Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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(1) Após a morte, antes que o Espírito se oriente, gravitando para o verdadeiro “lar espiritual” que lhe cabe, será sempre ne­cessário o estágio numa “antecâmara”, numa região cuja densi­dade e aflitivas configurações locais corresponderão aos estados vibratórios e mentais do recém-desencarnado. Aí se deterá até que seja naturalmente “desanimalizado”, Isto é, que se desfaça dos fluidos e forças vitais de que são impregnados todos os corpoS materiais. Por ai se verá que a estada será temporária nesse umbral do Além, conquanto geralmente penosa. Tais sejam o caráter, as ações praticadas, o gênero de vida, o gênero de morte que teve a entidade desencarnada —tais serão o tempo e a penúria no local descrito. Existem aqueles que aí apenas se demo­ram algumas horas. Outros levarão meses, anos consecutivos, voltando à reencarnação sem atingirem a Espiritualidade. Em se tratando de suicidas o caso assume proporções especiais, por dolorosas e complexas. Estes aí se demorarão, geralmente, o tempo que ainda lhes restava para conclusãO do compromisso da existência que prematuramente cortaram. Trazendo carregamentos avantajados de forças vitais animalizadas, além das ba­gagens das paixões criminosas e uma desorganização mental, nervosa e vibratória completas, é fácil entre Ver qual será a situação desses infelizes para quem um só bálsamo existe: — a prece das almas caritativas!

Se, por muito longo esse estágio exorbite das medidas nor­mais ao caso — a reencarnação imediata será a terapêutica indicada, embora acerba e dolorosa, O que será preferível a muitos anos em tão desgraçada situação, assim se completando, então, o tempo que faltava ao término da existência cortada.
atirava a represálias selvagens, ombreando com os agres­sores e com eles refocilando na lama da mesma ceva espiritual!

A fome, a sede, o frio enregelador, a fadiga, a in­sônia; exigências físicas martirizantes, fáceis de o leitor entrever; a natureza como que aguçada em todos os seus desejos e apetites, qual se ainda trouxéssemos o envol­tório carnal; a promiscuidade, muito vexatória, de Espíritos que foram homens e dos que animaram corpos femininos; tempestades constantes, inundações mesmo, a lama, o fétido, as sombras perenes, a deseeperança de nos vermos livres de tantos martírios sobrepostos, o su­premo desconforto físico e moral — eis o panorama por assim dizer “material” que emoldurava os nossos ainda mais pungentes padecimentos morais!

Nem mesmo sonhar com o Belo, dar-se a devaneio. balsamizantes ou a recordações beneficente é era conce­dido àquele que porventura possuísse capacidade para o fazer.

Naquele ambiente superlotado de males o pen­samento jazia encarcerado nas fráguas que o contorna­vam, só podendo emitir vibrações que se afinassem ao tono da própria perfídia local... E, envolvidos em tão enlouquecedores fogos, não havia ninguém que pudesse atingir um instante de serenidade e reflexão para se lem­brar de Deus e bradar por Sua paternal misericórdia! Não se podia orar porque a oração é um bem, é um bálsamo, é uma trégua, é uma esperança! e aos desgraçados que para lá se atiravam nas torrentes do suicídio impossível seria atingir tão altas mercês!

Não sabíamos quando era dia ou quando voltava a noite, porque sombras perenes rodeavam as horas que vivíamos. Perdêramos a noção do tempo. Apenas es­magadora sensação de distância e longevidade do que representasse o passado ficara para açoitar nossas Inter­rogações, afigurando-se-nos que estávamos há séculos jungidos a tão ríspido calvário!

Dali não esperávamos sair, conquanto fosse tal desejo uma das causticantes obsessões que nos alucinavam... pois o Desânimo gera­dor da desesperança que nos armara o gesto de suicidas afirmava-nos que tal estado de coisas seria eterno! A contagem do tempo, para aqueles que mergulhavam nesse abismo, estacionara no momento exato em que fi­zera para sempre tombar a própria armadura de carne! Daí para cá só existiam — assombro, confusão, engano­sas induções, suposições insidiosas! Igualmente ignorá­vamos em que local nos encontrávamos, que significação teria nossa espantosa situação. Tentávamos, aflitos, furtarmo-nos a ela, sem percebermos que era cabedal de nossa própria mente conflagrada, de nossas vibrações entrechocadas por mil malefícios indescritíveis! Procurá­vamos então fugir do local maldito para voltarmos aos nossos lares; e o fazíamos desabaladamente, em insanas correrias de loucos furiosos! Aasveros malditos, sem consolo, sem paz, sem descanso em parte alguma... ao passo que correntes irresistíveis, como ímãs poderosos, atraíam-nos de volta ao tugúrio sombrio, arrastando-nos de envolta a um atro turbilhão de nuvens sufocadoras e estonteantes!

