Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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Últimos traços

Faz precisamente cinqüenta e dois anos que habito o mundo astral. Tendo-o atingido através da violência de um suicídio, ainda hoje não logrei alcançar a felici­dade, bem como a paz íntima que é o beneplácito imortal dos justos e obedientes à Lei. Durante tão longo tempo tenho voluntariamente adiado o sagrado dever de re­nascer no plano físico-material envolvido na armadura de um novo corpo, o que já agora me vem amargurando sobremodo os dias, não obstante tê-lo feito desejoso de sorver ainda, junto dos nobres instrutores, o elemento educativo capaz de, uma vez mergulhado na carne, proteger-me bastante, o suficiente para me tornar vitorioso nas grandes lutas que enfrentarei rumo à reabilitação moral-espiritual.

Muito aprendi durante este meio século em que permaneci internado nesta Colônia Correcional que me abrigou nos dias em que eram mais ardentes as lágrimas que minhalma chorava, mais dolorosos os estiletes que me feriam o coração vacilante, mais atrozes e desanimadoras as decepções que surpreenderam o meu Espírito, muros a dentro do túmulo cavado pelo ato insano do suicídio! Mas, se algo aprendi do que ignorava e me era necessário para a reabilitação, também muito sofri e chorei, debruçado sobre a perspectiva das responsabilidades dos atos por mim praticados! Mesmo desfru­tando o convívio confortativo de tantos amigos devotados, tantos mentores zelosos do progresso de seus pupilos, derramei pranto pungentíssimo, enquanto, mui­tas vezes, o desânimo, essa hidra avassaladora e maldita, tentava deter-me os passos nas vias do programa que me tracei.

Aprendi, porém, a respeitar a idéia de Deus, o que já era uma força vigorosa a me escudar, auxiliando-me no combate a mim mesmo. Aprendi a orar, confabu­lando com o Mestre Amado nas asas luminosas e con­soladoras da prece lídima e proveitosa! Muito trabalhei, esforçando-me diariamente, durante quarenta anos, ao contacto de lições sublimes de mestres virtuosos e. sá­bios, a fim de que, das profundezas ignotas do meu ser, a imagem linda da Humildade surgisse para combater a figura perniciosa e malfazeja do Orgulho que durante tantos séculos me vem conservando entre as urzes do mal, soçobrado nos baixios da animalidade! Ao influxo caridoso dos legionários de Maria também comecei a soletrar as primeiras letras do divino alfabeto do Amor, e com eles colaborei nos serviços de auxílio e assistência ao próximo, desenvolvendo-me em labores de dedicação àqueles que sofrem, como jamais me julgara capaz! Lu­tei pelo bem, guiado por essas nobres entidades, estendi atividades tanto nos parques de trabalhos espirituais acessíveis à minha humílima capacidade como levando-as ao plano material, onde me foi permitido contribuir para que em vários corações maternos a tranqüilidade voltasse a luzir, em muitos rostinhos infantis, lindos e graciosos, o sorriso despontasse novamente, depois de dias e noites de insofrida expectativa, durante os quais a febre ou a tosse e a bronquite os haviam esmaecido, e até no coração dos moços, desesperançados ante a rea­lidade adversa, pude colocar a lâmpada bendita da Es­perança que hoje norteia meus passos, desviando-os da rota perigosa e traiçoeira do desânimo, que os teria impelido a abismos idênticos aos por mim conhecidos! Durante quarenta anos trabalhei, pois, denodadamente, ao lado de meus bem-amados Guardiães! Não servi tão só ao Bem, experimentando atitudes fraternas, mas tam­bém ao Belo, aprendendo com insignes artistas e “virtuoses” a homenagear a Verdade e respeitar a Lei, dando à Arte o que de melhor e mais digno foi possível extrair das profundezas sinceras de minhalma.

