Rodando o mundo afora: as relaçÕes de trabalho, experiências e vivências dos motoristas caminhoneiros karine Marins Amaral



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RODANDO O MUNDO AFORA: AS RELAÇÕES DE TRABALHO, EXPERIÊNCIAS E VIVÊNCIAS DOS MOTORISTAS CAMINHONEIROS
Karine Marins Amaral

Graduada em História pela Universidade Federal de Uberlândia

karinehist@yahoo.com.br

Introdução
Neste texto pretendemos discutir e analisar as experiências vividas por um de um grupo de motoristas caminhoneiros que, no contexto atual, estabelecem vínculos empregatícios com determinadas transportadoras que prestam serviços terceirizados para a indústria de alimentos Sadia S/A. Essa realidade de trabalho é mediada por relações sociais complexas, permeadas por disputas e conflitos, que se processam, inclusive, no contexto da produção de memórias, a qual se institui a partir da organização e sistematização de fontes documentais diversificadas.

Para o vasto público que não se encontra envolvido com os procedimentos históricos, os saberes dessa área do conhecimento são caracterizados por uma perspectiva orientada pelo desprazer e pelo desinteresse em relação ao ofício do historiador. Nesse sentido, torna-se comum ouvir questionamentos acerca da legitimidade dos saberes históricos, bem como de sua utilidade para a vida cotidiana. Fora dos espaços relacionados ao desenvolvimento da pesquisa e da produção intelectual, que ocorre, sobretudo, nos centros universitários, os conhecimentos históricos e sua metodologia, são percebidos com certa desconfiança quanto à sua viabilidade para a compreensão das práticas que são processadas no social.

Entretanto, diante das transformações contemporâneas observadas na realidade em que se desenvolvem as relações sociais de trabalho, a utilização dos procedimentos históricos vêm se convertendo em um importante instrumento, apreciado e cada vez mais utilizado pelos empreendimentos capitalistas de grande porte. A preservação, sistematização e interpretação dos documentos históricos empresariais se configuram, na atualidade, em uma estratégia de poder, que busca instituir, perante a sociedade e o público consumidor, uma determinada imagem sobre as empresas. Uma representação que seus dirigentes pretendem contar e divulgar socialmente, estabelecendo, dessa forma, uma memória histórica que apresenta um amplo potencial de fortalecimento das marcas comercializadas e aprimoramento das relações estabelecidas entre as empresas e a sociedade como um todo. Nesse contexto, a valorização de um discurso homogêneo e totalizante oculta as múltiplas experiências vivenciadas socialmente, bem como encobre as manifestações dos diferentes sujeitos sociais que se encontram envolvidos na atividade produtiva empresarial, fazendo, portanto, prevalecer uma determinada versão e interpretação sobre o processo histórico.

Diante dessa conjuntura, as narrativas orais têm fornecido importantes contribuições quanto à compreensão da complexidade das relações sociais, pois a abordagem e interpretação das memórias de diferentes sujeitos apontam para a desconstrução de procedimentos que foram cristalizados ao longo do processo histórico e implica, ainda, na percepção do contexto social por meio das tensões e das contradições que se processam em seu interior.


