Rias de um suicida yvonne do amaral pereira


(25) Mateus, capítulo 15, versículos 28, 29 e 30



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(25) Mateus, capítulo 15, versículos 28, 29 e 30.
sacro, os quais predispuseram nossos Espíritos, alijando do ambiente quaisquer resquícios de preocupações subal­ternas que ainda permanecessem pela atmosfera. Instin­tivamente nos vimos presa de profundo e singular respei­to, que atingia mesmo as impressões do temor. Arrepios ignotos perpassavam por nossa fibratura psíquica, aque­cendo-a docemente, ao passo que estranho borbulhar de lágrimas refrescava nossas pupilas requeimadas pelo pranto afogueado da desgraça! Evidente era que ondas magnéticas preparativas eram conduzidas através dos sons daquele hino mirífico, que unificava nossas mentes aos embalos de acordes irresistíveis, fazendo-nos vibrar favoravelmente, num harmonioso estado de concentração de pensamentos e vontades.

Em meio de silêncio tumular, em que não nos dis­traíamos sequer com os incômodos provindos dos males que nos afetavam, a voz de Aníbal, grave e carinhosa a um só tempo, espalhou pela sala o convite enterne­cedor:

“— Vamos orar, meus irmãos! Antes de quaisquer cometimentos que tentemos para fins elevados, cumpre-nos o honroso dever de nos apresentarmos ao Deus Altíssimo através das forças mentais do nosso Espírito, homenageando-o com nossos respeitos e para nós sou­citando suas bênçãos divinas...

As pupilas acesas, no fulgor da inteligência, pene­traram o íntimo dos nossos corações, tal se levantassem das sombras interiores do nosso ser o acervo dos pen­samentos, no intuito de iluminá-los. Tivemos a impres­são perfeita de que aquele olhar faiscante eram tochas vivas que alumiavam nossas almas temerosas e comba­lidas, uma a uma, e baixamos as míseras frontes, ame­drontados em presença da superior força psíquica que nos visitava os refolhos da alma!

Bondoso, prosseguiu, como num prelúdio harmo­nioso:

“— A prece, meu caros irmãos, será o vigoroso ba­luarte capaz de manter serenos os vossos pensamentos à frente das tormentas oriundas das experiências e re­novações indispensáveis ao progresso que fareis. Aprendendo a alçar a mente ao Infinito, nas suaves e em­gelas expressões de uma oração sincera e inteligente. estareis de posse da chave áurea que vos levantará o segredo da boa inspiração. Orando, apresentando-vos, confiantes e respeitosos, ao Pai Supremo, como é dever de cada um de nós, dele recebereis o influxo bendito de forças ignotas, que vos habilitarão para o heroismo necessário às lutas das realizaçôes cotidianas, próprias daqueles que desejam avançar pelo caminho do progresso e da luz! Impulsionados pela oração bem sentida e com­preendida, aprendereis, progressivamente, a mergulhar o pensamento nas regiões festejadas pelas claridades ce­lestes, e voltareis esclarecidos para o desempenho das mais árduas tarefas!

É no intuito de vos iniciar nesse roteiro proveitoso que vos convido a estenderdes o pensamento pelo Infi­nito, acompanhando o meu... Não importa que a res­caldante lembrança dos delitos cometidos para trás vos pese nas consciências, nem que, por isso, dificuldades de expansões vos entravem o necessário desprendimento. O que é preciso, o que se torna urgente e inadiável é querer iniciar a tentativa, é vos arrojardes, vigorosa­mente reanimados pela mais viva coragem que puderdes convocar nas profundezas do ser, para a caminhada pelos compensadores canais da prece... porque, sem que vos prepareis nesse curso iniciático de conjugação mental com os planos superiores, como haveis de neles penetrar a fim de vos edificardes!

E Aníbal orou, então, atraindo nossos míseros pen­samentos para aquelas estradas suaves, distribuidoras dos bálsamos consolativos, das forças renovadoras! Áproporção que orava, porém, uma faixa fosforescente, de radiação opalina, estendia-se sobre ele, e, abrangendo a assistência, a todos envolvia num como ósculo mara­vilhoso de bênçãos. O hino acompanhava docemente, em surdina, as palavras ungidas de fé, que Aníbal profe­ria... e dulcíssimas impressões lenificavam as contusões ainda doloridas do passado...

