Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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TERCEIRA PARTE –

A CIDADE UNIVERSITÁRIA

1

A Mansão da Esperança
A primeira noite foi passada em ansiosa expectação. Nossos aposentos deitavam para o jardim e das ogivas que os rodeavam descortinávamos o vasto horizonte da metrópole, marchetado de pavilhões graciosos como cons­truídos em madrepérola, e de cujos caramanchões, que os enfeitavam pitorescamente, evolavam-ee fragrâncias delicadas de miríades de arbustos e flores viçosas, não mais insípidas, níveas, como no Departamento Hospitalar.

Tudo indicava que gravitáramos, segundo as nossas afinidades, para uma Cidade Universitária, onde ciclos novos de estudo e aprendizagem se franqueariam para nós, segundo nosso desejo.

Enquanto passeávamos, aos nossos olhos interessa­dos estendia-se paisagem amena e sedutora, onde edifí­cios soberbos, finamente trabalhados em estilo ideal, que lembraria o padrão de uma civilização que nunca che­garia a se concretizar nas camadas terrestres, nos leva­ram a meditar sobre a possibilidade de neblinas ignotas, irisadas sob palores também desconhecidos, servirem a artistas para aquelas cúpulas sedutoras, os rendilhados sugestivos, o pitoresco encantamento dos balcões convi­dando a mente do poeta a devaneio. profusos, caminho do Ideal! Avenidas imensas rasgavam-se entre arvoredos majestosos e lagos docemente encrespados, orlados de tufos floridos e perfumosos. E, alinhadas, como em visão inesquecível de uma cidade de fadas, as Academias onde o infeliz que atentara contra o sacrossanto ensejo da existência terrena deveria habilitar-se para as decisivas reformas pessoais que lhe seriam indispensáveis para, mais tarde, depois de nova encarnação terrena, onde tes­temunhasse os valores adquiridos durante os preparató­rios, ser admitido na verdadeira Iniciação.

Não me permitirei a tentativa de descrever o en­canto que se irradiava desse bairro onde as cúpulas e torres dos edifícios dir-se-iam filigranas lucilando discre­tamente, como que orvalhadas, e sobre as quais os raios do Astro Rei, projetados em conjunto com evaporações de gases sublimados, emprestavam tonalidades de efeitos cuja beleza nada sei a que possa comparar!

Em tudo, porém, desenhava-se augusta superiorida­de, desprendendo sugestões grandiosas, inconcebíveis ao homem encarnado.

E, no entanto, não era residência privilegiada! Ape­nas um grau a mais acima do triste asilo hospitalar!...

Emocionados, detivemo-nos diante das Escolas que deveríamos cursar. Lá estavam, entestando-as, os letrei­ros descritivos dos ensinamentos que receberíamos:

— Moral, Filosofia, Ciência, Psicologia, Pedagogia, Cosmogonia, e até um idioma novo, que não seria apenas uma língua a mais, a ser usada na Terra como atavio de abastados, ornamento frívolo de quem tivesse recur­sos monetários suficientes para comprar o privilégio de aprendê-la. Não! O idioma cuja indicação ali nos sur­preendia seria o Idioma definitivo, que havia de futuramente estreitar as relações entre os homens e os Espí­ritos, por lhes facilitar o entendimento, removendo igual­mente as barreiras da incompreensão entre os humanos e contribuindo para a confraternização ideada por Jesus de Nazaré:

“Uma só Língua, uma só bandeira, um só pastor!”

Esse idioma, cuja ausência entre médiuns brasileiros me havia impossibilitado ditar obras como as desejara, contribuindo para que fosse mais penoso o trabalho de

minha reabilitação, possuía um nome que se aliava ao doce refrigério que aclarava nossas mentes. Chamava-se, tal como o nosso burgo, Esperança, e lá se encontrava, junto aos demais, o majestoso edifício onde era minis­trado, acompanhando-se das recomendações fraternais para que foi ideado! Conviria, assim, que o aprendêsse­mos, para que, ao reencarnarmos, levando-o impresso nos refolhos do Espírito, não nos descurássemos de exer­citá-lo sobre a Terra.

O benfazejo frescor matinal trazia-nos ao olfato perfume dulcíssimo, que afirmaríamos ser dos craveiros sanguíneos que as damas portuguesas tanto gostam de cultivar em seus canteiros, das glicínias mimosas, exci­tadas pelo orvalho saudável da alvorada. E pássaros, como se cantassem ao longe, assobiavam ternas melodias, completando a doçura do painel.

Havíamos chegado na véspera, quando as estrelas começavam a fulgir irradiando carícias luminosas.

