Sá, Eliane Garcindo de uerj retratos Femininos na Crônica Andina1



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Retratos Femininos na Crônica Andina1
Os retratos femininos das atoras do processo de conquista/resistência2 não ocupam grandes espaços nos painéis da história. A conquista tem sido muito mais apreciada como obra masculina. As mulheres constituem imagens apagadas, seja pelas ausência de foco de luz sobre elas derramado, seja pela construção do esquecimento a que as condenou a sobre-valorização do fato militar. Uma nova produção historiográfica vem resgatando os múltiplos lados do confronto imposto pela mundialização e mestiçagem instalado no Velho e Novo Mundo: os “outros”, ou seja os atores aos quais se negara protagonismo têm sua participação reavaliada. As possibilidades que se abrem alargam e estimulam desafios que ultrapassam o desejo de restauração de pálidos retratos femininos.

Nesta direção, as reflexões aqui apresentadas são fruto de trabalho desenvolvido em projeto que dá continuidade e resulta de alguns já bons anos de tentativas de compreender as raízes da modernidade, a construção das sociedades mundializadas na América, as marcas das mestiçagens.

As fontes analisadas na documentação da Audiência de Lima, relativas ao período entre 1525 e 1620, no Arquivo Geral das Índias3 durante tais estudos trouxeram à cena o protagonismo da mulher. Diante dos registros compulsados tornou-se impossível ignorar a presença das mulheres. Elas se apresentavam de distintas formas no registro que aponta a condição feminina: através de sua própria atuação, reivindicando seus direitos, através da sua citação, como mãe, esposa, concubina, índia, negra, espanhola, mulata. Surgiam através de menção/percepção de sua atuação registrada por outro, no contexto da burocracia.

A atuação de mulheres, índias, principais e comuns, espanholas, criollas, mestiças, negras, mulatas evidenciava a efetiva complementeridade de funções e papéis entre os protagonistas da conquista e colonização no Vice-Reino do Perú.

A grande e pesada burocracia do Estado Espanhol, os mecanismos de controle crescentes produziram e deixaram preservar um enorme e precioso acervo, cujo detalhamento dos dados permite que se surpreenda a sociedade colonial em formação, observar aspectos de seu quotidiano, constituição, conformação e construção de representações. Muito se pode recompor através de fragmentos e seqüencias de dados e informações, embora, haja, contudo, grandes vazios.

Numa outra perspectiva, encontramos narrativas, discursos de outros testemunhos da conquista, cronistas espanhóis, índios e mestiços, oferecem elementos para compor este quadro das relações em que se pode apontar papéis da mulher, traços da condição feminina.4

Aliar as diversas perspectivas e abordagens fornecidas por fontes múltiplas parece ser um caminho para ampliar os focos refletores sobre o passado.

Os cronistas do início e meados do século XVI, representam olhares distintos preocupados em explicar, descrever e comunicar, tanto as sociedades encontradas pelos conquistadores como o processo da conquista. Estes discursos já apresentam preocupação de sistematização e ordenamento. Com distintas finalidades, já se concebem com base em esforços explicativos e sistemáticos. Falam do ponto de vista do mestiço, do índio e do conquistador5. As narrativas e representações fornecidas pelos cronistas são particularmente ricas na tentativa de recuperar a história das sociedades indígenas e apresentar o contexto da conquista.6 Mais que isto eles avançam na preocupação com o passado das sociedades encontradas, alguns com as sociedades em formação e o futuro das antigas tradições.

Os vestígios dos protagonismos na cena social em foco evidenciavam a complementariedade da atuação entre conquistadores e conquistados, entre homens e mulheres. Embora os protagonistas enfatizassem as ações de conquista, os feitos militares e os tomassem até como critério de benesses, a leitura da documentação indicava que a viabilidade de certos atos, a continuidade do processo de conquista, a manutenção do território e a formação de novas sociedades garantidoras do projeto de colonização e da sobrevivência das sociedades conquistadas estivera sempre, mas até mesmo, predominantemente, em momentos cruciais, sob dependência do cumprimento da responsabilidade social não reconhecida, destinada aos destituídos de poder, pelo critério de relações significantes, atribuído ao gênero e à raça.7 Estas condições não teriam sido também muito diversas de trajetórias históricas anteriores que estariam mais ou menos perceptíveis, partilhando das novas formações.

Os primeiros estudos se destinaram a traçar um quadro da presença da mulher mestiça, o que só pode ser compreendido com a consideração das relações entre os diferentes grupos étnicos interagentes. O texto Mulheres Mestiças no Peru colonial8 foi o primeiro esboço elaborado. Seguiram-se as dissertações de mestrado de participantes do grupo de trabalho, Mulheres índias entre dois mundos: o Vice-Reino do Peru séculos XVI e XVII9 e Às margens da conquista: a participação feminina na formação do Vice-Reino do Perú 10

Até então foi possível construir quadros mais descritivos, constatar, registrar e avaliar a extensão da participação feminina na construção da sociedade observada.

O papel desempenhado pelas “indias” pode ser observado entre os universos em confronto. Foi, sem dúvida, a mulher indígena um elemento mediador determinante nas relações entre conquistadores e conquistados, marcando seu protagonismo profunda e longamente estas relações.

A tecitura das novas relações impostas pela situação colonial, que articulou e amalgamou as sociedades em contato, sustentou e produziu sistemas simbólicos de múltiplas origens e que permitiram o arranjo a que se pode chegar nestas novas relações. A dissertação de Patrícia Freitas Silva, já mencionada, demonstra aspectos relevantes destas construções.

Entre modelos oriundos dos diversos sistemas representativos e simbólicos, na procura de condições de reconhecimento capazes de viabilizar a sobrevivência individual, familiar, grupal, física, cultural, as possibilidades de arranjo e articulação estabelecidas entre estratégias e táticas definidas em relações de gênero incluíram complexas construções. Elas não se limitavam, entretanto, às relações entre espanhóis e índios. É sempre necessário lembrar que o chamado Império Incaico, o Tauantinsuyu estava composto pela dominação do grupo Inca, centralizado em Cuzco, sobre uma variedade de outros grupos, mantidos por um rígido sistema de controle.

Esta situação reproduzia diversas e múltiplas condições de dominação, sujeição, revolta, submissão entre diferentes e se complexifica e se aprofunda com a presença espanhola. As diferenças raciais, a alteridade inferiorizada e negativizada será elemento constitutivo cada vez mais relevante nas relações sociais. Gênero e raça serão elementos indissociáveis para a formação das sociedades inauguradas a partir de então. Em diferentes posições, impostas pela hegemonia e pela força, teremos as diversas correntes raciais resumidas em espanhóis, índios e negros. Sem considerar as variáveis e diversidades contidas nestes universos não será possível avançar no entendimento das condições sob as quais os elementos gênero e raça atuaram como forma primária de relações significantes de poder.

Se os códigos prevalecentes, mesmo por parte dos “conquistados”, nas narrativas, testemunhos de passados e presentes, foram ocidentais, palavras, sistemas referenciais espanhóis, nas tentativas de registrar e alcançar o dominador e/ou requerer reconhecimento, estes foram também reinterpretados, apropriados e expressaram outros códigos, traduziram sistemas simbólicos, valores distintos. Nem sempre, ou talvez quase sempre, estas diferenças foram consideradas, mas os vestígios guardam registros destas produções. Há perplexidades, possibilidades e impossibilidades entre todas as partes em contato.

No esforço de traduzir, tanto “espanhóis” como “ameríndios” deixam traços indicadores dos sistemas referenciais com os quais enfrentam o inusitado.

Assim os registros se constituem em fontes privilegiadas para alcançar não só aspectos das condições que se definem, mas ainda dos diversos sistemas simbólicos que informam as narrativas. É possível argüir e buscar diferentes ideários e ideologias e enfrentar a questão do gênero parar além da recuperação de trajetórias de mulheres e recomposição de papeis. Uma questão de fundo pode ser considerada: como o gênero, tal como entendido, compõe sistemas simbólicos, referenciais para as práticas sociais.

Nosso objetivo de verticalização das reflexões em torno de algumas questões prenunciadas através das investigações e análises até agora realizadas está dirigido para alguns aspectos da obra do Inca Garcilaso de la Vega, por onde iniciamos esta etapa do estudo. A definição de aspectos teórico-metodológicos que estão se constituindo no percurso dos estudos é um aspecto central de nossas preocupações.

Pretende-se avançar no entendimento da questão da formação da sociedade colonial através da consideração da definição de gênero tal como entendida por Scott, enquanto categoria de análise, elemento constitutivo e instrumento para compreensão das relações sociais, considerando a complexidade anteriormente apontada, pelo cruzamento das questões de gênero e raça, em condições de conquista e dominação.11

Ao construir sua narrativa, Garcilaso faz referências que nos permitem resgatar aspectos das relações de gênero e de perceber avaliações e julgamentos de atuações e comportamentos femininos, nesta complexa articulação. A leitura de Garcilaso viabiliza a observação de níveis articulados de dominação sobre as sociedades em que se complexificam as relações sociais, incluindo as relações de gênero e de etnia. Tanto incas, quanto espanhóis se diferenciam dos demais grupos pela sua pretendida superioridade, o que, entre estes, justifica a dominação e a tolerância ou modificação de valores, por parte e sob a direção dos mesmos, enquanto conquistadores.

Estas circunstâncias são relevantes na compreensão das sociedades andino-coloniais, de per si e paras as reflexões sobre as diversas sociedades coloniais, porque evidenciam e exemplificam a multiplicidade de condições na formação destas sociedades, como das possibilidades de novas estratégias e táticas que se constituem e conformam as novas relações. A longa duração de estruturas e sistemas simbólicos associados a relações sociais definidas então não podem ser minimizadas nas sociedades nacionais que se forjaram incluindo tais legados. Gênero e raça não são até hoje elementos que se possa desconsiderar nas conflitantes relações sociais na América Latina.12

Scott chama a atenção para os diferentes elementos inter-relacionados que atuam com função constitutiva das relações sociais, quanto ao gênero13. Enfrentar a desconstrução desses elementos em relação aos processos sociais é um grande desafio, que pensamos pode ser iniciado, com relação à sociedade mencionada, a partir de análise de textos de crônicas e especialmente do texto de Garcilaso.

A obra de Garcilaso considerada para análise aqui é Comentarios Reales de los Incas, escrita em duas partes, publicadas separadamente.

As diferenças entre as duas partes dos Comentarios se remetem à diversidade de temas e nossa concentração na primeira parte dos mesmos se deve ao fato de que nele se observa essencialmente a reconstrução do quadro histórico do perdido Império. Riva Agüero considera que esta primeira parte dos Comentarios é essencial para o conhecimento do Perú incásico, enquanto a segunda parte, em que pese sua originalidade, não seria insubstituível se faltasse. 14

Focalizamos aspectos relacionados ao discurso enunciado por Garcilaso, detendo-nos na primeira parte dos Comentarios, que trata das relações entre os Incas e as sociedades por eles dominadas. Ao construir a narrativa do passado incaico, da hegemonia exercida, ao apresentar os mitos, costumes próprios e dos “outros” a submeter e homogeneizar, apresenta também critérios, sistemas de representações e valores vigentes e ou em mudança, emite julgamentos que permitem recompor valores, sistemas simbólicos, juizos e condenações que permitem recompor normas. A Segunda Parte dos Comentarios será considerada apenas para referência às diretrizes da proposta em curso, já que está mais relacionada com a fase da conquista espanhola e nossas considerações estão voltadas para a sociedade incaica e sua hegemonia no universo andino, tema tratado na Primeira Parte.

A obra de Garcilaso expressa uma circunstância rara: mestiço hispanizado/evangelizado, admite o autor os valores e modelos da sociedade espanhola cristã. Como Inca, resgatando o passado do Império, admite os valores cristãos para observar o passado, mas constrói para este fim uma escala em que define os valores cristãos, como objetivos finais, e os incaicos como intermediários: os Incas precederam os espanhóis na conquista e civilização dos demais povos submetidos ao Império dos primeiros. Assim ao narrar o passado andino estará sempre observando o papel e a função dos incas, tomados como referência na avaliação das sociedades com que interagem, tendo como pressuposto que esta atuação estaria preparando as referidas sociedades para a tarefa de cristianização posterior, a ser efetivada pelos espanhóis.

Para resgatar a história dos Incas, Garcilaso introduz esta narrativa na narrativa da descoberta do Novo Mundo, usando, no Libro Primero de los Comentarios Reales de los Incas, os primeiros três capítulos para as questões do descobrimento de novas terras e outros três para discutir a denominação “Perú”. Segue-se uma descrição do Peru e uma apresentação dos povos que viviam na região antes dos incas, na primeira idade, durante a qual “unos indios había poco mejores que bestias mansas y otros mucho peores que fieras bravas.” O capitulo XV apresenta “El origen de los Incas Reyes del Perú”, que se inicia com uma referência à bondade de Deus, que permitiu a algumas dessas nações serem dominadas, governadas e ensinadas pelos incas, para que estivessem mais prontos e ágeis para receber o Evangelho, o ensino e a doutrina da “nuestra Santa Madre Iglesia Romana Até o Libro Nono, capítulo XL-“La descendencia que há quedado de la sangre real de los Incas“ estará sendo relatada a história da construção, expansão dos incas. Serão apresentados os Incas, seus feitos, costumes, religião, sua fábulas historiais. O último capítulo evidencia a redução das linhagens dos Incas, depois das disputas entre Huascar e Ataualpa e a conquista espanhola.

A sistemática recorrência à comparações pontuais entre as diferentes idades, primeira, anterior aos incas, segunda, sob hegemonia inca e o tempo da evangelização , com os espanhóis tem, entre outras, uma função construtiva de uma continuidade a ser demonstrada na narrativa.

Este eixo observado na estrutura da obra possibilita, em que pesem as muitas distorções apontadas no texto como reflexo da parcialidade daí decorrente, o esforço de distanciamento e o confronto de testemunhos na apresentação de temas e questões em que o autor pressente a possibilidade de polêmica e conflito na interpretação. Esta situação ocorre, por exemplo, diante da necessidade de relatar a origem mítica dos Incas, que se contrapõe evidentemente à interpretação bíblica.



Esta narrativa constitui para nós um ponto de referência para observações sobre algumas representações encontradas no universo inca, através deste autor, mas objeto de cotejo , embora não de comparação apresentada aqui, com outras fontes (seja sobretudo o contra-ponto de Poma de Ayala). Aqui está presente um indicador do confronto entre as condições de reconhecimento de relações de gênero e de dominação, que parecem provocar conflitos para o autor, que, entretanto não foge à exploração do tema. O mito fundador da origem dos incas evidencia uma situação decisiva nas definição de relações sociais, posta entre o reconhecimento de papeis e das distribuições de poder, como da construção de modelos e imposição de normas referentes a gênero. O confronto originário na constituição da sociedade inca se aprofunda posteriormente, agora para o narrador, com o conflito de uma (re)fundação de uma sociedade mestiça. Segundo o depoimento de um tio de Garcilaso, testemunho das antiguidades, citado, como referência textual, os povos anteriores:

En suma, vivían como venados y salvajinas, y aun em las mujeres se habían como los brutos, porque no supieron tenerlas propias y conocidas. ...Nuestro padre el Sol, viendo los hombres tales como te he dicho, se apiadó y hubo lástima de ellos y envió del cielo a la tierra un hijo y una hija de los suyos para que los doctrinasen en el conocimiento de NuestroPadre el Sol..15. La Primera parada que en este valle hicieron fue en el cerro llamado Huanacauri, al mediodía de esta ciudad. Allí procuró hincar en tierra la bara de oro, la cual con mucha facilidad se les hundió al primer golpe que dieron con ella, que no la vieron más. Entonces dijo nuestro Ina a su hermana y mujer: En este valle manda Nuestro Padre el Sol que paremos y hagamos nuestro asiento y morada para cumplir su voluntad. Por tanto, Reina y hermana, conviene que cada una por su parte vamos a convocar y atraer esta gente, para los doctrinar y hacer el bien que Nuestro Padre el Sol manda... Esta divisón de la ciudad no fue para que los de la una mitad avntajasen de la otra mitad en exenciones y preeminencias, sino que todos fuesen iguales como hermanos, hijos de un padre y de una madre. Sólo quiso el Inca que hubiese esta divisón de pueblos y diferencia de nombres alto y bajo para que quedase perpetua memoria de que a los unos había convocado el Rey y a otros la Reina. Y mandó que entre elos hubiese sola una diferencia y reconocimiento de superioridad: que los del Cuzco alto fuesen respetados y tenidos como primogénitos, hermanos mayores, y los de bajo fuesen como hijos segundos; y en suma, fuesen como el brazo derecho y el izquierdo en cualquiera preeminencia de lugar y oficio, por haber sido los del alto atraídos pro el varón y los del bajo por la hembra. A semejanza de eso hubo después esta misma divisón en todos los pueblos grandes o chicos de nuestro Imperio, que los dividieron por barrios o linajes, diciendo Hanan aillu y Hurin aillu, que es linaje alto y bajo; Hanan suyu y Hurin suyo, que es el distrito alto y bajo.

Juntamente poblando la ciudad, enseñaba nuestro Inca a los varones los oficios pertenecientes a varón, como romper y cultivar la tierra y sembrar mieses, semillas y legumbres que les mostró que eran de comer y provechosas, para lo cual enseñó a hacer arados y los demás instrumentos necesarios y les dió orden de manera como sacasen acequias de los arroios que corren por este valle del Cuzco, hasta enseñarles a hacer el calzado que traemos. Por otra parte la reina industriaba a las indias en los oficios mujeriles, a hilar y tejer algodón y lana y hacer de vestir para sí y para sus maridos e hijos: decíales cómo habían de hacer las demás oficios del servicio de casa. En suma, ninguna cosa de las que pertenecen a la vida humana dejaron nuestros príncipes de enseñar a sus primeros vasallos, haciendó-se el Inca Rey maestro de los varones y la Coya Reina maestra de las mujeres16.
Garcilaso confronta esta versão do tio com várias outras, cujas variações apontadas oferecem diferenças quanto ao número de casais originário, mas com destaque para Manco Cápac y Mama Ocllo no papel ordenador, ou quanto ao local de surgimento dos primeiros incas: na primeira versão no lago Titicaca e em outra em aberturas na terra. Na Protestacion del Autor sobre la historia, capítulo XIX, fica evidenciada a dificuldade deste em se desvencilhar da versão, “relación que mamé en la leche” Observa que estes princípios fabulosos procederam às grandezas que a Espanha agora possui.

Garcilaso acrescenta ainda que além da origem admitida pelos incas outras várias são concebidas por diferentes nações.

Deve-se observar que existe uma oposição radical sobre este mito entre Garcilaso e Poma, incluído entre os cronistas a serem considerados, mas aqui não trateremos desta questão, apenas ressaltando que entendemos que a divergência entre os narradores reforça o argumento do conflito na determinação dos papeis sociais e da circunstâncias da dominação.

Com relação à versão apresentada por Garcilaso pode-se observar a forte influência do cristianismo, mas não se pode desconsiderar uma distinção radical e no nosso caso relevante, qual seja a apresentação de um critério para as relações significantes de poder, reconhecimento de funções e papeis entre homens e mulheres, representados ambos como instrumentos de uma interferência divina, como filhos, os dois, em atuação conjunta. Assim, muito se afasta esta da versão judaico cristã e islâmica. Por outro lado, embora reconhecendo esta distinção, também, neste caso, o gênero seria o campo primário de articulação de poder.

Observe-se que aqui se aponta toda uma referência de ocupação, distribuição e organização do espaço – política, informada pela distribuição e reconhecimento de papeis de gênero. Isto é válido ainda para toda a divisão do trabalho. Estão também informados valores e indicadores de modelos, normas e as condições sob as quais seria possível a cada membro da sociedade constituir-se como sujeito, incluindo uma identidade de gênero.

Há muitos aspectos relacionados a estas questões a serem verificados, mas, sem dúvida, observa-se uma coerência entre as correlações estabelecidas , no conjunto do texto – como expressão de uma estrutura do pensamento do autor, com releção à distribuição espacial, divisão de trabalho, definição de linhagens, sustentados por esta correlação inicial.

Uma dificuldade advem de que esta seja uma construção individual e particular, em que não se pode desconsiderar as raízes de sua inserção histórica. O cuidado com estas características só pode ser praticado em cotejos com outras fontes, como prática constante.

Garcilaso também persegue sempre demonstrar a superioridade da evangelização, mas ainda assim fica evidente quão difícil é escapar das raízes de convicções andinas: pode-se observar que certos elementos do pensamento andino estão presentes e escapam podendo ser percebidos se buscados no texto.

Uma das possibilidades de encontrar estas raízes está na explicitação das referências simbólicas com respeito ao gênero nas relações sociais. A narrativa de um passado original sob o formato da perspectiva histórica ocidental não pode retirar do centro da questão as referências às atuações pertinentes às tradições anteriores, mas ainda o legado do sistema simbólico original quando se trata de (re)construir este passado. Garcilaso se remete ao mito original dos incas. O mito foi incluído na história do ocidente como parte incorporada, por Garcilaso, na narrativa, mas também, pela narrativa, através da alegação que o mantinha incorporado à grandeza herdada pelos espanhóis do império incaico17.

Neste império o respeito às mulheres foi imposto aos conquistados pelo ensinamento e imposição das regras de submissão “entre iguais”, na versão de Garcilaso. A rígida estrutura social descrita nas páginas da sua obra como marca das tradições do incário e por este impostas, justificadas pelo padrões constantes do mito de origem, seriam subvertidas pelos espanhois.

Estas considerações demonstram aspectos da profunda (re)ordenação provocada pelo confronto de sociedades tão distintas, em circunstâncias de dominação, justificadas por seus atributos físicos, de gênero e raça.

Ainda resta muito a fazer para que se possa perceber os traços dos retratos de homens e mulheres que construiram sobre suas crenças e valores um mundo novo, dividindo responsabilidades sociais que merecem melhor esclarecimento.


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1O projeto que sustenta as reflexões aqui apresentadas se desenvolve através de um grupo de trabalho que tem compartilhado propostas, materiais, dúvidas e desafios. A autonomia de redação de textos não exclui o partilhamento de percursos comuns de discussão. Particularmente a apresentação deste texto foi possível pela troca de idéias e questionamentos produzidos entre a autora, Ana Cristina de Menezes Santoro e Patrícia Freitas Silva. À Patrícia deve-se a sugestão de tópicos relevantes nesta análise, decorrente de uma rigorosa releitura de textos do Inca Garcilaso de la Vega.

2 Aqui não nos utilizamos do conceito de resistência como reação constante de repúdio expresso à dominação, mas como expressão de resistência vital, de busca de formas de sobrevivência em situação de dominação e confronto, o que compreende um espectro amplo de possibilidades de reação, seja contestação, ou construção de táticas de enfrentamento de estratégias, como propõe De Certeau.

3A análise destas fontes, viabilizadas pela concesão de bolsa de pós-doutorado do CNPq, entre 1996 e1997, em Sevilha.

4 Sobre a crônica como testemunho da conquista ver o estudo de LÓPEZ DE MARISCAL, Blanca La figura femenina em los narradores testigos de la conquista. México: Colegio de México, Programa Interdisciplinario de Estudios de la mujer: Consejo para la cultura de Nuevo León.1997 Introdución pp.13-30

5 Nossa escolha recaiu nos seguintes autores e obras, para uma seqüencia de estudos:

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6 O estudo de LÓPEZ DE MARISCAL, Blanca La figura femenina em los narradores testigos de la conquista. México: Colegio de México, Programa Interdisciplinario de Estudios de la mujer: Consejo para la cultura de Nuevo León.1997 mesmo dirigido para a região mesoamericana e costa caribenha constitui um relevante referencial metodológico para o tratamento da questão.

7 Ver SCOTT, , Joan W. El Género: una categoria útil para el análisis historico In: AMELANG, James S. e NASH. Mary. História y Género: las mujeres en la Europa Moderna y Contemporánea. Valencia: Ediciones Alfons el Magnànim, 1992.p.44,47 e seguintes.

8 SÁ, Eliane Garcindo de .Mulheres Mestiças no Peru colonial .Anais eletrônicos do III Encontro da ANPHLAC.2000 http://anphlac.cbj.net

9 SILVA, Patrícia Freitas - Mulheres índias entre dois mundos: o Vice-Reino do Peru séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro IFCS/UFRJ 2002 dissertação de mestrado.

10 SANTORO, Ana Cristina de Menezes. Às margens da conquista: a participação feminina na formação do Vice-Reino do Peru. Programa de Pós-Graduação em História Social. Rio de Janeiro IFCS/UFRJ2002 dissertação de mestrado.

11 SCOTT, Op. cit., p.44 e seguintes.

12 Ver ARANGUREN, Marysa Navarro. Mirada nueva – problemas viejos. In: LUNA, Lola G. (comp.). Mujeres y sociedad: nuevos enfoques teóricos y metodológicos. Barcelona: Universitat de Barcelona, Edición del Seminario Interdisciplinar Mujeres y Sociedad, 1991.

13 SCOTT, Op cit.,, p.44 e seguintes.

14 RIVA AGÜERO, José de La in GARCILASO DE LA VEGA, Inca, Op, cit.,1944, Examen de la Segunda Parte de los Comentarios Reales .ppXLIV/XLIX

15 p.37/38

16 p. 39-40

17 Relembramos que a estrutura do Libro Primero dos Comentarios Reales de los Incas permite a introduzir o Peru na história mundial. Retomando alguns destes aspectos observamos que após tratar no capítulo I SÍ, HAY MUCHOS MUNDOS. TRATA DE CINCO ZONAS, capítulo II, SÍ, HAY ANTÍPODAS, capítulo III, COMO SE DESCUBRIÓ EL NUEVO MUNDO, inclui neste contexto o Peru. Discute nos capítulos IV, V, VI e VII a questão a denominação do nome Peru, para a partir daí descrever a região e o passado antes dos incas e sob os incas. Um grande espaço é dedicado aos hábitos e costumes, sobretudo religiosos, caminhando a introdução da dominação dos incas. O capítulo XV narra EL ORIGEN DE LOS INCAS REYES DEL PERÚ e os capítulos seguntes também se dedicam a esclarecer o passado através da tradição incaica. A referencia ao que o autor chama “DE LAS FÁBULAS HISTORIALES DEL ORIGEN DE LOS INCAS” conduz ao capítulo XIX, com título PROTESTACION DEL AUTOR SOBRE LA HISTORIA. Esclarece Garcilaso: “Iremos com atención decir las hazañas más historiales, dejando otras muchas por impertinentes y prolijas, y aunque algunas cosas de las dichas y otras que se dirán parezcan fabulosas, me pareció no dejar de escribirlas por no quitar los fundamentos sobre que los indios se fundan para las cosas mayores y mejores que de su Imperio cuentam. Porque, enfin, de estos princípios fabulosos procedieron las grandezas que en realidad de verdad posee hoy España, por lo cual se me permitirá decir do que conviene para la mejor noticia que se pueda dar de los principios, medios y fines de aquella monarquia, que yo protesto decir llanamente la relación que mamé en la leche y la que despues acá ha he habido, pedida a los propios mios y prometo que la afición de ellos no sea parte para dejar de decir la verdad del hecho, sin quitar lo malo ni añadir a lo bueno que tuvieron, que bien sé que la gentilidad es un mar de errores, y no escribiré novedades que no se hayan oído,sino las mismas cosas que los historiadores españoles han escrito de aquella mi tierra y de los Reyes de ella y alegaré las mismas palabras de elo donde convieniere, para que se vea que no finjo ficciones en favor de mis parientes, sino que digo lo mismp que los españoles dijeron...” Op.cit.,, pp 45, 46

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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