Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



Baixar 1.59 Mb.
Página24/26
Encontro29.07.2016
Tamanho1.59 Mb.
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   26

6

O elemento feminino

Deixei o santuário onde o mistério sacrossanto de tantas migrações se levantara dos repositórios de mi­nhalma, a mim próprio como a meus pares ofertando elucidações preciosas — amparado pelos braços compas­sivos de Pedro e de Salústio. Fora exaustivo o esforço para rememorá-las, não obstante a presença e o concurso poderoso dos eméritos instrutores que me assistiam. As recordações do passado delituoso, os sofrimentos expe­rimentados através das idades por mim vividas, e agora aviventadas e carreadas para a apreciação do presente, chocaram-me profundamente, abatendo-me o ânimo, como que traumatizando meus sentimentos e minhas faculda­des. Senti-me, pois, doente, uma vez que a mente, como os sentimentos, se haviam entrechocado num cansativo e melindroso serviço de revisão psíquica pessoal; e, as­sim sendo, fui encaminhado a certo gabinete clínico ane­xo ao próprio recinto das singulares quão sublimes experiências. Dois iniciados faziam o plantão do dia, pois, acidentes, como o por mim experimentado, eram comuns, mesmo diários entre os discípulos cuja bagagem mental pecaminosa os lançava em crises insopitáveis de alucina­ção, as quais, por vezes, atingiam as raias da demência.

Bondosamente recebido na dependência em apreço, onde mais uma fragrância da Caridade consoladora era dada a aspirar por nossos Espíritos frágeis e pusilânimes, ministraram-me aqueles operosos servos da Legião tra­tamento magnético como que balsamizante, para a ur­gência do momento, seguindo-se depois, nos dias subseqüentes, vigilância clínico-psíquica especializada, eficien­tíssima.

No fim de alguns dias, tornado à luz da realidade insofismável, completamente lúcido quanto à minha ver­dadeira personalidade, refleti maduramente e a uma con­clusão única cheguei a fim de me poder, algum dia, sentir plenamente reabilitado à frente da consciência própria e da Lei Suprema que, havia tanto, eu vinha infringindo: — Reencarnar! Sim, renascer ainda uma outra vez! So­frer dignamente, serenamente, o testemunho da perda da visão material, no qual eu fracassara havia pouco, pois a ele me não submetera, preferindo o suicídio a avançar pela vida jungido à incapacidade de enxergar; realizar o contrário do que fizera para trás, isto é, amar compassiva e caridosamente os meus semelhantes, pro­teger, auxiliar, servir o próximo, utilizando todos os meios lícitos ao meu alcance, lícitos e generosos; indo, se possível e necessário, à abnegação do sacrifício, sob as hecatombes morais do meu passado amarguroso, cons­truindo almos aspectos do Bem Legítimo, os quais me ajudassem a ressarcir as trevas então semeadas!

Tristeza irresistível, porventura ainda mais crucian­te do que até aquela data, acobertou de angústias novas as horas que passei a viver; e as impressões ingratas e dominantes de um remorso, a que coisa alguma entre os humanos será capaz de traduzir, cerceavam-me a possibilidade de alcançar qualquer feição de verdadeira felicidade!

Contudo, os bondosos instrutores como os diletos amigos que nos rodeavam e as vigilantes caridosas e afáveis reanimavam minhas forças, como também o fa­ziam aos meus companheiros de lutas e infortúnios, pois os sofrimentos de um espelhavam os dos demais, ofer­tando o melhor dos seus conselhos e exemplos, insistindo nas lições do aprendizado, que seguia curso normal, encaminhando-nos ao trabalho reconstrutivo desde logo, sem esperar os serviços do renascimento físico-material, os quais ainda nem mesmo se achavam delineados.

Ora, um dos grandes incentivos que nos ofereciam para a conformidade com a situação, eram justamente as reuniões de Arte e Moral a que já tivemos ocasião de nos referir, as quais, no decorrer do tempo, assumi­ram panorama especial por nos servirem à causa da reabilitação particular, nos exemplos, nas demonstrações, nas análises que nos forneciam, indicando-nos caminhos a seguir, exemplificação a imitar, etc., etc. Assim era, que, nos parques da Cidade, cuja extensão não conse­guíramos até então avaliar, existiam recantos portadores de uma espécie de beleza sugestiva inconcebível a um ser humano, tal era a superioridade ideal do conjunto como de cada pormenor, tais as nuanças evocativas que atraíam o pensamento para o domínio da Harmonia na Arte. Tratava-se particularmente de residências, habita­ções, em que a arquitetura, como a arte decorativa, so­brepujariam tudo quanto os clássicos terrenos têm ima­ginado de mais nobre e mais belo; de miniaturas de cidades ou aldeamentos pitorescos e lindos, com lagos graciosos marginados de alfombras floridas e odoríferas; de templos consagrados ao cultivo das Belas-Letras como das Artes em geral, notadamente da Música e da Poesia, que ali notamos atingir proporções vertiginosas, inima­gináveis para qualquer pensador terreno, como no caso de Frederic Chopin, a quem tivemos ocasião de assistir transfigurar a magia dos sons, em encantamento de vo­cabulário poético traduzido em seqüência arrebatadora de visões ideais, as quais ultrapassavam nossas possibi­lidades quanto à idéia do Belo, arrancando-nos lágrimas de enternecimentos inéditos, assim auxiliando o despertar de faculdades espirituais que em nosso ego jaziam laten­tes! Dir-se-ia mesmo serem a Música e a Poesia as artes preferidas pelos iniciados — se fora possível afirmar tais predileções em mentes como aquelas, educadas sob os mais adiantados princípios do Ideal que poderíamos conceber! E até reproduções exatas, porém apresentadas em sublime estado de quinta-essência, lidimamente afor­moseadas até à reverência, porque construídas fluidica­mente, sob pressão de vontades adestradas na superio­ridade das concepções magnânimas do Amor e do Bem, — das paisagens evocativas da peregrinação messiânica, cenários sugestivos e atraentes dos primeiros acordes da palavra imortal que descera das Regiões Celestes para consolo dos sofredores e liberação dos oprimidos!