Não obstante, jamais me senti satisfeito e tranqüilo comigo mesmo! Existe um vácuo em meu ser que não será preenchido senão depois da renovação em corpo carnal, depois de plenamente testemunhado a mim mesmo o dever que não foi perfeitamente cumprido na última romagem terrena, abreviada pelo suicídio! A recordação dolorosa daquele Jacinto de Ornelas y Ruiz, por mim desgraçado com a cegueira irremediável, num gesto de despeito e ciúme, permanece indelével, impondo-se às cordas sensíveis do meu ser como estigma trágico do Remorso inconsolável, requisitando de meu destino futu­ro penalidade idêntica, ou seja — a cegueira, já que a prova máxima de ser cego fora por mim, anulada àfrente do primeiro ensejo ofertado pela Providência, me­diante o suicídio com que julgara poder libertar-me dela, ficando, portanto, com esse débito na consciência!

De há muito devera eu ter voltado à reencarnação. O que fora lícito aprender nas Academias da Cidade Esperança foi-me facultado generosamente, pela magnâ­nima diretoria da Colônia, a qual não interpôs dificul­dades ao longo aprendizado que desejei fazer. Até mes­mo avantajados elementos da medicina psíquica adquiri ao contacto dos mestres, durante aulas de Ciência e no desempenho de tarefas junto às enfermarias do Hospital Maria de Nazaré, onde sirvo há doze anos, substituindo Joel, que partiu para novas experiências terrenas, no testemunho que à Lei devia, como suicida que também era. Tal aptidão valer-me-á o poder tornar-me “médium curador”, mais tarde, quando novamente habitar a cros­ta do planeta onde tantas e tão graves expressões de sofrimento existem para flagelar a Humanidade culposa de erros constantes!

Faltava-me, todavia, o idioma fraterno do futuro, aquele penhor inestimável da Humanidade, e que tende­rá a envolvê-la no amplexo unificador das raças e dos povos confraternizados para a conquista do mesmo ideal: - o progresso, a harmonia, a civilização iluminada pelo Amor! Era estudo facultativo esse, como, aliás, todos os demais deveres que tenderíamos a abraçar, mas que os iniciados, particularmente, aconselhavam a fazermos, a ele emprestando grande importância, porqüanto esse idioma, cujo nome simbólico é o mesmo de nossa Cidade Universitária, isto é, Esperança — (Esperanto) —, re­solverá problemas até mesmo no além-túmulo, facul­tando aos Espíritos elevados o se comunicarem eficiente e brilhantemente, através de obras literárias e cientifi­cas, as quais o mundo terreno tende a receber do Invi­sível nos dias porvindouros — servindo-se de aparelhos mediúnicos que também se hajam habilitado com mais essa faculdade a fim de bem atenderem aos imperativos da missão que, em nome do Criador e por amor da Ver­dade e da redenção do gênero humano, deverão exercer.

Ora, convinha extraordinariamente aos meus inte­resses em geral e aos espirituais em particular, a aqui­sição, no plano invisível, desse novo conhecimento, ou seja, do idioma “Esperanto”. Ao reencarnar, levando-o decalcado nas fibras luminosas do cérebro perispiritual, em ocasião oportuna advir-me-ia a intuição de reapren­dê-lo ao contacto de mestres terrenos. Eu fora, aliás, informado de que seria médium na existência porvindoura e comprometera-me a trabalhar, uma vez reencarnado, pela difusão das verdades celestes entre a Humanidade, não obstante o fantasma da cegueira que se postou àminha espera nas estradas do futuro. Meditei profun­damente na conveniência que adviria da ciência de um idioma universal entre os homens e os Espíritos, do quan­to eu mesmo, como médium que serei, poderei produzir em prol da causa da Fraternidade — a mesma do Cris­to —, uma vez o meu intelecto de posse de tal tesouro! Obtida, pois, a permissão para mais esse curso, matri­culei-me na Academia que lhe era afeta e me dediquei fervorosamente ao nobre estudo.

Não era simplesmente um edifício a mais, figurando na extensa Avenida Acadêmica onde suntuosos palácios se alinhavam em magistral efeito de arte pura, mas escrínio de beleza arquitetônica, que levaria o pensador ao sonho e ao deslumbramento! Era também um templo, como as demais edificações, e nos seus majestosos recin­tos interiores a Fraternidade Universal era homenageada sem esmorecimentos, e sob as mais sadias inspirações da Esperança, por ministros do Bem, incansáveis em ope­rosidades tendentes ao benefício e progresso da Huma­nidade. Localizado num extremo da artéria principal da nobre e graciosa cidade do Astral, elevava-se sobre ligei­ro planalto circulado de jardins cujos tabuleiros profusos também se multiplicavam em matizes suaves, evolando oblatas de perfumes ao ar fresco, que se impregnava de essências agradáveis e puras. Arvoredos floridos, capri­chosamente mesclados de tonalidades verde-gaio e como que translúcidas, ora esguios, de galhadas festivas, ou frondosos, orlados de festões garridos onde doces vira­ções salmodiavam queixumes enternecidos, alinhavam as alamedas e pequenas praças do jardim, emprestando ao encantador recanto o idealismo augusto dos ambientes criados sob o fulgor das inspirações de mais elevadas esferas.