Romeu e Alceste, apresentando-nos à direção do novo burgo, despediram-se em seguida, dando por finda a missão junto de nós. Não foi sem profunda emoção que vimos retirarem-se os jovens boníssimos a quem tan­to devíamos, e aos quais abraçamos, comovidos, con­quanto que, sorrindo, observassem:

“— Não estaremos separados. Apenas mudastes de recinto, dentro do mesmo lar. Porventura o próprio Uni­verso Infinito não é o lar das criaturas de Deus!.. .“

Irmão Sóstenes era o diretor da Cidade Esperança. Falou-nos grave, discreto, bondoso, sem que nos animás­semos a fitá-lo:

“— Sede bem-vindos, meus caros filhos! Que Jesus, o único Mestre que, em verdade, aqui encontrareis, vos inspire a conduta a seguir na etapa nova que hoje se delineia para vós. Confiai! Aprendei! Trabalhai! — a fim de que possais vencer! Esta mansão vos pertence. Habitais, portanto, um lar que é vosso, e onde encon­trareis irmãos, como vós, filhos do Eterno! Maria, sob o beneplácito de seu Augusto Filho, ordenou sua criação para que vos fosse proporcionada ocasião de preparati­vos honrosos para a reabilitação indispensável. Encon­ trareis no seu amor de mãe sustentáculo sublime para vencerdes o negror dos erros que vos afastaram das pe­gadas do Grande Mestre a quem deveis antes amor e obediência! Cumpre, portanto, apressar a marcha, recupe­rar o tempo perdido! Espero que sabereis compreender com inteligência as vossas próprias necessidades. .

Nada respondemos. Lágrimas umedeceram nossas pálpebras. Ëramos como meninos timidos que se vissem a sós pela primeira vez com o velho e respeitável profes­sor ainda incompreendido. Foi quando, logo após, nos conduziram ao Internato onde deveríamos residir, onde passáramos a noite e de onde, pela manhã, saíramos a passear.

Aqui e ali, pelos parques que bordavam a cidade, deparávamos turmas de alunos ouvindo seus mestres sob a poesia dulcíssima de arvoredos frondosos, atentos e inebriados como outrora teriam sido, na Terra, os dis­cípulos de Sócrates ou de Platão, sob o farfalhar dos plátanos de Atenas; os iniciados do grande Pitágoras e os desgraçados da Galiléia e da Judéia, os sofredores de Cafarnaum ou Genesaré, embevecidos ante a intradu­zível magia da palavra messiânica!

Senhoras transitavam pelas alamedas, acompanhadas de vigilantes severas como Marie Nimiers, a quem mais tarde conheceríamos mui de perto; ou impenetráveis como Vicência de Guzman (24), jovem religiosa da antiga Or­dem de S. Francisco, irmã do nosso antigo benfeitor, Conde Ramiro de Guzman, à qual igualmente passamos a bem-querer tão logo soubemos dos elos imarcescíveis que a ligavam àquele dedicado servidor da Seção das Relações com a Terra.

Absortos, consentíamos que a imaginação se desdo­brasse arrastada pelas sugestões, deixando palpitar em
(24) Personagens de uma narração incluída nos aponta­mentos concedidos pelo verdadeiro autor destas páginas no de­curso de vinte anos de experiências mediúnicas, mas a qual O seu compilador houve por bem omitir no presente volume, reser­vando-a para novo ensaio literário em moldes espíritas.
nossa mente múltiplas impressões, quando, de mansinho, alguém tocou em meu ombro, produzindo em minha sen­sibilidade a suave emoção de uma carícia infantil que me despertasse de prolongado torpor. Voltei-me, bem as­sim meus companheiros mais afins, reduzidos agora a João e Belarmino, visto que os demais se haviam inter­nado no Recolhimento. Duas damas achavam-me ao nos­so lado, convidando-nos para uma reunião de honra para a qual fora convocada a pequena falange chegada no dia anterior. Diziam as damas que, então, seríamos apre­sentados aos nossos novos mentores, aqueles que fariam nossa educação definitiva. A eles seríamos entregues como a veros Guardiães que por nós zelariam paternal-mente, até findar o curso de experiências renovadoras que urgia levássemos a efeito em próxima encarnação nos planos terrestres.

A primeira dessas damas, justamente a que me to­cara, era uma menina loira e mimosa, que andaria pelas quinze primaveras, portadora de gracilidade irresistível. Trajava-se, porém, curiosamente, não nos furtando, ne­nhum de nós outros, a impertinente reparo. Túnica bran­ca atada à cinta, manto azul trespassado ao antigo uso grego e pequena grinalda de rosas minúsculas ornamen­tando-lhe a fronte ebúrnea. Dir-se-ia um anjo a quem faltassem as asas. No primeiro instante supus-me vítima de novo gênero de alucinação, que, passado do Vale dos Réprobos para a Cidade da Esperança, teria o condão de criar o oposto do hediondo, isto é, o agradável e o belo. A menina trazia poético e imponente nome de Rita de Cássia de Forjaz Frazão, decassílabo que a teria implicado em círculo familiar aristocrata, na derradeira etapa terrena sofrida em terras de Portugal. Mais alguns dias passados, não sofreando o desejo de me elucidar acerca dos seus interessantes trajes, via-a entristecer-se à minha indiscrição, enquanto lhe ouvia a resposta à interrogativa por mim feita:

“— Sepultaram-me assim, ou melhor, assim vesti­ram o meu fardo carnal, quando o abandonei pela última vez, na Terra. Tão grata foi ao meu coração a volta ao Invisível, não obstante o desastre que ocasionou a um ser muito querido para mim, que retive na mente a recor­dação da última “toilette” terrena. .

A segunda, alta, também loira, deveria ter deixado a vestidura corporal não longe dos cinqüenta anos, con­servando ainda as impressões mentais que permitiam tais observações. Simpática e atraente, estendeu-me a des­tra mui gentilmente, apresentando-se de modo assaz cativante para nós:

“— Tenho certeza que já ouvistes falar de mim... Sou Doris Mary Steel da Costa... e venho de uma exis­tência terrena em que mui gratamente servi de mãe ao meu pobre Joel... vosso amigo do Departamento Hos­pitalar.”

Confessamo-nos encantados, não dispondo de frases bastante expressivas para traduzir a emoção que nos empolgava. Respeitosamente osculamos a mão que tão democraticamente nos era estendida, mas sinceramente o fizemos, sem a afetação a que nos habituáramos desde muito...

A hora aprazada fomos introduzidos na sala de assembléias, situada na sede central do novo Departamen­to, por irmãs vigilantes encarregadas do serviço interno.

Nossa turma, que contava cerca de duzentos pecadores, era das mais vultosas que no momento existiam na Cidade, contando em seu conjunto com um grande contingente de damas brasileiras pertencentes a variados planos sociais da Terra, o que muito nos admirou, reco­nhecendo que as estatísticas de suicídios de mulheres no Brasil avantajavam-se de muito às de Portugal. Presi­dia à magna reunião o Guardião chefe do burgo, Irmão Sóstenes.

Iniciando-a, exortou-nos à homenagem mental ao Criador, o que fizemos orando intixnamente, tal como nos fora possível, iinpelidos, todavia, por sincero respeito. À sua direita postava-se um ancião, cujas barbas níveas, descendo até à cintura, para terminarem em sentido agu­do, imprimiam tal aspecto de venerabilidade à sua per­sonalidade que, emocionados, julgamo-nos em presença de um daqueles patriarcas que os livros sagrados nos retratam ou de um faquir indiano experimentado em virtudes e ciências através das mais austeras disciplinas. À esquerda, outro iniciado despertou-nos a atenção com seu perfil hindu clássico, o que infundiu em nosso espírito singular sentimento de atração. Tão venerável quanto o outro, a nova personagem apresentava, porém, menos idade, refletindo antes a maturidade, com a pujança do seu equilíbrio racional estampada no vigor das feições que nos deixava observar com nitidez. Mais além, um jovem quase adolescente despertou-nos maior atenção, uma vez que ocupava outra cátedra de mestre, e não o local reservado aos adjuntos. Formosíssimo de sem­blante, de uma feitura por assim dizer angelical, seu per­fil hebreu irradiava tão impressionante doçura que supo­ríamos tratar-se antes de uma aparição de que os livros orientais eram férteis em mencionar, não fora a reali­dade insofismável de tudo quanto nos cercava. Ladeava Sóstenes à direita, ombreando com o ancião.

A um sinal de Irmão Sóstenes, iniciou-se a chamada dos pacientes. Nossos nomes, registrados no volumoso livro de matrícula onde os assináramos à chegada, res­soavam, um a um, proferidos pela voz possante de um adjunto que, ao lado da tribuna de honra, como que secretariava a reunião. E, ouvindo que nos chamavam, respondíamos timidamente, quais colegiais bisonhos, en­quanto a repercussão fazia repetidos nossos nomes mais além, entre salas e galerias, levando-os, através das ala­medas distantes, dos parques da cidade que se estendia entre flores e pavilhões grandiosos, para os perpetuarem, quem sabe? ecoando-os através do Infinito e da Eternidade!...

Todos presentes, levantou-se o diretor para o dis­curso de honra:

“— Iniciais neste momento fase nova em vossa exis­tência de Espíritos delituosos, meus caros amigos! Dentre tantos padecentes que convosco chegaram a esta Colô­nia, fostes os únicos a atingir condições indispensáveis às lutas do aprendizado espiritual que vos conferirá base sólida para a aquisição de valores pessoais nos dias por-vindouros. Sereis matriculados em nossas escolas, uma vez que apresentais o necessário desenvolvimento moral e mental para a aquisição de esclarecimentos que vos permitirão próxima reencarnação recuperadora, capaz de vos fornecer a reabilitação decisiva do erro em que su­cumbistes.

Como de há muito deveis ter percebido, não sois condenados irremissíveis aos quais a Lei Universal apli­caria medidas extremas, relegando-vos à eterna inferio­ridade do presente, ao abandono das angústias inconso­láveis da atualidade, por excluir-vos da harmonia apro­priada a toda criatura originada do Sempiterno Amor! Ao contrário, estamos a participar-vos que tendes o direito de muito esperar da bondade paternal do Onipotente Criador, porqüanto, a mesma Lei, por Ele estabelecida, que infringistes com o ato desrespeitoso da revolta con­traproducente, a todos vós facultará a possibilidade de recomeçar a experiência interrompida pelo suicídio, for­necendo-vos, honrosamente, ensejo de reabilitação certa.

Nada conheceis, entretanto, da Vida Espiritual e urge que a conheçais. Até agora vossos estágios na erra­ticidade vêm-se verificando em zonas inferiores do Invisí­vel onde pouco tendes aproveitado moralmente, em vista da couraça de animalidade que envolve vossas vibrações mentais chumbadas, particularmente, ao domínio das sen­sações. Há cerca de um século, porém, chegou a época de se anteporem rigores aos vossos continuados desatinos e despertar-vos do círculo vicioso em que vos deixastes permanecer encaminhando-vos para a alvorada da reden­ção com Jesus, que vos conduzirá ao verdadeiro alvo que, como criaturas de Deus, deveis forçosamente atingir!

Muitos de vós, doutos que fostes na Terra, lúcidas inteligências que se impuseram na conceituação da so­ciedade terrena, desconheceis, todavia, os mais rudimen­tares princípios de espiritualidade, levando mesmo a dis­plicência ao extremo de negá-los e combatê-los, quando os descobríeis exornando o caráter do próximo. Deveis, por isso mesmo, iniciar conosco um curso de reeducação moral-mental-espiritual, que é o que vos tem faltado, já que as predisposições para tão alto feito acudiram aos apelos desesperados dos sofrimentos por que passais!

Não fora o gesto audacioso de precipitação, afron­tando leis invariáveis que ainda desconheceis, e hoje es­taríeis glorificados por vitória magnífica, laureados pelo cumprimento do Dever, preparados para novos ciclos de aprendizagem. No entanto, o suicídio, que não vos trou­xe a morte, porque a morte é ficção neste Universo vivo e regido por leis eternas oriundas da sabedoria de um Criador Eterno; que não vos concedeu nem repouso, nem olvido, nem aniquilamento, porqüanto não atingiu senão o corpo físico-terreno e não, jamais! o espiritual, onde reside vossa personalidade verdadeira e eterna, o suicí­dio, dizemos, arrebatou todo o mérito que poderíeis ter, precipitando-vos em situação calamitosa, da qual não saireis enquanto restaurações totais não sejam efetiva­das. E advirto-vos, meus amigos, que, na luta a empre­enderdes para a consecução de tal desiderato, mais de um século presenciará az lágrimas que derramareis sobre as conseqüências do execrado ato de desrespeito a vós mesmos, como a Deus!

Todavia, os ensinamentos que vos ministraremos in­fluirão bastante na vitória que devereis alcançar contra vós próprios. Mas, não saireis deste local, alçando esfe­ras espirituais mais compensadoras, enquanto de nosso Instituto, ou de vossas Consciências, não receberdes certificados de reabilitação, os quais vos conferirão ingresso em habitações normais na hierarquia da evolução, e tais certificados, meus amigos, somente vos serão confiados após a reencarnação que devereis abraçar, uma vez ter­minado o curso iniciado neste momento. .

Seguiu-se pausa breve, que nos forneceu a impressão de que novas disposições despertavam as fibras de nos­sas almas. Voltando-se para os três companheiros que o ladeavam, o orador continuou, prendendo porventura ainda mais a nossa atenção:

“— Aqui tendes os vossos educadores. São como anjos-tutelares que sobre vós, como sobre vossos desti­nos, e debruçarão, amparando-vos na espinhosa jornada! Acompanhar-Vos-ão, a partir deste momento, em todos os dias de vossa vida, e só darão por cumprida a nobre missão de que se incumbiram junto de vós, quando, já glorificados pela observação da Lei que infringistes, vol­tardes da Terra, novamente, para este asilo, recebendo, então, como que passaporte para outra localidade espi­ritual, onde reapanhareis o fio normal da rota evolutiva interrompida pelo suicídio.

As credenciais dos mestres a quem, neste momento, sois entregues em nome do Pastor Celeste, estendem-se, em virtudes e méritos, a um passado remoto, muitas ve­zes comprovado nos testemunhos santificantes.

À minha direita, eis Epaminondas de Vigo, o qual, em escala ascensional brilhante, vem desde o antigo Egi­to até os sombrios dias da Idade Média, na Espanha, servindo a Verdade e exalçando o nome de Deus, sem que seus triunfos se arrefecessem nos planos da Espiri­tualidade até o momento presente. Nos tempos - apostó­licos, onde, como discípulo de Simão Pedro, glorificou o Mestre Divino, teve a honra suprema de sofrer o mar­tírio e a morte no circo de Domício Nero. Na Espanha, sob o império das trevas que circundavam as leis impos­tas pelo chamado Santo-Ofício, brilhou como estrela sal­vadora, mostrando roteiros sublimes aos desgraçados e perseguidos, como a muitos corações ansiosos pelo ideal divino, empunhando fachos de ciências sublimadas no amor e no respeito aos Evangelhos do Cordeiro Ima­culado, ciências que fora buscar, desde muito, em peregri­nações devotadas, aos arcanos sagrados da velha Índia, sábia e protetora, na Terra, de verdades imortais! Mas justamente porque brilhara em meio de trevas, sacrifi­caram-no novamente, não mais atirando seu velho corpo carnal às feras esfaimadas, mas queimando-o em foguei­ra pública, onde, ainda uma vez, provou ele seu imar­cescível devotamento ao Senhor Jesus de Nazaré!