Foi-nos concedida, assim, a satisfação gratíssima de palmilhar ao longo do lago de Genesaré como de Tiberíades e de outros locais saudosos, testemunhas do di­vino apostolado do Senhor; e, tais eram as sugestões de que impregnavam essas reproduções, que era como se o Divino Amigo houvesse dali se afastado desde ape­nas poucos momentos, pois recebíamos ainda, em nossas repercussões mentais, o doce murmúrio de sua voz como que emitindo os últimos acordes, que se diriam vibrando no ar, da melodia inesquecível que tão bem há calado no coração dos deserdados, faz dois mil anos:


«Vinde a mim, vós que sofreis, e eu vos aliviarei. Aprendei comigo, que sou brando e humilde de co­ração, e achareis repouso para vossas almas...”
Em presença dessas augustas expressões de amor e veneração ao Mestre, concedidas pelas nobres entidades executoras da beleza do burgo onde vivíamos, muitas vezes abismei-me em meditações profundas e enternece­doras, enquanto deixava rolar doridas lágrimas de arrependimento à evocação daquele ano 33, que, agora, eu poderia recordar com facilidade —, quando, madeiro ao ombro, paciente, humilde, resignado, o Messias, agora venerado em meu coração, então galgava a encosta ru­mando ao Calvário, ao passo que eu vociferava demoniacamente, exigindo com presteza o seu suplício!

No entanto, à entrada de cada um desses locais via-se o distintivo da Legião e o nome das servidoras que os imaginavam e realizavam, pois convém esclarecer serem todas essas minúcias realizadas pela mente femi­nina sediada nos serviços educativos do nosso Instituto.

Em cada dia de reunião, eram oferecidas aos cir­cunstantes, como em particular aos internos, horas gra­tíssimas de sublime aprendizado, durante o qual nos ofertavam comoventes exemplos de abnegação, de dedi­cação ao próxiMo, de humildade e paciência, como de heroismo e valor moral frente à adversidade, os quais caíam em nosso âmago como generoso estímulo ao pro­gresso que necessitávamos tentar. Esse aprendizado, con­cedido pela empolgante elucidação extraída da própria história da Humanidade com suas lutas e dores inume­ráveis, suas vitórias e reabilitações, era-nos ministrado, conforme foi esclarecido, por nossos próprios mestres e mentores ou pelas caravanas visitadoras que até nós des­ciam no intuito fraterno de contribuir para nosso con­forto e progresso. Porém, muitos dramas fortes, vividos pelas próprias damas da Vigilância, assim como por per­sonagens destacadas de nossa Colônia, como Ramiro de Guzman e os dois de Canalejas, foram-nos permitidos conhecer como exemplificação e advertência, muitos apre­sentados mesmo como modelos dignos de serem imita­dos. E esses dramas mais não eram do que a narrativa, que faziam, das lutas sustentadas durante as experiên­cias do progresso, dos sacrifícios testemunhados na en­carnação ou através de labores incansáveis no Espaço. Sobre o que nos davam a conhecer, éramos convidados, depois, a opinar e fazer apreciações e comentários mo­rais e artísticos, observando nós outros, entre muitas outras coisas importantes para o nosso reajuste nos campos da Moral, o fato surpreendente de encontrar-se o homem rodeado das mais formosas expressões de uma Arte superior entre todas, durante as lides profundas de cada dia: — a Arte gloriosa de aprender a desenvolver em si mesmo os valores espirituais que se encontram latentes em suas profundezas anímicas!

Um dia, finalmente, fomos informados de que tocara a vez de nossas bondosas vigilantes apresentarem o fruto de suas meditações fulgentes, de sua sensibilidade no­bremente inclinada para os ideais superiores. Grande alvoroço agitou nosso grupo, como seria natural; a ex­pectativa emocionava-nos, e foi apossados de incontida satisfação que, no dia aprazado, nos dirigimos para os locais criados, por aquelas ternas amigas, cujo fraternal desvelo mantinha sempre acesa em nosso imo a cha­ma do afeto sacrossanto da Família, o desejo do lar, o respeito de nós mesmos.

Rita de Cássia era poetisa. Seu sensível feitio de crente convicta e seu formoso caráter fortalecido no fervor diário de atos de amor e dedicação ao próximo, quer no seio da sociedade em que espiritualmente vivia ou no desempenho de tarefas ao seu cuidado confiadas para as operosidades em planos terrenos, deixavam-se embalar ao ritmo de legítima inspiração. Ela própria viera ao Internato requisitar nossa presença, conduzin­do-nos à sua residência, onde então entramos pela pri­meira vez. Tratava-se de mimoso santuário arquitetado sob domínio de sugestões comovedoras da sua grande piedade filial, pois ela o imaginara através de saudades santificadoras e resignadas daqueles que foram seus pais na Terra, os quais muito a haviam amado, pois Ritinha era modelo de filha amorosa e terna, agradecida e respeitadora! À sua residência de Cidade Esperança ela imprimira, portanto, o conjunto minucioso, porém elevado por singular aformoseamento, do lar paterno, sob cujos desvelos vivera sua curta existência planetá­ria, a última vez, em Portugal, extinta lá pelos idos de

1790...


Entardecia suavemente. Tonalidades mansas mes­clavam de reverberações variegadas a atmosfera melan­cólica da Cidade Universitária, que se diria penetrada de fluidos lucilantes e regeneradores, os quais, alindando-a, lenificando-a, a todas as mentes ali aquarteladas indu­ziam a vibrações ternas, a todos os corações mobilizando para ritmos superiores.

Eram em número diminuto os convidados da for­mosa entidade que recepcionava aquela tarde. Seus pu­pilos, alguns amigos mais íntimos e os mestres iniciados, cuja presença seria indispensável — pois que também ela aprendia ao contacto das lúcidas mentalidades que a nós outros educavam —, era toda a assistência. Entre os amigos notamos com prazer os dois de Canalejas, Joel Steel, a quem a menina parecia render culto fraterno fervoroso, e Ramiro de Guzman.

Todos reunidos, a jovem poetisa chamou-nos para certo recanto ameno do jardim, onde o efeito dos últi­mos raios do Astro Rei, casando-se aos fluidos ambien­tes, realizavam arrebatador matiz, coisa que, para nós outros, pobres desconhecedores dos fascinantes motivos comuns ao mundo espiritual, se afigurou um retalho do céu para ali transplantado como bênção encantadora e consolativa. Penetramos, porém, então, como que numa câmara de dimensões amplas e agradáveis, verdadeiro escrínio de sonho, cuja graciosidade e doce beleza seriam como atestados mimosos da gentileza da sua criadora, menina cuja mente, não obstante muito esclarecida, apra­zia-se em conservar a delicada sensibilidade das quinze primaveras. Tratava-se de pequeno salão ao ar livre, engrinaldado de rosas trepadeiras cujo aroma deliciava, estimulando o senso do Belo, o anseio pelo melhor. Artísticas e originais poltronas alinhavam-se em semi-círculo, as quais, como estruturadas em ramarias de ar­bustos floridos, predispunham graciosamente o recinto, qual se esperassem anjos ou fadas para reunião seleta, enquanto acima o firmamento docemente azulado dei­xava escorrer a claridade longínqua dos planetas e dos sóis multicores, entornando também com ela a harmonia esplendente da sua celestial beleza.

