Rosinha, minha canoa



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ROSINHA, MINHA CANOA

José mauro de Vasconcelos

EXPLICAÇÃO

ANTIGAMENTE, quando escrevia, deixava entrever minha ternura mas com

muito medo. Queria que todos os meus romances cheirassem a sangue e viessem

rotulados com o carimbo de: Machos pra Burro. Foi preciso que chegasse aos quarenta

anos para perder todo o terror de minha ternura a derramar por minhas mãos que

queimam de carinho (quase sempre sem ter ninguém para o receber) a simplicidade deste

meu livro. Leia-o quem quiser. De uma coisa estou certo: não tenho nada de que me

desculpar perante o público. Apresento, pois, ROSINHA, MINHA CANOA



Primeira Parte

OS VEGETAIS

Primeiro Capítulo

CONVERSA DE AMOR

Sempre acontecia assim: Zé Orocó sorria porque acabava de lembrar que a vida

era pai d'égua de bonita.

Foi por isso que o remo deu um chape-chape tão suave que a água do rio quase

virou música e a canoa deslizou macia como se voasse.

O Sol morno e sonolento escondia-se nas nuvens e começava a descer rebocando a

tarde. Jaburu, na praia branca do rio, conversava uma eternidade de silêncio, caminhando

de lá para cá e, voltando as pernas longas, retornava ao ponto de partida. Bicho tão feio e

desengonçado ao caminhar, no vôo não havia ninguém que lhe tivesse a elegância.

Veio um vento friinho, friinho, que lhe arrepiou as costas sem camisa. Mas até

aquilo era bom. Anunciava a grandeza do frio do verão.

Zé Orocó sorriu mais largo. Pensava nas noites em volta da fogueira, nas línguas

vermelhas das chamas correndo a lenha seca; no mundão de estrelas que estavam ali bem

perto; em escutar a conversa de gente; no corpo cansado do ardor do sol, dormindo

encolhido nas cobertas fininhas, tentando tapear o frio que encompridava a noite.

Mês de abril 'tava no fim. Chuva grande, só no outro ano. Talvez ainda caíssem

umas pingadas ligeiras. Talvez uma chuva de um dia ainda aparecesse, mas mais que isso

era improvável.

Fitou o rio que de subida, só homem macho para burro se aventurava, enfiando,

quando dava pé, a zinga comprida que calejava a mão ou o remo que zunia de tanta força,

fazendo o coração baforar sangue, pulando. Era cada estirão de dar medo. A luz do dia

suspendia as árvores da selva, ao longe, como se toda a plantação estivesse no céu em vez

de estar na terra.

O vento frio, de novo. Deu um empurrão na zinga e comentou com Deus:

— Boa tarde, verão bonito, que vem chegando com tanta ternura.

E como Deus só sorrisse, sem responder, continuou remando.

Esqueceu a paisagem e voltou a cismar sobre o que estava acontecendo.

Dentro de três dias chegaria à barreira de Pedra. Por que teriam mandado aquele

recado? Achava-se contente da vida, pescando e salgando o seu peixinho, quando a canoa

do índio atracou na praia.

— Que é que foi, Andedura?

Andedura sungou a canoa na areia.

— Zé Orocó, tem lá um home. Diz que é dotô. Quando dá fé é mesmo, porque ele

tem uma mala cheia de ropa e ôtra cheia de munto remédio.

— E que é que ele quer comigo?

— Sei não. Andedura tirou uma palha de milho do bolso da calça e começou a

picar o fumo de rolo na palma da mão.

— Qués um sinharu?

— Não gosto muito desse rebenta-peito.

O índio ficou espiando a variedade de peixe secando ao sol e se acocorou por um

momento, soltando largas baforadas e apreciando com os olhos miúdos a beleza da tarde.

Depois, quando acabou, tirou a roupa, mergulhou na água morna, sacudiu os cabelos

longos, voltou a vestir-se, e dessa vez sentou-se mesmo junto de Zé Orocó. Amigo bão

'tava aí! Amigo de tudo quanto era índio: fosse carajá, fosse javaé. Diziam que Zé Orocó

até quando ia ao Xingu fazia amizade com tudo quanto era raça de índio esquisito. Desde

os camaiurás até aos de beiço grande e de nome difícil: txucarramãe. Que, no fim das

contas, nada mais era que caiapó beiçudo.

