Rias de um suicida yvonne do amaral pereira


(4-B) Perdoar-me-á o leitor o não transcrever na íntegra os nomes destas personagens, tal como foram revelados pelo autor destas páginas. — (Nota da médium)­



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(4-B) Perdoar-me-á o leitor o não transcrever na íntegra os nomes destas personagens, tal como foram revelados pelo autor destas páginas. — (Nota da médium)­
Eram senhoras que nos acompanhavam, por nós ve­lando durante a viagem. Falaram-nos com doçura, con­vidando-nos ao repouso, afirmando-nos solidariedade. Acomodaram-nos cuidadosamente nas almofadas das pol­tronas, quais desveladas, bondosas irmãs de Caridade...

Afastava-se o veículo... A pouco e pouco a cerração de cinzas se ia dissipando aos nossos olhos torturados, durante tantos anos, pela mais cruciante das cegueiras: — a da consciência culpada!

Apressava-se a marcha... O nevoeiro de sombras ficava para trás como pesadelo maldito que se extin­guisse ao despertar de um sono penoso.... Agora as es­tradas eram amplas e retas, a se perderem de vista... A atmosfera fazia-se branca como neve... Ventos fer­tilizantes sopravam, alegrando o ar...

Deus Misericordioso!... Havíamos deixado o Vale Sinistro!...

Lá ficara ele, perdido nas trevas do abominável!...

Lá ficara, incrustado nos abismos invisíveis criadas pelo pecado dos homens, a fustigar a alma daquele que se esqueceu do seu Deus e Criador!

Comovido e pávido, pude, então, elevar o pensamen­to à Fonte Imortal do Bem Eterno, para humildemente agradecer a grande mercê que recebia!

3

No Hospital “Maria de Nazaré”
Depois de algum tempo de marcha, durante o qual tínhamos a impressão de estar vencendo grandes distâncias, vimos que foram descerradas as persianas, facul­tando-nos possibilidade de distinguir, no horizonte ainda afastado, severo conjunto de muralhas fortificadas, en­quanto pesada fortaleza se elevava impondo respeitabi­lidade e temor na solidão de que se cercava.

Era uma região triste e desolada, envolvida em neblinas como se toda a paisagem fora recoberta pelo sudário de continuadas nevadas, conquanto oferecendo possibilidades de visão. Não se distinguia, iniciahnente, vegetação nem sinais de habitantes pelos arredores da fortaleza imensa. Apenas longas planícies brancas, coli­nas salpicando a vastidão, assemelhando-se a montículos acumulados pela neve. E ao fundo, plantadas no centro dessa nostalgia desoladora, muralhas ameaçadoras, a for­taleza grandiosa, padrão das velhas fortificações medie­vais, tendo por detalhe primordial meia dúzia de torres cujas linhas grandemente sugestivas despertariam a atenção de quem por ali transitasse.

Funda inquietação percutiu rijamente em nossas sen­sibilidades, aviventando receios algo acomodados durante o trajeto.

Que nos esperaria para além de tão sombrias frontei­ras?... Pois era evidente que para ali nos conduziam...

Vista, a distância, a edificação apavorava, sugerindo rigores e disciplinas austeras...

Assaltou-nos tal impres de poder, grandeza e majestade que nos sentimos ínfimos, acovardados só no avistá-la.

Aproximando-se cada vez mais, o comboio finalmente estacou fronteiro a um grande portão, que seria a en­trada principal.

Para além da cornija, caprichosamente trabalhada, e urdida em letras artísticas e graúdas, lia-se em idio­ma português esta inscrição já nossa conhecida, a qual, como por encanto, serenou nossa agitação logo que a descobrimos:


Legião dos Servos de Maria
seguindo-se esta indicação que, emocionante, compeliu-nos a novas apreensões:
Colônia Correcional
Sem resposta às indagações confusas do pensamento ainda lerdo e atordoado pelas longas dilacerações que me vinham perseguindo havia muito, desobriguei-me de averiguações e deixei que os fatos seguissem livre curso, percebendo que meus companheiros faziam o mesmo.

Não faltava à fortaleza nem mesmo a defesa exte­rior de um fosso. Uma ponte desceu sobre ele e o comboio venceu o empecilho fazendo-nos ingressar definiti­vamente nessa Colônia, não isentados, porém, de sérias preocupações quanto ao futuro que nos aguardava. De entrada, notamos pelas imediações numerosos militares, qual se ali se aquartelasse um regimento. Entretanto, estes muito se assemelhavam aos antigos soldados egíp­cios e hindus, o que muito nos admirou. Sobre o pórtico da torre principal lia-se esta outra inscrição, parecendo-nos tudo muito interessante, como um sonho que nos cumulasse de incertezas:


Torre de Vigia
Em que localidade estaríamos?... Voltaríamos a Portugal?... Viajaríamos através de algum país desco nhecido, enquanto a neve se espalhava dominando a pai­sagem?...

Passamos sem estacionar por essa grande praça militar, certo de que se trataria de uma fortificação guerreira idêntica às da Terra, conquanto revestida de indefinível nobreza, inexistente nas congêneres que co­nhecêramos através da Europa, pois não poderíamos, en­tão, avaliar a verdadeira finalidade da sua existência naquelas regiões desoladas do Invisível inferior, cercadas de perigo, bem mais sérios do que os que poderíamos presumir.

Com surpresa verificamos que entrávamos em cida­de movimentadíssima, conquanto recoberta por extenso. véus de neve, ou cerração pesada. Não fazia, porém, frio intenso, o que nos surpreendeu, e o Sol, mostrando-se a medo entre a cerração, deixava ocasião não só para nos aquecermos, mas também para distinguirmos o que houvesse em derredor.

Edifícios soberbos impunham-se à apreciação, apre­sentando o formoso estilo português clássico, que tanto nos falava à alma. Indivíduos atarefados, neles entra­vam e dele saíam em afanosa movimentação, todos uni­formizados com longos aventais brancos, ostentando ao peito a cruz azul-celeste ladeada pelas iniciais: L. S. M.

Dir-se-iam edifícios, ministérios públicos ou depar­tamentos. Casas residenciais alinhavam-se, graciosas e evocativas na sua estilização nobre e superior, traçando ruas artísticas que se estendiam laqueadas de branco, como que asfaltadas de neve. A frente de um daqueles edifícios parou o comboio e fomos convidados a descer. Sobre o pórtico definia-se sua finalidade em letras vi­síveis:­
Departamento de Vigilância
(Seção de Reconhecimento e Matricula)
Tratava-me da sede do Departamento onde seríamos reconhecidos e matriculados pela direção, como internos da Colônia. Daquele momento em diante estaríamos sob a tutela direta de uma das mais importantes agremia­ções pertencente. à Legião chefiada pelo grande Espírito Maria de Nazaré, ser angélico e sublime que na Terra mereceu a missão honrosa de seguir, com solicitudes ma­ternais, Aquele que foi o redentor dos homens!

