Rias de um suicida yvonne do amaral pereira



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O reconhecimento

O segundo acontecimento que, a par do que acaba­mos de narrar, impôs-se marcando etapa decisiva em nossos destinos, teve inicio no honroso convite que rece­bemos da diretoria do Hospital para assistirmos a uma reunião acadêmica, de estudos e experimentações psí­quicas. Como sabemos, Jerônimo negara-se a anuir ao convite, e, por isso, na tarde daquele mesmo dia em que visitara a família, enquanto nos dirigíamos à sede do Departamento a fim de a ela assistir, ele, presa de de­solação profunda, de supremo desconforto, solicitava a presença de um sacerdote, pois confessava-se católico-romano e seus sentimentos impeliam-no à necessidade de assim se aconselhar e reconfortar-se, a fim de revigorar a fé no Poder Divino e serenar o coração que, como nun­ca, sentia despedaçado. Aquiesceu o magnânimo orien­tador do Departamento Hospitalar, compreendendo que no espírito do ex-mercador português soava o momento do dealbar para o progresso, e que, dado os princípios religiosos que esposava, aos quais se apegava intransi­gentemente, a seu próprio benefício seria prudente que a palavra que mais respeito e confiança lhe inspirasse fosse a mesma que o preparasse para a adaptação à vida espiritual e suas transformações.

Na Legião dos Servos de Maria e até mesmo nos serviços da Colônia que nos abrigava, existiam Espíritos eminentes que, em existências pregressas, haviam enver­gado a alva sacerdotal, honrando-a de ações enobrecedoras inspiradas nas fontes fúlgidas dos sacrossantos exemplos do Divino Pegureiro. Dentre vários que colaboravam nos serviços educativos do Instituto a que nos temos repor­tado, destacava-se o padre Miguel de Santarém, servo de Maria, discípulo respeitoso e humilde das Doutrinas consagradas no alto do Calvário.

Era o diretor do Isolamento, instituição que, como sabemos, anexa ao Hospital Maria de Nazaré, exercia métodos educativos severos, mantendo inalteráveis disci­plinas por hospedar em seus domínios apenas individua­lidades recalcitrantes, prejudicadas por excessivos pre­juízos terrenos ou endurecidas nos preconceitos insidiosos e nas mágoas muito ardentes do coração. Portador de inexcedível paciência, exemplo respeitável de humildade, cordura e conformidade, aureolado por subidos sentimen­tos de amor aos infelizes e transviados e tocado de paternal compaixão por quantos Espíritos de suicidas soubesse existir, era o conselheiro que convinha, o men­tor adequado aos internos do Isolamento. Além de sa­cerdote era também filósofo profundo, psicólogo e cien­tista. Havia muito, em existência pregressa cursara Doutrinas Secretas na Índia, conquanto depois tivesse outras migrações terrestres, provando sempre as melho­res disposições para o desempenho do apostolado cris­tão. Entre estas, a última fora passada em Portugal, onde recebera o nome acima citado, continuando a usá-lo no além-túmulo, bem assim a qualidade de religioso sin­cero e probo.

Irmão Teócrito entregou o penitente Jerônimo a esse obreiro devotado, certo da sua capacidade para resolver problemas de tão espinhosa natureza. E foi assim que, naquela mesma tarde, quando as linhas do crepúsculo acentuavam de névoas pardacentas os jardins nevados dos burgos hospitalares, Jerônimo de Araújo Silveira se transferiu para o Isolamento, passando aos cuidados protetores de um sacerdote, tal como desejara. Desse dia em diante perdemos de vista o pobre comparsa de delito. Um ano mais tarde, no entanto, tivemos a satisfação de reencontrá-lo. Em capítulos posteriores voltaremos a tratar desse muito estremecido companheiro de prélios reabilitadores.

No dia imediato ao da nossa internação no magno Instituto do Astral, passamos a ser diariamente leva­dos aos gabinetes clínico-psíquicos onde era ministrado tratamento magnético muito eficiente, pois dentro de al­guns dias já nos podíamos reconhecer mais confortados e raciocinando com maior clareza, gradativamente for­talecidos como se tônicos revivificadores ingeríssemos através das aplicações a que nos submetiam. Para tais gabinetes éramos encaminhados todas as manhãs, por nossos amáveis enfermeiros. Entrávamos, cada grupo de dez, para uma antecâmara rodeada de pequenos ban­cos estofados, onde esperaríamos durante curto espaço de tempo. Notávamos que existiam várias dependências como essa, todas situadas em extensa galeria onde co­lunas sugestivas se alinhavam em perspectiva majestosa. Transcendia nesses recintos a estilização hindu, convidan­do à meditação e à gravidade.

Penetrávamos então o ambiente dos trabalhos.

Impregnado de fosforescências azuladas, então ainda imperceptíveis à nossa capacidade espiritual, as dimen­sões desses gabinetes não eram extensas. Pequenos co­xins orientais em tessitura semelhante à pelúcia branca, e dispostos em semicírculo, aguardavam-nos, indicando que deveríamos sentar. Seis varões hindus esperavam os pacientes, concentrados no caridoso mandato.