Uma harpa, que se diria estruturada com essências aurifulgentes, muito belas e translúcidas, destacava-se ao lado de pequena mesa de construção idêntica, artís­tica qual jóia de filigrana, e sobre ela um livro — um grande álbum —, primor fluídico, luminoso qual pequena estrela azul, despertando imediatamente a atenção dos presentes.

Sentou-se Ritinha de Cássia à mesa, depois de haver disposto os convidados nas poltronas, permanecendo nós outros, os tutelados, em primeiro plano. Tomou do livro a gentil preceptora, abrindo-o em seguida. Tratava-se da mais recente coleção de suas composições poéticas, ilibadas criações de sua mente voltada para ideais supe­riores, nos campos da nobre e meritória arte de bem versejar. Os caracteres luminosos, como acionados por almo e indefinível magnetismo, cintilavam como decal­cados em estrias beijadas pelos revérberos das estrelas distantes que, conosco, partilhavam da harmonia do en­tardecer.

Solicitou a jovem anfitriã ao irmão Ramiro de Guz­man que a acompanhasse ao som da harpa, no que foi gentilmente atendida. Acordes clássicos de suave melo­dia ondularam pelo recinto florido e perfumado, dando a estranha impressão, porém, de que orquestração com­pleta fazia-se ouvir apoiada somente na proteção suges­tiva oferecida pelo divinal instrumento.

Então, no silêncio harmonioso da formosa Cidade Universitária, sob o flóreo dossel das rosas cintilantes e a bênção fulgurante das estrelas, Ritinha entrou a de­clamar suas produções poéticas. E nós, que, por essa época, apenas acabávamos de ambientar-nos ao local; nós, que, apesar disso, já recebêramos formosas lições de Moral, de Filosofia, e de Ciência, fomos também agracia­dos com visões inéditas de indescritível beleza literária, até então inconcebíveis às nossas mentes! Ritinha lia no seu álbum. Mas, sua leitura superior, sua declamação mais do que maravilhosa — divina! —, artisticamente entonada por vibrações cuja arrebatadora doçura ultra­passava a possibilidade de uma descrição em linguagem terrena, sugeriam encantamentos, emoções inimagináveis, enquanto de Guzman completava a fascinação da peça com os acordes da música elevada e pura!

Espírito habilitado já para os carreiros do progresso franco, Rita de Cássia de Forjaz Frazão, cujo nome era, por si mesmo, poesia, também era das poucas vigilantes que sabiam plenamente criar as cenas do pensamento, coordená-las, dar-lhes vida, contornando-as de feição mo­ral e pedagógica, realizando, num mesmo trabalho mental, o belo da Arte, a moral da Lei, a Utilidade da lição que prenda por apontar o sagrado dever de cada um servir à causa da Verdade com os dotes intelectuais e mentais que possuir! Nós outros, o grupo dos dez delinqüentes presentes, havíamos cultivado as Belas-Letras quando encarnados no globo terráqueo. Nenhum de nós, porém, soubera enobrecer o dom magnânimo conferido pelo la­bor continuado do Pensamento, aplicando-o a serviço regenerador dos leitores. Servíramos, quando muito, ànossa própria bolsa, à vaidade e ao orgulho, satisfeitos, por nos julgarmos privilegiados, senhores de situação especial, à parte dos demais homens, mas em verdade apenas produzindo banalidades fadadas ao olvido, quan­­

do, com teorias errôneas, não virulássemos a mente im­pressionável de um ou outro leitor, tão frívolo quanto nós, que nos levasse a sério.

Eis, porém, que, além-túmulo, uma menina de ape­nas quinze anos apresentava-nos o padrão do intelectual moralizado, ensinando-nos a servir à nobre causa da re­denção própria e alheia enquanto cultivava o que fosse agradável e lindo, oferecendo-nos, assim, a proveitosa lição que caiu nas sutilezas do nosso entendimento, con­fundindo-nos e envergonhando-nos à lembrança do des­perdício dos valores intelectuais que possuímos

Entrementes, enquanto declamava a gentil poetisa, lendo em seu álbum cor de estrelas, de sua mente ebúr­nea evolavam ondas luminosas, que, atingindo todo o recinto ornamentado de rosas, absorvia-o em suas vibra­ções dulcíssimas, a tudo impregnando do seu franco po­der sugestivo. As cenas descritas nos versou cantantes e deliciosos corporificavam-se ao redor de nós, estabeleciam vida e movimento arrastando-nos à ilusão inefável de estarmos presentes em todos os cenários e passagens, assistindo, quais comparsas fabulosos, às elegias ou epo­péias, aos doces romances de amor magnificamente con­tados através dos mais lindos e perfeitos poemas que até aquela data pudemos conceber! O desfile poético que a Terra venera como patrimônio imortal, legado pelos gê­nios que a têm visitado, daria pálida idéia do que pre­senciamos naquele entardecer lenificante do Burgo da Esperança! Os versos cantavam de preferência a Natu­reza, assim da Terra que do Espaço, e de alguns outros planetas habitados, já por ela estudados atenciosamente, louvando em arrebatados haustos ou glorificando em do­çuras de prece a obra da Divina Sabedoria, envolta sem­pre nas miríficas expressões da Beleza e da Perfeição!

Aqui, eram os mares e oceanos deslumbrantes, re­tratados habilmente à nossa vista, à proporção que de­clamava a poetisa, positivando a suntuosa beleza que lhes é própria. À página seguinte vinham as odes triun­fais às montanhas altaneiras e imponentes, monumentos eternos da Natureza à glória da Criação, ricas deposi­tárias de valores inestimáveis, como escrínios sagrados onde o Onipotente ocultou tesouros até que os homens por si mesmos, dignamente deles se apossem, como her­deiros que são da divina herança! Mais adiante, a exu­berância das selvas, mundos ignotos diante dos quais a criatura medíocre se intimida e recua, mas que ao idea­lista emociona e revigora de fervor no respeito a Deus. As selvas! Sacrário fecundo e profuso, como o oceano, em cujo seio turbilhões de seres iniciam o giro multimi­lenar na ascensão para os pináculos do Existir, e seres, como toda a Criação, batizados nas bênçãos vivificadoras do Sempiterno, que os dirige através da perfeição su­prema de suas leis! Mas não era tudo: — acolá, em mais outra página, floresciam elegias dizendo dos panoramas humanos em demanda da redenção; histórias emocionan­tes, atraentes, de amigos da própria poetisa, e que per­lustraram caminhos sacrificiais, por atingirem ditosos planos na escala espiritual!...