De outras vezes, tateando nas sombras, lá íamos, por entre gargantas, vielas e becos, sem lograrmos in­dício de saída... Cavernas, sempre cavernas — todas numeradas —; ou longos espaços pantanosos quais lagos lodosos circulados de muralhas abruptas, que nos afi­guravam levantadas em pedra e ferro, como se fôramos sepultados vivos nas profundas tenebrosidades de algum vulcão! Era um labirinto onde nos perdíamos sem po­dermos jamais alcançar o fim!

Por vezes acontecia não sabermos retornar ao ponto de partida, isto é, às caver­nas que nos serviam de domicílio, o que forçava a per­manência ao relento até que deparássemos algum covil desabitado para outra vez nos abrigarmos. Nossa mais vulgar impressão era de que nos encontrávamos encar­cerados no subsolo, em presídio cavado no seio da Terra, quem sabia se nas entranhas de uma cordilheira, da qual fizesse parte também algum vulcão extinto, como pare­ciam atestar aqueles imensuráveis poços de lama com paredes escalavradas lembrando minerais pesados...

Aterrados, entrávamos então a bramir em coro, fu­riosamente, quais maltas de chacais danados, para que nos retirassem dali, restituindo-nos à liberdade! As mais violentas manifestações de terror seguiam-se então; e tudo quanto o leitor imaginar possa, dentro da confu­são de cenas patéticas inventadas pela fobia do Horror, ficará muito aquém da expressão real por nós vivida nessas horas criadas pelos nossos próprios pensamentos distanciados da Luz e do Amor de Deus!

Como se fantásticos espelhos perseguissem obses­soramente nossas faculdades, lá se reproduzia a visão macabra: — o corpo a se decompor sob o ataque dos vibriões esfaimados; a faina detestável da podridão a seguir o curso natural da destruição orgânica, levando em roldão nossas carnes, nossas vísceras, nosso sangue pervertido pelo fétido, nosso corpo enfim, que se sumia para sempre no banquete asqueroso de milhões de ver­mes vorazes, nosso corpo, que era carcomido lentamente, sob nossas vistas estupefatas!... que morria, era bem verdade, enquanto nós, seus donos, nosso Ego sensível, pensante, inteligente, que dele se utilizara apenas como de um vestuário transitório, continuava vivo, sensível, pensante, inteligente, desapontado e pávido, desafiando a possibilidade de também morrer! E — ó tétrica magia que ultrapassava todo o poder que tivéssemos de refletir e compreender! — ó castigo irremovível, punindo o re­negado que ousou insultar a Natureza destruindo prematuramente o que só ela era competente para decidir e realizar: — Vivos, nós, em espírito, diante do corpo putrefato, sentíamos a corrupção atingir-nos!... Doíam em nossa configuração astral as picadas monstruosas dos vermes! Enfurecia-nos até à demência a martirizante repercussão que levava nosso perispírito, ainda animali­zado e provido de abundantes forças vitais, a refletir o que se passava com seu antigo envoltório limoso — tal o eco de um rumor a reproduzir-se de quebrada em quebrada da montanha, ao longo de todo o vale...

Nossa covardia, então, a mesma que nos brutalizara induzindo-nos ao suicídio, forçava-nos a retroceder.

Retrocedíamos.

Mas o suicídio é uma teia envolvente em que a vi­tima — o suicida — só se debate para cada vez mais confundir-se, tolher-se, embaraçar-se. Sobrepunha-se a confusão. Agora, a persistência da auto-sugestão malé­fica recordava as lendas supersticiosas, ouvidas na in­fância e calcadas por longo tempo nas camadas da sub­consciência; corporificava-se em visões extravagantes, a que emprestava realidade integral. Julgávamo-nos nada menos do que à frente do tribunal dos infernos!... Sim! Vivíamos na plenitude da região das sombras!... E Espíritos de ínfima classe do Invisível — obsessores que pululam por todas as camadas inferiores, tanto da Terra como do Além; os mesmos que haviam alimentado em nossas mentes as sugestões para o suicídio, divertindo-se com nossas angústias, prevaleciam-se da situação anor­mal para a qüal resvaláranos, a fim de convencer-nos de que eram juizes que nos deveriam julgar e castigar, apresentando-se às nossas faculdades conturbadas pelo sofrimento como seres fantásticos, fantasmas impressio­nantes e trágicos. Inventavam cenas satânicas, com que nos supliciavam. Submetiam-nos a vexames indescritíveis! Obrigavam-nos a torpezas e deboches, violentando-nos a compactuar de suas infames obscenidades! Donzelas que se haviam suicidado, desculpando-se com motivos de amor, esquecidas de que o vero amor é paciente, virtuo­so e obediente a Deus; olvidando, no egoísmo passional de que deram provas, o amor sacrossanto de uma mãe que ficara inconsolável; desrespeitando as cãs venerá­veis de um pai — os quais jamais esqueceriam o golpe em seus corações vibrados pela filha ingrata que pre­feriu a morte a continuar no tabernáculo do lar pater­no —, eram agora insultadas no seu coração e no seu pudor por essas entidades animalizadas e vis, que as faziam crer serem obrigadas a se escravizarem por se­rem eles os donos do império de trevas que escolheram em detrimento do lar que abandonaram! Em verdade, porém, tais entidades não passavam de Espíritos que também foram homens, mas que viveram no crime: —sensuais, alcoólatras, devassos, intrigantes, hipócritas, perjuros, traidores, sedutores, assassinos perversos, ca­luniadores, sátiros — enfim, essa falange maléfica que infelicita a sociedade terrena, que muitas vezes tem fu­nerais pomposos e exéquias solenes, mas que na existência espiritual se resume na corja repugnante que mencionamos... até que reencarnações expiatórias, mi­seráveis e rastejantes, venham impulsioná-la a novas tentativas de progresso.