A empresa Sadia no contexto das relações de trabalho e da produção de memória
Adotando os procedimentos utilizados pela historiografia tradicional, a qual preza pela consagração de periodizações que não fazem menção às contradições existentes na sociedade, diversas empresas, dos mais variados segmentos comerciais, procuram reunir diferentes fontes documentais, para produzir uma determinada versão sobre o desenvolvimento das atividades empregadas na comercialização de seus produtos, a fim de evidenciar uma imagem positiva acerca da expansão de seus negócios. A partir dessa perspectiva, empresas como a indústria de alimentos Sadia S/A, através do slogan “Nossa História”, procuram demonstrar o processo pelo qual a empresa, através do trabalho, partiu de um pequeno empreendimento há décadas atrás, para se tornar uma grande empresa capitalista na atualidade, conforme se pode analisar a partir do site oficial da empresa. A propósito de estabelecer um ponto de origem em que se sustenta o desenvolvimento dos acontecimentos, a organização documental empreendida demonstra que a Sadia foi criada no Brasil na década de 1940, especificamente no ano de 1944, por Attílio Fontana, seu fundador. Segundo a cronologia dos fatos apresentados, Fontana iniciou as atividades da indústria alimentícia na cidade de Concórdia – SC. Conforme a industrialização se ampliava no país, a empresa, graças ao trabalho e habilidade de seu proprietário, foi se modernizando e progredindo ao longo das décadas até se tornar hoje, a maior indústria de alimentos da América Latina. No discurso oficial da companhia de alimentos, torna-se compreensível que, seguindo uma “linha do tempo”, o fundador da empresa conseguiu empreender uma marcha evolutiva, na qual o empreendimento saiu de uma situação em que a empresa se limitava à região de Santa Catarina para ampliar seus negócios, estabelecendo assim, uma conexão com as demais regiões brasileiras e também com a Europa, Estados Unidos e Oriente Médio, atingindo a dimensão de uma empresa que emprega, na atualidade, cerca de cinqüenta e cinco mil funcionários1.

A imagem divulgada pretende legitimar o patrimônio empresarial constituído, demonstrando que toda a riqueza, acumulada ao longo do tempo, está relacionada ao esforço, trabalho e desempenho do proprietário e fundador da empresa. Nessa abordagem, o senhor Fontana ganha papel de destaque, sendo apontado e apresentado como o único responsável pelo progresso e desenvolvimento comercial da empresa. Nesse sentido, a fim de perpetuar essa imagem, foi inaugurado em 2000, o Memorial Attílio Fontana, que possui um acervo museológico que se destina a contar a história de vida do fundador, a qual está intimamente ligada ao desenvolvimento da empresa Sadia. O memorial apresenta como sede uma antiga residência dos Fontana, cuja área compreende um espaço de 11000m2. Uma imponente construção que demonstra todo o poderio financeiro da família e também da empresa. A casa encontra-se dividida em ambientes distintos, dos quais uma sala destina-se aos ícones representativos da vida e da trajetória de Atíllio Fontana. Um segundo ambiente conta com um acervo museológico sobre a Sadia, apresentando máquinas antigas usadas nas primeiras produções da década de 1940.

Esses espaços museológicos que se destinam à preservação de uma determinada memória estão associados aos princípios de homenagem e veneração que não podem ser desvinculados da dominação que se envereda pelo contexto social e se perpetua através da construção de memórias. Sobre esse aspecto, Lara (1991) demonstra que:

“São justamente estes sentidos de evocação e celebração, de ostentação do poder e da glória, que fazem destas instituições um ‘memorial’. Trata-se de uma instituição destinada a reverenciar uma determinada memória, uma determinada história: aquela que estes museus pretendem contar, mostrar e confirmar. E é exatamente esta perspectiva de memorial que permanece viva na maior parte das concepções e práticas museológicas atuais.” (LARA, 1991, p.99-111).


A memória se configura como um campo profícuo de disputas, pois a afirmação de determinadas versões históricas contribui para a criação e confirmação de fatos que são considerados inquestionáveis, na mesma proporção que serve para apagar outras possibilidades de histórias e memórias de sujeitos menos expressivos na realidade do trabalho, que vivem da atividade laborativa que exercem. No mundo do trabalho, a instituição de memórias acentua as desigualdades entre empregadores e empregados, correspondendo a uma significativa forma de “exploração”.

Comumente, a historiografia tradicional associa as análises das relações sociais de trabalho às contradições que se processam, exclusivamente, no interior de fábricas que passam a ser objeto de estudo, principalmente, a partir do contexto da Revolução Industrial. Entretanto, as reflexões realizadas por Thompson (1987) são fundamentais para romper com essa habitual visão sobre as relações de trabalho e suas contradições. As análises do historiador apontam para outros contextos de opressão, distintos daqueles habitualmente imaginados.

