Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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(3) Certa vez, há cerca de vinte anos, um dos meus dedica­dos educadores espirituais — Charles — levou-me a um cemi­tério público do Rio de Janeiro, a fim de visitarmos um suicida que rondava os próprios despojos em putrefação. Escusado será esclarecer que tal visita foi realizada em corpo astral. O peris­pírito do referido suicida, hediondo qual demônio, infundiu-me pavor e repugnância. Apresentava-se completamente desfigurado e irreconhecível, coberto de cicatrizes, tantas cicatrizes quantos haviam sido os pedaços a que ficara reduzido seu envoltório carnal, pois o desgraçado jogara-se sob as rodas de um trem de ferro, ficando despedaçado. Não há descrição possível para o estado de sofrimento desse Espírito! Estava enlouquecido, ator­doado, por vezes furioso, sem se poder acalmar para raciocinar, insensível a toda e qualquer vibração que não fosse a sua imensa desgraça! Tentamos falar-lhe: — não nos ouvia! E Charles, tris­temente, com acento indefinível de ternura, falou: — “Aqui, só a prece terá virtude capaz de se impor! Será o único bálsamo que poderemos destilar em seu favor, santo bastante para, após certo período de tempo, poder aliviá-lo...” — E essas cicatrizes?

perguntei, impressionada. — “Só desaparecerão — tomou Charles — depois da expiação do erro, da reparação em existências amargas, que requererão lágrimas ininterruptas, o que não levará menos de um século, talvez muito mais... Que Deus se amerceie dele, porque, até lá... Durante muitos anos orei por esse infeliz irmão em minhas preces diárias. — (Nota da médium)
estorci-me em apavorantes convulsões de dor e de raiva, rebolcando-me em crises de furor diabólico, compreen­dendo que me suicidara, que estava sepultado, mas que, não obstante, continuava vivo e sofrendo, mais, muito mais do que sofria antes, superlativamente, monstruosa­mente mais do que antes do gesto covarde e impensado!

Cerca de dois meses vaguei desnorteado e tonto, em atribulado estado de incompreensão.

Ligado ao fardo carnal que apodrecia, viviam em mim todas as imperio­sas necessidades do físico-humano, amargura que, aliada aos demais incômodos, me levava a constantes desespe­rações. Revoltas, blasfêmias, crises de furor acometiam-me como se o próprio inferno soprasse sobre mim suas nefastas inspirações, assim coroando as vibrações malé­ficas que me circulavam de trevas. Via fantasmas pe­ranbulando pelas ruas do campo santo, não obstante minha cegueira, chorosos e aflitos, e, por vezes, terrores inconcebíveis sacudiam-me o sistema vibratório a tal ponto que me reduziam a singular estado de desmaio, como se, sem forças para continuar vibrando, minhas potências anímicas desfalecessem!

Desesperado em face do extraordinário problema, entregava-me cada vez mais ao desejo de desaparecer, de fugir de mim mesmo a fim de não mais interrogar-me sem lograr lucidez para responder, incapaz de raciocinar que, em verdade, o corpo físico-material, modelado do limo putrescível da Terra, fora realmente aniquilado pelo suicídio; e que o que agora eu sentia confundir-se com ele, porque solidamente a ele unido por leis naturais de afinidade que o suicídio absolutamente não destrói, era o físico-espiritual, indestrutível e imortal, organização viva, semimaterial, fadada a elevados destinos, a porvir glorioso no seio do progresso infindável, relicário onde se arquivam, qual o cofre que encerrasse valores, nossos sentimentos e atos, nossas realizações e pensamentos, en­voltório que é da centelha sublime que rege o homem, isto é, a Alma! eterna e imortal como Aquele que de Si Mesmo a criou!

