Rias de um suicida yvonne do amaral pereira


(6) Mateus, capítulo 18, versículo 20



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(6) Mateus, capítulo 18, versículo 20.
e carinhosas, as promessas inolvidáveis mais uma vez en­ternecem o coração dos aprendizes da Escola de Allan Kardec, que circulavam a mesa, repercutindo gratamen­te, pela primeira vez, no Intimo de cada um de nós ou­tros, o divino convite para a redenção — pois até então não ouvíramos ainda dissertações congêneres. Para as criaturas terrenas ali presentes tratava-se apenas do ir­mão presidente a ler e comentar o assunto escolhido, em hora de inspiração radiosa, em que jorros de intui­ções vivíssimas, cintilantes, cascateavam do Alto revi­vendo a extensa relação das exemplificações do Modelo Divino e expressões de Sua moral impoluta. Para os Es­píritos que se aglomeravam no recinto, porém, invisíveis à quase totalidade dos circunstantes humanos, e, parti­cularmente, para os desditosos que para ali foram encaminhados a fim de se esclarecerem, havia muito, muito mais que isso! Para estes, são figuras, vultos, seqüências que se agitam a cada frase do orador! Ë uma aula —estranha, singular terapêutica! — que nos ministravam qual medicamentação celeste a fim de balsamizar nossas desgraças! A palavra, vibração do pensamento criador, repercutindo em ondas sonoras, onde se retratavam as imagens mentais daquele que a proferia, e espalhando-se pelo recinto saturado de substâncias fluido-magnéticas apropriadas e fluidos animalizados dos médiuns e assis­tentes encarnados, é rapidamente acionada e concreti­zada, tornando-se visível graças a efeitos naturais que as forças mentais conjugadas dos Tutelares reunidos no Templo, com as dos demais cooperadores em ação, pro­duziam. Intensificam-se as atividades dos técnicos da Vigilância, comissionados para o delicado labor da cap­tação das ondas onde as imagens mentais se retrataram, da coordenação e estabilidade de seqüências, etc., etc. A palavra assim trabalhada no maravilhoso laboratório mental, assim modelada e retida por eminentes especia­listas devotados ao bem do próximo — corporificou-.e, tornou-se realidade, criada que foi a cena viva do que foi lido e exposto!

De nossas arquibancadas, rodeado. de lanceiros quais prisioneiros do pecado que em verdade éramos, tivemos a inédita e grata surpresa de assistir ao desenrolar das narrativas escolhidas, em movimentações, na faixa fla­mejante que do Alto descia iluminando a mesa e o re­cinto. Se havia referência à personalidade inconfundível do Mestre Nazareno — era a reprodução de Sua augusta imagem que se desenhava, tal como cada um se habi­tuara a imaginá-lo no âmago do pensamento desde a infância! Se recordavam Seus feitos, Sua vida de exemplificações sublimes, Seus gestos inesquecíveis de Pro­tetor Incondicional dos sofredores — além o víamos tal como o texto evangélico o descrevia: — bondoso e amorável distribuindo fragrâncias do Seu manancial de Amor e das virtudes deíficas de que era Excelso Reli­cário — aos pobres e sofredores, aos cegos e paralíticos, aos lunáticos, aos loucos e aos leprosos, aos ignorantes e às crianças, aos velhos e aos de boa-vontade, aos pe­cadores e às adúlteras, aos publicanos, aos samaritanos, aos doutores, aos desesperados e aflitos, aos doentes do corpo e do espírito, aos arrependidos como aos próprios crentes da Sua Doutrina de Luz e aos Seus próprios apóstolos!... enquanto o presidente — que não enxer­gava com olhos materiais esses quadros majestosos que se elevavam da sua leitura e do comentário feito, mas sentia as vibrações harmoniosas e enternecidas que os produziam lhe comoverem a sensibilidade — ia repetindo e comentando as encantadoras, inesquecíveis asserções que tantas lágrimas hão enxugado através dos séculos, tantos corações sequiosos têm desalterado, tantas e tão angustiosas incertezas hão transformado na serenidade de uma convicção sólida e inquebrantável:

“— Vinde a mim, vós que sofreis e vos achais sobre­carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo, que sou brando e humilde de coração, e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo.”