“A relação de exploração é mais que a soma de injustiças e antagonismos mútuos. É uma relação que pode ser encontrada em diferentes contextos históricos sob formas distintas, que estão relacionadas a formas correspondentes de propriedade e de poder estatal”. (THOMPSON, 1987.p.28)
A produção de memória, no contexto contemporâneo das relações sociais de trabalho, está associada aos interesses e à manutenção de privilégios de determinados grupos sociais em detrimento de outros, mantendo, dessa forma, uma relação opressora.

No caso da Sadia, as práticas de preservação histórica da empresa servem para demonstrar uma história que suprime a memória e as experiências dos trabalhadores de seu contexto. O discurso museológico elaborado e apresentado no memorial se destina a reverenciar o empenho de um homem “genial”, o fundador da empresa, que através do “seu” trabalho e do “seu” esforço, conseguiu obter êxito e admiração daqueles que lêem sua história. Aos trabalhadores não é direcionado nenhum mérito quanto à condição de prosperidade alcançada pela empresa, bem como não mencionadas as condições de trabalho que os mesmos são submetidos para garantir a expansão dos negócios empresariais. Esses discursos totalizantes sugerem questionamentos, os quais Bertold Brecht já levantava sensíveis considerações em seu poema “Perguntas de um operário diante de um livro de história”:

“Tebas das Sete Portas,

Quem a construiu?

Nos livros, figuram os nomes dos reis,

Foram os reis que arrastaram os grandes blocos de pedras?

Babilônia, destruída tantas vezes,

Quem tornou a reconstruí-la?

Em que casas da dourada Lima

Viviam os operários que a construíram?

À noite em que terminou a construção da Muralha da China,

Aonde foram os trabalhadores?

Roma, a grande, está cheia de arcos do triunfo...

Quem os erigiu?

Sobre que triunfaram os césares?

Bizâncio, tão cantada,

Tinha só palácios para seus habitantes?

Até a fabulosa Atlântida,

Na noite em que o mar a tragou,

Seus habitantes clamavam,

Pedindo ajuda aos escravos...

O jovem Alexandre conquistou a Índia...

Ele sozinho?

César venceu os gauleses,

Não levava consigo nem ao menos o cozinheiro?

Felipe, o Grande, chorou ao ver afundada a sua frota...

Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos...

Quem mais venceu?

Uma vitória em cada página...

Quem cozinhava os banquetes das vitórias?

Um grande homem a cada dez anos,

Quem pagava seus gastos?

Uma pergunta para cada história...”


Uma pergunta para cada história. Apenas Attílio Fontana trabalhou arduamente no contexto de expansão da Sadia? E os trabalhadores? E os motoristas carreteiros que transportam as mercadorias da companhia pelas estradas do país? Esses personagens não aparecem no discurso proferido pela maior processadora de carne de frango do mundo? Sob quais condições esses sujeitos sociais realizam sua atividade profissional? Quais são suas histórias, suas memórias e suas experiências sociais? Como vivem e como representam a realidade em que trabalham?

Apesar de ocultados pelo discurso proferido pela maior indústria de alimentos da América Latina, diversos motoristas caminhoneiros surgem na história da companhia quando a mesma parte para uma reorganização interna, na qual a terceirização surge como uma proposta viável às expectativas comerciais da empresa. Esse universo de prestação de serviços se configura em uma realidade de trabalho complexa, pois ao mesmo tempo em que os caminhoneiros estão subordinados às transportadoras em que trabalham, se encontram, na mesma medida, submetidos às normas e diretrizes da Sadia. Tal situação faz com que essa realidade seja permeada por tensões e conflitos constantes, que se justificam a partir das contradições vivenciadas nas formas capitalistas atuais.