Certa vez em que ia e vinha, tateando pelas ruas, irreconhecível a amigos e admiradores, pobre cego hu­milhado no além-túmulo graças à desonra de um suicí­dio; mendigo na sociedade espiritual, faminto na miséria de Luz em que me debatia; angustiado fantasma vaga­bundo, sem lar, sem abrigo no mundo imenso, no mun­do infinito dos Espíritos; exposto a perigos deploráveis, que também os há entre desencarnados; perseguido por entidades perversas, bandoleiros da erraticidade, que gos­tam de surpreeender, com ciladas odiosas, criaturas nas condições amargurosas em que me via, para escravizá­-las e com elas engrossar as fileiras obsessoras que des­baratam as sociedades terrenas e arruinam os homens levando-os às tentações mais torpes, através de influen­ciações letais — ao dobrar de uma esquina deparei com certa multidão, cerca de duzentas individualidades de ambos os sexos. Era noite.

Pelo menos eu assim o su­punha, pois, como sempre, as trevas envolviam-me, e eu, tudo o que venho narrando, percebia mais ou menos bem dentro da escuridão, como se enxergasse mais pela percepção dos sentidos do que mesmo pela visão. Aliás, eu me considerava cego, mas não me explicando até en­tão como, destituído do inestimável sentido, possuía, não obstante, capacidade para tantas torpezas enxergar, ao passo que não a possuía sequer para reconhecer a luz do Sol e o azul do firmamento!

Essa multidão, entretanto, era a mesma que vinha concertando o coro sinistro que me aterrava, tendo-a eu reconhecido porque, no momento em que nos encon­tramos, entrou a uivar desesperadamente, atirando aos céus blasfêmias diante das quais as minhas seriam meros gracejos!

Tentei recuar, fugir, ocultar-me dela, apavorado por me tornar dela conhecido. Porém, porque marchasse em sentido contrário ao que eu seguia, depressa me envol­ veu, misturando-me ao seu todo para absorver-me com­pletamente em suas ondas!

Fui levado de roldão, empurrado, arrastado mau gra­do meu; e tal era a aglomeração que me perdi totalmen­te em suas dobras. Apenas me inteirava de um fato, porque isso mesmo ouvia rosnarem ao redor, e era que estávamos todos guardados por soldados, os quais nos conduziam. A multidão acabava de ser aprisionada! Ácada momento juntava-se, a ela outro e outro vagabundo, como acontecera comigo, e que do mesmo modo não mais poderiam sair.

Dir-se-ia que esquadrão completo de mi­licianos montados conduzia-nos à prisão.

Ouviam-Se as patadas dos cavalos sobre o lajedo das ruas e lanças afiadas luziam na escuridão, impondo temor.

Protestei contra a violência de que me reconhecia alvo. Em altas vozes bradei que não era criminoso e dei-me a conhecer, enumerando meus títulos e qualidades. Mas os cavaleiros, se me ouviam, não se dignavam res­ponder. Silenciosos, mudos, eretos, marchavam em suas montadas fechando-nos em círculo intransponível! À fren­te o comandante, abrindo caminho dentro das trevas, empunhava um bastão no alto do qual flutuava pequena flâmula, onde adivinhávamos uma inscrição. Porém eram tão acentuadas as sombras que não poderíamos lê-la, ain­da que o desespero que nos vergastava permitisse pausa para manifestarmos tal desejo.

A caminhada foi longa. Frio cortante enregelava-nos. Misturei minhas lágrimas e meus brados de dor e deses­pero ao coro horripilante e participei da atroz sinfonia de blasfêmias e lamentações. Pressentíamos que bem se­guros estávamos, que jamais poderíamos escapar!

Toca­dos vagarosamente, sem que um único monossílabo lo­grássemos arrancar aos nossos condutores, começamos, finalmente, a caminhar penosamente por um vale pro­fundo, onde nos vimos obrigados a enfileirar-nos de dois a dois, enquanto faziam idêntica manobra os nossos vi­gilantes.

Cavernas surgiram de um lado e outro das ruas que se diriam antes estreitas gargantas entre montanhas abruptas e sombrias, e todas numeradas. Tratava-se, certamente, de uma estranha “povoação”, uma “cidade” em que as habitações seriam cavernas, dada a miséria de seus habitantes, os quais não possuiriam cabedais sufi­cientes para torná-las agradáveis e facilmente habitá­veis. O que era certo, porém, é que tudo ali estava por fazer e que seria bem aquela a habitação exata da Des­graça! Não se distinguiria terreno, senâç pedras, lama­çais ou pântanos, sombras, aguaceiros... Sob os ardores da febre excitante da minha desgraça, cheguei a pen­sar que, se tal região não fosse um pequeno recôncavo da Lua, existiriam por lá, certamente, locais muito semelhantes­...

Internavam-nos cada vez mais naquele abismo... Seguíamos, seguiamos... E, finalmente, no centro de grande praça encharcada qual um pântano, os cavaleiros fizeram alto. Com elas estacou a multidão.

Em meio do silêncio que repentinamente se estabe­leceu, viu-se que a soldadesca voltava sobre os próprios passos a fim de retirar-se.

Com efeito! Um a um vimos que se afastavam todos nas curvas tortuosas das vielas lamacentas, abandonan­do-nos ali.

Confusos e atemorizados seguimos ao seu encalço, ansiosos por nos afastarmos também.

Mas foi em vão! As ruelas, as cavernas e os pântanos se sucediam, bara­lhando-se num labirinto em que nos perdíamos, pois, para onde nos dirigíssemos, depararíamos sempre o mesmo cenário e a mesma topografia. Inconcebível terror apos­Sou-se da estranha malta. Por minha vez, não poderia sequer pensar ou refletir, procurando solução para o mo­mento.

Sentia-me como que envolvido nos tentáculos de horrível pesadelo, e, quanto maiores esforços tentava para racionalmente explicar-me o que se passava, menos compreendia os acontecimentos e mais apoucado me con­fessava no assombro esmagador!

Meus companheiros eram hediondos, como hedion­dos também se mostravam os demais desgraçados que nesse vale maldito encontráramos, os quais nos recebe­ram entre lágrimas e estertores idênticos aos nossos. Feios, deixando ver fisionomias alarmadas pelo horror; esqüálidos, desfigurados pela intensidade dos sofrimen­tos; desalinhados, inconcebívelmente trágicos, seriam ir­reconhecíveis por aqueles mesmos que os amassem, aos quais repugnariam! Pus-me a bradar desesperadamen­te, acometido de odiosa fobia do Pavor! O homem nor­mal, sem que haja caído nas garras da demência, não será capaz de avaliar o que entrei a padecer desde que me capacitei de que o que via não era um sonho, um pesadelo motivado pela deplorável loucura da embria­guez! Não! Eu não era um alcoólatra para assim me surpreender nas garras de tão perverso delírio! Não era tampouco o sonho, o pesadelo, a criar em minha mente, prostituída pela devassidão dos costumes, o que aos meus olhos alarmados por infernal surpresa se apresentava como a mais pungente realidade que os infernos pudes­sem inventar — a realidade maldita, assombrosa, feroz! — criada por uma falange de réprobos do suicídio apri­sionada no meio ambiente cabível ao seu critico e melindroso estado, como cautela e caridade para com o gêne­ro humano, que não suportaria, sem grandes confusões e desgraças, a intromissão de tais infelizes em sua vida cotidiana! (4)

Sim! imaginai uma assembléia numerosa de criatu­ras disformes — homens e mulheres — caracterizada pela alucinação de cada uma, correspondente a casos íntimos, trajando, todos, vestes como que empastadas do lodo das sepulturas, com feições alteradas e doloridas estampando os estigmas de sofrimentos cruciantes! Ima­ginai uma localidade, uma povoação envolvida em densos véus de penumbra, gélida e asfixiante, onde se aglome­rassem habitantes de além-túmulo abatidos pelo suicídio, ostentando, cada um, o ferrete infame do gênero de mor­te escolhido no intento de ludibriar a Lei Divina — que lhes concedera a vida corporal terrena como precioso
(4) Efetivamente, no além-túlmulo, as vibrações mentais lon­gamente viciadas do alcoólatra, do sensual, do cocainômano, etc., etc., poderão criar e manter visões e ambientes nefastos, per­vertidos. Se, além do mais, trazem os desequilíbrios de um suicídio, a situação poderá atingir proporcões inconcebíveis.­
ensejo de progresso, inavaliável instrumento para a re­missão de faltas gravosas do pretérito!