Conduzidos a um pátio extenso e nobre, que lem­braria antigos claustros de Portugal, fomos em seguida transportados em pequenos grupos de dez individualida­des, para determinado gabinete onde vários funcionários colaboravam nos trabalhos de registro. Ali deixaríamos a identidade terrena, bem assim as razões que nos in­duziram ao suicídio, o gênero do mesmo como o local em que jazeram os despojos. Caso o recém-chegado não estivesse em condições de responder, o chefe da expedi­ção supriria rapidamente a insuficiência, pois mantinha-se presente à cerimônia, dando contas ao diretor do Departamento da importante missão que acabava de desempenhar. Tão árduo trabalho, em torno de toda uma falange, levara quando muito dois quartos de hora, porqüanto os processos usados não eram idêntico. aos conhecidos nas repartições terrenas. As respostas dos pacientes seriam antes gravadas em discos singulares, espécie de álbuns animados de cenas e movimentos, gra­ças ao concurso de aparelhamentos magnéticos especiais. Tais álbuns reproduziriam até mesmo o som de nossa voz, como nossa imagem e o prolongamento do noticiário sobre nós mesmos, desde que posto em contacto com admirável maquinismo apropriado ao feito, exatamente como discos e filmes na Terra reproduzem a voz humana e todas as demais variedades de sons e imagens neles existentes e que devam ser retidos e conservados. Nossa identidade, portanto, era antes fotografada: as imagens emitidas por nossos pensamentos, no ato das respostas às perguntas formuladas, seriam captada. por processos que na ocasião escapavam à nossa compreensão.

Durante muito tempo perdemos de vista as mulheres que conosco haviam chegado ao Departamento de Vigi­lância. Os regulamentos da Colônia impunham a neces­sidade de separá-las de seus companheiros de desventura.

Assim sendo, logo à chegada e imediatamente depois da matricula, foram confiadas às damas funcionárias da Vigilância a fim de serem encaminhadas aos Departa­mentos Femininos. Desde, portanto, que nos matricula­vam, éramos separados do elemento feminino.

Dentro em pouco, entregues a novos servidores, cujas operosidades se desenrolavam aquém dos muros da instituição, fomos compelidos ao ingresso em novos meios de transporte, que tudo indicava serem para uso dos perímetros internos, porqüanto nos cumpria conti­nuar a marcha, iniciada desde o Vale.

Nossas viaturas agora eram leves e graciosas, quais trenós ligeiros e confortáveis, puxados pelas mesmas ad­miráveis parelhss de cavalos normandos, e com capa­cidade para dez passageiros cada um. Ao cabo de uma hora de corrida moderada, durante a qual deixávamos para trás o bairro da Vigilância, penetrando, por assim dizer, o campo, porque avançando em região despovoada, conquanto as estradas se apresentassem caprichosamente projetadas, orladas de arbustos níveos quais flores dos Alpes, avistamos grandes marcos, como arcos de triun­fo, assinalando o ingresso em novo Departamento, nova província dessa Colônia Correcional localizada nas fron­teiras invisíveis da Terra com a Espiritualidade propria­mente dita.

Com efeito. Lá estava a indicação necessária entes­tando a arcada principal, norteando o recém-chegado por auxiliá-lo no esclarecimento de possíveis dúvidas:
Departamento Hospitalar
A um e outro lado destacavam-se outras em que setas indicavam o início de novos trajetos, enquanto no­vas inscrições satisfaziam a curiosidade ou necessidade do viajante:

A direita — Manicômio.

A esquerda — Isolamento.

Nossos condutores fizeram-nos ingressar pela do centro, onde também se lia, em subtítulo:


Hospital Maria de Nazaré
Imenso parque ajardinado surpreendeu-nos para além dos marcos, enquanto amplos edifícios se elevavam em locais aprazíveis da situação. Padronizando sempre o es­tilo português clássico, esses edifícios apresentavam mui­ta beleza e amplas sugestões com suas arcadas, colunas, torres, terraços, onde flores trepadeiras se enroscavam acentuando agradável estética. Para quem, como nós, angustiados e miseráveis, procedia das atras regiões, se­melhante localidade, não obstante insulsa, graças à inal­terável brancura, aparecia como suprema esperança de redenção! E nem faltavam, aformoseando o parque, tan­ques com repuxos artísticos a esguicharem água límpi­da e cristalina, a qual tombava em silêncio, cascatean­do mimosas gotas como pérolas, enquanto aves mansas, bando de pombos graciosos esvoaçavam ligeiros entre açucenas.

Ao contrário das demais dependências hospitalares, como o Isolamento e o Manicômio, o Hospital Maria de Nazaré, ou “Hospital Matriz”, não se rodeava de qual­quer barreira. Apenas árvores frondosas, tabuleiros de açucenas e rosas teciam-lhe graciosas muralhas. Muitas vezes pensei, quando dos meus dias de convalescença, como seria arrebatadora a paisagem se a policromia na­tural rompesse o sudário níveo que tudo aquilo envolvia entristecendo o ambiente de incorrigível monotonia!

Fatigados, sonolentos e tristes, subimos a escadaria. Grupos de enfermeiros atenciosos, todos homens, chefia­dos por dois jovens trajados à indiana, assistentes do diretor do Departamento, os quais mais tarde soubemoS chamarem-se — Romeu e Alceste, receberam-nos das mãos dos funcionários da Vigilância incumbidos, até en­tão, da nossa guarda, e, amparando-nos bondosamente, conduziram-nos ao interior.

Penetramos galerias magníficas, ao longo das quais portas largas e envidraçadas, com caixilhos levemente azuis, deixavam ver o interior das enfermarias, o que vinha esclarecer que o enfermo jamais se reconheceria a sós. Nossos grupos separaram-se à indicação dos enfer­meiros: — dez à direita... dez à esquerda... Cada dor­mitório continha dez leitos alvissimos e confortáveis, amplos salões com balcões para o parque. Forneceram-nos, caridosamente, banho, vestuário hospitalar, o que nos proporcionou lágrimas de reconhecimento e satisfa­ção. A cada um de nós foi servido delicioso caldo, tépido, reconfortante, em pratos tão alvos quanto os lençóís; e cada um sentiu o sabor daquilo que lhe apetecia. Fato singular: — enquanto fazíamos a refeição frugal, era o lar paterno que acudia às nossas lembranças, as reuniões em família, a mesa da ceia, o doce vulto de nossas mães servindo-nos, a figura austera do pai à cabeceira... E lágrimas indefiníveis se misturaram ao alimento recon­fortador...

Num ângulo favorável aos dez leitos uma lareira aquecia o recinto, proporcionando-nos reconforto. E aci­ma, suspensa ao alto da parede, que se diria estruturada em porcelana, fascinante tela a cores, luminosa e como animada de vida e inteligência, despertou nossa atenção tão logo transpusemos os acolhedores umbrais. Era um quadro da Virgem de Nazaré, algo semelhante ao céle­bre painel de Murilo, que eu tão bem conhecia, mas su­blimado por virtuosidades inexistentes entre os gênios da pintura na Terra!

Ao terminarmos a refeição, eis que dois varões hindus entraram em nosso compartimento, apresentando parti­cularidades que os deixavam reconhecer como médicos.

Faziam-se acompanhar de dois outros varões, os quais deveriam acompanhar-nos durante toda a nossa hospi­talização, pois eram responsáveis pela enfermaria que ocupávamos. Chamavam-se estes Carlos e Roberto de Canalejas, eram pai e filho, respectivamente, e, quando encarnados, haviam sido médicos espanhóis na Terra. Era no entanto imperfeitamente que a todos eles per­cebíamos, dado o estado de debilidade em que nos en­contrávamos. Dir-se-ia que sonhávamos, e o que vimos narrando ao leitor só podia ser por nós entrevisto como durante as oscilações do sonho...

Não obstante, os hindus aproximaram-se de cada um dos leitos, falaram docemente a cada um de nós, apuse­ram sobre nossas cabeças atormentadas as mãos delica­das e tão níveas que se diriam translúcidas, acomodaram nossas almofadas, obrigando-nos ao repouso; cobriram-nos paternalmente, aconchegando cobertores aos nossos corpos enregelados, enquanto murmuravam em tonalida­des tão carinhosas e sugestivas, que pesada sonolência nos venceu imediatamente:

“— Necessitais de repouso... Repousai sem receio, meus amigos... Sois todos hóspedes de Maria de Naza­ré, a doce Mãe de Jesus... Esta casa é dela.