A princípio tais cerimônias, sugestivas e rodeadas de um quase mistério, muito nos intrigaram. Não conhe­cêramos indianos psiquistas em Portugal. Tampouco fô­ramos aplicados a estudos e exames de natureza trans­cendental. Eis, todavia, que nos surpreendíamos agora sob a dependência e proteção de uma falange de inicia­dos orientais, a cuja existência real não déramos jamais senão relativo crédito, por se nos afigurar excessiva­mente mística e lendária. O ambiente que agora con­templávamos, porém, impregnado de unção religiosa, a qual atuava poderosamente sobre nossas faculdades, le­nificando-as ao impulso de religioso fervor, imprimia tão profundas e atraentes impressões em nossos Espíritos que, atordoados no seio do seu ineditismo, julgávamos sonhar. Quando, pelas primeiras vezes, penetramos esses gabinetes saturados de ignotas virtudes, fomos mesmo acometidos de invencível sonolência, que nos provocou um como estado de semi-inconsciência.

Os operantes indicavam-nos o semicírculo formado pelos alvos coxins. Cinco desses médicos espirituais pos­tavam-se atrás, distanciados uns dos outros por espaço simétrico, uniforme, até atingirem um em cada extremi­dade do semicírculo. O sexto colocava-se à frente, como fechando o círculo dentro do qual ficávamos nós outros prisioneiros — os braços cruzados à altura da cinta, a fronte atenta e carregada, como expedindo forças men­tais dominadoras para caridosa vistoria e inspeção nas fráguas do nosso atormentado ser.



Em surdina vibravam ao nosso redor sussurros har­moniosos de prece. Mas não saberíamos distinguir se oravam, invocando as excelsas virtudes do Médico Ce­leste para nosso refrigério ou se nos advertiam e dou­trinavam. O que não nos deixavam dúvidas, por se im­por à evidência, era que atravessavam nosso pensamento com os poderes mentais que possuíam, devassavam nosso caráter, examinando nossa personalidade moral a fim de deliberarem sobre a corrigenda mais acertada — qual o cirurgião investigando as vísceras do cliente para lo­calizar a enfermidade e combatê-la. Tal certeza infun­dia-nos múltiplas impressões, a despeito do singular es­tado em que nos encontrávamos. A vergonha por ha­vermos pretendido burlar as Leis Superiores da Criação, afrontando-as com o ato brutal de que usáramos; o remorso pelo descaso à Majestade do Onipotente; a de­primente amargura de havermos dedicado nossas melho­res energias aos gozos inferiores da matéria, atendendo de preferência aos imperativos mundanos, sem jamais observarmos as urgentes requisições da alma, deixando de nos conceder momentos para a iluminação inte­rior — eram pungentes estiletes que nos penetravam o âmago durante a sublime vistoria a que nos submetiamos, inspirando-nos mágoas e desgostos que eram o prelúdio de real e fecundo arrependimento. Nossos menores atos pretéritos voltavam dos pélagos trevosos em que jaziam para se aviventarem à nossa presença, nitidamente im­pressos em nós mesmos! Nossa vida, que o suicídio in­terrompera, desde a infância era assim reproduzida aos nossos olhos aterrorizados e surpreendidos, sem que fos­se possível determos a torrente das cenas revivescidas para exame! Quiséramos poder fugir a fim de nos fur­tarmos à vergonha de pôr a descoberto tanta infâmia, julgada oculta para sempre até de nós mesmos, pois, com efeito, era dramático, excessivamente penoso desa­tar volumes tão variados de maldade e torpezas diante testemunhas tão nobres e respeitáveis! Mas era em vão que o desejaríamos! Sentíamos que nos vinculávamos àqueles coxins pela ação de vontades que se haviam apossado de nosso ser! Ao fim de alguns minutos, po­rém, suspendiam a operação. Esvaía-se o torpor. As lú­gubres sombras do passado eram expungidas de nossa visão, recolhidas que eram ao pego revolto da subcons­ciência, aliviando a crueza das recordações. Então a fronte carregada do operador serenava qual arco-íris hialino. Um ar de amorosa compaixão derramava-se por suas atitudes, e, aproximando-se, espalmava sobre nos­sas cabeças as mãos níveas, enquanto os cinco demais assistentes o acompanhavam nos gestos e nas expres­sões. Compassivos, os fluidos beneficentes que a seguir nos faziam assimilar — terapêutica divina — iriam, gra­dualmente, auxiliar-nos a corrigir as impressões de fome e de sede; a postergar a insana sensação de frio intenso, que num suicida resulta da gelidez cadavérica que ao perispírito se comunica; a atenuar os apetites e arras­tamentos inconfessáveis, tais os vícios sexuais, o álcool, o fumo, cujas repercussões e efeitos produziam desequi­líbrios chocantes em nossos sentidos espirituais, inter­ceptando possibilidades de progresso na adaptação e im­pondo-nos humilhações singulares, por assinalar a ínfima categoria a que pertencíamos, na respeitável sociedade dos Espíritos que nos rodeavam.

Entre os esforços que nos sugeriam empreender, destacava-se o exercício da educação mental no tocante à necessidade de varrer das nossas impressões o dramático e apavorante hábito, tornado trejeito nervoso e alu­cinado, de nos socorrermos a nós próprios, na ânsia contumaz de nos aliviarmos do sofrimento físico que o gênero de morte provocara.

