Rias de um suicida yvonne do amaral pereira


(9) Mateus, capítulo 6, versículos 19 a 21 e 25 a 34



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(9) Mateus, capítulo 6, versículos 19 a 21 e 25 a 34.

(10) Com efeito, no decurso de nossas atividades mediúnicas tivemos ensejo de fazer sólidas relacões de amizade com habi­tantes do plano invisível. Em determinada fase de nossa exis­tência, quando testemunhos dolorosos e decisivos nos foram impostos pela Lei das Causas, pequena falange de antigos sofredores e que havíamos auxiliado antes, inclusive alguns suicidas e dois ex-obsessores que se tornaram nossos amigos durante trabalhos práticos para a cura de obsidiados, tornaram-se visíveis em certa visita que nos fizeram, oferecendo préstimos para nos suavizarem a situação. Nada sendo, porém, possível porqüanto a situação era irremediável, misturaram com as nossas as suas lágrimas, visitando-nos freqüentemente e assim nos proporcio­nando grande refrigério com a prova, que nos deram, de tão benévola afeição. — (Nota da médium)
Tínhamos licença para segui-los em jornadas labo­riosas, no desempenho da beneficência. Poderosamente interessantes, tais labores serviam-nos de magnificentes lições, de vez que, arraigados a insano egoísmo, não compreendíamos como poderia alguém dedicar-se ao bem alheio com tão elevadas demonstrações de desinteresse e amor fraterno. Não me eximirei de dedicar algumas linhas destas narrativas à descrição das operosidades a que assistimos então, para só nos referirmos ao que era realizado por eles em corpo astral, durante as horas dedicadas ao sono e ao descanso físico-material.

Os médiuns, e demais iniciados cristãos encarnados, comissionados pelo Instituto Maria de Nazaré, mereciam a sua confiança e estavam sob a sua vigilância até fin­darem os compromissos que haviam assumido com os seus diretores. Muitas vezes, porém, essa vigilância es­tendia-se por tempo indeterminado, passando o apren­diz terreno a fazer parte da falange de trabalhadores da Colônia, o que será o mesmo que dizer que se torna­va colaborador da magna Legião dos Servos de Maria. Se eram verdadeiramente dedicados ao ministério apos­tólico que experimentavam sob os auspícios da grande doutrina compilada pelo chefe da Escola em que se ini­ciaram, isto é, por Allan Kardec, não limitariam o con­curso da sua boa-vontade às sessões semanais de cunho secreto, em o núcleo a que pertenciam. Ao contrário, dilatariam o raio das ações próprias empreendendo es­forços favoráveis à exaltação da Causa a que serviam.

Pela noite a dentro, aqueles a quem nos ligávamos transportavam-se a grandes distâncias, em corpo astral, associando-se a seus mentores e guias para nobres rea­lizações. Em nossa falange cada grupo de dez ou mes mo em número menor, poderia associar-se-lhes no intuito de instruir-se, segui-los nas peregrinações dignificantes em prol da causa esposada pelo Mestre Magnânimo, des­de que seus tutelares e assistentes dirigissem os serviços e que mentores da Legião tomassem parte na comitiva.

Durante os dois meses de nossa convivência na Terra, tive ocasião de segui-los algumas vezes, acompanhado de outros cômpares da falange, inclusive Belarmino, e seguidos de nossos afetuosos amigos de Canalejas e de Ramiro de Guzman.

