Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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Novos rumos

Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. Há mui­tas moradas na casa de meu Pai.”



JESUS CRISTO — O Novo Testamento. (22)
Havia cerca de dois meses que findara nosso estágio nas camadas terrenas. Regressáramos ao Instituto Maria de Nazaré e novamente nos Instauramos no pavilhão anexo ao Hospital, onde residíamos desde quando rece­bêramos alta. Não lográramos ainda, porém, avistar-nos com Irmão Teócrito a fim de conhecermos sua opinião relativamente ao modo pelo qual nos conduzíramos em liberdade.

O que mais nos preocupava era a opinião de Teó­crito, as deliberações da direção-geral sobre nosso futuro.

Para onde iríamos?... Que seria de nós uma vez aumentados de Teócrito, de Roberto, de Carlos, de Joel, daquela elite acolhedora dos Departamentos Hospitala­res?... Reencarnaríamos Imediatamente, no caso de não termos conseguido méritos para mais longo estágio no aprendizado espiritual?...

Por um daqueles dias de ansiosa expectação, fomos surpreendidos com a visita do velho amigo Jerônimo de Araújo Silveira.

Chegara ao Pavilhão Indiano pela manhã, acompa­nhado do assistente Ambrósio, a cuja bondade tanto de­via. Passara já pelo Hospital, a despedir-se de Teócrito
(22) João, capítulo 14, versículos 1, 2 e 3.
e seus auxiliares, em cujos corações encontrara sempre sólidas afeições; e agora nos procurava a fim de retri­buir as visitas que lhe fizéramos e também despedir-se, pois que naquela mesma semana encaminhar-se-ia para o Recolhimento, a cuidar dos preparativos da reencar­nação próxima. Via-se a amargura timbrar-lhe as fei­ções, num aspecto de acabrunhamento inlludível. Jerô­nimo não fora jamais resignado! Desde o Vale Sinistro conhecíamo-lo como dos mais desarmonizados da nossa desarmoniosa falange! Penalizado, alvitrei, medindo pelos meus os acicates que o deviam ferir:

“— Por que não retardas um pouco mais a volta ao teatro dos infortúnios que te pungiram, amigo Silvei­ra!... Consta-me não ser obrigatório, em determinados casos, o constrangimento à volta... Quanto a mim dila­tarei o mais possível a permanência aqui... a não ser que me demovam resoluções ulteriores...”

Mas, certamente, as deliberações tomadas após a última visita que ao Isolamento fizéramos foram muito sérias e importantes, porque respondeu com ardor e vee­mência:

“— Absolutamente não convém aos meus interesses pessoais dilatar por mais tempo o cumprimento do de­ver... que digo eu?... da sentença por mim mesmo lavrada no dia em que comecei a desviar-me da Lei So­berana que rege o Universo! Fui grandemente preparado por Irmão Santarém e Irmão Ambrósio, meus dignos tutores, para esse serviço que se impõe às minhas cri­ticas necessidades do momento. Depois de muito ponde­rar, cheguei à conclusão de que devo, realmente, renovar a existência humana quanto antes, uma vez que meus erros foram graves, vultosas as minhas responsabilida­des, os quais, portanto, onerando de exorbitantes débitos, agora, minha inquieta consciência, me obrigam a expun­gir dela os reflexos desonrosos que a ensombram, o que só poderá efetivar-se em voltando eu ao teatro das mi­nhas infrações a fim de novamente realizar — mas rea­lizar honrosamente — o mesmo que no passado Indig­namente desbaratei, inclusive minha própria organização material!”

“— Quererás, assim, dizer que renascerás no Porto mesmo?...” — indagamos em coro.

“— Sim, amigos! Deus seja louvado!... Renascerei no Porto mesmo, como ainda ontem... Polsarei na vida objetiva em casa afazendada!... Serei novamente pes­soa abastada, cuidarei de capitais financeiros, meus como alheios, enfrentarei segunda vez as rijas tentações so­pradas pelo orgulho, pelas vaidades e pelo egoísmo!... Subirei no conceito dos meus semelhantes, considerar-me-ão personagem honrada e grada... Serei o mesmo, tal qual ontem o fui!... Apenas, não mais me conhe­cerão sob o desonrado nome de Jerônimo de Ãraújo Silveira, porque outro receberei ao nascer, a fim de aco­bertar-me da vergonha que me segue os passos... Ape­nas tudo isso realizarei como expiação, a terrível expia­ção de possuir riquezas, mais arriscada e temerosa que a da miséria, mais difícil de conceder méritos ao seu infeliz possuidor!...

A beira de um novo berço para ainda uma vez ser homem e ressarcir antigos delitos, comove-me até às lágrimas o verificar a paternal bondade do Onipotente, concedendo-me a graça do retorno protegido pelo Esque­cimento, pelo disfarce de uma nova armadura carnal, um nome novo, a fim de que minha desonra de outrora não seja por toda a sociedade em que vivi reconhecida e execrada; e eu, assim confiante e fortalecido, possa tentar a reabilitação perante a Lei Universal que de todas as formas infringi, perante mim mesmo, final­mente!... Pois sabei todos vós, amigos: a vergonha da desonra ruboriza-me ainda as faces espirituais, como no dia aziago em que me confiei ao suicídio, no intuito de livrar-me dela!...”