Ao arrebatador anseio poético de Ritinha, nossas mentes com ela vibravam, captando suas mesmas emo­ções, as quais penetravam nossas fibras espirituais quais refrigerantes bálsamos propiciadores de tréguas às cons­tantes penúrias pessoais que nos diminuíam. E era como se estivéssemos presentes, com seu pensamento, em todo aquele fastígio imaginado: — vogando pelos mares imen­sos, galgando montanhas suntuosas para descortinar ho­rizontes arrebatadores; alçando espaços estelíferos, mer­gulhando no éter irisado para o êxtase da contemplação harmoniosa da marcha dos astros; co-participando de dramas e acontecimentos narrados eloqüentemente, nas altas, sublimes expressões a que só a legítima poesia será capaz de nos arrastar!

Em verdade, os temas apresentados não nos eram desconhecidos.

Ela falara, simplesmente, de assuntos existentes em nossos conhecimentos. Justamente por isso era que po­díamos sorver até ao deslumbramento a grandiosa be­leza que de tudo irradiava. Todavia, suas análises de ordem superior revelavam feições inéditas para a nossa percepção, traduzindo o fato novidade empolgante para nossos espíritos engolfados nas conjeturas simplesmente humanas, quando o que presenciávamos agora era a classe elevada com que, literariamente, se poderia re­portar ao plano divino! Quando sua voz silenciou e os sons da harpa esmaeceram nos acordes finais, nós ou­tros, que desde muito nos desabituáramos de sorrir, dei­xamos expandir do seio reconfortado o sorriso bom de salutar satisfação. Ela própria usou da palavra, dirigin­do-se a nós:

“— Conforme tendes compreendido, meus caros ir­mãos, procurei associar a idéia do divino às minhas humildes composições. Convidei-vos, como zeladora que também sou do progresso do sentimento moral-religioso nos vossos corações, a fim de vos recordar de que esque­cestes de laurear vossos ensaios literários, quando ho­mens fostes, com as benéficas ilações em torno das mag­nificências que o Universo oferece ao legítimo pensador... Tínheis Deus a se revelar aos vossos olhos, represen­tado nos fastos inconfundíveis da Natureza! Poderíeis glorificá-lo fazendo das vossas produções oblatas e exal­tações à Verdade, assim auxiliando a outrem, menos es­clarecido do que vós, a encontrar também o Pensamento Divino esparso na gloriosa história da Criação!... Mas preferistes o negativismo destruidor, formas e análises insulsas, conceitos puramente humanos, eivados, portan­to, de prejuízos, e fadados ao olvido, porque nem sequer a vós próprios foram capazes de edificar, preparando-vos para qualquer setor de vitória!... O que apresentei na tarde de hoje, recebestes como a mais elevada e sublime expressão literária que poderíeis conceber. Sabei, no en­tanto, que, para nós, é apenas o ponto inicial, simples abecedário de conhecimentos artísticos, pois sou apenas uma aprendiz humilde e ainda titubeante, da Ciência.

Não finalizaremos estas exposições sem darmos con­tas ao leitor do que se desenrolava nos Departamentos Femininos. Tratamos até agora dos casos de suicídio atinente ao elemento masculino. Sabei, no entanto, que bem pouco terei a acrescentar sobre o que ficou descrito neste volume, e assim mesmo ponderando, apenas, quan­to a certas particularidades de instrução e reeducação intima, algo diferente em torno de Espíritos que deve­riam insistir em renascimentos, sob aparência carnal fe­minina, a fim de renovarem esforços fracassados ou repararem delitos graves, deslustrosos para o sexo como para a entidade que os cometera.

Espíritos que são, todas as criaturas têm grau idên­tico de responsabilidade nos atos que praticam dentro ou exteriormente dos dispositivos da Lei Soberana que tudo rege, o que será o mesmo que declarar que nossas irmãs, as mulheres que se deixam absorver pela deses­peração do suicídio, estão sujeitas aos mesmos efeitos resultantes da causa sinistra que criaram com um ato da própria vontade, efeitos já bastante indicados nestas páginas. São, pois, tão responsáveis pelas próprias ações, pensamentos, estados mentais, como nós outros, os ho­mens. Daí se concluirá que a bagagem moral que pos­suírem, boa ou péssima, influirá sobremodo no estado a que se verão reduzidas pelo suicídio, estado já de si mesmo calamitoso e, por isso mesmo, digno de ser evi­tado com a aplicação da coragem moral, frente aos em­bates comuns à existência, e com resignação ante o inevitável. Ora, no decorrer do nosso aprendizado prá­tico, o qual tinha por instrutor responsável o insigne mestre Souria-Omar, entidade extraordinária, cujas re­encarnações haviam abrangido todos os setores sociais terrenos e que, por isso mesmo, obtivera latos conheci­mentos sociológicos, em experiências incomuns no terre­no psicológico, Souria-Omar, cujas aulas só eram mi­nistradas em sentido prático, levou-nos de uma feita a observações muito interessantes nas dependências onde se asilavam nossas irmãs de infortúnio, infelizes mulhe­res que, fugindo ao nobre papel de depositárias de vir­tudes sublimadas, no mundo, deixaram-se arrastar para o mesmo abismo das paixões desordenadas, que nos tra­gou. Lembremo-nos de que, em chegando do Vale Sinis­tro, ainda no Departamento de Vigilância, ao sermos inscritos como tutelados da Legião dos Servos de Maria, separamo-nos delas, em virtude da necessidade de ocupar- mos locais indicados para a nossa recuperação. Fazíamos, pois, reajuste espiritual em setores diversos, conquanto dirigidos por normas idênticas e sob tutela da mesma instituição.

Jamais nos fora dado convívio com o elemento fe­minino suicida. Ingressando na Cidade Universitária, po­rém, passamos a entrevê-lo, porqüanto havia também várias senhoras suicidas cursando a mesma aprendiza­gem renovadora e, tal como nós, ali mesmo habitando até o momento do retorno à encarnação, continuando, não obstante, completamente separado do nosso o seu modo de existir.

Manhã clara e fresca orlava de tonalidades áureo-azuladas as avenidas imensas do cantão da Esperança, as quais observamos insolitamente movimentadas. Era extenso grupo de acadêmicos que partiam, com seus pre­ceptores, em visita de instrução aos Departamentos Fe­mininos, situados na outra extremidade da Colônia. Par­tíamos todos não sem dilatarmos as sensibilidades para um estado de real satisfação, reconfortados pela inefável atração da seleta companhia que nos honrava com sua proteção, porqüanto também Aníbal de Silas, Epaminon­das de Vigo e várias vigilantes tomavam parte na. ca­ravana.