Não foi sem sentir vibrar nas cordas sutis do meu Espírito um frêmito de insólita emoção que lentamente galguei as escadarias que levavam à alameda principal, acompanhado, a primeira vez, de Pedro e Salústio, re­presentantes que eram da direção do movimento univer­sitário do cantão, isto é, espécie de inspetores escolares.

Ao longe, o edifício fulgia docemente, como estru­turado em esmeraldinos tons de delicada quinta-essência do Astral. Dir-se-ia que os revérberos do Astro Rei, que muito de mansinho penetrava os horizontes do nosso burgo, resvalando brandamente pelos zimbórios e pelas cornijas rendilhadas e graciosas, o envolviam em bênçãos diárias, aquecendo com ósculos de fraterno estímulo a idéia genial processada no seu interior augusto por um pugilo de entidades esclarecidas, enamoradas do progres­so da Humanidade, de realizações transcendentes entre as sociedades da Terra como do Espaço. Era, todavia, a única edificação refulgindo tonalidades esmeraldinas e fiavas, em desacordo com suas congêneres, que lucila­vam nuanças azuladas e brancas, e que não obedecia ao clássico estilo hindu. Lembraria antes o estilo gótico, evocando mesmo certas construções famosas da Europa, como a catedral de Colônia, com suas divisões e reen­trâncias bordadas quais jóias de filigrana, suas torres apontando graciosamente para o alto entre flamejamen­tos que se diriam ondas transmissoras de perene. ins­pirações para o exterior. Os recintos interiores não de­cepcionavam, porqüanto eram o que de mais belo e mais nobre pude apreciar nos interiores da Cidade Esperança. Feição de catedral, com efeitos de luzes surpreendentes e um acento de arte fluídica da mais fina classe que me seria possível conceber, compreendia-se imediatamente não serem orientais e tampouco iniciados os seus idea­lizadores; que não pertenceriam à falange sob cujos cui­dados nos reeducávamos e que antes deveria tratar-se de realização transplantada de outras falanges, como que uma embaixada especial, sediada em outras pia­gas, mas com elevadas missões entre nós outros, e cuja finalidade seria, sem sombra de dúvidas, igualmente al­truística.

Com efeito! A uma interrogação minha, Pedro e Salústio responderam tratar-se de uma filial da grande Universidade Esperantista do Astral, com sede em outra esfera mais elevada, a qual irradiava inspiração para suas dependências do Invisível, como até da Terra, onde já se iniciava apreciável movimentação em torno do no­bilíssimo certame, entre intelectuais e pensadores de todas as raças planetárias!

Igualmente não era, como as demais Escolas do nos­so burgo, dirigida por iniciados em Doutrinas Secretas. Seus diretores seriam neutros, na Terra como no Além, em matéria de conhecimentos filosóficos ou crenças re­ligiosas em geral. Seriam antes renovadores por exce­lência, idealistas a pugnarem por um melhor estado nas relações sociais, comerciais, culturais, etc., etc., que tan­to interessam a Humanidade. Ali destacamos grandes vultos reformadores do Passado emprestando do seu va­lioso concurso à formosa causa, alguns deles tendo vivido na Terra aureolados por insuspeitáveis virtudes, e com os próprios nomes registrados na História como mártires do Progresso, porqüanto trabalharam em várias etapas terrenas, nobre e heroicamente, pela melhoria da situa­ção humana e da confraternização das sociedades. Sur­preendido, ali encontrei plêiade cintilante de intelectuais de toda a Europa aderidos ao movimento, entre muitos o grande Victor Hugo, para só me referir a um repre­sentante do continente francês, ainda e sempre genial e trabalhador, dando de suas vastas energias à idéia da difusão de um inapreciável patrimônio entre a Hu­manidade. Quando, por isso mesmo, tomei lugar no amplo e bem iluminado salão para o advento das pri­meiras aulas, confessava-me grandemente atraido para essa nova e admirável falange de servidores da Luz. Uma vez no recinto, onde nuanças docemente esmeral­dinas se casavam ao rendilhado dourado da arquitetura fluídica e sutil, emprestando-lhe sugestões encantadoras, não me pude furtar à surpresa de averiguar ser o ele­mento feminino superior em número ao masculino, refe­rência feita aos aprendizes. E, durante o prosseguimento de todo o interessante curso, pude verificar com que fervor minhas gentis colegas de aprendizado, as mulheres, se dedicavam à vultosa conquista de armazenarem no refolho do cérebro perispirítico as bases espirituais de um idioma que, uma vez reencarnadas, lhes seria grato lenitivo no futuro, afã generoso a lhes descortinar hori­zontes mais vastos, assim para a mente como para o coração, dilatando ainda possibilidades muito mais ricas de suavizar criticas situações, remover empecilhos, solu­cionar problemas com que porventura viessem a deparar no trajeto das reparações e testemunhos inalienáveis do porvir. E que de afeições puríssimas e blandiciosas, du­rante o mencionado labor!... Ao amável aconchego dos meus companheiros de ideal esperantista, desde os pri­meiros dias harmonizadas as cordas do meu ser às suas vibrações gêmeas da minha, encheu-se o meu Espírito de indizível satisfação, o coração se me dilatando para o advento da mais viva e consoladora Esperança de me­lhores dias presidindo às sociedades terrenas do futuro, no seio das quais tantas vezes ainda renasceríamos, ru­mando para as alcandoradas plagas do Progresso!

Tal como no desenrolar das lições ministradas pelos antigos mestres Aníbal e Epaminondas, desde o primeiro dia de aula na Academia de Esperanto verificou-se ma­gistral desfile de civilizações terrenas. Suas dificuldades, muitas até hoje insanadas, muitos dos seus mais graves impasses foram analisados sob nossas vistas interessa­das, em quadros expositivos e seqüentes como o cine­matógrafo, mostrando a Humanidade a debater-se contra as ondas até hoje insuperáveis da multiplicidade de idio­mas e dialetos, dificuldades que figuravam ali como um dos flagelos que assolam a atribulada Humanidade, complicando até mesmo o seu futuro espiritual, porqüanto no próprio Mundo Invisível se luta contra estorvos mo­tivados pela diferença de linguagem, nas zonas inferio­res ou de transição, onde prolífera o elemento espiritual pouco evolvido ou ainda muito materializado. Minúcias, ramificações, conseqüências surpreendentes até mesmo dentro do lar doméstico, empeços desanimadores, no alon­gamento das relações e até do amor, entre as nações, os povos e os indivíduos, tudo foi magistralmente exa­minado desde as primeiras civilizações contempladas no planeta até ao século 20, que eu próprio não alcançara no plano material. E, depois, a simplificação dos mesmos casos, a remoção das mesmas dificuldades, a aurora de um progresso franco, também alicerçado na clareza de um idioma que será patrimônio universal, da mesma forma que a Fraternidade e o Amor, unindo idéias, men­tes, corações e esforços para um único movimento geral, uma gloriosa conquista: — a difusão da cultura em geral, a aproximação dos povos para o triunfo da uni­dade de vistas, a felicidade das criaturas!

Soletramos, então, os vocábulos. Eram-nos apresen­tados artística e gentilmente, através de quadros vivos e inteligentes. Sobrepunham-se estes em sequências ad­miráveis de leitura, fornecendo-nos o de que necessitá­vamos para nos apossarmos dos segredos que nos per­mitiriam mais tarde até mesmo discursar fluentemente, em assembléias seletas. Eram, portanto, álbuns, livros móveis, inteligentes, como que animados por fluído sin­gular, a nos ensinarem a conversação, a escrita, toda a esplendente irradiação de um idioma que se ia decalcan­do em nosso intelecto, permitindo-nos, quando reencar­nados, a explosão de intuições brilhantes tão logo nos encontrássemos na pista do assunto! E tais eram as perspectivas que nos acenavam os fatos do cimo glorioso daquela conquista, que nos senthhos triplicemente irma­nados a toda a Humanidade: pelos laços amoráveis da Doutrina do Cristo; pelo beneplácito da Ciência que nos iluminava o coração e pela finalidade a que nos arras­taria o exercício de um idioma que futuramente nos habilitaria a nos reconhecermos como em nossa propria casa, estivéssemos em nossa Pátria ou vivendo no seio de nações situadas nas mais diferentes plagas do globo terrestre, como até no seio do mundo invisível!