Como ficou explicado, havia aqueles que se preo­cupavam em estancar hemorragias, havia os enforcados a se debaterem de quando em quando, porfiando no esforço ilusório de se desfazerem dos farrapos de cordas ou tra­pos que lhes pendiam do pescoço; os afogados, brace­jando contra as correntes que os haviam arrastado para o fundo; os “retalhados”, hediondos quais fantasmas fabulosos, a se curvarem em intermitências macabras, na ilusão de recolherem os fragmentos dispersos, ensangüen­tados, do corpo carnal que lá ficara algures, estraça­lhado sob as rodas do veículo à frente do qual se arro­jaram em audaciosa aventura, supondo furtarem-se ao sagrado compromisso da existência! Tais gostos, repeti­mos, à força de se reproduzirem desde o instante em que se efetivara o suicídio, e quando o instinto de conser­vação imprimiu na mente o impulso primitivo para a tentativa de salvamento, haviam degenerado em vício nervoso mental, sucedendo-se através das vibrações na­turais ao princípio vital, repercutidas na mente e trans­mitidas à organização físico-espiritual. Urgia que a Ca­ridade, sempre pronta a espalmar asas protetoras sobre os que padecem, corrigindo, amenizando, dulcificandO ma­les e sofrimentos, impusesse sua benevolência à anomalia de tantos desgraçados perdidos nos pantanais de tredas alucinações. Para isso, enquanto apunham as mãos so­bre nossas cabeças, envolvendo-as em ondas magnéticas apropriadas à caridosa finalidade, os irmãos operadores murmuravam, enquanto sugestões magnânimas reboavam pelos labirintos do nosso “eu” com repercussões precisas e fortes, quais clarinadas despertando-nos para uma al­vorada de esperanças:

“— Lembrai-vos de que já não sois homens!... Ao afastar-vos daqui não deveis pensar a não ser na vossa qualidade de alma imortal, a quem não mais devem afe­tar os distúrbios do envoltório físico-carnal!... Sois Es píritos! E será como Espíritos que devereis prosseguir a marcha progressiva nos planos espirituais!”

O convite para a reunião presidida por Teócrito deixara-nos satisfeitos. Éramos sensíveis às demonstra­ções de afeto e consideração.

Um frêmito de horror percorreu minhas sensibilida­des ao reconhecer na vasta assembléia figuras hirsutas, desgrenhadas e apavorantes do Vale Sinistro, conquanto confessasse a mim mesmo encontrá-las algo serenadas, tal qual acontecia a mim e meus companheiros de apartamento. Será útil esclarecer que os componentes de nossa falange poderiam ser qualificados como “arrepen­didos”, e, por isso mesmo, dóceis às orientações forne­cidas pelos insignes diretores do asilo que nos abrigava. Um ou outro mantinha-se menos homogêneo, oferecendo problema mais sério a resolver. Todavia, era certo que a maioria se conservava fortemente animalizada, fosse conseqüência da inferioridade do caráter próprio ou re­sultado da violência do choque ocasionado pela bruteza do suicídio escolhido. Dentre estes destacavam-se os “re­talhados”, afogados, despenhados de grandes alturas, etc., etc. Atordoados, como que atoleimados, não era com facilidade que conseguiam suficiente dose de raciocínio para compreender as imposições da vida espiritual. Ocupavam eles o asilo do Manicômio por inúmeras conveniências, entre outras as que arrastavam a necessidade de enco­bri-los à nossa visão, pois repugnava-nos a presença deles, excitando impressões desarmoniosas, prejudiciais à serenidade de que carecíamos para o restabelecimento.

Não obstante, foram igualmente encaminhados ao local da reunião; e, quando, acompanhados por nossos dedicados amigos Joel e Roberto, entramos no vasto sa­lão, ali os distinguimos entre muitos outros enfermos que, como nós, haviam sido requisitados.

Observando os antigos companheiros do vale de tre­vas, vi que se esforçavam, como nós mesmos vínhamos tentando desde alguns dias, para corrigir os feios ca coetes já mencionados, pois, se o hábito impelia à repe­tição dos mesmos, lembravam-se a tempo e paralisavam a meio caminho o impulso mental que os ocasionava, levando em consideração a sugestão oferecida pelos amo­ráveis assistentes. Então, riam-se de si mesmos em co­movedores desabafos, nervosamente, pensando em que já não deveriam sentir os efeitos físicos do ato macabro. Riam uns para os outros como a se felicitarem mutua­mente pelo alívio recebido através da informação de que já não deviam sentir aquelas impressões... e como se o riso sacudisse vibrações tormentosas. Riam para se desacostumarem daquele choro malévolo que acordava sensações precipitosas!... No Hospital eram proibidas as rábicas convulsões do Vale Sinistro... e chorar, nas desesperadoras aflições com que para trás havíamos cho­rado, era destampar a comporta das torrentes das ago­nias que a caridade sacrossanta de Maria minorava atra­vés do desvelo dos seus servos...

E eu, observando-os, ria também, sem fugir à estra­nha similitude da falange...

Sentamo-nos a um sinal de Roberto.

Nada apresentava a sala que despertasse particular atenção. Contudo, se insuficiente não fora o grau de visão de que dispúnhamos para alcançar as sublimes manifestações de caridade que em nosso derredor pulu­lavam, teríamos notado que delicadas vaporizações fluí­dicas, como orvalho refrigerante e ameno, deliam-se pelo recinto, impregnando-o de dúlcidas vibrações.

A um ângulo do tablado que do fundo do salão defrontava a assembléia, notava-se um aparelho muito semelhante aos existentes nas enfermarias, conquanto apresentasse certas particularidades. Dois jovens inicia­dos puseram-se a examiná-lo ao tempo que Irmão Teócrito tomava lugar na cátedra ladeado por outros dois companheiros, aos quais apresentou à assembléia como instrutores que nos deveriam orientar, e a quem deve­ríamos o máximo respeito. Satisfeitos, reconhecémos nes­tes os dois jovens hindus que nos receberam quando da nossa entrada para o Hospital: Romeu e Alceste.

Silêncio religioso estendeu ondas harmoniosas de re­colhimento pelo vasto salão, onde cerca de duzentos Es­píritos, envolvidos nas mais embaraçosas redes da des­graça, acorriam arrastando as bagagens gravosas das próprias fraquezas, das amarguras incontáveis que enoi­tavam suas vidas.

Desciam sobre as latitudes do nosso merencório can­tão as nuanças tristonhas do crepúsculo, que ali muitas vezes arrancava lágrimas de nossos corações, tal a pe­sada melancolia que infundia em derredor.

Seis melodiosas pancadas de um relógio que não víamos, ecoaram docemente na amplidão da sala, como anunciando o início da reunião. E cântico harmonioso de prece, envolvente, emocional, elevou-se em surdina como se até nossa audição chegasse através de ondas invisíveis do éter, provindo de local distante, que não poderíamos avaliar, enquanto se desenhava em uma tela junto à cátedra de Irmão Teócrito o sugestivo quadro da aparição de Gabriel à Virgem de Nazaré, participan­do a descida do Redentor às ingratas praias do Planeta.

Era o instante amorável do Ângelus...

Levantando-se, o diretor fez breve e emocionante saudação a Maria, apresentando-nos reunidos pela pri­meira vez para uma invocação. Doce refrigério estendeu-

-se sobre nossos corações. As lágrimas irromperam e emoções gratas ergueram-se dos túmulos íntimos em que jaziam, acordadas pelas lembranças do lar paterno, da infância longínqua, de nossas mães, a quem nenhum de nós certamente amara devidamente, a ensinar-nos ao pé do leito o balbucio sublime da primeira oração!...

Como tudo isso estava distante, quase apagado sob as voragens das paixões e das desgraças daí conseqüen­tes!... E eis que, inesperadamente, tais lembranças res­suscitavam, almo fantasma que vinha para se impor com o sabor de ósculos maternos em nossas frontes abatidas!

Fundas saudades dilataram nossos pensamentos, pre-dispondo-os à ternura do momento grandioso que nos ofereciam como oportunidade abençoada...

Seria longo enumerar minúcias das belas quanto proveitosas seqüências dos ensinamentos e experiências que passavamos a receber desde essa tarde memorável, os quais integravam o melindroso tratamento a ser mi­nistrado, espécie de doutrinação — terapêutica moral —, com ação decisiva sobre reações necessárias à reeducação de que tínhamos urgência. Diremos apenas que nessa primeira aula fomos submetidos a operações tão melin­drosas, levadas a efeito em o nosso senso íntimo, que a incerteza quanto ao estado espiritual, para o qual res­valáramos, foi hábil e caridosamente removida de nossa compreensão, deixando que a luz da verdade, sem constrangimentos, se impusesse à evidência. Ficamos cate­goricamente convencidos da nossa qualidade de Espíritos separados do envoltório corporal terreno, o que até en­tão, para a maioria, era motivo de confusões acerbas, de assombros incompreensíveis! E tudo se desenrolou singelamente, sendo nós próprios os compêndios vivos usados para as magníficas instruções — as operações irrefutáveis! Vejamos como os eruditos instrutores le­vavam a cabo o sacrossanto mandato:

Belarmino de Queiroz e Sousa que, como sabemos, era individualidade portadora de vasta cultura intelec­tual, além de ser adepto das doutrinas filosóficas de Augusto Comte, foi convidado, dentre outros que depois receberam o privilégio, a subir ao estrado onde se rea­lizaria a formosa experiência instrutiva. Devemos obser­var que Irmão Teócrito tomava parte em tão delicada cerimônia como presidente de honra, lente insigne dos lentes em ação.

Colocaram o ex-professor de línguas à frente do aparelho luminoso que despertara nossa atenção à che­gada, ao qual ligaram-no por um diadema preso a tê­nues fios que se diriam cintilas imponderáveis de luz. Enquanto Alceste o ligava, Romeu informava-o, em tom assaz grave, de que conviria voltasse a alguns anos pas­sados de sua vida, coordenando os pensamentos a rigor, na seqüência das recordações, e partindo do momento exato em que a resolução trágica se apossara das suas faculdades. Para que tal conseguisse, auxiliava-o revigo­rando sua mente com emanações generosas que de suas próprias forças extraía.­­

Belarmino obedeceu, passivo e dócil a uma autori­dade para que não possuía forças capazes de desagradar. E, recordando, reviveu os sofrimentos oriundos da tuber­culose que o atingira, as lutas sustentadas consigo mes­mo ante a idéia do suicídio, a tristeza inconsolável, a veraz agonia que se apoderara de suas faculdades em litígio entre o desejo de viver, o medo da moléstia im­piedosa que avassalava sua organização física, suplician­do-o sem tréguas, e a urgência do suicídio para, no seu doentio modo de pensar, mais suavemente atingir a fina­lidade a que a doença o arrastaria sob atrozes sofrimen­tos. À proporção que se aproximava o desfecho, porém, o filósofo comtista esquivava-se, recalcitrando à ordem recebida. Suores gelados como lhe banhavam a fronte ampla de pensador, onde o terror mais e mais se acen­tuava, estampando expressões de desespero a cada novo arranco das dolorosas reminiscências...

Entretanto, o que mais surpreendia era que, na tela fosforescente à qual se ligava, iam-se reproduzindo as cenas evocadas pelo paciente, fato empolgante que a ele próprio, como à assistência, facultava a possibilidade de ver, de presenciar todo o amaro drama que precedeu o seu ato desesperador e as minúcias emocionantes e la­mentáveis do execrável momento! A este seguiam-se as tormentosas situações de além-túmulo que lhe foram conseqüentes, o drama abominável que o surpreendera, as confusas sensações que durante tanto tempo o man­tiveram enlouquecido.

Enquanto o primeiro operador auxiliava o paciente a extrair as recordações próprias, o segundo comenta­va-as explicando os acontecimentos em torno do suicídio, antes e depois de consumado, qual emérito professor a elucidar ignaros em matéria indispensável. Fazia-o mos­trando os fenômenos decorrentes do desprendimento do ser inteligente do seu casulo de limo corporal, violen­tado pelo desastroso gesto contra si mesmo praticado. Assistimos assim a surpreendente, inglória odisséia vi­vida pelo Espírito expulso da existência carnal sob sua própria responsabilidade, a esbater-se como louco à re­velia da Lei que violou, presa dos tentáculos monstruo soa de seqüências inevitáveis, criadas pela infração a um acúmulo determinante e harmonioso de leis naturais, sábias, invariáveis, eternas!

Esses extraordinários panoramas vieram anular as convicções materialistas do filósofo comtista, já bastante estremecidas, permitindo-lhe positivar em si mesmo, com minucioso exame, a separação do seu próprio astral do envoltório de lama corporal de que se revestia, sobre­vivendo lucidamente apesar do suicídio e da decompo­sição cadavérica.

Por esse eficiente quão singelo método, a grande maioria da assistência pôde compreender a razão da ar­dência indescritível dos sofrimentos pelos quais vinha passando, das sensações físicas atormentadoras que per­duravam ainda, as múltiplas perturbações que impediam a serenidade ou o olvido que erroneamente esperam en­contrar no túmulo.

Entre outras observações levadas a efeito, merece especial comentário, pela estranheza de que se revestia, o fato de todos trazermos pendentes da configuração as­tral, quando ainda no Vale, fragmentos reluzentes, como se de uma corda ou um cabo elétrico arrebentados se despreendessem estilhas dos fios tenuíssimos que os es­truturassem, sem que a energia se houvesse extinguido, ao passo que explicavam os mentores residir em tão curioso fenômeno toda a extensão da nossa acrimonio­sa desgraça, porqüanto esse cordão, pela morte natural, será brandamente desatado, desligado das afinidades que mantém com o corpo carnal, através de caridosos cuidados de obreiros da Vinha do Senhor incumbidos da sacrossanta missão da assistência aos moribundos, en­quanto que, pelo suicídio, é ele violentamente despeda­çado, e, o que é pior, quando as fontes vitais, cheias de seiva para o decurso de uma existência às vezes lon­ga, ainda mais o solidificavam, mantendo a atração ne­cessária ao equilíbrio da mesma.

Ora, diziam-nos que, a fim de nos desfazermos do profundo desequilíbrio que semelhante conseqüência pro­duzia em nossa organização fluídica (não se falando aqui da desorganização moral, porventura ainda mais excruciante) ser-nos-ia indispensável voltar a animar outro corpo carnal, visto que, enquanto não o fizéssemos, se­ríamos criaturas desarmonizadas com as leis que regem o Universo, a quem indefiníveis incômodos privariam de quaisquer realizações verdadeiramente concordes com o progresso.

No entanto, Belarmino debatia-se, presa de choro e convulsões espasmódicas, revivendo as danosas aflições que o acometeram, enquanto a assistência se fazia com ele solidária, deduzindo daquela pavorosa demonstração ocorrências que a si diziam respeito.

Comentava, porém, o instrutor:

“— Podereis observar, meus amigos, que, justamen­te porque o homem desejou furtar-se à existência pla­netária pelas enganosas escarpas do suicídio, não se eximiu, absolutamente, de nenhuma das amargurosas si­tuações que o desgostavam, antes acumulou desditas no­vas, quiçá mais ardentes e pungitivas, à bagagem dos males que dantes o afetavam, os quais seriam certamen­te suportáveis se educação moral sólida, estribada no cumprimento do Dever, lhe inspirasse as ações diárias. Essa educação orientadora, conselheira, salvadora, por­tanto, de desastres como o que lamentamos neste mo­mento, o homem somente não na tem adquirido no pró­prio cenário terreno, onde é chamado a realizações impe­riosas, porque não a quer adquirir, visto sobejarem em torno de seus passos, no orbe de sua residência, instru­ções e ensinamentos capazes de conduzi-lo às alvoradas redentoras do Bem e do Dever!

O incauto viageiro terreno, porém, há preferido sem­pre desperdiçar oportunidades benfazejas proporcionadas pela Divina Providência com vistas ao seu engrandeci­mento moral e espiritual, para mais livremente englobar-se às sombras insidiosas das paixões mantenedoras dos vícios e desatinos que o impelem ao irremediável tombo para o abismo.

No torvelinho das atrações mundanas, como no em­bater das provações que o excruciam; ao choque das vicissitudes diárias, inalienáveis ao meio em que realiza as experimentações para o progresso, como na fruição ­­ das doçuras fornecidas pelo lar próspero e feliz - jamais ao homem ocorre quaisquer esforços empreender para a iluminação interior de si mesmo, a reeducação moral, mental e espiritual cuja necessidade inapelavelmente se impõe no porvir que seu Espírito será chamado a conquistar pela ordem natural das Leis da Criação. Ele nem mesmo compreende que possui uma alma dotada dos germens divinos para a aquisição de excelentes prendas morais e qualidades espirituais eternas, germens cujo desenvolvimento lhe cumpre operar e aprimorar através do glorioso trabalho de ascensão para Deus, para a Vida Imortal! Ignora ser justamente no cultivo desses dons que reside o segredo da obtenção perfeita dos ideais mais caros que acalente, dos sonhos venerados que suspira concretizar; e mais, que, desprezando o ser divino que em si palpita, o qual é ele próprio, é o seu Espírito imortal, descendente que é do Todo-Poderoso, dá-se voluntariamente à condenação pela Dor, resvalando pelos ominosos desvios da animalidade e quiçá do crime, os quais necessariamente arrastarão a lógica das reparações, das renovações e experiências dolorosas nos testemunhos da reencarnação, quando mais suave se tornaria a jornada ascensional se meditasse prudentemente, procurando investigar a própria origem e o futuro que lhe compete alcançar!

Foi essa fatal ignorância que vos impeliu à desoladora situação em que hoje vos afligia, meus caros irmãos! mas a qual nosso fraterno interesse, inspirado no exemplo do Divino Cordeiro, tentará remediar, não obstante só o tempo e os vossos próprios esforços, em sentidos opostos aos verificados até agora, serem indispensáveis como a mais acertada tentativa em prol da recuperação que se impõe.

Como vedes, destruístes o corpo material, próprio da condição do Espírito reencarnado na Terra, único que teimáveis reconhecer como absoluto padrão de vida. No entanto, nem desaparecestes, como desejáveis, nem vos libertastes dos dissabores que vos desesperavam. Víveis! Víveis ainda! Vivereis sempre! Vivereis por toda a consumação dos evos uma Vida que é imortal, que jamais, jamais se extinguirá dentro do vosso ser, jamais dei­xando de projetar sobre a vossa consciência o impulso irresistível para a frente, para o mais além!...

É que sois a candeia de valor inestimável, fecun­dada pelo Foco Eterno que entorna da Sua Imortalidade por sobre toda a Criação que de Si irradiou, conceden­do-lhe as bênçãos do progresso através dos evos, até atingir a plenitude da glória na comunhão suprema do Seu Seio!

O que contemplais em vós mesmos, neste momento inesquecível e solene para vós, a refletir-se da vossa mente impressionada com os acontecimentos sensacio­nais que vos dizem respeito, decerto marcará etapas de­cisivas na trajetória que insofismavelmente desenvolvereis através do porvir. De agora em diante desejareis, certamente, aprender algo em torno de vós mesmos... pois a verdade é que tudo desconheceis em torno do Ser, da Vida, da Dor e do Destino... mau grado os perga­minhos que ostentáveis com galhardia na Terra, mau grado as distinções e honrarias que tanto assentavam às vossas insulsas vaidades de homens divorciados do ideal divino!...”

Reanimado pelos sábios distribuidores de energias magnéticas, Belarmino voltou ao lugar que ocupava na assistência, enquanto outro paciente subia ao estrado para novo exame demonstrativo. Voltava, porém, refle­tindo no semblante, antes abatido e carregado, uma como aleluia de esperanças! Ao sentar-se ao nosso lado, aper­tou-nos furtivamente as mãos, exclamando:

“— Sim, meus amigos! Eu sou imortal! Acabo de positivar, sem sombras de dúvida, em mim próprio, a existência concreta do meu “eu” imaterial, do ser espi­ritual que neguei! Nada sei! Nada sei! Cumpre-me re­começar os estudos!... Mas só aquela certeza constitui para mim uma grande conquista de felicidade: — Eu sou imortal!... Eu sou imortal!...”

Nos dias subseqüentes, durante as mesmas reuniões fomos levados a examinar, com minúcias penosíssimas, os atos errôneos praticados no transcurso da existência que havíamos destruído, observando o emaranhado de prejuízos morais, mentais, educativos, sociais, materiais, que nos arrastaram ao detestável resultado a que che­gáramos. Assistidos pelos mentores pacientes retroagi­mos com o pensamento até à infância e voltamos sobre os próprios passo, e, muitas vezes banhados em copioso pranto, e invariavelmente desapontados, confessamo-nos os próprios autores dos desenganos que nos abateram nos bulcões do suicídio. Como agíramos mal no desem­penho das tarefas diárias que a sociedade impunha! Como nos portáramos selvagemente em todas as horas, não obstante o verniz de civilização de que nos jactá­vamos!...

Integrando a repesa falange, muitos havia paten­teando o fruto nefasto da escassa educação moral obtida nos lares destituídos da verdadeira iluminação cristã! Jovens que, apenas saídos da adolescência, haviam tom­bado inermes ao primeiro choque com as contrarieda­des comuns à existência terrena, preferindo a aventura do suicídio, completamente faltas de ideal, de senso, de respeito a si mesmo, à Família e a Deus! As desgraças por eles encontradas, além do suicídio, eram como o ter­rível atestado, o pavoroso libelo contra a irresponsabi­lidade dos pais ou responsáveis por eles à face de Deus, a prova infamante da desatenção com que se portaram deixando de diligenciar sólida edificação moral em torno deles! Para tais casos, soubemos que severas contas de­veriam prestar futuramente às Soberanas Leis os descautelosos pais que permitiram asas às perniciosas in­clinações dos filhos, sem tentar corrigi-las, favorecendo assim ocasiões aos desequilíbrios desesperados de que o suicídio foi o lógico resultado!

Depois de tão complexos exames voltávamos a no­vas reuniões a fim de aprendermos como de preferência devíamos ter agido para evitar o suicídio, quais deve­riam ter sido os atos diários, os empreendimentos, se não nos afastáramos do raciocínio inspirado no Dever, na fé em nós mesmos e no paternal amor de Deus! Em vários casos, a solução para os problemas, que abriram as portas para o abismo, encontrava-se a dois passos de distância do sofredor; surgiria o socorro enviado pela Providência ao seu filho bem-amado, dentro de alguns dias, de poucos meses, bastando somente que este se en­corajasse para diminuta espera, em glorioso testemunho de vontade, paciência e coragem moral, necessário ao seu progresso espiritual! Então concluímos com decepcionante surpresa que fácil teria sido a vitória e até a felicidade, se buscáramos no Amor Divino a inspiração para os ditames da existência que desgraçadamente des­truíramos!

Essas instruções proporcionaram sensíveis benefícios a todos nós. Repetiam-se bissemanalmente, havendo os dignos mentores a elas adicionado proveitosas palestras elucidativas. Melhoras prometedoras experimentávamos em nosso aspecto geral, enquanto suaves esperanças se­gredavam edificante consolo aos nossos corações dolo­ridos. A presença dos instrutores passou a constituir motivo de imensa satisfação para nossas almas conva­lescentes de tão ásperos desesperos. As palavras que nos dirigiam durante as lições eram qual refrigerante orva­lho sobre a comburência de nossas aflições; e suas pa­lestras e instruções, o trato carinhoso e compassivo dos gabinetes outras tantas razões para nos considerarmos esperançosos e confiantes. Porém, jamais os víamos a não ser naqueles momentos oportunos; e, quando em presença deles, tanto nos intimidávamos, apesar da ter­nura que nos dispensavam, que não nos animávamos a pronunciar sequer um monossílabo sem primeiramente sermos interpelados.

Em pouco mais de dois meses estávamos habilitados a amplas induções, cotejando as lições recebidas e sobre elas maturando no recolhimento de nossos apartamentos.

Das análises levadas a efeito resultava a certeza, cada vez mais esclarecida, da gravidade da situação em que nos encontrávamos. O fato de estarmos aliviados dos exuberantes incômodos passados não implicava di­minuição de culpabilidade. Ao contrário, a possibilidade de raciocinar minudenciava a extensão do delito, o que muito nos decepcionava e entristecia. E, das instruções e experiências caridosamente ministradas ao nosso en­tendimento a título de base e incentivo para uma ur gente auto-reforma de que tínhamos imperiosa necessi­dade, visando ao inadiável progresso a ser realizado, destacaremos este esquema que enfeixaremos nestas sin­gelas anotações de além-túmulo:
1 — É o homem um composto de tríplice natureza:

— humana, astral e espiritual, isto é — maté­ria, fluído e essência. Esse composto poderá também ser traduzido em expressão mais con­creta e popular, assimilável ao primeiro grau de observação: — corpo carnal, corpo fluídico ou perispírito, e alma ou Espírito, sendo que do último é que se irradiam Vida, Inteligên­cia, Sentimento, etc., etc. — centelha onde se verifica a essência divina e que no homem assinala a hereditariedade celeste! Desses três corpos, o primeiro é temporário, obedecendo apenas à necessidade das circunstânciàs inalie­náveis que contornam o seu possuidor, fadado à desorganização total por sua própria natu­reza putrescível, oriunda do limo primitivo: —é o de carne, O segundo é imortal e tende a progredir, desenvolver-se, aperfeiçoar-se atra­vés dos trabalhos incessantes nas lutas dos mi­lênios: — é o fluidico; ao passo que o Espíri­to, eterno como a Origem da qual provém, luz imperecível que tende a rebrilhar sempre mais aformoseada até retratar em grau relativo o Fulgor Supremo que lhe forneceu a Vida, para glória do seu mesmo Criador — é a essência divina, imagem e semelhança — (que o será um dia) — do Todo-Poderoso Deus!

2 — Vivendo na Terra, esse ser inteligente, que deverá evolver pela Eternidade, denomina-se Homem! sendo, portanto, o homem um Espí­rito encarcerado num corpo de carne ou encarnado.