A tão deploráveis seqüências sucediam-se outras não menos dramáticas e rescaldantes: — atos incorretos por nós praticados durante a encarnação, nossos erros, nos­sas quedas pecaminosas, nossos crimes mesmo, corpori­ficavam-se à frente de nossas consciências como outras visões acusadoras, intransigentes na condenação perene a que nos submetiam. As vítimas do nosso egoísmo rea­pareciam agora, em reminiscências vergonhosas e contu­mazes, indo e vindo ao nosso lado em atropelos perti­nazes, infundindo em nossa já tão combalida organização espiritual o mais angustioso desequilíbrio nervoso forjado pelo remorso!

Sobrepondo-se, no entanto, a tão lamentável acervo de iniqüidades, acima de tanta vergonha e tão rudes hu­milhações existia, vigilante e compassiva, a paternal mi­sericórdia do Deus Altíssimo, do Pai justo e bom que “não quer a morte do pecador, mas que ele viva e se arrependa”.

Nas peripécias que o suicida entra a curtir depois do desbarato que prematuramente o levou ao túmulo, o Vale Sinistro apenas representa um estágio temporário, sendo ele para lá encaminhado por movimento de im­pulsão natural, com o qual se afina, até que se desfaçam as pesadas cadeias que o atrelam ao corpo físico-terre­no, destruído antes da ocasião prevista pela lei natural. Será preciso que se desagreguem dele as poderosas ca­madas de fluidos vitais que lhe revestiam a organização física, adaptadas por afinidades especiais da Grande Mãe Natureza à organização astral, ou seja, ao perispírito, as quais nele se aglomeram em reservas suficientes para o compromisso da existência completa; que se arrefeçam, enfim, as mesmas afinidades, labor que na individuali­dade de um suicida será acompanhado das mais aflitivas dificuldades, de morosidade impressionante, para, só en­tão, obter possibilidade vibratória que lhe faculte alívio e progresso (2). De outro modo, tal seja a feição do seu caráter, tais os deméritos e grau de responsabilidades gerais — tal será o agravo da situação, tal a intensidade dos padecimentos a experimentar, pois, nestes casos, não serão apenas as conseqüências decepcionantes do suicídio que lhe afligirão a alma, mas também o reverso dos atos pecaminosos anteriormente cometidos.

Periodicamente, singular caravana visitava esse an­tro de sombras.

Era como a inspeção de alguma associação caridosa, assistência protetora de instituição humanitária, cujos abnegados fins não se poderiam pôr em dúvida.

Vinha à procura daqueles dentre nós cujos fluidos vitais, arrefecidos pela desintegração completa da maté­ria, permitissem locomoção para as camadas do Invisível intermediário, ou de transição.

Supúnhamos tratar-se, a caravana, de um grupo de homens. Mas na realidade eram Espíritos que estendiam a fraternidade ao extremo de se materializarem o sufi­ciente para se tornarem plenamente percebidos à nossa precária visão e nos infundirem confiança no socorro que nos davam.