“— Bem-aventurados os que choram e sofrem, porque serão consolados. Bem-aventurados os famintos e os se­quiosos de justiça, pois que serão saciados. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor à justiça, pois que é deles o reino dos céus.”

“— Bem-aventurados vós, que sois pobres, porque vosso é o reino dos céus. Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis saciados. Ditosos sois, vós que agora chorais, porque rireis.”

“— Deus não quer a morte do pecador, mas que ele viva e se arrependa.”

“— O Filho de Deus veio buscar e salvar o que se havia perdido.”

“— Das ovelhas que o Pai me confiou, nenhuma se perderá.”

‘— Se queres entrar no reino de Deus, vem, toma a tua cruz e segue-me...” (7)

“— Eu sou o Grande Médico das almas e venho tra­zer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los! Vinde pois a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados.”

“— Venho Instruir e consolar os pobres deserdados. Venho dizer-lhes que elevem a sua resignação ao nível de suas provas, que chorem, porqüanto a dor foi sagrada no Jardim das Oliveiras; mas que esperem, pois que também a eles os anjos consoladores lhes virão enxugar as lá­grimas.”

“- Vossas almas não estão esquecidas; eu, divino jardineiro, as cultivo no silêncio dos vossos pensa­mentos.”

“— Deus consola os humildes e dá força aos aflitos que lha pedem. Seu poder cobre a Terra e, por toda a parte, junto de cada lágrima colocou Ele um bálsamo que consola.”
(7) Jesus-Cristo — O Novo Testamento.
“— Nada fica perdido no reino do nosso Pai e os vossos suores e misérias formam o tesouro que vos tor­nará ricos nas esferas superiores, onde a luz substitui as trevas e onde o mais desnudo dentre todos vós será talvez o mais resplandecente!” (8)

E era um desfilar empolgante de cenas, das quais

o Consolador Amável destacava-se irradiando convites irresistíveis a nós outros, réprobos sofredores e deses­perançados, enquanto o orador rememorava as divinas ações por Ele praticadas!...

Silêncio religioso presidia as arquibancadaz. Frêmito de emoções desconhecidas acendia, nas profundezas sen­síveis dos nossos Espíritos atribulados e tristes, uma alvorada de confiança, prelúdio prometedor da Fé que nos deveria impulsionar para os labores da salvação. Sus­pensos pelos interesses do ensinamento poderosamente se­dutor, fitávamos embevecidos aqueles quadros sugestivos, criados momentaneamente para nossa elucidação, e nos quais destacávamos o Nazareno socorrendo os desgra­çados, enquanto a palavra afetuosa do orador, envolta nas ondas fluídicas, ainda mais doces, do pensamento caridoso dos seres angélicos que nos assistiam, instruía ternamente, com entonações que repercutiam até ao âma­go dos nossos Espíritos sequiosos de consolo, como im­primindo em seus refolhos, para sempre, a imagem in­comparável do Médico Celeste que nos deveria curar! Então sentimos que, pela primeira vez, desde muitos anos, a Esperança descia seus mantos de luz sobre nossas almas enoitadas pelas trevas do desânimo e da ímpia descrença!

De súbito, brado angustioso, de suprema desespera­ção, feriu a majestade do religioso silêncio que abendi­çoava o cenáculo!