Encaminhados por seus instrutores espirituais, visi­tavam hospitais através do silêncio da noite, abeirando-se dos leitos em que gemiam pobres enfermos desesperan­çados e tristes, no piedoso interesse de lhes ministrarem alívio e vigores novos com aplicações magnéticas vitalizantes, de que eram fecundos depositários. Falavam-lhes amigavelmente, valendo-se da sonolência em que OS viam mergulhados, reanimavam-nos transfundindo-lhes os alvores da Fé e da Esperança que iluminavam seus Espíritos de crentes fiéis, sugeriam-lhes coragem e von­tade de vencer através de conselhos e alvitres cuja ins­piração recebiam de seus bondosos acompanhantes. Com eles, assim, ingressamos também em domicílios particula­res, observando que o intuito que levavam era sempre o de servir e aprender, quer se tratasse de visita aos palácios, às choupanas ou até aos prostíbulos, pois en­tendiam, com seus guias, que também aqui existiam corações a consolar, Espíritos enfraquecidos a reerguer e aconselhar! De outras vezes solicitavam nossa coope­ração ~ empenho de consolar grandes infelizes, isto é, pessoas encarnadas que atravessavam testemunhos dolorosos na série de provações convenientes, e cuja tendência para o desânimo e a desesperação poderia tornar-se fatal. Levavam-nos então para a sede da agre­miação a que pertenciam e, ali, enquanto seus fardos materiais continuavam em profundo sono, assim como os daqueles por quem se interessavam, reanimavam os pobres sofredores expondo-lhes conceitos vivos e pruden­tes, ministrando-lhes os grandiosos, ensinamentos evan­gélicos que enriqueciam suas próprias almas e deles fa ziam grandes e animosos batalhadores diários, incapazes de se julgarem vencidos, desanimados, desesperados!... E era então que emprestávamos nossa dolorosa expe­riência, aquiescendo em falar da sinistra aventura que o desânimo nos reservara arrastando-nos para o abismo do suicídio! Belarmino encontrava ensejos, então, para expandir seu verbo arrebatador de orador fecundo e bri­lhante; e por mais de uma vez pôde ele arrebatar, de uma queda certa, infelizes que já se inclinavam para a enoitada região da qual provínhamos. Tudo isso valeu-nos aproveitamento valioso, elucidações de alto valor, exemplificação sedutora, ao passo que reação consola­dora nos reanimava, fornecendo-nos esperança!

Ao fim de dois meses, porém, nada mais sendo ne­cessário recebermos do plano material terreno, fora or­denado o regresso da falange à sua Colônia do Astral.

Não foi sem profunda comoção que abraçamos esses ternos e singelos amigos, na última visita ao nosso bu­cólico aldeamento para as despedidas, e cuja placidez comunicativa do coração tão sadio vigor emprestara às nossas almas vacilantes e apreensivas. Conquanto seus corpos carnais se mantivessem adormecidos quando iam ver-nos, era bem certo que os enxergávamos realmente, como homens ou mulheres, sem que chegasse a impres­sionar-nos a diferença do envoltório.

Hipotecamos-lhes gratidão eterna, apresentamos-lhes protestos de afeição inquebrantável, prometemos-lhes vi­sitas freqüentes tão depressa no-lo permitissem as circunstâncias, retribuição das gentilezas e provas de consi­deração com que nos haviam honrado, assim nos víssemos para tanto capacitados. Por sua vez prometeram con­tinuar interessando-se pelo drama que nos aprisionava, quer orando à Clemência Divina em nosso favor, ou nos transmitindo suas expressões de amizade através das missivas telepáticas que suas faculdades anímicas prin­cipiavam a produzir, promessa que imensamente nos desvaneceu.

Com efeito, após chegarmos ao nosso nevado asilo, freqüentemente víamos suas figuras amigas se destaca­rem na lucidez dos nossos aparelhos de televisão, envol

tas sempre nas ondas opalinas da prece e dos pensamen­tos generosos com que encaminhavam a Deus os bons votos que faziam pela melhoria de nossa situação.

Se, passando dois longos meses sobre a crosta ter­restre, hóspedes dos serenos céus brasileiros, não nos concederam os guardiães a devida autorização para vi­sitarmos sítios queridos de nossa Pátria, cujas recorda­ções saudosas umedeciam de pranto as fibras sensíveis de nossas almas, deram-nos, no entanto, a conhecer estes amigos prestativos e gentis, dóceis e humildes, os dis­cípulos do nobre mestre da Iniciação — Allan Kardec —, a cuja memória, desde então, passamos a render respei­toso preito de admiração! E pensávamos, enternecidos e sinceramente encantados: — Uma doutrina como essa, capaz de lapidar corações, abrilhantando-os com as cãn­didas manifestações da Bondade, como víamos irradian­do em torno dos nossos novos amigos, não pode estar distante das verdades celestes!