Trajados de branco, apresentavam-se caminhando pelas ruas lamacentas do Vale, de um a um, em coluna rigorosamente disciplinada, enquanto, olhando-os aten­tamente, distinguiríamos, à altura do peito de todos, pe­quena cruz azul-celeste, o que parecia ser um emblema, um distintivo.
(2) Às impressões e sensacões penosas, oriundas do corpo carnal, que acompanham o Espírito ainda materializado, chama­remos repercussões magnéticas, em virtude do magnetismo animal, existente em todos os seres vivos, e suas afinidades com o perispírito. Trata-se de fenômeno idêntico ao que faz a um homem que teve o braço ou a perna amputados sentir coceiras na palma da mão que já não existe com ele, ou na sola do pé, igualmente inexistente. Conhecemos em certo hospital um pobre operário que teve ambas as pernas amputadas senti-las tão vivamente consigo, assim como os pés, que, esquecido de que já não os possuia, procurou levantar-se, levando, porém, estrondosa queda e ferin­do-se. Tais fenômenos são fáceis de observar.
­ Senhoras faziam parte dessa caravana. Precedia, po­rém, a coluna, pequeno pelotão de lanceiros, qual batedor de caminhos, ao passo que vários outros milicianos da mesma arma rodeavam os visitadores, como tecendo um cordão de isolamento, o que esclarecia serem estes mui­to bem guardados contra quaisquer hostilidades que pudessem surgir do exterior.

Com a destra o oficial comandante erguia alvinitente flâmula, na qual se lia, em caracteres também azul-celeste, esta extraordinária legenda, que tinha o dom de infundir insopitável e sin­gular temor:


— LEGIÃO DOS SERVOS DE MARIA —
Os lanceiros, ostentando escudo e lança, tinham tez bronzeada e trajavam-se com sobriedade, lembrando guerreiros egípcios da antigüidade. E, chefiando a ex­pedição, destacava-se varão respeitável, o qual trazia avental branco e insígnias de médico a par da cruz já referida. Cobria-lhe a cabeça, porém, em vez do gorro característico, um turbante hindu, cujas dobras eram ata­das à frente pela tradicional esmeralda, símbolo dos es­culápios.

Entravam aqui e ali, pelo interior das cavernas ha­bitadas, examinando seus ocupantes.

Curvavam-se, cheios de piedade, junto das sarjetas, levantando aqui e acolá algum desgraçado tombado sob o excesso de sofrimento; retiravam os que apresentassem condições de poderem ser socorridos e colocavam-nos em macas conduzidas por varões que se diriam serviçais ou aprendizes.

Voz grave e dominante, de alguém invisível que falasse pairando no ar, guiava-os no caridoso afã, escla­recendo detalhes ou desfazendo confusões momentanea­mente suscitadas.

A mesma voz fazia a chamada dos prisioneiros a serem socorridos, proferindo seus nomes próprios, o que fazia que se apresentassem, sem a ne­cessidade de serem procurados, aqueles que se encon­trassem em melhores condições, facilitando destarte o serviço dos caravaneiros. Hoje posso dizer que todas essas vozes amigas e protetoras eram transmitidas através de ondas delicadas e sensíveis do éter, com o sublime concurso de aparelhamentos magnéticos mantido para fins humanitários em determinados pontos do Invisível, isto é, justamente na localidade que nos receberia ao sairmos do Vale. Mas, então, ignorávamos o pormenor e muito confusos nos sentíamos.

As macas, transportadas cuidadosamente, eram guar­dadas pelo cordão de isolamento já referido e abrigadas no interior de grandes veículos à feição de comboios, que acompanhavam a expedição. Esses comboios, no entan­to, apresentavam singularidade interessante, digna de relato. Em vez de apresentarem os vagões comuns às estradas de ferro, como os que conhecíamos, lembravam, antes, meio de transporte primitivo, pois se compunham de pequenas diligências atadas uma às outras e rodea­das de persiana. muito espessas, o que impediria ao pas­sageiro verificar os locais por onde deveria transitar.

Brancos, leves, como burilados em matérias específicas habilmente laqueadas, eram puxados por formosas pare­lhas de cavalos também brancos, nobres animais cuja extraordinária beleza e elegância incomum despertariam nossa atenção se estivéssemos em condições de algo notar para além das desgraças que nos mantinham absorvidos dentro de nosso âmbito pessoal. Dir-se-iam, porém, exem­plares da mais alta raça normanda, vigorosos e inteli­gentes, as belas crinas ondulantes e graciosas enfeitan­do-lhes os altivos pescoços quais mantos de seda, níveos e finalmente franjados. Nos carros distinguia-se também o mesmo emblema azul-celeste e a legenda respeitável.

Geralmente, os infelizes assim socorridos encontra­vam-se desfalecidos, exânimes, como atingidos de singu­lar estado comatoso. Outros, no entanto, alucinados ou doloridos, infundiriam compaixão pelo estado de supremo desalento em que se conservavam.