E se conosco assim procederam, outros assistentes, certamente, o mesmo fizeram em torno dos demais com­ponentes da trágica falange recolhida pelo Amor de Deus!

Ao despertar, depois de sono profundo e reparador, afigurou-se-me ter dormido longas horas, e de algum modo senti que o raciocínio se me aclarava, oferecendo maior possibilidade de entendimento e compreensão das circunstâncias. Reconhecia-me de posse de mim mesmo, como desoprimido daquele estado mórbido de pesadelo, que tantas exasperações acarretava.

Mas, ai de mim! Semelhante reconforto mental antes aprofundava do que balsamizava angústias, pois me compelia a examinar com maior dose de senso e serenidade a profundeza da falta que contra mim mesmo cometera! Ardente sentimento de desgosto, remorso, temor, desapontamento, coibia-me apreciar devidamente a melhoria da situação. E incô­moda sensação de vergonha chicoteava-me o pudor, gri­tando ao meu orgulho que ali me achava indevidamente, sem quaisquer direitos a me assistirem para tanto, uni­camente tolerado pela magnanimidade de indivíduos alta­mente caridosos, iluminados pelo vero amor de Deus!

Dúvidas amaríssimas continuavam remoinhando-me na mente. Não era possível que eu tivesse morrido. O suicídio absolutamente não me matara! Eu continuava vivo e bem vivo!...

Que se passara, pois?... Meus companheiros de en­fermaria e, por certo, todos os demais que integravam o extenso cortejo proveniente das escuridade. do Vale, entregar-se-iam a idênticas elucubrações! Estampavam--se o assombro, o temor e o pesar inconsolável naqueles semblantes desfigurados.

E, acompanhando a nova série de amarguras que nos invadia apesar da hospitalização e do sono recon­fortador, as dores físicas oriundaz do ferimento que fizé­ramos continuavam supliciando nossa sensibilidade, como a lembrarem nosso estado irremediável de réprobo..

Eu e Jerônimo gemíamos de quando em quando, sob o imperativo do ferimento feito no ouvido pela arma de fogo que utilizáramos no momento trágico; Mário So­bral estorcia-se, o pescoço intumescido, a esbater-se em cacoetes periódicos contra a asfixia, pois enforcara-se; João d’Azevedo, retendo na mente torturada o envene­namento do corpo que lá se consumira, sob o segredo do túmulo, chorava de mansinho, exigindo a visita mé­dica; e Belarmino a esvair-se em sangue, o braço dolo­rido, entorpecido, já paralítico — oh! preludiando, des­de aquele tempo, o drama físico que seria o seu, em encarnação posterior — pois fora ao suicídio golpeando os pulsos!

Todavia o reconforto era sensível. Bastaria obser­vássemos que já não víamos as cenas mentais de cada um, reproduzindo em figurações assombrosas o momento supremo, tal como sucedia no Vale, onde não existia ou­tra paisagem. A enfermaria, muito confortável, dizia de como nos haviam bem instalado. Existiam mesmo traços de arte e beleza naqueles portais de caixilhos azuis, for­mados de substâncias polidas como a porcelana; naque­les reposteiros de rendilhados também azuis, nas trepa­deiras brancas que subiam pelos balcões, intrometendo-se a dentro do terraço, como espionando nossas carantonhas dramáticas de réprobos colhidos em flagrante.

De chofre, a voz de um enfermo, nosso companheiro, quebrou o silêncio da meditação em que mergulháramos o pensamento, externando as próprias impressões, como se apenas para si falasse:

Cheguei à conclusão — disse, pausada e amar­guradamente — de que o melhor que todos temos a fazer é nos recomendarmos a Deus, resignando-nos de boamente às peripécias que ainda sobrevenham... Para nada há valido o desespero, senão para nos tornar ainda mais desgraçados! Tanta revolta e insensatez... e nada mais obtivemos a não ser o agravo das nossas já tão atrozes desgraças!... Por aí se poderá ver que vimos escolhendo caminhos errados para nossos destinos... inegável, porém, que somos todos subordinados a uma Direção Maior, que independe de nossa vontade!... Isso é assaz significativo... Não sei bem se morri... Mas, sinceramente, creio que não!...

A senhora minha mãe era pessoa simples, humilde, de poucas letras, mas boa devota à crença e ao respeito a Deus. Afirmava aos filhos, com estranha convicção, quando os reunia ao pé da lareira a fim de ensinar-lhes az orações da noite, de mistura com os princípios da lei cristã, que todas as criaturas trazem uma alma imor­tal, criada pelo Ser Supremo e destinada à gloriosa re­denção pelo amor de Jesus-Cristo, e que dessa alma daríamos contas, um dia, ao Criador e Pai! Nunca mais, desde então, obtive ciência de mais alto valor! Considero as aulas ministradas por minha mãe, durante o serão da família, superiores às que, mais tarde, aprendi na Universidade. Infelizmente para mim, sorri à sabedo­ria materna, embrenhando-me pelos desvios das paixões mundanas... Contudo, ó minha mãe! eu aceitava a pos­sibilidade da crença formosa que tentaste infundir em minha alma revel! Não fui propriamente ateu!..

Hoje, passados tantos anos, e depois de tantos so­frimentos, colocado em situações que escapam à minha análise, eu me convenço de que a senhora minha mãe estava com a razão: — devo possuir uma alma, real­mente imortal! Escapa-se de um tiro de revólver, e po­de-se até restabelecer-se! Curamo-nos da ingestão de um corrosivo, tais sejam as circunstâncias em que o tenhamos usado. Mas não se escapa de uma forca, como a que me destinei! E, se estou aqui e se sofri tudo quanto sofri sem conseguir aniquilar dentro de mim as potências da vida, é porque sou imortal! E se sou imortal é que possuo uma alma, com efeito, porque, quanto ao corpo humano, esse não é imortal, pois se consome no túmulo! E se possuo uma alma dotada da virtude da imortali­dade é que ela proveio de Deus, que é Sempiterno! Oh, minha mãe, tu dizias a verdade! Oh, meu Deus! meu Deus! Tu existes! E eu a renegar-te sempre, com meus atos, minhas paixões, meu descaso às tuas normas, mi­nha indiferença criminosa aos teus princípios!... Ago­ra... eis que é soada a hora de prestar-te contas da alma que tu criaste — da minha alma! Eis que nada tenho a dizer-te, Senhor, senão que minhas paixões in­felicitaram-na, quando o que determinaste ao criá-la era que eu a conduzisse obedientemente ao teu regaço de Luz! Perdoa-me! Perdoa-me, Senhor Deus!...”

Lágrimas abundantes misturaram-se a estertores de asfixia. Mas, apesar de saberem a intensa amargura, já não traziam o macabro característico das convulsões que, no Vale, as lágrimas provocam.

Fora Mário Sobral que falara.

Mário tinha grandes olhos negros, cabeleira revolta, olhar alucinado. Cursara a Universidade de Coimbra e reconhecia-se nele o tipo bem acabado do boêmio rico de Lisboa.

Seu palavreado, de ordinário, era nervoso e fácil. Seria excelente orador, se da Universidade hou­vera saído sábio e não boêmio. No cativeiro do Vale fora das entidades mais sofredoras que tive ocasião de co­nhecer, e assim mesmo se destacou durante todo o longo período de internação na Colônia.