À esquerda tendes Souria-Omar, antigo mestre de iniciação em Alexandria; filósofo na Grécia, logo após o advento de Sócrates, quando fulgores imortais come­çavam a se acender para o povo, até então arredado dos conhecimentos sublimes, mantidos que eram estes em se­gredo e apenas para conhecimento e uso de sábios e doutos. Como o eminente precursor do Grande Mestre, ensinou a Doutrina Secreta a discípulos levantados das mais modestas classes sociais, aos deserdados e infeli­zes; e, à sombra benfazeja dos carvalheiros frondosos ou sob a amenidade poética dos plátanos, fazia-os sorver ensinos cheios de divina magnificência, transportando-os de felicidade na elevação dos pensamentos para o Deus Sempiterno, Criador de Todas as Coisas, aquele Deus desconhecido cuja imagem não constava na coleção dos altares de pedra da antiga Hélade... Mais tarde, ei-lo reencarnado na própria Judéia, atraído pela figura in­comparável do Mestre dos mestres, desdobrando-se em atitudes humildes, obscuras, mas generosas e sadias, por seguir as pegadas luminosos do Celeste Pegureiro! En­trado já em idade avançada, conheceu as férreas perse­guições de Jerusalém, logo após o apedrejamento de Estêvão. Estóico, fortalecido por uma fé inquebrantável, sofreu longo martírio no fundo sinistro de antigo cala­bouço; torturado com a cegueira, uma vez considerado varão de muitas letras e, portanto, perigoso, nocivo aos interesses farisaicos; martirizado com espancamentos, mutilações dolorosas, até sucumbir, ignorado da socieda­de, irreconhecível pela própria família, mas glorificado pelo Mestre Excelso, por amor de quem tudo suportou com humildade, amor e reconhecimento. Souria-Omar, como Epaminondas, teve a mente voltada, desde muitos séculos, para as altas expressões da Espiritualidade, a alma fervorosamente batizada na pira sagrada da Ciência Divina e do amor a Deus! Hoje, se se encontra ope­rando na região de angústias em que nos encontramos todos, materializado a ponto de ser por vós reconhecido como em sua derradeira estrutura corporal, não será porque lhe escasseiem luzes e merecimentos para alçar locais outros, em harmonia com seus méritos, mas por­que fiéis, ambos, a princípios da iniciação cristã, que observam acima de quaisquer outras normas, preferem estender atenções e amor aos mais desgraçados e despro­vidos de ânimo, devotando-se a encaminhá-los à redenção inspirados no exemplo do Príncipe Celeste que abando­nou seu reino de glórias para dar-se, em sacrifícios con­tinuados, ao bem das ovelhas da Terra...

...E Aníbal, meus caros filhos! Este jovem que co­nheceu pessoalmente a Jesus de Nazaré, durante suas pregações inesquecíveis através da sofredora Judéia! Aní­bal de Silas, um daqueles meninos presentes no grupo que Jesus acariciou quando exclamou, demonstrando a inconfundível ternura que mais uma vez expandia entre as ovelhas ainda vacilantes:
“Deixai vir a mim as criancinhas, que delas é o reino dos Céus...”
Aníbal, que vos ministrará ensinamentos cristãos exa­tamente como os ouviu do próprio Rabi, a quem ama com arrebatamentos de idealista entusiasta e ardoroso, desde a infância longínqua, passada, então, no Oriente!

Assevera ele que, quando o Senhor pregava sua formosa Doutrina de Amor, quadros explicativos, de maravilhosa precisão e encanto inexprimível, surgiam inesperadamente à visão do ouvinte de boa-vontade, elu­cidando-o de forma inconfundível, por imprimirem nos arcanos do ser de cada um a exemplificação que nunca mais seria olvidada! Que era por isso que, falando, conseguia o grande Enviado conter, em serenidade inalte­rável, multidões famintas, por longas horas, dominar turbas rebeldes, arrebatar ouvintes, convencer corações que, ou se prostravam à sua passagem, receosos e atur­didos, ou à Sua Doutrina para sempre se prendiam, en­cantados e fiéis. Os ímpios, porém, cujas mentes vicia­das permaneciam desafinadas com as vibrações divinas, nada percebiam, ouvindo apenas relatos cuja excelsitude não eram capazes de alcançar, uma vez que traziam as almas impregnadas do vírus letal da má-vontade! Um desses quadros, certamente o mais belo de quantos o Mestre Amado criou para instruir suas ovelhas desgar­radas, porque aquele mesmo que o retratava em sua glória de Unigênito do Altíssimo, bastou para que Saulo de Tarso se transformasse em esteio ardente da Doutri­na Redentora com que honrara o mundo!

