Roquette Pinto: o homem Multidão



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Roquette Pinto: O Homem Multidão
por Ruy Castro

O Início da Rádio

O poeta e jornalista Amadeu Amaral, Secretário da Gazeta do Rio e cronista de O Estado de S. Paulo, teve vontade de rir. Fora convidado por seu amigo Edgard Roquette-Pinto para ouvir uma transmissão experimental da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que este acabara de fundar. Roquette contara-lhe maravilhas do rádio, mas o preparara para o espetáculo que o esperava.

Como todo mundo em 1923, Amadeu Amaral ouvira falar da nova invenção. Sabia que era uma forma de transmitir sons à distância, um misto de telégrafo com telefone, mas nunca escutara uma transmissão. Em sua fantasia, deveria ser uma coisa da alta ciência, cheia de aparelhos complicados. Daí a sua surpresa ao adentrar a casa de Roquette, na Rua Vila Rica, em Botafogo, e deparar-se com um cenário de circo de cavalinhos.

Uma vara de bambu, plantada no jardim, servia de antena. Dela escorriam fios de cobre, que iam até a sala e se enfiavam numa bobina de papelão, a qual devia ser o aparelho. Deste saíam uma tomada de terra, comicamente ligada à torneira da pia, e um fone comum, de telefone, para ser aplicado à orelha. Uma geringonça infantil, primitiva e precária. Amadeu Amaral achou graça. Aquilo e que era o rádio.

O Fundador

Amadeu Amaral esperou o pior: iria escutar grunhidos estalos e chiados, e, para não desagradar seu anfitrião, teria de dizer a Roquette que o rádio era mesmo a oitava maravilha. Olhou resignado para a engenhoca, aplicou o fone ao ouvido – e, em vez da cacofonia que imaginava, escutou os poemas e trechos de ópera que estavam sendo irradiados a quilômetros dali, na estação da Praia Vermelha. “Tudo tão perceptível como se os sons se originassem a dois passos. Aquela caranguejola ridícula funcionava maravilhosamente”, ele escreveria entusiasmado em O Estado de S. Paulo.

Amadeu Amaral fez mal em duvidar. Afinal, ele conhecia Roquette-Pinto.

Em abril de 1923, quando estava fundando a primeira emissora de rádio do Brasil, Edgard Roquette-Pinto tinha 39 anos incompletos. Era, por qualquer critério, um homem impressionante: atlético(1m78), bonito e, como dele diria Gilberto Freyre, “com algo de imperialmente brasileiro no seu porte”. Havia até quem o achasse parecido com Goethe. Mas sua reputação não repousava na figura física, embora esta provocasse suspiros em admiradoras, muitas das quais alimentaram suas paixões por ele (e alguma correspondidas). Roquette-Pinto não era apenas amado pelos que o conheciam. Era nacionalmente admirado pelo que já fizera pela ciência brasileira. A introdução do rádio no país era, a rigor, apenas a sua segunda ou terceira façanha, e estaria longe de ser a última.

Quando se avalia hoje o monumento legado do carioca Roquette-Pinto ao Brasil, parece inacreditável que um único homem pudesse fazer tanto. Estamos desabituados a esses homens-multidão, capazes de aplicar sua inteligência e ação a interesses tão amplos e múltiplos. Mas, no caso de Roquette, talvez ele não tivesse escolha. O Brasil de seu tempo era enorme, muito maior que o de hoje, e estava todo por ser feito. Com seu dinamismo científico, filosófico e até, espiritual, Roquette-Pinto não podia esperar que surgissem outros Roquette-Pinto para ajudá-lo. Enquanto esses não surgissem, ele viveria de mangas arregaçadas.

Sua biografia ainda não foi escrita e quando o for, não caberá num único volume. Só através dela poder-se-á reconstituir o que o levou – desde o seu nascimento, no dia 25 de setembro de 1884, em Botafogo a preparar-se para tantas atribuições. Pode ter sido a influência do homem que, na verdade, o criou: não o seu pai, o rico advogado Menelio Pinto de Mello, mas seu avô materno o fazendeiro João Roquette Carneiro de Mendonça, em cuja fazenda Bela Fama, perto de Juiz de Fora, o menino Edgar passou três anos. O pouco contato com a família do pai levou-o até a alterar seu nome de registro – Edgar Roquette Carneiro de Mendonça Pinto Vieira de Mello – para Edgard Roquette-Pinto, com um hífen de que não abria mão. Em 1905, quando se formou pela Escola de Medicina, Edgard legalizou seu novo sobrenome e depois, estendeu-o aos seus descendentes. Quanto ao pronome, chamava a si próprio de Édgar, não Edgár.

Além do avô João Roquette, que lhe pagou os estudos e lhe transmitiu seu amor à natureza, outros dois homens foram decisivos para o destino de Roquette, O primeiro, o biólogo Francisco de Castro, que o fez desistir da idéia de tornar-se oficial da Marinha e convenceu-o a navegar pelo mundo ainda mais aventuroso da medicina e da biologia. O segundo, o médico Henrique Batista, que o converteu ao Positivismo - a doutrina fundada pelo Francês Augusto Comte (1798-1857), segundo o qual a redenção do homem se daria pelo conhecimento. Mas, embora fosse prodigiosamente estudioso, havia algo em Roquette que parecia atraí-lo para fora dos gabinetes. Sua própria tese de formatura, O Exercício da Medicina Entre os Indígenas da América, já insinuava seu rumo futuro: a antropologia.

Roquette, o Antropólogo

Em setembro de 1906, Roquette partiu para o Rio Grande do Sul a fim de estudar os sambaquis – as jazidas de conchas, ossos e utensílios do homem pré-histórico que habitou o litoral da América. E dai também porque, depois de alguns anos como assistente de Henrique Batista (com cuja filha Riza casou-se em 1908) e como médico-legista no rio, Roquette deu uma guinada em sua carreira: tornou-se, por concurso, professor da cadeira de antropologia e etnografia do Museu Histórico Nacional, na Quinta da Boa Vista. Ali, em 1911, ele conheceu o homem que, este sim, o marcaria para sempre: o tenente-coronel Cândido Mariano da Silva Rondon.