Depois de rigorosa busca, a estranha coluna mar­chava em retirada até o local em que se postava o comboio, igualmente defendido por lanceiros hindus. Si­lenciosamente cortava pelos becos e vielas, afastava-se, afastava-se... desaparecendo de nossas vistas enquanto mergulhávamos outra vez na pesada solidão que nos cerca... Em vão clamavam por socorro os que se sentiam preteridos, incapacitados de compreenderem que, se assim sucedia, era porque nem todos se encontravam em condições vibratórias para emigrarem para regiões menos hostis. Em vão suplicavam justiça e compaixão ou se amotinavam, revoltados, exigindo que os deixassem também seguir com os demais. Não respondiam os ca­ravaneiros com um gesto sequer; a se algum mais des­graçado ou audacioso tentasse assaltar as viaturas a fim de atingi-las e nelas ingressar, dez, vinte lanças faziam-no recuar, interceptando-lhe a passagem.

Então, um coro hediondo de uivos e choro sinistros, de pragas e gargalhadas satânicas, o ranger de dentes comum ao réprobo que estertor. nas trevas dos males por si próprio forjados, repercutiam longa e dolorosa-mente pelas ruas lamacentas, parecendo que loucura co­letiva atacara os míseros detentos, elevando suas raivas ao incompreensível no linguajar humano!

E assim ficavam... quanto tempo?... Oh! Deus piedoso! Quanto?...

Até que suas inimagináveis condições de suicidas, de mortos-vivos, lhes permitissem também a transferência para localidade menos trágica...



2

Os réprobos
Em geral aqueles que se arrojam ao suicídio, para sempre esperam livrar-se de dissabores julgados insupor­táveis, de sofrimentos e problemas considerados insolú­veis pela tibiez da vontade deseducada, que se acovarda em presença, muitas vezes, da vergonha do descrédito ou da desonra, dos remorsos deprimentes postos a enxo­valharem a consciência, conseqüências de ações pratica­das à revelia das leis do Bem e da Justiça.

Também eu assim pensei, muito apesar da auréola de idealista que minha vaidade acreditava glorificando­-me a fronte.

Enganei-me, porém; e lutas infinitamente mais vivas e mais ríspidas esperavam-me a dentro do túmulo a fim de me chicotearem a alma de descrente e revel, com me­recida justiça.

As primeiras horas que se seguiram ao gesto brutal de que usei, para comigo mesmo, passaram-se sem que verdadeiramente eu pudesse dar acordo de mim. Meu Espírito, rudemente violentado, como que desmaiara, so­frendo ignóbil colapso. Os sentidos, as faculdades que traduzem o “eu” racional, paralisaram-se como se indes­critível cataclismo houvesse desbaratado o mundo, pre­valecendo, porém, acima dos destroços, a sensação forte do aniquilamento que sobre meu ser acabara de cair. Fora como se aquele estampido maldito, que até hoje ecoa sinistramente em minhas vibrações mentais —, sempre que, descerrando os véus da memória, como neste ins­tante, revivo o passado execrável — tivesse dispersado uma a uma as moléculas que em meu ser constituíssem a Vida!

A linguagem humana ainda não precisou inventar vocábulos bastante justos e compreensíveis para definir as impressões absolutamente inconcebíveis, que passam a contaminar o “eu” de um suicida logo às primeiras horas que se seguem ao desastre, as quais sobem e se avolumam, envolvem-se em complexos e se radicam e cristalizam num crescendo que traduz estado vibratório e mental que o homem não pode compreender, porque está fora da sua possibilidade de criatura que, mercê de Deus, se conservou aquém dessa anormalidade. Para en­tendê-la e medir com precisão a intensidade dessa dra­mática surpresa, só outro Espírito cujas faculdades se houvessem queimado nas efervescências da mesma dor!

Nessas primeiras horas, que por si mesmas cons­tituiriam a configuração do abismo em que se precipitou, se não representassem apenas o prelúdio da diabólica sinfonia que será constrangido a interpretar pelas dis­posições lógicas das leis naturais que violou, o suicida, semi-inconsciente, adormentado, desacordado sem que, para maior suplício, se lhe obscureça de todo a percepção dos sentidos, sente-se dolorosamente contundido, nulo, dispersado em seus milhões de filamentos psíquicos vio­lentamente atingidos pelo malvado acontecimento.

Para­doxos turbilhonam em volta dele, afligindo-lhe a tenui­dade das percepções com martirizantes girândolas de sensações confusas. Perde-se no vácuo... Ignora-se... Não obstante aterra-se, acovarda-se, sente a profundida­de apavorante do erro contra o qual colidiu, deprime-se na aniquiladora certeza de que ultrapassou os limites das ações que lhe eram permitidas praticar, desnorteia-se entrevendo que avançou demasiadamente, para além da demarcação traçada pela Razão! É o traumatismo psí­quico, o choque nefasto que o dilacerou com suas tenazes inevitáveis, e o qual, para ser minorado, dele exigirá um roteiro de urzes e lágrimas, decênios de rijos testemu­nhos até que se reconduza às vias naturais do progres­so, interrompidas pelo ato arbitrário e contraproducente.