3 — Um Espírito volta várias vezes a tomar novo corpo carnal sobre a Terra, nasce várias vezes a fim de tornar a conviver nas sociedades terrenas, como Homem, exatamente como ele é levado a trocar de roupa muitas vezes...

4 — O suicida é um Espírito criminoso, falido nos compromissos que tinha para com as Leis sábias, justas e imutáveis estabelecidas pelo Cria­dor, e que se vê obrigado a repetir a experiência na Terra, tomando corpo novo, uma vez que destruiu aquele que a Lei lhe confia­ra para instrumento de auxílio na conquista do próprio aperfeiçoamento — depósito sagra­do que ele antes deveria estimar e respeitar do que destruir, visto que lhe não assistiam direitos de faltar aos grandes compromissos da vida planetária, tomados antes do nascimento em presença da própria consciência e ante a Paternidade Divina, que lhe fornecera Vida e meios para tanto.

5 — O Espírito de um suicida voltará a novo corpo terreno em condições muito penosas de sofri­mento, agravadas pelas resultantes do grande desequilíbrio que o desesperado gesto provocou no seu corpo astral, isto é, no perispírito.

6 — A volta de um suicida a um novo corpo carnal é a lei. É lei inevitável, irrevogável! É expiação irremediável, à qual terá de se subme­ter voluntariamente ou não, porque a seu pró­prio benefício outro recurso não haverá senão a repetição do programa terreno que deixou de executar.

7 — Sucumbindo ao suicídio o homem rejeita e des­trói ensejo sagrado, facultado por lei, para a conquista de situações honrosas e dignificantes para a própria consciência, pois os sofrimentos, quando heroicamente suportados, domina­dos pela vontade soberana de vencer, são como ­­esponja mágica a expungir da consciência cul­posa a caligem infamante, muitas vezes, de um Passado criminoso, em anteriores etapas terre­nas. Mas, se, em vez do heroísmo Salvador, pre­ferir o homem a fuga às labutas promissoras, valendo-se de um auto-atentado que bem re­velará a vasa de inferioridade que lhe infelicita o caráter, retardará o momento almejado para a satisfação dos mais caros desejos, visto que jamais se poderá destruir porque a fonte de sua Vida reside em seu Espírito e este é in­destrutível e eterno como o Foco Sagrado de que descendeu!

8 — Na Espiritualidade raramente o suicida permanecerá durante muito tempo. Descerá à reencarnação prestamente, tal seja o acervo das danosas conseqüências acarretadas. ou adiará o Cumprimento daquela inalienável necessidade
caso as circunstâncias atenuantes forneçam capacidade para o ingresso em cursos de apren­dizado edificante que facilitarão as pelejas futuras a prol de sua mesma reabilitação.

9 — O suicida é como que um clandestino da Espi­ritualidade. As leis que regulam a harmonia do mundo invisível são contrariadas com sua Presença em seus páramos antes da época determinada e legal; e tolerados são e amparados e convenientemente encaminhados porque a excelência das mesmas, derramada do seio amoroso do Pai Altíssimo, estabeleceu que a todos os pecadores sejam incessantemente re­novadas as oportunidades de corrigenda e rea­bilitação!

10 — Renascendo em novo corpo carnal, remontará o Suicida à programação de trabalhos e prélios diversos aos quais imaginou erradamente poder escapar pelos atalhos do Suicídio; experimentará novamente tarefas, provações seme­lhantes ou absolutamente idênticas às que pre­tendera arredar; passará inevitavelmente pela tentação do mesmo suicídio, porque ele mesmo se colocou nessa difícil circunstAncia carreando para a reencarnação expiatória as amargas se­quências do passado delituoso! A tal tentação, porém, poderá resistir, visto que na Espiritua­lidade foi devidamente esclarecido, preparado para essa resistência. Se contudo vier a falir por uma segunda vez — o que será imprová­vel —, multiplicar-se-á sua responsabilidade, multiplicando-se, por isso mesmo, desastrosa-mente, as séries de sofrimentos e pelejas reabi­litadoras, visto que é imortal!

11 — O estado indefinível, de angústia inconsolável, de inquietação aflitiva e tristeza e insatisfações permanentes; as situações anormais que se decalcam e sucedem na alma, na mente e na vida de um suicida reencarnado, indescrití­veis à compreensão humana e só assimiláveis por ele mesmo, somente lhe permitirão o re­torno à normalidade ao findar das causas que as provocaram, após existências expiatórias, testemunhos severos onde seus valores morais serão duramente comprovados, acompanhando-se de lágrimas ininterruptas, realizações no­bilitantes, renúncias dolorosas de que se não poderá isentar... podendo tão dificultoso labor dele exigir a perseverança de um século de lutas, de dois séculos... talvez mais... tais sejam o grau dos próprios deméritos e as dis­posições para as refregas justas e inalienáveis!


Tais deduções não nos deixavam, absolutamente, ilu­sões acerca do futuro que nos aguardava. Cedo, por­tanto, compreendemos que, na espinhosa atualidade que vivíamos, um roteiro único apresentava-se como recurso a possíveis suavizações em porvir cuja distância não po diamos prever: — submetermo-nos aos imperativos das leis que havíamos infringido, observarmos conselhos e orientações fornecidos por nossos amorosos mentores, deixando-nos educar e guiar ao sabor do seu alto crité­rio, como ovelha. submissas e desejosas de encontrar o consolo supremo de um aprisco...


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