O mato-grossense Rondon, nascido em 1865, já estava nas selvas do Amazonas e do Acre desde 1890, desbravando a mata, criando povoados, demarcando fronteiras, estendendo linhas telegráficas e fazendo os primeiros contatos com tribos à margem de qualquer civilização, como os parecis, os kabixis , os tapanhumas e os cajabis. Como Roquette, Rondon também era positivista e acreditava na ciência e na fraternidade como molas para o progresso. Levava geólogos, cartógrafos e outros peritos em suas expedições e, ao voltar de cada uma, trazia amostras de objetos paleolíticos e os entregava ao Museu Nacional. Muitos desses objetos caíram nas mãos de Roquette, que se debruçou fascinado para estudá-los. Deles resultou o seu documento Nota sobre os Índios Nhambiquaras do Brasil Central, que leu num congresso de americanistas em Londres, em 1912.

Era a primeira vez que Roquette saía do Brasil- mas, ao pôr o pé no navio para a Europa já acertava um compromisso com Rondon: iria acompanhá-lo na sua próxima expedição á Serra do Norte. A idéia de defrontar-se com brasileiros que, em plena alvorada do século XX, ainda viviam na pré- história, era muito mais excitante para ele do que qualquer congresso científico nas estranjas.

Em julho daquele mesmo ano, de volta ao Brasil, Roquette seguiu com destino a Mato Grosso, para juntar-se a Rondon. Tinha 27 anos. Os quatro meses seguintes seriam uma saga de extraordinária importância para o conhecimento do Brasil - porque, pela primeira vez, Rondon viajava com um homem à sua altura. Roquette-Pinto, sozinho, valia por uma equipe de cientistas.

Naquela expedição ele foi etnógrafo, sociólogo, geógrafo, arqueólogo, botânico, zoólogo, lingüista, médico, farmacêutico, legista, fotógrafo, cineasta e folclorista. Anotou toda a aparência da região – da floresta à árvore e à folha – a composição dos solos, o contorno das montanhas, o fluxo dos rios, a intensidade das quedas e a riquíssima variedade da fauna. Nas visitas às tribos já pacificadas, mediu os crânios dos índios, comparou seus pesos e altura, analisou suas endemias e descreveu suas formas de produção, comércio e transporte. Registrou seus conhecimentos científicos, relações familiares, organização política, hábitos religiosos, formas lingüísticas, habilidade manual, cantos e danças. E ainda realizou a primeira dissecação de um indígena – na verdade, uma indígena – de que se tem notícia.

Roquette não deixou um fio solto. Anotou musicalmente os cantos dos nativos e não contente, gravou-os em cilindros de cera com o fonógrafo portátil que se usava na época. Filmou tudo que pôde e fotografou ou desenhou o reto. Sem contar o que recolheu de pedras, pontas de flechas e objetos indígenas, que transportou pelos milhares de quilômetros através de rios, pântanos e picadas abertas na selva. O que sobreviveu desses fonogramas, filmes, fotos, fichas antropométricas e objetos, conservados até hoje no Museu Nacional, dá só uma vaga idéia das condições em que tudo isso foi realizado. Roquette foi um Indiana Jones da vida real, só que mais heróico – porque verdadeiro.

Roquette, o explorador

No monstruoso percurso pelas selvas do Mato Grosso e do Amazonas e pelas bacias dos rios Paraguai, Jurena e Gi-Paraná, a morte acompanhou cada passo de Rondon, Roquette e seus homens. Dias e dias de caminhada podiam ser feitos sem sol visível, debaixo da espessa vegetação – e se avançassem um quilômetro por dia isso era considerado ótimo. O princípio da expedição era a pacificação dos nhambiquaras, até então arredios a qualquer contato com o colonizador. Arredios e hostis. Os mateiros de Rondon eram flechados à distância por mãos invisíveis; outros eram capturados e devolvidos sem cabeças; e ainda outros se feriam nas armadilhas postas por eles. E havia as ameaças permanentes da selva, como os animais e as doenças - varíola, beribéri, impaludismo. Burros, cavalos e bois iam morrendo e sendo deixados para trás. os Homens eram enterrados pelo caminho e Rondon batizava com seus nomes os acidentes geográficos do percurso. Mas, para o sacrifício de cada homem ou montaria, a expedição garantia um pedaço de chão que se incorporava efetivamente ao Brasil.

Para Roquette-Pinto, era tudo um milagre e esse milagre chamava-se Cândido Rondon. Sendo ele próprio mameluco por parte de avós indígenas, e falando os dialetos de várias tribos, Rondon conseguia repassar para os índios sua mensagem de paz – em nenhuma outra época, na história da América, o choque entre o “selvagem” e o “civilizado” foi tão suave e humano. Para isso, seu famoso lema, “Morrer, se preciso for, matar, nunca”, teve de ser, primeiro, entendido pelos brancos que o seguiam. Daí Roquette extraiu uma compreensão do problema do índio que, até hoje, é revolucionária: “Nosso papel social deve ser simplesmente proteger, sem procurar dirigir nem aproveitar essa gente. Não há dois caminhos a seguir. Não devemos ter a preocupação de fazê-los cidadãos do Brasil. Todos sabem que índio é índio, brasileiro é brasileiro. A nação deve ampará-los e mesmo sustentá-los, assim como aceita, sem relutância, o ônus de manutenção dos menores abandonados ou indigentes e dos enfermos”.

Os nhambiquaras contatados por Rondon e Roquette viviam na Idade da Pedra em 1912. Seus machados eram de pedra mal polida. As facas eram lascas de madeira. Não conheciam a navegação, a cerâmica ou as redes de dormir – donde atravessavam os rios a nado, comiam de mão para mão e dormiam direto no chão. Eram cobertos de bernes, pulgas e piolhos. Nunca tinham visto um homem branco ou negro. E o mal que faziam era, muitas vezes, por ingenuidade: ao ouvir o zumbido dos fios telegráficos, pensavam que o poste ocultava uma colméia e o derrubavam em busca do mel. Quando Rondon finalmente conseguiu que se aproximassem do acampamento (o que se deu à zero hora de uma noite memorável para Roquette), seus presentes para eles foram de um comovente simbolismo: machados de aço. Poucos anos depois, os nhambiquaras, já “evoluídos”, iriam rir de seus velhos machados de pedra.

De volta ao Rio em novembro daquele ano. Roquette depositou no Museu Nacional cerca de uma tonelada e meia de objetos que trouxe da Serra do Norte. As anotações musicais foram entregues a Villa-Lobos, que as elaborou em composições que assinou com Roquette. Em seu organismo, Roquette trouxe também o impaludismo, a cujas seqüelas iria atribuir a doença que o acometeria na maturidade. Mas sua própria volta à cidade já era, para muitos, uma proeza: como um homem tão urbano, de hábitos tão refinados, um elegante intelectual carioca, podia ter sobrevivido à brutalidade da vida na selva?