As memórias, vivências e experiências dos motoristas caminhoneiros que prestam serviços terceirizados para a Sadia podem evidenciar e fazer surgir outras histórias sobre a companhia e sua realidade de trabalho, distintas daquela produzida oficialmente pela empresa, levando-nos a compreender a realidade por meio das contradições e dos conflitos que fazem parte de seu contexto e possibilitando uma abordagem histórica que não se limita à observância de fatos constituídos cronologicamente, mas procura se desvencilhar dos procedimentos positivistas, percebendo o fato histórico não como “positivo”, mas como “o produto de uma construção ativa de sua parte para transformar a fonte em documento e, em seguida, constituir desses documentos, esses fatos históricos, em problema.” (BLOCH, 2001, p.19).

O trabalho, enquanto meio de sobrevivência, corresponde a uma experiência fundamental na vida desses homens que se dispõem a exercer a atividade de motorista, e, como tal, traz danos e conseqüências que talvez não sejam conhecidos ou entendidos por aqueles que se limitam ao discurso proferido pelo grupo dominante. Sendo assim, a fala desses sujeitos possibilita a construção de um diálogo que se estrutura a partir das experiências vividas cotidianamente, emergindo, dessa forma, outras possibilidades de histórias e memórias, as quais se contrapõem às narrativas oficiais que prezam pela linearidade dos fatos, e uma suspeita harmonia no campo social. Nesse sentido, a interlocução com sujeitos sociais diversificados implica em uma compreensão da realidade não a partir dos moldes de uma suposta coesão social, mas por meio de um movimento dinâmico e complexo, onde as narrativas orais surgem como práticas sociais diversas e como expressões da experiência vivida no interior de um contexto contraditório. Sobre esse aspecto, Fenelon (2006) demonstra a importância dos procedimentos da história oral quanto à revelação de outras possibilidades de histórias que não são dominantes nem expressivas no contexto social.

“(...) se vivemos em uma sociedade que exclui, domina, oprime e oculta os conflitos e as diferenças, subjugados ao valor das identidades, da unidade, do homogêneo e do único, então reafirmamos: o direito à memória torna-se uma reivindicação vital para fazer surgir a diversidade, a diferença, o múltiplo, as muitas memórias que nos permitem construir outras histórias”. (FENELON, 2006, p.08)
Entretanto, o objetivo da prática da história oral não se limita a uma simples coleta de dados que podem ser descritos de acordo a caracterizar o olhar e a fala dos trabalhadores como fontes objetivas e seguras, capazes, por si mesmas, de promover um definitivo entendimento acerca da realidade vivida. Se partíssemos dessa perspectiva estaríamos simplesmente utilizando os mesmos princípios da historiografia tradicional, entretanto, com personagens diferenciados daqueles normalmente utilizados por ela. A proposta é compreender as narrativas orais dos trabalhadores caminhoneiros agregados à Sadia, não como verdade reveladora, que merece ser contada e divulgada em detrimento do discurso produzido oficialmente pela companhia, mas de perceber suas falas como sendo parte constitutiva de uma realidade social de trabalho complexa, cujo contexto apresentado não está livre de tensões, ao contrário, acompanha os movimentos da pluralidade e dos antagonismos vividos socialmente. A fala e memória dos trabalhadores caminhoneiros, juntamente com o discurso produzido pela empresa, nos permitem perceber a diversidade que compreende o social, abrangendo conflitos e disputas que evidenciam as contradições que nem sempre são declaradas.
A realidade dos motoristas caminhoneiros agregados à Sadia a partir de suas experiências cotidianas
Os motoristas caminhoneiros correspondem a uma categoria profissional que ainda, na atualidade, se deparam com situações nas quais precisam trabalhar até 20 horas seguidas ou mais. A jornada de trabalho desses profissionais, segundo as palavras do procurador do Ministério Público do Trabalho do estado do Mato Grosso, Paulo Douglas Almeida de Moraes, é “desumana, bárbara e cruel”, devido, sobretudo, à intensificação do trabalho que se processa, inclusive, pela prévia determinação dos horários e datas de entrega das mercadorias transportadas.