Aníbal de Silas sentou-se ao centro do semicírculo formado pelos seis iniciados que o acompanhavam. Pedro e Salústio colocaram-lhe na fronte o diadema de luz, li­gando-o à tela espelhenta pelos fios argênteos que co­nhecemos. Um minuto grave de recolhimento e fixação mental predominou entre o grupo de mestres que víamos em ação, concentrando-lhes, harmonizando-lhes a vonta­de. Logo após, iniciou o catedrático a explanação da sua importante aula.

Pela magnitude do que se passou, então, não apenas naquele dia, como nos subseqUentes, durante essas aulas inesquecíveis; pela capital influência que exerceu sobre nosso destino, nosso desenvolvimento moral e mental e a importância do método pedagógico, absolutamente inédito para nós, dedicaremos capítulo especial à sua exposição, cientes de que, apesar do esforço e da boa-vontade que empregarmos, apenas reflexo muito pálido do que presenciamos conseguiremos apresentar ao leitor:



2

«Vinde a mim»
Aníbal entrou a comentar a urgência de cada um de nós, como da Humanidade inteira, quer do plano físico-terreno ou do Invisível inferior e intermediário, se re­educar sob a orientação das fecundas normas cristãs. Afirmou, em análise sucinta, contrariando idéias que mui­tos de nós abrigavam, não existir misticismo supersticioso nem fatos miraculosos e anormais na epopéia magnífica do Cristianismo, epopéia que não se limitava do presépio de Belém ao drama do Calvário, mas que se estendia das Esferas de Luz às sombras da Terra, pere­nemente, em lances patéticos, positivos, sublimes, a que só a cegueira da ignorância deixa de apreciar devida-mente. Ao contrário disso, o Cristianismo, doutrina uni­versal cuja origem se fixa nas próprias Leis Sempiternas, possuía bases práticas por excelência, trazendo por fina­lidade a recuperação moral do homem para si mesmo e a sociedade em que for chamado a viver no seu longo carreiro evolutivo, com vistas ao engrandecimento da Humanidade perante as Leis Sábias do Criador. Lembrou que os homens terrenos projetaram sombras sobre os ensinamentos do Mestre Excelso, envolvendo-os em com­plexos calamitosos, por empenar-lhes o brilho da essên­cia primitiva com inovações e atavios próprios da infe­rioridade pessoal de cada um, desfigurando, destarte, a verdade de que são, os mesmos ensinamentos, o expoente máximo. Asseverou com veemência impressionante, da qual não julgaríamos capaz um adolescente, que só os magnos e altruísticos conhecimentos das doutrinas edu­cativas expostas pelo Excelso Catedrático Jesus de Nazaré permitiriam a nós outros, como à Humanidade, ensejo à reabilitação imprescindível, preparando-nos para a aquisição de uma nova e elevada Moral, para a sani­dade de àções capazes de levarem a alvorecer em nossos míseros corações horizontes vastíssimos, de ressurgimen­to pessoal e coletivo, de progresso legítimo, na escala de ascensão para a Vida abundante da Imortalidade! Que, doutos, sábios, gênios que fôssemos, de nada nos apro­veitariam tão lustrosos cabedais se ignorantes continuás­semos das normas da Moral do Cristo de Deus, em cuja aplicação reside a glória da felicidade eterna, uma vez que Sabedoria sem Amor e sem Fraternidade tem suas factícias glórias apenas no seio das sociedades terrenas...

Participou-nos, em seguida, que sua primeira aula consistiria na apresentação de sua personalidade a nós outros, seus discípulos. Que necessário seria que o co­nhecêssemos intimamente, a fim de que seus exemplos nos estimulassem na senda espinhosa em que seríamos chamados a solver vultosos débitos, porqüanto será sem­pre de boa pedagogia que o mentor apresente seus pró­prios exemplos aos alunos, a quem inicie, e também para que aprendêssemos a amá-lo, a nele confiar, tornando-nos seus amigos, considerando-o bastante digno de ser ouvido e acatado. Que pudéssemos, em primeira análise, observar nele próprio os efeitos imarcescíveis de um ca­ráter reedificado pelo amor do Bom Pastor, redimido através dos preceitos que deveríamos, por nossa vez, co­nhecer para nos reerguermos das sombras da impiedade em que jazíamos, pois a verdade era que desconhecíamos totalmente o Cristianismo legado pelo Mestre Nazareno, não éramos cristãos, senão adversários do Cristo, ove­lhas rebeladas que, em verdade, não conheciam o seu Pastor!

