Saberes e Sabores: Os hábitos alimentares das mulheres na maturidade. Mudanças, Regras e Prazeres



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Saberes e Sabores: Os hábitos alimentares das mulheres na maturidade. Mudanças, Regras e Prazeres 1
Selma Peleias Felerico Garrini 2

ESPM/ UPM - SP
Resumo

Considerando que a diversidade cultural presente na alimentação constitui aspecto de suma importância nos campos da comunicação e do consumo o tema desse artigo são as práticas de consumo alimentares a partir dos modos de representação do corpo feminino veiculado na mídia. O objetivo desse projeto é compreender a produção de sentido a partir dos saberes midiaticos estéticos e alimentares dirigidos à mulher na maturidade. Os objetivos específicos são: registrar as mudanças comportamentais no consumo, entre as mulheres de 50 a 65 anos, no que se refere aos habitos alimentares e a construção estética feminina; identificar e categorizar os vários tipos de corpos encontrados que contribuem para a construção de novas identidades femininas, por meio da percepção e do comportamento das mulheres investigadas.A hipótese central é que o imaginário alimentar feminino se constrói pela influência familiar e se reconstrói pela mídia.


Palavras-chave: corpos femininos; hábitos alimentares; maturidade; consumo feminino; dietas

Introdução

Após a pesquisa Identidade Feminina. Percepção e Comportamento de Consumo relacionado à Beleza e à Estética Corporal das Mulheres na faixa etária entre 50 a 65 anos, desenvolvida pela autora em 2012 – sobre corpo, beleza e consumo – observou-se uma angustiante preocupação feminina com a construção da beleza e da manutenção do corpo, e o arrependimento das entrevistadas por não terem essa preocupação na juventude. As mulheres na maturidade sentem-se aprisionadas, em um passado, no qual as palavras prevenção e manutenção não se fazem presentes. Nota-se também a presença constante do discurso midiático sobre reeducação alimentar no processo de rejuvenescimento feminino.

O que resulta nesse estudo denominado: “Saberes e Sabores femininos. Os hábitos alimentares das mulheres na maturidade. Mudanças, Regras e Prazeres. – em desenvolvimento entre 2014/2015. O objetivo principal é compreender a produção de sentido a partir dos saberes estéticos e dos sabores alimentares midiáticos dirigidos à mulher – de acordo com o convívio social e com o discurso editorial e publicitário inscrito nas revistas femininas – e também as transformações nos hábitos alimentares e no consumo gastronômico na maturidade. Os objetivos específicos são: registrar as mudanças comportamentais no cotidiano, entre as mulheres de 50 a 65 anos, das classes A e B, no que se refere ao prazer corporal e a manutenção da juventude; identificar e categorizar os vários tipos de modelos encontrados que contribuem para a legitimação de novos hábitos alimentares e recontam o imaginário feminino, por meio da percepção e do conhecimento do universo investigado. A classificação a ser aplicada nesse estudo, baseia-se no binômio Consumo e Alimentação: consumo e prazer – mulheres que encaram a alimentação como um dos melhores benefícios que a vida pode lhe dar, ou mesmo uma recompensa por tudo que já passaram; consumo e sacrifício – a alimentação torna-se um elemento punitivo, para obter e/ou manter um corpo magro e rígido; consumo e reeducação – são as normas impostas pela sociedade em geral, o grupo é composto pelos indivíduos que seguem as dietas alimentares que reorganizam seu corpo e sua saúde em geral; consumo e aceitação: o grupo é composto por mulheres que reconhecem seus excessos, como gordura, flacidez, celulites, entre outros problemas corporais, se aceitam e preferem desfrutar dos prazeres gastronômicos.
A hipótese central é que o imaginário alimentar feminino se constrói pela influência familiar e se reconstrói pela mídia. E de acordo com o fazer feminino e o saber midiático, surgem novos hábitos alimentares e novas práticas de consumo gastronômico. Que marcas e significações comportamentais no discurso midiático alimentar são decodificadas pelas mulheres acima de 50 anos? Quais são as práticas de consumo nos saberes e nos hábitos alimentares femininos na contemporaneidade? Quais são as histórias, os sentimentos e os comportamentos das mulheres consumidoras em relação aos passeios e prazeres culinários? Comer, além do sacrifício dietético, dá prazer? É intenção desse estudo, contemplar estas questões.
Referencial Teórico