As formas contemporâneas de produção se caracterizam pela intensificação da força de trabalho. Partindo de outros princípios, essa intensificação extrapola o sentido primeiro de duração da atividade laborativa, na qual, no século XIX, os trabalhadores fabris, na Europa, chegaram a cumprir uma jornada de trabalho de até 16 horas diárias. Nas formas sociais atuais, a intensificação do trabalho se dá pela intensidade, ou seja, pela amplitude do esforço despendido pelos trabalhadores na execução de seu labor cotidiano. Essa intensificação envolve elementos variados, não se limitando apenas ao esforço físico:

“É o trabalhador em sua totalidade de pessoa humana que desenvolve a atividade, não apenas o trabalhador enquanto parte, força física, capacidade intelectual ou emocional. A intensidade é, portanto, mais que esforço físico, pois envolve as capacidades do trabalhador, sejam as de seu corpo, a acuidade de sua mente, a afetividade despendida ou os saberes adquiridos através do tempo ou transmitidos pelo processo de socialização. (...) Há intensificação do trabalho quando se verifica maior gasto de energia do trabalhador no exercício de suas atividades cotidianas (...) Chamamos de intensificação os processos de quaisquer natureza que resultam em um maior dispêndio das capacidades físicas, cognitivas e emotivas do trabalhador com o objetivo de elevar quantitativamente ou melhorar qualitativamente os resultados.” (DAL ROSSO, 2008, p.23)
Porém, na realidade de trabalho dos motoristas caminhoneiros essa intensificação não está dissociada à duração de sua atividade diária de trabalho. Os caminhoneiros que prestam serviços terceirizados para a Sadia, apesar de não serem formalmente enquadrados como funcionários da empresa, estão submetidos à exigência de cumprimento dos horários de entrega das mercadorias transportadas, norma estabelecida pela companhia. O sistema logístico da indústria alimentícia determina, após o carregamento das carretas, o dia e o horário de entrega dos produtos deslocados. Essa regulamentação causa uma intensificação do trabalho, pois como o motorista é advertido sobre a possibilidade de redução salarial e de rompimento de trabalho com a Sadia por um período determinado pela companhia, caso não consigam cumprir os horários estabelecidos, esses trabalhadores acabam desempenhando longas jornadas de trabalho, diminuindo o número de paradas para descanso e se submetendo à utilização de remédios e outras substâncias que são capazes de mantê-los acordados por um intervalo de tempo maior, para que possam dirigir o veículo por um longo trajeto sem necessitar de parada para dormir.

A longa jornada diária de trabalho afeta diretamente o cotidiano dos motoristas durante a viagem nas estradas, produzindo conseqüências negativas para sua saúde e sua qualidade de vida. Para conseguir cumprir os horários estipulados, os motoristas além de utilizarem os conhecidos “rebites”, um medicamento denominado “Desobesi-M”, remédio tarja preta, indicado pelos médicos nos casos específicos de tratamento da obesidade, que podem causar insônia, arritmia cardíaca, colapso circulatório, dentre outros sintomas, também vem aderindo com maior freqüência ao uso de drogas, principalmente, cocaína. Em pesquisas realizadas no estado do Mato Grosso, uma na cidade de Rondonópolis e a outra em Diamantino, constatou-se que, além do “rebite”, os motoristas, de modo geral, utilizam drogas entorpecentes que favorecem o desempenho ao volante. Sobre esse aspecto, o procurador do Ministério Público do Trabalho do estado do Mato Grosso, demonstra algumas descobertas acerca dessa realidade de trabalho:

“(...) a realidade é ainda mais cruel do que imaginávamos, pois cerca de 30% dos motoristas entrevistados na primeira pesquisa usam drogas, principalmente cocaína. Na segunda pesquisa, o índice de positividade clínica para a cocaína quintuplicou. Na primeira deu 3% e na segunda 15%. Todos em estágio de pré-overdose. Tudo isso para cumprir jornadas de trabalho desumanas – mais de 16h por dia. Isso realmente é de uma selvageria inominável. O lucro realmente demonstra sua face mais perversa nesse segmento2”.

Os dados apresentados pelo procurador demonstram a complexidade que envolve a realidade de trabalho dos motoristas caminhoneiros que estão submetidos à lógica de intensificação de suas forças produtivas, orientada, sobretudo, pela prática do controle do tempo de trabalho pelos empregadores e empresas que terceirizam o transporte de suas mercadorias. Para manter seu emprego, em uma sociedade que se estrutura pela falta dele, os motoristas se submetem a uma condição extremamente desfavorável à sua saúde, comprometendo e ocasionando não somente um desgaste físico, por dirigir por longos intervalos de tempo de forma ininterrupta sob efeito de estimulantes, como originando também um desgaste mental e emocional que afeta diretamente seu comportamento e relacionamento com os familiares. Circunscritos a essas condições de trabalho que sustentam sua sobrevivência, os motoristas terceirizados à Sadia, são constantemente pressionados a trabalhar de acordo a superar seus limites físicos e também emocionais, mesmo quando não estão na estrada. As imposições referentes à execução dos horários previamente fixados comprometem o estado de humor e temperamento desses trabalhadores, ocasionando, em diversas circunstâncias, situações de intenso estresse e inquietação. A fala do motorista que relata sua experiência com a determinação da Sadia referente aos horários de entrega das mercadorias demonstra esse aspecto:

“Tenho que andar mais e mais. Tenho que chegar. Tenho que chegar e tenho que chegar. Quando é fé [de repente], se você furar um pneu já te complica mais ainda, você já vai ficando nervoso e estressado. Quando é fé [de repente] um guarda te pára, já te embaça porque quer dinheiro e vai só (...), quando é fé [de repente] você já tem que virar uma noite e aí pronto, você virou uma noite, você já está todo arrebentado”. (caminhoneiro, 37 anos.)
Esse ritmo de trabalho contribui para a incidência de acidentes envolvendo os caminhões e carretas que trafegam pelas rodovias do país. Segundo informações disponibilizadas pela Polícia Rodoviária Federal, no ano de 2007, constatou-se a ocorrência de 45.833 acidentes envolvendo caminhões, dos quais se registra 3.124 mortes3. Porém, em virtude da regulamentação horária e das punições relativas ao não cumprimento desta, muitos motoristas reconhecem os riscos, mas consideram que precisam estabelecer estratégias para realização de sua atividade profissional, visto que é a partir da execução de seu trabalho que garantem o sustento de sua família.

Esses motoristas são percebidos pelos demais condutores das rodovias, caminhoneiros ou não, como um grave problema, obstáculo à tranqüilidade tão desejada nas estradas do país. A revista “O Carreteiro”, em uma de suas edições, traz uma reportagem intitulada “Apressadinhos da estrada”, a qual traz o relato de diversos caminhoneiros que consideram os companheiros que cumprem horários como uma “turma nervosa”, que constantemente ameaça a segurança dos demais colegas de trabalho. Na opinião do motorista entrevistado pela revista, caminhoneiro que transporta arroz de Uruguaiana para São Paulo e Minas Gerais (carga que não apresenta exigência mínima em relação ao tempo de entrega das mercadorias), os motoristas que trabalham com carga horária representam uma ameaça à realidade das rodovias, pois constantemente estão nervosos e utilizam estimulantes que os auxiliam na realização de sua jornada de trabalho:

“Os motoristas que trabalham com carga horária são pessoas nervosas. Dirigem veículos grandes e pesados sem respeitar ninguém na estrada. E mesmo obedecendo aos limites de velocidade, bate o desespero quando acontece alguma coisa na rodovia que os obriga a parar, atrasando a viagem. Sabem que vão precisar recuperar no trecho, sem ligar para o cansaço e a maioria apela para o rebite. O perigo aumenta depois da meia-noite, quando o sono é mais forte4”.
Na realização dos deslocamentos das mercadorias de uma localidade a outra, o qual é planejado a partir dos horários pré-estabelecidos, o que fica em evidência para as pessoas que utilizam as rodovias do país são as estratégias de execução do trabalho elaboradas por esses motoristas que convivem com um meticuloso controle do tempo.

Fora das estradas, essa realidade de trabalho também afeta o motorista em seu convívio familiar, pois mesmo quando se encontra em sua cidade de origem, precisa se envolver com atividades relacionadas ao próximo carregamento, o qual apresenta uma nova programação de entrega. Essa rotina causa problemas familiares de dimensões que devem ser consideradas. O relato de um motorista agregado à Sadia demonstra sua preocupação ao perceber que seu filho de apenas dois anos de idade não o reconhece com a devida familiaridade: “agora que eu tô despertando pra isso, antes eu não percebia que o meu filho tinha medo de mim, porque eu vinha aqui pra dormir” (caminhoneiro empregado em empresa terceirizada da Sadia, 27 anos). Devido à ausência constante do pai caminhoneiro, a criança passa a ter a mãe como referência para sua educação, percebendo o pai como uma pessoa estranha, que não participa de seu convívio diário. Sendo assim, no âmbito familiar, a mulher assume os papéis sociais de ambos os gêneros (Cherobim, 1984, p.121). Essa situação traz conflitos que em alguns casos são amenizados quando a família passa a viajar com o motorista. Entretanto, essa circunstância acaba ocasionando problemas diversos, como o relatado pela esposa que viaja com seu marido caminhoneiro:

“Ele usa “rebite” porque tem que rodar né. Tem o horário apertado, aí ele tem que usar o “rebite”. Aí eu também tomo quando estou viajando com ele. Tomo pra poder rodar a noite toda junto com ele. Eu tenho medo do efeito do “rebite” dele acabar e ele dormir no volante. Aí eu pego e tomo. Eu fico acordada com ele a noite toda.” (Esposa de caminhoneiro, 40 anos)

As declarações apresentadas demonstram que os efeitos da relação trabalhador/trabalho, repercutem diretamente nos familiares, a ponto de também submetê-los, mesmo que indiretamente, às circunstancias que são vivenciadas pelos motoristas na realização de sua atividade profissional. Os danos irremediáveis causados à vida desses trabalhadores, demonstram uma experiência vivida cotidianamente na qual o trabalho afeta sua saúde física e emocional, seu bem estar, seu convívio familiar, suas relações pessoais e sociais, enfim, as dimensões de sua vida como um todo.

A realidade desses trabalhadores que se encontram diretamente envolvidos com a indústria de alimentos Sadia S/A, demonstram que a condição hegemônica alcançada pela companhia na atualidade, está intimamente relacionada com a intensificação do trabalho de seus funcionários, dentre os quais, os motoristas, mesmo não sendo parte constitutiva desse quadro de empregados, também sofrem com conseqüências do projeto expansionista da empresa.

Contemporaneamente, no que se refere à dinâmica da reorganização do padrão de acumulação industrial, que objetiva aumentar a produtividade ou ainda promover uma recuperação de índices produtivos alcançados em períodos históricos anteriores, verifica-se uma tendência na qual os empregadores adotam distintos procedimentos de intensificação das forças produtivas, os quais promovem uma ampliação do esforço despendido pelos trabalhadores na execução de seu labor cotidiano. Essas variações quanto à organização industrial são características da sociedade capitalista, que “só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção” (Marx, 1998, p.15).