Havia, então, precisamente dez anos que nos inter­náramos em Cidade Esperança. Já não nos arrastávamos, caminhando pelo solo ou obrigado ao socorro de uma viatura, como outrora. Progredíramos! Tornáramo-nos menos densos, menos sujeitos às atrações planetárias. Aprendêramos a planar pelo espaço, transportando-nos por um impulso da vontade, em volitações suaves que muito nos apraziam, mormente no perímetro de nossa Colônia, onde tudo parecia mais fácil, como o seria na casa paterna. Esse o modo comum a um Espírito de transportar-se, mas que nosso estado amesquinhado de réprobos interceptara por longo tempo.

A fim de atingirmos os Departamentos Femininos, porém, iniciamos caminhada partindo das divisas da Vi­gilância com os Departamentos Hospitalares, pois lá es­tavam os marcos na magnífica avenida divisionária, indicando rumos para os variados grupamentos em que se resumia a solitária Colônia Correcional do astral in­termediário.

Ao penetrarmos, surpresos, no Departamento Hos­pitalar Feminino, julgamos encontrar-nos em o nosso próprio, aquele que nos abrigara à chegada, tal a seme­lhança existente em ambos! As mesmas filiais, tais como o Isolamento, o Manicômio; características idênticas no estado moral e mental das irmãs delinqüentes, feitura semelhante nas disposições internas do burgo! Todavia, se a direção dos estabelecimentos anexos era a mesma, pois fomos deparar Teócrito como chefe geral dos hospi­tais, Irmão João à testa do Manicômio, padre Miguel de Santarém nos serviços do Isolamento, e padre Anselmo com um apêndice da Torre, os funcionários internos, como enfermeiros, vigilantes, guardas etc., já não eram os mesmos por nós conhecidos nos setores masculinos. Pre­enchiam tais cargos, ali, irmãs cujos méritos e virtudes nada ficariam a dever aos varões dos DepartamentoS Masculinos. Ão contrário, no altruístico afã de instruir, consolar, acompanhar, zelar, dirigir as atividades inter­nas daquele burgo, encontramos vultos femininos tão res­peitáveis e virtuosos que não é sem dilatada emoção perpassando por nossa sensibilidade espiritual que os recordamos, procurando retratá-los nestas paginas. No primeiro momento, como na sucessão das conclusões a que nos levaram as observações, a grande verdade res­saltou aos nossos olhos, chocando-nos até às lágrimas, ao passo que em nosso ego se iniciou a construção de um legitimo respeito pela mulher, a qual passamos a jul­gar com mais súbita consideração, maior dose de boa-vontade: — é que o Espírito muitas vezes reencarnado para tarefas e missões femininas adquire com muito mais presteza e eficiência as virtudes sólidas e redentoraS, engrandecendo-se moralmente em menos tempo! As funcio­nárias dos burgos femininos, pois, auxiliares dos chefes iniciados, indispensável será confessá-lo, portavam muito mais elevadas qualidades morais e espirituais do que os nossos de Canalejas, Joel Steel, Irmão Ambrósio, etc., etc., aos quais tanto devíamos pelo zelo incansável com que nos assistiram. O corpo clínico, composto, como sa­bemos, de cientistas iniciados, era o único representante de atividades masculinas a exercer tarefas ali. Ainda assim, discretos, apenas entrevistos nos curtos minutos em que operavam, também eram para nossas companhei­ras de Colônia o mesmo enigma que haviam sido para nós. Não lhes conhecêramos jamais os nomes, sequer ouvíramos algum dia o timbre das suas vibrações vocais! No entanto, que de favores lhes devíamos! que de bênçãos celestiais atraíram para nos lenificar as dores íntimas, graças aos fecundos poderes psíquico-magnéticos de que eram depositários! Com quanto devotamento os vimos dedicarem-se à causa do nosso reajuste, consolando-nos as exaltações mentais ao influxo de bálsamos fluídicos poderosos, refrigerando as ardências das repercussões ferazes que durante tantos anos perseguiram nossos pe­rispíritos abalados pelo choque derivado do suicídio!

Sorridente, irmão Teócrito, recebendo-nos na sede do Departamento, franqueou os hospitais à visitação. Lembramo-nos então de que, quando debaixo de sua ju­risdição, muitas vezes fôramos visitados por caravanas idênticas, e sorrimos agora, compreendendo o que fora passado...

Havia uma vice-diretora, a qual se incumbia de transmitir as ordens dos iniciados às funcionárias que sob sua direção desempenhavam nobres e santificantes labores. Chamava-se Hortênsia de Queluz, aparentava trinta anos de idade e vimo-la irradiando singular beleza fisionômica, atestado do sereno equilíbrio dos seus pen­samentos voltados para o Bem e das vibrações harmo­niosas da mente fortalecida por incorruptíveis diretrizes. Bondosamente ofereceu-se a acompanhar-nos, e, enquan­to caminhávamos, oscilando brandamente sobre as lon­gas avenidas recobertas pelo sudário branco tão nosso conhecido, que ali, como em nosso antigo burgo hospitalar, apresentava o característico das zonas astrais muito densas, Hortênsia de Queluz falava, dando a perceber elevados conhecimentos referentes ao caráter feminino:

“— Encaminhar-vos-ei primeiramente, conforme orientação dos vossos mestres, a um dos mais trágicos quartéis do nosso Instituto, onde vereis o inconcebível refletir-se em efeitos inesperados, em torno de nossas infelizes irmãs delinqüentes... Será oportuno recordar, meus irmãos, antes que vossos mentores iniciem os es­clarecimentos que vos serão necessários, de que a mu­lher, em sua grande maioria, infelizmente, na Terra, ain­da não chegou a compreender o verdadeiro móvel por que reencarna como mulher, o papel que lhe está afeto no concerto das nações terrenas, no seio da Humanidade, que é chamada a servir, tanto quanto o homem! Habi­tuado a trato como a julgamento inferior através dos séculos, o elemento feminino terreno acabou por acomo­dar-se à inferioridade, sem ânimo para elevar-se virtuo­samente do opróbrio que suporta... e a tal ponto que, nos dias correntes, como no passado, ele apenas se limita à orientação do servilismo em prol do elemento mas­culino, descrendo dos ideais redentores, incapacitando-se para o preenchimento dos intuitos do Criador, diminuin­do-se mais ainda quando julga ao homem equiparar-se, por lhe imitar as ações com as paixões e atos deslustro­sos, o que, afinal de contas, se aos representantes do primeiro gênero desdoura, aos do segundo implica em labirinto de deméritos perante a Soberana Lei. Daí as desgraças que vêm sobrecarregando a mulher, as quais seriam certamente insolúveis se a Providência não esta­belecesse necessários corretivos através de suas leis tão misericordiosas quanto sábias, corretivos que tenderão sempre à reabilitação justa e rápida da mulher, nos cam­pos da Moral Espiritual!... Observai, porém, com vos­sos próprios olhos... Vossos preceptores saberão o que apresentar para a lição do dia. .

Chegáramos ao Manicômio. Uma religiosa recebeu-nos. Era Vicência de Guzman, a nobre irmã do nosso amigo da Vigilância.

Depois dos fraternais cumprimentos e apresenta­ções, Hortênsia recomendou-nos à irmã Vicência, a quem deu autorização para conduzir-nos aos recintos interdi­tados às visitas comuns, pois tratava-se, no caso vigen­te, das instruções programadas para os aprendizes uni­versitários, retirando-se em seguida. Amável e delicada, a jovem religiosa que respondia pelo expediente, na au­sência de irmão João, levou-nos a um pátio de enormes dimensões, pitoresco e agradável, para o qual deitavam numerosas janelas, todas gradeadas, pertencentes a câ­maras secretas, ou melhor, a celas individuais onde se debatiam Espíritos de mulheres suicidas atacados do mais abominável gênero de demência que me foi dado observar durante o longo tempo que passei no além-túmulo. Gritos desesperados, gemidos aterrorizantes in­vadiam o local de ondas trágicas, tornando-o repulsivo e agourento, como verdadeira morada de loucos! Mau grado o tempo que fazia do nosso ingresso na benfaze­ja Colônia, recordamo-nos do Vale Sinistro e admira­mos profundamente ali ouvirmos o coro nefasto próprio daquelas paragens de trevas. Nada indagamos, no en­tretanto, certos de que as elucidações viriam a tempo.



Realmente, como que compreendendo nosso interes­se, a própria religiosa esclareceu a dúvida que nos assal­tara, ao mesmo tempo que nos fazia aproximar das janelas a fim de examinarmos o interior das ditas câ­maras, porqüanto impossível seria ali penetrarmos por outra forma:

“— São as suicidas que apresentam maior grau de responsabilidade na prática do delito e que, por isso mesmo, arrastam o maior cabedal de prejuízos para o futuro, enfrentando através do tempo situações atrozes, que requisitarão períodos seculares a fim de serem mo­dificadas, completamente sanadas! Estas infelizes, meus caros irmãos, deixaram-se escravizar por complexos si­nistros, os quais se desdobram em seqüências tão desas­trosas que, moralmente, é como se se debatessem elas à semelhança de quem, naufragando no lodo, mais se re­volve em lama, aviltando-se para libertar-se... Um traço destes pavorosos complexos é o vergonhoso motivo que as arrancou da existência terrena antes da época deter­minada pela ação da lei natural... Muitas, além do mais, conspurcaram as leis do Matrimônio, atraiçoando a moral do compromisso conjugal, esquecidas de que, ao reencarnarem, haviam prometido à Lei, como a seus Guardiães, servirem de fiéis zeladoras do instituto sa grado da Família, educando os filhos nas leis do Dever e da Justiça, procurando torná-los cidadãos úteis à Pá­tria e à Humanidade e, portanto, à Causa Divina e à lei de Deus! Pois bem! Com semelhantes compromissos a lhes pesarem na consciência e à face da Suprema Lei, eis que, não só profanaram os vínculos santos do Ma­trimônio como também as leis da Criação, negando-se às funções da Maternidade e entregando-se às paixões e aos vícios terrenos, absorvidas que preferiram ficar pelo descaso no cumprimento de sacrossantos deveres, dominadas pelas vaidades letais próprias das esferas so­ciais viciadas e seguindo pelos caminhos da inferioridade moral! Expulsavam das próprias entranhas, furtando-se aos compromissos meritórios e sublimes da Maternidade, os corpos em gestação, apropriados para habitação tem­porária de pobres Espíritos que tinham compromissos a desempenharem a seu lado como no seio da mesma família, os quais precisavam urgentemente renascer delas mesmas, a fim de progredirem no seu âmbito familiar e social, e tal crime praticavam, muitas vezes, anulando abendiçoados labores levados a efeito, nos planos espi­rituais, por obreiros devotados da Vinha do Senhor, os quais haviam preparado o sublime feito da reencarnação do Espírito carente de progresso, com todo o zelo para que o êxito compensasse os esforços, e, o que é mais grave ainda, depois que a entidade reencarnante já se encontrava ligada ao seu novo fardo em preparação, o que equivale dizer que, cientes do que faziam, come­tiam infanticídios abomináveis! Acontece que, ao fim de tantos e tão graves desatinos à luz da Razão, da Consciência, do Dever, da Moral, como do pudor perti­nente ao estado feminino, deixaram prematuramente o corpo carnal, morrendo, elas próprias, para o mundo físico-material, num dos vergonhosos ultrajes cometidos contra os sagrados direitos da Natureza; outras, depois de luta ímproba e aviltante, durante a qual, à custa de criminosos deméritos, extinguindo em si mesmas as fon­tes sublimes da reprodutividade, próprias da condição humana, adquiriram, como seqüência natural, enfermi­dades lastimáveis, tais como a tuberculose, o câncer, infecções repulsivas, etc., etc., que as fizeram prematu­ramente atingir o plano invisível, sacrificando com o corpo carnal também o futuro espiritual e a paz da consciência, maculando, além do mais, o envoltório fí­sico-astral — o perispírito — com estigmas degradantes, conforme podereis examinar... e rodeando-se de ondas vibratórias tão desarmoniosas e densas que o deforma­ram completamente, reduzindo-o à expressão vil das próprias mentes...”

Aproximamo-nos, temerosos do que contemplaría­mos, enquanto a irmã de Ramiro de Guzman acrescen­tava:

Pertencem a todas as classes sociais terrenas, mas aqui se nívelam por idêntica inferioridade moral e mental! Das classes elevadas, porém, acorre o maior contingente, com agravantes insolúveis dentro de dois ou três séculos e até mais... pois que, infelizmente, meus irmãos, sou obrigada a declarar existirem algumas que, a fim de se libertarem das garras de tanto opró­brio, em menos tempo, estarão na terrível necessidade de estagiarem em mundos inferiores à Terra, durante algum tempo, pois que não é em vão que a criatura ousará impedir a marcha dos desígnios divinos, com a Lei Suprema abrindo tão inglória luta!.. .“

A um gesto da zelosa servidora investigamos o interior das celas, mas recuamos imediatamente, com involuntário gesto de horror.

