Romário martins, entre o “bom” e “mau” selvagem: a história do paraná e o discurso da alteridade



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ROMÁRIO MARTINS, ENTRE O “BOM” E “MAU” SELVAGEM: A HISTÓRIA DO PARANÁ E O DISCURSO DA ALTERIDADE
Gislaine Varge Ferreira (Graduanda do Curso de História-UNICENTRO), Liliane da Costa Freitag (Orientador – Dep. de História/UNICENTRO),

e-mail: gica_ferreir@hotmail.com




Resumo
Esta pesquisa tem como objetivo refletir sobre determinadas representações antropológicas acerca das populações indígenas no Paraná. Estas estão presentes na obra História do Paraná, publicada em 1899, de autoria de Romário Martins, intelectual paranaense, expoente do propalado Movimento Paranista, autor de uma extensa produção sobre a história do estado do Paraná. Nessa pesquisa analisamos categorias discursivas atribuídas a figura do indígena, entendemos que seus discursos acerca dos grupos indígenas são discursos sobre si mesmo e a sociedade na qual está inserido.

Palavras-chave: Romário Martins, “bom selvagem”, “mau selvagem”, alteridade.
Introdução
Esse trabalho pretende analisar o discurso e imagens construídos por Romário Martins, intelectual paranaense acerca do que este reconhece como História do Paraná, representações acerca do clima, da vegetação, da economia e dos fatores étnicos circulavam em uma vasta produção intelectual paranaense do início do século XX, com algumas variações junto a propalada elite Paranista, principalmente desde a fundação do Instituto Histórico Geográfico Paranaense em 1900, estendendo-se à década de 1950. O ano de 1900 marca o início de um projeto de constituição de uma história e historiografia regional paranaense com a fundação do Instituto Histórico, Geográfico Paranaense. É do interior dessa Instituição, desse “lugar social”, que Martins constrói o seu discurso histórico. É sobre a sua visão acerca das populações indígenas que tratará este trabalho.
Metodologia
A metodologia utilizada para a interpretação da fonte parte de uma análise historiográfica, ao iniciar o trabalho apresentamos o lugar social em que este estava inserido nos diferentes momentos de sua produção. Fizemos essa opção, pois entendemos que uma obra traz em seu bojo traços importantes de seu produtor, mais especificamente o que Certeau (1976, p.18) denomina “lugar social”. Para o autor:

Toda pesquisa historiográfica é articulada a partir de um lugar de produção socioeconômico, político e cultural. Implica um meio de elaboração circunscrito por determinações próprias: uma profissão liberal, um posto de estudo ou de ensino, uma categoria de letrados, etc. Encontra-se, portanto submetida a opressões, ligadas a privilégios, enraizada em uma particularidade. É função desse lugar que se instauram os métodos, que se precisa uma topografia de interesses, que se organizam os dossiers e as indagações relativas ao documento.


Considerando essa definição, toda produção historiográfica traz consigo particularidades provenientes do “lugar social” que o seu autor está inserido. Esse “lugar” definirá os traços de sua escrita seus conceitos e seu estilo. Nesse sentido enfatizamos os mecanismos que envolvem a produção do discurso desse “intelectual” percebendo esse discurso em relação ao tempo e a sociedade (Silva, p.190). Nesse caso, Romário Martins articulou seu discurso a essa Instituição de saber, e comungou de seus objetivos de inserção da história paranaense junto a história nacional. Para compreender os discursos da alteridade no interior da fonte pesquisada, faz-se necessário percorrer a forma pela qual estes discursos foram construídos pela sociedade, em especial a sociedade ocidental, Laplantine destaca a antropologia como um estudo não só dos componentes de uma sociedade, mas, sobretudo, uma análise dos mais diferentes grupos sociais, inclusive o qual se está inserido. O século XVI, portanto, descobre e explora territórios até então desconhecidos pelo europeu o qual tecerá um discurso selvagem, tal como o destacado acima, sobre os silvícolas que povoavam a região. Cabe ressaltar ainda que o surgimento das narrativas sobre o outro esteve atrelado à descoberta do novo mundo no período das grandes navegações. Nesse período de exploração de espaços desconhecidos e consequentemente de sujeitos também desconhecidos ao universo europeu, tem início a elaboração de discursos sobre os habitantes destes espaços. Ao se observar outra sociedade que não é a sua, é possível surpreender-se com aquilo que diz respeito a si próprio, pois o olhar que se tem do outro é um olhar de si.
Resultados e Discussão
Buscando problematizar em que medida Martins trata as questões de alteridade em relação aos povos indígenas: grupos atribuídos pelo autor como “nossos indígenas”. Martins (s/d, p. 106), ao iniciar o capítulo que tem como tema os fatores étnicos fundamentais, o qual o mesmo divide em Índios Selvagens, O colonizador Ibérico e O Africano Escravizado, descreve o indígena como possuidor de uma organização política e social:
Entre os usos e costumes seguidos pela família e pela sociedade indígena brasileira contam-se os seguintes, dignos da mais alta civilização: a respeitosa fraternidade de convivência em uma mesma “taba”, o culto aos mortos, geral em todas as tribus, a hospitalidade praticada até mesmo com os próprios inimigos [...] o respeito as esposas que jamais maltratavam [...] o amor paternal levado aos máximos desvelos pela prole; o estoicismo que demostravam ante o sofrimento e até a morte.
No entanto, apesar desses fatos contribuírem para que o indígena chegue próximo aos civilizados, em contrapartida estes indígenas estarão em grau inferior de civilização. Mesmo com a hierarquização de civilização presente na fonte, em determinados momentos de sua narrativa esses selvagens são colocados como iguais, ou pelo menos caminhando em direção a uma civilização. Essa hierarquização não diz respeito só a questão de ser civilizado ou não, dentre os próprios indígenas é apontada uma superioridade de um grupo em relação a outro, nesse sentido Martins (s/d, p.112) coloca: ”Era este o estado geral da cultura dos índios do nosso país ao tempo da conquista européia, tomado por norma a dos tupís do sul, Guaranis, mais adiantados na escala do desenvolvimento intelectual”.
Conclusões
Percorrendo as páginas dos capítulos referentes aos fatores étnicos, nos quais está pautada a pesquisa em questão foi possível perceber que Romário Martins apropria-se das representações sociográficas para tecer seu discurso da alteridade. As categorizações de “bom” e “mau” selvagem são construídas a partir das relações que estes “selvagens” estabeleceram com o branco “civilizado”. Essas categorizações não estão explicitadas nas páginas em que Martins discorre sobre o indígena, no entanto é possível percebê-las nas entrelinhas de seu discurso.


Referências


  1. CERTEAU, Michel de. A operação histórica. In: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. História: Novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p.17-43.



  2. LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. Trad. Marie Agnes Chauvel. São Paulo: Brasiliense, 2006.



MARTINS,Romário. Notas Autobiográficas. Curitiba: Plácido e Silva, 193


  1. MARTINS, História do Paraná. Curitiba:Guaira, s/d.



  2. SILVA, Kalina Vanderli(Org). Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2005.





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