Com os sistemas fordista e taylorista, o capitalismo presenciou uma expressiva ampliação da produção, jamais percebida em períodos históricos anteriores. Toda a estruturação da produção, baseada na divisão do trabalho, que compreendia a produção em série fordista e o cronômetro taylorista, juntamente com a organização disciplinar e com as técnicas de domínio sobre os trabalhadores, acarretaram significativos padrões de acúmulo de riquezas. Quando esse sistema começou a dar claros sinais de esgotamento, deu-se início a uma reorganização do capital, cujos efeitos ainda são experiênciados pelos trabalhadores no contexto atual.
Considerações
As transformações implementadas pelos empreendimentos capitalistas, ao longo do processo histórico, não podem se dissociadas da dominação que se estabelece sobre os trabalhadores. O êxito alcançado pelas empresas é diretamente associado a esse princípio e não aos feitos de um grande empresário que pela sua inteligência e iniciativa particular conseguiu atingir um patamar de relações comerciais expressivas. Esse processo evolutivo vivenciado, por exemplo, pela indústria Sadia, se relaciona à degradação física, moral e social de inúmeros trabalhadores direta ou indiretamente envolvidos em seu processo produtivo. Porém, essa história não pode ser apresentada para a sociedade “consumidora”, pois afeta a imagem e representação construída em torno da empresa. Torna-se mais viável e pertinente, construir uma idéia de progresso, calcada na organização documental, que corrobora para uma versão positivada da conduta adotada pela empresa, pois o trabalho com a documentação institucional “representa uma das formas das empresas minimizarem a corrosão da confiança da sociedade e de suas redes de relacionamento em relação à empresa e seus gestores 5”. A divulgação dessa perspectiva histórica em torno das relações comerciais estabelecidas pela empresa, está relacionada os interesses empresariais, que prezam pela homogeneização do contexto das relações sociais de trabalho, eliminando de seu contexto, as contradições e conflitos que são próprios da sociedade capitalista.

As experiências sociais de trabalho e as histórias vividas pelos agentes envolvidos nesse processo, são complexas e heterogêneas. Porém, as versões elaboradas apresentam um discurso ideológico que objetiva, antes de qualquer coisa, ampliar a produtividade e, consequentemente, a capacidade de consumo das mercadorias pela sociedade.

O cotidiano dos motoristas caminhoneiros demonstram uma outra história da Sadia, bem diferente daquela divulgada pela empresa. A companhia se compromete com uma realidade de trabalho desgastante, em virtude das imposições que são determinadas aos trabalhadores. Nesse sentido, a utilização da história oral como fonte de pesquisa, possibilita uma compreensão mais ampla e problematizada acerca da realidade social que estamos inseridos.

REFERÊNCIAS:

BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.
CHEROBIM, M. O Caminhoneiro na Estrada. Revista Perspectiva. (São Paulo), n°7, pp.113-25, 1984.
DAL ROSSO, Sadi. Mais Trabalho A intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo: Boitempo, 2008.
FENELON, Déa Ribeiro. In. Outras histórias: memórias e linguagens. São Paulo: Olho d’Água, 2006.
KHOURY, Yara Aun (Orgs.). Outras histórias: memórias e linguagens. São Paulo: Olho D’Água, 2006.
LARA, Silvia Hunold. História, memória e museu. In: Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, 1991.
MARX, Karl e FRIEDRICH, Engels. O manifesto comunista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998 (Coleção Leitura).
THOMPSON, E.P. Formação da classe operária inglesa II: a maldição de Adão. A árvore da Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, v. 1, 3ª ed., 1997.


1 Informações disponibilizadas no site da empresa:

http://www.sadia.com.br/sobre-a-sadia/linha-do-tempo.jsp. Acesso em: 10 set. 2009

2 MORAES, Paulo Douglas Almeida de. Entrevista concedida ao “estradas.com.br”. Disponível em: http://www.estradas.com.br/sosestradas/entrevistas/entrevista_paulo_douglas_almeida.asp.

3 http://www.estradas.com.br/sosestradas/articulistas/nivaldino/acid_veic_carga.asp. Acesso em: 04 dez.2009

4 Revista “O Carreteiro”. Ed.382, julho, 2006.

5 Parte da entrevista realizada com o jornalista Paulo Nassar, escritor do livro “Relações Públicas na construção da responsabilidade histórica e no resgate da memória institucional das organizações”, à Revista Digital “Comunicação e Estratégia”. Disponibilizada no endereço eletrônico: www.comunicacaoempresarial.com.br/revista/05/entrevista.asp.>

Nassar demonstra a importância da utilização, por parte das empresas, do acervo documental, percebendo a memória como uma ferramenta de comunicação, capaz de estreitar os laços entre a sociedade e o meio empresarial.




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