Passaram-se dois anos, longos e trabalhosos, du­rante os quais muito choramos sob o peso de frementes remorsos, analisando diariamente o erro cometido con­tra nós mesmos, contra a Natureza e as sábias Leis do Sempiterno, votando-nos à situação amara deixada pelo suicídio! Voltamos algumas vezes a assistir a outras reuniões nos gabinetes terrestres de experimentações psí­quicas, visitando nossos amigos e lhes falando por via mediúnica.

Por esse tempo relacionara-me com um amável apa­relho mediúnico, isto é, um médium dotado de peregrinas faculdades, o qual me visitava, e aos demais, freqüente­mente, quer através dos pensamentos e irradiações be­névolas que dirigia a nosso favor ou no fervor da oração. Era compatriota meu, o que me atraiu e sensibilizou poderosamente, forçoso será confessar! Perscrutador, co­rajoso, impávido, mesmo imprudente, entusiasta insofrido que também era das Ciências Invisíveis, para as quais se inclinava com férvido encantamento, ia ao extremo de rondar, qual romântico enamorado, as muralhas de nossa Colônia, em corpo astral, durante o repouso notur­no ou em expressivos transes mediúnicos, intentando atrair-nos a fim de pôr-se em comunicação direta conos­co, o que preocupava soberanamente nossos instrutoreS e a direção da Colônia. Não lhe permitiam a entrada por assaz perigoso para ele contacto tão direto com am­biente privativo de réprobos, mas ofereciam guarda e assistência para o retorno, levando em conta a sinceri­dade das intenções em que se escudava, e uma vez que atravessaria locais precipitosos da Espiritualidade. Tão amável quão intrépido amigo possuía, é certo, conselhei­ros e guias, assistência particular, como médium que era. Não obstante possuía também — o livre-arbítrio — a vontade livre para agir como lhe aprouvesse, uma vez que lhe fora recomendado precatar-se com as disciplinas apropriadas ao exercício das faculdades mediúnicas, as quais compete ao iniciado observar com o máximo rigor! Ele, porém, arrojava-se imprudentemente, pelo Invisível a dentro, atrevendo-se por sombrias plagas sem esperar convites ou oportunidades oferecidas por seus maiorais, escudando-se na ardente Fé que lhe inspirava o desejo do Bem. Ora, por uma das vezes que visitamos nossos amigos brasileiros, proporcionaram-nos os dedicados men­tores uma entrevista amistosa com o amoroso compatrio­ta. Inesperadamente visitamo-lo, fomos vistos facilmente por ele, que se rejubilou sinceramente, enquanto me davam ordens de algo dizer-lhe por via mediúnica, como recompensa à sua grande dedicação! Eis-me comovido, indeciso, perturbado, escrevendo para meus antigos ami­gos de Lisboa e do Porto, depois de tantos anos de ausência! Não visitáramos, no entanto, senão o médium, retornando aos postos de concentração da falange ime­diatamente.

A despeito, porém, de tudo isso, as disciplinas dos primeiros dias prosseguiam sem alterações: — continuá­vamos hospitalizados, submetidos a tratamento meti­culoso e exercícios complexos para corrigenda dos vícios mentais, assim como a instruções e prática nos serviços de reeducação. Conhecíamos já a lógica férrea da Reen carnação — fantasma que apavora qualquer Espírito de­linqüente e a um suicida em particular, e que ele reluta em aceitar, intimamente convencido, no entanto, de que é verdade que se impõe; que procura negar por que a teme, sentindo, todavia, que a cada dia que passa, a cada minuto que se escoa no estágio consolador onde assis­tem seus guias desvelados, é por ela atraída como o bloco minúsculo de aço pelo ímã poderoso e irresistível, e a qual porfia em afastar das próprias cogitações, sa­bendo-a inevitável de seu destino como a morte o é dos destinos humanos! Entretanto, não a experimentáramos ainda pessoalmente, vasculhando os arquivos reveladores da subconsciência a fim de contemplarmos nosso ser na plenitude da inferioridade moral que lhe era própria. Nossa qualidade dê suicidas, cujas vibrações excitadas nos torturavam a mente com repercussões e impressões excessivamente dolorosas, retardava a consecução desse progresso que se verifica facilmente nas entidades nor­mais ou evolvidas.

