Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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(28) Quantas vezes, nas efervescências de um sofrimen­to parecido irremediável, desespera-se a criatura, atirando-se àaventura sinistra de um suicídio, quando, dentro de curto espaço de tempo, encontraria a solução para o seu problema, a compen­sação, o auxílio da Providência como o consolo de que carecia! Faltou-lhe a paciência, porém, a necessária calma para refletir e esperar a melhoria da situação, e por isso um abismo de trevas, em séculos de lutas e renovações idênticas às fracassadas, positi­vou-se para o seu destino, ensinando que o que convém à criatura é a fortaleza e a paciência na adversidade, mas jamais a revolta e o desespero, que para nada aproveitam!
No vasto dormitório do Internato de Cidade Espe­rança, onde habito desde os alvores do ano de 1910, só existem “novatos”. As vezes profunda desolação vem aça­brunhar minhalma, como alguém que, vivendo na Terra muitas décadas, se visse deserdado da presença dos ami­gos e familiares mais queridos, contemplando az ruínas que a ausência dos seres amados, tragados pela morte, cavaram em torno de sua velhice, onde o gelo das ínti­mas agonias se aquartela, tornando-o incompreensível e Intolerável no conceito dos moços que agora lhe po­voam os dias. Os leitos dos meus velhos amigos são hoje ocupados por entidades outras que, conquanto tam­bém afinadas por idêntico. princípios e ideais, não estão a mim tão ternamente estreitadas pelas cadeias forja­das no tempo e nos infortúnios em comum... Ali está a janela de balaústre. bordados, ampla, dividida em três arcos de fino lavor artístico, lembrando construções hindus sublimadas por uma classe superior. Ao amanhe­cer, Belarmino se debruçava no seu peitoril para saudar a alvorada e comungar com o Alto na patena augusta da Prece! Aqui, a mesa singela em que me parece ainda ver debruçado o vulto constrangido e triste de João d’Azevedo exercitando a programação das atividades con­venientes ao seu caso, nos campos carnais. Acolá, dis­postos pitorescamente sob os cortinados olentes das ga­lhadas do parque, os bancos onde eu e meus velhos companheiros de infortúnio nos recreávamos, falando das esperanças que acendiam energias novas em nosso imo! Contemplo esses pequenos nadas e as lágrimas me acor­rem aos olhos. São as saudades que sussurram angús­tias no recesso de minhalma, dizendo que devo imitá-los sem detença, à procura de solver as dívidas incômodas da consciência! Jamais, no entanto, me deixei ficar ocio­so. Procuro serenar o coração entristecido, ao lado de meus caros conselheiros, dando-me ao afã de servir aos mais sofredores do que eu. Reparto-me entre as tarefas do Hospital e variadas outras incumbências ao meu alcance, tanto na crosta do planeta como no perímetro de nossa Colônia, únicos limites em que poderei transitar enquanto não apresentar à Grande Lei os testemunhos devidos! Mas nada disso será capaz de arredar das mi­nhas ansiosas preocupações o juizo que de mim mesmo faço, juízo depreciativo daquele que sabe que principia a incorrer em novas faltas, agravando voluntariamente as responsabilidades que já lhe pesam. Dir-se-ia que não passo de um inescrupuloso parasito, a ocupar locais que melhor caberiam a outrem! E o rubor me cobre as faces sempre que, pelas alamedas pitorescas da Cidade, me éntrecruzo com Aníbal de Silas, Epaminondas de Viga e Souria-Omar, os quais há muito me dispensaram de suas aulas, até que, com a experiência do renascimento, possa eu dignamente provar os valores adquiridos. Sorriem-me bondosamente, contemplam-me com interesse. Mas os olhares que me dirigem são como flechas de fogo a perquirirem em minha consciência a razão por que me não animei ainda ao cumprimento do dever!

Carlos de Canalejas e Ramiro de Guzman muito me têm aconselhado nestes últimos tempos. Antes de partir para a reencarnação, fez Roberto que se estreitassem minhas relações de amizade com seu antigo sogro e ami­go, recomendando-lhe ainda que se não olvidasse de a mim narrar, algum dia, a história dramática de Leila, cujo amor transportou às culminâncias da dor o coração de ambos. Tenho servido sob sua assistência freqüen­temente, o que me forneceu vasto campo de trabalhos no setor terreno, pois, como sabemos, é ele o chefe da Seção de Relações Externas. Sob sua orientação tenho visitado os amigos de outrora, agora de volta ao cárcere carnal. Há cerca de dois meses regressei de um estágio de doze semanas nas plagas brasileiras, onde serviços de experiências, no campo da propaganda das verdades sublimes que hoje me edificam, absorveram minhas preo­cupações. Levou-me o bom mentor a visitar Mário So­bral, reencarnado em certa capital tumultuosa do Brasil. Não me contive e deixei-me prorromper em copioso pran­to à beira do grabato em que vi repousando o corpo mutilado do desgraçado amante e assassino da formosa Eulina. Sua habitação miserável, construída em frágeis tábuas de pinho e folhas de zinco arruinado pelo tempo, é a expressão da mais sórdida miséria dos brasileiros jungidos aos fogos de expiações dolorosas, na recons­trução sublime de si mesmos. Mas é também o único lar que convém à reencarnação de um antigo boêmio vaidoso dos dotes físicos, que, pelos antros de vadiagem brilhante e pela infâmia dos lupanares, desbaratou a herança paterna honrada e dificultosamente adquirida nos labores campestres!

Andrajosamente vestido, pés descalços crestados pela continuação do contacto com as pedras e poeiras das estradas em que transita; mutilado das mãos, cabelos ainda revoltos, despenteados, tal qual o víamos desde o Vale Sinistro, no Invisível; traços fisionômicos seme­lhantes aos que conhecíamos no Além; enfermo e ner­voso, atacado de estranha enfermidade que lhe tortura a traquéia como os canais faríngeos, o que o leva freqüentemente a crises penosas, atraindo febre alta e tornando-o afônico; sem família, porque outrora, em Lis­boa, ultrajou o círculo familiar em que havia nascido, honrado e amorável, que a Providência lhe permitira a fim de que ao seu contacto virtuoso se munisse de boa-vontade para realizações honestas; pobre, miserável, mesmo faminto, porque não foi depositário fiel no pre­térito, dos bens materiais que o Céu lhe confiara, antes dissipou-os, deles se valendo para a perversão dos costumes; analfabeto, uma vez que, universitário em Coimbra na existência pregressa, não aproveitara para nenhuma finalidade nobre a rica cultura intelectual com que a ciência das letras o dotara, antes deixou-se res­valar para a improdutividade, conturbando-se na bruteza dos costumes e incapacidades morais para a edificação de si mesmo como dos semelhantes; o que eu tinha ago­ra sob meu olhar apavorado já não era aquele Mário cujo verbo brilhante e farto vocabulário encantava os companheiros de enfermaria, mas um infeliz mendicante, que estendia súplicas à caridade dos transeuntes! Era a ruína social reduzida ao mais baixo e amargurobo nível que me fora possível contemplar, e, por isso mesmo, prorrompi em pranto compadecido e angustiado. Mas ao meu lado Ramiro de Guzman sorria enternecido, ten­

tando reconfortar-me com a luminosidade consoladora das sábias apreciações emitidas:

“— Exageras, Camilo! Não contemplamos um re­positório de ruínas neste casebre ou neste fardo corporal mutilado, mas trabalho de reerguimento de uma Alma pertencente à Imortalidade, a quem os fogos de sinceros remorsos fustigaram, impelindo-o a conquistas enobre­cedoras! Profundamente arrependido do passado mau, como deves recordar, Mário traçou — ele mesmo! — o mapa de expiações que aí vês, enquanto o suicídio por enforcamento forneceu a origem da enfermidade nervo­sa e da insuficiência vibratória dos aparelhos faríngeos, uma vez que seu organismo perispiritual se viu gran­demente atingido pelas repercussões dali advindas... o que vem demonstrar ser todo este lamentável presente obra do seu próprio passado e não punição provinda de um juiz austero ou inclemente que se desejaria vingar.

