Ricardo Nicotra/2002 Índice Introdução 5 Capítulo I o dízimo na Bíblia 6



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Uma Ilustração Moderna


O episódio narrado a seguir ilustra a realidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Os nomes utilizados são fictícios e qualquer semelhança é mera coincidência.

Acompanhe este diálogo entre um adventista recém batizado, Pedrinho, e o ancião da igreja, João.

O irmão João aconselha Pedrinho:

- Pedrinho, após aceitar a Jesus como o seu Salvador, é necessário que você dê um bom testemunho aos seus amigos. Fale a eles do grande amor de Deus.

- Irmão João, responde Pedrinho, eu comecei a testemunhar antes mesmo de me batizar. No mês passado usei meu dízimo para comprar Bíblias e as distribuí aos meus amigos na escola.

- Mas... Pedrinho... Acho que há algo errado aí. Eu admiro sua iniciativa missionária, mas acredito que os recursos para a compra de Bíblias não deveriam ser provenientes do dízimo. Sua atitude foi exemplar como cristão, mas o material evangelístico que usamos deve ser adquirido com as ofertas, não com os dízimos. Os dízimos devem ser entregues na Casa do Tesouro para que haja mantimento nesta Casa.

- Irmão João, em que são aplicados os dízimos?

- Pedrinho, os dízimos são utilizados para pagar os pastores que dedicam tempo integral para a causa de Deus.

- Só para isso, irmão João?

O irmão João, meio confuso, responde:

- Creio que os dízimos também são utilizados para pagar missionários nos campos estrangeiros.

Na verdade o irmão João estava em dúvida quanto à origem dos recursos para o sustento dos missionários em campos longínquos. Não tinha certeza se os recursos para pagamento de missionários eram provenientes do dízimo ou das ofertas arrecadadas na Escola Sabatina. Mas Pedrinho continua questionando:

- O dízimo é utilizado só para isso, irmão João?

- Acredito que os dízimos são utilizados também para sustentar os professores de Bíblia de nossos colégios, responde o sincero e bem intencionado ancião.

Após algum tempo, Pedrinho foi informado que o pastor ganhava um salário líquido, após os descontos, de R$ 800,00. Achou o salário baixo para um pastor que cuidava de quase mil ovelhas em um distrito com cinco igrejas.

Na semana seguinte o irmão Joaquim, tesoureiro local, divulgou para a igreja o relatório mensal da tesouraria. Pedrinho, ao receber o relatório, suspeitou que algo estava errado. Segundo o relatório divulgado pelo irmão Joaquim, a remessa de dízimos para a Associação equivalia a aproximadamente oito vezes o salário do pastor, ou seja, uma remessa de R$ 5.500,00. Algumas questões vieram à mente de Pedrinho: “Por que nossa igreja, que arrecada o suficiente para pagar oito pastores, tem apenas um e, além disso, ele divide suas atenções com mais quatro igrejas?”

Pedrinho não hesitou em procurar o irmão João para esclarecer a questão:

- Irmão João, por que nós temos que dividir nosso pastor com mais quatro igrejas se temos condições de pagar quase oito pastores? O senhor tem certeza que o dízimo é utilizado só para pagamento de pastores? Por que não pagamos um pastor que dedique tempo integral exclusivamente para nossa igreja?

- Pedrinho, as coisas não são bem assim. Há muitos lugares pobres em nosso país que são beneficiados com o dízimo arrecadado aqui. Imagine uma igreja rica. Certamente ela teria condição de pagar vários pastores com o volumoso dízimo ali arrecadado. Imagine agora uma igreja carente que não arrecada muito. Se usássemos sua solução eles ficariam sem pastor. Sua solução do ponto de vista financeiro parece correta, mas é um pouco egoísta. Você deve pensar globalmente não localmente. Além disso, se usássemos o seu método, provavelmente haveria uma disputa entre os pastores para assumir o comando das igrejas mais ricas. Concorda Pedrinho?

Naquela noite Pedrinho voltou para casa satisfeito com a resposta do ancião, mas o mesmo não ocorreu com o irmão João, que era um ancião sincero. Ele chegou em casa, deitou-se em sua cama e começou a meditar na resposta que havia dado ao jovem recém batizado. Havia dito que os recursos excedentes arrecadados em regiões ricas beneficiavam regiões pobres do país. Lembrou-se de algumas viagens a serviço que havia feito a cidades da região Nordeste do Brasil. Recordou-se das visitas que fizera a várias igrejas adventistas daquela região. Nunca havia se encontrado com pastores, pois os distritos daquela região eram enormes: Quinze, vinte, vinte e cinco igrejas para um pastor! Neste instante o irmão João começou a ficar confuso. Para onde iria o dinheiro dos dízimos se a igreja arrecadava tanto e o pastor ganhava tão pouco? As regiões mais pobres estavam sendo realmente beneficiadas?

Na semana seguinte o irmão João procurou o irmão Severino, um entusiasmado nordestino que havia sido diretor e tesoureiro de um grupo na Paraíba.

- Irmão Severino, conte-me um pouco sobre sua experiência como diretor e tesoureiro de um pequeno grupo na Paraíba. Quantos membros o seu grupo tinha e quantas igrejas havia em seu distrito? Quanto era arrecadado mensalmente de dízimo?

- Bem pouco, bem pouco irmão João. Nosso grupinho da vila "Mata Cachorro" (nome fictício) era bem pequeno. Começamos com duas famílias e quando saí de lá já éramos quarenta. O distrito tinha dez igrejas e oito grupos, dezoito no total. Tudo isso para apenas um pastor. Tínhamos também um obreiro que ajudava o pastor, mas era pago por um irmão mais aquinhoado. A maioria era bem pobre e nossa remessa mensal para a Missão dificilmente excedia quatrocentos reais. As outras igrejas, que eram maiores, enviavam remessas de seiscentos, oitocentos e até mil reais.

A conversa parou por ai. O irmão João agradeceu a atenção de Severino e despediu-se. O testemunho do irmão Severino deixou o ancião mais confuso ainda. Como um grupo tão pobre arrecadava quase o suficiente para pagar meio salário de um pastor? Por que no Nordeste há tantas igrejas para apenas um pastor? O excedente dos dízimos da região Sul e Sudeste não deveria ser utilizado para auxiliar as regiões mais pobres? Confusão total na cabeça do ancião!

Quatro semanas depois o irmão João teve a oportunidade de abordar o pastor distrital, Moacir. Convidou-o, após o culto, para uma conversa particular, através da qual poderia expressar suas dúvidas sobre o destino dos dízimos. Expôs ao pastor questões sobre a diferença brutal entre o tamanho dos distritos das regiões mais ricas (Sul e Sudeste) e das regiões mais pobres (Norte e Nordeste). Questionou a relação entre remessas para a Associação e o salário dos pastores, citou números e estatísticas. Para onde estava indo, de fato, o dízimo? Foram muitas questões colocadas pelo irmão João, mas o pastor estava com um pouco de pressa. Havia muitos problemas para resolver e outros irmãos queriam conversar com ele, por isso ele optou por uma resposta breve:

- Irmão João, não se preocupe com estas questões. Nós temos um sistema administrativo estabelecido a partir das orientações de Deus. O irmão não acredita que foi Deus quem estabeleceu o modelo organizacional para nossa instituição? Os líderes das Missões, Associações, Uniões, Divisões e Associação Geral são escolhidos em reuniões periódicas onde há muita oração. São homens escolhidos por Deus que aplicam o seu dízimo para a manutenção do ministério evangélico. Todo dízimo é usado de acordo com o que a Bíblia e o Espírito de Profecia estabelecem. Não se preocupe com estas questões. Além disso, se alguém da administração aplicar incorretamente o seu dízimo, esta pessoa haverá de prestar contas com Deus. Faça a sua parte e não se preocupe em julgar o trabalho dos outros. A Deus pertence o juízo. Vamos criticar menos e trabalhar mais. Vamos olhar para as coisas boas e não ficar contemplando as coisas ruins.

O irmão João voltou para casa não muito satisfeito com a resposta do pastor Moacir, pois os números indicavam que algo estava errado. O pastor havia sido sucinto demais. Não havia abordado a questão de forma racional e concreta, mas de forma emocional e superficial - Não foi ao ponto. Mas o irmão João achou por bem não prolongar a questão, caso contrário, sua atitude poderia ser considerada como rebeldia.

O pastor havia sido treinado para dar aquela resposta quando questionado a respeito da administração e do dízimo, mas também não voltou satisfeito com a resposta que dera ao irmão João. Diante dos números e estatísticas apresentadas pelo ancião, considerou sua resposta evasiva e pouco consistente. Não foi ao ponto. De fato, algo estava errado com a administração. O pastor Moacir era um pastor sincero e esforçado, mas não conseguia desenvolver um trabalho a altura da sua expectativa e das expectativas dos membros das cinco igrejas.

Na semana seguinte, o pastor Moacir começou a questionar a distribuição dos dízimos junto à Associação. Apresentou os números ao presidente da Associação e mostrou as dificuldades que enfrentava em cuidar de cinco igrejas. O presidente aconselhou-o a não tocar neste assunto, mas durante algumas semanas o pastor Moacir continuou questionando a forma como os dízimos eram "administrados". O questionamento do pastor Moacir foi interrompido no mês seguinte. A mesa administrativa reuniu-se e decidiu transferi-lo para o distrito do grupo "Mata Cachorro" na Paraíba. Hoje o Pastor Moacir cuida de 10 igrejas e 8 grupos.

Neste episódio todos aprenderam alguma coisa: O jovem Pedrinho aprendeu que os dízimos são usados apenas para o pagamento de pastores (aprendeu errado!). João, o ancião, aprendeu que os dízimos não são usados apenas para pagar pastores (mas também não conseguiu descobrir para onde vai o dinheiro) e o Pastor Moacir aprendeu a maior lição: Jamais insista em questionar a administração a respeito do destino dado aos dízimos. Jamais questione de forma insistente a liderança da corporação adventista. Se o fizer, certamente sofrerá retaliações e será desacreditado perante os irmãos. Se alguém insistir neste assunto, será chamado de inimigo da igreja e terá sua imagem “queimada” na comunidade.


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