Richard Doetsch Os Ladrões do Paraíso



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Richard Doetsch
Os Ladrões do Paraíso

Tradução de

NATALIE GERHARDT
2007
2ª. EDIÇÃO

Editora Record


Para Virgínia, minha melhor amiga.

Amo você de todo o meu coração.
Existe um conforto em um grande amor que apenas os que realmente o conhecem são capazes de sentir. É um sentimento quente e seguro, sem raiva ou ciúme. É eufórico, tornando quem o sente imune à crueldade do mundo.

É repleto de esperança, apreço imortal e verdadeiro altruísmo. É a mais rara das dádivas.



AGRADECIMENTOS
É com muito prazer que agradeço a estas pessoas:
Gene e Wanda Sgarlata, por sua amizade e auxílio, sem os quais você não estaria lendo estas linhas; Irwyn Applebaum, por abrir as portas, dando-me essa oportunidade; Nita Taublib, por fechar o negócio e tornar o meu sonho realidade; Kate Miciak, pelas orientações, confiança e paciência sem-fim; Joel Gotler, por conseguir o impossível; Maria Faillace e todos na Fox 2000, por criarem a expectativa inicial.
E acima de tudo, a Cynthia Manson. Obrigado por seu pensamento inovador, sua fé inesgotável diante da adversidade, e por sua amizade.
Agradeço também à minha família: Richard, por sua curiosidade, sagacidade e força; Marguerite, por seu senso de humor, bondade e beleza; Isabelle, por seu sorriso, sua risada e sua inocência. E mais importante: obrigado, Virginia, por aturar meu trabalho compulsivo que começava às três horas da manhã. Você é minha inspiração, meu riso, minha alegria; você é a razão de tudo de bom que aconteceu na minha vida.
Por fim, gostaria de agradecer a você, leitor, por ler este livro. Nessa época em que as pessoas escolhem se entreter assistindo a um filme com duas horas de duração, a uma comédia de situação de meia hora ou ainda a videoclipes de três minutos, é muito bom saber que ainda exis¬tem pessoas que escolhem ler e deixar que a história se desenrole em sua imaginação.

Richard



PRÓLOGO
CIDADE DE NOVA YORK, À NOITE
Michael St. Pierre ajustou o monóculo Steiner de visão noturna no olho esquerdo, afrouxou a mão na corda e continuou a descida que começara no décimo quinto andar. O beco escuro, agora esverdeado, era o local onde aterrissaria. Teve o cuidado de não olhar para as luzes da cidade a distância, pois não poderia arriscar um momento de cegueira agora. O beco abaixo dele estava vazio, exceto por uns poucos sacos de lixo e alguns ratos em suas andanças noturnas. Uma corrida de 27 metros para o outro lado da rua o afastaria da parede de granito de 3 metros de altura, levando-o para a segurança do Central Park. Ele se manteve nas sombras dos prédios à sua volta. Não estava preocupado em ser pego: já fizera a parte difícil e essa esquina específica do mundo encontrava-se deserta.

Faltavam apenas 18 metros para chegar ao seu destino, quando vislumbrou, através do monóculo de visão noturna, uma mulher nua. Ela estava no prédio adjacente, uma casa no centro da cidade, no décimo quinto andar. No prédio escuro, que não era o lar de ninguém, localizado próximo à Quinta Avenida. Podia jurar que distinguia um seio. Virou o rosto; não era um voyeur. Mas era uma visão agradável. Nunca teria notado se não fosse pela visão noturna. Mas não estava preocupado: ela não poderia vê-lo, disso Michael tinha certeza.

Continuou descendo pela noite abafada e quente.

Mas, como um ímã, sua visão era atraída para o prédio, mesmo que apenas por um segundo. Sim, era um seio. Um par deles, na verdade. Bem proporcionais, acima de uma cintura fina, toda a cena banhada em verde. Nossa, ele adorou aquela visão. A mulher estava deitada de costas. Não podia distinguir seu rosto, mas o corpo era excepcional. E observou enquanto ela se contorcia de prazer. Concentre-se no trabalho, lembrou a si mesmo, lutando contra a onda momentânea de desejo.

Soltou a guia, continuando a descer. Havia investido muitas horas para arriscar perder tudo, bisbilhotando dois amantes. Ele estaria em casa rapidamente se agisse de acordo com o plano, seguro nos braços de sua esposa, bem mais sedutora do que essa mulher diante dele. Mesmo que nunca tivesse visto um corpo como o dela.