“— Impressiona-me a tua argumentação, ó Jerôni­mo! Com satisfação verifico que não foram inúteis os esforços de Irmão Santarém e Irmão Ambrósio em torno do teu caso...“ — interveio João d’Azevedo.

“— Sim, — acudi, comovido e preocupado em es­miuçar notícias para os apontamentos de minhas pro­jetadas memórias. — Observo que modificações sérias realizaram milagroso efeito em teu modo de ponderar...

Porém, de que família renascerás, ó Silveira?!... Ainda por lá nos recordamos de várias famílias abastadas...”

“— Ainda que o soubesse, não vo-lo poderia revelar, meu caro Sr. de Botelho! Fui informado por meus tu­tores de que tão sutil realização verifica-se no santuário de sigilos indevassáveis, por não permitir a Lei Mag­nânima quaisquer indiscrições que venham perturbar o bom andamento da evolução a confirmar-se... Segundo explicações de Irmão Ambrósio saberemos, quando mui­to, apenas o local onde emigraremos... até que nos internemos no Recolhimento, onde, então, tudo se deli­neará para nós..

“— Todavia, assisti a certa entrevista de dois re­encarnantes do Manicômio com seus futuros pais... e tenho ouvido dizer, a alguns vigilantes nossos, que muitos pormenores poderão ser fornecidos sobre o assunto, até mesmo aos homens.. .“ — retruquei agastado, recordan­do a visita feita ao Posto de Emergência da Colônia, com a expedição do Departamento de Reencarnação.

Foi Irmão Ambrõsio que interveio, corroborando com autoridade as assertivas ouvidas ao já agora futuro capi­talista do Porto:

“— Sim! Para estudo coletivo ou esclarecimentos pessoais que produzam efeitos salutares, e também como prêmio à sinceridade das intenções e ao devotamento ao trabalho, serão permitidas certas revelações em torno do melindroso acontecimento, até mesmo aos leigos! Aos homens, principalmente, têm sido facultadas muitas indi­cações a respeito, a fim de que lhes sirvam de incentivo ao progresso e mesmo de conforto durante as asperida­des das reparações. Para satisfação de mera curiosidade, porém, quer entre nós ou entre os humanos, nada será concedido de positivo. O reencarnante será esclare­cido, ao internar-se no Recolhimento, do que lhe disser respeito, do que lhe seja útil e necessário.

Referis ao acontecimento do Posto de Emergência?... Mas, quem são aquelas personagens!... Seus nomes?... Suas residências?... Uma ilha existente sob bandeira portuguesa, apenas!... Certa localidade do imenso nor deste brasileiro... Convenhamos, meu amigo, que o sa­crossanto segredo não foi revelado, não é verdade?...”

Baixei a fronte, desarmado, enquanto Belarmino, in­teressado, voltava-se para o velho amigo Jerônimo:

“— E tens confiança na vitória da reabilitação?...”

“— Sinceramente, tenho! conquanto me sinta com­pungido à idéia de reproduzir, ato por ato, com circuns­tâncias agravantes, a existência em que fracassei! Creio estar, todavia, preparado para tanto, porque, se o não estivera, deixaria de receber beneplácitos de meus men­tores maiores para prosseguir no único intento reabili­tador que me é dado! Aliás, meu caro Sr. professor, absolutamente nada mais lograrei alcançar do plano In­visível sem o expurgo triunfal dos meus imensos débitos! Forçoso será compreender que desgracei minha própria família! Que lancei nas torrentes dificultosas da miséria outras famílias cujos chefes me emprestavam o concurso dos próprios bens e de labores sagrados, os quais por mim se viram vilipendiados graças à minha insânia de jogador e devasso! Será preciso outrossim recordar que lesei a Pátria, crime que repugna a qualquer homem honrado, deixando mal, ainda, funcionários que, bondo­samente, intentando socorrer-me, por me facultarem pra­zo para reabilitação, deixavam de agir como lhes era dever, lavrando penhoras, denunciando-me à Justiça, le­vantando falência, etc.! Todas estas feias coisas pesam na balança de uma consciência acordada pelo arrepen­dimento, 6 Belarmino! pois constitui crime perpetrado sob as inspirações da incúria, da má-fé, da devassidão dos costumes, da inconseqüência leviana, do desamor ao Bem! Enredei-me de tal forma no sinistro porquê do suicídio, que me sinto agora agrilhoado ao pretérito por tão insidiosa cadeia que, a fim de algo realizar nos planos espirituais, deverei voltar ao cenário dos meus deslizes para quebrá-las, refazendo dignamente o que insensatamente andei praticando!”

Como nenhum de nós ousasse aparteá-lo, o visitante prosseguiu, ao passo que rija tristeza ensombrava nos­sos corações:

“— Não mais terei filhos junto a mim! Deixando de zelar pela família até final; rejeitando a meio do ca­minho a honrosa incumbência de chefe do Instituto do Lar, pelo Céu concedida no intuito de me fazer ascender em méritos, coloquei-me na desgraçada situação de não conseguir oportunidades, nessa próxima existência, de constituir um lar e ser novamente pai!