A esse tempo haviam-se estreitado poderosamente as nossas relações de amizade com o pessoal dos serviços hospitalares, e particularmente cada grupo com os seus guias responsáveis mais diretos, isto é, médicos, enfer­meiros, vigilantes, instrutores e psiquistas.

Ora, o assistente que mais assiduamente nos se­guia era o jovem médico espanhol Roberto de Canalejas, cujas peregrinas qualidades intelectuais e morais obser­vávamos diariamente. Ele e seu pai Carlos de Canalejas, pequeno fidalgo espanhol, alma de apóstolo, coração an­gelical, e mais Joel Steel, mereciam, do nosso pavilhão em geral e de nossa enfermaria em particular, as mais efusivas demonstrações de amizade e respeito. Roberto, porém, não era entidade muito evolutida, conquanto fosse avantajado o cabedal de prendas morais por ele dura-mente adquirido através de existências planetárias. Tra­tava-se de Espírito em marcha franca no carreiro áspe­ro do progresso, e viera para o estágio de Além-túmulo não havia sequer um século, após encarnação reparadora muito acerba, na qual a dor de brutal traição conjugal despedaçara-lhe o coração e a felicidade que julgara fruir. Tivera Roberto nada menos do que o lar destroçado pelo perjúrio da esposa a quem amara com todo o devota­mento possível a um coração de esposo; vira morrer a filha querida, primogênita dessa união que tudo fizera supor auspiciosa e duradoura, aos sete anos de idade, vítima da nostalgia originada pela ausência materna, agravada com a tuberculose herdada dele próprio, seu pai, que, por sua vez, a adquirira durante abnegadas pesquisas em enfermos portadores do terrível mal, pois, como médico, dedicara-se a humanitários estudos em tor­no do até hoje insolúvel problema! Sofrera humilhações penosas e mil situações difíceis, por causa do casamento desigual que fizera, pois o destino levara-o a apaixonar-se irremediavelmente pela encantadora Leila, filha do Conde de Guzman, o nosso muito estremecido amigo da Vigilância! Correspondido com veemência pela volúvel menina, que então contava apenas quinze primaveras, a ela se unira pelo matrimônio não obstante as relutâncias de D. Ramiro, cuja penetração psicológica em torno da própria filha não augurara feliz desfecho para o impor­tante acontecimento. Roberto de Canalejas, em verdade, não passava de pobre e obscuro filho adotivo de um fi­dalgo generoso que lhe dera nome e posição social, mas cuja fortuna fora disseminada em meritórias obras de socorro e proteção à infância desvalida.

Nos últimos quartéis do século 17 tivera Roberto uma existência no centro da Europa, tornando-se suicida no ano de 1680. Por essa dolorosa razão, já no século 20, conforme nos achávamos na Espiritualidade, ainda sofria conseqüência do malsinado ato de então, pois o seu drama conjugal verificado na Espanha, na primeira metade do século 19, mais não fora do que a experiên­cia a que não se quisera submeter ao findar do século 15II! Esse nobre amigo, cujo aspecto grave e medita­tivo tanto nos atraía, aparecia no Além-túmulo tal como existira em vestes carnais durante a última existência, passada na Espanha: — estatura mediana, barba negra e cerrada elegantemente terminada em ponta, qual usa­vam os aristocratas da época, e acompanhada de bigodes bem tratados; cabeleira volumosa e farta, tez branquíssima, quase nívea, olhos negros, grandes, pensativos, lembrando ciganos andaluzes, e mãos longas indicando o exercício continuado do pianista ou o mal terrível que fizera tombar seu último fardo carnal. Ele próprio re­velara-me essa pavorosa síntese de sua vida, durante os serões em que nos acompanhava pelas aléias mortas do parque do Hospital. Fizera-o, porém, no intuito al­truístico de elucidação, concitando-nos ao valor para en­frentar o futuro que áspero nos aguardava, porqüanto ao suicida cumpre reparar a fraqueza, de que deu pro­vas, curando-se do desânimo que o ata à inferioridade, com testemunhos decisivos de fortaleza e resoluções sal­vadoras.