Ora, a Embaixada Esperantista em nossa Colônia não se limitava a facultar-nos elementos lingüísticos capazes de nos confraternizar com os demais cidadãos terrenos, com quem seríamos compelidos a viver nos arraiais da crosta planetária, em futuro próximo.

De quando em quando, das esferas mais elevadas desciam visitas de confraternização, no intuito generoso de encorajarem os irmãos de ideal ainda ergastulados nas dificuldades de antigas delinqüências. Verdadeiros congressos que eram, tais visitas à nossa Academia tra­tavam, em assembléias brilhantes, do interesse da Causa, das atividades para a vitória do Ideal, dos sacrifícios e lutas de muitos pares do novo empreendimento para a sua difusão e progresso! Era quando tínhamos ocasião de avaliar a colaboração daqueles vultos eminentes que viveram na Terra e cujos nomes a História registrou, e dos quais falamos mais atrás. Grandes turmas de alu­nos, aprendizes do mesmo movimento, e pertencentes a outras esferas, aderiam a tais congressos, piedosamente colaborando para o reconforto de seus pobres irmãos pri­sioneiros do suicídio.

Então, eram dias festivos em Cidade Esperança! Nas suntuosas praças ajardinadas que circundavam o majes­toso palácio da Embaixada Esperantista, sobre tapetes de relvas cetinosas, garridamente mescladas de miosótis azuis, de azáleas níveas ou róseas, realizavam-se os jogos florais, perfeitos torneios de Arte Clássica, durante os quais a alma do espectador se deixava transportar ao ápice das emoções gloriosas, deslumbrada diante da ma­jestade do Belo, que então se revelava em todos os delicados e maviosos matizes possíveis à sua compreensão! Destacavam-se os bailados coreográficos e mesmo indi­viduais, levados a cena por jovens e operosas esperan­tistas, cujas almas reeducadas à luz benfazeja da Fra­ternidade não desdenhavam testemunhar a seus irmãos cativos do pecado o apreço e a consideração que lhes votavam, descendo das paragens luminosas e felizes em que viviam para a visitação amistosa, com que lhes con­cediam tréguas para as ominosas preocupações através do refrigério de magnificentes expressões artísticas!

Então, a beleza do espetáculo atingia o indescritível, quando, deslizando graciosamente pelo relvado florido, pairando no ar quais libélulas multicores, os formosos conjuntos evolucionavam traduzindo a formosa arte de Terpsícore através do tempo e dos característicos das falanges que melhor souberam interpretá-la; agora, eram jovens que viveram outrora na Grécia, interpretando a beleza ideal dos “ballets” de seu antigo berço natal; depois, eram egípcias, persas, hebraicas, hindus, européias, extensa falange de cultivadores do Belo a encantar-nos com a graça e a gentileza de que eram portadoras, cada grupo alçando ao sublime o talento que lhes enriquecia o ser, enquanto suntuosos efeitos de luz inundavam o cenário como se feéricos, singulares fogos de artifício descessem dos confins do firmamento para irradiar em bênçãos de luzes sobre a cidade, que toda se engalana­va de esbatidos multicores, nuanças delicadas e lindas, que se transmudavam de momento a momento em raios que se entrechocavam, indescritívelmente, em artísticos jogos de cores, entrecruzando-se, transfundindo-se em cin­tilações sempre novas e surpreendentes! E todo esse em­polgante e intraduzível espetáculo de arte, que por si mesmo seria uma oblata ao Supremo Detentor da Be­leza, verificado ao ar livre e não no recinto sacrossanto dos Templos, fazia-se acompanhar de orquestrações ma­viosas onde os sons mais delicados, os acordes flébeis de poderosos conjuntos de harpas e violinos, que eram como pássaros garganteando modulações siderais, arran­cavam de nossos olhos deslumbrados, de nossos corações enternecidos, haustos de emoções generosas que vinham para tonificar nossos Espíritos, alimentando nossas ten­dências para o melhor, ao nosso ser ainda frágil descor­tinando horizontes jamais entrevistos para o plano in­telectual! Quantas vezes músicos célebres que viveram na Terra acompanharam as caravanas esperantistas ànossa Colônia, colaborando com suas sublimes inspira­ções, agora muito mais ricas e nobres, nessas fraternas festividades que o Amor ao próximo e o culto à Beleza promoviam! Mas tudo isso era manifestado em um es­tado de superioridade e grandiosa moral que os humanos estão longe de conceber!

Sucediam-se, porém, os concertos: cânticos orfeôni­cos atingiam expressões miríficas; peças musicais pe­rante as quais as mais arrebatadas melodias terrenas empalideceriam; certamens poéticos em cenas de decla­mação cuja suntuosidade tocava o inimaginável, arreba­tando-nos até ao êxtase! E o idioma seleto de que se utilizava esse pugllo magnífico de artistas pertencentes a falanges que viveram e progrediram sob a bandeira de todos os climas, de todas as Pátrias do globo terres­tre, era o Esperanto, aquele que iria coroar a iniciação que fizéramos, reeducando-nos aos conceitos da Moral, da Ciência e do Amor!



Só se admitia, no entanto, a Arte Clássica. Em nos­sa Cidade Universitária jamais presenciamos o regiona­lismo de qualquer espécie. E depois que as lágrimas banhavam nossas faces, empolgadas nossas almas ante tanto esplendor e maravilhas, diziam nossas boas vigi­lantes, acompanhando-nos ao internato para o repouso noturno: — Não vos admireis, meus amigos! O que vis­tes é apenas o início da Arte no além-túmulo... Tra­ta-se da expressão mais simples do Belo, a única que vossas mentalidades poderão alcançar, por enquanto... Em esferas mais bem dotadas que a nossa existe mais, muito mais!... Cumpre, porém, à alma pecadora ref a­zer-se das quedas em que incorreu, virtualizando-se atra­vés da renúncia, do trabalho, do amor, a fim de merecer o gravitar para elas...

O sentimento do dever leva-me a pensar seriamente na necessidade de volver aos páramos terrestres para testemunhar o desejo de me afinar definitivamente com a Ciência da Verdade que acabo de entrever durante meu estágio nesta Colônia. Não mais deverei permane­cer em Cidade Esperança, a menos que pretenda agravar minhas responsabilidades com um estado de estacionamento incompatível com os códigos que acabo de estu­dar e aceitar. Incorreria em grave falta dilatando por mais tempo a reparação que a mim mesmo devo, bem como à lei do Sempiterno, por mim espezinhada desde muitos séculos. Dos antigos companheiros e amigos que imigraram do Vale Sinistro e que do Hospital ingressa­ram na Cidade Universitária, sou eu o único que até hoje aqui permanece, desencorajado de experimentar as pró­prias forças nos embates expiatórios das arenas terres­tres. Belarmino de Queiroz e Sousa, o nobre amigo cuja preciosa afeição me era dos mais gratos lenitivos du­rante as difíceis pelejas espirituais a caminho da reabilitação, há dez anos que partiu para novas experimen­tações, tendo preferido renascer no Brasil, por maior facilidade lhe oferecer, ali, o amparo da protetora Dou­trina que abraçou durante os preparatórios nas Acade­mias. Debrucei-me, comovido e afetuoso, sobre seu triste berço de órfão pobre, pois perdeu a mãe, tuberculosa, um ano depois do nascimento. Muitas vezes tenho sus­surrado protestos de sempiterna ternura aos seus ouvidos infantis, durante as horas desoladas em que se põe a me­ditar, pequenino e infeliz, nos espinhos que já lhe ferem o coração. E muito hei chorado de compaixão e tristeza em contemplando sua infância angustiosa: — o braço semiparalítico, herança inevitável do suicídio no século XIX; mirrado e enfermo filho de tuberculosa, com idên­tico futuro a aguardá-lo na maioridade! Desejei partir com ele, servir-lhe de irmão, vivendo a seu lado a fim de ampará-lo, consolá-lo, a mim mesmo reanimando ao contacto de sua leal afeição. Impossível fazê-lo, porém! Seria missão de amor que não estaria ao alcance de um réprobo como eu, carente dos mesmos socorros e aten­ções! Na Terra, nossos destinos e situações serão diversos. Somente mais tarde, após a vitória dos testemunhos bem suportados, reencontrar-nos-emos, aqui mesmo, a fim de reiniciarmos a marcha para o Melhor. Doris Mary igualmente se apresentou em seu favor. Desejava se­gui-lo no círculo familiar, pois que o amava ternamente, predispondo-se a sacrifícios por desejar suavizar-lhe as mesmas amarguras com os desvelos de um sentimento vazado na fraternidade cristã. Não lhe foi, porém, con­cedida permissão para tanto, porqüanto tal abnegação implicaria círculo de infortúnios sucessivos e Doris pos­sui méritos, tem direitos e compensações concedidas pela Lei, no panorama social terreno, por ter vindo de uma existência em que palmilhou áspera trilha de amarguras bem suportadas ao lado de um esposo incompreensível e brutal, trilha que o suicídio de Joel infelicitou ainda mais. Agora, seus guias não aconselharam novos sacri­fícios pelo filho nos testemunhos que seria chamada a fazer e tampouco por Belarmino, que idêntico desgosto causara à sua velha e dedicada mãe! Ela velaria, antes, por ambos, qual sombra luminosa e protetora que do Além projetasse, sobre o trajeto a realizarem, inspiração e consolo nas horas decisivas!