Não obstante, a fim de ressarcir a feia atitude con­tra Zulmira e meus filhos, prometi a Maria, mãe bonís­sima do meu Redentor, cuja solicitude maternal reabi­litou Margaridinha e Albino, envidar todos os esforços, quando na Terra, no sentido de amparar crianças órfãs, levantar, de qualquer modo, abrigos que agasalhem a infância, e tornar-me o zelador dos pobrezinhos como o seria de filhos por mim gerados! Será o meu ideal na existência expiatória a que não tardarei a regressar..

“— Praza aos Céus que suspendas os teus abrigos para a infância desvalida, antes que a ruína financeira te cerceie as possibilidades futuras, amigo Jerônimo!” — interrompi eu, surpreendido com a coragem que trans­parecia de suas asserções.

“— Praza aos Céus, amigo!... porque, antes ou de­pois da ruína financeira que me aguarda na expiação terrestre, hei de tornar-me arrimo de muitos órfãos: os vultos chorosos de meus filhos votados ao desamparo e à desgraça pela minha morte prematura estão indele­velmente fotografados em minha consciência, a requisi­tarem de minha parte um resgate à altura, seja à custa de que sacrifício for!...”

Novamente aparteou Irmão Ambrósio, elucidando cautelosamente:

“— Sim, praza aos Céus que, seja no apogeu das possibilidades monetárias ou no ocaso das mesmas prom­peridades, seus pensamentos e sua vontade se não des­viem da rota reabilitadora que resolveu palmilhar! No momento é o nosso penitente animado das melhores In­tenções. Todavia, dependerá da sua força de vontade, da permanência nos bons propósitos que agasalha, a vi­tória das realizações pretendidas. Geralmente o Espírito, uma vez reencarnado, deixa-se embair pelas falaciosas atrações do meio ambiente a que se vê submetido, es­quecendo compromissos de honra assumidos na Espiri­tualidade, os quais muito conviria, ao próprio que os esquece, serem cumpridos à altura da importância que representam... Mas, se vontade firme de vencer impul­sioná-lo perenemente, sobrepondo-se às influenciações de­letérias do mundanismo egoísta, será bem certo que estabelecerá harmoniosa correspondência telepática com seus mentores invisíveis, os quais procurarão impeli-lo para a frente através de inspirações sadias, embora dis­cretas, auxiliando-o segundo a lei de solidariedade esta­belecida no intuito de fraternizar o Universo inteiro. .

“— Suponhamos que Jerônimo venha a descurar-se das promessas feitas ao reencarnar... Que sucederá ?...“ — interroguei, apegado ao azedo critério de repórter pessimista.

“— A consciência inquietá-lo-á perenemente, e, mais tarde, regressando à Espiritualidade, se envergonhará de ter faltado com a palavra, compreendendo, ao demais, a necessidade de cumpri-la em uma nova migração ter­rena... Esperamos, no entanto, que tal não aconteça no caso em apreço. Jerônimo possui o principal fator para realizar o prometido: a boa-vontade, a ternura pelo órfão abandonado. .

Subitamente, em meio do rápido silêncio que se ve­rificou em seguida, Belarmino, cujos sentimentos delica­dos o leitor já teve ocasião de apreciar, levantou o olhar interessado para o futuro capitalista do Porto e interro­gou afetuosamente:

“— Que notícias darás aos amigos da tua Marga­ridinha?... Transportou-se sempre para o Brasil?... E Albino!... continua na prisão?... Sua Majestade inte­ressou-se por ele, realmente ... .“

“— Ah! sim!... — fez o inconsolável pai suicida, como se houvesse vibrado acordes pungentes nas mais sensíveis cordas do seu coração. — Estava mesmo para vos participar alvíssaras!... Nunca mais pude visitá-los, como sabeis, por não mo permitir a situação moral apaixonada, capaz de muitas indiscrições... No entanto, estou seguramente informado de que Margaridinha, em chegando ao Brasil, casou-se com um compatriota, ho­mem honesto e probo, que lhe ofertou afeição leal e um nome honrado! Louvado seja Deus! Que bem faz à minhalma o dar-vos esta notícia!... Quanto a Albino, é comerciante, embora modesto, em Lourenço Marques, corresponde-se assiduamente com o seu amigo Fernando, que o tem aconselhado mui honradamente, que todos os esforços envidou para favorecer-lhe meios honestos de viver, instruindo-o ainda, ao demais, na Ciência dos Es­píritos, da qual é fiel adepto. Casou-se também, há pouco mais de um ano, com bonita morena portuguesa-africana... e agora é pai de duas lindas gêmeas recém­-nascidas!...“

“— Tu os vês, de certo, ó Jerônimo, se bem os não visites?...“ — interroguei, partilhando a saudade que transparecia de suas expressões.

“— Sim, amigo Botelho! Vejo-os através dos apa­relhos do Irmão Santarém, e é como se os visse de bem perto e com eles falasse, pois isso me é permitido... Quanto a Zulmira, cúmplice infeliz dos meus desatinos, termina sua desgraçada vida amparada pelas duas filhas mais velhas, as quais não se negaram — mercê de Deus —a socorrê-la, quando as procurou. Tentou interceptar a ida de Margarida para o Brasil, sem o conseguir. Pobre Zulmira! Amava-a tanto, meu Deus! Fui o responsável por suas quedas! Também a ela devo reparações, que mais tarde proverei, com o favor do Céu...“

Dois dias depois, Roberto de Canalejas voltou a vi­sitar-nos de posse de um convite de Irmão Teócrito para, à noite, atendermos à reunião solene a realizar-se na sede do Departamento Hospitalar. Tratava-se, dizia o moço de Canalejas, de uma cerimônia de despedida, du­rante a qual seríamos desligados da tutela do Departa­mento e considerados habilitados para outros carreiros em busca das reparações para os serviços do progresso.

Dos bairros anexos aos hospitais seguiriam antigos tutelados a assistirem ao importante conclave, que a to­dos profundamente interessava. Como será fácil entre-ver, a movimentação era intensa, nesse crepúsculo em que todas as dependências do grande Departamento en­viavam contingentes de Espíritos considerados aptos ou necessitados dos prélios terríveis da renovação carnal expiatória, devido ao crime da maior infração da criatura à face do seu Criador!

Pela primeira vez penetrando a sede do Departamen­to onde Teócrito mantinha os gabinetes de direção e trabalhos que lhe eram próprios, fomos surpreendidos pela majestosa estruturação interior do mesmo, a qual apresentava, como os demais, o estilo português clássico, de grande beleza e sobriedade de linhas.

Ao chegarmos, éramos gentilmente encaminhados a vasta e modelar sala de assembléia, à maneira de Câ­maras representativas, onde as tribunas dos discursantes seriam ocupadas pelo grande público, isto é, por nós ou­tros, os tutelados, cabendo o nível aos diretores, como em anfiteatro. Sobrepunha-se ao cenário, não destituído de magnitude, singular palor iluminado que se diria jorrar do exterior, irisando o ambiente de miríficas gra­dações branco-azuladas.

Pouco a pouco encheu-se o recinto. Os lugares re­servados às seções eram rigorosamente separados por linhas divisórias, tornando-se as arquibancadas, ou tri­bunas, como grandes camarotes destinados a classes so­ciais diferentes. Ali, porém, se não era social a diferen­ciação existente, era-o, não obstante, moral e vibratória, o que quer dizer que os grupos que enchiam cada ca­marote harmonizavam-se satisfatoriamente, apresentando grau idêntico na escala das responsabilidades, dos mé­ritos e deméritos.

Enquanto conosco assim acontecia, os responsáveis pelas diferentes dependências do grande Departamento mantinham-se ao lado do seu diretor, isto é, de Teócrito, à tribuna de honra situada no nível da sala. Assisten­tes e vigilantes, por sua vez, acompanhavam os internos nas arquibancadas, com estes fraternalmente ombreando, quais modestos espectadores.

Assim foi que, entre os primeiros, notamos a pre­sença do Padre Anselmo, educador da falange de suici­das-obsessores aprisionados na Torre; de Irmão Miguel de Santarém, o abnegado conselheiro do Isolamento; de Irmão João, o venerável ancião, guia paciente e caridoso da triste falange do Manicômio, todos ladeando o diretor do Departamento, responsável, por sua vez, pelo Hospi­tal Maria de Nazaré, ao passo que seus assistentes se mantinham conosco, exceção feita de Romeu e Alceste que, como iniciados, pertenciam a gradação mais elevada na hierarquia espiritual, não obstante a qualidade de discípulos de Teócrito.

De longe podíamos bem distinguir, à claridade ar­gêntea que descia de majestosa cúpula, alguns antigos companheiros, como Jerônimo, cabisbaixo e pensativo; e como Agenor Peflalva, o obsessor convertido sob cui­dados de Padre Anselmo e Olivier de Guzman, depois de trinta e oito anos de pacientes esforços, e cujas feições, severas, duras, dir-se-iam traduzir desconfianças, expec­tativa ansiosa e sombria, pavor indefinível.

Em meio a augusta simplicidade, no entanto, foi que se desenrolou a magna cerimônia. Nenhuma particula­ridade ou traço de ineditismo surpreendeu nossas aten­ções ávidas do sensacionalismo mórbido da Terra. Praza aos Céus que, um dia, os homens encarnados, responsáveis pelos graves problemas que agitam a Humanidade, aprendam com os Espíritos a singeleza que então tivemos ocasião de apreciar, quando se reunirem em festividades ou deliberações! No entanto, tratava-se de uma sessão magna, em a qual se resolveriam destinos de centenas de criaturas que se deveriam recuperar do erro a fim de marcharem para Deus!

Efetivamente, Teócrito levantara-se, deixando irra­diar do semblante fino, quase translúcido, um sorriso amável para seus pupilos, como se mui fraternalmente os saudasse, e, depois de aceno afável, começou instilan­do novos anseios de vida em nossas almas, rejuvenesci­mento para a peleja do porvir, que vinha anunciar:

“— Nós vos saudamos, dileto. pupilos! caros irmãos em Jesus-Cristo! E é em Seu nome excelso que vos de­sejamos a gloriosa conquista da Paz!”