Pouco a pouco, senti ressuscitando das sombras con­fusas em que mergulhei meu pobre Espírito, após a que­da. do corpo físico, o atributo máximo que a Paternidade Divina impôs sobre aqueles que, no decorrer dos milê­nios, deverão refletir Sua imagem e semelhança: — a Consciência! a Memória! o divino dom de pensar!

Senti-me enregelar de frio. Tiritava! Impressão in­cômoda, de que vestes de gelo se me apegavam ao corpo, provocou-me inavaliável mal-estar. Faltava-me, ao de­mais, o ar para o livre mecanismo dos pulmões, o que me levou a crer que, uma vez que eu me desejara furtar à vida, era a morte que se aproximava com seu cortejo de sintomas dilacerantes.

Odores fétidos e nauseabundos, todavia, revoltavam-me brutalmente o olfato. Dor aguda, violenta, enlouque­cedora, arremeteu-se instantaneamente sobre meu corpo por inteiro, localizando-se particularmente no cérebro e iniciando-se no aparelho auditivo. Presa de convulsões indescritíveis de dor física, levei a destra ao ouvido di­reito: — o sangue corria do orifício causado pelo proje­til da arma de fogo de que me servira para o suicídio e manchou-me as mãos, as vestes, o corpo... Eu nada enxergava, porém. Convém recordar que meu suicídio derivou-se da revolta por me encontrar cego, expiação que considerei superior às minhas forças, injusta punição da Natureza aos meus olhos necessitados de ver, para que me fosse dado obter, pelo trabalho, a subsistência honrada e altiva.

Sentia-me, pois, ainda cego; e, para cúmulo do meu estado de desorientação, encontrava-me ferido. Tão-so­mente ferido e não morto! porque a vida continuava em mim como antes do suicídio!

Passei a reunir idéias, mau grado meu. Revi mi­nha vida em retrospecto, até à infância, e sem mesmo omitir o drama do último ato, programação extra sob minha inteira responsabilidade. Sentindo-me vivo, averi­guei, conseqüentemente, que o ferimento que em mim mesmo fizera, tentando matar-me, fora insuficiente, au­mentando assim os já tão grandes sofrimentos que des­de longo tempo me vinham perseguindo a existência. Supus-me preso a um leito de hospital ou em minha pró­pria casa. Mas a impossibilidade de reconhecer o local, pois nada via; os incômodos que me afligiam, a solidão que me rodeava, entraram a me angustiar profundamen­te, enquanto lúgubres pressentimentos me avisavam de que acontecimentos irremediáveis se haviam confirmado. Bradei por meus familiares, por amigos que eu conhecia afeiçoados bastante para me acompanharem em momen­tos críticos. O mais surpreendente silêncio continuou enervando-me. Indaguei mal-humorado por enfermeiros, por médicos que possívelmente me atenderiam, dado que me não encontrasse em minha residência e sim retido em algum hospital; por serviçais, criados, fosse quem fosse, que me obsequiar pudessem, abrindo as janelas do aposento onde me supunha recolhido, a fim de que cor­rentes de ar purificado me reconfortassem os pulmões; que me favorecessem coberturas quentes, acendessem a lareira para amenizar a gelidez que me entorpecia os membros, providenciando bálsamo às dores que me su­pliciavam o organismo, e alimento, e água, porque eu tinha fome e tinha sede!

Com espanto, em vez das respostas amistosas por que tanto suspirava, o que minha audição distinguiu, passadas algumas horas, foi um vozerio ensurdecedor, que, indeciso e longínquo a princípio, como a destacar-se de um pesadelo, definiu-se gradativamente até positivar­-se em pormenores concludentes. Era um coro sinistro, de muitas vozes confundidas em atropelos, desnorteadas, como aconteceria numa assembléia de loucos.

No entanto, estas vozes não falavam entre si, não conversavam. Blasfemavam, queixavam-se de múltiplas desventuras, lamentavam-se, reclamavam, uivavam, gri­tavam enfurecidas, gemiam, estertoravam, choravam de­soladoramente, derramando pranto hediondo, pelo tono de desesperação com que se particularizava; suplicavam, raivosas, socorro e compaixão!

Aterrado senti que estranhos empuxões, como arre­pios irresistíveis, transmitiam-me influenciações abomi­náveis, provindas desse todo que se revelava através da audição, estabelecendo corrente similar entre meu ser superexcitado e aqueles cujo vozerio eu distinguia. Esse coro, isócrono, rigorosamente observado e medido em seus intervalos, infundiu-me tão grande terror que, reu­nindo todas as forças de que poderia o meu Espírito dis­por em tão molesta situação, movimentei-me no intuito de afastar-me de onde me encontrava para local eu’ que não mais o ouvisse.