Sem nenhum aviso, como se estivesse lendo seus pensamentos, a mulher virou o rosto em direção à janela. Michael congelou, segurando rápido a corda, nenhum som, nenhum suspiro. Será que ela o vira? Impossível. Estava vestido para se ocultar nas sombras; a região ao redor dele não podia estar mais escura.

E então sentiu o seu estômago revirar.

Ela não estava olhando para ele. Não podia. Os olhos estavam cobertos por uma venda escura; e a boca, amordaçada. Estava se contorcendo de terror e não de prazer. Olhou com mais atenção. Encontrava-se estendida de braços abertos sobre a mesa e estava sofrendo. Sentiu-se dominar por uma raiva repentina quando viu uma figura parada ao lado dela; o rosto do homem estava encoberto, mas a arma em sua mão era bem visível. Isso não era um jogo: a mulher estava sendo estuprada. E tudo acontecia a menos de seis metros dele.

Olhou para baixo. Faltavam apenas quatro metros. Liberdade. Sentiu a pequena bolsa presa às suas costas. Seis meses de planejamento cuidadoso para obter o que estava dentro daquela bolsa; era o seu futuro. E ele não o deixaria escorrer por entre os dedos. Não era hora de bancar o herói.

Mas ela estava lá, o brilho verde do monóculo de visão noturna tingindo a pele, seu corpo distendido preso por grilhões. Michael não precisava ouvir para saber que ela gritava por trás da mordaça.


Verão em Upper East Side. A maioria das pessoas deixou a cidade e seguiu para Southampton, Easthampton ou Greenwich para encontrar um pouco de paz no que chamavam campo, deixando seus apartamentos fechados e pegando poeira até setembro. Reis e rainhas abandonavam seus castelos em busca de pastagens mais verdes e ar mais puro, deixando para trás seus feudos na Vila do Silício e impérios em Wall Street. Ali, havia uma concentração de riquezas como nenhuma outra no mundo, reunidas em trinta quadras de fachadas de calcário e porteiros irlandeses desajeitados.

A imponente embaixada fora originalmente construída para servir como escritórios e residência de J. S. Vandervelde, um barão do petróleo cujo império rivalizava com o de Getty, Rockefeller e Carnegie. O governo do Abiquestão comprara o prédio no início dos anos 1970, não pela beleza pomposa, mas pela impenetrabilidade da estrutura exterior: paredes com um metro de espessura, portas maciças, janelas blindadas. Os Vandervelde sabiam bem seu lugar no mundo: conheciam melhor seus inimigos do que a própria família e, desse modo, sua residência fora projetada de acordo. Johan Sebastian Vandervelde construíra uma fortaleza: oito andares para residência e sete andares de escritórios. Em 1915, tirou a família da casa em Greenwich Village, mudando-se para a Fourth Street. Era comum ocorrerem problemas entre Johan

Sebastian e seus funcionários e havia um preço a ser pago. Mas esse preço não seria pago com sangue bem na porta de sua casa.

Os abiquestaneses também conheciam seu lugar no mundo e sabiam que precisavam mais de uma fortaleza do que de um simples prédio de escritórios. Depois da mudança, modernizaram o antigo lar de Vandervelde, revendo a parte elétrica e hidráulica e as questões de segurança. O único modo de entrar era pela porta da frente, se alguém estivesse a fim de enfrentar guardas, detectores de metais, armas etc.

No entanto, as pessoas tendem a pensar apenas em duas dimensões e não em três. Um assalto vindo de cima nunca fora considerado uma ameaça, mesmo quando o embaixador abiquestanês se encontrava na residência.

O telhado tinha apenas os sistemas de alarme padrão nas portas, janelas e clarabóia.

Foram seis meses de planejamento. Michael conhecia cada canto do prédio melhor do que seu morador mais antigo. A Comissão de Preservação de Prédios Históricos fora extremamente prestativa ao fornecer as plantas e as especificidades da propriedade. Quando souberam que ele estava escrevendo um livro sobre a história da avenida mais famosa do mundo, pararam tudo o que estavam fazendo para auxiliar o jovem atraente, vestido em um terno Ralph Lauren. Não só forneceram informações sobre o prédio em questão, mas também sobre as estruturas adjacentes. Forbes Carlton Smyth — nome escolhido por Michael por denotar um pedigree — assegurou a cada um dos membros da comissão que todos receberiam agradecimentos pela ajuda prestada na pesquisa para o livro. Foi fácil descobrir o sistema de segurança do prédio, e os códigos de acesso foram comprados diretamente do fabricante por um valor nominal, já que os americanos não tinham sentimentos muito profundos pelos abiquestaneses.

Como todo bom homem de negócios, Michael era meticuloso no trabalho, colocando todos os pingos nos "is" e todos os traços nos "ts". Profissional perfeito, não deixou de considerar nenhuma parte do prédio, olhando detidamente cada detalhe da pesquisa. Todos os cenários possíveis foram imaginados e havia um plano para cada um deles. Mas diferente dos outros homens de negócios, Michael tinha uma empresa formada por apenas um homem. Nenhuma equipe de pesquisa e desenvolvimento, nenhuma secretária ou vice-presidente de recursos humanos. Michael sempre trabalhava sozinho. Em um ramo de negócios como este, não se pode se dar ao luxo de confiar em alguém. Sempre executava roubos abaixo do radar: governos, criminosos, pessoas que fraudavam o seguro. Nada poderia levar a ele ou incriminá-lo. Sempre entrava e saía em questão de minutos, nunca cometia erros, nunca deixava rastros nem pistas e, o mais importante, nunca fora pego.

A embaixada contava com poucos funcionários agora que as Nações Unidas estavam em recesso. Dois guardas de plantão por turno, meia dúzia de secretárias durante o dia e isso era tudo. Os demais funcionários haviam voltado para casa para aproveitar a terra deserta e montanhosa que representavam.

O embaixador, Anwar Sri Ruskot, era um general respeitado que se destacava no campo da diplomacia, mas esse talento estava bem distante de suas verdadeiras habilidades. O general Ruskot era bem conhecido no mercado negro como mensageiro especial, receptador de objetos roubados e comerciante especializado no movimento de antigüidades, jóias e pinturas, enquanto se escondia atrás das credenciais diplomáticas. Para o general, a imunidade diplomática era uma invenção melhor do que a eletricidade, a lâmpada e a mulher. Os rumores de suas atividades ilegais corriam soltos pelos círculos da lei, mas o FBI e a Interpol estavam de mãos atadas, pois se mexessem no vespeiro, o Departamento de Estado enfrentaria uma séria crise que poderia chegar ao derramamento de sangue entre dois países que não eram tão amigos assim.

Quando o general Ruskot estava na cidade, cuidava dos negócios no escritório do décimo quinto andar da embaixada, fora do alcance de guardas, conselheiros, secretárias e outros curiosos. Seu escritório ficava no último andar e ele era a única pessoa autorizada a entrar. Ruskot dizia que aquele era o local de onde conduzia os negócios mais delicados de seu país e que, se esses negócios fossem expostos de forma prematura, o impacto seria catastrófico para o mundo da diplomacia. Ninguém jamais entrava nesse andar, em circunstância alguma.

Michael foi o primeiro a ver a verdadeira operação do embaixador. Estava pendurado por um cabo Kevlar bem no meio do aposento, a um metro e meio do chão, segurando uma pequena lanterna. O aposento era grande, a mistura de biblioteca de um cavalheiro e um esconderijo de ópio. Uma mesa maciça e masculina cercada por cadeiras de couro vermelho ocupava a parede de trás e no lado oposto ficava uma sala de estar em estilo nômade com grandes almofadas em volta de um narguilé, cujo cheiro narcótico ainda impregnava o ar. Entre a grande quantidade de antigüidades orientais e pinturas famosas, tapetes persas e tapeçaria, havia livros de contabilidade, arquivos e computadores contendo detalhes das transações criminosas, dos pagamentos ilícitos, das negociações feitas por baixo dos panos. Embora a maioria dos criminosos fosse discreta ao registrar os negócios, essa era uma preocupação que Ruskot não precisava ter, pois o general não se encontrava em solo americano, o prédio era território abiquestanês, protegido pela Convenção de Viena.

Michael chegara ao beco um pouco depois da meia-noite para começar a subida. A butique de quatro andares ficava próxima à Madison Avenue, sua fachada de blocos de granito constituía o sonho de um alpinista. Na mochila que carregava nas costas havia vários metros de corda para escalada; na cintura, mosquetões, grampos e um kit de ferramentas — tudo preso com fitas adesivas para evitar barulho. No beco escuro, começou a escalada, seus dedos unindo-se às bordas extremamente finas entre os blocos de granito. Como se estivesse a passeio, escalou a butique em segundos, atravessou o telhado e seguiu para o prédio de apartamentos de oito andares. Com estilo e força de um alpinista profissional, passou de prédio para prédio em direção à Quinta Avenida, cada vez mais alto à medida que seguia para o destino final. Michael gostava muito mais de escalar prédios do que pedras, pois eles eram mais desafiadores, proporcionando uma sensação maior de realização. Começara a escalar fachadas feitas pelo homem na época da faculdade: as torres do dormitório foram seu primeiro Everest. Subira até o vigésimo segundo andar, entrara pela janela do quarto do professor de uma colega sem fazer barulho; tudo por causa de uma prova. A aventura acabou sendo infrutífera, já que a garota para quem roubara a prova fora reprovada mesmo conhecendo as questões.

Michael chegou a um prédio de 18 andares, de onde desceu para o telhado da embaixada. A clarabóia, instalada em 1968, contava com um sistema de alarme, que foi facilmente desativado isolando algumas conexões. Removeu o vidro e olhou para o aposento escuro através do monóculo, para só depois descer. Isso é que era um apartamento! E que coleção de arte! Michael estudara os planos como estudaria a estratégia de um jogo e poderia redesenhá-lo de olhos fechados; conhecia cada centímetro do lugar bem antes de ter entrado lá.



Através de diversas fontes, ficara sabendo sobre uma quantidade considerável de diamantes e seus contatos se provaram certos quando conseguiu abrir o cofre Wells Fargo de dois metros de altura usando os dedos bem treinados. Sim, havia diamantes. Desenrolou o veludo negro no qual se encontravam e os viu brilhando como estrelas no céu noturno, piscando e cintilando para ele. Eram tantos que dava para encher um pote de biscoitos. Trinta milhões de dólares do mercado negro que não tinham como ser rastreados. O que tornava o trabalho ainda melhor era que ninguém podia denunciar o roubo desses diamantes. Certamente, haviam sido roubados, segurados ilegalmente e sua existência era de conhecimento de poucos selecionados. O embaixador não poderia dar o alarme, pois isso levantaria muitas questões sobre a origem dessa fortuna. Em nenhuma circunstância, entraria alguém para investigar a cena desse crime. Sem polícia, sem investigação, sem problemas.
Ao mesmo tempo que a porta do cofre abriu, o cabo Javier Samaha estava ficando inquieto no seu posto na porta da embaixada. Os guardas haviam tirado a sorte no palito para ver quem voltaria para casa e Samaha tirara o proverbial palito pequeno. A monotonia de turnos de doze horas deixava-o com os pés latejando, além de lhe causar dor de cabeça. Era uma noite silenciosa, uma quinta-feira e, como sempre, nada acontecia. Além de comer, ler e jogar cartas, não havia muito o que fazer. Apesar de todos os temores de um estranho em terras desconhecidas, nunca ocorrera nenhum incidente na embaixada ou contra qualquer um de seus conterrâneos. Samaha achava que a paranóia do embaixador e suas precauções eram infundadas e exageradas. Estavam no século XXI, a era da tolerância, e a embaixada ficava na cidade mais diversa e liberal do mundo. Além disso, era o meio do verão, quando todos os radicais e estudantes estavam de férias e nada aconteceria, nenhum protesto, pelo menos até setembro. Samaha disse para o oficial de plantão que faria sua ronda um pouco mais cedo, pois precisava esticar as pernas e clarear os pensamentos. Normalmente, começava pelo segundo andar e ia subindo, mas, nessa noite, exercendo o pouco de autoridade que possuía, decidiu começar por cima.
Michael fechou o cofre e colocou os diamantes na mochila e a colocou nos ombros. Deteve-se um instante para admirar as obras de arte, confiante de que ninguém entraria nessa área restrita, foi quando notou um crucifixo cravejado de pedras preciosas no canto da sala. Ele tinha cerca de 22 cm de cumprimento e era feito de safiras, rubis e esmeraldas. Viera apenas pelos diamantes, mas o crucifixo o atraíra de forma inexplicável. Isso não fora planejado, e odiava sair do plano; estava sendo meticuloso demais nesse trabalho. Sabia que a chave para o sucesso (que significava não ser pego) era seguir tudo à risca. Mas, por que não? Afinal, esse seria o último trabalho.
A porta do elevador abriu no décimo quinto andar. O cabo Samaha conhecia as restrições, mas, nessa noite, a curiosidade o vencera. Não havia ninguém para pegá-lo, então não teria problemas. Verificou a única porta do andar, a única porta cuja chave os guardas não tinham, confirmando que se encontrava trancada, e se dirigiu para as escadas, um pouco desapontado. Depois, virou-se e olhou para a porta de mogno, a entrada para o santuário de Ruskot. O cabo não nutria muito respeito pelo diplomata paranóico, mas jurara proteger o general e garantir a dignidade de seu país. Samaha se resignara a nunca conhecer a ver¬dade sobre este andar, e seus pensamentos se voltaram para o café. Abriu a porta de incêndio e já estava descendo quando ouviu um estalido nítido quebrar o silêncio. Parou e aguçou o ouvido. O som viera do apartamento. Ouviu novamente. Não tão alto dessa vez, mas, com certeza, um estalido, e não era natural. Voltou e verificou a porta: estava trancada. Encostou o ouvido na porta de mogno, concentrando-se para ouvir alguma coisa. Estava certo de que ouvira algo. Pensou sobre as implicações, sobre suas obrigações para com seu país; considerou e reconsiderou a personalidade violenta do general.

Mandando as precauções para o inferno, chutou a porta. O apartamento se encontrava mergulhado na escuridão, exceto pela luz que entrava pelo hall e pela clarabóia. O cabo notou um escritório amplo e bem decorado, com muito mais bom gosto do que os demais aposentos da embaixada. Um palácio no céu. Deteve-se por um momento olhando o local. Nada parecia fora do lugar. Notou um grande cofre e verificou se estava trancado. Tudo OK. Virou-se para sair, decidindo que O som que ouvira fora produzido pelo dueto de ar. E foi quando notou a parede.

Parecia uma marca d'água, um contorno de poeira. Samaha se aproximou para olhar mais de perto, passando por cima de almofadas e notando, incrédulo, o narguilé. Embora o apartamento estivesse mergulhado na escuridão, havia luz suficiente para distinguir a marca. O cabo passou os dedos por ela, trançando seu contorno. A luz do sol, com o passar do tempo, desbotara a cor da parede, mas uma área específica ainda retinha o verde vibrante original, uma pequena área em forma de cruz.
Michael estava pendurado a quatro metros e meio do chão com o futuro garantido dentro da mochila em suas costas. Eram apenas cinco andares em direção à liberdade. Uma mulher torturada estava à sua frente prestes a morrer. Um sentimento ruim, na boca do estômago, que costumava fazê-lo fugir para outro lugar, o envolvia. Mas nada se comparava ao medo que sentia pela vítima inocente que vislumbrara.

Subiu pela corda, galgando, em segundos, os trinta metros. Pulou para o parapeito. A casa de seis andares se encontrava a seis metros de distância e nove andares abaixo. Escalou o condomínio adjacente, enfiando os dedos na fachada de tijolos, atravessando o caminho, fixando a corda para depois descer.

Gostava de planos bem traçados e pensados e sempre tinha um, além de um plano B de segurança e um plano C para o plano B. Seguir seus instintos era algo que preferia evitar. Agora, a adrenalina era sua força motriz e só poderia contar com os instintos. Procurou lembrar o que sabia: a casa pertencia a uma empresa têxtil européia e, em geral, era ocupada pelo marido, a esposa e um pequeno schnauzer e contava com um sistema de alarme barato e ineficaz. O prédio havia sido parte do plano: uma rota alternativa que havia estudado bem.

Não conseguia parar de pensar. Onde estava o marido? Quem era o invasor? Era o marido? Isso era algo que os excitava? Mas não havia tempo para perguntas, apenas fatos: a linguagem corporal da mulher pedia ajuda a Deus e ela estava prestes a morrer.


Não fora muito difícil tomar uma decisão. Samaha explicou para o oficial de plantão que ouvira algo no décimo quinto andar e, apesar das ordens de não visitar aquele andar, sentira que era seu dever proteger o país. Explicou que verificara o restante do prédio e achava que alguém poderia ter entrado pelo telhado. O oficial dissera que não era nada, e Samaha sugerira que ligassem para o departamento de polícia de Nova York para que fizessem uma ronda e verificassem se havia algo suspeito pelas redondezas. Era uma boa história de cobertura, deixar a polícia vasculhar a área; se o ladrão ainda estivesse por perto, os policiais o pegariam e Samaha levaria os créditos. Poderia até conseguir uma recomendação. E se não pegassem ninguém? Em duas semanas, o general Ruskot e seu temperamento cruel estariam de volta. Abandonar o serviço sem aviso prévio, desertando seu posto, em uma cidade como Nova York não era uma alternativa ruim.
Michael entrou silenciosamente na casa pela janela do último andar. Não tinha arma. Na verdade, odiava armas, nunca usara uma e nem saberia o que fazer se tivesse uma. Mas trazia sua faca, cujo cabo macio o confortava, a lâmina refletia a luz em seu fio mortal. Rodou a faca na mão, fazendo uma oração silenciosa para que não precisasse usá-la; o metal da lâmina nunca perfurara a pele de alguém.

Ajustou o monóculo de visão noturna e vasculhou o quarto de hóspedes através do lúgubre brilho verde e entrou no saguão. Distinguia sons de pele friccionando a superfície da mesa e um gemido baixo, que causava um tremor em sua alma, dando-lhe forças para continuar. No final do corredor, bem ao lado da porta, jazia o corpo do schnauzer em uma poça de sangue. Michael continuou o caminho e examinou o aposento. Tratava-se de um estúdio de cerâmica: vasos de argila secando em uma prateleira de madeira; várias tintas, solventes e vidrados estavam sobre a escrivaninha. Havia um forno grande no canto, ele podia ouvir o exaustor interno ventilando o intenso calor. O cheiro de terra e umidade misturava-se a um toque artificial de jasmim. Restos de argila seca e ferramentas de madeira estavam espalhados pelo chão, como se um furacão tivesse passado pelo lugar. Viu a mesa na qual o trabalho era realizado, onde a argila era colocada e moldada, cortada em pedaços para se tornar arte. Mas, nesta noite, não era argila que estava sendo manuseada.

A mulher loura devia ter cerca de 40 anos. Uma camada fina de suor cobria o rosto e ela arfava de medo. Mesmo nua, podia-se afirmar que era extremamente rica, pois o corpo apresentava a tonicidade de uma atleta, o rosto perfeito, talhado por algum cirurgião plástico da Park Avenue. Os pés bem-feitos e esmaltados estavam sobre a borda, amarrados aos pés da mesa, os braços, amarrados sobre a cabeça, e os olhos, vendados. Os gemidos chorosos que emitia através da mordaça gelavam o coração de Michael, mas, pelo menos, confirmavam uma coisa: a mulher ainda estava viva.

Sobre o peitoril da janela, havia algo que poderia ser descrito como um kit médico do século XIX, uma coleção de ferramentas cirúrgicas antigas: facas, bisturis e serras.

Ele olhou em todos os lugares, mas não havia sinal do agressor. Tirando o monóculo, Michael acendeu as luzes e correu para o lado dela. A pele não apresentava nenhum sinal de violência. Quem quer que tivesse feito aquilo, ainda não começara o trabalho. Michael cortou rapidamente as cordas que a prendiam. Ela chutou e soltou um grito abafado, sem saber que ele era seu salvador.

Então, ele sentiu um violento golpe no lado da cabeça, que o fez cambalear para trás, tonto, perdendo todo o senso de tempo e de realidade. Viu uma sombra, cujo rosto estava oculto por um cachecol. Segurava um macete de escultor em uma das mãos e um grande revólver na outra. A cabeça de Michael latejava enquanto lutava contra a inconsciência que ameaçava envolvê-lo. Nunca imaginara que o desfecho da noite pudesse ser a morte, mas agora... Nenhuma palavra foi emitida quando o homem encostou o cano no revólver em sua testa. O louco engatilhou a arma e parou, parecendo se divertir ao prolongar o momento. Michael apertou o cabo da faca, agradecendo ao fato de ela estar escondida. Então, sem hesitação, enfiou a faca no pulso do atacante, enterrando-a até o cabo, a ponta saindo pelo outro lado do braço. O atacante cambaleou para trás, chocando-se contra o forno. Bateu com os ombros contra a superfície de metal com uma temperatura de mais 550 graus e o revólver caiu de sua mão. O cheiro de pele queimada impregnou o ar.

Michael ficou de pé, tentando recuperar o equilíbrio, a cabeça ainda latejava devido ao violento golpe. Segurou na mesa para se equilibrar e, por fim, deu uma boa olhada em seu atacante. Os olhos do homem permaneceram frios e mortos mesmo com a fumaça saindo do ombro e o sangue escorrendo pelo pulso, ensopando o cabo da faca. Indiferente à dor, o homem puxou a faca do pulso e enfiou-a no ombro de Michael, derrubando-o no chão. O louco agarrou o cabo da faca e, como se Michael fosse um porco morto preso em um gancho, o puxou pelo aposento, arrastando-o até o forno. Com um rosnado de raiva, o homem chutou a faca; e uma dor insuportável atravessou o corpo de Michael.

Já a ponto de desmaiar, Michael se sobressaltou com o som alto de um rádio. Um rádio de polícia. E era do atacante. Michael mal conseguiu distinguir as palavras: Possível roubo na embaixada abiquestanesa, carro fazendo a ronda.

Michael ficou ali estendido, o corpo em choque provocado pela dor. A mulher na mesa soltava gritos abafados através da mordaça; ela certamente veria a morte agora. O pensamento de Michael passou para a esposa. Como ela entenderia isso? Imaginou a polícia explicando a morte dele para ela; como fora encontrado; como fora assassinado. Será que ela poderia ajudá-los na investigação? Ajudá-los a explicar os diamantes roubados na mochila encontrada com o corpo. Ela conhecia a socialite nua que fora assassinada junto com o marido? Será que o marido e a socialite tinham um caso?

Contra qualquer pensamento racional, Michael alcançou a faca e a arrancou do ombro, a dor tão forte quase o fez desmaiar. Mas quando estava quase apagando, foi despertado por um líquido que o trouxe de volta à vida. O chão estava encharcado de solvente, espalhando-se por todos os cantos, queimando o nariz e fazendo com que o ferimento do ombro ardesse. Pela primeira vez na vida, tomou consciência da própria mortalidade. Se não se mexesse, e rápido, ele e a mulher amarrada à mesa morreriam.

Em pé na soleira da porta, o atacante levantou o braço para atirar um coquetel Molotov. Michael lutou para ficar de pé, enquanto o homem atirava a garrafa bem na sua direção. Pareceu se passar uma eternidade enquanto a bomba voava em sua direção, formando um arco na descida, para finalmente explodir no forno quente. O fogo subiu, espalhando-se rapidamente pelo chão. O atacante desapareceu pela porta quando esta foi tomada pelas chamas.

Michael, lutando contra a dor insuportável em seu ombro e contra uma possível concussão, cambaleou através do aposento em chamas e cheio de fumaça. Puxou de uma das prateleiras um pano e jogou sobre a mulher atordoada. Arrancou sua venda e a mordaça. Ela viu o fogo e gritou, à beira da histeria. Amarrando sua corda ao pé da mesa, Michael arremessou uma cadeira através da janela e, logo depois a corda, que prendou no mosquetão e agarrou a mulher. Não era necessário dizer a ela para onde iriam: ela segurou firme nele.

Atirou-se, juntamente com sua carga, pela janela e o aposento explodiu. Juntos desceram aos trancos e barrancos, pelo ar noturno de verão, à medida que a mesa era arrastada pelo chão até bater contra a janela, fazendo com que parassem com um solavanco, alguns andares acima do beco abaixo. As chamas saíam pela janela alguns metros acima deles.

Atingiram o chão assim que as janelas da casa explodiram, chamas e muita fumaça subiam pelo céu da cidade. O interior da casa brilhava com uma cor alaranjada à medida que todos os andares eram tomados pelo fogo. Michael deitou a mulher no chão. Ela murmurava frases desconexas e incoerentes, enquanto apertava o pano firmemente ao redor do corpo e chorava.

Michael tirou o cinto, jogando as ferramentas nos arbustos e verificando o conteúdo da mochila recheada de diamantes. Ainda estavam ali. O sangue jorrava do ferimento no ombro, e a blusa escura que usava já estava encharcada. Esperava que a perda de sangue não fosse fatal; não tinha tempo para perder morrendo agora. Debruçou-se sobre a mulher. A vida estava retornando aos seus olhos. Ela sorriu, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.

As sirenes soaram e, em segundos, pôde ver três carros de polícia, que pararam, cantando os pneus, do outro lado da rua. Michael olhou para o outro lado da Quinta Avenida, para o muro do Central Park. Tocou a mochila nas costas; era seu futuro. A liberdade estava apenas a alguns metros de distância.

Talvez ainda conseguisse escapar.


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