A voz do insigne diretor, porém, ou as vibrações do seu pensamento generoso em nosso favor, o qual enten­díamos como se se tratasse da sua voz, chegava ao nosso entendimento doce e murmurante, quase confidencial. No entanto, a grande assistência ouvia-o nitidamente, sem que um só monossílabo se perdesse. Espanhóis afir­mavam, mais tarde, que o orador falara, naquela noite, em seu idioma pátrio, havendo até mesmo expressões costumeiras do lar paterno, deles conhecidas desde a in­fância, o que muito os comovia e sensibilizava. Nós, os portugueses, porém, contestávamos, pois o que ouvíra­mos fora o bom português clássico de Coimbra; ao pas­so que os brasileiros presentes pretendiam ter ouvido o suave e terno linguajar das plagas nativas, com seus acentos próprios e o sotaque que tanto desagrada em Portugal... (23)

E sincero encantamento a toda a assistência impreg­nava de lenientes emoções...

Ele, não obstante, prosseguiu:

“— Não sois estranhos, meus amigos, ao móvel da presente reunião. É o vosso futuro que aqui se delineia, o destino que vos aguarda que será concertado em pro­gramação que devereis não apenas conhecer, mas, acima de tudo, estabelecer e aprovar!

Desde o dia em que os umbrais desta Colônia Cor­reeional se descerraram, por ordens do Alto, a fim de vos recebermos e hospedarmos, tendes vivido entre as alternativas de um hospital-presídio. A vosso próprio benefício o fizemos, porém, para que mais fundas não se tornassem as vossas desgraças, mais ríspidas vossas responsabilidades nos desvios das inconseqüências funes­tas que fatalmente vos teriam absorvido totalmente, por séculos de gravíssimas transgressões, não fosse a inter­venção caridosa do Pastor Imaculado que partiu à vossa procura, ansioso por vos trazer ao aprisco. No entanto, hoje venho para vos participar que, a partir deste mo­mento, os mesmos portões que se fecharam sobre vós, aprisionando-vos por impositivos de severa proteção e vigilância, descerram-se agora, permitindo-vos liberdade! Sois livres da tutela do Departamento Hospitalar, meus


(23) Mesmo entre desencarnados, somente os Espíritos mui­to elevados poderão produzir semelhante fenômeno telepático.
irmãos! Tudo quanto a estes hospitais e a estes presí­dios competia tentar a fim de vos auxiliar na emergên­cia crítica em que estáveis embaraçados, foi realizado! De agora em diante novas tentativas se impõem no vosso trajeto, novos afazeres e condições de vida reclamam da vossa parte atividades e energias que sinceramente dese­jamos sem esmorecimento nem tibieza... pois já tereis bem compreendido que jamais! jamais haveis de mor­rer! jamais conseguireis desaparecer da frente de vós mesmos, ou da frente da Criação ou do Universo! E isto acontece porque sois criaturas emanadas do Fluído Eter­no da Mente Divina, em vós reside a Vida Eterna dAque­le que vos concedeu a glória de vos criar à Sua Seme­lhança, o que equivale dizer que sereis como Ele é: por toda a Eternidade!

Vede que, possuindo Vida Eterna, finalidade glorio­sa reclama vossa presença no seio da Eterna Pátria, onde o Soberano Senhor do Universo mantém a intensi­dade da Sua Glória!

Para que, pois, haveis de recalcitrar contra vossa origem divina? Por que se inferiorizar a criatura na de­sobediência contumaz às leis imutáveis da Criação, se no seu cumprimento é que encontrará os verdadeiros motivos para se sentir honrada, assim como a felicidade por que tanto se empenha e suspira, a alegria, a paz, a glória imorredoura?... Vosso suicídio, para que vos aproveitou?... Apenas para a vós próprios demonstrar o grau da ignorância e da inferioridade em que laborá­veis, presumindo possuir muito saber e muita ciência; apenas para distender vossas amarguras a longitudes incalculáveis para o vosso raciocínio, quando seria muito mais suave, porque meritório, o acomodar-vos aos impo­sitivos da lei que permite as atribulações cotidianas como incentivo ao Espírito para o progresso e para a elabo­ração das faculdades sublimes de que é depositário.

Que vos sirva a amarga lição da experiência, meus amigos! Que as lágrimas vertidas por vossas almas, inconsoláveis em presença da realidade que vindes contem­plando, se perpetuem nos refolhos das vossas consciências como salutar advertência para os dias porvindouros, quando, renovando experiências que deixastes fracassar, praticardes as sublimes tentativas da reabilitação!

Em vos participando a liberdade que por lei vos éoutorgada, referimo-nos ao direito que tendes de, por vós mesmos, e sob vossa responsabilidade, tratar dos inte­resses próprios, presidindo com vosso próprio raciocínio os destinos que vos aguardam! Sim! sois livres de escolher o que melhor vos parecer! Recebestes, onde até agora estagiastes, elucidações convenientes, que vos per­mitem o critério da escolha:

Quereis retornar à Terra imediatamente, tomando novo fardo corpóreo, vós, cuja razão devidamente escla­recida concluiu pela necessidade imperiosa, indispensável, da terapêutica reencarnacionista, única que vos condu­zirá à cura definitiva dos complexos que vos têm afun­dado nos pantanais de irremediáveis amarguras?...

Tendes liberdade para fazê-lo, uma vez que estais para tanto preparados!

Preferis ficar e cooperar conosco, durante algum tempo, dilatando a época do Inevitável retorno ao orbe terráqueo, seja aprendendo a servir no corpo de nossa milícia, seja desenvolvendo faculdades de amor no apren­dizado fraterno de catequese às falanges obsessoras que infestam a Terra e o Invisível inferior, ou no auxílio prestativo aos nossos hospitais: enfermagem, isto é, assistência benemérita de caridade e consolo fraternal, vigilância, etc.?...

Tendes autorização para escolher!

Nosso campo de ação é intenso e muito vasto, e nas fileiras da nossa agremiação bem recebido será o volun­tário que, amando o Senhor, respeitando suas Leis, de­sejando trabalhar e servir para progredir, submetendo-se aos nossos princípios e direção, se for Inexperiente, qui­ser colaborar para o engrandecimento do Bem e da Justiça!

Vede Joel, a quem tanto quereis: para aqui entrou em vossas condições. O amor de Jesus converteu-o em ovelha pacífica. E apesar do muito que ainda terá de experimentar na Terra, como resultante do infeliz gesto que preferiu em meio da jornada que convinha vencer, quanto amor aos seus irmãos sofredores sabe ele ofer­tar, quantos gestos nobres e meritórios todos os dias distribui entre aqueles que lhe são confiados à vigi­lância!...

Porventura desejais aqui ficar, sem coisa alguma tentardes para o benefício próprio, perambulando de De­partamento em Departamento, observando fatos, presos a um circulo vicioso de contemplação improdutiva, ou entre o Invisível inferior e a Terra, arriscando-se a pe­rigosas tentações, inativos, ociosos, a exercerem a mendicância do astral, sem algo de meritório praticar, con­quanto incapazes da prática do mal, uma vez que não sois maus?...

Não nos oporemos tampouco, conquanto, com todas as forças da nossa alma e todo o sincero empenho dos nossos corações, vos aconselhemos que assim não pro­cedais! É que isto redundaria em agravos penosíssimos para a vossa situação, em angústias evitáveis, mas que se prolongariam em estados insustentáveis que vos cumu­lariam de desvantagens amargosas, de incertezas e res­ponsabilidades que muito conviria evitardes!...

Ou, de outro modo, desejareis prolongar a perma­nência ao nosso lado, a fim de vos iniciardes nos conhe­cimentos superiores da Vida, consagrando-vos aos cursos preparatórios para a Verdadeira Iniciação, só possível após os resgates a que vos comprometestes com a pró­pria Consciência?

Sede bem-vindos, ó amigos! E aprendei com o Mestre dos mestres os primórdios que vos têm faltado! E re­cebei em Seu Nome os elementos com que vos fortifi­careis para a consecução dos ideais de Amor, de Justiça e de Verdade!

Muitos de vós, presentes a esta assembléia, se en­contram habilitados para esse curso preparatório. Para outros, porém, o momento ainda não chegou! Suas cons­ciências segredar-lhes-ão o caminho a seguir sem que nos constranjamos a proferir-lhes os nomes. Mesmo aos habilitados, todavia, nada obrigará à aceitação do con­vite que ora foi feito. Aceitá-lo-ão se o quiserem, por livre e espontânea vontade...”

Murmuração discreta percorreu a assistência. Era que admirávamos a caridosa sutileza do método posto em prática, o qual inibia uns e outros, de nossa falange, de se julgarem favorecidos por qualquer superioridade, uma vez que não podíamos avaliar os ditames das cons­ciências uns dos outros, assim como aboliria a suposição de predileção por parte dos mentores. Teócrito continuou, depois de uma pausa:

“— Ser-vos-á concedido prazo de trinta dias para meditardes deliberadamente sobre o que acabais de ouvir; pois, conquanto estejais há bastante tempo doutrinados e esclarecidos para tomardes, por vós mesmos, a decisão que vos convém, a tolerância manda que vos acautele­mos com ainda algum tempo de meditação, em torno das tentativas futuras.

Durante esse prazo, diariamente sereis atendidos na sede do Departamento, caso desejeis informações e mais esclarecimentos no que vos disser particularmente respeito... e podereis, sem constrangimentos, expandir-vos com aquele que aqui vos receber, porque falará ele em nome do Divino Pastor, e ainda porque vos conhece em todas as particularidades e sutilezas, lendo em vossas almas como num livro fácil! Outrossim, sois convidados às reuniões que para vós se realizarão neste mesmo local, nas quais trataremos de tudo quanto, de modo geral, vos possa esclarecer, instruir e reanimar para o futuro a que sereis impelidos pelas vossas afinidades pessoais. Esgotado, porém, o prazo concedido, participareis a dire­toria da instituição, a que estais filiados, das resoluções tomadas, prontificando-se ela, então, sob nossas vistas, a encaminhar-vos para o destino que voluntariamente houverdes escolhido!”

A tão simples quão importantes falas seguiu-se a primeira exposição dos deveres que nos caberiam como Espíritos arrependidos e desejosos de reabilitação. Seria como a primeira conferência da série para que nos con­vidavam. O próprio Teócrito fora o orador. Falara pa­ternal e conselheiramente, sem arroubos apaixonados de oratória, mas deixando penetrar até o âmago de nossas almas profundas reflexões em torno das particularidades inferiores de cada um. Dir-se-ia que, legítimo conhecedor dos complexos que enredavam nosso ser, trazia o obje­tivo de ajudar-nos a reconhecê-los, medi-los, esmiuçá­-los, a fim de nos animar a dar-lhes combate. Dali nos retiramos, nessa noite memorável, reconfortados, como fortalecidos por benfazeja esperança... E ali voltamos ainda muitas vezes para ouvi-lo expandir-se sobre os mais elevados conceitos que poderíamos conceber, acerca da Vida, das Leis do Universo, das magnificências morais resultantes do cumprimento do Dever, da observação da Justiça, da prática do Amor e da Fraternidade, da obe­diência à Razão como à Moral e a todos os demais prin­cípios do Bem!