Ou fosse porque ele conhecera e amara Portugal, tendo ali vivido os últimos meses de sua vida, recebendo como derradeiro pouso para a sua armadura humana a argila portuguesa; fosse porque, além de médico, era também artista de elevado mérito, porqüanto cultivava as belas-letras e a música, enquanto a verdade era que nosso grupo se compunha de intelectuais portugueses orgulhosos de sua heróica Pátria, o certo foi que afe­tuosa simpatia a ele nos enlaçou, fundindo-se logo em imorredouro afeto fraternal.

Belarmino de Queiroz e Sousa, o poliglota filósofo que, a esse tempo, só de longe em longe recordava o an­tigo monóculo, era dos que mais vivaménte se empolga­vam com a nova amizade, pois no amigo pretendera descobrir de algum modo um similar. Confessara de Canalejas que tivera a desdita de professar doutrinas mate­rialistas quando encarnado, renegando a idéia do Ser Supremo e repelindo a luz dos sentimentos cristãos pelo domínio exclusivo da Ciência, fato que o desamparara grandemente durante os contínuos dissabores da existên­cia, agravando, mais tarde, a própria situação moral, quando a adversidade lhe desferira o supremo golpe no lar doméstico. Continuadamente entretinham longas dissertações em torno dos tão palpitantes temas materia­listas à luz da ciência psíquica, respondendo Roberto com lógica irretorquível aos argumentos vivos de Belarmino, que mal iniciara a reeducação no campo espiritual, pois trazia aquele, sobre o interlocutor, a vantagem de conhe­cimento. muito mais profundos não somente em Filosofia como ainda em Ciência e Moral... E era de vê-los, amis­tosa e fraternalmente discutindo sobre os mais belos e profundos assuntos: — o poliglota desejando reapren­der, renovando cabedais nobre as ruínas das antigas con­vicções; o jovem doutor acendendo para ele fachos de luzes Inéditas com que norteasse a trajetória do porvir, estribando-se em fatos positivos que tão do agrado eram do interlocutor! Muitas vezes nós outros, os ouvintes, sorríamos à socapa, por observarmos a nulidade do pobre Belarmino, que se considerara iluminado na Terra, em presença de um simples assistente hospitalar de uma Colônia de suicidas, humilde trabalhador que nem mesmo méritos sensíveis possuia na Espiritualidade!...

Um dia em que demoram um pouco mais a visita aos nossos apartamentos, avisando-nos de que fora in­formado que receberíamos alta dentro de poucos dias, falei-lhe eu, não sem certo constrangimento diante da indiscrição de que usava:

“— Meu caro Sr. doutor! Os pequeninos relatos de vossa vida, que tivestes a magnanimidade de confiar-me, calaram fundamente no âmago de meu ser, comovendo-

-me profundamente, e fazendo-me refletir. Fui romancis­ta na Terra e, escrevendo, procurei estampar em minhas humildes produções determinado caráter moral. Deixei na Terra obra vultosa se não em qualidade — pois hoje reconheço que bem pequenos foram os meus cabedais intelectuais — pelo menos em quantidade!... Confesso, porém, que raramente inventava os meus romances! Eles foram antes filhos do conúbio da observação com os retoques sentimentais de que várias vezes usei para enfei­tar a dureza da realidade e assim mais rapidamente ca­tivar editores e leitores, dos quais dependia a minha bolsa quase sempre vazia... o que não deve ser quali­dade muito recomendável para um escritor terreno!

Quem sabe, Sr. doutor, vossa lhaneza forneceria ain­da alguns informes acerca do próprio drama pessoal, que tanto me impressionou, para que algum dia possa eu voltar a visitar a Terra e, através de um aparelho mediúnico, narrar aos homens algo Interessante Intercalado com as luminosas doutrinas que começo a aprender?... Quem sabe poderia eu transmitir aos antigos leitores de minhas obras terrenas as radiosas novidades que aqui defrontei, romanceando-as com aspectos reais da vida íntima, tão humana e tão instrutiva, de Espíritos que aqui eu conheça, e que foram homens e também sofreram, e também amaram, e também lutaram e morreram, como toda a Humanidade?... E isto porque tenho ouvido asse­verar, os nossos mestres locais, ser muito meritório para um Espírito, desejoso de progredir, o romper as barrei­ras do támulo a fim de relatar aos homens as impressões colhidas na Espiritualidade, a moral que a todos os recém-vindos da Terra aqui surpreende!. .

Quedou-se ele pensativo, enquanto rude melancolia lhe ensombrava o semblante que eu me habituara a ver sereno, o que me trouxe arrependimento do que havia proferido. Passados alguns instantes, porém, respondeu, como ressuscitando do passado por mim timidamente lembrado:

“— Sim! É meritório para um Espírito esse labor, justamente por se tratar de um dos mais difíceis gêneros que é dado a algum de nós realizar! Com maior facili­dade penetraremos um antro de obsessores, nas camadas bárbaras da esfera terrestre, a fim de retê-los, cassan­do-lhes a liberdade, ou um covil de magias com seu ar­senal de intrujices, onde atrocidades se praticam com desencarnados e encarnados, a fim de anularmos tenta­tivas criminosas; com mais presteza convenceremos um endurecido no mal à volta a uma reencarnação expiató­ria do que conseguiremos vencer o cerrado espinheiro que representa a mente de um médium a fim de con­seguirmos transmitir centelhas das claridades que aqui nos deslumbram!

De inicio deverei esclarecer que não existem muitos médiuns dispostos a tão melindroso gênero de tarefa!... e quando se nos depara um ou outro dotado com as ne­cessárias aptidões, além de os reconhecermos deseduca­dos da moral cristã, elemento indispensável ao fim idealizado pelos grandes instrutores que estimulam o gênero de experiência, entrincheiram-se eles de tal forma no comodismo, indispostos para as disciplinas que a seu próprio benefício deles exigimos, assim como na dúvida e na vaidade de se presumirem iluminados, predestina­dos, indispensáveis ao movimento de propaganda do In­visível, que anulam completamente nosso entusiasmo, como se suas mentes nos atingissem com duchas gela­das! Daí o preferirmos as almas simples, os humildes e pequeninos, os quais, por sua vez, por não disporem senão de bem pequenos cabedais intelectuais, exigem de nossa parte perseverança, dedicação e trabalhos exaus­tivos para algo revelarmos aos homens através de suas faculdades!

Minha vida, prezado amigo, ou antes, minhas vidas, através das migraçôes terrenas em que tenho experimen­tado as lides do progresso, relatadas que fossem, com efeito, aos seus leitores, oferecer-lhes-iam lições que não seriam de rejeitar! A vida de qualquer homem ou de qualquer Espírito é sempre fértil de sequências eluci­dadoras, romance instrutivo que arrebata, porque reflete a luta da Humanidade contra si própria, através de lon­ga jornada em busca do porto florido e áureo da re­denção! Poderá colher sua observação aqui mesmo, pois na estreiteza deste asilo há bons temas educativos para transmitir aos humanos por via mediúnica. Mas estou capacitado a adverti-lo de que as mais decepcionantes dificuldades avolumar-se-ão, enfrentando os seus louvá­veis desejos, ainda porque todos os entraves surgem diante de um suicida, pois colocou-se ele em situação anormal, que afetou até a mais insignificante fibra da sua organização psíquica, assim como o seu destino! No entanto, as suas nobres intenções, sua perseverança, o amor ao trabalho, o anseio pelo bem e o belo poderão operar milagres e estou certo de que seus futuros mes­tres e guias educadores orientá-lo-ão a respeito.

Quanto aos informes solicitados teria satisfação em fornecer-lhos, meu amigo! Reconheço-o sinceramente in­tencionado e o Espírito, uma vez despido dos preconcei­tos terrenos, perde o pejo, que o homem conserva, de revelar aos amigos os infortúnios e particularidades que o confrangem. Infelizmente, porém, não sinto em mim o desprendimento necessário para reviver o drama ter­rível que ainda me conturba! Medir o passado cujas cin­zas ainda se encontram palpitantes, aquecidas pelo fogo interior de um amor inesquecível, que amortalha de sau­dades e pesares insopitáveis todos os meus passos na Espiritualidade; extrair das sombras da subconsciência a imagem idolatrada da perjura, a quem não pude ja­mais desprezar, tentando conceder-me o consolo supremo do esquecimento; vê-la ressurgir dos refolhos de minhas lembranças tal como existiu ainda ontem, formosa e se­dutora, enlaçada ao meu destino pelo matrimônio, e re­viver as horas felizes do convívio conjugal, quando as imaginava imorredouras, sem perceber que eram enga­nosas, fictícias, tão só oriundas da minha sinceridade, da fé que me inspirava, da minha grande boa-vontade, será padecer pela segunda vez a insuportável aflição de reconhecê-la adúltera quando todo o meu ser anseia pela ver redimida da infâmia que a arrojou ao bâratro re­pugnante da mais torpe situação que a um Espírito feminino poderá macular: — o adultério! Não posso, Camilo, não posso! Amo Leila e sinto que tal sentimen­to desdobrar-se-á comigo através dos evos, porque me há acompanhado ele pelo destino em fora desde muitos séculos... desde quando a voz maviosa de Paulo de Tarso ecoava vitoriosa e pura, anunciando a Boa-Nova sob as frondes pujantes das florestas da velha Ibéria!... E não descansarei enquanto não a tiver novamente a meu lado, exculpada da afronta dirigida a mim, a si mes­ma, à Lei de Deus, a nossos filhos e à sua qualidade de esposa e mãe, pelas reparações cruciantes a que se submeteu, levada pelos remorsos!”

Fez uma pausa, durante a qual deixou transparecer nos olhos a imensa ternura que vivia em seu coração e continuou em tonalidades humildes, que me levaram a duplamente admirar o adamantino caráter que havia três anos eu observava diariamente:

Pudesse eu, Camilo, e evitaria as dores da ex­piação para minha pobre Leila, chamando-a para o meu convívio carinhoso e apagando de nosso entendimento, como outrora o tentei, as nódoas do delito com o ósculo do perdão que de há muito voluntária e de boamente lhe concedi! Contudo, ela mesma nada quer aceitar de mim antes de ressarcir o próprio débito ao embate das tormentas de uma reencarnação amortalhada nas lágri­mas de rijos sofrimentos, a fim de poder considerar-se digna do meu amor e do perdão de Deus! Sua consciên­cia entenebrecida pelo erro foi o austero juiz que a jul­gou e condenou, pois, com a alma chagada pelas denta­das do remorso, apavora-se tanto com o próprio passado e tanto o execra que nada, nada será capaz de mitigar as ardências que a torturam senão a dor irremediável no acrifício da expiação terrena! Bem quisera eu apro­ximar-me dela, refrigerar minhas audades falando-lhe pessoalmente, em vigília ou durante o sono, consolan­do-a, incitando-a à luta pela vitória com os meus pro­testos de perene amizade! No entanto, não posso nem mesmo aproximar-me porque, se me percebe, apavora-se e procura fugir, envergonhada com a mácula de que a acusa a consciência! Quanto a mim, poderei vê-la ou acompanhá-la em qualquer momento que o deseje, po­rém, cautelosamente, a fim de me não dar a perceber, para evitar desorientá-la...”

“— Convenço-me cada vez mais, Sr. doutor, de quan­to os meus leitores estimariam tornasse eu para nar­rar-lhes os comoventes episódios que percebo nas entre­linhas de vossas exposições...”

“— Pedirei ao pai de Leila que posteriormente leve ao conhecimento do meu caro escritor lusitano o drama que tanto o atrai... Quem sabe?!... O trabalho é con­sagrado como elemento primordial do progresso e a in­tenção nobre e generosa que mspire o trabalhador sincero sempre obterá o beneplácito divino para as suas realizações... D. Ramiro de Guzman encontra-se à al­tura de fazê-lo. Trata-se de um Espírito forte, experi­mentado nas lutas do infortúnio, e que sabe dominar as emoções, possuindo em grau adiantado a disciplina men­tal. Poderá e quererá fazê-lo, pois comprometeu-se co­migo mesmo a pugnar pela reeducação moral da juven­tude feminina na Terra, em memória de sua infeliz filha tão amada por seu coração de pai, mas que tantos e tão acerbos desgostos lhe causou... mau grado a educação aprimorada que se esforçou por fornecer-lhe. Falar-lhe-ei a respeito.”

Compreendendo-o disposto a retirar-se, observei ain­da, fiel à impertinência da antiga curiosidade do roman­cista, que em toda a parte fareja substâncias sentimen­tais com que engrandecer seus temas:

“— E... perdoai-me, boníssimo doutor... Vossa esposa... a formosa Leila... onde se encontra presen­temente?...”

Levantou-se calmo, firmou o pensamento gravemen­te, como exercitando mensagem telepática a seus maio­rais, e em seguida aproximou-se do esplêndido receptor de imagens, sintonizou-o cuidadosamente para a crosta terrestre e esperou, murmurando como que para si mesmo:

“— Deve estar entardecendo no hemisfério sul oci­dental... Não haverá indiscrição em procurar vê-la nes­te momento...”

Com efeito! A pouco e pouco a configuração de uma criança destacava-se da penumbra de um aposento de família paupérrima. Tudo indicava tratar-se de um lar brasileiro dos mais modestos, conquanto não miserável. Uma menina aparentando cinco anos de idade, cujas feições concentradas e tristes indicavam a violência das tempestades que lhe tumultuavam o Espírito, entreti­nha-se com seus modestos brinquedos de criança pobre, parecendo mentalmente preocupada com reminiscências que se embaralhavam aos fatos presentes, pois falava às bonecas como se conversasse com personagens cujas imagens se desenhavam quais contornos a “crayon” em suas vibrações mentais. Roberto contemplou-a triste-mente e, voltando-se para mim, que me apossaVa do ensinamento deslumbrado ante a majestade do drama cujos primórdios me davam a conhecer:

“— Aí está! Reencarnada na Terra de Santa Cruz; onde palmilhará seu doloroso calvário de expiações... Vive agora fora dos ambientes que tanto amava!... de­samparada pela ausência daqueles que tão devotadamen te a estremeciam, mas cujos coraçôes espezinhou com a mais cruel ingratidão! Leila desapareceu para sempre na voragem do pretérito!... Seu nome agora é outro: —chamam-lhe Maria... o nome venerável de nossa au­gusta Guardiã... Para o mundo terrestre será linda e graciosa criança, inocente e cândida como os anjos do Céu! Perante a consciência dela própria, porém, e o julgamento da Lei Sacrossanta que infringiu, é grande infratora que cumprirá merecida pena, é a adúltera, a perjura, a infiel, blasfema e suicida, pois Leila foi tam­bém suicida, que renegou pais, esposo, filhos, a Família, a Honra, o Dever, pelas funestas atrações das paixões inferiores.. .“

Duas lágrimas oscilaram no veludo de suas belas pestanas de andaluz, enquanto continuou comovidamente:

“— Oh, Camilo! Glória a Deus! Hosanas à Sua Paternal Bondade, que encobre dos homens encarnados o cortejo sinistro de seus erros pretéritos!... Que seria da sociedade humana se a cada criatura fosse facultada a recordação de suas passadas existências ..... se todos os homens conhecessem o pretérito espiritual uns dos outros?..

De repente, brado indefinível, misto de pavor, de emoçâo ou vergonha, que tocaria as raias da loucura, abalou o silêncio do humilde lar brasileiro, repercutindo na placidez da nossa enfermaria de além-túmulo: — a menina acabara de pressentir Roberto, vira-o como refletido nas ondas telepáticas, pois os remorsos segreda­vam à sua consciência ser ele a grande vitima dos seus desatinos, e, em prantos, procurara refúgio nos braços maternos, sem que ninguém compreendesse a razão da súbita crise...

Deteve-se o assistente de Teócrito, isolando apres­sadamente o impressionante aparelho. “— É assim sempre — exclamou tristemente não tem coragem para enfrentar-me... No entanto, pensa em mim e deseja voltar ao meu convívio.

Despediu-se e retirou-se meditativo. Nunca mais tor­nei a falar-lhe no assunto. Todavia, nessa mesma tarde iniciei os apontamentos para a preparação destas hu­mildes páginas...

Quem sabia lá o que a misericórdia do Altíssimo reservaria para conceder-me?... Talvez me não fosse de todo impossível escrever como outrora... Não possuía eu agora alguns amigos terrenos capazes de me ouvirem e compreenderem?...

Sim! Eu melhorara muitíssimo, graças ao eficien­te tratamento usado no, Hospital Maria de Nazaré... Afirmava-o a Esperança radiosa que fortalecia o meu Espírito!



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