Então, o jovem Aníbal contou-nos a sua vida! Não apenas a existência última, testemunhada em terras da Itália durante os ominosos dias da Idade Média, mas as variadas migrações terrenas no giro evolutivo que lhe fora próprio, seus deslizes como Espírito em marcha, que também é, as lutas pela redenção, frente aos sacri­fícios e às lágrimas das reparações, os impulsos para

o Bem, os incansáveis labores que lhe trouxeram os mé­ritos nas inspirações do vero arrependimento pelo tem­po perdido, labores sempre crescentes, cada vez mais ár­duos, assim também os aprendizados realizados durante a erratícidade, tarefas e missões no plano Astral como no Material, a fim de provar a eficiência dos progressos adquiridos, seu devotamento a Jesus Nazareno, a quem se ligara pelas ardências de uma paixão que nada mais poderia ensombrar ou arrefecer!

No entanto, era com assombro que ouvíamos as pa­lavras de Aníbal traduzidas em imagens e cenas a se refletirem na teia miraculosa que lhe ficava junto. As­sim foi que, enquanto falava, a realidade de suas trans-migrações terrenas espirituais se reproduziam, ali, com tão verídica nitidez, que nos julgaríamos co-participantes seus através das idades ressuscitadas dos repositôrios secretos dos seus pensamentos, pois alta sugestão sobre nós exercida dominava nossas faculdades, ligando-as àvontade do mentor e dos seus cômpares ali presentes, e levando-nos a olvidar de que não passávamos de me­ros alunos que recebiam a introdução à primeira aula! Positivamente mais real, mais completo e sugestivo do que o cinematógrafo dos dias vigentes, mais convincente que as cenas teatrais que tanto absorvem e arrebatam o observador, porque era a vida em si mesma, natural, humana, realmente vivida, o retrospecto do pensamento de Aníbal foi passando gradativamente pela tela enquan­to nem mesmo desta nos lembrávamos, pois não a dis­tingüíamos, senão os fatos empolgantes que se decal­cariam em nossas mentes quais estímulos para futuras tentativas! Quando cessou o dramático desfile, o belo instrutor adolescente surgia ao nosso entendimento como um ser amado de quem nunca mais nos desejaríamos apartar! Fora, por assim dizer, um consórcio de nossas almas com a sua o que se verificara através das expo­sições feitas, porqüanto, a mais viva atração afetiva nos impelia para ele, correspondendo, assim, os nossos sentimentos aos seus nobres e fraternos desejos.

Não obstante, observando nossa confusão, pois sur­preendia-nos o fato para a explicação do qual não trouxéramos conhecimentos suficientes no acervo dos ca­bedais intelectuais até então adquiridos, falou ainda o lente, suspendendo, em seguida, os trabalhos, por aque­le dia:

“- As cenas a que acabastes de assistir, deslizando sobre esta tela reprodutiva, que não é senão um espelho singular, para vós desconhecido, onde deixei que se refletisse minha própria alma, foram as minhas recorda­ções, caríssimos discípulos, acordadas intactas, vivas, dos refolhos supremos da Consciência!

Todos os filhos do Altíssimo, ao viverem as exis­tências planetárias, como as espirituais, imprimem nos escaninhos da alma, nas camadas profundas da Consciên­cia, toda a grande epopéia das trajetórias testemunhadas, as ações, as obras e até os pensamentos que concebem! Sua longa e tumultuosa história encontra-se neles pró­prios gravada, como a história do globo, onde já vivemos, se acha arquivada nas camadas geológicas e eter­namente reproduzida, fotografada, igualmente arquivada, nas ondas luminosas do éter, através do Infinito do Tem­po! Por sua vez o corpo astral, envoltório que trazemos presentemente, como Espíritos livres do fardo material; aparelho delicadíssimo e fiel, cuja maravilhosa consti­tuição ainda não sois capazes de compreender, registra, com nitidez idêntica, os mesmos depósitos que a Cons­ciência armazenou através do tempo, arquiva-os em seus arcanos, reflete-os ou expande-os conforme a necessi­dade do momento — tal como fiz agora —, bastando para isso a ação da vontade educada! Ora, se tivésseis educadas as faculdades da vossa alma, se, cursando Uni­versidades, na Terra, esclarecendo inteligências como ho­mens que fostes, igualmente houvésseis cultivado os pre­ciosos dons do Espírito, assim vos apossando dos sublimes conhecimentos das Ciências Psíquicas, além de não ha­ver convosco a possibilidade de uma derrota produzida por suicídio, porqüanto vos teríeis colocado em planos muitas vezes superiores aos em que medram as paixões e insânias que a este dão causa, agora estaríeis à altu­ra de compreenderdes minhas expressões mentais sem o auxílio, por assim dizer, material, deste aparelhamento que me fotografou e animou os pensamentos, as lem­branças e recordações, reproduzindo-as, para vós, tal como se acham arquivadas nos livros secretos do meu Espírito!