Uma explicação poderia ser a grande parte da infância passada na fazenda de seu avô. O mato não lhe era estranho. Mas há uma diferença entre as bucólicas fazendas mineiras e o sertão com seus perigos à traição. Poder-se-ia argumentar também que, aos 27 anos, Roquette era jovem e forte, e que, quando ainda mais moço, fora esportista: remara durante anos pelo Botafogo, no tempo em que o remo formava os atletas mais completos do Rio. Mas não há comparação entre um domingo de regatas e atravessar alagados carregando equipamento e com água pelo pescoço. A única explicação está na pétrea determinação de Roquette: impusera-se uma tarefa e tinha de cumprí-la. E os que o conheceram sabem que ele só precisava disso para agir.

O poeta Carlos Drummond de Andrade, que só viria a conhecê-lo muito depois, definiu-o como “um civilizado a quem a civilização não faria falta, porque seria capaz de reconstituí-la dentro da mata, adaptando-se ao meio e extraindo dela valores culturais, sem perda do instinto nativo, ou por um refinamento prodigioso desse mesmo instinto”. Mas Roquette fez ainda mais: de volta à cidade, reconstituiu pela palavra a cultura da selva.

A grande bagagem que trouxe da expedição foram as anotações e as memórias de tudo que havia presenciado e vivido. Com elas, Roquette passou os quatros anos seguintes escrevendo o livro que, por si só, garantiria o seu lugar na imortalidade: Rondônia.

Um monumental tratado antropológico, botânico, geológico, climático, zoológico e etnográfico de uma vasta região do Brasil entre os rios Juruena e Madeira, compreendendo partes do Mato Grosso, Amazonas, Pará, Acré e Guaporé. O fio condutor era, claro, a expedição de 1912. Mal publicado o livro, em 1916, tornou-se lugar-comum dizer que Rondônia estava para a saga de Rondon como Os Sertões, de Euclides da Cunha, estava para a de Canudos. Os dois livros revelavam um Brasil que, até então, muitos brasileiros julgavam existir apenas na imaginação dos poetas. Para Roquette, não poderia haver elogio maior do que ser comparado a Euclides (aliás, colega de turma de Rondon na Escola de Cadetes da Praia Vermelha, classe de 1888) – porque, para ele, Os Sertões era comparável aos Lusíadas ou a Don Quixote.

Roquette e Rondônia

No futuro, mais precisamente em 1956, o crítico e ensaísta Álvaro Lins estabeleceria uma outra virtude de Rondônia: a literária. Segundo ele, era pela força estilista de seu tratado científico (e não pelos fracos contos e poemas que depois escreveria) que Roquette-Pinto fazia parte da literatura brasileira. E Gilberto Freyre, outro exigente no seu julgamento dos colegas, nunca deixaria de elogiar, ao lado da exuberante escrita de Rondônia, a “segura base cientifica” de Roquette – distinção que não conferia a mais ninguém daquele tempo. Em seu livro Ordem e Progresso, Gilberto menciona treze vezes a seriedade de Roquette. O qual, não importavam as loas, sempre foi modesto ao falar de sua obra-prima: “É um instantâneo da situação social, antropológica e etnológica dos índios da Serra do Norte, antes que principiasse o trabalho de alteração que nossa cultura vai processando. É prova fotográfica – um clichê cru”.

Mas, naturalmente, era muito mais que isso. Suas experiências com os nativos e com os homens do sertão deram a Roquette os instrumentos para desfechar uma campanha anti-racista que atingiria em cheio o arianismo então vigente no Brasil. Para muitos naquela época (como para alguns ainda hoje), nossas mazelas seriam originárias da presença dos negros, mestiços e índios na composição racial brasileira. A tese original era do diplomata francês Joseph Arthur, conde de Gobineau (1816-1882), autor de uma teoria racial da História e que um dia resultaria no nazismo. Uma visão “benigna” do problema, defendida pelo então diretor do Museu Nacional, o antropólogo João Batista de Lacerda, apostava no “embranquecimento” do povo: em poucas décadas, os sucessivos cruzamentos extinguiriam a raça negra no Brasil... Mas Roquette, que via o Brasil como “um imenso laboratório de antropologia”, pensava diferente:

“Nenhum dos tipos da população brasileira apresenta qualquer estigma de degeneração antropológica”, escreveu ele, “Ao contrário. As características de todos eles são as melhores que se poderiam desejar. [...] O número de indivíduos somaticamente deficientes em algumas regiões do pais é considerável. Isso, porém, não corre por conta de qualquer fator de ordem racial; deriva de causas patológicas cuja remoção, na maioria dos casos, independe da antropologia. É questão de política sanitária e educativa. [...] A antropologia prova que o homem no Brasil precisa ser educado e não substituído”.

O alcance de Rondônia não ficaria por aí. O livro faria a glória do futuro general e marechal Rondon, embora este também desconhecesse por completo o sentimento da vaidade. Um único índio que escapasse ao martírio era-lhe mais importante que os quilos de medalhas que espetavam em sua farda. Mas a verdade é que, sem o livro de Roquette, ninguém poderia calcular a dimensão da obra de Rondon, muito menos seguir o seu exemplo. Mesmo assim, Roquette não se dava por satisfeito. Para que o Brasil soubesse o quanto de seu território devia a Rondon, propôs que esse território- entre os paralelos 8 e 14 ao sul do Equador e entre os meridianos 12 e 20 a oeste do Rio de Janeiro – se chamasse, justamente, Rondônia. A idéia, lançada por Roquette em 1915, numa conferência no Museu Nacional, seria afinal adotada...41anos depois, em 1956, quando uma área muito menor, a do território do Guaporé, passou a chamar-se Rondônia.

Onde, por sinal, não existe até hoje uma única cidade, rua ou arraial com o nome de Roquette-Pinto.

Roquette Patriota

Pouco depois de Rondônia, em 1920, Roquette, de passagem, conquistou a admiração de um povo que dedicara seus últimos 50 anos a olhar para o Brasil com profundo ressentimento e rancor: o do Paraguai. Em 1927, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, ele defenderia a convicção de que fora o Brasil o responsável pelo início da Guerra do Paraguai, contra a opinião do acadêmico a quem sucedia na cadeira 15: o poeta Osório Duque Estrada, patriotíssimo autor do Hino Nacional.

Ao ouvir aquilo, muitos imortais ficaram inquietos dentro dos fardões. E, já prevendo que alguns ali pudessem acusá-lo de pouco patriota, Roquette jogou cal nos possíveis ataques:

“Pelo progresso de minha terra, tendo arriscado contente, e mais de uma vez, a vida que ela me deu. Mas só compreendo o patriotismo que não precisa de mentiras para manter sua existência”.

Tanta coragem e determinação tornavam Roquette-Pinto um vulto quase onipresente na cena brasileira. As pessoas o apontavam ao vê-lo passar nas ruas, quase sempre com um charuto entre os dedos. Quando não era o charuto, o objeto mais presente em sua mão era um lápis de duas cores (vermelhas e azul), com que circulava ou sublinhava qualquer texto que o interessasse. Sabia-se que falava francês, italiano espanhol, inglês, alemão, tupi e, segundo ele próprio, “um pouco de latim e uma reles lambujem de grego”. Mas podia ser tudo, menos um pernóstico: “Gosto muito de gíria e tenho horror à gramática. Se escrevo certo, é sempre por acaso”, dizia. E sabia-se também que tocava piano, que escrevia poemas sem intenção de publicá-los, que desenhava e pintava e era capaz de montar ou desmontar qualquer aparelho mecânico ou elétrico: “Gosto imenso de trabalhar com as mãos. As mãos é que fazem o homem inteligente”.

Numa época podre em comunicações e rica em mexericos, sabia-se também que ele e sua mulher se haviam separado. Separações eram chocantes naquele tempo, e mais ainda entre pessoas públicas. Mas, no seu caso, não havia motivo para mexericos. Como sua família sempre soubera, Roquette simplesmente não era “casável”. Sua inquietação não lhe deixava muito tempo para os prazeres domésticos ou para desfrutar os dois filhos – Paulo, nascido em 1909 e Beatriz, em 1911. E Riza, ao contrário, era uma mulher com acentuado gosto pelas coisas do lar. Como nenhum dos dois podia mudar sua natureza, afastaram-se de comum acordo, chorando nos braços um do outro. Anos depois, Riza casou-se com um oficial da Marinha, ao passo que Roquette tornou-se o melhor partido do Rio de Janeiro, disponível para as muitas mulheres que o interessavam. Mas nunca voltaria a casar-se.

Não eram apenas as mulheres que o interessavam - tudo o interessava. Dez anos antes, a caminho de juntar-se a Rondon na selva, Roquette percebera a importância da telegrafia na integração dos grotões mais distantes. Agora, em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, ele começara a perceber a importância de uma nova e extraordinária invenção: o rádio.

As Primeiras transmissões radiofônicas

Os primeiros a chegar à enorme Exposição do Centenário, instalada na esplanada aberta pelo desmonte do morro do Castelo, no centro do Rio, não deram muita importância às estranhas cornetas metálicas instaladas em alguns postes. Vistas de relance, lembravam as cornucópias dos gramofones em voga em 1922, mas poucos naquele 7 de setembro, dia da abertura da exposição, saberiam dizer para o quê serviam. A multidão estava mais interessada nos luxuosos pavilhões dos países participantes e, principalmente, na montanha-russa armada em frente ao novo palácio Monroe. De repente, ao cair da tarde, as pessoas ouviram assombradas, como se aqueles sons viessem das nuvens, o Hino Nacional e um discurso do presidente Epitácio Pessoa. Como, mesmo naquele tempo, ninguém acreditasse que o hino ou Epitácio tivessem nada de celestial, concluiu-se rapidamente que o som saía pelas tais cornetas. Afinal, era para aquilo que serviam as geringonças penduradas no postes. Eram “alto-falantes” - e era o rádio chegando.

Duas companhias americanas de energia elétrica a Western e Westinghouse, haviam instalado pequenas estações de 500 watts no pavilhão dos Estados Unidos para demonstrar a última novidade. Seus transmissores tinham sido montados, respectivamente, na Praia Vermelha e no alto do Corcovado (ainda sem a estátua do Cristo), com 80 alto-falantes distribuídos pela exposição e por Niterói, Petrópolis e São Paulo. À noite daquele mesmo dia, o assombro foi ainda maior quando os alto-falantes irradiaram a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, direto do Teatro Municipal. Bem, assombro em termos. O som era falho e rouco, como se um coro de sapos tivesse entrado pelos alto-falantes e coaxasse em uníssono fazendo passar-se por Epitácio ou por Peri e Ceci. Era preciso apurar as orelhas para se entender alguma coisa. Nos dias seguintes foram transmitidas várias palestras, inclusive uma sobre higiene, mas, àquela altura, o público já desistira de esforçar-se para ouvir.

Em janeiro de 1923, finda a exposição, a Westinghouse desmontou a estação do Corcovado e a levou de volta para os Estados Unidos. Mas a Western conservou a sua na Praia Vermelha, na esperança de que o governo brasileiro se interessasse em comprá-la. O governo se interessou e comprou a estação, mas entregou-a aos Correios para que ela operasse como telégrafo. Não era o que os primeiros radioamadores nacionais estavam esperando. Já havia muitos pelo país, construindo seus próprios aparelhos e comunicando-se entre si no Rio, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Alguns dele conseguiram autorização e começaram a usar a Praia Vermelha para transmitir boletins meteorológicos, cotações da Bolsa de Açúcar e Café, santos e efemérides do dia, cançonetas, poemas e outras pequenas atrações.

Mas era quase uma audição para surdos, porque havia um obstáculo legal a que a escuta se espalhasse: para possuir um receptor em casa, o cidadão tinha de “requerer permissão” ao Ministério da Viação através dos Correios e Telégrafos e, ainda por cima, “apresentando fiador idôneo” - um responsável pela integridade patriótica do indigitado. Com os ecos e fumaças da Grande Guerra de 1914-1918 ainda no ar, supunha-se que o rádio podia ser um instrumento perigoso, capaz de levar os segredos militares brasileiros para as potências estrangeiras – donde todo cuidado era pouco. A polícia estava autorizada a prender quem fosse flagrado ouvindo aparelhos desautorizados.

Roquette-Pinto não estava preocupado com segredos ou com militares. Alias, sua opinião sobre estes era arrojada para a época: era favorável ao serviço militar,mas achava que ele deveria limitar-se a “construir pontes e estradas, aprender um ofício, trabalhar numa coisa útil. [...] A Grande Guerra, aliás, veio mostrar que a vitória caberá a quem melhor abastecer-se. O soldado, hoje, é principalmente um operário. As guerras são ganhas pelos eletricistas, pelos mecânicos, pelos motoristas”. Para Roquette, ao contrário de guardar segredos, o rádio deveria servir para difundir a coisa de que o Brasil mais precisava: educação.

O Rádio em outros países

Nos Estados Unidos, a primeira emissora com transmissão regular surgira em 1920, em East Pittsburgh, na Pensilvânia. Ou seja, outro dia mesmo, e, agora, apenas três anos depois, o rádio já passava cerca de 12 milhões de americanos, com mais de cem estações transmitindo. Os Estados Unidos estavam sendo fantasticamente sendo ligados pelo rádio. A Europa também, através da Marconi. Nas fantasias mais otimistas já havia operários ouvindo Mozart, analfabetos bebendo as palavras de Bernard Shaw e gente dos mais distantes rincões sabendo as últimas de Wall Street ou do palácio de Buckinghan, tudo pelo rádio. O rádio era uma arma, mil vezes mais poderosa do que os canhões da Grande Guerra. Roquete começou imaginá-la integrando e educando os milhões de brasileiros dispersos pelos mais de 8 milhões de quilômetros quadrados. Seria como completar, só que em escala nacional, a obra de Rondon.

A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro – PR-1-A

Era preciso fundar uma rádio e ele era o homem para isso. Uma rádio educativa, “com fins científicos e sociais”, de preferência ligada a Academia Brasileira de Ciências, da qual era secretário. O primeiro passo era pedir o apoio do presidente desta, Henrique Morize, seu velho mestre. Morize, que era a modéstia em pessoa, assustou-se com a idéia, mas não resistiu ao incandescente entusiasmo do discípulo. Os outros membros da academia foram logos contagiados.

Tratava-se agora de remover os obstáculos. No dia 14 de abril, Roquette soltou pela Gazeta de Notícias a campanha para libertar o rádio da lei que dificultava que os cidadãos possuíssem aparelhos domésticos. Tinha um argumento forte: devido às transmissões da Praia Vermelha, os Correios haviam fornecido 536 licenças especiais apenas nos primeiros meses de 1923. Tal demanda era uma prova de que o Brasil inteiro queria o rádio (uma das licenças, aliás, contemplara o próprio Roquette, embora seu aparelho fosse o que provocara risos abafados em Amadeu Amaral).

Mas só um fato consumado, como a existência de uma rádio, forçaria a queda da lei. Pois ele cuidou de que isso acontecesse: no dia 20 de abril, na sala de física da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco, em plena reunião da academia, os cientistas comandados por Roquette fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro – PR-1-A.

A primeira diretoria já saiu constituída daquela reunião. Morize foi aclamado presidente, Roquette secretário e outros acadêmicos ocuparam os cargos de tesoureiro e conselheiros. Os demais membros da academia assinaram eufóricos a ata de fundação e mais de trezentos sócios-efetivos e associados a subscreveram. Para os padrões daquele tempo, era quase um ato de desobediência civil, praticado por senhores de pincenez e colarinho duro – se se aplicasse a lei, não haveria cadeia no Rio de Janeiro para todos. Mas, numa jogada hábil, Roquete indicou para presidente de honra da Rádio Sociedade o próprio ministro da Viação e Obras Públicas, Francisco Sá – de quem dependeria a revogação da lei que tornava o rádio uma atividade clandestina.

No dia 1º de maio, sob vista grossa da autoridade, a Rádio Sociedade fez a sua primeira transmissão experimental pela estação da Praia Vermelha. Ás 20h30 em ponto, Cauby de Araújo, um dos signatários, anunciou a declaração de Roquette-Pinto comunicando a fundação da rádio. Roquette tomou o microfone e, com grande otimismo e exagero, disse: “[A partir de agora] todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente, no espaço, as harmonias”.

Belas palavras, mas ainda levaria tempo para que o rádio atingisse todos esses lares. E ainda havia a lei “retrógrada e carrança”, como ele a chamava. Mas a pressão deu resultado. No dia 11 de maio, Francisco Sá assinou a revogação: o rádio no Brasil estava finalmente livre. Já era possível ter um aparelho em casa sem ir parar no presídio da rua dos Barbonos, futuro Evaristo da Veiga. Ao governo caberia apenas licenciar o funcionamento das emissoras. Uma semana depois, no dia 19, a Rádio Sociedade promoveu a sua instalação solene, usando novamente emprestado o equipamento da Praia Vermelha para a sua transmissão inaugural.

E ponha solene nisso. Roquette e seus colegas reunidos na Escola Politécnica, ouviram emocionados quando, da Praia Vermelha, Edgar Sussekind de Mendonça abriu a transmissão recitando um soneto do próprio Roquette intitulado, bem a propósito, O Raio. Era simbólico: o raio viaja pelo espaço e vai cair sabe-se onde – como o rádio. (A única cópia do poema perdeu-se naquela noite e o autor nunca conseguiu reconstituí-la de memória). Em seguida, Heloísa Alberto Torres, filha do abolicionista Alberto Torres, leu um conto infantil de Monteiro Lobato, de que não há registro do título. E, concluindo, Francisco Venâncio Filho leu uma página de Os Sertões. Com aqueles poucos minutos de vozes no ar, a Rádio Sociedade silenciou e a estação da Praia Vermelha voltou aos seus serviços telegráficos. Mas, para todos os efeitos, uma rádio brasileira ferira pela primeira vez – como se dizia – o éter.

Oficializadas as transmissões no Brasil

Vibrando com o resultado, M. B. Astrada, sócio-fundador da rádio e representante no Brasil da Casa Pekan, de Buenos Aires, especialista em equipamentos de radiofonia, doou à Rádio Sociedade uma pequena estação emissora e receptora de 10 watts – suficiente para que, com boa vontade, ela se fizesse ouvir no centro da cidade e arredores. Três meses depois, no dia 20 de agosto, o governo federal, já com Arthur Bernardes na presidência, autorizou oficialmente o início das irradiações no Brasil, desde que “para fins educativos”. Bernardes não parou por aí: permitiu que a Rádio Sociedade fizesse uma hipoteca do material emissor no Banco do Brasil, no valor de 100 contos de réis, para instalar a antena e cobrir as despesas. Entre estas, estava a compra de uma estação de 1 quilowatt, fornecida pela Marconi, com a qual a rádio poderia ultrapassar até os limites do então Distrito Federal.

Rádio Sociedade PRA-A começa a funcionar

No dia 7 de setembro – um ano depois da Exposição do Centenário e funcionando no pavilhão doado pela Tchecoslováquia, em frente à Santa Casa de Misericórdia, na rua Santa Luzia -, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, agora com o prefixo de PRA-A, entrou triunfalmente no ar.