Para enfrentar as questões apresentadas e dar continuidade a esta pesquisa, vários autores devem ser utilizados , tais como: Cristopher Lasch – A cultura do narcisismo (1983), mostra a ansiedade do homem moderno em consumir como forma de demonstrar status e/ou poder e é fundamental para entender o aumento de consumo dos corpos esculpidos em academias de ginástica, clínicas estéticas e de cirurgia plástica; David Le Breton – Adeus ao Corpo (2003), faz uma análise sobre o discurso científico atual em que o corpo é um simples suporte do indivíduo e revela a intenção da sociedade ocidental de transformá-lo de diversas maneiras – científicas, tecnológicas e estéticas; Francisco Ortega – O corpo incerto. Corporeidade, tecnologias médicas e cultura contemporânea (2008), traz suas reflexões contemplando as ambiguidades atuais nas significações do corpo humano e da subjetividade que chamamos de culto ao corpo, nos auxilia a entender o excessos de cirurgias plásticas no país em mulheres cada vez mais jovens; François Coupry – O elogio do gordo em mundo sem consistência (1990) – questiona o atual mundo magro, superficial, sem consistência, no qual a comida, por meio de seus pratos decorados arquitetonicamente são feitos para serem vistos e não mais digeridos; Henry Pierre Jeaudy – O corpo como objeto de arte (2002) – questiona o fascínio contemporâneo pela exibição do corpo esculpido e pela obsessão estética corporal que o tornam um objeto de arte retrabalhado constantemente pelas clínicas; Letícia Casotti, Maribel Suarez e Roberta Dias Campos – O Tempo da Beleza. Consumo e Comportamento feminino, novos olhares (2008) – apresenta o resultado de uma pesquisa que enfoca a realidade cotidiana de mulheres de classe alta do Rio de Janeiro, mapeando hábitos de consumo de produtos de higiene, cuidado pessoal e beleza em quatro grupos etários.

Joana Vilhena Novaes – O intolerável peso da feiura. Sobre as mulheres e seus corpos (2006) – livro que retrata a insatisfação feminina com o corpo, percebida a partir das constantes intervenções cirúrgicas que as mulheres se submetem atendendo à tirania estética midiática – e Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares (2010) – um estudo que busca entender e revelar novos contextos para conceitos como gordura, magreza, beleza e feiura, nas classes altas e populares do Rio de Janeiro; Mirian Goldenberg – Coroas. Corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade (2008) e Corpo, envelhecimento e felicidade (2011) – resultado de muitos anos de reflexão e de pesquisas sobre os desejos e as preocupações de homens e mulheres das camadas médias urbanas. A Bela Velhice (2013) – mostra que é possível experimentar o processo de envelhecimento combeleza, liberdade e felicidade.  É importante salientar que em seus livros são feitos vários estudos por meio de pesquisas para entender o consumo da vaidade feminina; Naomi Wolf – O mito da beleza. Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres (1992) – registra como as imagens de modelos veiculadas nas revistas femininas são usadas contra as próprias mulheres, no período de 1950 a 1990. A autora desenvolve a teoria da eterna busca pela beleza feminina, como uma religião que envolve as mulheres com a intenção de aproximar-se da perfeição divina e tem seus estudos focados em análises de revistas dos Estados Unidos e da Inglaterra; Louise Foxcroft – A Tirania das Dietas (2013) – um relato histórico dos dois mil anos de luta contra o peso, com dietas, anúncios e outras formas de normatizar os indivíduos enquadrando-os em medidas ditadas pela sociedade. Outros estudiosos sobre corpo, consumo e identidade também serem consultados.
Saberes e Sabores: primeiros resultados

A pesquisa Identidades Femininas (2012), relevou marcas significativas no universo feminino da maturidade e merecem ser aprofundadas nesse estudo sobre midiatização e hábito alimentar. Nota-se no processo de questionamento do referido trabalho que a alimentação é um conceito chave para enfrentar as mudanças impostas pela idade:

Você vai sentindo a diferença... e isso vai te obrigando a ficar mais esperta a ir buscar soluções e a se antecipar realmente. A alimentação é uma preocupação constante, pois quando jovem você não nem liga, hoje com certeza eu tenho mais noção. Ultrapasso uma vez ou outra, mas a rotina é muito focada em se planejar, então tem uma preocupação. (DENISE, 50 anos, publicitária)
Os saberes femininos na maturidade se renovam. São mais seletivos e os modos de tratar o corpo e a beleza exigem mais tempo das mulheres contemporâneas. Casotti, Suarez e Campos (2008) denominaram esta etapa de Cada coisa em sem tempo.

Em Cada coisa em seu tempo, verifica-se também a especialização no uso e nas funções dos cremes para o rosto. Existe o creme da manhã, com filtro solar (ou creme+filtro), e o da noite, com antirrugas, nutritivos ou com ácidos. O creme para os olhos passa a ser usado com frequência, pelo menos uma vez por dia. De maneira complementar, observa-se ainda um cuidado maior com a limpeza do rosto... Por fim a rotina é mais complexa, incluindo a escova no cabelo e uma série de itens da maquiagem (blush, sombra, batom etc.). As consumidoras deste grupo parecem desenvolver uma agilidade que lhes permite navegar com relativa tranquilidade em uma sequência bem mais extensa de atividades. (CASOTTI, SUAREZ E CAMPOS, 2008, p. 102)


As entrevistadas acreditam ter mais convicções nos seus saberes estéticos corporais e o consumo torna-se cada vez mais uma opção pessoal, um momento consciente de prazer e merecimento. “Tudo que conseguir melhorar vou sempre melhorar. Uso cremes antirrugas, hidratantes, maquiagem. Vou fazer uma plástica no abdome no ano que vem.” (ISIS, 50 anos, gerente comercial).

Eu acho que eu continuo com o mesmo comportamento. Eu só me adaptei com a idade. Evidentemente que hoje eu uso cores mais sóbrias, mas isso eu sempre usei. Então assim, não acho que eu mudei muito o perfil do meu consumo. Mudei em termos de medicamentos. Hoje eu tenho que tomar remédio para o colesterol, para a artrose e tenho que tomar vitamina também. (MARINA, publicitária, 52 anos).


A norma corporal rígida e magra passou a fazer parte da vida das pessoas de forma agressiva. Os gordos são rejeitados e considerados por muitos pouco evoluídos, em relação aos saberes – estéticos, alimentares e o cotidiano em geral – devendo ser afastados, se não da sociedade em geral, ao menos na mídia. Poucos são os ícones de sucesso ou celebridades obesas. Talvez, os famosos, se reduzam a herdeiros de grandes fortunas ou alguns intelectuais, músicos e humoristas. Ao lado de livros, instrumentos, fórmulas e calculadoras são permitidas figuras avantajadas.

É um padrão absurdo que levou a tecnologia da beleza ao seu ápice e a absoluta ausência de limite. Meninas e mulheres literalmente “construídas” a base de silicone, cirurgias plásticas, restrição alimentar, atividades físicas excessivas... e nos piores casos, eu já ouvi relatos ate de “raspar os ossos para diminuir quadril” ou “retirar costelas” para afinar a cintura. (MARJORIE, psicóloga de imagem, 27 anos)


As mulheres entrevistadas questionam e constatam a existência de um padrão de beleza sociomidiático: “Acredito ser um padrão que interessa ao imediatismo do consumo, não é focado na realidade regional, nacional; com interesses de poder.” (REGINA, 50 anos, atriz de teatro).

Eu acho que a sociedade cobra um padrão estético no qual a pessoa tem que ser magra. Isso é uma questão da constituição física de cada um. A sociedade cobra isso. As campanhas registram muito isso. E a sociedade, hoje, valoriza muito mais o ser e não o ter. A pessoa vale pelo celular que ela tem, pela bolsa que ela compra, pela roupa que ela está usando. Você fala que eu estou bem vestida, minhas roupas não tem nenhuma marca, você pode notar. (MARINA, publicitária, 52 anos).

O tempo cronológico e o cotidiano saudável são fatores essenciais nos saberes femininos e consequentemente nos seus modos de tratar o corpo: “A minha cobrança é pela vida saudável, sem neuroses de corpo, beleza e consumo. Deixei de ser consumista”. (DOLORES, 52 anos, advogada)

Em vez de se conceber o acesso ao “estágio do espelho” como a passagem do imaginário ao simbólico, como a própria constituição de uma ordem das representações baseada na unidade da imagem do ideal do corpo, pode-se considerar a habilidade das imagens corporais como o efeito da reversibilidade de nossas construções simbólicas. (JEUDY, 2002, p.16).


O corpo é questionado e padece na maturidade feminina. “Quando uma pessoa quer manifestar com certa violência que ela não é mais desejável, que não pode sê-lo, torna-se feia, abandona todos os cuidados que empregava para tornar-se sedutora.” (JEUDY, 2002, p. 73-75). E nossas entrevistadas ratificam essa afirmação: “Ganho de peso e perda de musculatura são coisas que vejo com mais clareza em meu corpo agora. A pele também parece mais seca, as unhas e cabelos também não são os mesmos. (TANIA, 54 anos, editora de moda)

Fiz redução de estomago há dez anos. Inclusive foi uma situação bastante interessante porque eu fiz depois de um divórcio catastrófico. Porque o meu marido não permitia, não queria que eu fizesse e eu corria risco de vida. Mas era aquela coisa interessante, por exemplo, ele me chamava de “figura grotesca”, eu gordinha, não podia fazer a tal da cirurgia e era uma figura grotesca, ou seja, eu era mantida naquele lugarzinho de pessoinha grotesca. (SUELI, 53 anos, professora de artes)


Nem sempre durante a maturidade, as mulheres encaram sua idade como um fardo a ser carregado. Em momentos distintos, identidades e atitudes diversificadas são reconhecidas quanto à aquisição de bens ou hábitos sociais.

Olha, eu tenho receio de fazer uma cirurgia e realmente não sei se precisa chegar a tanto, por exemplo, a barriguinha, eu vou fazer qualquer coisa para tirar a barriguinha. Quem sabe eu andando, fechando a boca eu acho que eu consigo, pois a faca para mim amedronta um pouco, não sou tão resolvida a ponto de deitar numa cama e sair outra. (DENISE, 50 anos, publicitária).


As mulheres que aprendem a conhecer seu corpo e seus limites convivem com ele de forma segura e, estão presentes nas respostas de mulheres que assumem o físico e a saúde é a preocupação que rege os saberes e os cuidados estéticos corporais.

Acima de tudo é saúde, já não me preocupa tanto a questão estética. Eu sou de uma geração em que havia uma divisão entre intelectualidade e beleza, então o intelectual não tinha que se preocupar com o corpo. E nós, justamente, agora, estamos vivendo numa época em que o corpo é importante, então para quem sempre cuidou do intelectual, a gente acaba deixando o corpo para segundo plano. (ROSANA, professora de literatura e tradutora, 52 anos).


A Tirania das Dietas no Imaginário Feminino

Gordura é ruim e fazer dieta é a norma segundo as revistas femininas, mas poucas pessoas nas últimas décadas tiveram uma relação “normal” com a comida, impassível diante a enxurrada de notícias sobre dietas, refeições saudáveis, cardápios ortomoleculares e um ambiente gastronômico radicalmente diverso ao que existira nas décadas anteriores. De acordo Foxcroft (2013) se olharmos para trás torna-se evidente que uma boa parte da indústria das dietas é fraudulentas,e, no entanto, ainda seguimos a moda mais recente sobre o assunto, na esperança de um milagre rápido e fácil de perder peso, porque emagrecer é um trabalho difícil e tedioso.

No entanto todo mundo faz dieta de vez em quando, e a maioria de nós é especialista na autoilusão que, sejamos honestos, é necessária... O processo é como estar apaixonado e provoca os mesmos sentimentos: uma mistura complexa de sensações físicas e torturas mentais do querer (FOXCROFT, 2013, p.18)
Para a autora – doutora em história da medicina – as dietas da moda são pouco mais que inúteis. São as que rendem melhores negócios e, pode-se dizer, as que mais causam mal já existiam bem antes de sua bisavó namorar aquele modelito tricotado lindo, na altura do joelho, para a viagem ao litoral, com um novo admirador. “Quem faz dietas da moda consegue perder inicialmente 5% ou 10% de seu peso com qualquer uma delas, mas os quilos perdidos quase sempre retornam. (FOXCROFT, 2013, p.12) Segundo Foxcroft (2013) o livro de Susie Orbach (1978) – Gordura é uma questão feminista – gordura e sexo são igualmente centrais na vida de uma mulher:

Nos Estados Unidos estima-se que 50% das mulheres estejam acima do peso. Toda revista feminina tem uma coluna sobre dietas. Médicos e clínicas voltados para regimes que prosperam. Os nomes de produtos dietéticos são agora parte do nosso vocabulário geral. Boa forma e beleza física são objetivos de todas as mulheres. Embora essa preocupação com gordura e a comida tenham se tornado tão comum que tendemos a aceitá-las sem discutir, ser gorda, sentir-se gorda e sentir a compulsão para comer em excesso, são na verdade, experiências sérias e dolorosas para todas as mulheres envolvidas. (ORBACH In FOXCROFT, 2013, p. 17)

A história avassaladora das dietas começou nos tempos praticamente sem registro da pré-história, mas decolou, de fato uns dois mil anos atrás, quando os gregos, que sabiam que carregar muita gordura fazia mal, desenvolveram uma maneira fundamentalmente sensata de enfrentá-la – que ainda é relevante para as mulheres.

Durante centenas de anos, muitos de nós, ao que tudo indica sentiram a necessidade de alguém para venerar e imitar, alguém que gostaria de ser, ou, pelo menos, parecer. E nunca houve falta de ícones, de Byron a Greta Garbo e Angelina Jolie, muitos dos quais abraçaram a última moda, ou produziram e venderam seus próprios regimes. A recente e nada saudável investida da cultura das celebridades foi precedida por vários exemplos desse tipo de endosso no passado. O lado desfavorável da veneração de alguém supostamente superior, claro, é ver a si mesmo como ser inferior. E o pensamento distorcido, muitas vezes obcecado, que caracteriza nosso relacionamento com a fama remonta, pode-se dizer, ao sistema límbico de nosso cérebro. Comida, sexo e memória estão todos juntos nesse sistema. (FROXCOFT, 2013, 111)

Clarisse Lispector também contribuiu com o discurso dietético feminino, com várias crônicas veiculados em jornais. Eis um exemplo publicado no Correio da Manhã, em 4 de novembro de 1959, com o pseudônimo de Helen Palmer – A gordura em excesso... E as glândulas:

Para você, leitora, que se acha apenas “cheinha” de corpo, a palavra obesidade deve parecer monstruosa e sem qualquer ligação com a sua pessoa. Saiba, porém, que todo obeso foi alguém “cheinho” de corpo que não soube ou não teve força de vontade para parar quando devia. Métodos para emagrecer ou manter o peso há diversos, uns mais, outros menos eficientes. A ginástica, por exemplo, é o mais difícil e, sejamos francas, o menos satisfatório. É fácil perdermos alguns quilos com exercícios que durem horas, mas recuperaremos esses quilos logo, ou comendo ou bebendo água, ou apenas relaxando os tais exercícios. O melhor exercício mesmo, o método mais seguro para fugir à obesidade, é a seleção dos alimentos. Parar no momento em que deve parar, por mais saboroso e atraente que seja o prato à sua frente. Escolher para o seu menu especialmente saladas, temperadas com limão, caldos ou sopas ralas, com pouco sal, carnes magras, de preferência cozidas ou grelhadas, peixes assados na grelha, lagostas, mexilhões, ostras, sem molho, claro! Os miúdos constituem os melhores alimentos, como fonte natural de proteínas, e não engordam: também os ovos cozidos, o leite magro ou desnatado, vegetais, como o espinafre, vagens, nabos, aipo, abóboras, repolho e as frutas. Alimentando-se assim, você está não apenas armazenando saúde no seu organismo, mas também ajudando a sua elegância. Ser esbelta, bonita e saudável. Este deve ser o objetivo da mulher moderna e inteligente. (apud NUNES, 2008, p. 63).

Coupry (1990) problematiza a fragilidade do mundo e sua superficialidade na produção de informação e geração de conhecimento, desde os anos 80, e que tem na magreza um signo de reconhecimento e ascensão profissional.

Nos anos 80, com o consumo e o hedonismo em alta, percebeu-se que toda a comida ingerida permanecia no “estômago da sociedade abastada”, sendo necessário eliminá-la. Todos tiveram que enfrentar o próprio corpo, a aparência tornou-se vital e o ideal de beleza passou a ser não comer, eliminar gorduras e reduzir calorias. Essa década sacramentou a aprovação do corpo, uma vez que os revolucionários e intelectuais lentamente passaram a aceitá-lo, tal qual ele deveria ser: belo e saudável. Um corpo competitivo. Manter a forma física passou a ser a solução. “Rapidamente o homem passou a ver nessa imagem uma resposta cínica às suas desilusões” (COUPRY, 1990, p. 98).

Enfim todos os regimes denotam porções mágicas, com sortilégios para conquistar um corpo perfeito, utilizando os mandamentos de cozinha dietética e não-calórica que, segundo Coupry (1990, p. 81-82), possui embutida a ideia de que a comida não deve nutrir e sim dar prazer. Para o autor, essa nova relação com a alimentação é um privilégio apenas das classes sociais mais altas e a cozinha tradicional – conhecida por nobre no passado, com seus molhos, temperos e quitutes – tornou-se popular. A gordura é um signo que deixou de representar a realeza ao aproximar-se da pobreza. Devemos lembrar que a vida moderna, mesmo trazendo praticidade para todas as classes sociais, permite que algumas categorias ainda utilizem mais seus corpos diariamente. E, para elas, a comida mantém seu sentido tradicional, em princípio, alimentar e sustentar o corpo.

Considerações Finais
A espetacularização do conteúdo midiático fez com que o corpo e a mercadoria se aproximassem cada vez mais, sugerindo que o mesmo se convertesse em nosso maior bem de consumo. Um valor sociocultural que integra o indivíduo a um grupo e ao mesmo tempo o destaca dos demais. Ter um físico “perfeito”, “bem delineado”, “em boa forma” significa a vitória sobre a natureza, o domínio da pessoa sobre seu próprio destino. A gordura, a flacidez, o sedentarismo simbolizam a indisciplina, o descaso. Quando os gordos deixaram de ser a alegria e o consolo da sociedade de consumo entre as décadas de 1960 e 1970, surgiu um mercado consumidor em busca de um corpo perfeito – de acordo com as medidas exigidas pela moda de cada década, pelas tribos – e até hoje são lançados diariamente novos produtos com fins estéticos e as marcas se perpetuaram nessa busca constante.

A midiatização e seus excessos mercadológicos têm sua parcela de responsabilidade nessa disciplinarização, desde as mais remotas publicações tipográficas até os dias atuais, com imagens photoshopeadas, dietas milagrosas, regimes espartanos e mulheres magérrimas que ilustram os impressos e refletem o padrão desejado. O objetivo da mulher em se manter magra passou por várias fases: em princípio, para agradar o homem – ficando mais limpa, leve, sem gorduras; depois, para conquistar seu espaço profissional – com um corpo mais reto e firme, próximo ao masculino – e, por último, para adaptar-se ao hiperconsumo do século XXI – em que estar magra, jovem e “descolada” é fazer parte da sociedade, ser incluída nos grupos.

A mídia em geral não ajuda...Não estou defendendo que a mulher não possa se cuidar e que fique desleixada com a idade. Afinal, anos atrás quem tinha 50 anos era uma senhorinha e hoje as mulheres com 50 anos estão super ativas no mercado de trabalho. Normalmente os filhos já cresceram e estão podendo desfrutar da companhia do marido ou até de um segundo casamento. Portanto, esta mulher está “viva” e encara o futuro com planos e energia, o que eu questiono e a busca incessante por uma juventude que passou, com cobranças, sem duvida alguma. Vivemos uma era em que a imagem tem que ser perfeita, os cuidados tidos com a alma em uma época remota, hoje se voltaram ao corpo. Somos bombardeados o tempo inteiro com publicidades prometendo milagres, e quando uma mulher já está enfrentando os seus medos e angustias ligados ao envelhecimento, isto fica ainda mais difícil, e a torna mais vulnerável. (MARJORIE, psicóloga de imagens, 27 anos).
De acordo com o levantamento inicial – composto por anúncios publicitários, capas, matérias e/ou editorias veiculados em revistas femininas, no ano de 2014 – reflexão bibliográfica feita até este momento, podemos confirmar a hipótese central desse estudo: o imaginário alimentar feminino se constrói pela influência familiar e se reconstrói pela mídia. E de acordo com o fazer feminino e o saber midiático, surgem novos hábitos alimentares e novas práticas de consumo gastronômico.
Somos democraticamente iguais e o corpo é a mídia primária principal que transmite esta informação padronizada, transformando-a em cultura. O poder da comunicação e da mercadoria produzida normatiza a conduta corporal dos indivíduos e disciplinariza novas práticas de consumo, em nome da realização e da independência dos corpos. Nunca a liberdade pessoal esteve tão vigiada pela sociedade, com tantos espelhos, câmeras, celulares e outras formas de captação ou refração de imagens.

Do mesmo modo que o corpo, a imagem é uma ficção cultural, uma realidade revelada. As imagens do corpo não são representações antropológicas da realidade, e sim suas “figurações” (Barthes, 1975). Esse status da imagem pode permitir a comunicação com as culturas visíveis brasileiras ligadas ao corpo (aquilo que vemos dos corpos), não no que diz respeito à descrição superficial, mas como metáfora visual da cultura corporal considerada, uma imagem que revela apenas uma faceta da realidade. (MALYSSE, 2002, p. 90-91).


Enfim, esse texto não se propõe a esgotar o assunto sobre o imaginário feminino seus os atuais hábitos alimentares, pelo contrário, sua intenção é abrir caminhos para aprofundamento e novas abordagens sobre o tema.

No entanto todo mundo faz dieta de vez em quando, e a maioria de nós é especialista na autoilusão que, sejamos honestos, é necessária... O processo é como estar apaixonado e provoca os mesmos sentimentos: uma mistura complexa de sensações físicas e torturas mentais do querer (FOXCROFT, 2013.p.18)



Referência
CASTRO, Ana Lucia de. Culto ao corpo e sociedade – Mídias, estilos de vida e cultura de consumo. 2ª. edição. São Paulo: Annablume, 2007.

COUPRY, François. O elogio do gordo em mundo sem consistência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

FOXCROFT, Louise. A Tirania das Dietas. Dois mil anos de luta contra o peso. São Paulo: Três Estrelas: 2013.

GOLDENBERG, Mirian Coroas. Corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade. São Paulo: Record, 2008.

________. Nem toda brasileira é bunda: corpo envelhecimento na cultura contemporânea. In: CASOTTI, Letícia; SUAREZ, Maribel; CAMPOS, Roberta D. O tempo da Beleza. Consumo e comportamento feminino. Novos Olhares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

________. Corpos, envelhecimento e felicidade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2011.

_________. A Bela Velhice. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2013.

JEAUDY, Henri-Pierre. O corpo como objeto de arte. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.

MALYSSE, Stéphane. Em busca dos (H) alteres-ego: Olhares franceses nos bastidores da corpolatria carioca. In: GOLDENBERG, Miriam (Org.). Nu e Vestido - Dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002

NUNES Aparecida M. (org.) Clarice Lispector. Só para mulheres. Rio de Janeiro, Rocco, 2008.




1 Trabalho apresentado no V Ecom – 2014

2 Pós-Doutoranda em Comunicação no PPGCOM – ECA/USP; Doutora e Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; Professora Pesquisadora Integral da Universidade Presbiteriana Mackenzie; Membro do Grupo de Pesquisas Comunicação, discurso e poéticas do consumo do PPGCOM da ESPM;Pesquisadora do CAEPM; Professora de Comunicação da ESPM; e-mail: sfelerico@espm.br; sfelerico@gmail.com


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