Tateando nas trevas tentei caminhar. Mas dir-se-ia que raízes vigorosas plantavam-me naquele lugar úmido e gelado em que me deparava. Não podia despegar-me! Sim! Eram cadeias pesadas que me escravizavam, raí­zes cheias de seiva, que me atinham grilhetado naquele extraordinário leito por mim desconhecido, impossibili­tando-me o desejado afastamento. Aliás, como fugir se estava ferido, desfazendo-me em hemorragias internas, manchadas as vestes de sangue, e cego, positivamente cego! Como apresentar-me a público em tão repugnan­te estado?...

A covardia — a mesma hidra que me atraira para o abismo em que agora me convulsionava — alongou ainda mais seus tentáculos insaciáveis e colheu-me irremediavelmente! Esqueci-me de que era homem, ainda uma segunda vez! e que cumpria lutar para tentar vi­tória, fosse a que preço fosse de sofrimento! Reduzi-me por isso à miséria do vencido! E, considerando insolúvel a situação, entreguei-me às lágrimas e chorei angustio­samente, ignorando o que tentar para meu socorro. Mas, enquanto me desfazia em prantos, o coro de loucos, sem­pre o mesmo, trágico, funéreo, regular como o pêndulo de um relógio, acompanhava-me com singular similitu­de, atraindo-me como se imanado de irresistíveis afini­dades...

Insisti no desejo de me furtar à terrível audição. Após esforços desesperados, levantei-me.

Meu corpo en­regelado, os músculos retesados por entorpecimento ge­ral, dificultavam-me sobremodo o intento. Todavia, levan­tei-me. Ao fazê-lo, porém, cheiro penetrante de sangue e vísceras putrefatos reacendeu em torno, repugnando-me até às náuseas. Partia do local exato em que eu estivera dormindo. Não compreendia como poderia cheirar tão desagradavelmente o leito onde me achava. Para mim seria o mesmo que me acolhia todas as noites! E, no entanto, que de odores fétidos me surpreendiam agora! Atribuí o fato ao ferimento que fizera na intenção de matar-me, a fim de explicar-me de algum modo a estranha aflição, ao sangue que corria, manchando-me as vestes. Realmente! Eu me encontrava empastado de pe­çonha, como um lodo asqueroso que dessorasse de meu próprio corpo, empapando incomodativamente a indumen­tária que usava, pois, com surpresa, surpreendi-me tra­jando cerimoniosamente, não obstante retido num leito de dor. Mas, ao mesmo tempo que assim me apresen­tava satisfações, confundia-me na interrogação de como poderia assim ser, visto não ser cabível que um simples ferimento, mesmo a quantidade de sangue espargido, pu­desse tresandar a tanta podridão sem que meus amigos e enfermeiros deixassem de providenciar a devida higie­nização.

Inquieto, tateei na escuridão com o intuito de encon­trar a porta de saída que me era habitual, já que todos me abandonavam em hora tão crítica. Tropecei, porém, em dado momento, num montão de destroços e, instinti­vamente, curvei-me para o chão, a examinar o que assim me interceptava os passos. Então, repentinamente, a lou­cura irremediável apoderou-se de minhas faculdades e entrei a gritar e uivar qual demônio enfurecido, respondendo na mesma dramática tonalidade à macabra sin­fonia cujo coro de vozes não cessava de perseguir minha audição, em intermitências de angustiante expectativa.

O montão de escombros era nada menos do que a terra de uma cova recentemente fechada!

Não sei como, estando cego, pude entrever, em meio as sombras que me rodeavam, o que existia em torno!

Eu me encontrava num cemitério! Os túmulos, com suas tristes cruzes em mármore branco ou madeira ne­gra, ladeando imagens sugestivas de anjos pensativos, alinhavam-se na imobilidade majestosa do drama em que figuravam.

A confusão cresceu: — Por que me encontraria ali? Como viera, pois nenhuma lembrança me acorria?... E o que viera fazer sozinho, ferido, dolorido, extenuado?... Era verdade que “tentara” o suicídio, mas...

Sussurro macabro, qual sugestão irremovível da Consciência esclarecendo a memória aturdida pelo ine­ditismo presenciado, percutiu estrondosamente pelos re­côncavos alarmados do meu ser:

“Não quiseste o suicídio?... Pois aí o tens...”

Mas, como assim?... Como poderia ser... se eu não morrera?... Acaso não me sentia ali vivo?... Por que então sozinho, imerso na solidão tétrica da morada dos mortos?...

Os fatos irremediáveis, porém, impõem-se aos ho­mens como aos Espíritos com majestosa naturalidade. Não concluíra ainda minhas ingênuas e dramáticas in­terrogações, e vejo-me, a mim próprio! como à frente de um espelho, morto, estirado num ataúde, em franco estado de decomposição, no fundo de uma sepultura, jus­tamente aquela sobre a qual acabava de tropeçar!