Com esse arrazoado iniciou-se uma série de confi­dências entre os dez. Não sei por que desejáramos con­versar. Talvez a necessidade de mútua consolação nos impelisse a abrir os corações, recurso, aliás, ineficiente para lenificar angústias, porque, se é difícil a um suici­da o consolar-se, não será, certamente, recordando dores e desgraças passadas que logrará amenizar a penúria que lhe oprime a alma.

“— És forte em dialética, amigo, e felicito-te pela progressão do modo de raciocinar: — não foi assim que tive a honra de te conhecer algures...” — chasqueei eu, a quem incomodara muito a quebra do silêncio.

“— Também eu assim o creio e admiro a lógica das suas considerações, 6 amigo Sobral!“ — interveio um português de bigodes fartos, meu vizinho de leito, cujo ferimento no ouvido direito, a sangrar sem intermitên­cias me causava infinito mal-estar, pois que, quantas vezes lhe prestasse atenção, lembrava-me de que tam­bém eu trazia ferimento idêntico e torturava-me em ré­miniscências atrozes.

Era, esse, Jerônimo de Araújo Silveira, o mais im­paciente e pretensioso dentre os dez, mais incoerente e revoltado. Prosseguiu ele:

“— Aliás, eu jamais descri da existência de Deus, Criador de Todas as Coisas. Fui... isto é, sou! Eu sou, pois que não morri! — católico militante, irmão remi­do da Venerável Irmandade da Santíssima Trindade, de Lisboa, com direitos a bênçãos e indulgências especiais, quando necessário...”

Creio, meu vizinho, que chegou, ou já vai pas­sando, a ocasião de reclamares os favores que são de direito obteres... Não podes estar mais necessitado deles...” — revidei, num crescendo de mau-humor, fa­zendo-me de obsessor.

Não respondeu, mas continuou:

“— Fui, porém, muito impaciente e nervoso desde a juventude! Impressionava-me facilmente, era insofrido e inconformado, às vezes melancólico e sentimental... e confesso que nunca levei a sério os verdadeiros deveres do cristão, expresso nas santas advertências do nosso conselheiro e confessor, de Lisboa. Por isso mesmo, certamente, quando se me deparou a ruína dos meus negócios comerciais, pois não sei se sabeis que fui im­portador e exportador de vinhos; crivado de dívidas in­solúveis; surpreendido por estrondosa e irremediável fa­lência; sem ascendente para evitar a miséria que a mim e à minha família escancarava fauces irremediáveis; acusado por amigos e pessoas da família como respon­sável único do dramático insucesso; abatido pela pers­pectiva do que sucederia à minha mulher e aos meus filhos, a quem eu, por muito estremecer, habituara a excessivo conforto, mesmo ao luxo, mas os quais, agora que me viam castigado e sofredor, me responsabilizavam cruamente por tudo, em vez de pacientemente me aju­darem a remover a cruz dos insucessos, que a todos nos abatia — fraquejei na coragem que até então tivera e “tentei” desertar da frente de todos e até de mim mesmo, a fim de poupar-me a censuras e humilhações. Todavia, enganei-me: — mudei apenas de habitação, sem conseguir encontrar a morte, e perdi de vista minha fa­mília, o que me tem acarretado insuportáveis contra­riedades!”

“— Sim, é lastimável! — tornou Mário na mesma tonalidade acabrunhada, como se não tivesse ouvido o precedente. — Caí nas trevas da Desgraça!... quando tão boas oportunidades encontrei pela vida a fora, fa­cultando-me o domínio das paixões para o advento de aquisições honestas!... Esqueci-me de que o respeito a Deus, à Família, ao Dever, seria o alvo sagrado a atin­gir, pois recebi bons princípios de moral na casa pater­na!... Jovem, sedutor, inteligente, culto, envaideci-me com os dotes que me assistiam e cultivei o egoísmo, dando asas aos instintos inferiores, que reclamavam pra­zeres sempre mais febricitantes... A convivência afetada da Universidade fez de mim um pedante, um tolo cujas preocupações únicas eram as exibições vistosas, senão escandalosas... Daí o perder-me no roldão das embocaduras das paixões deprimentes... E, depois, quan­do não mais consegui encontrar-me a fim de recondu­zir-me a mim próprio, procurei, a morte supondo poder esconder-me dos remorsos atrás do olvido de um túmu­lo!... Enganei-me! A morte não me aceitou! Encon­trou-me de certo demasiadamente vil para me honrar com sua proteção! Por isso devolveu-me à vida quando o coveiro teve a honra de encobrir minha figura repul­siva da frente da luz do Sol!...

Minha mãe, porém, essa sim, não se enganou: — eu sou imortal! Jamais, jamais morrerei! Hei de existir por toda a consumação dos evos, em presença dAquele que é o meu Criador! Sim! Porque, para sobreviver às des­graças que cruciaram o meu sentir, desde a noite aziaga da primavera daquele ano de 1889, só um ser que seja imortal !“

Alongou os olhos congestos, como chamando recor­dações passadas para o minuto presente e murmurou, arquejante, apavorado, frente à página mais negra que lhe desvirtuava a consciência:

“— Sim, meu Deus! Perdoa-me! Perdoa-me! Eu me arrependo e submeto-me, visto que reconheço que errei! Perdi-me diante de ti, meu Deus, à frente da desespera­dora paixão que nutri por Eulina!... Mas, se mo per­mites, reabilitar-me-ei por amor de ti...

Eulina!... Tu não valias sequer o pão que eu for­necia para saciares tua fome! Contudo, eu te amava, acima de todas as conveniências, a despeito até da pró­pria honra! Eras pérfida, malvada!... Eu, porém, infe­rior devia ser, ainda mais do que tu, porque casado, sendo minha esposa nobre e digna senhora! Era pai de três inocentes criancinhas, às quais devia amor e pro­teção! Abandonei-os por ti, Eulina, desinteressei-me de seus encantos porque me arrebatei irremediavelmente pelos teus, estranha beleza dos torrões sul-americanos, que tu eras!... Oh, como eras linda!... ‘Mas não me amavas... E depois de me arrastares de queda em que­da, explorando-me a bolsa e o coração, abandonaste-me ao desespero da miséria e da ingratidão, ao me preteri­res pelo capitalista brasileiro, teu compatriota, que te requestou!

Fui a tua casa: — vi-me desfeiteado... Supliquei-te, rastejei a teus pés como louco, desesperado por perder-te, como insensato que sempre fui! Implorei migalhas da tua compaixão, em vendo que já não seria possível teu amor!

Provoquei-te à discussão, compreendendo que te fa­zias insensível às minhas desesperadas tentativas de reconciliação... e, cego pelos insultos que repetias, eu te agredi, ferindo as faces que eu adorava; espanquei-te sem piedade, maltratei-te a pontapés, meu Deus! ó meu Deus! Estrangulei-te, Eulina! Matei-te!... Ma­tei-te!. .

Parou sufocado, em convulsões odiosas de perfeito réprobo, para continuar após, como se dirigindo aos com­panheiros:

“— Quando, tomado de horror, contemplei a ação abominável que praticara, apenas um recurso me acudiu, rápido qual impulso obsessor, a fim de escapar a con­seqüências que, naquele momento, se me afiguravam in­suportáveis: — o suicídio! Então, ali mesmo, sem perder tempo, rasguei os lençóis da desgraçada... e pendurei-me a uma trave existente na cozinha.

“-... Forma, essa, pouco poética de um amante morrer... — zombei eu, enfadado com a longa descrição que desde o Vale diariamente ouvia-o repetir. — Aposto em como V. Excia.

