Richard Hingley, Globalizing Roman Culture. Unity, diversity and empire, London & New York, Routledge, 2005



Baixar 24.42 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho24.42 Kb.
Richard Hingley, Globalizing Roman Culture. Unity, diversity and empire, London & New York, Routledge, 2005.

Renata Senna Garraffoni

(UFPR)

Richard Hingley é professor do Departamento de Arqueologia da Universidade de Durham, na Inglaterra. Nos últimos anos, tem se dedicado a diferentes áreas de atuação nas quais incluem estudos arqueológicos sobre as populações romanas das províncias do norte e oeste da Grã-Bretanha e sobre os povos pré-romanos da Idade do Ferro, bem como tem refletido sobre a importância de revisões teórico-metodológicas para possibilitar novas abordagens acerca do passado clássico.



Diante de suas variadas publicações, é importante salientar a presença de um eixo comum que perpassa sua obra, pois há cerca de duas décadas este estudioso tem contribuído com o debate sobre como as populações nativas foram incorporadas ao Império Romano, além das mudanças culturais e sociais ocorridas durante este processo. Pensando as relações entre romanos e povos nativos, Hingley colaborou com a construção de um campo de reflexão bastante complexo, questionando interpretações canônicas acerca do mundo romano, como a idéia de Romanização, a partir de um estudo aprofundado do contexto histórico em que a maioria das concepções acerca do Império romano foi criada.

Neste sentido, as publicações de Hingley devem ser entendidas dentro de uma perspectiva de desconstrução de discursos imperialistas do início do século XX que fundamentaram conceitos e leituras sobre o passado romano, tanto na História como na Arqueologia, posteriormente aceitos como verdades e pouco questionados pelos estudiosos durante décadas. A base de sua crítica se constitui, portanto, a partir da ruptura com modelos interpretativos eurocêntricos, na tentativa de construir interpretações mais flexíveis acerca do Império romano. Assim, Globalizing Roman Culture, publicado recentemente pela editora Routledge, é uma obra instigante, pois além de conter um aprofundamento destas questões e apresentar uma síntese dos principais debates acerca das imagens do Império romano ao longo do século XX, também oferece ao leitor a possibilidade de buscar caminhos alternativos para pensar a relação entre culturas, tornando-se uma referência para aqueles que se interessam pelo mundo antigo em geral e o romano em particular.

Embora a obra expresse a erudição do autor, contendo uma vasta bibliografia comentada, o livro é estruturado de maneira bastante didática e o leitor não encontrará dificuldades em seguir sua estrutura de argumentação. Ao longo dos seis capítulos, subdivididos vários em itens, Hingley comenta a importância da teoria para a criação de novos modelos interpretativos sobre o mundo antigo, a necessidade de se criticar e abandonar a idéia de Romanização, bem como apresenta aspectos sobre a noção de cultura, de cultura romana e das interpretações a partir de textos e cultura material para compor novas leituras sobre o Império romano.

Logo no começo do primeiro capítulo, The past in the present, o autor deixa clara sua postura: partindo da constatação que a expansão romana é um fato, cabe aos estudiosos do mundo antigo perceber como o presente vivido pelo pesquisador influencia em sua leitura sobre o passado como um todo e esta questão em particular. Nesse sentido, os modernos debates sobre globalização podem lançar luzes para nos aproximarmos da expansão romana a partir de outros vieses interpretativos, entre eles, a relação entre unidade e diversidade, o local e o global.

Para alicerçar seus argumentos Hingley se pauta na perspectiva pós-moderna, criticando a meta-narrativa e o plano objetivo nas quais as interpretações sobre o império romano foram construídas no início do século XX, destaca como nesse processo as fontes escritas foram privilegiadas e a Arqueologia reduzida a comprovar ou ilustrar os textos, encoraja os estudiosos a explicitarem seus princípios de interpretação e não se esconderem sob uma pretensa neutralidade e, além disso, insiste na importância dos estudos teórico-metodológicos para a construção de novos modelos para o estudo do mundo romano. Tais preocupações convidam ao leitor a pensar sobre temas caros a atualidade como imperialismo, alteridade e subjetividade e sedimenta a estrutura do livro que se tem em mãos.