Extinto o prazo estabelecido pelos regulamentos in­ternos, grande movimentação verificou-se na fisionomia pacata do Departamento Hospitalar e da Torre. Turmas de asilados cruzavam as alamedas nevadas dos parques, demandando a sede do Departamento, acompanhadas de seus mentores, a fim de participarem à autoridade má­xima da nobre agremiação as resoluções definitivamente tomadas depois das mais graves elucubrações e análises sobre a situação própria, assistidas pelos desvelados con­selheiros e educadores e orientadas pelo próprio Teócrito, como vimos.

Agenor Peflalva, assim como vários outros prisionei­ros da Torre, suicidas-obsessores que haviam semeado desordem, lágrimas, desgraças incontáveis no decorrer do pretérito, quer na qualidade de homens encarnados, quer, mais tarde, como Espíritos inferiores que eram; Jerônimo de Araújo Silveira, Mário Sobral e outros de­clararam preferir a reencarnação imediata, tais os incômodos dos remorsos, as angustiosas perspectivas do passado, que obsidiavam suas mentes em flagelações in­suportáveis, incapacitando-os para outra qualquer tenta­tiva. Tinham urgência de expiação, a verem se conse­guiriam tréguas no esquecimento temporário dos serviços de renovação planetária, para depois, então, cuidarem, mais serenos, de maiores realizações.. Vários outros se empenharam pelo estágio nas operosidades da Vigilân­cia, onde poderiam algo aprender para se fortalecerem um pouco mais, pois que, tíbios, indecisos, temiam ainda o contacto com a carne, desconfiados das próprias fra­quezas. Algum tempo de contacto com as caravanas he­róicas, no serviço de socorro e auxílio aos desgraçados do Vale Sinistro, como da Terra, desempenhando a be­neficência, prepará-los-ia com mais segurança, no pró­prio entender, apontando-lhes caminhos mais amplos na senda da Fraternidade! Eu, Belarmino, João d’Azevedo e bem assim alguns poucos que conosco muito se afina­vam, todos do Hospital Maria de Nazaré, atraidos pelos magníficos ensinamentos do preclaro diretor do Depar­tamento, durante suas apreciadas exposições, depois de muitas e cuidadosas investigações a dentro de nós mes­mos, apresentamo-nos à sua presença, declarando que, caso fôssemos merecedores da honrosa mercê de prosse­guir nas sendas preparatórias da Iniciação, a despeito dos deméritos que sabíamos sobrecarregando nossas cons­ciências, nós o preferíamos, porqüanto nos seduzia a perspectiva do Conhecimento que nos deixara entrever.

“— Sede bem-vindos, amigos! — foi a resposta. —Amanhã mesmo podereis seguir vosso novo destino... Para que retardar mais .... Não continuareis, porém, sob minha dependência... A missão a mim confiada jun­to de vós foi culminada, uma vez que sereis encaminha­dos para a frente, sob os cuidados de novos mentores... Unir-nos-á, no entanto, para sempre, a doce afeição que se estabeleceu em nossos Espíritos durante o tempo que aqui passastes...”

Certos de que logo no dia imediato deixaríamos o Departamento Hospitalar, separando-nos dos generosos amigos que tanto nos consolaram na desgraça, tristeza profunda ensombrou-nos o coração. A permanência num hospital, porém, todos nós o sabíamos, é temporária, ge­ralmente curta.

Procuramos despedir-nos. Começamos pelo próprio Hospital, que nos era vizinho. Joel, abraçando-nos entre um sorriso e um minuto de intervalo nos afazeres que se afiguravam múltiplos naquela manhã em virtude da chegada, dentro de poucas horas, de novo contingente

de réprobos apanhados no Vale, disse-nos, confortando­-nos ainda uma vez:

“— Não penseis que estareis separados de nós ou­tros... Havemos de ver-nos muitas vezes... Paciência, meus amigos, paciência..

Carlos e Roberto, como sempre, prontificaram-se a guiar-nos às visitas de despedidas. Revimos e abraçamos todos os nobres mentores, os amigos incansáveis de dedicação, a quem tanto devíamos os amáveis conheci­mentos que tivemos a honra de fazer fora do nosso De­partamento, os quais se estenderiam através do tempo, solidificando-se em perpétuas afeições!

Achávamo-nos no Departamento de Reencarnação, acompanhados das gentis Irmãs servidoras, Rosália e Co­lestina, quando ali deram entrada vários pretendentes à matrícula no Recolhimento. Era compugente obser­vá-los maturando sobre os dramas nefastos que assim os impeliam para o futuro acerbo tão depressa, o futuro redentor! Dir-se-iam réprobos expulsos do Paraíso por falta de afinidades para habitá-lo por mais tempo, o triste êxodo de condenados aos infernos, pelas mais gra­ves desobediências às Leis do Senhor Todo Bondade e Misericórdia!