Sr. Professor, que tão elegante­mente desejou morrer, recordando Petrônio, fé-lo pelo amor platônico de alguma senhora inglesa, loira e apes­soada?... Portugueses ilustres, como V. Excia. vem demonstrando ser, gostam de amar damas inglesas...“

Dirigia-me agora a Belarmino de Queiroz e Sousa, cujo nome tresandava a fidalguia.

Até essa data ainda me irritavam as atitudes do pobre comparsa do grande drama que eu também vivia; e, sempre que houvesse oportunidade, ridicularizava-o, defeito muito do meu feitio e que muitos vexames e dissabores custou-me até corrigi-lo, durante os serviços de reforma interior que ao meu caráter impus na Pátria Espiritual.

Belarmino era alto e seco, muito elegante e fino de maneiras. Dizia-se rico e viajado, professor de Dialética, de Filosofia e Matemática, e poliglota — cortejo res­peitável para um só homem que se arraste na Terra, não havia dúvida, mas que o não impedira de demorar-se, e mais o monóculo, o fraque e a bengala, nas pocilgas do Vale Sinistro, durante o interessante estágio que ali fizera, por se haver suicidado. Isso mesmo lançara-lhe eu em face muitas vezes, mal-humorado ante a vaidosa enumeração que fazia dos variados cabedais próprios. O doutor, porém — porque era doutor, honorificado por mais de uma Universidade —, jamais revidou minhas im­pertinências. Polido, educado, sentimental, chegaria tam­bem à vera bondade de coração se a par de tão bonitos dotes não carregasse os defeitos do orgulho, do egoísmo de a si mesmo endeusar por a todos se julgar superior.

Ouvindo-me, não respondeu com agastamento, como sempre. Antes, foi em tom macio, mesmo pesaroso, que se expandiu, dirigindo-se a todos:

“— Eu julgava, sinceramente, que o túmulo absor­veria minha personalidade, transmudando-a na essência que se perderá nos abismos da Natureza: — seria o Nada!

Discípulo de Augusto Comte, a filosofia levou-me ao Materialismo, ao mecanismo acidental das coisas —única explicação satisfatória que ao raciocínio pude ofe­recer diante das anomalias com que deparava a cada passo pela vida em fora, para me alarmar o coração e decepcionar a mente!

Nutri sempre grande ternura e compaixão pelos ho­mens, aos quais considerava irmãos de desgraça, pois, para mim, a vida era a expressão máxima da Desgraça, embora deles procurasse afastar-me quanto possível, temendo amá-los demasiadamente, e, portanto, sofrer! Nem outra coisa compreenderia eu o que seria senão desgraça um homem nascer, viver, trabalhar, sofrer, lutar por todos os pretextos... para depois desfazer-se, irremissívelmente, no pó do túmulo!

Não fui, jamais, dado a namoramentos, de baixa ou elevada classe. Para que amar, constituir família, con­tribuindo para lançar à vida outros desgraçados a mais, se a Filosofia convencera-me, além do mais, de que o Amor era apenas uma secreção do cérebro .... Fui um estudioso, isso sim, e estudava a fim de me aturdir, evi­tando o acúmulo de elucubrações sobre a miserável si­tuação da Humanidade. Assim sendo, não sobravam a mim horas para cultivar amor junto a damas inglesas ou portuguesas... Estudava para esquecer de que um dia também me perderia no vácuo! Fui um infeliz, como toda a Humanidade o é! Somente no ambiente sereno do lar desfrutava alguma satisfação... Agarrei-me ao lar quanto possível, pesaroso de, um dia, ser forçado a aban­doná-lo para me aniquilar entre os vermes que destruiriam minha individualidade! Minha mãe, que partilhava de minhas convicções, porque também as recebera de meu genitor, bastava-me para companhia nas horas de lazer. O móvel da minha “tentativa” de suicídio, como vê, não foi desgosto amoroso. Foi a perca da saúde! Fui sempre fisicamente débil, franzino, um triste, sonha­dor infeliz e insatisfeito, apavorado do Existir! Incor­rigível desconsolo entenebreceu os dias de minha vida! Encerrado neste círculo deprimente, vi a tuberculose apossar-se de meu organismo, mal hereditário que me não foi possível combater! Desenganado pela Ciência, preferi, então, acabar de vez, sem maiores sofrimentos, com a matéria miserável que começava a apodrecer sob a desintegração fornecida por uma moléstia incurável, ma­téria que, por sua própria natureza, destinada era à po­dridão da morte, ao eterno tombo nas voragens do Nada!

Para que, pois, esperaria eu a marcha dolorosa da tuberculose extinguir minha individualidade em lentos suplícios, sem consolo, sem esperança compensadora no porvir de além-morte, onde não encontraria senão o ani­quilamento absoluto, a desintegração perfeita, espantalho humano atirado ao desalento, do qual fugiriam todos, a própria mãe inclusive — quem o adivinharia? — te­mendo os perigos do contágio?...

Morrer era solução boa, muito lógica, para quem, como eu, só via à frente um corpo aniquilado pela doen­ça e a destruição absoluta do ser como desanimadoras.

“— Não possuo a competência de V. Excia. Senhor Professor, nem me será dado raciocinar com tanta finu­ra. Todavia, com o devido respeito à pessoa de V. Exce­lência, considero execrável pecado o não aceitar o homem a existência de Deus, Sua Paternidade para com as cria­turas e a eternidade da alma, por mais criminoso e abje­to que seja.

Felizmente para mim, foram coisas em que sempre acreditei com veemência.. .“ — intrometeu-se Jerônimo com simplicidade, sem perceber a tese profun­da que apresentava a um ex-professor de Dialética.

“— Como e por que, então, vos revoltastes contra as circunstâncias naturais da vida humana, isto é, aos sofrimentos que vos couberam na desoladora partilha, a ponto de confessardes que desejastes morrer, Sr. de Araújo Silveira!... Se eu, desfavorecido pela Fé, ca­rente de Esperança, desamparado pela descrença em um Ser Supremo, à mercê do pessimismo a que minhas con­vicções conduziam, para quem o túmulo apenas traduzia olvido, aniquilamento, absorção no vácuo, me desorien­tasse ao embater da desventura e “tentasse” matar-me a fim de poupar-me luta desigual e inútil, concebe-se! Mas, vós outros?... Vós outros, crentes na Paternidade de um Deus Criador, sede de perfeições infinitas, como dizeis, sob cuja direção sábia caminhais; vós, certos da personalidade eterna, fadada à mesma finalidade glorio­sa do seu Criador, herdeira da própria eternidade exis­tente naquele Ser Supremo, para a qual marcha pela ordem natural da lei de atração e afinidade, cair em desesperações e revoltar-se contra a mesma lei, pois sei que a crença num Poder Absoluto proíbe a infração do suicídio, é paradoxo que não se chega a admitir. Por­tadores de tal ciência, corações alumiados pelos ardores de tão radiosa convicção, energias revigoradas pela for­taleza de tão sublime esperança, deveríeis considerar-vos deuses também, homens subllmizados para quem os in­fortúnios seriam meros contratempos de momento! Oh! pudesse eu convencer-me dessa verdade e não temeria enfrentar, novamente, nem os desgostos que arruinaram meus dias, nem a tuberculose que me reduziu ao que vedes!” — revidou com lógica férrea o discípulo de Conte, cuja sinceridade me despertou simpatia.

“— E agora, qual a opinião de V. Excia. sobre o momento presente? Que explicação sugere a filosofia comtista para o que se passa?.. .“ — interroguei, cheio de curiosidade, interessando-me pelo debate.

“— Nada! — respondeu simplesmente. — Não su­gere coisa alguma... Continuo na mesma...