— Tu vai?

O coração de Zé Orocó fez um troque-troque meio agoniado. Franziu a testa,

tentando vencer, afastar um mau pressentimento.

— Como é que é o homem?

— Grandão, meio laranjo no cabelo. Forte, sempre mudando a camisa por causa

do calô. Se tira a camisa, num güenta "mororã" porque tem pele branquinha, branquinha.

Peitão meio gordo, ansim que nem ocê, cheio de sucusiri. Quano chegô, tinha barriga

meio grande, mais parece que num gosta munto de cumida da gente; tá ficano irixato. Eu

pensei que ele fosse irmão daquele padre Gregoro, que pangolô aqui pelo Araguaia já vai

pra uns cinco ano...

Feito o retrato, o índio descansou, esperando nova pergunta.

— Que foi que veio fazer?

— Diz que tratá de gente. Cutucô tudo mundo de injecção. Deu que deu munto

remédio. I inté veio mesmo botô bicha... Gente de maleita tá inté curano frio depressa...

— Como é que ele soube de mim?

— Foi ansim. Vinha gente, o dotô tratava. Preguntava: Farta mais? Vinha mais

gente: Farta mais?... Inté que dissero que fartava ocê. Cumu eu vinha de viage pediro pra

te prucurá. Pronto, te dei recado.

— Sendo assim... Zé Orocó coçou os cabelos ondulados e bastante crescidos. O

branco já instalara sua morada em sua cabeça, em toda ela.

— Andedura, tu come mais eu, hoje?

— Vô inté posá aqui. Ansim nóis cunversa munto.

— É mesmo. Faz tempão que a gente não se fala...

— Teu afiado Canari Sariuá tá ficano um homão.

Andedura sorriu pensando no filho, já rapaz. Sentiu até, durante um minuto,

saudades de casa.

— Vou te dar uma rapadura e anzol, pra tu levar pra ele, viu?

— Brigado.

Andedura foi buscar lenha na praia para fazer coivara e assar o peixe do jantar.

Depois disso, já fazia três dias que Zé Orocó zingava rio acima e esperava, com

mais três dias, já ter passado a barra do Rio das Mortes, cinco léguas acima de São Félix

e chegar à barreira de Pedra na boquinha do amanhecer.

Perdido em seus pensamentos, Zé Orocó reparou, assustado, que a noite se

aproximava, distraída e ligeira. Precisava procurar uma praia bem seca, na boca do vento

da noite, para que este tocasse alguma muriçoca que ainda estivesse viva.

Zé Orocó lembrou-se dela e resolveu acabar com a briga. Fazia dois dias que ela

emburrara e não trocava uma palavra com ele. E como sempre era a última a querer fazer

as pazes, tocava a ele começar.

— 'Tá bem na horinha da gente encostar, não é?

Silêncio. Nada de resposta. Insistiu:

— Aquela praia lá é alta. Você gosta? Ela se dignou a responder:

— Xengo-delengo-tengo... Tanto faz.

Zé Orocó armou-se de mais paciência; exclamou:

— Credo! Você ultimamente anda com gênio ruim!... Fica emburrada por

qualquer coisa! Quando a gente fala nem liga...

— Xengo-delengo-tengo. Sou eu, não é? Eu quem tem a culpa de tudo. Por

qualquer coisa você briga e discute e no fim ainda me xinga e bota a culpa.

Numa hora dessas, para que as coisas não piorassem, era melhor mesmo concordar

e arranjar uma desculpa.

— É que ando meio nervoso com esse negócio do doutor...

— Xengo-delengo-tengo. Pois então precisa melhorar. Eu digo: vamos encostar na

praia ali, você pega, vai encostar do outro lado. Só faz mesmo daquilo que gosta...

— Prometo que vou tomar mais cuidado.

Fizeram uma pausa. A noite escurecia mais. Quase não se via a margem do rio e o

branco da praia ia sumindo, sumindo...

Zé Orocó sorriu por dentro. Ela estava ficando mais mansa.

— Você acha que é melhor encostar onde?

— Xengo-delengo-tengo. Dê mais três remadas e o recanto é ótimo...

Então ele botou na voz todo mel de todos os engenhos do Brasil.

— Você gosta de mim?

— Xengo-delengo-tengo. Gosto. E você?

— Eu adoro você.

— Xengo-delengo-tengo. Você está mentindo.

— Quer que eu jure? Pois bem. Juro pelas cinco chagas de São Francisco de Assis.

— Xengo-delengo-tengo. São Francisco de Assis só tinha quatro chagas.

— Tinha cinco. Uma grandona, no coração, que ninguém podia ver. E agora?

— Xengo-delengo-tengo. Se é assim, é bonito. Eu... eu... acredito.

Zé Orocó suspirou, aliviado. No céu, Tainá-kan, a estrela grande dos carajás, fazia

um pequeno halo de frio, em torno do seu enorme brilho.



Segundo Capítulo

A HISTÓRIA DE UM HOMEM SIMPLES

Madrinha Flor suspendeu o cabelo, que caía em mechas sobre os olhos todas as

vezes em que se debruçava sobre o fogão; ou para reavivar o fogo, colocando mais lenha,

ou para remexer o caldo grosso na panela de ferro encardido. E assim era, toda uma vida.

Quando conseguia afastar-se, limpando as mãos na saia rodada, era para distribuir um

sorriso ou uma palavra amiga. Pé de bondade brotara em sua alma. Naquele momento

estava tão distraída, que cantava qualquer coisa: música sem letra ou letra sem

significado algum.

Foi por isso que não viu quando Chico do Adeus entrou no rancho, sacudindo o

chapéu molhado da chuva, a que também não prestara atenção.

— Diabo de chuva besta!...

Madrinha Flor voltou-se e sorriu. Olhou a grossa cortina que descia turva sobre o

Rio Araguaia. Aí, pegou e tornou a sorrir.

— Cala a boca, Chico. É uma chuvinha bonita de logo e que passa num pisco.

— Que passa, passa. Mas ela vem danada sobre minhas costas desde que saí da

porteira do Brejão.

Madrinha Flor falou com doçura:

— Um homão desse porte gritano de uma chuvinha tão macia. Lembre, home, que

é a chuva que fais brotá o milho...

Encostou-se na porta e ficou vendo a cortina d'água derramando-se sobre o

encrespado rio. Do outro lado uma canoa encolhida deslizava depressa. Podia ser um

índio carajá. Podia ser um branco, também. Que bonito estava o rio! E muito mais bonitas

iam ficar as árvores, quando a chuva passasse, deixando-lhes aquele verdor orvalhado.

Tudo para Madrinha Flor era bonito. Fazia anos que emigrara para aquele ponto e ali

ficara vivendo. Viera dos lados mais distantes do Maranhão. Gostara. Ficara. Ninguém

por nada poderia tirá-la daquele pedaço de terra. Os anos mostravam as mesmas coisas

para os seus olhos. Vinham a chuva, a lebre e o mosquito. Chegava o frio, a noite

estrelada, o fogo dentro do rancho... e tudo aquilo tinha um novo encantamento, de cada

vez. Mas fazia muito tempo, fazia. No rancho calejara as mãos dando bóia para tropeiro,

para vaqueiro, para quem quisesse comer do que tinha. E só.

Voltou para o fogão e sorriu de novo. Sua vida era justamente o contrário da vida

de Chico do Adeus. O homem tinha mania de viajar sem sair do seu canto. Quando

aparecia uma revista velha, desbotada, manchada, com paisagens do mundo, Chico do

Adeus espremia os olhos tentando soletrar o nome do lugar e decorar no coração o

traçado de uma viagem. Assim, desse jeito, o velho vaqueiro tinha viajado pela praia de

Copacabana, por Buenos Aires, pela Cote-d'Azur, pelo Alabama... Mas o lugar mais

distante onde estivera fora mesmo Cabo Verde. Com certeza fora porque achara o nome

bonito, porque, afinal, no retalho complicado de sua geografia, até um nome esquisito

que lera na revista, pronunciando torto, subway, era um país lindo. E fossem dissuadi-lo

de suas idéias malucas... e pronto! Briga de lado, faca de banda e ameaça de castrar todo

mundo. Diversas vezes ele demonstrara o seu jeito de compreender um mundo. Mar era

coisa que não existia mesmo. O máximo da coisa era o rio dividindo a terra. Rio, sabia

que havia muito, mas mar!... Onde se viu uma besteirada daquelas? Um aguão absurdo

cheio de sal? Só a gente besta podia acreditar naquilo. Como é que podia ser? Então não

chovia nunca em cima do mar? E se chovesse, como é que o sal não se dissolvia? E se

não chovesse, como é que o mar enchia sempre, conforme contavam?... Evidente se

tornava que o mar devia ser um daqueles rios tão grandes, assim como o Amazonas, que

os mariscadores contavam. Mas não viesse contar aquela pataracoada de mar cercando o

mundo, cercando Cabo Verde ou subway e ainda por mal dos pecados dos outros, cheio

de água salgada...

Mas, que ali estava um homem de coração bom, ah! isso estava!... E o pior era não

poder, com aquela cabeça dura que nem mocororo, sair do seu canto. Madrinha Flor sabia

e ninguém ignorava também que Chico do Adeus conhecia trinta léguas em todos os

sentidos: norte, sul, leste e oeste. Depois, só aquela mania de dizer adeus aos sonhos...

Foi por causa disso que se tornou Chico do Adeus. E foi bom porque ele não tinha

mesmo outro nome. Aparecera ali como a semente que o vento traz, pequenininho e

buxudo. Fora ficando, encorpando, fazendo de tudo; ficara homem; não se casara porque

esperara sempre realizar uma viagem; tomara conta de gado e limpara campo para as

grandes roças; manejara a vida toda o cabo do remo, a roda do laço. Fora ficando de

cabelos brancos sem sair do seu cantinho, continuando a acenar a todos os seus sonhos.

Madrinha Flor sorriu, percebendo que Chico do Adeus acabava de deixar o rancho

em direção do curral destrambelhado. A chuva se esgarçava no rio. Chuva linda! Mas

Chico do Adeus era homem bom. No dia em que o doutor chegara, fora chamando todo o

mundo e todo mundo apresentara uma mazela mais importante que a dos outros e, ainda

por cima, cada qual empregara um modo mais choroso, mais lastimoso, de contar a

miséria... Pois bem, quando chegara a vez de Chico do Adeus, ele tirara o chapéu e

colocara na cabeça a mão direita, muito sem jeito, porque não sofria de nada. Nunca

tivera dor de dentes e sua cabeça era dura demais para doer. O diabo fora quando o

doutor quisera fazer sua ficha.

— Seu nome?

— Chico do Adeus.

— Chico do Adeus de quê?

— Uai! Adeus do Adeus, só!

O doutor coçara a cabeça redonda. Êta Brasil grande e desconhecido!

— Idade?

— Sei não, siô...

— Mais ou menos.

Chico do Adeus quisera bancar o inteligente. Mas inteligência batia na dureza de

pedra da sua cabeça e saía besteira na certa.

— Maisomeno nunca foi idade, dotô!...

Riram de lado mas o doutor olhara seriamente e todo mundo encabulara.

— Sente alguma coisa?

— Não, siô...

— Tem maleita?

— Não, siô...

— Dor de cabeça, dor no baço; teve doença venérea?

— Não, siô...

— Não sente então coisa alguma? Nunca esteve doente?...

— Devera, devera, dotô, fais uns quatro ano que eu quano mariscava pra seu

Climero do Zuza, lá pras bandas do ôtro lado do rio que munta gente chama de

Amargozinho, mas que eu descunfio que o nome é ôtro, eu tive, una baita... posso dizê,

dotô?


— Sou médico. Estou aqui para isso. Diga.

— Num quereno fartá cum o respeito, mais eu tive uma espremeção baita de

soltura. Acho que foi do moio de pimenta que a gente pois na sopa de cauda de jacaré

cum banana crua...

O médico engoliu o riso.

— Bem. Mas agora... sente alguma coisa?

Bastiana do Brejão não se agüentou.

— Dotô o sinhô tá perdeno espaço cum esse traste. Isso é tão maludo que inté a

doença corre dele.

Chico do Adeus fuzilou:

— Sabe de uma coisa, dotô? Eu corri mais foi dela. Essa coisona aí sem jeito cum

vóis de fêmea qui nunca encontro macho deu em cima de mim qui num foi vida. Munta

veis eu vinha carreteando o gado e ela tava lá na pinguela da Matroca, sentada em cima

dos morão, cum as perna balançano, cum a saía alevantada, dano corrente de ar na

aranha, pensano qui eu quiria quarqué coisa. Mais cumigo não, muié tem que sê gente e

não essa melancia espetada em duas flecha...

— Cala a boca, mandraquero! Dotô, examine bem ele proque eu acho qui a

piranha cumeu a divisão da metade dele...

Bastiana estava rubra das risadas.

O doutor falou energicamente para manter a moral.

— Calem a boca; preciso de silêncio para poder trabalhar.

Chico do Adeus estava ali em sua frente, humilde e esquecido do fato.

— Então o senhor não sente nada?

— Sinto, sim siô, desde minino.

— Diga.

— Vontade de viajá.



— Isso não é doença.

— Num é pruquê o siô nunca sintíu...

— Homem, pelo amor de Deus, eu falo de dor, dor mesmo.

— Ah! Isso eu num sinto nada, não, graças a meu padrinho Sant'Antonho de

Catingereba, que é o único santinho Antonho, preto que nem tisna de panela. O siô já

ouviu falá nele?

Mas o doutor ficou meio caceteado e resolveu por termo aquilo.

— Moço, se o senhor não tem nada, por que veio me consultar?

— Num vim pedi consurta, não, dotô. Mais dissero que o siô quiria espiá todo

mundo...


A chuva sumira lá na curva do rio. O Sol botou os olhões para fora de novo.

Madrinha Flor olhou para o outro lado do rancho. O doutor dormia na sua rede mais

nova, rede das visitas. Soltava cada ronco... comprido... Balançava o pé, batendo

compassadamente no travão do rancho, mas continuava a dormir. Aquele sono danado

devia ser motivado pelo calor, a que não estava acostumado; era muito branco e sua pele,

muito delicada e alva, estava agora queimada de tanto apanhar sol quente. Ela também

não conseguia compreender o doutor. Ele dissera que viera descendo o rio desde lá de

cima, de Leopoldina. E que ali seria o último ponto de parada. Precisava, dentro de uma

semana, virar o motor e retornar. O pior era que no ano seguinte voltaria pra ver o

resultado. Só então continuaria a viagem, rio abaixo, dando novas consultas, fazendo

novos exames... Ora, gente rica era esquisita mesmo!... Já que estava ali, por que não

continuava rio abaixo, até Belém? Dizia que não tinha tempo... Ora... Qu'importava? Ele

é que sabia da vida dele... Desconfiava era de que o homem estava com saudades de casa,

isso sim!... Da esposa e dos filhos... Na carteira dele havia um retrato da mulher, muito

bem penteada, com os cabelos finos e bastante claros, cercada de um punhão de meninos

e meninas bonitinhos, bonitinhos, todos de sapato e roupa nova, cheirando a coisa limpa.

Madrinha Flor botou o café para esquentar. Devia chamar o doutor, dar-lhe café,

dizer-lhe que já eram quase quatro horas; ele que fosse fazer qualquer coisa, porque

senão, de noite, ele se danaria a tagarelar, sem sono. E seria um fala-que-fala que não

acabaria mais. Falava de coisas que muitas vezes nem entendia. Seus olhos ficavam

ardendo de sono, com uma vontade doida de estirar-se na rede, mas ele nem desconfiava.

Era trau-trau mais trautrau de língua. Ele se esquecia de que manhãzinha, antes da

madrugada, ela precisava de acordar os galos, examinar as galinhas, saber as que iam

botar ovo e prendê-las, porque, caso contrário, os bichos comiam os ovos no mato.

O bule soltou o primeiro bafo de calor. Ela pegou a caneca velha e foi botando o

café enquanto pensava: "Pena que nenhum motô que desce traga uns trem novo. Já

encumendei muntas veis, mas é de defíci o pessoar se alembrá sem o dinhêro na frente.

Agora, se tivesse uma mobília bem branquinha, cuns desenho de oro, num percisava

atendê o dotô, pessoa de tanta boa cerimonia, cuma caneca descascada... Consolou-se.

Afinal, ele sabia que ali nos fins do sertão do Araguaia, no meio da Ilha do Bananal, não

podia encontrar o luxo da cidade, nem a garantia de um hotel. Encaminhou-se para a

rede. Chacoalhou o punho. A voz saiu-lhe suave:

— Doto, um cafezinho.

O homem bocejou, abrindo os olhos como se visse tudo pela primeira vez. O

vermelho do canto dos olhos demonstrava apenas preguiça e moleza. Meteu a mão por

dentro da camisa aberta e coçou o peitão branco e cabeludo.

— Quano dá fé o siô prefere um chazinho de vinagrero...

— Não. Não, Madrinha Flor. O café é melhor. Tira o sono.

Sorveu a bebida econômica de açúcar e requentada...

— O homem vem?

— Zé Orocó? Deve tá vino se Andedura deu recado. Numa hora dessas ele deve

'tá beirano a barrera do Piqui, em cima do Rio das Morte... O dotô num quer ir banhá?

— Acho que é bom. Quer me chamar o menino?

Madrinha Flor chegou até à porta do rancho e gritou para o lado do rio como se

chamasse lá no infinito:

— Giribel!... O... Giribel!...

Num piscar d'olhos o moleque surgiu; veio correndo, lá da barranca. Os dentes

eram duas praias arregaçadas. Numa das mãos trazia a vara de pesca e na outra uma fieira

de piranhas vermelhas que ainda chicoteavam reclamando vida.

— Pronto, madrinha.

— Prepara a canoa e vá na praia limpa dotro lado pro dotô se banhá.

Este continuava ainda sentado na rede branca, curtindo, como fumaça que some, o

resto da enorme preguiça que o ambiente produzia. Seus olhos pesados foram subindo

pelas pernas grossas de Madrinha Flor. Descobriu que eram pernas fortes e bem feitas e

pela primeira vez reparou que a mulher ainda devia ser nova. Subiu mais a vista e se

fixou nas ancas roliças mal acomodadas numa sala grosseira. Sentiu dentro dele uma

comichão meio incomoda e ao mesmo tempo gostosa...

A mulher virou-se:

— Giribel já foi caturá a canoa. 'Tá já de vorta.

Os olhos do doutor, disfarçadamente, observaram o resto. Madrinha Flor apanhou

a caneca e foi em direção ao fogão. O homem então se levantou, espreguiçando-se. Abriu

o malote, pegou o sabonete com a toalha... tornou a se espreguiçar, estalando uma porção

de ossos ao mesmo tempo. Encostou-se na porta e fitou o rio que machucava os olhos de

tanta luminosidade. Foi de novo para o interior. Pelo pescoço descia outro filete d'água,

que ia se encontrar com o molhado do peito, acumulando-se e vazando pela camisa.

— Eu gostaria de saber mais sobre o homem. Como é mesmo que ele se chama?

Zé do quê?

— Zé Orocó.

Alguma coisa no fogo chiou gostoso e veio aquele cheiro forte de gordura

resmungando.

— Corno foi que ele veio parar aqui?

— Fais munto tempo. Eu inda era bem moça. Ele tamém. Tinha bem pôco rancho

aqui na barrera de Pedra. Só me alembro que chego um home qui era triste. Que diziam

que morava na cidade. Foi ficano. Morô em muntos lugar do rio, mais pro fim preferiu

aqui mermo. Todo ano, isso 'té os dias de hoje, ele vai 'té lá em cima em Leopordina pra

buscá um dinhêro que mandam da cidade. Chamaro ele de Zé Orocó e ele fico seno Zé

Orocó. É uma história munto simpres, dotô.

— Ninguém sabe do motivo por que ele veio para cá?

— Só Deus mermo. Pruque Zé Orocó num conta nada pra ninguém.

Madrinha Flor sorriu.

— Antes de ficá ansim cumo é hoje, eu tive um filho co'ele. Morreu benzinho

ansim. — Com a mão esticou o tamanho do defunto no espaço.

O doutor apanhou um cigarro no bolso da calça e riscou um fósforo acendendo-o.

Voltou a fixar a mulher, com certa insistência. Por dentro se recriminava: "Arre,

diabo, que minha eletricidade hoje está dando choque!"

— Faz tempo que ele começou a ficar assim?

— Pra falá a verdade, a gente inté perdeu a conta do tempo. Mais dês que ele

arranjo aquela mardita canoa, destrembelô.

— Ele costuma ficar bravo de vez em quando?

Madrinha Flor enxugou a mão na saia, fazendo, sem o querer, com que aparecesse

um pedaço da perna forte, um pouco acima do joelho.

Quá o quê? Ele sempre fala mansinho. Nunca se zanga. Criatura prestativa 'tá ali.

Socorre tudo quanto é doente. Empresta suas arma pra quem pedi. Dá anzor, divide

rôpa... Só que...

— Que... o quê?

— De repente dá uma tristura nele que num caba mais. Num fala cum ninguém.

Num come. Parece que num vê, num ove. É numa hora dessas que a gente fica cum medo

que dê um trovão no juízo dele e pronto, vá matano todo mundo. Só tem um jeito, então;

ele pega a canoa e se some no mundo. Vai pescá nus lago, nus furo e passa às veis inté

um meis sem dá as cara.

— E o negócio da canoa, é verdade mesmo?

— Eu nunca vi, mais tem gente que já escuitô.

Madrinha Flor silenciou por um momento, para depois continuar:

— Mais tudo que acuntece pelo rio a gente sabe e é Zé Orocó que vem contá. Se

chuveu no arto, se vai tê enchente grande, quando sobe cardume... Ele sabe de tudo.

— E como é que ele adivinha?

— Diz que Rosinha conta tudo pra ele.

— Quem diabo é Rosinha?

— Uai, dotô, o nome de batismo da canoa dele!

— E a senhora acredita que a canoa possa saber de tudo?

— Sei não, dotô. Mais a gente vê tantas coisa extravagante por esses gerais a

fora...


— E como é que a canoa pode saber?

— Cunversano cos pexe, cos boto, cas pirarara, cas corvina, cos jaburu...

O doutor sorriu. Pelo jeito não era só Zé Orocó quem estava louco, não. Enfim,

aquela gente era tão simples...

— Chego, dotô.

— Quem?


— Giribel.

O doutor olhou o negrinho, que sorria brancamente.

— Cadê aquele outro, o Coró?

— Corá saiu manhãzinha pra pastoreá uma vaca parida co Chico do Adeus.

— Vamos.

— A canoa 'tá lá no ôtro porto de cima — apontou Giribel.

Atravessaram pela frente dos ranchos. Todo mundo vivia sua santa vida sem

mesmo prestar atenção no que o doutor fazia; já se haviam acostumado com sua figura

corada e grandona.

— 'Tá veno, dotô, aquele trierinho que sobe perto do pé de simbaíba?

O médico dirigiu seu olhar para onde apontava o menino.

— Puis aquela cabecinha de rancho que a gente avista, lá longe, é do rancho de Zé

Orocó.

— Quem toma conta do rancho quando ele viaja?



— Ninguém não. A num sê argum índio que venha de passage e quera posá lá.

Ninguém mexe nas coisa de Zé Orocó, pruque ele nunca nega nada pra quem percise.

O doutor teve uma idéia:

— Ei! Giribel, você conhece a canoa de Zé Orocó?

— Cunheço, sim; é a Rosinha...

— Como foi que ele arranjou a canoa?

— Um índio 'tava morreno, deu pra ele de graça. Um veinho chamado Curumaré.

— Você já viu Zé Orocó conversando com ela?

Giribel encarou o doutor com os olhos arregalados; de tão arregalados deixavam

ver, sobressaindo, o branco dos cantos. Tremeu os beiços.

— Óie, dotô, meu pai num quê que a gente fale nem nisso.

— Mas por que esse medo todo de uma simples canoinha?

— Ela é maluda. Tem influência de Lateni. Lá estava ele de novo ouvindo o

pessoal falar de coisas que não entendia.

— Quem diabo é Lateni?

— É isso mermo que o sinhô 'tá dizeno.

Persignou-se depressa e beijou as pontas dos dedos.

— Então Lateni é o diabo?

Giribel baixou a cabeça e falou, como se não o quisesse:

— Lateni é o deus-bicho do mar dos índios carajá...

Vendo que não conseguia descobrir nada, o doutor caminhou em silêncio,

fumando. Tinham deixado agora o terreno dos brancos e pisavam a parte dos índios.

Choças malfeitas e desalinhadas... e não eram em grande número. Tudo vazio. Somente

numa delas deparou com uma velhinha sentada no chão, com os dedos nodosos trançando

a palha de uma esteira. Fazia aquilo com certa agilidade, sem reparar em mais nada. O

cachimbo na boca, apagado. E só os dedos desfiando e cruzando as fibras.