Acercou-se Souria-Omar, obrigando-nos a atitude dig­na e respeitosa, enquanto se retirava Vicência para um ângulo.

Voltamos à observação, e, enquanto dissertava o elucidador, fornecendo a ciência dentro do exame prático em torno do que víamos, e cuja contextura caberia num volume, destacavam-se aos nossos olhos espirituais as aviltadas figuras das infanticidas, também consideradas suicidas.

Oh, Senhor Deus de todas as Misericórdias! Como se verificariam tais monstruosidades sob a luz sacros-santa do Universo que criaste para que o Homem nele se glorificasse, aos seus embalos progredindo em Amor, Virtude e Sabedoria até atingir a Tua imagem e seme­lhança!... Que formas repelentes e abomináveis se apresentaram, então, ante nossos olhos pávidos de Espí­ritos que pretendiam soletrar as primeiras frases do majestoso livro da Vida!... Como poderia a mulher, ser mimoso e lindo, rodeado de encantos e atrativos in­contestáveis, moralmente amesquinhar-se tanto, para chegar a tão funestos resultados?... O que víamos, então, ali?... Seria mulher? Porventura um monstro pri­mitivo?...

Não! Víamos — isso sim! — um Espírito defrau­dador da mais sublime quanto respeitável lei do Criador, a lei da reprodução da espécie para a finalidade sun­tuosa do Progresso! A lei divina da procriação!

Vultos negros, esgrenbados, como envolvidos em far­rapos, padrão trágico da Ruína, bracejavam contra mil formas perseguidoras que superlotavam o recinto rodean­do-lhes a personalidade. Ao longo dos seus corpos en­tenebrecidos pelas impurezas mentais, notavam-se placas quais chagas generalizadas, sobre as quais desenhos singulares apareciam como decalcados em fogo ou san­gue! Firmamos a atenção, procurando observar melhor, a um sinal do instrutor. Tratava-se da reprodução men­tal de embriões humanos que tenderiam a se desenvolver outrora, nos aparelhos procriadores carnais, mas que se viram repelidos do sagrado óvulo materno por ato de desrespeito à Natureza como à paternidade divina, per­manecendo, todavia, sua imagem refletida no perispírito da genitora infiel, como produto mental de um crime cometido contra um ser indefenso e merecedor de todo o amparo e da máxima dedicação!

Várias daquelas criminosas entidades viam-se des­figuradas por três, por cinco, dez imagens pequeninas, o que lhes alterava sobremodo as vibrações, desarmo­nizando-lhes completamente o estado mental. Cenas de­ploráveis, fiéis produtos da mente que só se alimentou da ociosidade nociva do pensamento; recordações luxu­riosas, esmagadoras provas de conduta infiel à Moral povoavam o lúgubre recinto, transformando-o em habi­tação de uma coletividade execrável, enlouquecedora!

Lutavam as desgraçadas, bracejando sem tréguas, no intuito de repelirem as visses macabras oriundas dos próprios pensamentos! Os pequeninos seres, oütrora por elas sacrificados em suas entranhas, esvoaçavam em torno, levados das repercussões do perispírito para as ondas vibratórias da mente, já irradiadas, e aí refleti­das através de magnífico, sublime serviço consciencial, castigando a infratora na seqüência de leis naturalissi­mas, por elas mesmas acionadas ao cometerem a infração! Eram quais moscas a zumbirem inalteravelmente em torno de mísero canceroso, desorientando-o até àloucura em vista dos inevitáveis desequilíbrios daí deriva­dos! Apresentavam-se algumas, além do mais, plena­mente obsidiadas pelas individualidades que deveriam habitar aqueles corpos repudiados; individualidades que, não lhes perdoando as deslustrosas ações, que redun­daram em prejuízos para seus urgentes interesses espi­rituais, passaram a persegui-las com ódios e revoltas, afinados os seus perispíritos com os delas próprias pelas cadeias magnéticas naturais aos processos criadores do renascimento carnal; unificados ainda, como se conti­nuasse no além-túmulo o processo de gestação fetal iniciado no estado humano-terreno que o infanticídio interrompera! Estas, dir-se-iam monstros fabulosos e nenhuma expressão da linguagem humana haverá que possa descrever a fealdade que arrastavam! Renasce­riam, expiando o erro fatídico, calamitoso, consoante explicara o insigne catedrático, loucas irremediáveis, na tentativa de corrigenda para as desarmonias vibratórias, uma vez que tais casos são irremediáveis na situação espiritual; seriam repulsivos monstrengos, deformados, enfermos, cujo grau de anormalidade levaria os homens a duvidar da Sabedoria de um Deus Onipotente, quando justamente estariam estes diante de formosa página da Excelsa Sabedoria! E outras marchariam para as trevas exteriores, onde rangeriam os dentes e chorariam até que se pudessem libertar do maior opróbrio que pode deprimir o Espírito de uma mulher à frente do seu Criador e Pai! As trevas exteriores, porém, mais não eram do que o estágio terrível em habitações planetárias inferiores à Terra, o degredo vergonhoso daquele que não mereceu acato entre as sociedades civilizadas de um planeta que tende a se elevar no concerto do pro­gresso, rumo à Fraternidade e à Moral!

Horrorizados do que víamos e de tudo quanto dizia o elucidador, e não isentos de surpresa, observamos se­rem os casos do Manicômio Feminino profundamente mais dolorosos e graves do que os da mesma instituição reservada a nós outros, os homens, porqüanto a estes ultrapassam na tragédia das conseqüências!

Sentíamo-nos impressionados diante de tanta misé­ria, a qual, não obstante também culpados como éramos, jamais pudéramos conceber! Bem preferiríamos o verbo enternecido de Ãníbal, repleto da magia suave do Evan­gelho e das visões encantadoras do apostolado messiâ­nico... Mas cumpria-nos aprender, porque firmáramos o propósito de progredir, e tudo quanto víamos seria labor de reeducação, experiência a enriquecer-nos a men­te e o coração!

Um dos aprendizes aventou a pergunta que bailava na mente dos demais:

“— A estas não nos lembramos de ver no Vale Si­nistro... O estado em que se apresentam não será antes próprio de locais como aquele?...”

“— Supondes porventura que a generalidade dos delinqüentes será obrigada, por força da lei, a permane­cer em uma única e determinada região do Invisível? — esclareceu o mentor, condescendendo. — Ou ignorá­veis, que também se arrastam pelas baixas camadas so­ciais terrenas, em contacto com âmbitos viciosos com os quais se afinavam mesmo antes da desencarnação?... Seu inferno, o abrasamento que lhes requeima a cons­ciência, antes não se estabelece, de preferência, nas for­nalhas dos remorsos por eles mesmos acesas na própria mente?...