Não con­segui morrer!.. .“

Evidente era que dúvidas desconcertantes nos ata­cavam a todos, a ele também. O que não queríamos era curvar-nos à evidência. Tínhamos medo de encarar de frente a realidade.

“— Dizei algo de vós, Sr. Botelho — atreveu-se João castigar-me. — Há muito estimais observar-nos, mas tendes silenciado sobre vossa pessoa, que tão interessan­te nos parece...

Quanto a mim, não desejo permanecer incógnito! Bem sabeis os motivos que me arrojaram ao pélago ignóbil do suicídio: — a paixão pelo jogo. — Joguei tudo! A honra inclusive, e a própria vida!...”

“— Perdão, amigo d’Azevedo, como jogaste a vida... se aí estás a falar-nos de ti? !“ — interveio Jerônimo desconcertantemente.

O interlocutor sobressaltou-se e, sem responder, in­sistiu no propósito de excitar-me:

“— Vamos, ilustre romancista, velho boêmio do Por­to, desce do teu feio pedestal de orgulho... Vem dizer algo de tua “majestosa” superioridade.. .“

Senti a mordacidade nas descorteses expressões de João, que se antipatizara comigo na mesma proporção que eu a Belarmino, do qual era muito amigo, e que deixara, um momento, de choramingar para me provocar o mau-humor.

Aborreci-me. Fui indivíduo sempre melindroso e sus­cetível, e a morte não corrigira ainda a grave anorma­lidade.

“— Pois quê?... Seria eu, acaso, forçado a con­fessar particularidades a tal corja, só porque ela havia confessado as suas?... Porventura devia eu qualquer consideração a essa ralé, que fui encontrar no Vale imun­do?.. .“ — pensei, sufocado pelo orgulho, com efeito, de me julgar superior.

Á consideração que aos companheiros de infortúnio o meu mau-senso negava, a mim mesmo continuava dis­pensando gratamente, entendendo que, se para lá eu tam­bém me vira arremessado, era que no meu caso existira injustiça calamitosa; que eu não merecera a repressão por ser melhor, mais digno, mais credor de favores do que os outros que comigo lá se haviam homiziado. Fosse como fosse, preferiria não me expandir porque o meu orgulho a tanto não me animava. Mas, personagens de nossa infeliz categoria não se acham à altura de sopitar impulsos do pensamento calando expansões diante de afins; tampouco sabem dominar emoções, furtando-se àvergonha das devassas no campo íntimo, em presença de estranhos.

Assim sendo, as torrentes de vibrações dese­ducadas derramam-se do seu interior configuradas em palavreado ardente e emotivo, ainda que elas próprias não o desejem, tal se as comportas magnéticas, que as reti­vessem nos pegos mentais, se houvessem rompido gra­ças às agitações de que se fizeram presas. Aliás, o tom sincero, a formosa lhaneza do professor de Filosofia e Dialética, convidando-me a atitude menos descortês do que a que me habituara até então, fez-me aquiescer ao alvitre de João d’Azevedo. Mas foi, antes, dirigindo-me de preferência àquele, por entender que só a sua elevada cultura estaria a plano de me compreender, que fui di­zendo, grave, compenetrado, concedendo-me importância ridícula na humílima situação em que me achava:

“— Eu, Sr. Professor, sou um indivíduo que se ima­ginava iluminado por um saber sem jaças, mas que, em verdade, hoje começa a compreender que ignorava, e continua ignorando, o que a dois palmos do próprio na­riz existe. Fui paupérrimo (digo “fui” porque algo se­greda em meu ser que tudo isso pertenceu ao pretérito), com o insuportável defeito de ser orgulhoso. Um homem, finalmente, que não descria da existência de um Ser Su­perior presidindo à Sua Criação, é certo, mas que, con­siderando-o uma Incógnita a desafiar possibilidades hu­manas de lhe decifrar os enigmas, não somente deixava de associar o respeito a esse Ser à sua vida, como, prin­cipalmente, não lhe dava quaisquer satisfações do que fazia ou pretendia para regalo dos próprios caprichos e paixões. Será, pois, redundância afirmar que, muito sábio — tal como me julgava —, arrastava a dissonan te ignorância da descrença na possibilidade de existirem leis onipotentes, irremissíveis, partindo da Divindade Cria­dora e Orientadora para dirigir a Criação, o que me fez cometer erros gravíssimos!

Sofri, e minha existência foi fértil em situações de­sanimadoras! A resignação nunca foi virtude a que se amoldasse o meu caráter violento e agitado por índole. A fundeza dos meus sofrimentos tornou-me irritadiço, genioso. O orgulho insulou-me na convicção de que para além de mim só existiriam valores sofríveis.

Após décadas de prélios malogrados, de aspiraçõeS banidas da imaginação por irrealizáveis no campo da objetividade, de ideais decepcionados, de desejos tão justos quanto insatisfeitos, de esforços rechaçados, de energias varridas por sucessivos desapontamentos e von­tades conjugadas para o bem tornarem ao ponto de origem enfraquecidas e rotas por impiedosos insuces­sos — a cegueira, amigo! que atingiu meus olhos cansa­dos —, como desconcertante prêmio às lutas que de mi­nhas forças exigiram impulsos supremos!

Fiquei cego!

O espectro negro da eterna escuridão estendia sobre meus olhos apavorados o seu manto de trevas, que nem a ciência dos homens, nem a fé alcandorada e ingênua dos amigos que me tentavam levar à conformidade, nem os votos místicos dos corações que me amavam às Potestades Celestes — seriam capazes de arredar!

Descri mais das mesmas Potestades:

— Cego! Cego, eu?...

— Como viveria eu, cego?...

Entendi que, se o Ente Supremo, de quem eu não descria até então, existisse realmente, tal não se daria, porque não quereria certamente desgraçar-me. Esque­cia-me de que existiam esparsos pelo mundo milhões de homens cegos, muitos em condições ainda mais premen­tes que a minha, e que eram todos, como eu, criaturas advindas do mesmo Deus! Descri porque entendi que, se havia outros cegos, que houvesse: — mas que eu não o deveria ser! Era, sim, injustiça, uma finalidade dessa para mim!

Cego!... Era o máximo!

Tão profundo quão surpreendente desespero devo­rava minhas vontades, minhas energias mentais, minha coragem moral, reduzindo-me à inferioridade do covarde! Eu, que tão heroicamente soubera levar de vencida os abrolhos que dificultaram minha marcha para a con­quista da existência, sobrepondo-me a eles, daí para diante encontrar-me-ia impossibilitado de continuar lu­tando! Dei-me por vencido. Cego, eu compreendia ser a minha vida como coisa que pertencesse ao pretérito, realidade que “fora”, mas que já não era

A obsessão fatal do suicídio entrou a fazer ronda em torno de minhas faculdades.

Enamorei-me dela e lhe dei guarida com todo o abandono do meu ser desanima­do e vencido. A morte atraía-me como remate honroso de uma existência que jamais curvara a cerviz à fren­te fosse do que fosse! A morte estendia-me os braços sedutores, falsamente mostrando, às minhas concepções viciadas pela descrença em Deus, a paz do túmulo em consoladoras visões!

Firmada a resolução sobre sugestões doentias; aca­brunhado e a sós com a minha superlativa desgraça; insocorrido pelo sereno consolador da Fé, que teria sua­vizado a ardência do meu íntimo desespero; excitada a imaginação já de si mesma audaz e ardente, criei um romance dolorido em torno de mim mesmo e, conside­rando-me mártir, condenei-me sem apelação!

É que tive medo e vergonha de ser cego!

Matei-me no intuito de encobrir da sociedade, dos homens, dos meus inimigos a incapacidade a que ficara reduzido!