— Nessa época, cabo a chuva, desceu o rio, tudo que é raça de índio vai morá na

praia, morá no sor. Cunhãzinha e arioré fica todo dia pulando drento d'água e saíno. 'Tá lá

a canoa, dotô...

Giribel deslizou sorrindo pela barreira, olhando de um certo modo gozado o jeitão

pesado do doutor descer a barranca. Firmou a canoa para que o médico subisse. E quando

viu o homem instalado na proa, deu um impulso e manejou o rio.

A canoa foi se afastando e o sol quente, amenizado por um vento que vinha da

praia do outro lado, invadiu a embarcação.

Longe, os manguaris voavam em círculo, perscrutando o rio na faina da pesca.

Giribel remava, todo convencido de si mesmo. Naquele momento era um homem com a

importância de um homem e carregava na sua força e no seu infantil orgulho a pessoa

mais importante que já vira na vida, depois do padre Serafim, que não aparecia por

aquelas bandas há mais de oito anos.

A canoa passou rente a uma moita de sarão e uns jacus-ciganos revoaram

barulhentamente, indo pousar nas margens de um pequizeiro, rabanando as caudas lindas.

— Aquilo ninguém come, dotô. É seco que nem tísico, Bom mermo é pegá um e

botá num anzor grande pra pegá jacaré de noite.

Chegaram à praia. Uns amontoados de palha, parecendo um rancho, achavam-se

no meio da grande praia branca. O doutor franziu a testa meio aborrecido.

Giribel compreendeu e explicou:

— O sinhô inda num tinha vindo aqui? Coró nunca troxe o sinhô? Puis é a melhó

das praia da gente.

O doutor parou, enfiando os pés na areia. Como se não quisesse caminhar.

— O sinhô tá pensano que tem índio lá? Tem não. Eles saíro bem na boca da

madrugada pra pescá no Rio das Morte. Pode tomá seu banho que num tem ninguém,

não.


O vento morno e gostoso soprava para longe qualquer espécie de mosquito que

tentava se aproximar. A brisa rolava preguiçosa e brincalhona pela areia, para sair mais

adiante, luzidia e rápida como se fosse uma ariranha. Giribel voltou depois nadando para

perto da praia. Riu.

— Pode vim, dotô. Tem piranha não.

O doutor virou-se e começou a despir-se. Depois caminhou mais apressado para o

rio.

Giribel ficou observando o homem.



— O sinhô é mais cabeludo que guariba!

O doutor foi afundando, sentou-se no fundo do rio. Os pêlos do peito ficaram

boiando pra lá e pra cá na água caminhante.

Giribel pensou: "Pur isso é que ele num gosta de tomá banho perto de todo o

mundo".

— Pur que é que o sinhô é ansim e índio é tão lisinho?...



O doutor riu, sem saber dar uma explicação ao menino.

— Isso é assim mesmo. É como gente que tem cor branca, gente que tem cor preta,

ou mesmo gente como índio.

Apanhou o sabão e começou a ensaboar o corpo branco.

— Tome. Use também o sabonete.

Giribel apanhou-o e levou-o até às narinas. Cheirou comprida e gostosamente.

— Êta! Cumo é bom a gente sê rico! Podê usá coisa sempre cherosa ansim!

Fechou os olhos de tanto prazer. Depois foi passando o sabonete no corpo inteiro,

da mesma forma que fazia o doutor.

— Você gosta? Quando eu for embora, deixarei um pra você. Tenho muitos.

— É tão cheroso que dá vontade de cumê... Fais inté dó a gente tê que mergulhá e

perdê tod'essa escuma...

Riram os dois e mergulharam ao mesmo tempo. Depois se sentaram na praia, para

secar.


— Giribel!

O negrinho prestou atenção.

— Madrinha Flor é casada com alguém daqui?

— Não, sinhô.

— Mas ela não teve um filho com Zé Orocó?

— Isso já fais tempo. Agora... — Riu, cheio de sem-vergonhice.

— Agora o quê? Giribel piscou os olhos:

— Antigamente ela caso muitas veis. Mais agora... fais é tempo que ela num se

casa...

O doutor apanhou a toalha, sorriu e olhou a tarde que puxava a noite pelas



mangas.

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