Não era nada parecida com a rádio que logo se faria no Brasil. Ao contrário, com seu programa de “educação em massa”, a Rádio Sociedade parecia, a princípio, uma extensão da Academia de Ciências. Os acadêmicos faziam tudo: produziam, escreviam e apresentavam os programas. Roquette dava o exemplo: acordava todos os dias às 5 da manhã, lia os matutinos, circulava com seu lápis de duas cores tudo que lhe parecesse interessante e, duas horas depois, estava diante do microfone apresentando o “Jornal da Manhã”. Lia as notícias, com destaque para o noticiário internacional, e comentava-as para os ouvintes. Outros levavam discos de suas coleções de clássicos e óperas, botavam-nos para tocar e falavam dos compositores, músicos e cantores. Ninguém era pago, era tudo por amor. E havia os que se apresentavam nos programas, recitando poesia, cantando ou tocando piano – entre os quais o próprio Roquette.

Para que não se pense que a rádio era um instrumento de sua vaidade, é bom dizer que Roquette era razoavelmente eficiente ao piano e que sua voz de barítono era elogiada pelos entendidos. Ele próprio era um homem rigoroso: quando, certa vez, o escritor Afrânio Peixoto insistiu em cantar na rádio, Roquette não fez por menos: “Mas, com essa voz, Afrânio ???”. Peixoto caiu em si e contentou-se em recitar poemas de cordel, no que foi acompanhado no piano por Roquette.

Nem tudo era música e literatura. Os acadêmicos também davam palestras e cursos pelo microfone, de acordo com suas especialidades: português, biologia, história, francês, geografia e até silvicultura. O Rio, capital da República, recebia toda espécie de personalidades da área cultural e científica, e um programa obrigatório desses figurões era uma visitação às instalações da Rádio Sociedade – um deles, em 1925, já na Rua da Carioca, 45, foi Albert Einstein.

O amadorismo da rádio era tão flagrante quanto a boa vontade dos que a faziam. A programação também não era de cunho exatamente popular, mas ninguém se importava: os aparelhos eram caros naqueles primeiros tempos, poucos podiam possuí-lo e esses poucos gostavam do que a rádio punha no ar. O que os desagradava era o som terrível das transmissões. Os jornais viviam cheios de cartas protestando contra os ruídos e chiados da PRA-A e temendo pelo futuro do rádio no Brasil, caso aquilo não melhorasse. Roquette, com sua larga visão histórica, não se assustava com a ameaça:

“Nós, que assistimos à aurora do rádio, sentimos o que deveriam ter sentido alguns dos que conseguiram possuir e ler os primeiros livros”, ele disse ao microfone.

Rádio Sociedade – Sem fins lucrativos

“O rádio é a escola dos que não têm escola. É o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode ir à escola; é o divertimento gratuito do pobre; é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos e o guia dos sãos – desde que o realizem com espírito altruísta e elevado”. E sempre concluía suas falas com a frase que se tornaria o lema de sua rádio: “Pela cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo progresso do Brasil”.

O espírito “altruísta e elevado” a que Roquette se referia significava uma rádio sem fins comerciais – ou seja, sem anúncios. Muito bem, mas quem arcava com os custos das transmissões? Roquette institui um fundo de auxílio à rádio, mantido por associados (que chegaram a três mil em poucos anos) – daí o nome Sociedade. Esse fundo era enriquecido com doações “espontâneas” de casas comerciais.

Quando se viu com mais dinheiro em caixa, a rádio começou a criar um corpo de funcionários fixos e remunerados. Era o início da profissionalização. O primeiro locutor de verdade (speaker, como se dizia e se continuaria a dizer por muitos anos) parece ter sido Rubey Wanderley. Na sua esteira vieram outros locutores, programadores, roteiristas e discotecários, trabalhando por salário. Aos poucos, o dia-a-dia da rádio começou a sair das mãos da Academia de Ciências, embora isso não alterasse o seu espírito: Roquette cuidava de que ela continuasse educativa e se mantivesse à distância de qualquer contaminação política, comercial ou excessivamente popularesca. Mas era de se prever que a Rádio Sociedade não ficaria sozinha por muito tempo no “éter”.

Educação x propaganda

Em 1924, surgiria a Rádio Clube do Brasil, também nos mesmos moldes de uma “sociedade” (no caso, “clube”) de contribuintes. Nos dez anos seguintes, e só no Rio, apareceriam as rádios Educadora, Mayrink Veiga, Philips, Transmissora, Guanabara, Ipanema, Farroupilha, Jornal do Brasil, Tupi e, em 1936, a Nacional. Em São Paulo e no resto do país, outras estações também pulularam. Em pouco tempo, a orientação geral do rádio brasileiro era outra. Afastara-se anos-luz da que fora um dia sonhada por Roquette-Pinto. E a própria Rádio Sociedade teria de se espremer suas doses maciças de alta cultura para programar um pouco de “entretenimento”.

O ídolo Francisco Alves apresentava ao microfone da Rádio Sociedade um grande sucesso carnavalesco de Ismael Silva, Newton Bastos e dele próprio, o samba “Nem é bom falar”. A certa altura da letra, Chico Alves cantou: “Tu falas muito, meu bem, e precisas deixar / Tu falas muito, meu bem, e precisas deixar / Senão eu acabo dando pra gritar na rua / Eu quero uma mulher bem nua!”.

Em seu novo apartamento na Avenida Beira-Mar, Roquette-Pinto escutava a transmissão. Ao ouvir Francisco Alves cantar pelo microfone que “queria uma mulher bem nua” quase teve uma coisa. Ligou no ato para a emissora, chamou urgente um encarregado e mandou-o tirar a rádio do ar. Em seguida mandou chamar o próprio Francisco Alves e passou-lhe uma espinafração:

“Seu Chico, o senhor quer uma mulher bem nua. Eu também quero uma mulher bem nua. Só que o rádio não é lugar para querer isso!”

Mas não adiantava. O decreto-lei 21.111, de 1/3/1932, assinado pelo presidente Getúlio Vargas, autorizara a veiculação de propaganda comercial pelas rádios. Com isso, como numa avalanche, surgiram os patrocinadores, os cachês artísticos, os programas de auditório, os humorísticos, as transmissões esportivas, os anúncios e os jingles ao vivo. Os aparelhos baratearam e o rádio tornara-se, finalmente, acessível a todo mundo. E, de uma hora para outra, tornara-se também o principal fator de divulgação da música popular. Os grandes cartazes (como eram chamados os cantores e compositores mais famosos) passaram a ser disputados pelas emissoras: Carmen Miranda, Sylvio Caldas, Mário Reis, Almirante, Ary Barroso, Lamartine Babo, Orlando Silva e, claro, Francisco Alves. Para ter esses nomes em seu cast, as rádios investiam em equipamento e novos programas, pagavam-lhe fortunas e brigavam como cães adultos pela preferência do público.

Roquette-Pinto não entrava nessa briga. Para ele, o rádio deveria continuar educativo – pelo menos a sua rádio. Até fizera algumas concessões, com a de acolher em seus quadros o já famoso “Programa Casé”, de Ademar Casé – um berço de talentos com Noel Rosa, Haroldo Barbosa, Paulo Roberto, Nássara, Evaldo Rui, Sadi Cabral. Tudo corria bem e ele gostava de música popular, mas, assim que se descuidou, Francisco Alves pediu mulheres nuas pelo microfone.

Nadando contra a corrente, Roquette continuava a não admitir propaganda comercial ou política em sua emissora – o que a condenava a um gueto no dial. Mantida, como sempre, apenas pelos “sócios”, a Rádio Sociedade não tinha dinheiro para modernizar o equipamento e ampliar a potência a fim de enfrentar a concorrência. As óperas completas que transmitia (e que atraíram milhares de jovens brasileiros para o canto lírico) estavam sendo sufocadas em volume por “O Teu Cabelo Não Nega”. Roquette desejava apenas que houvesse espaço para todo mundo. Mas, agora, o ideal do rádio educativo no Brasil estava em perigo.

Em 1933, convenceu seu amigo, o educador Anísio Teixeira, secretário da Educação, a fundar uma rádio-escola a ser mantida pela prefeitura do Rio, para servir de exemplo a outras no futuro. Anísio topou, Roquette emprestou-lhe equipamento e funcionários da Rádio Sociedade e, com isso, a Rádio Escola Municipal, PRD-5, foi para o ar no ano seguinte. Em troca, Anísio pediu que ele fosse o seu primeiro diretor. Roquette aceitou. Talvez a nova estação do Largo da Carioca (rebatizada em 1945 como Rádio Roquette-Pinto) pudesse escapar ao comercialismo que parecia engolir todas as outras, inclusive a sua.

Para evitar a morte ou a desfiguração da Rádio Sociedade, Roquette só enxergava uma solução: reverter seus canais a um órgão oficial – o Ministério da Educação e Saúde.

A Doação da Rádio Sociedade

Em julho de 1936, quando resolveu se desfazer de sua rádio, Roquette-Pinto chamou seus filhos Paulo, de 27 anos, e Beatriz, de 25, à Rua da Carioca. Informou-lhes que, aos 52 anos, era um homem pobre e que a única herança que poderia deixar-lhes era a rádio, para que a dirigissem como uma rádio comercial. Só o prefixo, já então PRA-2, valia uma fortuna. “Mas não quero que ela se transforme numa rádio comercial”, acrescentou.

A seu ver, ninguém – nem ele, nem seus filhos – poderia salvá-la desse destino. Somente um órgão oficial teria meios para isso.

Beatriz entendeu o que seu pai queria dizer. E nem esperou pela opinião do irmão. Antecipou-se e perguntou:

”É esse o seu ideal, papai?”


”É”, respondeu Roquette.
”É tão raro um homem realizar seu ideal, meu Deus. Dá a rádio, papai. Nem se discute”.

Roquette então perguntou por carta a Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, se o ministério se interessaria pela rádio com tudo o que havia dentro: instalações, equipamento, biblioteca, laboratório de ensaios científicos, discoteca, instrumentos musicais, partituras, arquivo, móveis e utensílios, além, é óbvio, da estação transmissora em perfeito estado de funcionamento, com seus canais de ondas médias e curtas, e um quadro completo de locutores e técnicos com 13 anos de experiência. Tudo isto sem dívidas ou ônus de espécie alguma para a União e até com dinheiro em caixa. Única e irrevogável condição: a de que a rádio permanecesse fiel ao seu lema cultural e educativo, sem qualquer vinculação comercial, política ou religiosa.

Capanema respondeu que o presidente Getúlio Vargas aceitava e agradecia, mas sugeria que a reversão fosse feita através do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Ao ler isso, um alarme tocou na cabeça de Roquette. Ele pareceu adivinhar que, em menos de um ano, o tal departamento se tornaria o infame Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo. Ora, ninguém o estava obrigando a desfazer-se de sua rádio. Sem hesitar, mandou outra carta a Capanema enfatizando que a reversão seria feita “ao Ministério de Educação do povo, não ao governo”. E só então Capanema entendeu e encerrou a correspondência, garantindo que o ministério a aceitava sem discussões, nos termos em que fora proposta.

Essas cartas foram os anticorpos que, no futuro, garantiriam a integridade da rádio contra os vários órgãos que tentariam apossar-se delas.

A reversão foi sacramentada no dia 7 de setembro de 1936. Na cerimônia oficial, realizada no terceiro andar do prédio da Rua da Carioca, Capanema fez-se acompanhar por seu chefe de gabinete, Carlos Drummond de Andrade. Vinte e cinco anos depois, Drummond recordaria numa crônica que a cerimônia “tinha qualquer coisa de casamento no seio de uma família muita unida, que via a filha sair nos braços do rapaz escolhido livremente; sim, um excelente rapaz, tudo estava ótimo, os dois seriam muito felizes – mas... quem sabe?”

A imagem lhe ocorrera porque Roquette passara os canais a Capanema com a frase:


”Entrego esta rádio com a mesma emoção com que se casa uma filha”.

Roquette saiu dali com Beatriz para um pequeno corredor nos fundos do andar e chorou de antecipada saudade. Com os olhos também molhados, Beatriz voltou para ajudar Drummond a colar os selos do ministério nos móveis e objetos da rádio.

Naquele dia, há exatamente 60 anos, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro deixava de existir, para que nascesse a Rádio Ministério da Educação.

Roquette e o início da televisão

Em 1924, Roquette candidatara-se à Academia Brasileira de Letras na vaga do poeta Vicente de Carvalho, mas fora derrotado. Em 1927, foi eleito na vaga de Osório Duque Estrada. Usou o fardão na noite da posse – e nunca mais. Um ano antes, tornara-se diretor do Museu Nacional. Bem ao seu estilo, em todo o tempo em que partejou o rádio no Brasil e esteve à frente da emissora, Roquette nunca interrompeu seu trabalho científico: naquele período, publicou dezenas de palestras e monografias sobre antropologia, medicina, história e lingüística. Entre uma e outra, traduzia Goethe. Um jornalista francês escreveu-lhe perguntando se tinha uma divisa. Roquette respondeu: "Crer e agir”. E explicou que nunca agira sem crer e que, depois de crer, nunca deixara de agir.