Pois era assim a multidão de criaturas que meus olhos assombrados deparavam nas trevas que lhes eram favoráveis ao terrível gênero de percepção, esquecido, na insânia do orgulho que a mim era próprio, que tam­bém eu pertencia a tão repugnante todo, que era igual­mente um feio alucinado, um pastoso ferreteado!

Eu via por aqui, por ali, estes traduzindo, de quando em quando, em cacoetes nervosos, as ânsias do enforca­mento, esforçando-se, com gestos instintivos, altamente emocionantes, por livrarem o pescoço, intumescido e violá­ceo, dos farrapos de cordas ou de panos que se refletiam nas repercussões perispirituais, em vista das desarmo­niosas vibrações mentais que permaneciam torturando-os! Aqueles, indo e vindo como loucos, em correrias espan­tosas, bradando por socorro em gritos estentóricos, jul­gando-se, de momento a momento, envolvidos em chamas, apavorando-se com o fogo que lhes devorava o corpo físico e que, desde então, ardia sem tréguas nas sensi­bilidades semimateriais do perispírito! Estes últimos, po­rém, eu notava serem, geralmente, mulheres.

Eis que apareciam outros ainda: o peito ou o ou­vido, ou a garganta banhados em sangue, oh! sangue inalterável, permanente, que nada conseguia verdadei­ramente fazer desaparecer das sutilezas do físico-espiri­tual senão a reencarnação expiatória e reparadora! Tais infelizes, além das múltiplas modalidades de penúriaa por que se viam atacados, deixavam-se estar preocupa­dos sempre, a tentarem estancar aquele sangue jorrante, ora com as mãos, ora com as vestes ou outra qualquer coisa que supunham ao alcance, sem no entanto jamais o conseguirem, pois tratava-se de um deplorável estado mental, que os incomodava e impressionava até ao de­sespero! A presença destes desgraçados impressionava até à loucura, dada a inconcebível dramaticidade dos ges­tos isócronos, inalteráveis, a que, mau grado próprio, se viam forçados! E ainda estoutros sufocando-se na bárbara asfixia do afogamento, bracejando em ânsias furiosas à procura de algo que os pudesse socorrer, tal como sucedera à hora extrema e que suas mentes re­gistraram, ingerindo água em gorgolejos ininterruptos, exaustivos, prolongando indefinidamente cenas de ago­nia selvagem, as quais alhos humanos seriam incapazes de presenciar sem se tingirem de demência!

Porém havia mais ainda!... E o leitor perdoe àminha memória estas minudências talvez desinteressantes para o seu bom-gosto literário, mas úteis, certamente, como advertência ao seu possível caráter impetuoso, cha­mado a viver as inconveniências de um século em que o “morbus” terrível do suicídio se tornou mal endêmico. Não pretendemos, aliás, apresentar obra literária para deleitar gosto e temperamento artísticos. Cumprimos um dever sagrado, tão-somente, procurando falar aos que sofrem, dizendo a verdade sobre o abismo que, com malvadas seduções, há perdido muita alma descrente em meio dos desgostos comuns à vida de cada um!

Entretanto, bem próximo ao local em que me encur­ralara procurando refugiar-me da récua sinistra, desta­cava-se, por fealdade impressionante, meia dúzia de desgraçados que haviam procurado o “olvido eterno”, atirando-se sob as rodas de um trem de ferro. Trazendo os perispíritos desfigurados, dir-se-iam a armadura de monstruosa aberração, as vestes em farrapos esvoaçan­tes, cobertos de cicatrizes sanguinolentas, retalhadas, con­fusas, num emaranhado de golpes e sobre golpes, tal se fotografada fora, naquela placa sensível e sutil, isto é, o perispírito, a deplorável condição a que o suicídio lhes reduzira o envoltório carnal — esse templo, ó meu Deus, que o Divino Mestre recomenda como veículo pre­cioso e eficiente para nos auxiliar na caminhada em busca das gloriosas conquistas espirituais!

Enlouquecidos por sofrimentos superlativos, possuídos da suprema afli­ção que atingir possa a alma originada da centelha di­vina, representando aos olhos pávídos do observador o que o Invisível inferior mantém de mais trágico, mais emocionante e horrível, esses desgraçados uivavam em lamentações tão dramáticas e impressionantes que ime­diatamente contagiavam com suas influenciações dolo­rosas quem quer que se encontrasse indefenso em seu caminho, o qual entraria a co-participar da loucura in­consolável de que se acompanhavam... pois o terrível gênero de suicídio, dos mais deploráveis que temos a registrar em nossas páginas, abalara-lhes tão violenta e profundamente a organização nervosa e sensibilidades gerais do corpo astral, congêneres daquela que trauma­tizara a todas, entorpecendo, graças à brutalidade usada, até mesmo os valores da inteligência, que, por isso mes­mo, jazia incapaz de orientar-se, dispersa e confusa em meio do caos que se formara ao redor de si!

A mente edifica e produz. O pensamento — já bas­tantes vezes declararam — é criador, e, portanto, fabrica, corporifica, retém imagens por si mesmo engendradas, realiza, segura o que passou e, com poderosas garras, conserva-o presente até quando desejar!

Cada um de nós, no Vale Sinistro, vibrando violen­tamente e retendo com as forças mentais o momento atroz em que nos suicidamos, criávamos os cenários e respectivas cenas que vivêramos em nossos derradeiros momentos de homens terrestres. Tais cenas, refletidas ao redor de cada um, levavam a confusão à localidade, espalhavam tragédia e inferno por toda a parte, sevi­ciando de aflições superlativas os desgraçados prisionei­ros. Assim era que se deparavam, aqui e ali, forcas erguidas, baloiçando o corpo do próprio suicida, que evo­cava a hora em que se precipitara na morte voluntária. Veículos variados, assim como comboios fumegantes e rápidos, colhiam e trituravam, sob suas rodas, míseros tresloucados que buscaram matar o próprio corpo por esse meio execrável, os quais, agora, com a mente “impreg­nada” do momento sinistro, retratavam sem cessar o epi­sódio, pondo à visão dos companheiros afins suas hedion­das recordações! (4-A) Rios caudalosos e mesmo trechos
­(4-A) Em várias sessões práticas a que tivemos ocasião de assistir em organizações espíritas do Estado de Minas Gerais, os videntes eram concordes em afirmar que não percebiam apenas o Espírito atribulado do suicida a comunicar-se, mas também a cena do próprio suicídio, desvendando-se às suas faculdades mediúnicas o momento supremo da trágica ocorrência. — (Nota da médium)
alongados de oceano surgiam repentinamente no meio daquelas vielas sombrias: — era meia dúzia de réprobos que passava enlouquecida, deixando à mostra cenas de afogamento, por arrastarem na mente confla­grada a trágica lembrança de quando se atiraram às suas águas!...

Homens e mulheres transitavam desesperados: uns ensangüentados, outros estorcendo-se no suplício das ‘dores pelo envenenamento, e, o que era pior, deixando à mostra o reflexo das entranhas carnais corroídas pelo tóxico ingerido, enquanto outrol mais, incendiado, a gritarem por socorro em correrias insensatas, traziam pânico ainda maior entre os companheiros de desgraça, os quais receavam queimar-se ao seu contacto, todos possuidos de loucura coletiva!

E coroando a profundeza e intensidade desses inimagináveis martírios — as penas morais: os remorsos, as saudades dos seres amados, dos quais se não tinham notícias, os mesmos dissabores que haviam dado causa ao desespero e que persistiam em afligir!... E as penas físico-materiais: — a fome, o frio, a sede, exigências fisiológicas em geral, torturantes, irritantes, desesperadoras! a fadiga, a insônia depres­sora, a fraqueza, o delíquio!

Necessidades imperiosas, desconforto de toda espécie, insolúveis, a desafiarem possibilidades de suavização — oh! a visão insidiosa e me­lutável do cadáver apodrecendo, seus fétidos asquerosos, a repercussão, na mente excitada, dos vermes a consu­mirem o lodo carnal, fazendo que o desgraçado mártir se supusesse igualmente atacado de podridão!

Coisa singular! Essa escória trazia, pendente de si, fragmentos de cordão luminoso, fosforescente, o qual, despedaçado, como arrebentado violentamente, despren­dia-se em estilhas qual um cabo compacto de fios elé­tricos arrebentados, a desprenderem fluidos que deve­riam permanecer organizados para determinado fim. Ora, esse pormenor, aparentemente insignificante, tinha, ao contrário, importância capital, pois era juntamente nele que se estabelecia a desorganização do estado de suici­da. Hoje sabemos que esse cordão fluídico-magnético, que liga a alma ao envoltório carnal e lhe comunica a vida, somente deverá estar em condições apropriadas para deste separar-se por ocasião da morte natural, o que então se fará naturalmente, sem choque, sem vio­lência. Com o suicídio, porém, uma vez partido e não desligado, rudemente arrancado, despedaçado quando ain­da em toda a sua pujança fluídica e magnética, produ­zirá grande parte dos desequilíbrios, senão todas que vimos anotando, uma vez que, na constituição vital para a existência que deveria ser, muitas vezes, longa, a re­serva de forças magnéticas não se haviam extinguido ainda, o que leva o suicida a sentir-se um “morto-vivo” na mais expressiva significação do termo. Mas, na oca­sião em que pela primeira vez o notáramos, desconhecía­mos o fato natural, afigurando-se-nos um motivo a. mais para confusões e terrores.

Tão deplorável estado de coisas, para a compreen­são do qual o homem não possui vocabulário nem ima­gens adequadas, prolonga-se até que as reservas de for­ças vitais e magnéticas se esgotem, o que varia segundo o grau de vitalidade de cada um. O próprio caráter in­dividual influi na prolongação do melindroso estado, quando o padecente for mais ou menos afeito às atrações dos sentidos materiais, grosseiros e inferiores. É pois um complexo que se estabelece, que só o tempo, com extensa cauda de sofrimentos, conseguirá corrigir.

Um dia, profundo alquebramento sucedeu em meu ser a prolongada excitação. Fraqueza insólita conservou-me aquietado, como desfalecido. Eu e muitos outros cômpares de minha falange estávamos extenuados, inca­pazes de resistirmos por mais tempo a tão desesperadora situação. Urgência de repouso fazia-nos desmaiar freqüentemente, obrigando-nos ao recolhimento em nossas desconfortáveis cavernas.

Não se tinham passado, porém, sequer vinte e qua­tro horas desde que o novo estado nos surpreendera, quando mais uma vez fomos alarmados pelo significativo rumor daquele mesmo “comboio” que já em outras oca­siões havia aparecido em nosso Vale.

Eu compartilhava o mesmo antro residencial de qua­tro outros indivíduos, como eu portugueses, e, no decor­rer do longo martírio em comum, tornáramo-nos insepa­ráveis, à força de sofrermos juntos no mesmo tugúrio de dor. Dentre todos, porém, um sobremaneira me irritava, predispondo-me à discussão, com o usar, apesar da si­tuação precária, o monóculo inseparável, o fraque bem talhado e respectiva bengala de castão de ouro, conjunto que, para o meu conceito neurastênico e impertinente, o tornava pedante e antipático, num local onde se vivia torturado com odores fétidos e podridão e em que nossa indumentária dir-se-ia empastada de estranhas substân­cias gordurosas, reflexos mentais da podridão elaborada em torno do envoltório carnal. Eu, porém, esquecia-me de que continuava a usar o “pince-nez” com seu fio de torçal, a sobrecasaca dos dias cerimoniosos, os bigodes fartos penteados... Confesso que, então, apesar da lon­ga convivência, lhes não conhecia os nomes. No Vale Sinistro a desgraça é ardente demais para que se preo­cupe o calceta com a identidade alheia...

O conhecido rumor aproximava-se cada vez mais...

Saímos de um salto para a rua... Vielas e praças encheram-se de réprobos como das passadas vezes, ao mesmo tempo que os mesmos angustiosos brados de so­corro ecoavam pelas quebradas sombrias, no intuito de despertarem a atenção dos que vinham para a costu­meira vistoria...

Até que, dentro da atmosfera densa e penumbrosa, surgiram os carros brancos, rompendo as trevas com poderosos holofotes.

Estacionou o trem caravaneiro na praça lamacenta. Desceu um pelotão de lanceiros. Em seguida, damas e cavalheiros, que pareciam enfermeiros, e mais o chefe da expedição, o qual, como anteriormente esclarecemos, se particularizava por usar turbante e túnica hindus.

Silenciosos e discretos iniciaram o reconhecimento daqueles que seriam socorridos. A mesma voz austera que se diria, como das vezes anteriores, vibrar no ar, fez, pacientemente, a chamada dos que deveriam ser reco­lhidos, os quais, ouvindo os próprios nomes, se apresentavam por si mesmos.

Outros, porém, por não se apresentarem a tempo, impunham aos socorristas a necessidade de procurá-los. Mas a estranha voz indicava o lugar exato em que esta­riam os míseros, dizendo simplesmente:

Abrigo número tal... Rua número tal...

Ou, conforme a circunstância:

— Dementado... Inconsciente... Não se encontra no abrigo... Vagando em tal rua... Não atenderá pelo nome... Reconhecível por esta ou aquela particulari­dade...

Dir-se-ia que alguém, de muito longe, assestava po­derosos telescópios até nossas desgraçadas moradas, para assim informar detalhadamente do momento decorrente a expedição laboriosa...

Os obreiros da Fraternidade consultavam um mapa, iam rapidamente ao local indicado e traziam os mencio­nados, alguns carregados em seus braços generosos, ou­tros em padiolas...

De súbito ressoou na atmosfera dramática daquele inferno onde tanto padeci, repercutindo estrondosamente pelos mais profundos recôncavos do meu ser, o meu nome, chamado para a libertação! Em seguida, ouviram­-se os dos quatro companheiros que comigo se achavam presentes na praça. Foi então que lhes conheci os nomes e eles o meu.

Disse a voz longínqua, como servindo-se de desco­nhecido e poderoso alto-falante:

— Abrigo número 36 da rua número 48 — Aten­ção!... Abrigo número 36 — Ingressar no comboio de socorro — Atenção!... — Camilo Cândido Botelho —Belarmino de Queiroz e Souza — Jerônimo de Araújo Silveira — João d’Azevedo — Mário Sobral — Ingres­sarem no comboio... (4-B)

Foi entre lágrimas de emoção indefinível que galguei os pequenos degraus da plataforma que um enfermeiro indicava, atencioso e paciente, enquanto os policiais fe­chavam cerco em torno de mim e de meus quatro Compa­nheiros, evitando que os desgraçados que ainda ficavam subissem conosco ou nos arrastassem no seu turbilhão, criando a confusão e retardando por isso mesmo o re­gresso da expedição.

Entrei. Eram carros amplos, cômodos, confortáveis, cujas poltronas individuais como que estofadas com ar­minho branco apresentavam o espaldar voltado para os respiradores, que dir-se-iam os óculos das modernas aeronaves terrenas. Ao centro quatro poltronas em fei­tio idêntico, onde se acomodaram enfermeiros, tudo in­dicando que ali permaneciam a fim de guardar-nos. Nas portas de entrada lia-se a legenda entrevista antes, na flâmula empunhada pelo comandante do pelotão de guardas:
Legião dos Servos de Maria
Dentro em pouco a tarefa dos abnegados legionários estava cumprida. Ouviu-se no interior o tilintar abafa­do de uma campainha, seguido de movimento rápido de suspensão de pontes de acesso e embarque dos obrei­ros. Pelo menos foi essa a série de imagens mentais que concebi...

O estranho comboio oscilou sem que nenhuma sen­sação de galeio e o mais leve balanço impressionassem nossa sensibilidade. Não contivemos as lágrimas, porém, em ouvindo o ensurdecedor coro de blasfêmias, a grita desesperada e selvagem dos desgraçados que ficavam, por não suficientemente desmaterializados ainda para atingirem camadas invisíveis menos compactas.



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