Era, com efeito, tudo isso! Era falange de arrepen­didos que, por entre as lutas das incompreensões das provas terrenas, iam polir a consciência maculada pelo pecado, batizando-a no fogo redentor do sofrimento e, assim, remindo-a da desonra!

Caminhavam em fila extensa, de dois a dois, subin­do as escadarias da sede do Departamento e desapare­cendo dentro em pouco no interior do mesmo... Prisio­neiros do passado ominoso, escravizados pelo negror da mente, incapacitados, em vista de seus pungentes re­morsos, para quaisquer tentativas antes de uma reen­carnação expiatória, seguiam cabisbaixos, tristes, constrangidos, temerosos, dando a impressão de que só se submetiam à dura penalidade porque outro remédio não haviam encontrado para lhes restituir a honra espiritual, a serenidade Intima, senão esse providencial recurso que a Lei Magnânima lhes apontava: voltarem a ser homens!

Renovarem-se nas lides planetárias através de exercícios reabilitadores do cumprimento do Dever!

Desoladora sensação de pavor fez estremecessem nossas fibras mais sensíveis ao se nos deparar o grupo conduzido por Irmão João, diretor do Manicômio! Inca­pazes de livremente raciocinar, seguiam para a reen­carnação impelidos pela necessidade imperiosa de uMa melhoria e algum progresso; e somente as escassas ate­nuantes que deveriam trazer, como os deméritos que à evidência mostravam, estabeleceriam condições para a existência que buscavam, assim como seus lastimáveis estados vibratórios. Irmão João, o generoso Teócrito, os técnicos do Departamento de Reencarnação, a direção-geral da Colônia, seus Guardiães Maiores, todos criterio­samente inspirados na Justiça e na Misericórdia das Leis Soberanas do Onipotente Criador, eram os mesmos que supriam suas incapacidades de justo discernimento para livremente escolherem o futuro, estabelecendo em con­selho o que melhor lhes convinha, e para isso recebendo o beneplácito do Mestre Redentor — Jesus!

Não contivemos as lágrimas ao avistarmos Jerônimo e Mário, nossos pobres companheiros e afins desde as sombrias desesperações do Vale Sinistro. O primeiro, abatido, curvava a cabeça sobre o peito, qual o conde­nado submisso no momento supremo. Não nos percebeu à distância, tão absorvido seguia nas ondas aflitivas do pensamento! O segundo, porém, sorridente e valoroso, os cabelos revoltos, como no primeiro dia em que o ví­ramos; o peito, no entanto, destemeroso, erguido como a desafiar as lutas porvindouras, olhos vivos postos para a frente, qual sonhador antevendo o ápice honroso de empresa penosamente iniciada entre os sacrifícios exi­gidos pela Razão e as lágrimas vertidas pelo Coração, ambos conflagrados por sincero arrependimento, que se­ria preciso expungir! Ao nos avistar, acenou amigavel­mente, num adeus que parecia derradeiro, enquanto frê­mito de indescritível horror confrangia nossas almas: o desgraçado acenara com dois miseráveis tocos de braços, onde não exitiam mãos, ao passo que estas lá estavam, destacadas, encravadas em seu próprio pescoço, como recordando a morte violenta pelo estrangulamento, a mes­ma por ele dada à infeliz Eulina!

Este será bem certo que vencerá — profetizou Irmã Celestina, pensativa. — Sua próxima migração ter­rena será calvário áspero, próprio das almas corajosas, que se arrependem! E do berço ao túmulo apenas lágri­mas e asperezas conhecerá! Arrastar-se-á sem esperan­ças nem compensações, mutilado, enfermo, humilhado, ridiculizado, traído pela própria mãe, que o repudiará ao dar-lhe a vida, pois só obterá um corpo nos ambientes viciados em que outrora se chafurdou... Mas será pre­ciso que assim seja, á meu Deus! para que se reconcilie com a consciência própria e se reencontre harmonizado com o progresso natural de cada criatura em procura de Deus! Tão bem assim o compreendeu, que ele mes­mo escreveu a sentença que lhe convém e entregou-a a Irmão Teócrito para encaminhá-la à direção-geral e conseguir aprovação do seu Guardião Maior, isto é, de Maria, governadora da Legião a que pertencemos... Má­rio impôs-se expiação duríssima, como tantos e tantos irmãos nossos existentes sobre a crosta da Terra, no resgate severo e decisivo !“

... E ao entardecer do dia seguinte deixamos o De­partamento Hospitalar...

Veículo modesto, que reconhecemos do tipo usual no interior da Colônia, veio buscar-nos. Silenciosamente, comovidos, tomamos lugar e, confortados pela presença de Romeu e Alceste, que nos deveriam acompanhar ao novo domicílio, observávamos que, enquanto deslizava suavemente, as neves melancólicas se adelgaçavam, a pai­sagem se coloria de formosos tons de madrepérola, flores surgiam em festividades policrômicas à beira das estra­das caprichosamente cuidadas... enquanto os primeiros casarios de magnificente metrópole hindu apareciam aos nossos olhos surpreendidos, que julgavam sonhar!

Louvado seja Deus! Era, pois, verdade, que haviamos progredido!




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