Contemplas ruínas, dizes?... Pois bem, destes es­combros ruinosos, cuja visão te amargura, despontará para teu amigo Mário Sobral a alvorada de progressos novos, porqüanto, aqui se refazendo, estará solvida a dívida desonrosa que o atava às galés do remorso, rea­bilitando-o perante si mesmo e perante as leis que in­fringiu... Aliás, julgas, porventura, vê-lo aqui abando­nado, à mercê tão-somente da caridade das criaturas humanas?... Enganas-te!... Pois não é, antes, pupilo da Legião dos Servos de Maria?... Não se encontra registrado no Hospital Maria de Nazaré? Deves recordar que tal encarnação é o tratamento conveniente a casos gravosos como o dele, sublime cirurgia que o levará bem cedo à convalescença... Irmão Teócrito não estara, por­ventura, à testa dos seus passos?... Vigilantes e enfer­meiros do Hospital, como do Departamento a que pertenço, não o assistem carinhosamente, por ele velando como por enfermo grave, diariamente transfundindo ener­gias, coragem, esperanças, sempre novas e mais sólidas, na sublime preocupação de ajudá-lo a remover as pe­sadas montanhas das iniquidades levantadas em seu destino pelos atos por ele próprio cometidos à revelia do Bem?... Freqüentemente, eu mesmo não o visito, como neste momento o faço, fiel às incumbências que me dizem respeito, e não encaminho seu Espírito, muitas vezes, aos nossos postos de emergência do Astral, no intuito de reconfortá-lo, avivando energias fluídicas no seu en­voltório físico-espiritual, a fim de que suporte a amarga sentença que se traçou sem demasiados desfalecimen­tos?... Não sabes, ao demais, que se arrasta entre sor­risos de uma conformidade que vem construindo vitória insofismável no ciclo expiatório inapelável que lhe cum­pre vencer?... Sente-se ele mesmo feliz, pois, nas pro­fundezas da consciência, existe a iluminá-lo a certeza alvissareira de que assim, tal qual o vês, está cumprindo o sagrado dever de cidadão imortal, cujo destino será afinar-se com os ritmos harmoniosos da lei do Bem e da Justiça universais!”

Calei-me, resignado e pensativo, pondo-me a meditar nas resoluções urgentes que eu mesmo deveria tomar. De Guzman apôs as mãos translúcidas sobre a fronte escaldante do antigo pupilo de Teócrito, transmitindo virtudes fluidicas que lhe beneficiassem a acabrunha­dora dispnéia. Detive-me em concentração respeitosa, suplicando à Governadora Amorosa de nossa Legião con­cedesse alivio ao mísero comparsa de minhas antigas desventuras, ao passo que, terminada a operação gene­rosa, virou-se novamente o nobre amigo, consolativo:

A Providência nos enseja caminhos de glórias, meu caro amigo, em lutas fecundas entre lágrimas e oportunidades de redenção... E, no trajeto, concede aos penitentes arrependidos compensações que freqüentemen­te não estarão à altura de apreciar, dados os impositivos criados pelo estágio em um fardo carnal...”

Virou-se para um ângulo sombrio do casebre, que eu deixara de examinar, preocupado com o quadro apre­sentado pela presença de Mário reencarnado, e apontou para uma forma que, humilde e silenciosa, velava o doen­te, enquanto costurava remendos em fatos já rotos, e disse:

“- Vês esta pobre mulher?... Não poderás sequer avaliar o excelente trabalho de redenção que, sob as vis­tas do Excelso Mestre, se opera nos refolhos de sua alma, tão arrependida quanto a de Mário, entre os es­pinhos de pobreza extrema, de lutas tão árduas quanto dignamente suportadas!...”

Busquei orientar-me, interessado e comovido ante o acento enternecido do nobre pensador que me acompa­nhava. Ao lado da porta de entrada, única existente no paupérrimo domicílio, procurando um pouco de clari­dade que a auxiliasse no trabalho humllimo em que se entretinha, destaquei uma mulher de cor negra, pobre­mente vestida, porém, asseada, aparentando cerca de cin­qüenta anos. De sua fisionomia serena transpareciam singeleza e humildade. Admirado, interpelei o caridoso mentor:

“— Não a conheço... De quem se trata?...”

“— Faze tu mesmo um esforço, Camilo... Penetra as ondas vibratórias do seu pensamento, que progride no trabalho das recordações, e vê o que sucedeu há cerca de quarenta anos, ou seja, na época em que retornou Mário ao círculo carnal terreno..

Obedeci, intrigado, enquanto a mulher negra se apro­ximava do enfermo, ministrando-lhe certa medicamenta­ção homeopata, carinhosamente levantando-lhe a cabeça para, em seguida, retornar ao trabalho. Em derredor, o silêncio convidava à eclosão das recordações. Entar­decia lá fora e o Sol feérico do Brasil esbraseava o oci­dente com seus raios ardentes de ouro festivo, ilumi­nando o firmamento com mil reflexos coralinos. Cá dentro a mulher pensava, pensava... Em torno do seu cérebro as imagens se erguiam em agitações e seqüên­cias caprichosas, enquanto, apavorado e comovido, eu lia e compreendia como num edificante livro aberto diante de meus olhos:

— Mário renascera em um lupanar... Sua mãe, in­conformada com a maternidade, observando, para cúmu­lo de desgraça, a mutilação deprimente, e vendo o filho sem forças para soltar os álacres vagidos do recém-nascido, meio sufocado por contrações espasmódicas qual se mãos férreas o desejassem prematuramente estran­gular, encheu-se de horror e prorrompeu em excruciante pranto, repelindo o monstrengo que concebera. Tratava-se de infeliz pecadora, a quem a maternidade seria empecilho à continuação da liberdade que se permitia. Contrafeita, pois, confiou o miserável rebento a uma pobre lavadeira que vivia pelas imediações, honestamente curvada sobre as duras tarefas impostas pela pobreza, prometendo gratificá-la mensalmente pelos serviços pres­tados ao pequenito. Aquiesceu a boa operária, não visando tão-só ao acréscimo do rendimento para sua des­provida bolsa, mas, principalmente, obedecendo aos im­pulsos caritativos do bem formado coração que trazia, porqüanto, adepta de um farto manancial de luzes e esclarecimentos — a Terceira Revelação —, não obstante a condição obscura que ocupava no plano social, sabia que a adoção daquele entezinho que assim entrava na vida terrena, rodeado de tão sombrios informes do pas­sado e tão desoladoras perspectivas no presente, seria certamente desígnio traçado pelo Alto! Recebeu-o, pois, em sua humilde choça, procurando amá-lo quanto possí­vel, já que à sua porta batia ao nascer. Tinha ainda uma filha, menina de dez anos, pensativa e trabalha­dora, e que obedientemente cooperava com a mãe nas lides difíceis de cada dia. Afeiçoou-se ão irmãozinho que o destino lançara em seus braços e, para auxiliar o esforço materno, criou pacientemente o desgraçado en­fermo, dedicando-se durante quarenta anos à desvane­cedora missão — como jamais o faria uma grande dama! Morrendo-lhe a genitora havia mais de quinze anos e falhando bem cedo a promessa da gratificação pela mãe irresponsável, feita no momento do repúdio ao filho in­feliz, ali estava ainda, fiel no posto de abnegação, traba­lhando para que o desventurado irmão tivesse de esmolar pelas ruas o menos possível!...

Aproximei-me da mulher e, num gesto de agrade­cimento pelo muito que vinha concedendo ao meu amigo querido, descansei a destra sobre aquela fronte negra que, para mim, naquele momento, era como se se au­reolasse de adamantinos fulgores:

“— Que Jesus a abençoe, minha irmã, pelo muito que faz pelo pobre Mário, a quem sempre conheci tão sofredor!” — murmurei, sentindo lágrimas doloridas in­vadirem meus pobres olhos espirituais.

D. Ramiro de Guzman, aproximando-se grave, como reverenciando a Lei Sublime cujo magnânimo esplendor cintilava naquele tugúrio propício à redenção, sussurrou, surpreendendo-me até ao assombro:

“— Talvez ainda não adivinhaste quem ai está, en­coberta neste envoltório corporal de cor negra, desdo­brando-se em atividades cristãs a serviço do próprio reerguimento espiritual?...”

E porque eu o fitasse, interrogativo:

“— Eulina!. .

Tomei a resolução inadiável: — seguirei amanhã para o Departamento de Reencarnação, a caminho do Recolhimento, para tratar do esboço corporal físico-ter­reno, cuidando de pesquisas para o ambiente mais pro­pício ao renascimento reparador. Consultei todas as autoridades da Colônia afetas ao meu caso e foram unâ­nimes em me reanimar para o indispensável e proveitoso certame. Desejei levantar, eu mesmo, o programa para minhas tarefas de reajustamento às leis infringidas pelo suicídio, pois que possuo lucidez suficiente para tomar responsabilidade de tal vulto. Hei de cegar aos quarenta anos, mas cegar irremediavelmente, como se as órbitas vazias de Jacinto de Ornelas se transterissem para mi­nha máscara fisionômica depois de três séculos de expec­tativa do meu Espírito dolorosamente apavorado diante da imagem incorruptível da Justiça! Consultei, todavia, pedindo inspiração e auxílio, os mestres queridos — Ãní­bal de Silas, Epaminondas de Vigo, Souria-Omar e Teó­crito —, os quais carinhosamente atenderam minha so­licitação por me ajudarem a equilibrar as linhas gerais da programação com os dispositivos da Lei. Todavia, só após minha internação no Recolhimento subirão os informes para o beneplácito do Templo. Afiançaram-me, aqueles amigos queridos, que se debruçarão sobre meus passos, guiando-me na senda do dever, inspirando-me nas horas decisivas quais tutelares incumbidos da minha guarda enquanto durar meu estágio neste generoso Ins­tituto. Disseram-me que a assistência médica aquarte­lada no Departamento Hospitalar acompanhará a evo­lução do meu próximo futuro envoltório carnal desde o embrião, no sagrado escrínio genético, até os derra­deiros instantes da agonia e da separação do meu Es­pírito do fardo que arrastarei para recuperação do tempo perdido com o suicídio! Dar-se-á minha libertação dos liames físico-terrenos aos sessenta anos de idade, tendo, portanto, vinte anos para olhar só para dentro de mim mesmo, a realizar trabalho fecundo e glorioso de auto-educação por domar manifestações do orgulho que em meu ser não se extinguiu ainda! Freqüentemente assal­ta-me o receio de uma nova queda, do olvido dos deveres e tarefas a cumprir uma vez submerso no oceano de uma reedição corporal, olvido tão comum ao Espírito que ensaia a própria reabilitação. Mas meus instrutores advertiram-me de que levarei sólidos elementos de vi­tória adquiridos no longo estágio reeducativo, e que por isso mesmo será bem pouco provável que a minha von­tade se corrompa ao ponto de me arrastar a maiores e mais graves responsabilidades.

Departamentos da Colonia, a começar pela Vigilância, com Olivier de Guzman e Padre Anselmo. Todos foram unânimes em me prome­terem assistência durante o exílio irremediável, através de rogativas ao Senhor de Todas as Coisas. Sinto-me, prematuramente, saudoso deste suave reduto que por Despedi-me de todos os amigos e companheiros, em peregrinação fraterna pelos espaço tão longo de tempo me abrigou, e onde tantos e preciosos esclarecimentos adquiri para o reinlcio de atividades nos meios sociais em que serei chamado a provar novos valores morais. Há alguns dias verdadeira romaria de amigos acorre a este Internato, a fim de visitar-me. Chefes de seção, enfermeiros, vigilantes, e até psiquistas e instrutores abraçam-me, felicitando-me pela resolução tomada e augurando dias gloriosos para o meu Espírito nos serviços de reabilitação. Apresen­tem-me ainda, cheios de bondade e estimulo, votos de vitória e aquisição de méritos. E por tudo me sinto agra­decido, certo de que, nos testemunhos novos que me es­peram às margens pitorescas do velho e querido Tejo que tanto tenho amado e do qual ainda agora me não desejo separar, falange luminosa de entidades amigas estará presente a fim de me reanimar com sua desva­necedora inspiração. E ontem me ofereceram um festim de despedida! Surpresa confortadora esperava-me em meio dessa reunião onde a fraternidade e a beleza mais uma vez ditavam suas intraduzíveis expressões: — atra­vés dos nossos possantes aparelhamentos de visão a distância pude contemplar, pela primeira vez, a formosa Mansão do Templo, na plenitude da sua harmoniosa e intraduzível beleza ambiente! Assisti, assim, a uma assembléia de iniciados, ouvi-lhes os discursos sublimes, inspirados nas mais altas expressões da Moral, da Filo­sofia, da Ciência, do Belo — da Verdade, enfim — que me fora possível suportar! No santuário onde se reu­niam, lá estavam — a mesa augusta da comunhão com o Alto e os doze varões responsáveis por toda a Colônia unidos em identidade de vistas e ideais para o solene momento da Prece! E depois o panorama arrebatador do burgo que eu não poderei penetrar senão de volta da encarnação que me espera, a sucessão de residências, os vastos horizontes floridos esbatidos por delicadas nuanças azuladas a que os revérberos do Astro Rei trans-fundem cintilações douradas... As lágrimas inundaram-me as faces, enquanto, decalcando a augusta visão nos refolhos da consciência, como benfazejo estimulo para as lides ásperas do futuro, minhalma murmurava a si própria:

— Coragem, peregrino do pecado! Volta ao ponto de partida e reconstrói o teu destino e virtualiza o teu caráter aos embates remissores da Dor Educadora! Sofre e chora resignado, porque tuas lágrimas serão o manan­cial bendito onde se irá dessedentar tua consciência se­quiosa de paz! Deixa que teus pés sangrem entre os cardos e as arestas dos infortúnios das reparações ter­renas; que teu coração se despedace nas forjas da ad­versidade; que tuas horas se envolvam no negro manto das desilusões, calcadas de angústias e solidão! Mas tem paciência e sê humilde, lembrando-te de que tudo isso é passageiro, tende a se modificar com o teu reajusta­mento às sagradas leis que infringiste... e aprende, de uma vez para sempre, que — és imortal e que não será pelos desvios temerários do suicídio que a criatura humana encontrará o porto da verdadeira felicidade...


Fim

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