Um dos nossos míseros pares, justamente daqueles a quem denominávamos “retalhados”, durante o cativi


(8) O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. (Comunicação do Espírito de Verdade.)
ro no Vale Sinistro, por conservarem no corpo astral az trágicas sombras do esfacelamento do envoltório carnal sob as rodas de pesados veículos de ferro, e cujo estado de incompreensão e sofrimento, muito grave, exigira o concurso humano a fim de ser suavizado — esperando receber também alívio aos feros padecimentos que o exasperavam, arrojou-se de joelhos ao solo e suplicou por entre lágrimas, tão pungentes que sacudiram de com­paixão as fibras dos circunstantes — como outrora te­riam feito os desgraçados em presença do Meigo Rabi da Galiléia:

“— Jesus-Cristo! Meu Senhor e Salvador! Compa­decei-vos também de mim! Eu creio, Senhor! e quero a vossa misericórdia! Não posso mais! Não posso mais! Enlouqueci no sofrimento! Socorrei-me, Jesus de Naza­ré, a mim também, por piedade!.. .“

A um sinal de Alceste e de Romeu, os bondosos en­fermeiros ampararam-no, conduzindo-o ao médium, uma senhora ainda jovem, delicada de talhe e de feições, e que na véspera se comprometera ao magno desempenho, quando das investigações dos obreiros do Instituto para conseguirem a reunião. Dois médicos, responsáveis pelo Espírito em questão, acompanharam-no, estabelecendo sua ligação com o precioso veículo, e também a este dispensando a mais desvelada assistência, a fim de que nenhum contratempo sobreviesse.

A cena, então, atingiu a culminância mais patética e, ao mesmo tempo, mais sublime que imaginar se possa!

Apossando-se de um aparelho carnal que, piedosa­mente, por momentos lhe emprestavam, no intuito cristão de beneficiá-lo, por ajudá-lo a conseguir alivio, o des­graçado suicida sentiu, em toda a sua plenitude, a tra­gédia que havia longos anos vinha experimentando o seu viver nas trevas do martírio inconcebível!... pois tinha agora, ao seu dispor, outros órgãos materiais, nos quais suas vibrações, ardentes e tempestuosas, esbarrando brutalmente, voltavam plenamente animalizadas para produzirem no seu torturado corpo astral repercussões minuciosas do que fora passado! Gritos lancinantes, es­tertores macabros, terrores satânicos, todo o pavoroso estado mental que arrastava, refletiu ele sobre a médium, que traduziu, tanto quanto lho permitiam as forças do sublime dom que possuía, para os circunstante. encar­nados ali presentes —, a assombrosa calamidade que o túmulo encobria!

Enlouquecido, vendo sobre a mesa os fragmentos em que se convertera em desgraçado corpo de carne, por ele próprio atirado sob as rodas de um trem de ferro, pois seu inacreditável estado mental fazia-o ver, por toda parte, o mal que existia em si mesmo, chaga que lhe vio­lentara a consciência — arrebatou a jovem médium em agitações penosas e, debruçando-se sobre a mesa, pôs-se a reunir aquele, mesmos fragmentos, tentando reorganizar o corpo, que via, cheio de horror, eternamente disperso sobre os trilhos, presa dramática de uma das mais abomináveis alucinações que o Além-túmulo costu­ma registrar!

Vulnerado pelos fogos da inconcebível tortura do réprobo a estampar a realização da assertiva severa do Evangelho:
“- e sereis atirados nas trevas exteriores onde chorareis e rangereis os dentes”,
a infortunada ovelha desgarrada, que desdenhara ouvir as advertências do prudente e sábio Pastor da Galiléia, ia, nervosamente, arrepanhando papéis, livros e lápis que se achavam dispostos sobre a mesa, à disposição dos psicógrafos, e, neles julgando reconhecer as próprias vísceras esfaceladas, ossos triturados, carnes sangrentas — o coração, o cérebro — reduzidos a montículos repugnan­tes — mostrava-os, chorando convulsivamente, ao presidente da reunião, a quem enxergava com facilidade, suplicando sua intervenção junto a Jesus Nazareno, já que tão bem O conhecia, para remediar-lhe a alucinadora situação de se sentir assim despedaçado e reconhecer-se, e sentir-se Vivo! Nervoso, irrequieto, excitadíssimo, o dantesco prisioneiro dos tentáculos malvados do suicí­dio gargalhava e chorava a um mesmo tempo, suplicava e gemia, estorcia-se e ululava, expunha, sufocado em lá grimas afogueadas pelo martírio, o drama incomensurá­vel que para si mesmo criara com o suicídio, o remorso inconsolável de preferir a descrença em que vivera e mor­rera à conformidade conselheira e prudente, frente às penas da adversidade, pois, reconhecia agora, tardiamen­te, que todos os dramas que a vida terrena apresenta são meros contratempos passáveis, contrariedades ba­nais, comparados aos monstruosos sofrimentos originá­rios do suicídio, cuja natureza e intensidade nenhum ser humano, mesmo um Espírito desencarnado, é competente para avaliar, uma vez que as não tenha experimentado!

Comovido — a personagem principal da mesa — o presidente, a quem tutelares invisíveis amorosamente inspiram, fala-lhe piedosamente, consola-o apontando a luz sacrossanta do Evangelho do Mestre Divino como o recurso supremo e único capaz de socorrê-lo, afiançan­do-lhe ainda, com sua palavra de honra, a qual não tem dúvidas em empenhar, tal a certeza do que afirma, a intervenção do Médico Celeste, que proporcionará alivio imediato aos estranhos males que o afligem. Eleva en­tão uma prece, singela e amorosa, depois de convidar todos os corações presentes a galgar com ele o espaço infindo, em busca do seio amorável de Jesus, para a súplica de mercês imediatas para o desgraçado que pre­cisa serenidade a fim de expungir da mente a visão macabra com que os próprios delitos lhe fustigam a alma e a continuação da Vida, as quais pretendeu aniquilar com a deserção pelos atalhos do suicídio!

Acompanham-no de boamente todos quantos se in­teressam pelo infeliz alucinado: — encarnados que com­põem a mesa, desencarnados que realizam a magnificên­cia da sessão, isto é, instrutores, vigilantes, assistentes guias da Casa, lanceiros e até nós outros, os delinqüentes mais serenos, profundamente comovidos. Oram ainda os diretores de nossa Colônia, que, do segredo do Templo, assistem quanto se desenrola entre nós; oram Teócrito e seus adjuntos, os quais, do Hospital, igualmente assis­tem aos trabalhos através dos possantes aparelhos que conhecemos ou simplesmente servindo-se da dupla vista, que facilmente acionam. E assim docemente harmoni­zada e fortalecida ao impulso vigoroso dos pensamentos homogêneos de tantos corações fraternalmente unidos sob o ósculo sublime da Caridade, no que pode ela encerrar de mais belo e desinteressado — a prece ilibada e santa transformou-se em corrente vigorosa de luz res­plendente, que dentro de curtos minutos atingiu o Alvo Sagrado e voltou fecundada pelo amplexo da Sua divina misericórdia! Cada pensamento, que se unifica aos de­mais em anseios compassivos, cada expressão caridosa extraída do coração, que subia à procura do Pai Altíssimo em favor do infeliz ferreteado pelo suicídio, que pre­cisou do concurso humano para se adaptar ao além-tú­mulo — são vozes a lhe segredarem esperanças, são bálsamos fecundos e inestimáveis a gotejarem tréguas, vislumbres de bonanças nas cruentas tempestades que sacodem seu Espírito ergastulado na desgraça!

Após a prece seguiu-se silêncio impressionante, como só existiria sobre a Terra outrora, durante a prática dos mistérios, nos santuários dos antigos templos de ciências orientais. Todos concentrados, apenas a médium se es-torcia e chorava, traduzindo o assombro da entidade comunicante.

Pouco a pouco, sem, que uma única palavra tornasse a ser proferida, e enquanto apenas as forças mentais de desencarnados conjugadas com as de encarnados mo­rejavam, efetivou-se a Divina Intervenção... e não des­denharemos descrevê-la, digno que é o seu transcendentalismo da nossa apreciação.

As vibrações mentais dos assistentes encarnados, e particularmente da médium, cuja saúde físico-material, físico-astral, moral e mental, encontrava-se em condições satisfatórias, pois que fora anteriormente examinada pelos provedores do importante certanne espiritual, rea­giam contra as do comunicante, que, viciadas, enfer­mas, positivamente descontroladas, investiam violenta­mente sobre aquelas, como ondas revoltas de imensa torrente que se despejasse abruptamente no seio esme­raldino do oceano, formoso e sobranceiro refletindo os esplendores do firmamento ensolarado. Estabeleceu-se, assim, luta árdua, na realização de sublime operação psíquica, uma vez que influenciações saudáveis, fluidos magnéticos mesclados de essências espirituais aconselhá­veis no caso, fornecidos pela médium e pelos guias assis­tentes, deveriam impor-se e domar as emitidas pela en­tidade sofredora, incapaz de algo produzir distante do inferior. A corrente poderosa pouco a pouco apresentou os frutos salutares que era de esperar, dominando sua­vemente as vibrações nefastas do suicida depois de pas­sar pelo áureo veículo mediúnico, o qual, materializando-a, adaptando-a em afinidades com o paciente, tornava-a assimilável por este, cujo envoltório astral fortemente se ressentia das impressões animalizadas deixadas pelo corpo carnal que se extinguia sob a pedra do sepulcro! Eram como que compressas anestesiantes que se -apli­cassem na organização fluídica do penitente, suavizan­do-lhe o efervescer das múltiplas excitações, a fim de torná-la em condições de suportar a verdadeira terapêu­tica requisitada pelo melindroso caso. Era como sedativo divino que piedosamente gotejasse virtudes hialinas so­bre suas chagas anímicas, através do filtro humano re­presentado pelo magnetismo mediúnico, sem o qual o infeliz não assimilaria, de forma alguma, nenhum bene­fício que se lhe desejasse aplicar! E era como transfusão de sangue em moribundo que voltasse à vida após ter-se encontrado às bordas do túmulo, infiltração de essências preciosas que a médium recebia do Alto, ou dos men­tores presentes, em abundância, transmitindo em seguida ao padecente.

Lentamente a médium se aquietou, porque o desgra­çado “retalhado” se acalmara. Já não via os reflexos mentais do ato temerário, o que equivale adiantar que desaparecera a satânica visão dos fragmentos do próprio corpo, que em vão tentara recolher para recompor.

Grata sensação de alívio perpassava suas fibras perispirituais doloridas pelos amargores longamente su­portados... Continuava o silêncio augusto propício às dulçorosas revelações imateriais do amparo maternal de Maria, da misericórdia inefável de seu Filho Imaculado. Pelo recinto repercutiam ainda as tonalidades blandiciosas da melodia evangélica, quais cavatinas siderais har­pejando esperanças:


“— Vinde a mim, vós que sofreis e vos achais sobrecarregados, e eu vos aliviarei....“
enquanto ele chorava em grandes desabafos, entrevendo possibilidade de melhor situação. Suas lágrimas, porém, já não traduziam os estertores violentos do início, mas expressão agradecida de quem sente a intervenção bene­ficente...

Então, Alceste e Romeu acionaram as forças da in­tuição, com veemência, sobre a mente do presidente da mesa, que se engrinaldou de luminosidades adamantinas. Aproximaram-se os técnicos do aparelho mediúnico, a que o infeliz se encostava. Explica-lhe o presidente, por­menorizadamente, quanto lhe sucedeu e por que sucedeu. Ministra-lhe aula expressiva, a que aqueles agentes cor­porificam com a criação de quadros demonstrativos. Vi­mos que se repetia então na sessão espiritista terrena o que havíamos assistido nas assembléias do Hospital presididas pelo insigne Teócrito: — A vida do paciente ressurge, como fotografada, refletida nesses quadros, de suas mesmas recordações, desfilando à frente de seus olhos desde o berço até o túmulo por ele mesmo cavado! Ele reviu o que praticou, assistiu aos estertores rápidos da agonia que a si próprio ofereceu sob as rodas de um veículo; contemplou, perplexo e aterrado, os destroços a que seu gesto brutal reduzira sua configuração huma­na cheia de vigor e de seiva para o prolongamento da existência... mas fê-lo agora independente daqueles des­troços, como se houvera despertado de hediondo pesa­delo!... Observou mesmo, desfeito em lágrimas, que mãos piedosas recolheram seus despojos sangrentos de sobre os trilhos; assistiu comovido ao sepultamento dos mes­mos em terra. consagrada... e viu o vulto confortador de uma Cruz montando guarda à sua sepultura. Com­preendeu, assim, e aceitou o acontecimento que sentia dificuldades e repulsas em acatar, isto é, que era imortal e continuaria vivendo, vivendo ainda e para todo o sempre, apesar do suicídio! Que de nada aproveitara a re­solução infernal de pretender burlar as leis divinas senão para sobrecarregar-lhe a existência, assim como a cons­ciência, de responsabilidades tão graves quanto pesadís­simas! E que, se o corpo material se extinguia, com efeito, no lodo pútrido de um sepulcro — o Espírito, que é a personalidade real, porque descendente da Luz Eterna do Supremo Criador, marcharia indestrutível para o futuro, apesar de todos os percalços e contratempos, vivo e eterno como a própria Essência Imortal que lhe fornecia a Vida!

Oh, Deus do Céu! Que ofício religioso ultrapassará em glórias essa reunião singela, desprovida de atavios e repercussões sociais, mas onde a atribulada alma de um suicida, descrente da misericórdia do seu Criador, desesperada pelo acervo dos sofrimentos daí conseqüen­tes e inclemência dos remorsos, é convertida aos alvores da Fé, pela doçura irresistível do Evangelho do Meigo Nazareno!... Que cerimônia, que ritual, quais festivi­dades e pompas existentes sobre a Terra poderio om­brear-se com a magnificência do santuário secreto de um núcleo de estudos e labores espirituais onde os missio­nários do Amor e da Caridade do Unigênito de Deus em Seu nome esvoaçam, mergulhados em vibrações ilibadas e puras, oferecendo aos iniciados modernos, que se con­gregam em cadeias mentais excelentes, o precioso exem­plo de nova prática da Fraternidade!... Em que setor humano depararia o homem glorificação mais honrosa para lhe condecorar a alma, do que essa, de ser elevado à meritória categoria de colaborador das Esferas Celes­tes, enquanto os Embaixadores da Luz lhe desvendam os mistérios do túmulo ofertando-lhe sacrossantos ensi­namentos de uma Moral redentora, de uma Ciência Di­vina, no intuito generoso de reeducá-lo para o definitivo ingresso no redil do Divino Pastor?!...

Homem! Irmão, que, como eu, descendes do mesmo Foco Glorioso de Luz! Alma imortal fadada a destinos excelsos no seio magnânimo da Eternidade! Apressa a marcha da tua evolução para o Alto nos caminhos do Conhecimento, reeducando o teu caráter aos fulgores do Evangelho do Cristo de Deus! Cultiva tuas faculda­des anímicas no silêncio augusto das meditações nobres e sinceras; esquece as vaidades depressoras; relega os prazeres mundanos que para nada aproveitam senão para excitar-te os sentidos em prejuízo das felizes expansões do ser divino que em ti palpita; alia para bem distan­te do teu coração o egoísmo fatal que te inferioriza no concerto das sociedades espirituais... pois tudo isso mais não é que escolhos terríveis a dificultarem tua ascensão para a Luz!... Rasga teu seio para a aquisição de vir­tudes ativas e deixa que teu coração se dilate para a comunhão com o Céu... Então, as arestas do calvário terreno que palmilhas serão aliviadas e tudo parecerá mais suave e mais justo ao teu entendimento aclarado pela compreensão sublime da Verdade, pois terés dado abrigo em teu seio às forças do Bem que promanam do Supremo Amor de Deus!... E depois, quando te sentires afeito às renúncias; quando fores capaz das rígidas re­servas necessárias ao verdadeiro iniciado das Ciências Redentoras; quando tiveres apartado o teu coração das ilusões efêmeras do mundo em que experimentas a sabe­doria da Vida, e empolgada se sentir a tua alma imor­tal pelo santo ideal do Amor Divino — que teus dons mediúnicos se entreabram qual preciosa e cândida flor celeste, para a convivência ostensiva com o Mundo In­visível, despetalando aljôfares de caridade fraterna àpassagem dos infelizes que não souberam a tempo se precatar, como tu, com as forças indestrutíveis que à alma fornece a Ciência Imarcescível do Evangelho do Cristo!



7

Nossos amigos — os discípulos de Allan Kardec
Nos intervalos que se seguiam de uma reunião àoutra não voltávamos ao nosso abrigo da Espiritualidade. Permanecíamos antes no próprio ambiente terrestre, em virtude de ser a viagem a empreender excessivamente dificultosa para grupo numeroso e pesado, tal como o nosso, poder repeti-la em trânsito diário. Assim foi que ficamos entre os homens cerca de dois meses, tempo necessário à consecução das reuniões íntimas de que ca­recíamos e de outras tantas de preparação iniciática, onde apenas os princípios e conceitos morais e filosóficos eram examinados, sem a prática dos mistérios.

Nossa qualidade de suicidas, cuja aura virulada por irradiações inferiores poderia levar a perturbação e o desgosto às pobres criaturas encarnadas das quais nos aproximássemos, ou delas receber influenciações preju­diciais ao delicado tratamento a que éramos submetidos, inibia-nos permanecer em quaisquer recintos habitados ou visitados por almas encarnadas.

Convém esclarecer que éramos entidades em vias de reeducação, e, por isso mesmo, submetidas a regras muito severas de conduta, o que impedia de vivermos ao léu entre os homens, influenciando molestamente a sociedade terrena... coisa que fatalmente sucederia se continuássemos rebelados, recalcitrantes no erro.

Éramos então conduzidos a locais pitorescos, nos arredores das povoações em que nos encontrássemos, e onde se tornasse difícil o ingresso dos homens: — boa ques amenos, prados ensombrados por árvores frutíferas, colinas férteis e verdejantes onde o gado saboreava a relva fresca da sua predileção. Tendas eram levantadas e aldeamento gracioso, invisível a olhos humanos, mas perfeitamente real para nós outros, e a que doce poesia bucólica assinalava de matizes sedutores, surgia sob o zimbório eternamente azul dos céus brasileiros, onde o carro flamejante do Astro Rei resplandecia com a pom­pa inigualável dos seus raios revigorantes.

A noite, terna melancolia adoçava nossas amarguras de exilados do lar e da família, quando, voltando de assistir às arrebatadoras preleções evangélicas, durante as reuniões dos espiritistas cristãos, nos quedávamos a meditar, sob o silêncio inalterável das colinas ou da pla­cidez dos vergéis, rememorando as lições fecundas sobre a existência do Ser Supremo como Criador e Pai, en­quanto fitávamos a umbela celeste marchetada de estre­las lucilantes e lindas. Profundas eiucubrações então dilatavam nosso raciocínio, ao mesmo tempo que contem­plávamos, enternecidos quais jovens enamorados, aquele espaço sideral arrastando a glória invariável com que o Arquiteto Supremo o dotou: — aqui, eram astros ful­gurantes e imensos, sóis poderosos, centros de força, de luz, de calor e de vida; além, mundos arrebatadores de beleza e grandeza inconcebível, cujo esplendor che­gava até nossas vistas de précitos do mundo invisível como amoroso aceno fraterno, a afirmar que também eles abrigavam outras humanidades, almas nossas irmãs em marcha para a redenção, enamoradas do Bem e da Luz, e, como nós, oriundas do mesmo sopro paternal divino que em nosso âmago sentíamos agora palpitar, apesar da extrema pobreza moral em que nos debatíamos! E por toda a parte a expressão gloriosa do pensamento do Altíssimo a falar do Seu poder, do Seu amor, da Sua sabedoria!

Não raramente, sob o sussurro mavioso das frondes que engrinaldavam aquelas colinas, ante as dúlcidas vi­rações que refrescavam a noite clarificada pela refulgên­cia dos astros que rolavam pela imensidão, nossos ami­gos, os discípulos de Allan Kardec, isto é, os médiuns, os doutrinadores, os evangelizadores cujo altruísmo e boa-vontade tanto contribuíam para alívio de nossas inquietações, visitavam-nos em nosso acampamento, pela calada da noite, mal seus corpos físicos repousavam em sono profundo. Confabulavam conosco piedosa e amo­rosamente, pois tinham livre acesso em nosso aldeamen­to de emergência, ampliavam explicações em torno da excelência das doutrinas que professavam, revelando-se respeitosos crentes na paternidade de Deus, na imorta­lidade da alma e na evolução do ser para o seu Todo-Poderoso Criador!

Grandes entusiastas da Fé, concitavam-nos ao amor a Deus, à esperança na Sua páternal bondade, à con­fiança no porvir por Ele reservado ao gênero humano, à coragem para vencer, como bases inalienáveis de sere­nidade no grande esforço pelo progresso! Afiançavam ser, todos eles, atestados insofismáveis, patéticos, da excelência dos ensinos filosóficos ministrados pela Dou­trina de que eram filiados, Doutrina cujas bases, assen­tadas na moral grandiosa do Divino Modelo e na Ciência do Invisível, transformara-os em rijas fortalezas de Fé, capazes de resistirem a toda e qualquer adversidade com ânimo sereno, mente equilibrada e sorriso nos lábios, estampando o céu que traziam em si mesmos graças aos conhecimentos superiores que tinham da Vida e dos des­tinos humanos! Expunham, então, cheios de eloqüência, os ardores da adversidade com que muitos deles luta­vam, e, ouvindo-os, abismávamo-nos, e nossa admiração crescia, tornando-os maiores no conceito que deles fazíamos: — este varão respeitável, chefe de família nu­merosa, era paupérrimo, vivendo a lutar sem tréguas pela subsistência dos seus; aquele outro, incompreendido no lar, isolado no seio da própria família, que lhe não respeitava o direito sagrado de pensar e de crer como lhe aprouvesse; esta senhora, carregando a pesada cruz de um matrimônio desventurado, subjugada ao impera­tivo de duras humilhações e desgostos diários!... Eis, porém, mais esta, que vira morrer o filho único em ple­na juventude, arrimo e doçura da sua viuvez e da sua velhice!... enquanto esta jovem, nas vésperas do con­sórcio ternamente almejado, se vira recompensada, na sua doce e prometedora dedicação, com o perjúrio abomi­nável daquele que lhe despertara os primeiros arroubos do coração!... pois, o ser iniciado no Espiritismo Cris­tão não exclui a necessidade de grandes reparações e testemunhos dolorosos!

No entanto, a serenidade, a paciente conformidade presidiam a tais choques em seus corações! Haviam-se voltado confiantes para o seio amorável de Jesus, fiéis ao convite terno que Lhe conheciam permanente! Abri­ram os corações e o entendimento às doces influências celestes, alcandorando-se aos influxos assistenciais de seus guias instrutores... e agora marchavam confian­tes, demandando o futuro, certos da vitória final! Não tiveram pejo, antes foi com visível bom-humor que nar­raram que dentre eles havia os que iam para o cum­primento do dever em suas reuniões sem ter feito a refeição da tarde, por escassez de recursos, mas que nem por isso se sentiam desgraçados, pois esperavam que o Pai Supremo, que veste os lírios dos campos e provê as necessidades dos pássaros que voam no ar (9), também teria com que lhes remediar a situação, tão depressa quanto possível... e fortes se sentiam para, por si mes­mos, e escudados na Fé e no bom ânimo dela conseqüen­te, reagirem contra a penúria do momento, e vencerem!

Desse convívio, por assim dizer diário, resultou que grandes afeições e simpatias indestrutíveis se estabele­cessem de parte a parte, mormente entre nós, desencar­nados, que nos sentíamos sinceramente agradecidos pelo interesse que nos dispensavam e as inestimáveis mercês que lhes devíamos. (10)



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