Roteiro didático para apreciar a arte



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 HAV – História das Artes Visuais

ROTEIRO DIDÁTICO PARA APRECIAR A ARTE

 

A obra de arte, como entidade física, é inteira e única. No entanto, na mente do espectador podem ser selecionados diferentes ângulos de observação. (...) A cada ponto de vista observará uma parte do conteúdo total.



Pois bem, a completa observação da obra de arte exige que a enfoquemos sob, pelo menos, dez pontos de vista (...).

  1. o ponto de vista factual

 

Sob o ponto de vista factual, o conteúdo da obra de arte é aquilo que ela representa, ou seja, aquilo que ela objetivamente exibe.

A boa e completa apreensão do conteúdo factual é o primeiro passo para entender a obra de arte. O importante é abrir os olhos e ver. Ver com atenção. Ou ouvir, quando se tratar de música.


  1. o ponto de vista expressional

Uma das parcelas do conteúdo da obra de arte mexe, pois, com o sentimento do observador. A essa parcela damos o nome de conteúdo expressional.

O conteúdo expressional é atributo da obra, e não do observador.

Essas reações revelaram-se nitidamente concordantes, com forte tendência, às vezes, à unanimidade.


  1. o ponto de vista técnico

O conteúdo da obra de arte não diz respeito apenas ao fato e ao sentimento. Mais do que isso, e para expressar um e outro, a obra é resultado de um labor técnico.

Observada do ponto de vista técnico, a obra é fruto dos elementos materiais e imateriais utilizados pelo artista para realizá-la. (...)

 


  1. o ponto de vista convencional

Se mostro uma estampa na qual se vê um homem coroado de espinhos, arrastando ao ombro pesada cruz de madeira, o leitor, mais que depressa, identificará Jesus Cristo rumo ao Calvário. Bem diferente será a reação de um indígena da Amazônia que apenas acaba de ser contatado pelo branco, ao se lhe mostrar a mesma imagem. (...)

  1. o ponto de vista estilístico

(...) A pluralidade de culturas explica a pluralidade de estilos artísticos, já que cada obra de arte é sempre parte integrante do mundo cultural de um povo. A obra não é uma peça isolada. É fração de uma cadeia de fatos à qual se integra. Ao observarmos a obra sob o ponto de vista estilístico, colocamos mentalmente em relevo a ligação que existe entre a obra e a corrente cultural dentro da qual foi engendrada.

No entanto, a noção de conteúdo estilístico não se esgota na identificação da corrente artística à qual a obra pertence. Além desse conteúdo estilístico coletivo, fruto da ambiência social, há que se considerar o conteúdo estilístico individual, resultante da personalidade do artista criador. A obra sempre é relacionada a uma cultura, mas seu autor é um indivíduo. Se é bem verdade que os valores e padrões do mundo cultural do artista criador, armazenados em sua mente, influenciam a criação da obra, é inconteste que dessa mesma mente promana a marca de uma personalidade, a qual se transmite à obra. (...)



  1. o ponto de vista atualizado

(...) A fruição artística pressupõe sempre, além da obra em si, a existência de um observador. O aparato mental desse observador deve ser levado em conta.

Envelhecida pelos séculos ou levada de um lugar para outro, a obra de arte deslocada no tempo e no espaço pode acabar sendo vista de maneira diversa daquela como a viam os homens de seu tempo ou lugar. Seus contemporâneos ou seus conterrâneos a viam sob a mesma óptica do seu criador. Passado o tempo ou mudado o lugar, um novo espectador, pertencente a outro universo cultural, pode fazer ajuizamento diferente da obra e, até mesmo, tirar dela um desfrute antes insuspeitado.



  1. o ponto de vista institucional

(...) Em suma: o museu, a galeria, o texto escrito, todas as artes e os artistas infundem respeito.

Esse respeito, um (...) temor reverencial, é fenômeno tipicamente cultural e, a esse título, peculiar a cada civilização. (...)

Nem sempre os artistas tiveram status invejável. Na maioria das civilizações do passado (não em todas) foram igualados a qualquer outro trabalhador braçal. (...) desde o Renascimento europeu para cá o artista começou a ganhar progressiva importância, na mesma proporção em que sua obra também passou a ser vista como um tipo especial de manufatura, desejável por suas virtudes estéticas, independentemente de qualquer destinação utilitária.

A visão institucional da obra é gerada de maneira formal, enquanto a simples atualização se desenvolve por estímulos sociais espontâneos, nem sempre controláveis, geralmente livres e, com freqüência, até contraditórios. (...)

Além disso, a visão institucional pode incidir sobre obra contemporânea e conterrânea nossa, que, portanto, não demanda atualização quanto a tempo e lugar. (...)


  1. o ponto de vista comercial

como qualquer objeto material, a obra de arte tem um preço.

O valor comercial de uma obra resulta da soma de vários fatores, tais como a matéria-prima empregada, a mão-de-obra necessária, as características finais do produto, a raridade da peça, eventualmente a notoriedade do artista, etc.

Às vezes, o valor comercial da obra artística decorre, em parte, do apreço institucional por ela recebido. (...)


  1. o ponto de vista neofactual

Nada é infenso ao passar do tempo. O correr dos anos, dos séculos, dos milênios desgasta, recobre, corrói, sedimenta, transforma todas as coisas e, dentre elas, também as obras de arte.

Quando alguém observa uma tela antiga em um museu, na verdade está vendo a obra mais o escurecimento provocado pelo verniz envelhecido. (...) Muitos quadros que nos mostram hoje cenas mal iluminadas, bruxuleantes, ostentaram, quando novos, cores vivas e luminosas.



  1. o ponto de vista estético

Assim como o alimento é o objeto próprio para nutrir o ser humano; a roupa, para protegê-lo do frio; a casa, para defendê-lo das agressões do clima e dos bandidos; assim também a obra de arte é o objeto apropriado para transmitir-lhe o prazer estético.

(...) o prazer estético é alargamento da mente e conforto para o espírito (...)



A apreensão do conteúdo estético é uma forma de conhecimento que se faz através dos sentidos, mas opera antes de atingir o nível da razão. (...)

 

COSTELLA, A. F. Para Apreciar a Arte: roteiro didático. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1997.


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