Agir, para ele, era uma segunda natureza. Em 1933, como um menino curioso que – em vez de destruir um brinquedo para saber como funciona – constrói esse brinquedo para vê-lo funcionar, Roquette montara uma televisão primitiva, à base de processos mecânicos usando o disco de Kipkov. Com isso, simplesmente realizou a primeira transmissão de imagens no Brasil. Instalou a emissão na sede da rádio na Rua da Carioca, um receptor na casa de seu amigo Flávio de Andrade na rua Cândido Mendes, em Santa Teresa, e fez uma única transmissão. As imagens mostravam cartazes com as letras A, B e I, formando a sigla da Associação Brasileira de Imprensa. No futuro, o cronista Antônio Maria destacaria o fato de que, graças a Roquette, as primeiras imagens de TV mostradas no Brasil não foram as de um anúncio comercial ou um retrato do presidente da República, mas o nome da entidade dos jornalistas.

Mas Roquette sabia que ainda era cedo para a televisão. Até lá, havia muita coisa a ser feita, como salvar a rádio ou, se não conseguisse, passá-la para um órgão público – o que acabou acontecendo. Depois de doá-la ao ministério da Educação, Roquette ainda a dirigiu por boa parte de 1937 antes de entregá-la a seu sucessor Fernando Tude de Souza. Só que, antes disso, no próprio ano de 1936, ele já se envolvera com a que seria a ultima paixão de sua vida: o cinema.

Roquette e o Cinema Educativo

Um vendedor de eletrodomésticos fora procurá-lo no Museu Nacional tentando empurrar-lhe alguns para o museu. Chamava-se Humberto Mauro, tinha 39 anos e era famoso porque, mesmo morando na pequena Cataguazes (MG), fizera filmes que se tornariam clássicos do cinema brasileiro, como Tesouro Perdido (1927) e Brasa Dormida (1928). Mudara-se para o Rio em 1930 para trabalhar na Cinédia, fizera Ganga bruta (1933) e acabara de rodar Cidade-mulher, com música de Noel Rosa e Assis Valente. Era um gênio intuitivo, mas, nas hora vagas, tinha de virar-se vendendo enceradeiras e aspiradores de pó. Roquette não lhe comprou nenhum - mas comprou o próprio Humberto Mauro com a proposta: “Você vai trabalhar comigo. Vamos fazer o cinema educativo no Brasil!”

O Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE) foi fundado por Roquette naquele mesmo 1936. A partir de O Descobrimento do Brasil (com música de Villa-Lobos), permitiria a Humberto Mauro rodar, nos anos seguintes, cerca de 300 documentários em curta-metragem, de caráter cientifico, histórico e da poética popular. Quase todos sob orientação de Roquette, que também escreveu e narrou muitos deles. No INCE, eles formaram toda uma geração de técnicos até 1947, quando Roquette aos 63 anos, afastou-se da presidência e deixou Mauro em seu lugar.

O INCE funcionava num prédio da Praça da República, dois andares acima das novas instalações da Rádio Ministério da Educação. Donde, até sem querer, a menina-dos-olhos de Roquette-Pinto continuava sob o seu olhar vigilante e satisfeito. No decorrer dos anos ele apreciou o progresso da sua criação. Suas idéias originais – “maluquices líricas”, como as chamava Drummond – foram conservadas, desenvolvidas e com os recursos técnicos e financeiros dados pelo governo, até ampliadas.

Os últimos anos de Roquette

Roquette maravilhava-se ao ver que a rádio podia manter várias orquestras como a sinfônica, de câmara, de sopros e afro-brasileira; um quarteto vocal e outro de cordas; um conjunto de música antiga; um coral, um trio, vários duos e um fabuloso quadro de solistas. Os maestros responsáveis por eles chamavam-se Eleazar de Carvalho (regente do programa “Música para a juventude”, que ficaria décadas no ar), Alceo Bocchino, Radamés Gnatalli, Guerra Peixe, Francisco Mignone, Iberê Gomes Grosso, Abigail Moura e muitos outros - a nata musical do Brasil. Roquette acompanhava também os concursos de orfeões promovidos pela rádio, somando às vezes mais de 700 vozes. Tudo aquilo nascera de seu pioneirismo.

Roquette gostava também de ver os programas educativos em forma de radioteatro e vibrava com os programas sobre literatura, poesia, teatro, cinema, folclore e jazz. Mas, provavelmente, seu grande orgulho era saber que as aulas do “Colégio do ar”, transmitidas diariamente em dois turnos durante o ano letivo, contavam com milhares de alunos matriculados. Era o sonho feito realidade: o rádio como professor.

Em seus últimos anos, a imagem de Roquette-Pinto, já enorme, cresceu às dimensões de uma lenda. E os que seguiam à distância as suas realizações nem imaginavam que, desde pelo menos 1935, qualquer movimento físico lhe provocava dores quase intoleráveis. Roquette passara a sofres de espandilose – um processo degenerativo da espinha vertebral que o foi deformando aos poucos, curvando-o para frente e impedindo-o até de virar o pescoço sem virar também o tronco. Era cruel que isso lhe acontecesse – logo a ele, que sempre convivera tão harmoniosamente com sua saúde, seu corpo e sua beleza.

Para combater a dor, Roquette habituara-se à aspirana, que tomava, não de uma em uma, mas às colheradas, várias vezes ao dia. Mas nada disso impediria que continuasse ativo até o fim. Às vezes, até desnecessariamente.

A Universidade do Brasil ia homenageá-lo com o título de professor honorário, a mais alta láurea universitária. Com quase 70 anos, Roquette subiu pela escada e chegou cansado ao andar onde se daria a cerimônia. Seu amigo, o cientista Carlos Chagas, perguntou-lhe por que não usara o elevador. “Sou um homem disciplinado”. Respondeu Roquette. “O contínuo lá embaixo me disse que usasse a escada”.



Roquette sofreu um derrame fatal no dia 18 de outubro de 1954, em seu apartamento na Avenida Beira-Mar, enquanto escrevia um artigo para o Jornal do Brasil. O apartamento em que insistia em viver sozinho, com os poucos aposentos, inclusive o banheiro, entulhados de engenhocas mecânicas que inventava para se divertir. Nem todas iriam funcionar e ele sabia disso. Mas suas principais criações – Rondônia e a Rádio Ministério da Educação e Cultura – estavam mais vivas do que nunca.

E ele também sabia.


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