Fugi espavorido, desejoso de ocultar-me de mim mes­mo, obsidiado pelo mais tenebroso horror, enquanto gar­galhadas estrondosas, de indivíduos que eu não lograva enxergar, explodiam atrás de mim e o coro nefasto per­seguia meus ouvidos torturados, para onde quer que me refugiasse. Como louco que realmente me tornara, eu corria, corria, enquanto aos meus olhos cegos se desenha­va a hediondez satânica do meu próprio cadáver apo­drecendo no túmulo, empastado de lama gordurosa, co­berto de asquerosas lesmas que, vorazes, lutavam por saciar em suas pústulas a fome inextinguível que tra­ziam, transformando-o no mais repugnante e infernal monturo que me fora dado conhecer!

Quis furtar-me à presença de mim mesmo, procuran­do incidir no ato que me desgraçara, isto é — repro­duzi a cena patética do meu suicídio mentalmente, como se por uma segunda vez buscasse morrer a fim de desaparecer na região do que, na minha ignorância dos fatos de além-morte, eu suponho o eterno esquecimento! Mas nada havia capaz de aplacar a malvada visão! Ela era, antes, verdadeira! Imagem perfeita da realidade que so­bre o meu físico-espiritual se refletia, e por isso me acompanhava para onde quer que eu fosse, perseguia minhas retinas sem luz, invadia minhas faculdades aní­mica, imersas em choques e se impunha à minha ce­gueira de Espírito caído em pecado, supliciando-me sem remissão!

Na fuga precipitada que empreendi, ia entrando em todas as portas que encontrava abertas, a fim de ocul­tar-me em alguma parte. Mas de qualquer domicílio a que me abrigasse, na insensatez da loucura que me en­redava, era enxotado a pedradas sem poder distinguir quem, com tanto desrespeito, assim me tratava. Vagava pelas ruas tateando aqui, tropeçando além, na mesma ci­dade onde meu nome era endeusado como o de um gê­nio — sempre aflito e perseguido. A respeito dos aconte­cimentos que com minha pessoa se relacionavam, ouvi comentários destilados em críticas mordazes e irreveren­tes, ou repassados de pesar sincero pelo meu trespasse, que lamentavam.

Tornei a minha casa. Surpreendente desordem esta­belecera-se em meus aposentos, atingindo objetos de meu uso pessoal, meus livros, manuscritos e apontamentos, os quais já não eram por mim encontrados no local cos­tumeiro, o que muito me enfureceu. Dir-se-ia que se dis­persara tudo! Encontrei-me estranho em minha própria casa! Procurei amigos, parentes a quem me afeiçoara. A indiferença que lhes surpreendi em torno da minha desgraça chocou-me dolorosamente, agravando meu es­tado de excitação. Dirigi-me então a consultórios médicos. Tentei fixar-me em hospitais, pois que sofria, sen­tia febre e loucura, supremo mal-estar torturava meu ser, reduzindo-me a desolador estado de humilhação e amargura. Mas, a toda parte que me dirigia, sentia-me insocorrido, negavam-me atenções, despreocupados e indiferentes todos ante minha situação. Em vão objurga­tórias azedas saíam de meus lábios acompanhadas da apresentação, por mim próprio feita, do meu estado e das qualidades pessoais que meu incorrigível orgulho reputava irresistíveis: — pareciam alheios às minhas in­sistentes algaravias, ninguém me concedendo sequer o favor de um olhar!

Aflito, insofrido, alucinado, absorvido meu ser pelas ondas de agoirantes amarguras, em parte alguma en­contrava possibilidade de estabilizar-me a fim de lograr conforto e alivio!

Faltava-me alguma coisa irremediável, sentia-me incompleto! Eu perdera algo que me deixava assim, entonteado, e essa “coisa” que eu perdera, parte de mim mesmo, atraia-me para o local em que se encon­trava, com as irresistíveis forças de um ímã, chamava-me imperiosa, irremediavelmente! E era tal a atraçãO que sobre mim exercia, tal o vácuo que em mim pro­duzira esse irreparável acontecimento, tão profunda a afinidade, verdadeiramente vital, que a essa “coisa” me unia — que, não sendo possível, de forma alguma, fi­xar-me em nenhum local para que me voltasse, tornei ao sitio tenebroso de onde viera: — o cemitério!

Essa “coisa”, cuja falta assim me enlouquecia, era o meu próprio corpo — o meu cadáver! — apodrecendo na escuridão de um túmulo! (3)

Debrucei-me, soluçante e inconsolável, sobre a sepul­tura que me guardava os míseros despojos corporais, e



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