Aníbal cresceu e fez-se homem, sentindo-se sempre envolvido pelas radiações iinarcescíveis do Divino Pegu­reiro, e que nunca mais se apagaram das suas recordações. Trabalhou pela Causa, repetiu aqui como além o que ouvira do Senhor ou de seus Apóstolos, preferindo, porém, instruir crianças e jovens, lembrando-se da do­çura inexcedível com que Jesus se dirigia à infância. Viajou e sofreu perseguições, ultrajes, injúrias, injusti­ças, ainda porque era de bom-gosto social criticar os adeptos do Nazareno, ofendê-los, persegui-los, matá-los! E, uma vez chegado a Roma, viu-se glorificado pelo mar­tírio, por amor do Enviado Celeste: teve o fardo carnal incinerado num daqueles postes de iluminação festiva, na célebre ornamentação dos jardins de Nero, aos trinta e sete anos de idade! Mas, entre a tortura do fogo re­sinoso, porventura ainda mais atroz, e o espanto por se ver colhido nas redes do sublime testemunho, ele, que se considerava humilde, incapaz de merecer tão ele­vada honra, reviu novamente as margens do Tiberíades, o lago formoso de Genesaré, as aldeias simples e pi­torescas da Galiléia e Jesus pregando docemente a Boa-Nova celestial com aqueles arrebatadores quadros que, na hora suprema, se mostravam ainda mais belos e fas­cinantes à sua alma de adepto humilde e fervoroso, enquanto Sua Voz dulçorosa repetia, como o ósculo da extrema-unção que lhe abençoasse a alma, fadando-a à glória da Imortalidade:
“Vinde a mim, benditos de Meu Pai, passai à minha direita...”
Enamorado sincero da Boa-Nova do Cordeiro Imacu­lado, será a Boa-Nova o ensino que vos ministrará, pois, para ele, sois meninos que tudo ignorais em torno dela... E o fará como aprendeu do Mestre Inesquecível: — em quadros demonstrativos que vos apresentem, o mais fiel­mente possível, o encanto que para sempre o arrebatou e prendeu a Jesus!

A fim de se especializar em tão sublime gênero de confabulação mental hão sido necessárias ao devotado Aníbal vidas sucessivas de renúncias, trabalhos, sacrifí­cios, experimentações múltiplas e dolorosas no carreiro do progresso, pois somente assim seria possível desen­volver nas faculdades da alma tão precioso dom. Ele o conseguiu, porém, porque jamais em seu coração escas­seou a vontade de vencer, jamais esqueceu os dias glo­riosos das pregações messiânicas, o momento, sempiterno em seu Espírito, em que sentiu a destra do Celeste Men­sageiro pousando sobre sua frágil cabeça de menino, para o convite inesquecível:


“Deixai vir a mim os pequeninos...”
É que Aníbal vinha sendo, para isso, preparado des­de eras afastadas!

Viveu nos tempos de Elias, respeitando o nome do verdadeiro Deus! Foi, mais tarde, iniciado nos mistérios augustos das Ciências, pela antiga escola dos Egípcios. O respeito e o devotamento ao Deus Verdadeiro, e a esperança inquebrantável no advento libertador do Mes­sias Divino, iluminavam sua mente desde então, por en­tre fachos de virtudes que não mais se esmaeceriam!

Não obstante, após o sacrifício em Roma, trabalha­dor e infatigável, renasceu ainda sobre a crosta do pla­neta. Seduzia-o a vontade poderosa e insopitável de seguir nas pegadas do Mestre, anuindo aos Seus divinos apelos. Sofreu, por isso, novas perseguições ao tempo de Adriano, e exultou com a vitória de Constantino!

Desde então, dedicou-se particularmente ao amparo e à educação da infância e da juventude. Sacerdote ca­tólico na Idade Média, por mais de uma vez se fez anjo-tutelar de pobres crianças abandonadas, esquecidas pela prepotência dos senhores de então, convertendo-as em homens úteis e aproveitáveis para a sociedade, em mu­lheres honestas, voltadas para o culto do Dever e da Família! E tanto Aníbal se preocupou com a infância e a juventude, tanto fixou energias mentais naqueles rostinhos formosos e meigos, que sua mente imprimiu em si próprio uma eterna feição de adolescente gentil, pois, como vedes, dir-se-ia ainda ser o menino acaricia­do pelo Mestre Nazareno, na Judéia, há quase dois mil anos!...

Até que um dia, glorioso para o seu Espírito de servo fiel e amoroso, ordem direta desceu das altas esferas de luz, como graça concedida por tantos séculos de abnegação e amor:

“— Vai, Aníbal... e dá dos teus labores à Legião de Minha Mãe! Socorre com Meus ensinamentos, que tan­to prezas, os que mais destituídos de luzes e de forças encontrares, confiados aos teus cuidados... Pensa, de preferência, naqueles cujas mentes hão desfalecido sob as penalidades do suicídio... Entreguei-os, de há muito, àdireção de Minha Mãe, porque só a inspiração maternal será bastante caridosa para erguê-los para Deus! En­sina-lhes a Minha palavra! Desperta-os, recordando-lhes os exemplos que deixei! Através de Minhas lições, ensi­na-os a amar, a servir, a dominar as paixões, apondo sobre elas as forças do Conhecimento, a encontrar as es­tradas da redenção no cumprimento do Dever, que para os homens tracei, a sofrer com paciência, porque o so­frimento é prenúncio de glória, alavanca poderosa do progresso... Abre-lhes o livro das tuas recordações! Lem­bra-te de quando me ouvias, na Judéia... e ilumina-os com as claridades do Meu Evangelho, pois é só isso o que lhes falta!...”

E aqui o tendes, meus caros filhos, modesto, pe­quenino como um adolescente, mas tocado pela flama imortal da inspiração com que o prende a bondade imar­cesclvel do Mestre Excelso... A ele eu vos confio!”

Intensa comoção atingia nossas almas, extraindo do íntimo do nosso ser reais sentimentos de admiração pelos três vultos que nos eram apresentados e que tão estrei­tamente se ligariam ao nosso destino por um tempo que não poderíamos, absolutamente, prever. Também a inconfundível figura do Nazareno nos fora singularmente apresentada. A verdade era que, até então, Ele nos apa­recia às cogitações mais como sublimidade ideal, incom­preensível à mente humana, do que personalidade real, capaz de se tornar compreendida e imitada pelas demais criaturas. Nossos três mestres, porém, haviam sido con­temporâneos dEle. Conheceram-no. Ouviram-no falar. Falaram, mesmo, com Ele, porqüanto era de notar que esse Divino Mestre jamais negou falar a quem o pro­curasse! Um daqueles mesmos mestres sentira a branda carícia de sua mão afagar-lhe a cabeça. Jesus-Cristo, assim conhecido, assim visto, assim amado, atraía nossas atenções.

Muitos internos presentes haviam baixado a fronte. Outros se abandonavam às lágrimas silenciosas, discre­tas, que desciam, como orvalhando suas almas, num gra­to e fervoroso batismo! O silêncio continuou por alguns instantes, após o que Sóstenes continuou, orientador e zeloso:

- Como jamais será aconselhável a perda de tem­po, porqüanto, alguns minutos desperdiçados no labor abendiçoado do progresso poderão carrear para o futuro dissabores dificultosamente reparáveis, iniciaremos hoje mesmo medidas favoráveis a vós outros. Sereis nova­mente divididos em agrupamentos homogêneos de dez individualidades, continuando separadas, como no Hospi­tal, as damas dos cavalheiros. Somente no decorrer das aulas ou em dias fixados para reuniões recreativas, po­dereis avistar-vos e trocar idéias. Isso acontecerá porque trazeis ainda arrastamentos penosos da matéria, inquie­tações mentais perturbadoras, que convém educar. Vossos pensamentos deverão habituar-se a disciplina higiê­nica, encaminhando-se o mais rapidamente possível para as boas expressões do Espírito, para cogitações cujo alvo estará na idéia de Deus! Fareis conosco o exercício men­tal de elevação do ser para o Infinito; mas para tanto conseguirdes será indispensável que vos desobrigueis de preocupações subalternas. A idéia de sexo é um dos mais incomodativos entraves às conquistas mentais! As inclinações sexuais oprimem a vontade, turbam as ener­gias da alma, entorpecem-lhe as faculdades, arrastan­do-a a vibrações pesadas e inferiores, que retardam a ação do vero estado de espiritualidade. Por isso, será prudente, enquanto não progredis bastante, o isolamento, bom conselheiro que vos levará ao esquecimento de que fostes homens e mulheres ainda ontem, lembrando-vos, em seguida, de que, agora, vós vos deveis buscar de pre­ferência com o amor espiritual, com o sentimento fra­terno imarcescível, inclinação divina, apropriada para os arrebatamentos do Espírito. Não obstante, entidades já educadas nas reais afinidades da alma, e que animaram, na Terra, corpos femininos, são indicadas para acompa­nhar-vos em missão educativa, como familiar. Escolhi­das em o nosso corpo de vigilantes, serão como precep­toras que vos auxiliarão na verdadeira adaptação ao ambiente espiritual, que em verdade desconheceis, visto que vossos estágios no Além têm-se verificado, até ago­ra, apenas entre as camadas inferiores do Invisível, o que não é a mesma coisa... Ouvirão elas as vossas con­fidências, consolar-vos-ão com seus conselhos e experiên­cias, quando as fadigas ou as possíveis saudades vos ameaçarem o ânimo; atenderão vossos pedidos, transmi­tindo-os à diretoria desta Mansão, e, assim agindo, man­terão ao redor dos vossos corações os doces e sacros­santos sentimentos da Família, impedindo que os olvideis por uma longa separação, pois não podereis prescindir dos sentimentos de família, tal como na Terra são eles experimentados, porque ainda muitas vezes reencarnareis nos seus cenários, reconstituindo lares que nem sempre soubestes prezar, testemunhando ensinamentos que ha­veis de aprender no plano espiritual, com vossos mestres, prepostos de Jesus. Junto de vós, aqui desempe­nharão elas como que o papel da solicitude materna, do interesse e da dedicação fraternais!

Como vedes, toda a ajuda que a Lei permite no

vosso deplorável caso, a vós será facultada pela magna direção da Colônia Correcional que vos abriga, cujos es­tatutos, fundamentados na Doutrina Excelsa do Amor e da Fraternidade, têm por ideal o educar para elevar e redimir!

Avante, pois, caros amigos e irmãos! encorajados e decididos, para a batalha que vos concederá a liber­tação das graves conseqüências que criastes em hora de infeliz e temerária inspiração!”

Em um salão que precedia a sala de assembléias, encontramos as Damas da Vigilância, nobre corporação de legionárias que exercitavam aprendizado sublime para as futuras tarefas femininas a serem experimentadas Terra, e o faziam junto de nós, seus irmãos sofredores carentes de elucidações e consolo. Esperavam pelos seus protegidos, a fim de lhes serem devidamente apre­sentadas. Ora, o grupo formado desde o Hospital por mim, Belarmino de Queiroz e Sousa e João d’Azevedo, e que se vira enriquecido, àquela mesma hora, por mais alguns outros aprendizes afins, portugueses e brasileiros, recebeu como futuros “bons gênios” as damas que nos haviam encaminhado à reunião de que saíamos, isto é, Doris Mary e Rita de Cássia. Encantados com o acon­tecimento, pois irresistível simpatia já para elas impelia nossos Espíritos, foi comovidamente que confessamos a satisfação que nos avassalava ao lhes oscularmos a des­tra que bondosamente nos fora estendida.

Sem perda de tempo, fomos encaminhados para o nobre edifício em que funcionavam as aulas de Filosofia e Moral, um dos magníficos palácios situados na formosa Avenida Acadêmica.

Quando penetramos o recinto das aulas, suave co­moção agitou as fibras magoadas do nosso ser. Era um salão imenso, disposto em semicirculo, cujas cômodas arquibancadas acompanhavam traçado idêntico, enquanto ao fundo uma placa luminosa de avantajadas dimensões despertava a atenção do visitante, e, ao centro, junto a ela, a cátedra do expositor, lente do transcendente curso que iniciaríamos. Notamos não nos ser estranho o apa­relhamento. Já o víramos, por mais de uma vez, nos serviços hospitalares. Contudo, esse, agora, dir-se-ia aper­feiçoado, apresentando leveza e dimensões diferentes.

Suaves tonalidades branco-azuladas projetavam no ambiente em que penetrávamos pela primeira vez o en­canto sugestivo dos santuários. Jamais sentíramos tão profunda a insignificância da nossa personalidade como ao penetrar o estranho anfiteatro onde o primeiro por­menor a nos despertar atenção era o sublime convite do Senhor de Nazaré, escrito em caracteres fulgurantes e figurando acima da tela:
“Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo, que sou brando e humilde de coração, e achareis repouso para vossas almas, pois o meu jugo é suave e leve o meu fardo.” (25)
Eis, porém, que o tilintar macio de uma campainha despertou nossa atenção. O mestre apareceu: — era o jovem Aníbal de Silas, a quem fôramos apresentados havia poucos minutos. Vinha seguido de dois adjuntos, Pedro e Salústio, dois adolescentes, como ele, delicados e atraentes, que imediatamente iniciaram preparativos para o magno desempenho. Pensamentos turbilhonaram precipitadamente pelos refolhos de minha consciência, deixando que recordações queridas da infância me aflo­rassem gratamente ao coração... e revi-me pequenino, comovido e temeroso ao enfrentar, pela primeira vez, o velho mestre que me dera a conhecer as letras do al­fabeto...

Os adjuntos ligaram à cadeira, onde já Aníbal se sentara, fios imperceptíveis, porém, luminosos, e prepa­raram um como diadema que distinguimos como seme­lhante ao entrevisto na Torre, para elucidação de Agenor Peflalva. O silêncio era religioso. Percebia-se grande homogeneidade na assembléia, pois a harmonia se im­punha, criando bem-estar indefinível a todos nós. Sofredores, excitados, aflitos, angustiados que éramos, aquie­tamos queixumes e preocupações pessoais, aguardando a seqüência do momento!

Sobre o tablado mais seis irmãos iniciados se apre­sentaram. Sentaram-se em coxins dispostos em semicír­culo, enquanto Aníbal se conservava ao centro e Pedro e Salústio se distanciavam.

Aníbal levantou-se. Dir-se-ia que ósculos maternais rociassem nossas almas caliginosas. Surtos de esperança segredaram misteriosamente em nossos corações oblite­rados pelo longo desespero, e suspiros se distenderam, aliviando opressões abomináveis. Ouvimos sons longín­quos e harmonias de tocante melodia, como um hino



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