Como vemos, não só Belarmino, mas também Joel descera às renovações reparadoras. João d’Azevedo e Amadeu Ferrari igualmente voltaram ao dever de reno­var as experiências fracassadas, e há oito anos já que os vi ingressar no Recolhimento para os devidos pre­parativos. Este último, presa de desgostos e inconso­láveis remorsos, nem mesmo terminou o curso de preparatórios que conviria a todos nós. Muniu-se de ardente coragem à luz dos ensinamentos do Divino Emissário e partiu, para o Brasil ainda, solicitando a mercê de um envoltório corporal negro e humílimo, onde positi­vasse pacientemente o duplo pesar que o afligia: — o suicídio de ontem e a tirania de outrora, como senhor de escravatura que fora! E não sei, Deus meu, por que me não encorajei ainda a lhes imitar o gesto nobre, quando até mesmo Roberto de Canalejas não mais faz parte do corpo de médicos aprendizes do Departamento Hospitalar, pois acaba de tomar novas vestes carnais em formosa incumbência nos Campos da Terceira Revela­ção, e quando Ritinha de Cássia, a linda e encantadora vigilante que tantas lágrimas enxugou aos meus olhos torturados de penitente, Ritinha, a quem me afeiçoara com a mais doce ternura fraternal possível ao meu co­ração, imitou o gesto de Roberto! Nas pelejas planetá­rias não existirá a tarefa matrimonial nas cogitações deste amigo admirável. Fiel ao antigo sentimento pela consorte adorada, preferiu antes servir a causas mais vastas, desdobrando-se em atividades a prol da coletivi­dade. Rita, porém, caráter adamantino, coração evol­vido para as altas aspirações, capaz, por isso mesmo, de positivar missões femininas de grande responsabili­dade, pediu e obteve permissão de seguir no encalço de Joel, desposando-o após o testemunho que a este será indispensável frente à repetição das experiências em que fracassou, surgindo em sua vida como radiosa aleluia depois que ele se reabilitar perante a própria consciên­cia! Amavam-se! Bem cedo percebi-o! E, enquanto traço estas linhas, ponho-me a pensar sobre a excelsitude da bondade do Senhor dos Mundos e das Criaturas, que permite à alma humana tais compensações, depois do ressurgimento das trevas do pecado!... (28)



Rita será, na Terra, como foi no Espaço, a vigilante amorosa e gentil que, no círculo familiar terreno, se rodeará de almas ainda carentes de amparo, consolan­do-as, reanimando-as, aquecendo-as sob as doçuras dos seus afetos, ao mesmo tempo que, através de virtuosos exemplos, as impulsiona para os caminhos da Vitória!

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