É uma operação melindrosa o que acabais de ver! Exige sacrifício por parte de quem a tenta. Meus irmãos de ideal aqui presentes e meus discípulos forneceram-me fluidos magnéticos necessários à corporificação das lula­gens e à reprodução dos sons, a fim de que meu esforço não fosse demasiado; e, envolvidos no ambiente domi­nado por ondas especiais, de um magnetismo superior, que é o nosso principal elemento, vós mesmos vos suge­ristes a convicção de que comigo vivestes minhas vidas, quando a verdade era, apenas, que assistíeis ao desen­rolar do pretérito em meu ser depositado... Participo-vos, em tempo, que não tardareis a conhecer as mesmas experiências, extraindo de vós mesmos o passado que ainda dormita, porque mantendes, embrutecidos pelas re­percussões chocantes do vosso estado de suicidas, dons da alma que nas entidades normais despertam com fa­cilidade tão logo ingressam na espiritualidade... Toda­via, não competirá a mim o orientar-vos neste áspero e doloroso retrospecto...

O conhecimento que, com o fato agora presenciado, adquiristes, comum nos planos da Espiritualidade, mes­mo vulgaríssimo, um dia enriquecerá as aquisições inte­lectuais e científicas da Terra, para galardão dos homens, através da Ciência Psíquica Transcendental. Até lá, po­rém, haverá o homem de moralizar-se, desenvolver fa­culdades preciosas do Espírito, as quais, no momento, ele ignora possuir, a fim de, só então, tornar-se digno de tão sublime aquisição, para que não venha a servir-se de um dom de natureza divina como instrumento de crimes e paixões subalternas, como há acontecido com outros valores sagrados que até hoje há recebido!

Na própria Terra, esse dom, cujo valor inestimável ainda é desconhecido às inteligências vulgares, foi exer­cido para as altas finalidades da educação das primeiras massas que se fizeram cristãs. Seria difícil fazer com­preender o sublime alcance do Evangelho do Reino a criaturas simples e iletradas, apenas com o ardor da oratória, a magia do verbo, O Nazareno, compassivo e amoroso, senhor de poderes psíquicos incalculáveis para nós outros, dono da maior força mental que já nos foi dado conceber, expondo suas formosas lições criava ce­nas e corporificava-as, dando aos ouvintes maravilhados o esplendor de visões interiores, que o seu pensamento fecundo e poderoso não se cansava de distribuir. É cer­to, porém, que nem todos aqueles que o ouviam estariam à altura de compreendê-lo Mesmo dentre os escolhidos para Lhe auxiliar o ministério redentor houve quem o não compreendesse Mas os outros, para quem Ele repre­sentava a luz incorruptível da Verdade, os simples, os sofredores sedentos de justiça e de esperança, os de boa-vontade, destituídos de vaidade, em quem o egoísmo do século já não medrava, vibrando mais ou menos harmo­niosamente com Ele, seguiam-lhe as ondas criadoras do pensamento luminoso e absorviam o ensinamento exem­plificado de todas as formas. Seus discípulos, do mesmo modo, ao falarem dEle, inconscientemente projetavam recordações e pensamentos que, recolhidos pelos coope­radores espirituais incumbidos de assisti-los, eram imediatamente corporificados em sugestões poderosas, para a visão do ouvinte sincero e de boa-vontade, o qual pas­sava, então, não apenas a ouvir uma narração, mas a ela assistir, a vê-la como se presente estivesse aos feitos sublimes do Inesquecível Mestre.

Assim também, caros discípulos, realizaremos nossas preleções em torno da Doutrina legada pelo Divino Ins­trutor, pois muito inspiradamente andou a direção desta Colônia de reclusos adotando tal método para instrução de seus internos, por serem impossíveis, através dele, interpretações pessoais, conceitos errôneos, sofismas ou interpolações!”

A partir daquele dia assistíamos periodicamente às aulas de Anibal, iniciado que foi, definitivamente, o nos­so preparo moral à luz das superiores doutrinas expostas pelo verbo imarcescível do Divino Messias.

O catedrático explanou, de princípio, as causas da vinda de Jesus à Terra. Arrebatador desfile de civiliza­ções passou, gradativamente, pela tela mágica, demons­trando aos nossos surpresos testemunhos a mais fecunda exposição das necessidades humanas, muitas das quais jamais havíamos tido ocasião de perceber! Sem a pa­lavra messiânica as sociedades terrenas, então, se nos afiguraram, com efeito, como tão bem conceituava Aníbal de Silas, um mundo sem a aquecedora luz de um globo solar, um coração vazio da força impulsionadora da Es­perança! O mestre falava e suas narrativas, suas expo­sições magistrais, seus exemplos mais que convincentes, irresistíveis, e seu verbo entusiasta e ardente arranca­vam do turbilhão poeirento dos séculos mortos, das ida­des desaparecidas e até dos momentos contemporâneos, imagens e cenas, motivos reais, exemplos coletivos ou individuais, que, sob o calor magnético da sua superior vontade, associada à de seus pares, se humanizavam diante de nós, levando-nos a examina-los e estudá-los sob o critério elucidativo de suas orientações.

Um curso superior e atraente de Filosofia e Análise comparada foi por nós iniciado, então. E era empolgan­te, era belo e comovedor, com nosso emérito instrutor ressuscitarmos do silêncio dos séculos a existência das sociedades que se foram na sucessão das idades, seus costumes, suas quedas, seu heroismo, suas vitórias! Ao nosso entendimento se apresentou a vida da Humanidade desde os primórdios, fornecendo-nos o mais belo estudo que ousaríamos conceber, a mais fecunda elucidação que nossas mentes seriam capazes de abranger, porque a história magnífica do crescimento das sociedades que lu­taram sobre a crosta do planeta, de falanges que ali iniciaram o próprio desenvolvimento moral e mental, que nasceram e renasceram muitas vezes e depois se foram, atingindo ciclos melhores em outras moradas do Universo, e, assim, dando lugar a outras falanges, a outras humanidades, suas irmãs, as quais, por sua vez, luta­riam também, através dos renascimentos, trabalhando continuadamente em busca do mesmo progresso, enamo­radas do mesmo alvo — a Perfeição!

Entretanto, no decurso de tais exames tantas eram as desgraças que descobríamos para estudar, tantos os sofrimentos, as prementes situações, os problemas inde­finidos, os desnorteantes complexos engendrados pelo egoísmo com suas múltiplas feições apaixonadas, tão grandes as lutas da humanidade ignorante da própria finalidade, que impossível se tomou permanecermos indiferentes qual o observador frio que estuda apenas o cadáver. Fazendo parte dessa sociedade terrena, dessa humanidade desgraçada, ímpia e sofredora que desco­nhece Deus por preteri-lo às paixões, éramos solidários com seus mesmos infortúnios, pois que também nossos, e pesada angústia infiltrava-se pelos meandros do nosso espírito, despertando ânsias inexprimíveis, estados men­tais e alucinatórios inconcebíveis ao pensamento humano, como desejos sacrossantos de algo que nos libertasse das trevas hiantes em que nos sentíamos tragados...



Até que, em certa aula, por um dia ameno e har­monioso em que palpitavam em nosso imo anseios vagos de esperanças, como promessas benditas que entornas­sem aleluias pelo nosso ser, Aníbal apresentou-nos a fi­gura inconfundível, a figura inesquecível do Meigo Rabi da Galiléia, através das lembranças reproduzidas na tela magnética com o colorido vivo e sedutor da realidade! Então, a epopéia augusta do Cristianismo, desde a man­jedoura humilde de Belém transformada em berço celes­te, desenvolveu-se magistralmente, em estudos fecundos para o nosso entendimento, que começou a soletrar, só então, a palavra sacrossanta da redenção! As cenas des­critas pelo expositor, que tão bem conhecera a época do advento da Boa-Nova do Reino de Deus, mostravam circunstanciadamente, com clareza impressionante, as prédicas inesquecíveis do Divino Mensageiro, os dis­cursos sugestivos, animados pelo colorido vivo dos qua­dros citados, as lições resplandecentes da mais elevada e pura moral, lançadas aos ares da Judéia humilde e oprimida, mas ecoadas pelos recantos mais longínquos do mundo quais convites amistosos e perenes à regeneração dos costumes para o reinado do verdadeiro Bem, apelos amorosos de confraternização pessoal e social, para a concretização de uma Pátria ideal na Terra, cujas normas de governo Ele oferecia através de Sua oratória impecável, de Sua exemplificação na vida prática sem precedentes, como nas fulgurações imperecíveis daquela áurea Doutrina cujo alvo era a educação moral do ho­mem, cuja finalidade era sua exaltação para a glória da vida sem ocasos, da Vida Eterna na unidade com Deus! A imagem sedutora do Enviado Celeste gravou-se, por assim dizer, também em nossas mentes, em traços cativantes e indeléveis, tornando cada um de nossos co­raçôes sincero enamorado do Cristianismo, predispostos a aquisiçôes morais sob suas benéficas inspirações, pois, enquanto Aníbal narrava fatos, relembrando passagens enternecedoras, enquanto sua palavra vibrava em ondas sonoras de comentários férteis, extraindo essências de ensinamentos capitais para nossa iluminação, víamos os cenários que serviam à ação magnificente do Grande Mestre, ao mesmo tempo que sua figura inconfundível dominava a expressão, exercendo o apostolado sublime! Tínhamos a impressão convincente de o estarmos ouvin­do proferir o Sermão da Montanha, enquanto as aragens perfumosas que ondulavam docemente no cimo da colina lhe faziam esvoaçar o manto, desalinhando-lhe os ca­belos... De outra vez, era às margens do Tiberíades, era em Genesaré, pelas cidades da Judéia ou pelas al­deias pobres da Galiléia, como se o seguíssemos também, fazendo parte daquela massa de povo ávido de suas pa­lavras consolatórias, de seus favores dulcíssimos!... E por toda a parte: em conversação com partidários, ami­gos ou discípulos; no Templo, explicando aos exegetas da época as regras áureas da Boa-Nova que trazia; ou curando, favorecendo, protegendo, consolando, exaltando, educando, ensinando, redimindo, Aníbal nos levava a ouvi-lo e aprender, com Ele mesmo, os caminhos para nossa urgente reabilitação! Fazia-o, porém, Aníbal, pa­cientemente, tecendo comentários qual o professor emé­rito cioso da clareza das teses expostas, para a boa com­preensão dos alunos...

Assim foi que fomos informados de que não apenas a Terra recebera as alvíssaras da Boa-Nova, através de sua palavra de bondade e redenção, mas também o As­tral inferior fora visitado por sua presença, visto possuir Ele poder bastante para em qualquer local se apresen­tar, tornando-se visível como lhe aprouvesse, e uma vez que se tratava de local onde os infortúnios e as cala­midades de ordem moral são, incontestavelmente, mais intensos e profundos que os do planeta, ali também comparecia, convertendo Espíritos que havia séculos per­maneciam nas trevas da ignorância ou no declive do os­tracismo, tal como na Terra convertia homens, a todos estendendo mão fraterna e redentora! Igualmente nos dizia que o mundo terreno desconhece grande parte dos ensinamentos por Ele trazidos, pois que, destruidos foram muitos aspectos, verdadeiramente feéricos, da Verdade Divina por Ele exposta, rejeitados que foram pela má-fé ou pela ignorância presunçosa dos homens! Mas que, no entanto, soara o momento em que sua Doutrina Gran­diosa seria devidamente alçada para o conhecimento de todas as camadas sociais! Para isso, a Terceira Reve­lação de Deus aos homéns era já fornecida à Humani­dade em nome do Redentor... e nós mesmos, que éramos Espíritos, estávamos convidados a colaborar nesse em­polgante movimento chefiado pelo Mestre, procurando falar com os homens a fim de revelar-lhes estas coisas todas, porqüanto a chamada Terceira Revelação mais não era do que um intercâmbio ostensivo, minucioso, de idéias entre os Espíritos e a Humanidade, subordinado aos ditames da Ciência Universal como da Moral Exce­lente do próprio Cristo de Deus!

Depois, ao findar o drama do Calvário, conhecemos as pelejas ardentes dos discípulos pela difusão do Tes­tamento regenerador do Mestre, o martírio dos humildes e abnegados cristãos, inspirados sempre pela força ima­nente da fé... e a reforma conseqüente dos indivíduos que se submetiam àqueles princípios regeneradores e educativos! Estudamos, analisamos e investigamos tudo quanto fora possível à nossa mentalidade suportar em torno da Doutrina de Jesus Nazareno. Muitos tornos, complexos, delicados, precisaríamos escrever para que pudéssemos dar contas ao leitor da profundidade e extensão dessa incomparável Doutrina que tem origem no próprio pensamento divino, e que, sendo a Lei mesma estatuída pelo Criador de Todas as Coisas, um dia en­volverá em suas imperecíveis fulgurações todos os seto­res das sociedades terrestres e espirituais!