A base de sua argumentação consiste, portanto, em desconstruir a noção de Império romano que temos em mente. Chama a atenção para o fato de que toda a interpretação do período de Augusto é feita a partir de textos que, na sua grande maioria, estão imbuídos de uma visão elitista e masculina e constituem um discurso de dominação. Para Hingley, muitos estudiosos modernos empregam os textos antigos, sem levar esses aspectos em consideração. Neste sentido, sua perspectiva de análise busca alternativas a esse modelo hegemônico de se entender o Império romano, evitando crivos e dicotomias, como civilizados e bárbaros, por exemplo. Para que tais objetivos sejam atingidos, acredita que é preciso democratizar os estudos sobre o mundo romano, explicitar a relação que o estudioso faz entre seu presente e o passado para construir um pensamento crítico que evite anacronismos e permita o surgimento de novas abordagens.

Tendo expostos seus preceitos teóricos, o leitor é introduzido ao segundo capítulo, Changing concepts of Roman identity and social change. Aqui Hingley apresenta uma síntese de vários aspectos de seu trabalho ao longo dos últimos anos, afirmando que há evidências materiais e textuais sobre o mundo romano, assim como uma tradição moderna de interpretá-los, baseada na idéia de Romanização. Foca, então, nesse conceito, explicita sua construção e propõe seu abandono.

Discutir Romanização é central para entender o pensamento desse estudioso. Hingley afirma que Romanização é uma construção cultural moderna, estabelecida na virada do século XIX para o XX por estudiosos como Mommsen, Haverfield e Jullian, ou seja, é uma tentativa moderna de explicar como a cultura romana se espalhou por um território tão amplo. A base da idéia de Romanização consiste em pensar a cultura romana como monolítica e em uma relação entre romanos e nativos marcada pela aceitação passiva da superioridade dos primeiros. Neste sentido, o conceito de Romanização está inserido em uma tradição de pensamento moderna sobre o mundo clássico na qual a Grécia seria o berço do espírito europeu e Roma faria a ligação entre o passado grego e o presente do século XIX, formulando as imagens de superioridade ocidental.

Essa percepção do papel de Roma foi fundamental para definir bárbaros e civilizados e, gradativamente, o conceito romano de humanitas foi entendido dentro de uma perspectiva teleológica, num contexto de progresso, indicando a superioridade cultural dos romanos sobre os povos conquistados. Assim, Hingley contextualiza a formação do conceito dentro da perspectiva moderna, fundada em uma meta-narrativa que buscou construir uma unidade imperial, centralizada e unificada, isto é, textos e cultura material romana foram entendidos como meio de se alcançar progresso tecnológico, por isso os povos nativos gradativamente abandonariam suas culturas de origem e adotariam a romana.

O descontentamento com este modelo veio na década de 1930, com Collingwood. Este estudioso focou seus estudos não nos romanos, mas nos povos nativos, abrindo espaço para abordagens que se consolidariam nos anos de 1960, a partir de uma maior contato dos estudiosos do mundo romano com a sociologia e a antropologia social. Esses modelos são desenvolvidos com mais ênfase nas décadas seguintes e passam a serem conhecidos como “nativistas”, pois buscavam pela resistência nativa ao domínio romano, pensamento do qual Hingley é herdeiro.

Um dos grandes expoentes desse pensamento foi Martin Millett que, no início da década de 1980, começa a romper a dicotomia entre romanos e nativos. Sua estratégia de interpretação desloca de Roma o centro de poder e indica os interesses dos nativos em adotar a cultura romana, provocando uma crítica aos modelos romanocênticos e permitindo uma nova visão acerca dos modelos interpretativos vigentes até então.

Hingley destaca que o trabalho de Millett, mesmo que algumas vezes ainda enfoque na passividade dos nativos, provocou um impasse entre os estudos, pois a partir dele se formaram duas possibilidades de se entender a expansão romana: a tradicional, a noção de Romanização, na qual há uma ação direta de Roma e a nova perspectiva que se formava, a ação indireta, na qual a elite nativa desempenhava um papel fundamental de negociação cultural, até então desconsiderada.

Chegamos, então, no ponto nevrálgico do argumento de Hingley: a partir das abordagens dos nativistas é possível pensar em uma forma alternativa de expansão e, conseqüentemente, de cultura, pois não teríamos mais uma cultura única e monolítica que se sobrepõe as demais, mas a possibilidade de negociação de valores flexibilizando a relação entre os povos em questão. Assim, os capítulos Roman imperialism and culture, The material elements of elite culture e Fragmenting identities, explicitam essa noção indicando a perspectiva tradicional de cultura romana e os modos de questioná-la, flexibilizando a própria idéia de Império.

Resumidamente, é possível afirmar que os argumentos desenvolvidos nesses três capítulos apontam para uma nova percepção das relações entre os povos que viveram sob o domínio de Augusto. A expansão é entendida a partir de dois pontos: o trabalho escravo e a cultura da elite, esta representante dos símbolos e da educação clássica que conhecemos e, de alguma maneira, herdamos. Hingley destaca que não há uma palavra que possa ser definida como ‘cultura’ entre os latinos, o que indica que este termo é, também, um conceito moderno que se originou nos meios da Antropologia, mas que pode ser útil para repensar o mundo romano, assim como suas relações. Cultura é entendida, portanto, como formas de identidades entre pessoas e o meio em que vivem seu cotidiano.

Partindo dessa definição mais ampla, o autor foca na percepção de cultura que se desenvolveu no campo da Arqueologia e destaca dois momentos. Desde o final do século XIX até por volta dos anos de 1960, cultura no pensamento arqueológico está articulada à noção de raça e território. Com o desenvolvimento da New Archaeology, nos anos de 1960, cultura passa a ser entendida como o meio no qual as pessoas mudam o ambiente em que estão envolvidas. Embora os métodos de análise tenham se alterado, de uma forma ou de outra, a noção de cultura segue inquestionável, como um dado integrado, estático e unificado, sendo que no caso dos romanos, dividida em dois grandes blocos opostos: a romana e a bárbara.

A partir das discussões teóricas atuais, Hingley desloca esta dicotomia e afirma que cultura e, conseqüentemente identidade, não podem ser entendidas como blocos estáticos que se sobrepõe, mas como meios de poder para se identificar e comunicar diferentes mensagens, perspectiva que enfatiza as possibilidades de interação e conflitos, redefinindo locais e contextos. Seguindo esta lógica, estaríamos diante de duas possibilidades de entender o Império romano; uma mais tradicional, na qual Roma constitui um bloco cultural coeso que desempenha um papel ativo, se sobrepondo sobre as demais culturas e outra na qual se leva em consideração como os romanos se identificavam e se definiam como grupo.

Neste segundo viés analítico, cultura romana é entendida não como algo que atinge a todos, mas como traços que identificam grupos da elite. Não estão baseados em etnicidade e nem em grupos lingüísticos, mas na possibilidade de alcançar status e poder local por meio da obtenção da cidadania romana. Assim, a partir dessa perspectiva cultura romana é entendida como um tipo de educação precisa que forma um corpus de textos e cultura material que indicam estas características em oposição ao que seria bárbaro, ou seja, aquele que está mais próximo da natureza. A inovação conceitual permite que entendamos humanitas não mais nos moldes do século XIX, de progresso, mas como um comportamento aristocrático que diferencia esse grupo tanto de grupos bárbaros como de romanos comum.

Ao longo desses três capítulos, Hingley comenta textos antigos, mas enfatiza a contribuição da cultura material para produzir essas novas interpretações. Considerando a cultura material como traços físicos da sociedade e meios de comunicação não verbal, o autor procura os meios nas quais textos e artefatos interagem, rompendo a idéia de cultura romana estática, reforçando que a grande maioria do que chegou a te nós ou o que foi escavado até hoje são elementos que constituem o cotidiano da aristocracia. Sítios nos quais estavam tanto os nativos como os romanos de origem humilde foram pouco estudados, possibilitando o desenvolvimento de uma noção simplista na qual todos se romanizaram por osmose.

Comentando casos específicos de sítios arqueológicos na atual Inglaterra, Espanha, Alemanha e França, desde assentamentos militares a cidades romanas, Hingley afirma que a grande maioria dos dados provém de lugares que a presença romana era mais intensa, mas que dos arredores ou dos meios rurais mais afastados pouco se conhece. Nesse sentido, a idéia de “cultura romana” presente na noção tradicional de Romanização obscurece tanto as particularidades das elites, que podem ser pensadas a partir do fato que o conhecimento do latim não era homogêneo, por exemplo, bem como deixa de lado os nativos e romanos de origem humilde.

É possível que nesse momento o leitor se pergunte: afinal houve Romanização ou há um discurso imperial que encobre a situação local? Diante dessa dúvida, Hingley propõe uma explicação intermediária, pois acredita que a noção de identidade romana é interessante para pensar as relações de poder, mas é parcial por que é fundamentada nas percepções e valores da elite e apresenta pouco espaço para o entendimento do outro.

Essa postura é muito interessante e ajuda a avançar nos estudos acerca da expansão do Império romano. Por um lado indica a formação de uma nova cultura imperial, baseada na disseminação do latim como língua comum, o que facilita a comunicação a longa distância. Por outro, permite entender a produção, troca e consumo de artefatos no período imperial de uma maneira menos centralizada e mais balanceada, abrindo espaço para se pensar a possibilidade de negociação entre os membros das elites e um maior conhecimento da situação dos nativos e romanos de origem humilde. A proposta de Hingley presa, portanto, por um repensar de conceitos datados de cultura e identidade e busca novas definições a partir da relação do local com o global, tornando a noção de império mais flexível, evitando dicotomias estanques e evidenciando o reconhecimento de adaptações e resistências à nova condição social que se formava.

Tendo levantado os principais pontos do livro, creio que alguns comentários se fazem necessários para as nossas reflexões nesse evento. Em primeiro lugar é importante destacar a potencialidade dos estudos pós-modernos e sua contribuição na construção de novas abordagens sobre o mundo antigo, em especial o romano. O questionamento de tradições modernas de pensamento, como a noção de Romanização, abre espaço para romper dicotomias como o binômio bárbaro/civilizado, expondo a complexidade das sociedades antigas, antes reduzidas a blocos culturais estanques.

Em segundo lugar, acredito ser fundamental destacar que os trabalhos de Hingley, assim como de outros estudiosos pós-coloniais, apresentam a possibilidade da construção de uma postura crítica, baseada na interdisciplinaridade e na exposição dos avanços e limites das abordagens constituídas. Essa metodologia permite aos estudiosos uma reflexão crítica sobre a relação entre seu presente e o passado a ser interpretado, refresca as possibilidades de entendimento do mundo romano, tão marcado pela homogeneidade e interpretações normativas, e deixa aberto alguns caminhos para novas pesquisas sobre os marginalizados e os conflitos, praticamente esquecidos pelas perspectivas mais tradicionais de conhecimento.

Assim, acredito que esse livro contém tanto uma ampla discussão bibliográfica sobre os temas destacados, como também se constitui em uma contribuição profícua para um conhecimento mais aprofundado da expansão romana. Indica, portanto, que ainda há muito trabalho a ser feito e, focando mais uma vez em Roma, nos instiga a repensar nossas visões acerca do passado antigo, bem como nossas posturas políticas diante do presente em que vivemos.









©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal