Robbin era um homem fascinante. Mas em sua vida não havia lugar para o amor



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Renúncia de um Amor


"Trusting"
Virginia Nielsen

Super Julia 36






Robbin era um homem fascinante.

Mas em sua vida não havia lugar para o amor.

"Preciso de você ao meu lado, Anna!", disse Robbin, deslizando os lábios por sua pele macia, num apelo sensual.

Ela hesitou, confusa. Desejava com loucura aquele homem ardente, que em breve seria um senador dos Estados Unidos. Mas não podia fraquejar agora!

Lágrimas de dor subiram-lhe aos olhos, trazendo-lhe lembranças amargas. Num soluço, murmurou: "Não posso ficar, Robbin. Isso seria o seu fim!"




Disponibilização: Andréa

Digitalização: Ana Cris

Revisão e formatação: Grasi

Título original: "Trusting"
Copyright: © by Virgínia Nielsen
Publicado originalmente em 1984 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá
Tradução: Bolívar Barbosa Moura Rocha
Copyright para a língua portuguesa: 1986
Editora Nova Cultural Ltda. — São Paulo — Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Gráfica Ltda. e impressa na Companhia Lithographica Ypiranga

CAPÍTULO I

Anna Kay chegou atrasada. Respirava de maneira ofegante, pois tinha subido correndo os degraus que a levavam da garagem até sua pequena sala no conjunto ocupado pela empresa Barnard Associates, em um arranha-céu da cidade de San Francisco.

Sua secretária, que atendia também a outros executivos da empresa, desviou por um momento a atenção da máquina de escrever, informando-a:

— Esperam por você na sala de conferências, Anna... Meus parabéns — acrescentou, com um sorriso amável.

— Obrigada, Sybil.

A expressão de Anna era franca, e seus lábios ficavam levemente curvados quando sorria, dando-lhe um ar de juventude. Talvez fosse por isso que Sybil, uma ruiva alta, dez anos mais velha do que ela, tendesse a assumir modos maternais em sua presença.

Anna largou a bolsa em uma das gavetas de sua mesa, passou rapidamente um pente pelos longos cabelos castanho-claros e atravessou como um relâmpago o hall do escritório.

Pensava em seu grande feito. Talvez agora se resolvessem a lhe dar um escritório privativo, com telefone particular, secretária exclusiva e todas as outras regalias. Era evidente que, para ela, o caso Dynacorps fora uma grande cartada dentro da empresa. Até Charles, que estava no ramo de relações públicas havia bastante tempo, concordava com isso e a convidara para comemorarem juntos na noite anterior.

Enquanto caminhava, Anna se perguntou o que Sybil diria se soubesse que a razão de seu atraso fora a saída com Charles, e não o trânsito intenso de San Francisco. Na certa, a secretária ficaria radiante, acreditando que seus esforços para aproximar os dois começavam a surtir resultado.

No saguão da saía de conferências, decorado com obras de arte, sofás luxuosos e um carpete felpudo, tudo fora arranjado de modo a impressionar os clientes da Barnard Associates, uma grande e conceituada empresa de propaganda, que preparava campanhas publicitárias de todas as espécies.

Após acenar para a recepcionista, Anna atravessou a porta revestida de couro.

Acomodados ao redor da mesa de vidro fume, os executivos da firma ocupavam sofisticadas poltronas de desenho arrojado, revestidas de couro preto.

Assim que a avistou, Phil Barnard levantou-se, animado:

— Ei-lá!


Tratava-se de um homem distinto, contando pouco mais de cinqüenta anos. Seus cabelos começavam a ficar grisalhos, o que lhe emprestava um charme especial. Às suas costas, através da janela da sala, via-se uma parte dos reluzentes edifícios de San Francisco, tendo por fundo um céu azul, sem nuvens.

Os escritórios da Barnard Associates localizavam-se num ponto alto da cidade, pairando por sobre a névoa matinal que envolvia a baía. Para Anna, isso podia ser considerado quase, um símbolo de seu sucesso.

— Bem, senhores, aqui está a moça que ontem conseguiu um contrato milionário com a Dynacorps. Parabéns, Anna Kay!

Nesse instante as palmas tomaram conta da sala e todos a cercaram para os cumprimentos de praxe. Ela sabia que muitos daqueles elogios não eram tão sinceros assim. Havia um forte espírito de competição entre os executivos, o qual era estimulado por Phil Barnard, para quem isso melhorava o desempenho da equipe, uma vez que ninguém queria ficar para trás.

Depois de esperar cessarem os abraços efusivos, Charles Junot tomou-a pelo braço, conduzindo-a até uma cadeira ao lado da sua.

— Mais uma vez, meus parabéns — disse, num tom que sugeria alguma intimidade.

Com os olhos verdes brilhando de pura alegria, ela sorriu em agradecimento. Charles sempre fora atencioso e prestativo, ajudando-a e aconselhando-a em seus piores momentos. Além disso, na noite anterior ele dera sinais de que o relacionamento amistoso que ambos mantinham no escritório podia tornar-se mais íntimo... Sinais perturbadores que Anna tentava ignorar, pois ainda não se julgava pronta para se ligar emocionalmente a alguém.

Passara quatro anos difíceis desde que tomara a dura decisão de afastar o amor de sua vida e mudar-se para o oeste dos Estados Unidos, para aquela cidade excitante, banhada pelo Pacífico.

Naquele tempo prometera a si mesma esquecer o passado sombrio e olhar apenas para a frente. Agora, o futuro lhe parecia cada vez mais promissor.

Imersa nesses pensamentos, Anna mal prestava atenção ao que Phil dizia. Só voltou totalmente a si, chocada, quando ouviu:

— A campanha publicitária da Dynacorps ficará a cargo de Charles Junot...

Sentindo o sangue subir-lhe à cabeça, ela o interrompeu: — Espera aí, Phil. O cliente é meu!

— Era seu, Anna...

— Como assim? Não estou entendendo... Endireitando-se na cadeira, ela analisou que não seria justo que Charles cuidasse daquele caso apenas porque a ajudara em algumas ocasiões.

— Phil, você não pode fazer isso comigo! Trabalhei dia e noite para atrair esse cliente...

A ameaça de perder a coordenação daquela campanha, justo no ápice do sucesso, a deixava perplexa. Dera o máximo de si para conseguir o contrato com a Dynacorps e não poupara esforços para provar que podia desempenhar bem seu papel.

Phil esperou até que ela silenciasse e então prosseguiu, a voz aparentando calma:

— Antes que me acuse de injusto, repito: você receberá uma gratificação e um bom aumento de salário, como forma de reconhecimento pelo seu excelente trabalho!

— Você me tira o cliente e depois vem falar de aumento?

— Charles tem mais experiência, e o cliente quer...

— O cliente quer a mim! — ela gritou, os olhos faiscando de indignação. — O cliente quer que eu conduza a campanha, Phil. Ele é um contato meu!

— Bem, querida...

— Não sou sua querida e o acuso de injusto, sim. Está cometendo uma grande injustiça! — afirmou, com a voz alterada, enfatizando cada palavra.

— Foi ela quem conseguiu o cliente, não foi? — interveio Jim, diretor de produção da empresa, solidarizando com Anna.

Levantando-se da cadeira, Phil Barnard percorreu os presentes com um olhar agudo, que fez com que um silêncio nervoso tomasse conta da sala. Normalmente ele dirigia seu grupo de funcionários de maneira informal, usando apenas uma sólida argumentação para implantar suas idéias. Às vezes, porém, tor­nava-se necessário lembrá-lo de que, no final das contas, o patrão era ele.

— A srta. Elliott e eu continuaremos a conversa em particular. Os demais estão dispensados.

Devagar, os executivos foram deixando a sala. A maioria estava visivelmente constrangida pelo rumo que o encontro tomara. Alguns, no entanto, não conseguiam disfarçar um certo contentamento ante a situação delicada de Anna.

Com fingido embaraço, Charles Junot hesitava em sair. Depois de alguns segundos, aproximou-se dela.

— Anna, acredite: eu não sabia de nada.

— Seu traidor! — murmurou ela, entre dentes, sentindo-se mais ultrajada do que nunca.

Enquanto Phil acompanhava o último funcionário até a porta, Anna permaneceu sentada na cadeira, com as costas eretas. Estava possessa e queria encarar Phil Barnard de igual para igual, obrigando-o a ouvir meia dúzia de verdades.

Com gestos calmos, o chefe trancou a porta e plantou-se à sua frente:

— Acalme-se, Anna. Essa história toda não passou de uma desculpa para eu falar a sós com você. Portanto, o que eu vou dizer agora deve permanecer em absoluto segredo.

Intrigada, ela o fitou nos olhos. Uma pontinha de esperança transpareceu em sua voz ao perguntar:

— Não planeja me tirar do caso Dynacorps, certo?

— Errado! Charles pode muito bem levar a campanha adiante, seguindo as linhas que você traçou.

— Phil, trabalhei durante meses para conseguir esse cliente. Até os desenhos foram feitos seguindo minhas idéias.

— Em compensação, tenho outro projeto capaz de lhe dar projeção nacional. Mas isso precisa ser mantido em sigilo, até que chegue a hora de tornar a coisa pública.

A voz era suave, o tom, conspiratório... Charles costumava dizer que Phil conseguia convencer qualquer um com aquela conversa macia.

"Não vai funcionar comigo", garantiu Anna a si mesma, observando o chefe dirigir-se à majestosa escrivaninha que havia no fundo da sala,

Com gestos firmes ele tirou do bolso uma chave e, abrindo uma das gavetas, apanhou uma grande pasta de couro.

— Venha, Anna... Dê uma olhada nisto.

Apesar de furiosa, ela se dirigiu à mesa do chefe e pôs-se a examinar a pasta, retirando com raiva seu conteúdo. Uma pilha de fotos em preto e branco espalhou-se pela superfície lisa da mesa, até perto do vaso onde descansavam as rosas brancas que Eloise Barnard mandava para o marido todas as manhãs.

Ao examinar as fotos, Anna perdeu a respiração.

Em todas estava o mesmo homem, retratado sob ângulos diferentes.

Jovem, de aspecto refinado e ao mesmo tempo másculo, ele tinha os lábios sensuais, testa alta, sobrancelhas retas e negras. Seu olhar perspicaz transmitia franqueza, seriedade e sobretudo determinação — uma determinação implacável, que Anna conhecia muito bem.

Tratava-se de Robbin North, o homem que ela não via havia quatro anos!

A visão daquele rosto familiar foi um choque para Anna, que se apoiou na quina da mesa, com a cabeça perdida sobre as fotos como se estivesse a observá-las. Na verdade, mantinha os olhos fechados, procurando recuperar o autocontrole.

— Sabe quem é ele? — indagou Phil Barnard, estendendo-lhe um segundo envelope.

— Sim.


— E quem não sabe, não é mesmo? Um dos assessores do presidente. Dizem que é o jovem mais brilhante da equipe da Casa Branca. E agora conta com o apoio financeiro e com a bênção do governo para vir à Califórnia e se candidatar ao Senado.

— Contra o senador Thorpe?! Duvido que nosso velho repre­sentante pretenda se aposentar...

— De qualquer modo, Robbin North alega que aqui é o Estado natal dele — explicou Phil, zombeteiro. — Deve ter se mandado da Califórnia antes de entrar no jardim de infância e parece que se formou numa universidade do centro-oeste. Na certa, escolheu a Califórnia porque a saída do senador Thorpe vai abrir um grande vácuo.

— Hum, foi uma jogada esperta!

— Sem dúvida! Bem, Anna, ele quer que a gente cuide da publicidade da campanha, e é aí que você entra.

Paralisada, Anna sentiu que o chão lhe fugia dos pés enquanto Phil continuava:

— Se Robbin ganhar a eleição, Anna Katherine Elliott e a Barnard Associates conquistarão uma posição de destaque nacional. Entende a importância desse projeto?

Assentindo com um gesto de cabeça, ela respirou fundo, procurando um meio de não quebrar sua promessa de nunca rever Robbin North.

— Phil, acho que campanha política não é o meu forte... Interrompeu-se ao observar a expressão dura que tomava conta do rosto do chefe. Sabia que não era aconselhável aos executivos de Phil Barnard rejeitarem alguma tarefa. Mesmo assim insistiu, num tom conciliador:

— Por favor, encarregue Charles disso e me deixe ficar com o caso Dynacorps.

Notando o ar incrédulo com que ele a fitava, Anna pergun­tou-se se a lividez de seu rosto podia denunciar o turbilhão de emoções conflitantes que se formara em seu íntimo.

— Esses geniozinhos às vezes passam da conta! — explodiu Phil, de repente. — Vocês são todos excêntricos... Procuro ser compreensivo, mas minha paciência tem limites!

Engolindo em seco, Anna sentiu que não conseguiria articular as palavras. Lutara muito para chegar onde estava e sabia que não devia brincar com seu trabalho. A cada ano saíam cen­tenas de jovens das universidades, muitos tão competentes e criativos quanto ela própria... Valeria a pena abdicar daquele emprego só para evitar um reencontro com Robbin?

Atribuindo a palidez de sua funcionária ao choque de ter visto seus planos frustrados, Phil resignou-se,

— Escute, querida, você está nervosa. Não diga mais nada. Apenas leve este material para casa e dê uma boa examinada nele — aconselhou-a, recolocando as fotos no envelope.

Depois, mostrando-lhe o segundo volume, acrescentou:

— Aqui estão alguns recortes de jornais. Examine o material e crie uma boa imagem. Queremos algo que venda aos eleitores a figura de Robbin North, E repito: mantenha tudo no maior segredo. Não quero que nada transpire no escritório, pois se alguém deixar escapar algo, a imprensa logo vai estar em cima, entendeu?

Concordando, Anna disfarçou o mal-estar e, pegando os envelopes, retirou-se, com as faces pálidas e a expressão distante.

Em passos ligeiros, atravessou o saguão, passando diante das salas dos colegas, que lançaram olhares curiosos em sua direção.

Quando a avistou, Sybil desviou a atenção da máquina de escrever, preocupada.

— Não se sente bem, Anna?

— Aquele miserável! — ela exclamou, passando pela secretária e indo direto para sua sala.

Perplexa, Sybil girou a cadeira a fim de olhar pela fresta da porta. Desde que a conhecia, Anna jamais usara uma palavra indelicada. Observou a jovem executiva, que guardava alguns papéis em sua pasta.

— Phil passou o caso Dynacorps para Charles Junot — Anna declarou, ao surpreender o olhar curioso da secretária.

— Ah, não! Que atitude mais desleal... Não acredito que Charles tenha sido capaz de fazer uma coisa dessas.

Imaginando que a outra estivesse arrependida dos esforços que fizera para uni-la ao experiente relações-públicas, Anna abriu a gaveta da mesa, pegou a bolsa e caminhou em direção a Sybil.

— Não volto mais hoje. Aliás, não sei se ainda coloco os pés aqui!

— Oh, querida! Não se deixe levar por uma raiva momentânea. A nota de preocupação que havia na voz de Sybil parecia tão sincera que Anna parou e voltou-se para ela, sorrindo da maneira simpática que lhe era tão peculiar.

— Não se preocupe, Sybil. Não pretendo abrir mão de um excelente emprego só porque estou nervosa. Mas preciso arejar um pouco a cabeça. Por isso, se alguém perguntar aonde fui, diga que não sabe.

Observando-a deixar a recepção, Sybil pôs-se a recordar a conversa que tivera com seu ex-marido há alguns dias, quando comentara algo a respeito do lindo sorriso da chefe.

— Aquele sorriso transforma o rosto de Anna. Como costuma dizer o sr. Barnard, muda-lhe a imagem. Ela é uma das melhores executivas da empresa. E, apesar dos seus vinte e seis anos, parece uma adolescente quando olha a gente com aquele sorriso lindo. Às vezes tenho a impressão de estar diante da Pattie.

Carl, seu ex-marido, duvidava que a executiva preferida de Sybil pudesse lembrar Pattie, a filha de quinze anos do casal.

— Talvez eu devesse conhecer essa garota — brincara, com um sorrisinho malicioso.

— Ah, você não ia conseguir nada com ela.

— Hum, por quê?

— Anna não é dessas que topam qualquer coisa. Ouvindo o ruído da porta do elevador abrindo-se, Sybil afastou essas recordações e voltou ao trabalho.

Anna deixou o prédio e driblou os pedestres que lotavam a calçada, ignorando os olhares curiosos que partiam em sua direção. Lutava contra as antigas emoções e também contra os velhos temores e frustrações que a acompanhavam.

Confusa, tirou o carro da garagem e começou a dirigir sem destino pelas ruas da cidade.

Ao deparar com uma construção de estilo exótico e uma vitrine repleta de artigos chineses deu-se conta de que se encontrava em Chinatown, o bairro oriental, onde as estreitas passagens estavam repletas de turistas e vendedores ambulantes.

Alguns instantes depois surpreendeu-se nas proximidades do cais do porto, sem saber direito como fora parar ali.

"Eu não devia estar dirigindo nessas condições. Acho melhor ir para casa", refletiu, tomando o caminho para seu apartamento, no Sunset District.

Parou por um momento na Avenida Great Highway, cujo lado direito fazia margem com a areia branca da praia, e pôs-sé a admirar as ondas verdes que chegavam do Oceano Pacífico e quebravam com violência nas pedras.

Havia uma imagem de Robbin gravada para sempre em sua mente, uma imagem que sempre se poria entre ela e o candidato.

Sem dúvida, Anna nunca conseguiria esquecer a expressão do rosto de Robbin inclinado sobre o dela, a boca contraída pelo desejo, rogando-lhe que dissesse sim à sua proposta de amor.

Logo, as ondas verdes do Pacífico a transportaram para um cenário semelhante, na costa do Golfo do México, onde há quatro anos acontecera o incidente que mudaria para sempre sua vida.

Deitados na areia morna de uma praia afastada, ela e Robbin tomavam sol, os corpos molhados de água do mar próximos um do outro, mas sem se tocarem.

Os exames finais da universidade tinham acabado havia uma semana e faltavam poucos dias para a festa de formatura de Anna, em Propaganda, e de Robbin, que concluíra o curso de Ciências Políticas.

Ambos discutiam, remoendo o único assunto capaz de abalar a felicidade que experimentavam juntos.

Deitado de costas, com as mãos sob a cabeça, o corpo bronzeado reluzindo ao sol e os cabelos úmidos da água do mar, Robbin dissera:

— Foi um trauma de infância que ficou em você, Anna. Se procurar um analista, perceberá que está sacrificando um relacionamento maravilhoso por causa de um trauma infantil. Por favor... não nos obrigue a esse sacrifício.

Olhando para o céu, Anna admirou as escassas nuvens brancas que se moviam em direção ao Golfo. Sentia o coração apertado e tinha medo de refletir sobre o verdadeiro significado das palavras do namorado.

— Que lhe custa mudar um pouco? Não precisa ser tão ambicioso, Robbin.

— Não fuja do assunto, Katie. Isso não é de seu feitio. Apoiando-se sobre um dos cotovelos, Robbin erguera-se e a fitara nos olhos.

— Apenas me ame, querida. Se me amar bastante, o resto se resolverá sozinho — suplicara, com a voz macia provocando-lhe arrepios.

— Não posso, Robbin. Você chama isso de trauma de infância, mas sei que estou sendo racional, enquanto você não quer enxergar as coisas. Eu me conheço e sei que nunca suportaria o que mamãe passou com meu pai por causa da política. Aquelas discussões acabariam comigo, e eu o prejudicaria, transformando sua vida num inferno.

De repente, ele agarrara suas mãos e deitara-se sobre ela, afastando-lhe as pernas com as coxas musculosas.

Em seguida, inclinara-se e começara a depositar beijos lentos e sedutores em seu pescoço, colo e seios.

— Robbin, Robbin, por favor... — murmurara Anna, deixando escapar um gemido abafado.

Em resposta, ele continuava a beijá-la, até quase alcançar-lhe os lábios. Então, levantara a cabeça sussurrando:

— Confesse que gosta dos meus beijos, Katie.

— Robbin, não seja cruel...

— Você também me deseja, Katie — continuara, com a voz rouca de desejo.

Com o coração acelerado, Anna se debatera, tentando em vão libertar-se. No entanto, o desejo já havia tomado conta de seu corpo, e o calor das coxas de Robbin queimara a sua pele, fazendo-a ansiar pelo contato sedutor daquele homem fascinante.

Com uma exclamação ininteligível, Robbin a beijara de modo apaixonado.

Incapaz de resistir, ela sentira a excitação crescer dentro de si e o abraçara com força, roçando os seios arredondados no peito másculo, recoberto de pelinhos negros.

— Você me ama, Katie... Diga que me ama...

— Sim, eu o amo muito, Robbin!

— E vai se casar comigo?

— Não!

Sem retrucar, ele tornara a beijá-la, dominando seus lábios com uma doçura que lhe despertara arrepios pelo corpo inteiro. Em seguida, deslizara os dedos por sob a parte superior de seu biquíni e, afastando-se um pouco, examinara a expressão apaixonada de seu lindo rosto.



— Diga então que não vamos nos casar, Katie. Deitada sob Robbin, Anna sabia que pertencia àquele homem e que nunca na vida encontraria amor tão intenso e arrebatador. Apesar disso, com os olhos rasos d'água, afirmara:

— Nós nunca nos casaremos... Oh, Robbin, por que nos faz passar por isso de novo? Você sabe o quanto eu o amo. Mas sabe também que, se nos casarmos, iremos sofrer muito.

Anna permanecera imóvel, soluçando, enquanto Robbin deitara-se de novo na areia, a seu lado.

Desesperado, ele cobrira o rosto com as mãos, e Anna dera-se conta de que a pequena gota que escorria pela face dele era uma lágrima...

Com as lágrimas presas na garganta, Anna esmurrou o volante de seu carro, desviando o olhar das ondas verdes da praia de San Francisco. Nunca imaginara que a dor daquela separação pudesse estar tão viva, depois de todo esse tempo. Não podia aceitar Robbin North como cliente. Mas que desculpa usaria caso Phil insistisse?


CAPÍTULO II

Quando chegou a seu apartamento duplex, Anna ouviu o telefone tocar, mas decidiu não atender. Entrando no quarto, vestiu uma calça jeans com uma camiseta leve e prendeu os cabelos com a presilha mexicana que ganhara de presente da mãe. Em seguida, foi para a cozinha, a fim de preparar um café.

A conversa com Phil Barnard lhe despertara uma série de lembranças dolorosas, e a melhor maneira de espantá-las seria ocupando-se com algum trabalho manual, como, aliás, já lhe provara suas experiências anteriores.

Com azulejos cor de bronze, armários de madeira e samambaias presas por cordas trabalhadas artesanalmente pendendo sobre a mesa, a cozinha tinha um aspecto bastante aconchegante e original.

Anna sentia prazer em decorar aquele amplo apartamento construído antes da guerra, deixando nele sua marca pessoal através de objetos pouco convencionais comprados em lojas de antiguidades ou em casas especializadas em artigos importados.

Charles Junot lhe perguntava sempre por que ela preferia viver tão afastada do centro da cidade, uma vez que seu salário lhe permitiria morar num local mais privilegiado.

— Gosto do mar — respondia Anna, dando um dos seus sorrisos luminosos.

— E a ferrugem? A maresia acaba com o carro, sabia?

— Não pretendo ficar com esse carro por muito tempo. Charles ria de suas justificativas, admirando-se da grande confiança que Anna tinha em si mesma.

De repente, o telefone recomeçou a tocar, e ela deduziu que fosse Charles ou o próprio chefe, preocupado com o seu desaparecimento.

Irritada, decidiu que não atenderia ninguém e jogou o aparelho sobre um canto do sofá, cobrindo-o com várias almofadas para abafar o ruído.

Nesse instante, seus olhos pousaram sobre os dois envelopes que estavam na mesinha de café, e ela se deu conta de que era tarde demais para conter o passado. As lembranças haviam se libertado, e tudo voltava à sua cabeça como um furacão.

Desanimada, deixou-se cair no sofá, segurando as pernas entre os braços, com os cabelos longos caídos sobre o jeans justo.

Completara doze anos quando seu pai concorrera pela primeira vez ao governo do Estado e não compreendera direito o que significava enfrentar toda uma máquina partidária bem estruturada e um comitê eleitoral poderoso e corrupto.

No início da campanha, seus pais a haviam deixado com sua tia Nelda, enquanto percorriam o Estado de cima a baixo. Depois das ameaças de seqüestro, porém, decidiram tirá-la da escola, e Anna passara a acompanhá-los por estradas de terra, dormindo em camas estranhas e comendo em restaurantes baratos. Para piorar, sempre havia um mundo de gente que, às vezes, passava a mão em sua cabeça ou lhe acariciava o rosto, embora mais freqüentemente se amontoasse entre ela e o pai, na ânsia de apertar a mão do candidato.

Apesar de no começo ter achado tudo muito divertido, Anna agora ressentia-se ao lembrar o quanto fora obrigada a correr para acompanhar o ritmo frenético de seu pai e daqueles homens importantes que sempre tinham algo urgente a resolver. Enquanto isso, sua mãe ficava esquecida para trás, chamando-os com a voz exausta, cada vez mais ignorada...

Então houvera a noite trágica em que voltavam de um comício na capital do Estado. Iam em dois carros: Anna, sua mãe, um segurança e o motorista, no primeiro; seu pai, acompanhado de alguns assessores, seguia logo atrás.

De repente, a limusine preta surgira na contramão, ofuscando-os com a luz alta. Sua mãe gritara e a protegera com os braços, ao mesmo tempo em que o motorista tirava o carro da pista e, passando vertiginosamente sobre uma vala que havia entre uma série de pinheiros, batia em uma árvore, espatifando a lateral do carro.

Anna e a mãe passaram o restante da campanha num quarto de hospital, com um segurança à porta. Seu pai, abalado pelo acidente, perdera a votação para o partido situacionista.

Nem por isso ele deixara de voltar quatro anos depois como candidato da oposição. Na época, Anna contava dezesseis anos e recriminara a mãe por não ter se oposto àquela candidatura.

Rhonda era uma pessoa reservada e pacata por natureza. Além disso, as ameaças de seqüestro e o acidente na estrada haviam acabado com seus nervos. Apenas seu amor pelo marido a fizera segui-lo na campanha, acompanhando-o de comício em comício. E, às vezes, apesar de uma evidente relutância, subia ao lado dele nos palanques para dizer algumas palavras às companheiras do partido.

Mais uma vez Anna vira-se tirada do colégio e conduzida para cima e para baixo, durante os três últimos meses de campanha. Em plena adolescência, porém, ela não achara a situação nada divertida. Pelo contrário, magoara-se por ter sido abastada dos amigos e das atividades normais de alguém de sua idade.

No entanto, dessa vez seu pai obtivera uma vitória estrondosa, e ela descobriu que, apesar dos problemas, havia muitas vantagens em ser a filha do governador.

Dois anos e meio depois seu pai seria assassinado por um funcionário do governo, que fora afastado de seu cargo quando as nomeações políticas da administração anterior tinham sido desfeitas.

Contando apenas dezoito anos, Anna sofrerá um choque imenso, que traria conseqüências dolorosas para sua vida.

Ainda agora lembrava-se das intermináveis sessões de perguntas dos investigadores e dos repórteres, que a perseguiam por onde quer que ela fosse, das aulas de música ao colégio. Rhonda, sua mãe, estava imersa em seu próprio drama, além de ser obrigada a enfrentar ao mesmo tempo sua condição de viúva e a publicidade gerada pelo julgamento do assassino.

Anos mais tarde, quando Rhonda se casara com Steve Elliott, Anna Kay pedira ao padrasto que a deixasse adotar seu sobrenome. Mas isso fora depois de ela haver conhecido Robbin North.

A última coisa que Anna queria era apaixonar-se por alguém que estivesse decidido a seguir a carreira política. No entanto, não podia prever que Robbin fosse surgir em sua vida...

Com um suspiro resignado, Anna pegou os pacotes de fotos e abriu-os, concentrando-se para examiná-las de maneira crítica, na esperança de assim acalmar o impacto causado pela imagem familiar. Entretanto, aquele não era o seu Robbin. O homem que estava ali retratado guardava apenas uma leve semelhança com o ambicioso jovem recém-formado por quem ela se apaixonara. O Robbin das fotos parecia um homem amadurecido, seguro de si, com um ar distinto e uma certa aura de poder.

Em uma das fotos, porém, ele exibia uma expressão de cumplicidade divertida. Esse era o Robbin que ela conhecia: ale­gre, romântico, irreverente e brincalhão, comparando-a às essências raras contidas nos pequenos frascos de perfumes.

Como fora maravilhosa aquela época! Os dois passavam o tempo inteiro juntos, sem se darem conta de que já estavam apaixonados um pelo outro. Ou melhor, sem que ela perce­besse isso, pois, mais tarde, Robbin diria que sabia desde o primeiro instante que ambos seriam marido e mulher.

Esforçando-se por afastar o sofrimento provocado por essas doces recordações, Anna resolveu examinar os recortes de jor­nais que Phil lhe entregara. Dentro do envelope reuniam-se desde notícias de colunas sociais até comentários políticos a respeito da equipe da Casa Branca e do desempenho de Robbin. Entretanto, o que mais despertou sua atenção foi uma entre­vista chamada "Os dez solteiros mais cobiçados de Washing­ton", que dizia:

"Robbin North não é um milionário, mas parece destinado a ocupar um papel de importância cada vez maior na vida polí­tica do país. Um vencedor e um homem charmoso."

Havia também uma fotografia de jornal em que ele aparecia em traje de noite, sorrindo ao lado da "estonteante filha do embaixador da Venezuela". Ali, Robbin era a própria imagem do homem-sucesso, de alguém que conhecia bem os meandros do poder. Vestia-se como um diplomata, possuía o charme de um ator de cinema e tinha astúcia suficiente para enfrentar o perigoso jogo da política.

Examinando o contorno firme daqueles lábios sedutores, ela sentiu o coração disparar. Ao que tudo indicava, Robbin continuava solteiro, o que constituía um motivo a mais para recusar o projeto de Phil Barnard. Afinal, mesmo que Robbin ainda a desejasse, o tempo já lhe mostrara que não existia futuro para eles. E, se o jovem candidato estivesse comprometido com outra mulher, não conseguiria conter suas emoções e perderia o autocontrole antes mesmo de iniciar seu trabalho.

Jogando os recortes de jornal para um lado, ela se recostou no sofá e fechou os olhos. Não sabia que atitude tomar e tinha a impressão de que a promissora carreira que construíra à custa de muito esforço caía em pedaços. Por um lado, não podia se dar ao luxo de abdicar de sua posição na Barnard Associates. Ao mesmo tempo, Phil lhe dera um ultimato e seu emprego estava em jogo, a menos...

A menos que ela revelasse a Phil Barnard a verdadeira iden­tidade de Anna Katherine Elliott!

Na manhã seguinte, após uma noite mal dormida, Anna chegou cedo ao escritório. Sybil ainda não se encontrava presente, e Anna rezou para que ela não aparecesse antes de Phil.

Nervosa, sentou-se à mesa da secretária, de onde podia avis­tar todo o hall de entrada, e lá ficou até ver o chefe atravessá-lo. Então pegou o interfone e ligou para a sala dele.

— Phil, eu gostaria de conversar com você em particular.

— Tudo bem. Venha até o meu escritório.

Pouco depois ela entrava na sala do chefe, torcendo as mãos, num gesto nervoso.

— Tenho uma coisa importante para lhe dizer, Phil.

— Já sei! Examinou o material e está louca para tomar conta da publicidade do homem.

— Pelo contrário... A resposta é que não posso fazê-lo e vim lhe explicar o porquê.

Em vez de perder o bom humor, Phil fitou-a com um misto de incredulidade e zombaria.

— Não acredito! Existem uns dez mil formandos procurando emprego por aí e você vem me dizer um não desses?

— Phil, escute-me, por favor. Tenho um bom motivo para afirmar que não sou a pessoa indicada para este projeto. Você se lembra de Carson Hadley?

— Claro! Ele foi governador de um Estado do Sul e foi assassinado no primeiro mandato.

— Pois bem, Carson Hadley era meu pai. E meu nome ver­dadeiro é Anna Katherine Hadley.

O curto silêncio que se seguiu foi quebrado por Phil segun­dos depois.

— Minha querida, você acha que eu já não sabia disso?

— Sabia? Desde quando?

— Desde que a contratamos, ora essa!

Indignada, Anna entreabriu os lábios, mas não conseguiu articular uma palavra sequer.

— Como é que eu poderia deixar de saber? — continuou o chefe. — Todas as grandes revistas e jornais mostraram as fotos da bela esposa de Hadley e de sua filha... Sua mãe se casou de novo, não foi?

Chocada, ela se limitou a assentir com um gesto de cabeça e a sentar-se em uma cadeira.

— Onde sua mãe está morando agora?

— Ela e meu padrasto vivem no México, nas proximidades do Lago Chapala.

— Na colônia americana perto de Guadalajara?

— Exato.

— E você adotou o sobrenome do seu padrasto... Bem, creio que pretendia me contar o verdadeiro motivo pelo qual não pode cuidar do caso do Robbin North. Tem alguma coisa a ver com ele?

— Não!

Instintivamente, Anna queria proteger seu ponto mais vul­nerável. Não suportava imaginar Phil indagando sobre seu ro­mance de colegial com Robbin.



— O problema é a política — prosseguiu ela. — Estou cheia da política. Nas duas campanhas do meu pai fui arrastada para lá e para cá, de comício em comício. Não agüentava mais. De­pois, com a morte dele, a imprensa me perseguiu dia e noite. Foi um inferno. Prometi a mim mesma nunca me envolver com política ou com políticos pelo resto da vida, entende?

— Mais ou menos. Mas tente encarar a coisa pelo meu ponto de vista. Sua experiência na política é exatamente a razão pela qual estou lhe dando este caso.

— Phil, não tenho nenhuma experiência na política! Você acha que só por que andei para cima e para baixo junto deles...

— ... Escutando as conversas de bastidores, na mesa do café, ao telefone, nos hotéis? Claro, Anna! Noto muito bem os comentários que você faz de vez em quando sobre a política local. Você possui a malícia do seu pai e teve a oportunidade de vê-lo em ação. Provou isso no caso Dynacorps. Considero-a melhor preparada do que qualquer outro aqui dentro para tomar conta do caso. Entendo o que sente por ter perdido o caso Dynacorps e admiro sua coragem de me enfrentar por causa disso. No entanto, não sei como pode não enxergar o que estou lhe oferecendo em troca. Cabe a mim decidir o que é melhor para a empresa, e minha opinião é que você deve tomar conta dessa campanha publicitária para o seu próprio bem, para o bem da firma e do cliente também. Tem muito dinheiro bessa história... Muito dinheiro para todos nós. Qualquer outro teria vibrado com uma oportunidade dessas, Anna. Se você acha que não pode trabalhar nisso com afinco e fazer o melhor, então aconselho-a a procurar outro emprego.

— Você venceu, Phil — sussurrou ela, engolindo em seco.

— North chega sábado a San Francisco. Minha esposa vai dar uma grande festa à noite, e ele estará presente, anônimo. Também irão alguns dos empresários que financiarão a campa­nha. A presença de todos deve ser mantida em segredo, inclu­sive a sua, querida. No meio da festa, você, eu, North e esses empresários vamos dar uma escapada ao meu salão de jogos e conversar sobre a campanha.

Dito isso, Phil levantou-se e caminhou em direção à porta, abrindo-a.

— Você está incumbida de apresentar seus planos para a campanha publicitária. Não se esqueça de que os homens do dinheiro são conservadores.

Embora tivesse vontade de jogar tudo, inclusive sua carreira, pela janela, Anna concordou e saiu. Para seu espanto, porém, quando chegou ao corredor, notou que seu coração vibrava de expectativa... Expectativa de reencontrar Robbin, o único ho­mem por quem se apaixonara de fato.




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