Não! Ninguém se gloriaria vendo-me receber o amar­go pão da compaixão alheia!

Ninguém contemplaria o espetáculo, humilhante para mim, de minha figura vaci­lante, tateando nas trevas dos meus olhos incapacitados para a visão! Meus inimigos não se rejubilariam, refo­cilando na vingança de assistirem à minha irremediável derrota! Mil vezes não! Eu não me brutalizaria na inér­cia de olhar só para dentro de mim mesmo, quando o Universo continuaria irradiando vida fecunda e progressi­va ao redor de minha sombra empobrecida pela cegueira!

Matei-me porque me reconheci demasiadamente fra­co para continuar, dentro da noite pávida da cegueira, a jornada que, já enfrentada à boa luz dos olhos, fora farta de empeços e percalços!

Era demais! Revoltei-me até ao âmago contra o Destino que me reservara tão desconcertante surpresa e inconsolável permaneci sob o esmagamento da dramá­tica ingratidão que supunha provir de Deus! Para mim, a Providência, o Destino, o mundo, a sociedade, estavam errados todos: — só eu estava certo, exagerando a tra­gédia das minhas desesperanças!

Pois quê?... Eu, que possuia capacidade intelec­tual avantajada, era paupérrimo, quase faminto, ao pas­so que circulavam em torno a mim ignorantes e beócios de cofres recheados!

Eu, que me sentia idealista e bom, vivia molestado por adversidades que me teciam continuado cerco, sitiando-me em campos que desafiavam pos­sibilidades de vitória! Eu, cujo coração sentimental abra­sava-se em ânsias generosas e ternas, de excelência quiçá sublime, a conhecer-me ininterruptamente incompreendi­do, incorrespondido, ferido por descasos tanto mais ama­rgos quanto mais extensas fossem as radiações do meu sentir! Eu, honesto, probo, reto, a pautar-me por dire­trizes sadias por entendê-las mais belas ajustadas ao idealismo que acompanhava o meu caráter, a tratar com patifes, a comerciar com roubadores, a disputar com hi­pócritas, a confiar em velhacos, a considerar tratantes !...

Sim, era demais!...

E depois de tão extenso panorama de desventu­ras — porque, para mim, indivíduo impaciente e nada con­formado, esses fatos, tão vulgares na vida cotidiana, avultavam como veras calamidades morais —, o doloroso arredate da cegueira reduzindo-me à insignificância do verme, à angústia do desamparo, à inércia do idiota, à solidão do emasmorrado!

Não pude mais!

Faltou-me compreensão para tão grande anomalia! Não compreendi Deus! Não entendi sua Lei! Não entendi ­a Vida! Uma torrente de confusão insolúvel alagou-me o pensamento aterrado em face da realidade! Só com­preendi uma coisa: — era que precisava morrer, devia morrer! E quando uma criatura deixa de confiar no seu Deus e Criador — torna-se desgraçada! Ë um miserá­vel, é um demônio, é um réprobo! Quer o abismo, pro­cura o abismo, precipita-se no abismo!

Precipitei-me!”

Não sei que malvadas sugestões a minha facúndia blasfema espalhou pelo ambiente mórbido de nossa en­fermaria, O que sei é que a triste assembléia deixou-se resvalar para as vibrações desarmoniosas, entregando-se a pranto dolorido e crises impressionantes, notadamente o antigo exportador de vinhos — Jerônimo — e o uni­versitário Sobral, que eram os mais sofredores. Eu mes­mo, à proporção que prosseguia na minha angustiante exposição, eivada de conceitos doentios, tanto retroagia mentalmente às situações precipitosas de minha passada vida carnal, às fases doloridas e inelutáveis que me de­primiram cruamente — que lágrimas rescaldantes vol­taram a correr por minhas faces maceradas, enquanto novamente se me obscurecia a visão e trevas substi­tuiam os doces pormenores dos cortinados azuis, esvoaçantes, e das róseas trepadeiras galgando as colunatas dos balcões.

Acudiram enfermeiros solícitos a verem o que se passava, uma vez que não era previsto o incidente. No Hospital Maria de Nazaré o enfermo, rodeado das emanações mentais revivificantes de seus tutelares e diri­gentes, visitados por ondas magnéticas salutares e gene­rosas, que visavam a beneficiá-lo, deveria auxiliar o trata­mento conservando-se silencioso, sem jamais se entreter em conversações de assuntos pessoais. Conviria repou­sar, procurar esquecer o passado tormentoso, varrer re­cordações chocantes, refazendo-se quanto possível das longas dilacerações que desde muito o acutilavam. Fomos advertidos, portanto, como infratores de um dos mais importantes regulamentos internos. E nem poderíamos exculpar-nos alegando ignorância, porque, ao longo das paredes, letreiros fosforescentes a cada momento desper­tavam nossas atenções com permanentes pedidos de silên­cio, enquanto a própria instituição oferecia o exemplo movimentando suas constantes azáfamas sob o controle de criteriosa discrição. E, embora bondosamente, decla­raram qué uma reincidência implicaria em atitude pu­nitiva por parte da direção, qual a transferência para o Isolamento, pois, o fato, a repetir-se, produziria dis­túrbios de conseqüências imprevisíveis, não somente para o nosso estado geral, mas também para a disciplina hospitalar, que deveria ser rigorosamente observada —o que nos levou a perceber serem mais austeras as re­gras no Isolamento, mais temíveis as suas disciplinas. E para que medida tão ríspida fosse evitada, estabele­cida foi severa vigilância em nossa dependência. Desde aquele momento, um guarda do regimento de lanceiros hindus, aqüartelados no Departamento de Vigilância, foi designado para o plantão em nossos apartamentos.

Cerca de um quarto de hora depois, enfermeiro loiro e risonho, jovem que andaria pelos vinte e três anos de idade, o qual entrevíramos ao darmos entrada no im­portante estabelecimento do astral, por ser um daqueles que nos receberam a par de Romeu e de Alceste, visi­tou-nos fazendo-se acompanhar de mais dois obreiros da casa; e, irradiando simpatia, foi dizendo mui afetuosa­mente, pondo-nos à vontade:

“— Meus amigos, chamo-me Joel Steel, sou — ou fui, como queiram — português nato, mas de origem in­glesa. Em verdade o velho Portugal foi sempre muito querido ao meu coração... Jamais pude esquecer os dias venturosos que em seu seio generoso passei... Fui feliz em Portugal... mas depois... os fados me arrastaram para o País de Gales, berço natal de minha querida mãe, Dons Mary Steel da Costa, e então... Bem, é como compatriota e amigo que vos convido ao gabinete cirúr­gico a fim de serdes submetidos aos necessários exames, pois que se iniciaram neste momento os trabalhos de ci­rurgia.

Prontificamo-nos, esperançados. Não desejávamos outra coisa desde muito tempo! As dores que sentíamos, nossa indisposição geral, refletindo penosamente o que ocorrera com o corpo físico-material, havia muito que nos fazia ansiar pela presença de um facultativo.

Mário e João, cujo estado era melindroso, foram transportados em macas, enquanto os demais seguiam amparados pelos braços fraternos dos enfermeiros bon­dosos.

Pude então distinguir algo dessa casa magnânima assistida pela carinhosa proteção da excelsa Mãe do Nazareno.

Não somente o excelente conjunto arquitetônico se­ria digno de admiração. Também a montagem, o gran­dioso aparelhamento, conjunto de peças extraordinárias, apropriadas às necessidades da clínica no astral, demons­trando o elevado grau que atingira a Medicina entre nos­sos tutelares, muito embora se não tratasse, o local onde nos encontrávamos, de zona adiantada da Espiritualidade.

Médicos dedicados e diligentes atendiam com fra­ternas solicitudes aos míseros necessitados dos seus ser­viços e proteção. Estampavam-se em suas fisionomias bondosas o compassivo interesse do ser superior pelo mais frágil, da inteligência esclarecida pelo irmão infeliz ainda mergulhado nas trevas da ignorância. Entretan­to, nem todos trajavam uniformes à indiana. Muitos en­vergavam longos aventais vaporosos e alvíssimos, quais túnicas singulares, de tecido fosforescente...

Não assisti ao que foi passado com meus compa­nheiros de desdita. Mas, quanto a mim, em chegando ao pavilhão reservado aos labores assistenciais, fui trans­ferido dos cuidados de Joel Steel para os do jovem dou­tor Roberto de Canalejas, o qual me encaminhou para determinada dependência, onde minha organização físico-espiritual — o perispírito — foi submetida a minuciosos e importantes exames. Carlos de Canalejas, pai do pre­cedente, ancião venerável, antigo facultativo espanhol que fizera da Medicina um sacerdócio, página heróica de abnegação e caridade digna do beneplácito do Médico Celeste, e mais um dos psiquistas hindus que nos socorreram à chegada — Rosendo —, foram os meus assis­tentes. Roberto passou então a assistir ao importante labor qual doutorando às lições dos mestres nos santuá­rios da Ciência, o que vinha esclarecer encontrar-se ele ainda em aprendizado na Medicina local.

A minha organização astral prestaram socorros fí­sico-astrais justamente nas regiões correspondentes às que, no envoltório físico-terreno, foram dilaceradas pelo projetil de arma de fogo de que utilizara para o sui­cídio, ou seja, os aparelhos faríngico, auditivo, visual e cerebral, pois o ferimento atingira toda essa melindrosa região do meu infeliz envoltório carnal.

Era como se eu, quando homem encarnado (e real­mente assim fora, assim é com todas as criaturas) pos­suísse um segundo corpo, molde, modelo do que fora destruído pelo ato brutal do suicídio; como se eu fora “duplo” e o segundo corpo, possuindo a faculdade de ser indestrutível, se ressentisse, no entanto, do quanto sucedesse ao primitivo, qual se estranhas propriedades acústicas sustentassem repercussões vibratórias capazes de se prolongarem por indeterminado prazo, fazendo enfermar aquele.

Sei que os tecidos semimateriais das regiões já ci­tadas do meu perispírito, profundamente afetadas, rece­beram sondagens de luz, banhos de propriedades mag­néticas, bálsamos quintessenciados, intervenções de subs­tâncias luminosas extraídas dos raios solares; que deles extrairam fotografias e mapas movediços, sonoros, para análises especiais; que tais fotografias e mapas mais tar­de seriam encaminhados à “Seção de Planejamento de Corpos Físicos”, do Departamento de Reencarnação, para estudos concernentes à preparação da nova vestidura carnal que me caberia para o retorno aos testemunhos e expiações na Terra, aos quais julgara poder furtar-me com o tresloucado gesto que tivera. Sei que, submetido ao estranho tratamento, envolvido em aparelhos sutis, luminosos, transcendentes, permaneci uma hora, durante a qual o velho doutor de Canalejas e o cirurgião hindu desvelaram-Se carinhosamente, reanimando-me com pala­vras encorajadoras, exortando-me à confiança no futuro, à esperança no Supremo Amor de Deus! E sei também que causei trabalhos árduos, mesmo fadigas àqueles abne­gados servos do Bem; que exigi preocupações, obrigan­do-os a devotamentos profundos até que em meu físico-astral se extinguissem as correntes magnéticas afins com o físico-terreno, as quais mantinham o clamoroso desequilíbrio que nenhuma expressão humana será bas­tante veraz para descrever!

É que o “corpo astral”, isto é, o perispírito — ou ainda o “físico-espiritual” — não é uma abstração, figu­ra incorpórea, etérea, como supuseram. Ele é, ao con­trário disso, organização viva, real, sede das sensações, na qual se imprimem e repercutem todos os aconteci­mentos que impressionem a mente e afetem o sistema nervoso, do qual é o dirigente.

É que, nesse envoltório admirável da Alma — da Essência Divina que em cada um de nós existe, assina­lando a origem de que provimos —, persiste também uma substância material, conquanto quintessenciada, o que a ele faculta a possibilidade de adoecer, ressentir-se, pois que semelhante estado de matéria é assaz impres­sionável e sensível, de natureza delicada, indestrutível, progressível, sublime, não podendo, por isso mesmo, pa­decer, sem grandes distúrbios, a violência de um ato brutal como o suicídio, para o seu invólucro terreno.

Entretanto, sob tantos cuidados médicos mais se avantajavam minhas dúvidas quanto à situação própria. Muitas vezes, durante a desesperadora permanência no Vale Sinistro, eu chegara a acreditar que morrera, oh, sim! e que minhalma condenada expiava nos infernos os tremendos desatinos praticados em vida. Agora, po­rém, mais sereno, vendo-me internado em bom hospital, submetido a intervenções cirúrgicas, conquanto muito diversos fossem os métodos locais dos que me eram ha­bituais, novas camadas de incertezas inquietavam-me o espírito:

Não! Não era possível que eu tivesse morrido!

Isto seria morte?... Seria vida?...

Foi, portanto, derramando aflitivo pranto que, em dado momento, naquele primeiro dia, sob as desveladas atenções de Carlos e Rosendo, bradei excitado, febril, in­capaz de por mais tempo me conter:

“— Mas, afinal, onde me encontro eu?... Que acon­teceu?... Estarei sonhando?... Eu morri ou não mor­ri?... Estarei vivo?... Estarei morto?. .

Atendeu-me o cirurgião hindu, sem se deter na me­hndrosa atuação. Fitando-me com brandura, talvez para demonstrar que minha situação lhe causava lástima ou compaixão, escolheu o tono mais persuasivo de expres­são, e respondeu, sem deixar margem a segunda inter­pretação:

“— Não, meu amigo! Não morreste! Não morrerás jamais!... porque a morte não existe na Lei que rege o Universo! O que se passou foi, simplesmente, um la­mentavel desastre com o teu corpo físico-terreno, ani­quilado antes da ocasião oportuna por um ato mal orien­tado do teu raciocínio... A Vida, porém, não residia naquele teu corpo físico-terreno e sim neste que vês e contigo sentes no momento, o qual é o que realmente sofre, o que realmente vive e pensa e que traz a quali­dade sublime de ser imortal, enquanto o outro, o de carne, que rejeitaste, aquele, apropriado somente para o uso durante a permanência nos proscênios da Terra, já desapareceu sob a sombria pedra de um túmulo, como vestimenta passageira que é deste outro que aqui está... Acalma-te, porém... Melhor compreenderás à proporção que te fores restabelecendo...”

Trouxeram-me em maca rumo da enfermaria. Meu estado requeria repouso. Serviram-me reconfortante cal­do, pois eu tinha fome. Deram-me a beber água crista­lina e balsamizante, pois eu tinha sede. Em redor, o silêncio e a quietação, envolvidos em ondas de reconforto e beneficência, convidavam ao recolhimento. Obedecendo à caridosa sugestão de Rosendo, procurei adormecer, en­quanto o desapontamento, trazido pela inapelável reali­dade, fazia ecoar suas decisivas expressões em minha mente atormentada:

“— A Vida não residia no corpo físico-terreno, que destruíste, mas sim neste que vês e sentes no momento, o qual traz a qualidade sublime de ser imortal!”




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