Não! Estas, que aí vedes, não estiveram no Vale Sinistro, porqüanto, o fato de gravitar para ali a enti­dade considerada suicida, já traduz algo que implicará afinidades para o progresso normal no caso... Estas infelizes irmãs, porém, totalmente afinadas com as tre­vas, a consciência virulada por tremendas responsabili­dades, e acompanhadas, todas, desde muito, por sinistro cortejo de entidades inferiorizadas na prática do mal, a cujas sugestões se prendiam através de laços mentais idênticos, ao expirarem, na vida carnal, foram envolvidas nas ondas vibratórias maléficas que lhes eram afins, assim permanecendo até agora e assim mesmo prosseguindo pelo futuro a fora, até que expiações duríssimas, existências férteis nos serviços a prol do bem legitimo, venham a desatar os liames que ao mal as escravizaram, expungindo de suas consciências todo esse cabedal sinis­tro que as desfiguram no momento... Na deplorável situação em que as contemplamos, é bem verdade que se encontram em melhor estado do que já estiveram... Pelo menos estão sob dedicada proteção de fiéis amigos do Bem, abrigadas em local seguro onde não mais as perturbarão os odientos comparsas adquiridos na prá­tica do mal, tampouco os inimigos que desde muito lhes seguiam os passos, quais os corvos farejando a podridão. Muitas desgraçadas que aí vemos — ao desen­carnarem foram arrebatadas pelos componentes da fa­lange perversa a que fizeram jus com os desatinos que praticaram e aprisionadas em localidades tétricas do In­visível e mesmo da própria Terra, sendo ali submetidas a maus tratos e vexames inconcebíveis, indescritíveis! Casos existem em que as individualidades que delas deveriam renascer, mas foram repelidas com muito acervo de prejuízos e sofrimentos, associam-se aos seres per­versos que as rodeiam para também castigá-las, com atos de execráveis vinganças. Outras, levadas por anti­gos pendores, permaneceram em antros de perversão e imoralidade, da sociedade terrena, durante longo tem­po, aí vivendo animalizadas, mentalmente escravizadas a soezes instintos; ao passo que ainda outras, deses­peradas, maldosas, acercavam-se de outras mulheres, ainda encarnadas, e que lhes permitissem acesso, para sugerirem a prática de ações idênticas às que as per­deram, tecendo, assim, ação perfeitamente demoníaca por inspirar-se nos mais degradantes testemunhos da inveja e do despeito, por não mais usarem também um envoltório carnal! Dizer-vos dos exaustivos trabalhos a que se impõem os servidores da Seção de Relações Ex­ternas e demais voluntários, a fim de libertá-las das garras de tamanha degradação, será supérfluo neste mo­mento, uma vez que deles tendes algumas noções, gra­ças à vossa colaboração nos serviços da Vigilância, co­laboração que faz parte, como sabeis, do aprendizado que entre nós sois chamados a experimentar. Reencar­narão tal como se encontram e todas as providências já foram tomadas para a volta delas ao renascimento... Não estando em condições de alguma coisa escolherem voluntariamente, a Lei impõe-lhes a renovação carnal, para conquista de melhor situação, concordando com o grau de responsabilidade que trazem, ou melhor, o de-mérito acumulado pelos erros praticados impele-as a re­encarnações expiatórias terríveis, o que quer dizer que, quando delinqüiram outrora traçavam, elas mesmas, esse destino de trevas, lágrimas e expiações, a que não po­derão escapar! Os complexos de que se rodearam são insolúveis no além-túmulo e, urgentemente necessitadas de melhorias vibratórias, renascerão em qualquer meio familiar terreno onde igualmente haja resgates dolorosos a se confirmarem ou bastante cristãos e abnegados para que queiram fazer a caridade de recebê-las por amor de Deus... o que não será assim tão fácil.

As demais dependências do Manicômio, assim como as filiais do Isolamento e da Torre apresentaram, ao nos­so exame, dramaticidade comparável à que já foi por nós exposta, não nos permitindo, por isso mesmo, uma repetição descritiva. Tudo isso nos provou, entretanto, uma grande e esplendente verdade: — a mulher é tão responsável quanto o homem, espiritualmente, à face da Grande Lei, porqüanto, antes de ser mulher, é ela, acima de tudo, um Espírito que se deverá afinar com o Bem, com a Justiça e com a Luz, concordando de boamente a desempenhar as nobres e santificantes tarefas que lhe são confiadas pela lei do Criador, se não quiser incorrer nos mesmos deméritos e responsabilidades!

Todavia, descobrimos ainda no Departamento Fe­minino uma seção inexistente nos parques residenciais masculinos, e que convirá descrever. Era o Internato das Moças — como lhe chamavam as boas vigilantes —, espécie de educandário modelar para jovens suicidas, levadas ao sinistro ato por desequilíbrios sentimentais ou não, desilusões amorosas, etc., etc. Tal dependência existia tanto no parque hospitalar como na Cidade Es­perança, o que veio explicar-me não viverem estas em promiscuidade com os demais casos femininos, desde a internação na Colônia. Durante o estágio no parque hospitalar, sujeitas a severo tratamento psíquico, sob os cuidados dos mesmos abnegados médicos que a nós outros assistiam, as que, no entanto, conseguiam melho­ras vibratórias suficientes para o ingresso no parque reeducativo da Cidade Universitária eram dirigidas por virtuosos Espíritos femininos, que tratavam de prepa­rá-las para o retorno aos testemunhos na Terra, tendo em vista deveres que acabavam de desacatar através da grave infração cometida com o suicídio, e mais tarefas apropriadas aos desvelos da mulher. A iniciação, então, era realizada à sombra dos mesmos mestres que a nós outros atendiam, bem como o aprendizado nos setores da cooperação aos serviços internos e externos da Colô­nia, conforme ficou esclarecido. Cursavam, enfim, uma Academia Feminina, onde deveriam aprender o legítimo papel a que é chamada a mulher a exercer em contacto com as sociedades terrenas, isto é, o papel da mulher virtuosa e cristã, porqüanto fora justamente a deficiên­cia desse ajuste o móvel dos arrastamentos que redundaram na temerosa infração em que se precipitaram! Não obstante, do Manicômio jamais saíram contingentes para os cursos da referida Academia, assim como raras foram as individualidades fornecidas pelo Isolamento para os mesmos magnos preparativos. Geralmente, tais contin­gente. eram pequenos e, tal como a nós outros, os ho­mens, sucedia, partiam do Hospital Matriz. Do Internato das Moças, porém, acudia sempre a maior percentagem para os variados cursos da Cidade Universitária.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   26


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal