que conviria cumprisse a bem da reabilitação própria! Dir-se-ia que, ao contacto da sociedade terrena, se dei­xava brutalizar pelas antigas atrações mundanas, esque­cido dos veementes protestos de obediência durante a retenção no Departamento Hospitalar. Sentia-se arras­tado para os locais degradantes que fizeram suas prefe­rências de outrora; e, a pretexto de tentar converter transviados e inconscientes à moderação dos costumes, comprometia-se grandemente diante dos Guias observa­dores, afinando-se com o passado a tal ponto que, em torno dele, pressentíamos a possibilidade de um renas­cimento nas baixas esferas do vicio! Já várias vezes fora advertido piedosamente, por Alceste e Romeu, que pro­curavam convencê-lo dos perigos daquela predileção para exercer atividades reparadoras.

Infelizmente, porém, a paixão por Eulina, que o desgraçara na Terra e perturbara no Invisível, soldava-o ao presunçoso desejo de, em sua memória, procurar re­erguer do lodaçal dos vícios, prematuramente, outras tantas criaturas decaídas do pedestal do Dever!

Nosso estágio na Terra era um como exame para ascendência a novos cursos. Tínhamos liberdade de ação, conquanto não estivéssemos ao desamparo e fosse muito relativa a liberdade com que contávamos.

Nós outros vínhamos obtendo aprovação nos exames.

Mário, porém, incidia nas causas passíveis de re­provação.




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