Sentíamo-nos atraidos e arrebatados. Só então com­preendemos a razão da súbita transformação daquela Maria de Magdala, tão sedutoramente apontada no Evan­gelho do Senhor; daquele Saulo de Tarso, vaso escolhido do Messias Celeste; e o que dantes nos parecia mito, lendas imaginosas de orientais místicos, avultou-se em nosso entendimento como fato lógico e irresistível, que não poderia deixar de existir tal como se deu e as tradições narraram! Apresentado à nossa compreensão assim, naturalmente, com singeleza, deeataviado dos mis­térios com que os homens temiam em ofuscar-lhe a grandeza, o Enviado Celeste impôs-se à nossa convicção realmente como o Mestre por excelência, o Guia Incom­parável, devotado ao superior ideal da regeneração hu­mana através do Amor, da Justiça, do Trabalho! Com­preendemo-lo e amamo-lo, então, o necessário para nos abastecermos da Fé e da Esperança, qualidades indis­pensáveis ao Espírito em marcha de progresso, as quais, havia séculos, faltavam nos cabedais dos nossos corações!

Esse admirável curso requereu de nossa boa-vontade e esforços, e da abnegação do nosso preceptor espiritual, longos anos de dedicação e estudos incansáveis, assim como de exemplificação e prática, visto ser a Doutrina Messiânica prática por excelência, confirmando-se inva­riavelmente através da vida cotidiana de cada adepto. Era a iniciação cristã rigorosamente ministrada, de for­ma a não nos deixar motivos nem ensejos para futuros deslizes nos campos da Moral!

Mas a caminhada afigurava-se árdua, demasiada­mente longa para muitos de nossos cômpares, os quais se deixavam turbar frente ao labor espinhoso e cons­tante, que se tornaria imprescindível desenvolver. Toda via, chegáramos a uma época de nossa existência de Espíritos em que já não era possível estacionar, verga­dos sob as crenas do desânimo. Reagíamos contra as ameaças da fraqueza, da angústia feraz que nos rondava, compreendendo que urgia prosseguir a despeito do infi­nito de lutas que acenavam nas dobras do porvir, en­quanto que a protetora voz da Consciência nos advertia de que, com o Lente Magnífico de Nazaré, adquiriríamos cabedais justos para a jornada que se delineava ao nosso pávido entendimento de delinqüentes arrependidos!


“Vinde a mim, vós que sofreis, e eu vos aliviarei...”
E nós atendíamos ao doce e irresistível chamamento e avançávamos... e seguíamos... Jesus-Cristo, Divino Redentor das almas frágeis e rebeladas cumpria a pro­messa: atraía-nos com seus ensinamentos sublimes, to­mava-nos para seu redil e convencia-nos a perseverar em seus conselhos, provando-nos todos os dias, através da transformação miraculosa que em nosso ser se ope­rava, o caridoso interesse em desviar-nos da desgraça para encaminhar-nos à redenção!

Empolgados por esse curso atraente, que tanto ali­vio nos trouxera, esquecíamos os dramas penosos, o de­sequilíbrio das paixões que nos haviam desgraçado, es­quecíamos a Terra e dela só lembrávamos graças a outros estudos que alternadamente éramos conduzidos a expe­rimentar, para eficiência da preparação, pois, como afirmamos acima, tínhamos aulas práticas, onde testemunharíamos a eficiência do aprendizado teórico, antes de que as provas reais de uma nova encarnação terrestre nos conferisse a palma da reabilitação.

Não raramente recebíamos a visita, durante as arre­batadoras aulas que palidamente esboçamos, de outros antigos mestres de iniciação, os quais, apresentados pelo nosso catedrático, explanavam conceitos e apreciações em torno das doutrinas e normas cristãs, com uma ar­dência empolgante e sublime! Novos motivos para ins­trução obtínhamos então, nunca menos belos nem menos agradáveis do que os que diariamente nos eram expostos. Vivíamos reclusos, era bem verdade. Continuava não existindo permissão para sairmos da Colônia a não ser em grupamentos escoltados, nas turmas de aprendi­zes, mas também não era menos verdadeiro que vivíamos rodeados de uma assistência seleta, no âmbito social de uma plêiade de educadores e intelectuais cuja elevação de princípios ultrapassava tudo quanto poderíamos con­ceber! E porque compreendêssemos que tal reclusão era-nos como dádiva magnânima a auxiliar-nos o progresso, a ela nos resignávamos com paciência e boa-vontade.

Diariamente, ao entardecer, eram-nos permitidos re­creios no grande parque da Universidade. Reuníamo-nos então em grupos homogêneos e nos dávamos a conver­sações, comentários em torno de nossas vidas e da si­tuação presente. Nossas boas preceptoras, as vigilantes de cada grupo, geralmente tomavam parte em tais re­creios, e até nossas irmãs dos Departamentos Femininos, o que nos permitiu alargar intensamente o número de nossas relações de amizade. Seria difícil, ao fim de dez anos de internação no Instituto de Cidade Esperança, reconhecerem em nós outros os vultos enfurecidos e trágicos do Vale Sinistro, aqueles mentecaptos ridículos reproduzindo a cada instante o ato maléfico do suicídio e suas satânicas impressões! Acalentados pela Esperan­ça, aliviados pela magia envolvente do Amor de Jesus, sob a inspiração de cujos ensinamentos ensaiávamos novo surto, éramos entidades que poderiam ser consideradas normais, não fora a consciência que tínhamos da própria inferioridade de trânsfugas do Dever, coisa que muito nos afligia e envergonhava, tornando-nos indignos em nosso próprio conceito, imerecedores do auxílio de que nos rodeavam!

As solenidades do Ángelus encontravam-nos, freqüen­temente, ainda no parque. Acentuava-se a penumbra em nossa Cidade e nostalgia dominante envolvia nossos sen­timentos. Do Templo, situado na Mansão da Harmonia, região onde se demoravam com freqüência os diretores e educadores da Colônia, partia o convite às homenagens que, naquele momento, seria de bom aviso prestarmos à Protetora da Legião a que pertencíamos todos — Maria de Nazaré. Pelos recantos mais sombrios da Colônia ressoavam então doces acordes, melodias suavíssimas, entoadas pelas vigilantes. Era o momento em que a di­reção-geral rendia graças ao Eterno pelos favores con­cedidos a quantos viviam sob o abrigo generoso daquele reduto de corrigendas, bendizendo a solicitude incansável do Bom Pastor em torno das ovelhinhas rebeldes, tute­ladas da Legião de sua Mãe amorável e piedosa. E era ainda quando ordens desciam de Mais Alto, orientando os intensos serviços que se movimentavam sob a res­ponsabilidade dos dedicados servos da mesma Legião. Todavia, não éramos obrigados a orar. Fá-lo-íamos se o quiséssemos. Em Cidade Esperança, porém, jamais tivéramos conhecimento de que algum aprendiz ou in­terno recusasse agradecer ao Nazareno Mestre ou à sua Mãe boníssima, por entre lágrimas de sincera gratidão, as mercês recebidas do seu inapreciável amparo!

A blandícia daquela oração, cuja simplicidade só igualava à sua própria excelsitude, despertava em nos­sas mentes as mais ternas recordações da existência: — revíamos, levados pelo império de gratas sugestões, os doces, saudosos dias da infância, os vultos carinhosos de nossas mães — ensinando-nos a mimosa saudação do Arcanjo à Virgem de Nazaré, e as palavras inolvidáveis de Gabriel, ungidas de veneração e respeito, repercutiam nas profundidades do nosso “eu” tocadas do saudoso sabor do desvelo materno que, na vida planetária, ja­mais soubemos devidamente considerar. Chorávamos! E saudades mui pungentes da Família e do berço natal, do lar que haviamos menosprezado e enlutado, dos entes queridos e amigos que feríramos com a deserção da vida, entornavam-se pelo nosso ser, predispondo-nos a gran­des pesares sentimentais, como novas fases de remorsos dolorosos. Então orávamos, ali mesmo na quietude en­volvente do parque ou recolhidos a local determinado, orávamos sentindo em cada dia o ósculo de benéfico reconforto vivificando nossas almas, tal se misericordio­sos bálsamos refrescassem nossas consciências das excessivas ardências que se haviam rasgado em nosso ser pelas garras infames do suicídio que nos deprimira e desgraçara à frente de nós mesmos! E, de envolta com o refrigério, eis que se avolumava a necessidade impe­riosa de nos tornarmos dignos dessa misericórdia que nos amparava tanto — a necessidade dos testemunhos que a Deus provassem nosso imenso pesar por nos re­conhecermos graves infratores de suas Magníficas Leis!




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